Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 6 de março de 2026

What?

What have we found? The same old fears. Wish you were here... Penso-me no amor, e sonho-me fora dele - Hazlitt

Uma novela sentimental em que o amor não é visto nem vivido, mas apenas intuído e relembrado, como se a sua essência fosse a melancolia e o mistério...Um novela em que um sonho real se confunde, por vezes, com a própria realidade...
 

Contudo, o que sonhei esta manhã, quando já era de dia, é uma coisa que de facto aconteceu e que me aconteceu quando era um pouco mais jovem, ou menos velho do que agora, embora ainda não tenha acabado. Há quatro anos, viajei, por causa de meu trabalho (sou cantor) e imediatamente antes de ultrapassar miraculosamente o medo que tenho de andar de avião, inúmeras vezes de comboio num período de tempo bastante curto, umas seis semanas no total. Estas deslocações breves e contínuas levaram-me à parte do nosso continente, e foi na penúltima série (de Edimburgo a Londres, de Londres a Paris e de Paris a Madrid num dia e numa noite) que vi pela primeira vez os três rostos sonhados esta manhã, que são também os que ocuparam parte da minha imaginação, muito das minhas recordações e da minha vida inteira (respectivamente) desde essa altura até agora, ou durante quatro anos”. 

 “E esta noite sonhei o que me aconteceu há quatro anos na realidade, se é que este termo serve de algo ou pode ser contraposto a nada. É claro que houve diferenças, pois embora os factos e a minha visão da história correspondam, sonhei o acontecido por outra ordem, com outro tempo e outras cortes ou divisões do tempo, concentradamente, seletivamente, e – isto é decisivo e incongruente – sabendo já o que se passara, conhecendo, por exemplo, o nome, o caráter e o comportamento de Dato antes de que no meu sonho tivesse ocorrido o nosso primeiro encontro.

E esta noite sonhei o que me aconteceu há quatro anos na realidade, se é que este termo serve de algo ou pode ser contraposto a nada. É claro que houve diferenças, pois embora os factos e a minha visão da história correspondam, sonhei o acontecido por outra ordem, com outro tempo e outras cortes ou divisões do tempo, concentradamente, seletivamente, e – isto é decisivo e incongruente – sabendo já o que se passara, conhecendo, por exemplo, o nome, o caráter e o comportamento de Dato antes de que no meu sonho tivesse ocorrido o nosso primeiro encontro.


    Para felicidade da maioria dos cantores de ópera, um hotel de luxo é sempre parecido com outro hotel, e uma sala de gravação ou ensaio com outra e, por fim, o público com outro que faz o mesmo...Mas eu não sou como a maioria dos cantores. Depois das longas , insatisfatórias sessões de ensaio o que mais me desagrada é a companhia dos colegas de trabalho e dos músicos da orquestra......( primeiro violino e maestro incluídos), não só porque permanecer com eles supõe um inconsciente prolongamento do trabalho....

Com eles só se pode falar de trabalho ou do mundo que os rodeia(...).Ou se fala tecnicamente, e isso é um trabalho fatigante e árido, ou se fala sentimentalmente, e isso é uma tagarelice frustrante e estúpida.
         
 
Tornámo-nos um trio inseparável sem que o princípio da inseparabilidade ...fosse de algum modo visível ou enunciável, sem que a profunda atração que Natalia exercia sobre mim e eu sobre ela pudesse aspirar a sê-lo.


O meu carácter  consistia em ceder, em boa medida consistia e ainda consiste. Só soube negar-me às coisas em pensamento, e ultimamente, nem sequer penso. Por isso talvez seja melhor estar sozinho, para que não exista a possibilidade de não me negar diante de ninguém nem de não lutar com ninguém.

Como é possível aniquilar um homem que mal se conhece?

O que dá origem à nostalgia? As coisas mal acabadas e o que não existe.

A  vida de Natalia com o marido só pode admitir perpetuação ou cancelamento violento.

Tu és a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, e porque és a minha vida não quero ter a meu lado outra pessoa que não sejas tu quando morrer. 

Epílogo do autor: "uma história de amor na qual o amor não se vê nem se vive, mas que se anuncia e recorda."

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Luto...

" Não é um livro, mas uma reflexão sobre o luto e sobretudo sobre o meu luto por Javier.(...) Trata-se de uma autoedição, cujas receitas irão para a fundação com o nome de Javier que os meus filhos e eu consituímos"

Nota prévia da autora, mulher de Javier Marías


Começo
- Primeiro chega a morte. Depois o luto. A desolação infinita. 
Dor - Não esperava que viesse a ser fácil, nisso não me enganei nem por um minuto, mas tão-pouco que a dor viesse a ser tão forte. Que viesse a embargar-me por completo a ponto de quase me impedir de pensar. 
Robótica - Li oi ouvi algures que é bom mover as mãos para que o cérebro não continue a alhear-se-
Identidade e fantasma -
Fases- Cérebro -
Protagonismo -
Desaparecimento
Mausoléus e múmias -
Noite Saudade -
Amonas -
Consolação -
Travessia-


O luto , esse percurso tão tortuoso, perspetivado em diferentes fases: desde a dor, à saudade, a um desejo quase pueril de crença na eternidade, a algo que me leve a crer que essa eternidade que Javier dizia conceber só comigo exista e que ele nela esteja pacientemente á minha espera. Que me faça sonhar com o que não pode ser.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

A palavra como ponto de encontro...

