A Velha é velha, tem 100 anos, vive sozinha no seu apartamento após ter enviuvado e de a filha ter ido morar para o estrangeiro, sobretudo depois de uma vida intensa e rodeada de amigos — entretanto mortos. Esse peso tremendo é constante em toda a narrativa e trabalhado de modo simultaneamente honesto (até ao limite, às vezes para lá dele) e agradecido: “o problema de viver demais, de habitar o planeta por mais tempo do que o aconselhável, é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você ele apaga-se pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo e gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores”. Não se faz aqui a apologia das maravilhas sapienciais da velhice, como se não houvesse dores — físicas, emocionais —, esquecimentos, filtros que se perdem. As dores estão lá, bem acompanhadas pela noção de que o final se aproxima, e é a crueza desse contraste que estrutura a obra, porque ao lado dessa escatologia, marcada por algum humor, está a consciência de uma vida rica em afetos, histórias, memórias. “Humanos Exemplares” constata-o numa escrita límpida, cruzando recuos e avanços temporais com a consciência de que a memória é coisa sempre construída, e avança para o território do fim, o tempo em que ainda não acabámos, mas estamos lá perto. É aí que se constrói o mecanismo e a temeridade assinalável deste texto. Sara Figueiredo Costa
domingo, 19 de outubro de 2025
Mundividências...
Jacaranda do escritor franco-ruandês Gaël Faye, que aos 13 anos fugiu do seu país natal rumo a França, acompanhado pela irmã, é o vencedor do Choix Goncourt du Portugal 2024. Retrata o Ruanda, um país devastado após o genocídio dos tútsis. O romance devolve a palavra aos desaparecidos, aos jovens que escaparão à solidão e encontrarão paz junto às margens deslumbrantes do lago Kivu. História de um país que tenta renovar-se através do diálogo e do perdão...
"Escrita carregada de prosa poética que encanta e que nos faz olhar para um tema tão duro, como o genocídio no Ruanda, de uma forma serena. Aprendemos sobre a história deste país e dos seus habitantes, mas aprendemos sobretudo sobre a vida e a nossa (in)capacidade de olhar o Outro e, consequentemente, de olhar o Eu. Milan, o protagonista, transporta-nos para lugares e oferece-nos informações, como as que encontramos acerca dos julgamentos dos genocidas, vizinhos dos assassinados ou mutilados, como Claude. Mas acima de tudo, a personagem leva-nos através de um tempo cronológico e histórico, que está mais próximo de nós do que seria expetável, fazendo-nos refletir sobre aquela realidade, mas igualmente sobre o presente e as atrocidades que se continuam a cometer. Mais uma vez, o Jacarandá, o amigo de Stella, é uma árvore. Esta é o símbolo da vida, da passagem do tempo, da tradição que se transforma em modernidade. Por isso, nem ela é poupada, deixando-nos, tal como a sua amiga, com uma sensação de vazio." Vanda Balão
"Rapper, cantor, autor, compositor e intérprete, Gaël Faye escreveu um romance "que conta, com o olhar de quatro gerações, a história terrível do Ruanda, um país que tenta, apesar de tudo, o diálogo e o perdão", como uma árvore - no caso o jacarandá - "que se ergue entre a escuridão e a luz", celebrando a humanidade, descreve o júri do prémio." Público
"Rapper, cantor, autor, compositor e intérprete, Gaël Faye escreveu um romance "que conta, com o olhar de quatro gerações, a história terrível do Ruanda, um país que tenta, apesar de tudo, o diálogo e o perdão", como uma árvore - no caso o jacarandá - "que se ergue entre a escuridão e a luz", celebrando a humanidade, descreve o júri do prémio." Público
domingo, 14 de setembro de 2025
Ausências...
O que dói...;é não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos. O que dói...é o teu nome que ficou como mendigo a descoberto O que dói...é tudo mais e mais aquilo que desteço ao tecer para ti novos regressos. Daniel Faria
«Há tragédias e há comédias, não é verdade? E são frequentemente semelhantes, um pouco como os homens e as mulheres. Uma comédia depende de parar a história exactamente no momento certo.»
