Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O que é envelhecer? É ir testemunhando o fim...



       Envelhecer é ir  diminuindo a hipótese de reencontros...

      Cada vez mais improváveis.

      Cada vez mais raros... 

   

 
   "O problema ... é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você  ele apaga-se pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo, gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores." 

 



 “Humanos exemplares” começa com um despertar. Em uma manhã qualquer, uma mulher abre os olhos, se levanta da cama, passa um café, mistura com leite e mergulha na xícara um pedaço de pão com manteiga. A cena é cotidiana, corriqueira, o tipo de sequência que quase todos nós realizamos diariamente sem nos atentarmos — ainda mais para quem já passou dos 100 anos, como Natália, essa mulher que acorda e toma café da manhã com tanta tranquilidade. A partir daí o livro acompanha os dias de Natália, que mora sozinha em um apartamento e se alterna entre realizar as tarefas do presente e relembrar o passado. Às vezes ela conversa com a filha que mora longe e relembra a história que a levou para o que a autora chama de “oceano superior”. Outras vezes seu olhar recai sobre um retrato do marido já falecido e desenrola-se a história de como eles se conheceram, de como trabalharam como professores durante a ditadura militar e de como ele finalmente foi embora desse mundo.


 
O livro Humanos Exemplares, de Juliana Leite, não tem a fórmula mais fácil, pelo menos ao início, tendo em conta que se trata de uma espécie de monólogo da velha Natalia, pontuado por muitos diálogos e narrações que ocupam todo um álbum de família, de amigos e de conhecidos. Mais do que um livro sobre a velhice e sobre a solidão, talvez até sobre a morte (nossa e a dos outros), ou simplesmente o que esperamos dela, a narrativa ajuda-nos a compreender o que é a vida.

O que é ser-se velho? Como é encarada a velhice? Como é a vida de um casal? O que muda com a maternidade e a paternidade? O que é ser professor? O que é  viver em ditadura? O que é descobrir a homossexualidade? O que ser filha? O que é ser mãe? O que é ser amiga? O que é ser mulher? O que é ser humano? São tantas as questões e as reflexões que o livro deixa em nós, que só podemos dizer que saímos da sua leitura melhores humanos. Só não sei se exemplares humanos ou humanos exemplares.
   Vanda Balão

    Romance onde a crueza da linguagem e a franqueza na exposição da vida emocional das personagens são marcas que nunca se dissipam. Natalia é “a Velha”, termo que aqui se utiliza sem qualquer sentido pejorativo, assumindo que talvez devêssemos perder o pudor de usar as palavras. O livro dedica-se também a esse exercício, o de encontrar as palavras certas, fugindo de moralismos que acabam por deturpar sentidos. 

     A Velha é velha, tem 100 anos, vive sozinha no seu apartamento após ter enviuvado e de a filha ter ido morar para o estrangeiro, sobretudo depois de uma vida intensa e rodeada de amigos — entretanto mortos. Esse peso tremendo é constante em toda a narrativa e trabalhado de modo simultaneamente honesto (até ao limite, às vezes para lá dele) e agradecido... 

     Não se faz aqui a apologia das maravilhas sapienciais da velhice, como se não houvesse dores — físicas, emocionais —, esquecimentos, filtros que se perdem. As dores estão lá, bem acompanhadas pela noção de que o final se aproxima, e é a crueza desse contraste que estrutura a obra, porque ao lado dessa escatologia, marcada por algum humor, está a consciência de uma vida rica em afetos, histórias, memórias. “Humanos Exemplares” constata-o numa escrita límpida, cruzando recuos e avanços temporais com a consciência de que a memória é coisa sempre construída, e avança para o território do fim, o tempo em que ainda não acabámos, mas estamos lá perto. É aí que se constrói o mecanismo e a temeridade assinalável deste texto. Sara Figueiredo Costa

Envelhecer é receber um livro diferente, oferecido por um jovem amigo, e ...ter vontade de chorar.

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