Eu preciso te falar, Te encontrar de qualquer jeito Pra sentar e conversar, Depois andar de encontro ao vento...

Pela palavra, a mulher 


A Mulher pela palavra se apaixona
Pela palavra 
... 

A Mulher pela palavra se apaixona 
Pela palavra
Escrita ou falada. 
... 

A Mulher pela palavra se apaixona.
Pela palavra. E quase 
Por mais nada. 

 Mas o quase é importante.

Desde a primeira infância, quando deixou de ser bebé, Sonechka entregou-se à leitura...
Durante vinte anos, dos sete aos vinte e sete, Sonechka leu sem parar. Quando lia entrava num estado de transe , que terminava com a última página do livro.A sua sensibilidade para a palavra escrita era tão grande que as personagens inventadas estavam em pé de igualdade com as pessoas de carne e osso, que lhe eram próximas.... 
Para Sonechka, a leitura tornara-se uma forma ligeira de loucura , que não a abandonava nem durante o sono: dormia como se estivesse a ler os seus sonhos. Formou-se na Escola Técnica dos Bibliotecários e começou a trabalhar no depósito subterrâneo de uma velha biblioteca...
Depois de trabalhar vários anos como freira no depósito de livros, Sonechka rendeu-se à persuasão da sua chefe , também ela uma leitora obsessiva, e decidiu ingressar na universidade... 
  Começou a guerra...rapidamente se instalou na cave da biblioteca, a única residência segura...
Robert Viktorovich entrou na biblioteca no dia em que Sonechka estava a substituir o responsável da secção de entrega de livros, que tinha adoecido.... 
Sonechka escreveu pela primeira vez o nome do leitor, até então desconhecido mas que, daí exactamente a duas semanas, se iria tornar seu. ... 
À semelhança de um aguaceiro vindo do céu serenamente límpido, foi de súbito atingido pela sensação de que o seu destino se concretizava: naquele momento compreendeu que tinha diante de si a sua esposa. ... 
Era amante e consumidor de mulheres, alimentava-se muito dessa fonte inesgotável, mas mantinha-se vigilante para presever a sua independência, receando transformar-se numa presa do apelo feminino , que é taão paradoxalmente generoso para aqueles que recebem e destrutivamente cruel para aqueles que dão.

Anos depois...

A sua saúde piora. Aparentemente, contraiu a doença de Parkinson: o livro treme-lhe nas mãos.

Theobald cresceu...um pouco como o verdadeiro peso dos livros, que as balanças são incapazes de medir... Todos os dias Bluma visitava a livraria do tio de Theobald, sentando-se a ler , folheando livros... tratando-os como se fossem recém-nascidos, tanto na forma cuidadosa de os manusear como no amor que lhes devotava... 

Theobald passou assim a ler assiduamente, ainda que apenas lesse os livros já manuseados por Bluma... O propósito de Theobald não era tanto uma proximidade poética com Bluma, mas uma tentativa bem arquitectada de sedução... 

  Dedicada às artes e à literatura, Bluma falava como quem verseja...

Theobald Thomas tinha um enorme fascínio por reflexos de todo e qualquer tipo... Era a efemeridade da representação que o emocionava... O reflexo, intangível, era uma imitação da verdade... 

  A relação de T com B era agora de grande proximidade. ... Noites de versos em uníssono, tardes de leituras conjuntas, corpos que não se entranhavam fisicamente, mas que substituíam essa possibilidade por palavras, em vez de beijos, um entardecer partilhado em silêncio, em vez de carícias, um poema sussurrado em conjunto... 

  Theobald era tímido e amava Bluma demasiado para estar tranquilo perto dela, haveria sempre de tremer ao aproximar-se...

Somos para lá das relações que vamos tendo, porque sobrevivemos a elas mantemos uma ponte aberta entre nós...

Telefonar sem qualquer motivo é sinal de amor. Quando há motivo, até as Finanças nos ligam.

Entre os dois existia um silêncio especial( passavam tempo juntos sem dizer uma palavra), o silêncio que prova a amizade ou o amor, o silêncio natural, ... A perfeição de uma relação pode ser demonstrada pelo modo como lidamos com o silêncio. 

 B e T passavam também muito tempo de mãos dadas. As mãos dadas são a possibilidade anatómica de encaixar a amizade. Entrelaçar os dedos é a manifestação física de um estado anímico, que torna visível o amor.... os amantes que se conhecem nas pontas dos dedos antes de o fazerem na cama, os amigos que se confortam ou que simplesmente passeiam, todos eles, de mão dadas.