Evolução dos sentimentos de uma mulher quando, inexplicavelmente, o marido, ao fim de 30 anos, lhe pede uma “ Pausa”: desde a loucura , desejo de vingança, sofrimento silencioso, solidão, até conseguir refletir sobre a separação … Será que consegue perdoar, qual ele decide terminar a “Pausa”?
A certa altura depois de ele dizer a palavra "pausa", enlouqueci e fui para a um hospital.(...) o Dr P. diagnosticou-me um Transtrorno Psicótivo Breve, o que significavaque somos genuinamente malucos mas não por muito tempo.(...) A "Pausa" era francesa, com cabelos castanhos finos mas brilhantes... Era jovem, claro, vinte anos mais nova do que eu...
Como o título anuncia, é uma novela muito centrada no mundo feminino. A narradora, protagonista, propõe-nos, afinal, um diálogo entre mulheres em diferentes fases da vida…
domingo, 24 de agosto de 2025
Portas
Sinopse: "Magda, jovem escritora na Hungria comunista, até então impedida de publicar, é politicamente reabilitada pelo regime, alcançando, aos poucos, o merecido sucesso e reconhecimento social. Ao mudar-se para um apartamento maior, emprega Emerence, uma camponesa analfabeta, para a ajudar com as lides domésticas. Esta é uma figura enigmática, respeitada e quase temida pela vizinhança, sobre a qual exerce uma autoridade natural, embora ninguém conheça verdadeiramente o seu passado ou vida privada. A inesperada doença do marido de Magda reforçará a ligação entre as duas mulheres, a ponto de Emerence abrir a porta de sua casa a Magda, revelando-lhe os segredos de um passado traumático, ao mesmo tempo que precipitará um final trágico na sua relação."
É uma narrativa rebuscada e lenta, por vezes repetitiva, mas tem momentos estimulantes de prosa poética de uma enorme sensibilidade ….
É um romance complexo, profundo, intenso, cuja ação decorre num espaço restrito, quase claustrofóbico, Pessoalmente, cativou-me por ter identificado Emerence com três mulheres que conheci...
Como conciliar uma perceção purificada com uma atenção apropriada às relações humanas, às tarefas e aos deveres necessários, já para não falar de caridade e compaixão efetivas?
O título, um nome muito repetido ao longo do romance,
em diferentes contextos, remete para a porta
inexpugnável da casa de Emerence. Quando esta se abre- caixa
de Pandora? - desmorona-se o mundo de ambas as mulheres comprometendo a estranha e, por vezes inexplicável, amizade existente entre elas...( inexplicável ou incompreensível?)
A
Porta é uma metáfora das barreiras que levantamos, entre nós e o outro, que nunca abrimos...Isso é positivo ou negativo?
Autobiografia ficcionada que analisa a relação de dependência entre
duas mulheres, sem afinidades aparentes, na Budapeste dos anos 50... uma escritora e a sua empregada , uma mulher de temperamento absolutamente imprevisível que, de modo arrogante, despreza o trabalho intelectual.
O que Emerence odiava era o poder, não importa em que mãos estivesse,
se aparecesse algum homem capaz de resolver todos os problemas dos cinco
continentes, Emerence ficaria contra ele também, simplesmente porque seria o
vencedor. Para ela, todos tinham um denominador comum, deus, o escriturário, o
militante do partido, o rei, o executor, o secretário-geral da ONU, e, se
acontecia de ela manifestar a sua solidariedade a alguém em particular, a sua
compaixão era universal, não apenas a quem a merecia, mas a todos, mesmo aos
criminosos.
Debate imemorial entre contemplativos e ativos...
É pouco provável os contemplativos entregarem-se aos jogos de proxenetas, tornarem-se proxenetas ou bêbados; em regra, não pregam a intolerância nem fazem a guerra; não se veem na necessidade de roubar, de vigarizar o próximo ou de oprimir os pobres.
