Um despertador toca: um jovem de 25 anos permanece deitado, indiferente ao exame que o espera nesse dia. A decisão estava tomada: não fazer nada, alhear-se completamento do «banho de obrigações sem fim, do melífluo terror que pretende controlar todos os dias, todas as horas, da diminuta existência».
Impossível não pensar em Bartleby e Oblomov...
Quando surge esta necessidade de esvaziar completamente a existência, é inevitável perguntar: e agora?
Aquilo que me ligou à Sophia de Mello Breyner Andresen não foi a amizade, que resulta dum contrato de ideias ou duma compatibilidade histórica; quer dizer, do facto de sermos contemporâneas, sujeitas a uma mesma disciplina moral e cultural. Não era isso. Nós tínhamos a capacidade de nos impressionarmos. Como as crianças têm.
Tomás Mann, a dado momento da sua vida, ao ver uma criança a repetir sempre a mesma brincadeira, pôs-se a reflectir sobre isso que lhe parecia extraordinário. Era assim connosco. Tomávamos a sério coisas que no fundo nos divertiam. A Sophia e eu não sabíamos o que era a solidão. O concreto era a aventura, e a poesia era a sua forma de ser concreta. Penso nela como poeta grande que é na fuga, no sentido musical, que foi a sua vida. Há uma metáfora nas Metamorfoses de Ovídio que se adapta à Sophia. A Dafne agrada-lhe a solidão e percorre feliz o bosque sem caminhos. As promessas do mundo e a claridade das coisas mortais que deslumbram a quem as deixa aproximar, seguem as leves pegadas de Dafne. Ela, de importunada, pede ao rio que a salve, e logo em loureiro ela se transforma. Seus braços brancos erguem-se para o céu, os pés entram na terra mudados em raízes. A glória a espera nessa metamorfose e para sempre, o verde loureiro há-de coroar os poetas, sendo a sua viçosa folha símbolo de imortalidade. Assim a solidão deixou de ter sentido. Na rima desabrocha a companhia. No coração do verso tem resposta.
É assim que vemos Sophia agora; com coroa de louros nos claros cabelos, nobre e sozinha, mas não solitária.
Mas vejamos como era em pessoa, como eu a vi.
Falando-lhe eu um dia do Marquês de Pombal e da atitude pessoal que teve no processo dos Távoras, simplesmente não me quis ouvir. Não gostava de discutir as coisas que não eram da sua linhagem intelectual.
Ela dizia que há sempre um pouco de vingança na boa conduta de alguém. Debatíamos isto, ela a tomar chá e a fumar. Eu replicava que não há nada pior do que o fastio de ser sensato. Era assim que nos entendíamos.
Mas raramente conversávamos. Às vezes pedia-me conselhos e dizia-me: “Não quero bons conselhos, desses estou eu até aos olhos. Antes aqueles conselhos que se esquecem depressa como o vento que nos desarruma o cabelo”.
Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Dava muito trabalho defendermo-nos do ciúme de quem disputava a amizade dela. A outra amizade.
Uma coisa era certa. Acabávamos sempre por estar de acordo sobre o Marquês: “Um chato”.
Era assim connosco. Era bom.
Janeiro - 14 - 2005 - Agustina Bessa-Luís
"Assisti em directo aos últimos, pungentes e quase dramáticos, minutos dos dez anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa — ou, mais correctamente, aos primeiros minutos da sua anunciada travessia do “deserto eterno”. Depois de descer a escadaria da Assembleia da República ainda institucionalmente escoltado, depois de olhar à esquerda e à direita, procurando os últimos abraços, os últimos beijos, as últimas despedidas, Marcelo, já despido da aura do cargo, dirigiu-se para o seu carro particular, cujo volante agora lhe cabia. Poderia ter estacionado previamente o carro nas traseiras da Assembleia ou mesmo em frente à escadaria. Mas isso seria quase uma chegada e saída clandestinas. Marcelo optou antes por deixá-lo bem longe, para que à chegada pudesse arrastar os street journalists atrás de si, mais uma vez embasbacando-os com os seus gestos “fora da caixa”: entrou num supermercado, numa papelaria e num antiquário, seguramente para compras inadiáveis, enquanto aproveitava e adiava até ao fim o inadiável. E no final, disputando até ao limite as atenções mediáticas com o novo Presidente num ecrã dividido ao meio entre os dois, Marcelo empreendeu a subida da íngreme Calçada da Estrela, arrastando atrás de si e de bofes de fora um miniesquadrão dos tais street journalists, de ora avante órfãos de sujeito e de objecto. Chapeau, Marcelo, só não foi de mestre porque, com dez anos em cima, de tão previsível só conseguiu, e esforçadamente, colher de surpresa o tal triste jornalismo de rua! Ali, naqueles instantes, vi espelhadas as duas principais marcas do consulado de Marcelo Rebelo de Sousa: a boa, a sua intimidade com a rua e as pessoas, e a má, o seu excesso de protagonismo, o seu quase desespero pelas atenções alheias. Mas então, meditando no destino daquele homem que saía do poder tal como tinha entrado dez anos antes — sozinho e a pé —, confesso que me impressionou a sua solidão: não havia mesmo ninguém — um familiar, um amigo, um colaborador — que fosse recolher e acompanhar o homem que passara uma década no topo do poder? Ou aquilo seria uma espécie da autoflagelação pública a que ele, católico militante e coerente, se entregava voluntariamente?"
E agora?
E agora?
Poema XLVIII
Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide, de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
E agora?






