Dizem que o amor é irracional, mas acontece muitas vezes que o melhor amor, o mais sustentado, é também arquitectado pela razão ou dela nasce, tendo assim um sentido lógico perfeitamente delineado...Há de todos os tipos, claro, mas a chegar até ele através do pensamento é mais uma forma de o conquistar...

T haveria de ser a peça que faltava a B, o verso que faltava dizer em uníssono...A vida de ambos pacificara-se e convergia. Encostavam olhares, encostavam as mãos ao arrumar os livros, citavam poetas, por vezes em uníssono, . Era uma boa explicação do amor, essa coincidência dos versos que liam. Descreviam-se um ao outro pela forma como as palavras saíam das suas bocas, simultâneas e idênticas. Esculpiam-se mutuamente, tendo por ferramenta a poesia. 

  - Sempre te amei, Theo, muitíssimo, mas eras alguém muito próximo, e a proximidade destrói o erotismo, é a diferença entre pantufas e saltos altos. Tu sempre estiveste ao alcance do meu desejo, isso é aborrecido, não é desafiante.

Deus é a concretização dos"ses". 

  Parecia-lhe que amava mais B quando ela não estava, como se a sua presença diluísse o amor e o tornasse ligeiramente aguado, enquanto a ausência dela o alimentava, impregnando T Thomas de uma melancolia ao mesmo tempo doce e lúgubre. 

  B sentia que lhe tinham arrancado pedaços de corpo, que lhe faltavam peças, que já não tinha todos os ossos nem todos os músculos nem todas as ideias, emoções ou sentimentos. ... Com a testa encostada ao vidro, a sua esperança foi-se subtilizando , dando lugar a um desespero silencioso que se confundia com apatia. ...
 Essa fragilidade do amor, essa incapacidade de vencer uma parede não correspondia à definição elevada que se lê na poesia. 
 "Visto-me", escreveu ela nas cartas que haveria de deitar para o lixo, "como se fosse um defunto a entrar num caixão". 

  A minha especialidade é ser medíocre. ... A sua silhueta permanece na parede da minha alma, e se me perguntarem o que é a vida depois da morte, ou a separação física, que vai dar no mesmo, respondo que é isso: a silhueta que deixamos nas paredes da alma de quem nos ama. 

  T não reparou que aquele banco onde ambos se haviam sentado a falar de livros e finais felizes fora precisamente o mesmo em que escavara com o canivete de cabo de madrepérola, anos antes, o seu amor por B. 

  O coração é um esconderijo de tempo- disse o tio- , como aquelas arrecadações, armazéns, garagens, onde depositamos a tralha dos dias, o que passou e já não se pode usar, a bicicleta enferrujada, a infância partida,

sexta-feira, 12 de março de 2021

Meninas...

 Lolita...
«Quase quarenta anos depois, este romance tão artificial criou uma nova palavra internacional ("lolita"), inventou uma América — a dos motéis e autoestradas — de que se nutre ainda boa parte da narrativa americana contemporânea, é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura deste século e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que me diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li." Javier Marías


Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.













 Esta menina ...


Sempre , desde muito pequena, teve dúvidas impróprias de "uma menina da sua idade": "por que motivo dois irmãos não podem namorar? " Diziam que, quando crescesse, perceberia o que era o incesto. Cresceu, percebeu,  mas nunca aceitou. Tinha 12 ou 13 anos a primeira vez que achou que os adultos confundiam amar, com procriar e casar. Não o terá dito assim, mas defendeu esta teoria numa redação e o professor de português, diretor do colégio, chamou-a e prometeu que não dizia nada ao  papá daquelas suas ideias, para não  o incomodar . "Esta menina, esta menina..."

