A Velha é velha, tem 100 anos, vive sozinha no seu apartamento após ter enviuvado e de a filha ter ido morar para o estrangeiro, sobretudo depois de uma vida intensa e rodeada de amigos — entretanto mortos. Esse peso tremendo é constante em toda a narrativa e trabalhado de modo simultaneamente honesto (até ao limite, às vezes para lá dele) e agradecido: “o problema de viver demais, de habitar o planeta por mais tempo do que o aconselhável, é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você ele apaga-se pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo e gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores”. Não se faz aqui a apologia das maravilhas sapienciais da velhice, como se não houvesse dores — físicas, emocionais —, esquecimentos, filtros que se perdem. As dores estão lá, bem acompanhadas pela noção de que o final se aproxima, e é a crueza desse contraste que estrutura a obra, porque ao lado dessa escatologia, marcada por algum humor, está a consciência de uma vida rica em afetos, histórias, memórias. “Humanos Exemplares” constata-o numa escrita límpida, cruzando recuos e avanços temporais com a consciência de que a memória é coisa sempre construída, e avança para o território do fim, o tempo em que ainda não acabámos, mas estamos lá perto. É aí que se constrói o mecanismo e a temeridade assinalável deste texto. Sara Figueiredo Costa
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O que é envelhecer? É testemunhar o fim...
“Humanos exemplares” começa com um despertar. Em uma manhã qualquer, uma mulher abre os olhos, se levanta da cama, passa um café, mistura com leite e mergulha na xícara um pedaço de pão com manteiga. A cena é cotidiana, corriqueira, o tipo de sequência que quase todos nós realizamos diariamente sem nos atentarmos — ainda mais para quem já passou dos 100 anos, como Natália, essa mulher que acorda e toma café da manhã com tanta tranquilidade.
A partir daí o livro acompanha os dias de Natália, que mora sozinha em um apartamento e se alterna entre realizar as tarefas do presente e relembrar o passado. Às vezes ela conversa com a filha que mora longe e relembra a história que a levou para o que a autora chama de “oceano superior”. Outras vezes seu olhar recai sobre um retrato do marido já falecido e desenrola-se a história de como eles se conheceram, de como trabalharam como professores durante a ditadura militar e de como ele finalmente foi embora desse mundo.
Romance onde a crueza da linguagem e a franqueza na exposição da vida emocional das personagens são marcas que nunca se dissipam. Natalia é “a Velha”, termo que aqui se utiliza sem qualquer sentido pejorativo, assumindo que talvez devêssemos perder o pudor de usar as palavras. O livro dedica-se também a esse exercício, o de encontrar as palavras certas, fugindo de moralismos que acabam por deturpar sentidos.
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