Envelhecer vai diminuindo a hipótese de reencontros...
Cada vez mais improváveis.
Cada vez mais raros...
Cada vez mais raros...
“Humanos exemplares” começa com um despertar. Em uma manhã qualquer, uma mulher abre os olhos, se levanta da cama, passa um café, mistura com leite e mergulha na xícara um pedaço de pão com manteiga. A cena é cotidiana, corriqueira, o tipo de sequência que quase todos nós realizamos diariamente sem nos atentarmos — ainda mais para quem já passou dos 100 anos, como Natália, essa mulher que acorda e toma café da manhã com tanta tranquilidade.
A partir daí o livro acompanha os dias de Natália, que mora sozinha em um apartamento e se alterna entre realizar as tarefas do presente e relembrar o passado. Às vezes ela conversa com a filha que mora longe e relembra a história que a levou para o que a autora chama de “oceano superior”. Outras vezes seu olhar recai sobre um retrato do marido já falecido e desenrola-se a história de como eles se conheceram, de como trabalharam como professores durante a ditadura militar e de como ele finalmente foi embora desse mundo.
Romance onde a crueza da linguagem e a franqueza na exposição da vida emocional das personagens são marcas que nunca se dissipam. Natalia é “a Velha”, termo que aqui se utiliza sem qualquer sentido pejorativo, assumindo que talvez devêssemos perder o pudor de usar as palavras. O livro dedica-se também a esse exercício, o de encontrar as palavras certas, fugindo de moralismos que acabam por deturpar sentidos.
A Velha é velha, tem 100 anos, vive sozinha no seu apartamento após ter enviuvado e de a filha ter ido morar para o estrangeiro, sobretudo depois de uma vida intensa e rodeada de amigos — entretanto mortos. Esse peso tremendo é constante em toda a narrativa e trabalhado de modo simultaneamente honesto (até ao limite, às vezes para lá dele) e agradecido: “o problema de viver demais, de habitar o planeta por mais tempo do que o aconselhável, é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você ele apaga-se pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo e gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores”. Não se faz aqui a apologia das maravilhas sapienciais da velhice, como se não houvesse dores — físicas, emocionais —, esquecimentos, filtros que se perdem. As dores estão lá, bem acompanhadas pela noção de que o final se aproxima, e é a crueza desse contraste que estrutura a obra, porque ao lado dessa escatologia, marcada por algum humor, está a consciência de uma vida rica em afetos, histórias, memórias. “Humanos Exemplares” constata-o numa escrita límpida, cruzando recuos e avanços temporais com a consciência de que a memória é coisa sempre construída, e avança para o território do fim, o tempo em que ainda não acabámos, mas estamos lá perto. É aí que se constrói o mecanismo e a temeridade assinalável deste texto. Sara Figueiredo Costa



