(Pobre senhor diretor, o único homem num colégio feminino tipicamente salazarista. O menino pobre da Beira a quem uns senhores de Coimbra pagaram os estudos e que casou "bem". Eu sei, eu sempre soube que tu não casaste "bem", tu nunca gostaste da tua mulher: ela deu-te dois filhos e um colégio "fino", tornou-te "senhor diretor" , mas tu tinhas uma paixão que nós descobrimos...Recordo-te com saudade, chorei muito no dia em que morreste e julgo que nunca soube teu nome: eras só o senhor diretor, marido da doutora Lia, professora de francês, e cunhado da doutora Raquel, professora de matemática, o teu amor secreto... A doutora Raquel é que era a diretora oficial do colégio, pois um homem não poderia exercer esse cargo, mas tu sempre foste, para nós, o senhor diretor. Outra pergunta que te fiz, julgo que ainda na primária: "se o senhor diretor é o nosso diretor por que motivo não o pode ser?". "Esta menina, esta menina...". Um dia, acho que no quarto ano do liceu, fiz-te uns versos numa aula. Estava tão alheada que não reparei que tu te tinhas aproximado e me tiraste a folha. Se não morri de vergonha nesse dia, já não morro: fiquei corada, corada, 80 olhos cravados em mim - a nossa turma tinha 40 alunas- humilhada, a tremer, não conseguia dizer uma palavra, só me apeteceu morrer. Tu, serenamente- tu eras um homem bom, muito bom, que se fingia austero por obrigação - dobraste a folha e recomeçaste a aula " Ai, esta menina, esta menina..."). A história do senhor diretor foi para  ela uma confirmação de que casar e procriar rimam com amar, mas só porque são verbos de tema em -a, primeira conjugação. Tu gostavas da doutora Raquel, a tua namorada, mas ela era estéril e o pai  não permitiu o casamento e, tal como no soneto de Camões, em vez de Raquel te dava Lia. Tu aceitaste: como é que o menino da Beira poderia resistir ao Colégio ...?. Também no quarto ano foi com a Maria fumar para a sala da reza e esconderam-se debaixo do manto da Nossa Senhora. A Dona Aldina, uma espécie de governante, uma solteirona desinteressante, beata, mas que gostava das suas meninas, passa , vê fumo a sair e desata a gritar, histérica, a benzer-se" Ai, que a Nossa Senhor está a arder". A nossa senhora não ardeu, mas para mim é que foi um inferno: a Maria conseguiu fugir, eu, que sempre fui trôpega, fiquei retida e, quando o senhor diretor chegou, eu e a prova do meu crime ali estávamos, indefesas. " Ai, esta menina, desta vez tenho de chamar o seu paizinho, uma menina a fumar!!" "Mas, senhor diretor, se eu fosse rapaz era diferente? Porquê, senhor diretor? Por que motivo há um mal para as meninas que não é mal para os rapazes, porquê, senhor diretor??" "Esta menina, esta menina". Uns tempos mais tarde, a menina ouviu dizer que o ator X era “paneleiro” (um termo grosseiro, machista que ainda hoje detesta). Perguntou ao pai o que queria dizer, mas  não teve resposta satisfatória. Resolveu, na aula de português, esclarecer-se   Senhor diretor, o que é um “paneleiro”? Pobre senhor diretor, como hoje te entendo, desta vez foste tu a corar e ficaste mudo, visivelmente nervoso. As mais crescidas da turma que sabiam  o que  era riam aflitas, eu , protegida por uma ingenuidade autêntica, insistia na pergunta, até que o senhor diretor respondeu” é um homem que gosta de outro homem”. Eu, muito aliviada : E qual é o problema, senhor diretor, os homens não se devem amar uns aos outros?Mas onde é que a menina vai buscar estas ideias? Ai, esta menina, esta menina…”. Como o assunto era impróprio, o senhor diretor deu por encerrada a conversa e encaminhou-me para a professora de moral (Na época, não havia psicólogas e, se calhar, foi a minha sorte…) 

A conversa com a professora de Moral não correu muito bem porque, quando , finalmente, percebeu o que era um” paneleiro”  continuou a não ver onde é que estava o problema Senhora, professora,  se um homem amar outro homem como a senhora professora ama o seu marido, isso tem mal? E, desta vez, oralmente, reafirmei a minha teoria: Dois homens não se podem casar (tal hipótese, na época, nem se colocava.), não podem ter filhos, mas podem-se amar, não podem, senhora professora?
A professora de Moral fica em estado de choque, meio assustada meio fascinada pela simplicidade com que eu teorizava sobre assunto tão indecoroso, incapaz de falar com o diretor sobre tal tema, conversou com a doutora Raquel, afinal ela era a diretora oficial do colégio. Ó verdadeiro milagre, a professora Raquel, talvez por saber o que era amar, sem casar nem procriar, foi complacente com a minha teoria, tranquilizou  a  professora de Moral “ Não se preocupe, são coisas de crianças” , foi ter com ela  e perguntou- lhe “ Tu és tão miúda, como sabes o que é amar?” Sei pelos livros, senhora professora, e porque gosto de pensar nisso. “ Esta menina, esta menina”, disse- me com uma tristeza que só anos mais tarde percebi…