A espécie mental a que Blake pertencia é relativamente abundante... o visionário desprovido de talento talvez apreenda uma realidade interior não menos tremenda, bela e significativa do que o mundo contemplado por Blake, mas falta-lhe a capacidade para exprimir aquilo que viu.
A mescalina é completamente inócua e os seus efeitos dissipam-se ao fim de oito ou dez horas
Toda a nossa educação é predominantemente verbal e, portanto, mostra-se incapaz de cumprir a missão que lhe deveria caber. Em vez de transformar crianças em adultos plenamente desenvolvidos, produz estudantes de ciências, completamente alhheios à natureza...lança no mundo estudantes de humanidades que nada sabem acerca da natureza humana , a deles próprios ou a dos outros.(...) Para as pessoas mais educadas é quase impossível dedicar uma atenção genuína a tudo o que não sejam palavras e conceitos.(...) As humanidades não verbais, as artes de tomar consciência direta dos factos adquiridos da nossa existência, são quase completamente ignorados.(...) Além disso, este tema da educação das humanidades não-verbais não se encaixa em nenhum dos compartimentos predefinidos.
Opinião de António Ribeiro:
"Ouço falar deste livro desde que me lembro. Mas nunca tinha posto mãos à obra.
Tornou-se um clássico da contra-cultura norte americana da década de 1960, principalmente depois de Jim Morrison ter batizado os “The Doors” a partir do seu título.
E isso é uma injustiça que se lhe faz (ao livro). A única coisa que liga este livro a esse imaginário do “Verão do amor” é apenas o facto de ter como episódio inicial uma experiência com mescalina, o princípio activo existente no “peyotl”, uma raiz consumida pelos indígenas do México.
Aldous Huxley foi, desde muito jovem, um leitor atento dos místicos cristãos. As referências que ele vai citando não deixam dúvidas: o monge dominicano alemão Eckhart, o franciscano flamengo Ruysbroeck, e, finalmente, o carmelita S. João da Cruz, talvez a referência mais citada no livro. O homem que descreveu admiravelmente a angústia da “noite do espírito”. Todos estes autores se inscrevem na escola da mística designada por abstracta ou “apofática”, frequentemente perseguida pela Inquisição.
Huxley afirma que, na sua juventude, não gostava destes autores, que considerava uma espécie de “budistas ocultos”. Mas acabou por compreender que entre a mística cristã, budista, sufi (o misticismo islâmico) e outras existem analogias formais que são inegáveis.
A tese de base do livro é a de que o cérebro humano se destina unicamente a regular a nossa economia animal, e que o uso de ascese e meditação, ou em alternativa o uso de químicos, pode fazer descer as funções cerebrais a níveis mínimos, permitindo aos seus praticantes o acesso a um estado de consciência transcendente.
Em face da experiência que ele descreve, comparando com outras nas obras dos autores que Huxley refere e que eu, em tempos, também li, existem de facto analogias formais muito sólidas.
Ao contrário de Huxley, eu só li, nunca experimentei. É bom lembrar que estes autores deixam bem claro que a viagem ao universo interior pode ser uma experiência devastadora e irreversível.Até por isso é sempre bom deixar espaço à dúvida."
domingo, 10 de agosto de 2025
Quem são estas três mulheres , personagens do libreto feito por Agustina para esta ópera?
Cada uma destas mulheres revela o "seu principal": a espera, o sofrimento, o silêncio.
São as protagonistas de três romances de Agustina: Quina( "Sibila"); Fanny ("Fanny Owen"); Ema ( "Vale Abraão")
«Vamos pôr as nossas máscaras e voltar para o nosso lugar. Elas escondem que somos iguais aos homens e que temos direito ao reino deles. Mas como os iguais não se podem amar temos que usar estas máscaras de ferro toda a vida.»
Mas o o que é o principal?
Resposta de Agustina , numa carta enviada à sua filha:
« Aprendi no livro do Bambi a sabedoria da velha perdiz: o principal é resistir a levantar voo quando se ouvem os tiros.»
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