Aos 13 anos apaixonou-se por um vizinho, uns vinte e tal anos mais velho , professor de Ginástica no Liceu D. João III (Hoje, Escola Secundária José Falcão), namorado de uma tal Laidinha que ela achava a rapariga mais feia à face da terra. Este amor, mais do que secreto, motivador de uns poemas de que se envergonho, não teria tido qualquer consequência se ela não tivesse descoberto que, num certo dia e hora, o “bem-amado” dava uma aula no pátio do liceu e que, do telhado do seu colégio, a que teria acesso através do sótão ela o poderia ver. Sem dizer nada a ninguém, venceu o medo das alturas e lá se empoleirava, romanticamente, de binóculos em punho, a observar o objeto do seu amor. Um dia escorregou e foi o escândalo: em pânico, aos gritos, como uma possessa, mesmo à beira da queda, foi a vergonha daquele colégio tão “fino“. A estória, agora, é cómica, mas foi um incidente que lhe teria valido a expulsão, não fora a sorte, não estaria aqui para o contar, não fora a bondade natural do senhor diretor e a simpatia secreta que a professora Raquel tinha por ela. Retirada pelos bombeiros, o  problema foi explicar o que estava ali a fazer… ela até era uma menina pacata e nada aventureira. Nunca contou a verdade, nunca ninguém percebeu o porquê de tal disparate, terão colocado a hipótese de ela não estar boa da cabeça, mas, como foi um sintoma isolado, tudo terminou em bem, apesar de o senhor diretor ter repetido, com tom invulgarmente preocupado, “Ai, esta menina, esta menina.”. Entretanto, a “menina” descobriu que ele era treinador de basquete e, subitamente, iniciou uma efémera carreira de desportista…ir aos treinos era bem mais seguro do que a observação aérea.

Um momento de glória... Eis que surge, perante mim, uma menina de cinco anos, encantadora( aos cinco anos, eu era uma criança encantadora) que,sem saber ler, declamava poemas "como se percebesse tudo"... Igrejas caeiro( nunca o esqueci) realizou o meu sonho. Num espetáculo, durante as festas da rainha santa, veio-me buscar à plateia e eu,ufana, perante um público imenso, declamei dois poemas. É a minha memória de infância mais feliz...É estranho como, tendo uma primeira experiência tão gratificante, hoje tenha verdadeiro pavor de subir a um palco...

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Amores e desamores...

Amar é ter medo, um medo enorme, mesmo inconfessado, de perder… Amar é ter medo de desiludir, de desencantar… é ter medo de que o fascínio termine … Amar é um estado de medo permanente… Amar é sentir raiva quando se fica sozinho… 

 A vida é absurda, uma absurda comédia que nem romântica chega a ser... Mais do que uma impossibilidade, os meus devaneios são uma possibilidade absolutamente improvável. Entendidas todas as subtis e indiretas advertências, resolvi assumir, exteriormente, uma postura que demonstre respeito por mim mesma... Quando a ideia de ti me começa a impedir o sono, não vale a pena tentar dormir... Há momentos em que me sinto "não eu", o que é diferente de não sentir nada. O sentimento de negatividade é muito mais doloroso do que o vazio afetivo. Impenso-te… Tu estás, tu és.. Ser e estar identificam-se? Até que ponto o acidental do estar penetra a essência do ser? Estar frequentemente incorpora-se de tal modo que o ser se identifica com o estar. É isso que me angustia, recear que uma fase , um estar episódico , compreensível e circunstanciado, se revele, afinal, uma característica essencial que se encontrava adormecida e despertou, passando a ser um traço permanente...O estar deixou de coincidir com o ser? O ser passou a identificar-se com o estar? O estar social invadiu o reino mágico do ser individual , destruindo-o... Para sempre? O eu outrou-se no ser plasmado em meia dúzia de retratos esteriotipados? Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar...Preciso de aprender a calar-me. Não sentir nada, sentir o vazio, é um estado que me é familiar...não me sentir eu está a ser mais complexo.

     A partir de então e até à sua morte, Molly Morgan Muir esperou com ilusão e impaciência a chegada do dia escolhido em que o seu imaterial amor silencioso aceitava regressar ao passado do seu tempo em que na realidade já não havia qualquer passado ou tempo, a chegada de cada quarta-feira. E pensa-se que talvez tenha sido isso que a manteve ainda viva durante bastantes anos, ou seja, com passado e presente e também futuro, ou talvez tudo isso sejam nostalgias.

    "Em Não mais amores, aparece um Elvis Presley, mas também a sombra de um fantasma; uma atriz porno iniciante que está prestes a conhecer o seu parceiro de filmagens e um mordomo antiquado em Nova Iorque; um assassino por encomenda que tenta dissuadir quem o quer contratar, mesmo que isso lhe implique o soldo, e a desgraça de um casal de mafiosos; um escritor anacrónico, e talvez sem talento, tão viciado na sua dor que abandona a medicação que a apaga para investigar o seu efeito na existência, e um homem que encontra outro homem igual a si e que tenta fugir da semelhança, em simultâneo com o outro, mantendo-a. 

 A condição humana refulge nesse homem que enfrenta o seu duplo, estando Javier Marías a refazer o cenário já experimentado por autores como Saramago (O Homem Duplicado) ou Dostoievski (O duplo). Mesmo num mundo em que se procura a unidade, a ausência de individualidade atinge e transtorna, daí os esforços para a distância e para a diferença, mesmo que isso implique o colapso profissional, pessoal ou mental. 

 Noutro conto, a fotografia é um vício que prova o amor: pode amar-se sem uma máquina fotográfica, sem o desejo obtuso de se cristalizar a imagem da coisa amada? Uma das personagens responde: “Você adora a sua mulher? Não me faça rir. Você nem sequer tem uma câmara. Não a quer recordar verdadeiramente, tal como foi, se a perder. Não quer voltar a vê-la quando já não a puder ver.” 

  E então atinge-se a inquietação a la Marías: um cenário à partida idílico que leva com a sombra, e o tormento, da sua efemeridade. Pelo meio, um amor louco, e louco no sentido de doentio: o homem que amava a mulher desde antes de ser mulher, que esperou por ela como um estóico, ou um obcecado, que viveu o seu tempo e o tempo dela em simultâneo, que contrapôs às décadas que os separavam um afluir de referências, e uma “adoração imutável” que, mais do que arcabouço cardíaco, é um perigo iminente: o homem sabe que acabará por matá-la. Marías enfrenta ainda os despojos que a vida de alguém deixa quando já deixou de ser vida: os espaços maculados pela ausência, a tristeza de tudo continuar igual quando alguém já não existe, a afronta ao ego que é a irrevogável passagem do tempo e a regeneração da vida, o reaproveitamento de espaços e esses espaços como depositários do tempo. 

 Os contos são não apenas hipóteses de situações ou de vida, mas confrontos morais permanentes. Não há situação em que não se sinta a angústia de uma decisão, e é isso que o leitor encara, tentando formular uma hipótese ao mesmo tempo que é engolido no drama das personagens. Assim sendo, fica claro que a inquietação de Marías é dos maiores tesouros da literatura contemporânea."

Quando o  conheci, era um jovem cândido e puro, apesar de uma maturidade rara e de uma inteligência superior. O tempo, inevitavelmente, maculou essa encantadora combinação de ingenuidade com lucidez. Estranha e paradoxalmente, ela  passou a ser a criança e o afastamento foi inevitável. Viviam em mundos diferentes...

Uma sátira irreverente da poesia de Pessoa, dizem alguns.
Uma sátira dos adoradores de Pessoa, dizem outros. 
Uma tentativa de ridicularizar a dimensão espiritual e o drama da fragmentação de Pessoa . Uma mera tentativa, de uma intelectualice demasiado brejeira, digo eu. 
 ( Estava certa de que não iria gostar, mas assim já posso dizer mal com conhecimento de causa...)

  Ela canta, pobre ceifeira,
  Julgando-se feliz, talvez.
  Canta, e roussa. E a sua voz, cheia
  De alegre e anónima liquidez 

  É branca como um grito de ave 
  Num ferro de Alcácer-Kibir,
  E há résteas de luz e de adarve 
 No som que ela faz a se vir. 

 Ouvi-la, alegra e aborrece. 
 na sua voz há recidiva. 
 E roussa como se tivesse 
 Mais fodas a dar do que a vida.

 Ah! Poder ser tu sendo eu! 
 T er a tua alegre limalha
 E todo o ouro dela! Ó céu Ó campo, ó canção, 

 O homem pesa tanto e a matriz é tão leve! 
Entrai por mim dentro! 
Tornai Meu anus o vosso almocreve! 
Depois, levando-me, passai.

O citadino do mundo que há, que se assina M.C.V., considerou Fernando Pessoa um" aldeão do mundo a haver". Será interessante comparar o reconhecimento mundial do "aldeão" com o do citadino. MCV é célebre em Portugal? Será célebre em Lisboa? Talvez , mas só mesmo  no grupo dos seus amigos...

sábado, 10 de novembro de 2018

(In)Decisões...

Ser lúcido é estar indisposto consigo próprio. O legítimo estado de espírito com respeito a olhar para dentro de si próprio é o estado (...) de quem olha nervos e indecisões.


E, ó vento vago
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.

Ergue-a em ondas
De iras ou de ais,
Vento que rondas
Os pinheirais
!


Overwhelmed, you chose to run Apathetic to the stunt



No one plans to take the path That brings you lower And here you stand before us all And say it's over, it's over

"Pensei neste livro enquanto escrevia o final de 'Os Memoráveis', queria escrever a história de uma família que resistia à adversidade, tentando cada um esconder a sua vida privada aos outros". "Seriam vidas paralelas de resistência, e todas elas tinham em comum o facto de serem figuras prometaicas anónimas. Quis que este Estuário fosse o símile do local por onde corre o rio das histórias, que se retêm por uns instantes na brancura das páginas, antes de desaparecerem no esquecimento."


A perda de três dedos, e um troço da palma da mão direita,colocara-o no centro de um universo até então desconhecido. Valeria a pena a troca? Ninguém além dele mesmo tinha acesso ao dilema, mas o próprio por vezes, possuindo agora o que antes não tinha, achava que sim, que valia.
Valia a pena


Alguém teria de escrever esse livro, um livro que fosse, ao mesmo tempo, o último do passado e o primeiro do futuro. Teve a certeza disso mesmo, no dia em que o médico finlandês, o Dr. Häkkinen, um folgazão subitamente assaltado por mau humor, se sentou na cama ao seu lado e começou a discorrer sobre a contradição do universo humanitário. Para quê todo aquele sacrifício? Para quê, se o caminho sempre seria o martírio da vida de uns pela sobrevivência de outros? E para quê poupar uns em nome de outros, se a catástrofe era certa, e sobre alguém sempre acabaria por recair?


A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer.
Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.
As casas eram grandes jazigos impossíveis. As árvores, no seu alinhamento ao longo da avenida, vagas atitudes despidas de nos poderem dar qualquer ideia de vegetais. Tive de repente uma sensação ampla e absurda — a de que eu era um mar, ou o traço de um mar, que a vaga proa de não sei que navio vinha erguidamente abrindo.Pareceu-me que me dividia e que através do meu dividir, me passavam sensações de outras coisas e que essas sensações por me dividirem no passar, não eram sentidas por mim.Acabou tudo como uma rua quando viramos a esquina. Tive uma dificuldade física em me crer existente. Para além da linha dos cimos dos prédios olhava a […]


As palavras pugnavam por abrir caminho, continha-as num acto de prudência, de vontade de secretismo ou, pelo menos, de discrição, como se a matéria fosse delicada e não devesse transcender, talvez nem expressar-se , porquanto o que é expresso instala-se no ar e torna-se difícil fazê-lo retroceder.

Não é exequível não entender aquilo que noutra época não se entendia, uma vez que se entendeu.; a ignorância não regressa nem sequer para relatar o período em que se gozou ou se foi vítima dela, falseia quem conta algo dando-se ares de inocência e ostenta a dos tempos de infância, adolescência ou juventude(...) está encerrada a conta e jamais alguém a vai reabrir...

"Deve ter-me escolhido por isso, pela minha insignificância", pensei, " Contá-lo a mim é o mais parecido com o não contar a ninguém. " ... A mim pode despedir e perder de vista, pode quase cancelar-me, serei um vazio antes e depois. Por outro lado, também posso indagar, aprofundar ou sondar. Não tenho ressonância, nem dou azo a consequências.

A verdade é uma categoria que se suspende enquanto se vive...Sim, é ilusório ir atrás dela,uma perda de tempo e uma fonte de conflitos, uma estupidez. E, no entanto, não podemos deixar de o fazer... porque temos a certeza de que existe, embora se encontra num lugar e num tempo aos quais não podemos aceder.


Enquanto personagem de ficção, Ricardo Reis é mais do que um heterónimo (…). Ele está no centro de uma ação narrativa em que lida com outras personagens, vive situações amorosas, conhece factos históricos e circula por espaços que identificamos sem dificuldade. Nesse sentido, O Ano da Morte de Ricardo Reis deve ser considerado uma obra que “fala” ao nosso tempo; para isso, importa estabelecermos ligações entre aqueles factos, aqueles espaços e o nosso mundo, que é o de quem vive já no século XXI. Por exemplo: o tempo político de Salazar e os anos anteriores à segunda guerra mundial (Saramago situa a ação do seu romance em 1935 e 1936) tiveram consequências que se prolongaram ao longo do século XX; essas consequências fazem parte das nossas vidas. Para a história da Europa e do mundo, aqueles anos foram decisivos. Embora eles não se encontrem representados na ficção de Saramago como o são num manual de História, a verdade é que, através da ficção, adquirimos um outro conhecimento, como que “reinventado”, de figuras e de episódios históricos. De certa forma, é isso que se passa noutros romances de Saramago, por exemplo, no Memorial do Convento e na História do Cerco de Lisboa. A estes e também a O Ano da Morte de Ricardo Reis pode bem aplicar-se aquilo que o seu autor um dia escreveu, quando falou numa certa alternativa ao trabalho do historiador : “Restará sempre, contudo, uma grande zona de obscuridade, e é aí, segundo entendo, que o romancista tem o seu campo de trabalho.
(Carlos Reis, Coleção "Educação Literária. Leituras Orientadas")

“Se houver Deus, ele é um mau romancista”- A linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo. É o ponto de partida deste romance de Laurent Binet. A linguística e os teóricos franceses da segunda metade do século XX são personagens. Ficção ou realidade?
“Tenho grande admiração pela maior parte destas pessoas, mas ao mesmo tempo acho-as cómicas”, “Por exemplo, muita gente ficou chocada com o modo como escrevo sobre Foucault, mas as cenas sobre Foucault no meu livro são na maioria verdadeiras, foram contadas por velhos amigos, estão nas biografias; como ele se comportava em grandes festas, o consumo de drogas, como ficava bêbado e deixava de conseguir falar inglês.” “Quis mostrar que saber usar a linguagem é muito útil, partindo de estudos abstractos, como a Semiótica ou a Retórica. A Semiótica é útil para entender o mundo e a Retórica é útil para lidar com ele, para conquistar poder, por exemplo, uma arma poderosa.”


- Esse Chaussure(1), ele conhece Barthes?
— Ele não, já morreu, é o inventor da Semiologia.
— Hum, estou a perceber. No entanto Bayard não está a perceber coisa alguma. Os dois homens atravessam a cafetaria. É uma espécie de hangar devastado que tresanda a merguez, a crepes e a erva. Um tipo grande e desengonçado com botas de pele de lagarto, lilases, está de pé sobre uma mesa. A prisca nos beiços, uma cerveja na mão, arenga uns jovens que o escutam, de olhos brilhantes. Como Simon Herzog não tem gabinete, convida Bayard a sentar-se e, maquinalmente, oferece-lhe um cigarro. Bayard recusa, saca de um Gitane e recomeça: — Concretamente, isso serve para quê, essa... ciência?
— Ora bem... para compreender o real?
Bayard esboça uma careta. — Isso quer dizer?
O jovem doutorando leva alguns segundos para pensar. Avalia a capacidade de abstração do interlocutor, manifestamente limitada, adaptando a sua resposta em função disso, ou eles não irão sair dali durante horas.
— De facto, é simples, há uma quantidade de coisas à nossa volta que têm, enfim, uma função de uso. Está a perceber?
Silêncio hostil do interlocutor. No outro extremo da sala, o tipo das botas de pele de lagarto, lilases, conta aos seus jovens discípulos a grande façanha de 68 que, na boca dele, parece uma mistura de Mad Max e de Woodstock. Simon Herzog tenta simplificar ao máximo:
— Uma cadeira serve para nos sentarmos, uma mesa para comermos, uma secretária para trabalharmos, a roupa para nos mantermos quentes, etc. Certo?
— Silêncio glacial. Prossegue: — Só que além da sua função de uso… da sua utilidade, esses objetos são igualmente dotados de um valor simbólico... como se fossem dotados de palavra, se prefere: eles dizem-nos coisas. Essa cadeira, por exemplo, em que está sentado, com o seu nenhum design, essa fraca madeira envernizada, essa armação ferrugenta, diz-nos que estamos numa coletividade que nada quer saber de conforto nem de estética, e que não tem dinheiro. Além do mais, estes cheiros indefinidos a cantina de má qualidade e a cannabis confirmam-nos que estamos num local universitário. Do mesmo modo, a sua maneira de vestir assinala a sua profissão: usa fato, o que denuncia um emprego de funcionário, mas a sua roupa é modesta, o que implica um salário modesto e/ou uma ausência de interesse pela sua aparência, exerce assim uma profissão onde a apresentação não conta, ou conta pouco. Os seus sapatos estão muito coçados, embora tenha vindo de carro, isso significa que não passa o seu tempo numa secretária, mas no terreno. Um funcionário que sai do seu gabinete tem todas as probabilidades de ser destacado para um trabalho de inspeção.
— Hum, estou a ver — diz Bayard.

(1 ) Trocadilho, de gosto duvidoso, entre o nome do famoso linguista Saussure e «chaussure», sapato.

I want you more than I need you I need you so bad Are you coming back? Are you coming back? I’m waiting...



Cross over and turn Feel the spot don't let it burn We all want we all yearn Be soft don't be stern Lullaby Was not supposed to make you cry I sang the words I meant I sang...

Lullaby - Acordei a pensar nesta palavra inglesa, que me cativa, sobretudo pelo significante, e descubro o tema em pessoa... Regresso, momentaneamente, à minha infância , sem "lullabies"...

Nurse, I known now
That love is vain.
When I was small
You used to sing
And soothe my brow
Till calm lost pain.
That song recall
And to me bring.


God knows. And an He knew not
And were not, what of it?
No matter that we do not
Our life with living fit.
Glad to have sleep and tears,
Lullaby to our fears!


Mother, my cheeks are wet.
Let down my hair and kiss
My brow. I seem to forget
Even if I think of this.


Lullaby to me, mother,
Lullaby to me.
I loved and was not loved, mother.
Kiss me and let me be.


e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.(...)

Não sei viver! nem fui para viver Destinado; porquê então a vaga Aspiração que tenho? Regresso sempre...You know i need solitude just as much as i need you by my side.




Alea iacta est... Palavras atribuídas por Suetónio a Júlio César, quando passou o Rio Rubicão, contrariando as ordens do Senado Romano, Esta frase emprega-se quando se toma uma decisão enérgica e grave, geralmente irreversível, depois de se ter hesitado muito.

You know I can't sleep, I can't stop my brain You know it's three weeks, I'm going insane You know I'd give you everything I've got For a little peace of mind I'd give you everything I've got for a little peace of mind I'd give you everything I've got for a little peace of mind...



Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.(...) Tive de repente uma sensação ampla e absurda — a de que eu era um mar, ou o traço de um mar, que a vaga proa de não sei que navio vinha erguidamente abrindo. Pareceu-me que me dividia e que através do meu dividir, me passavam sensações de outras coisas e que essas sensações por me dividirem no passar, não eram sentidas por mim. Acabou tudo como uma rua quando viramos a esquina. Tive uma dificuldade física em me crer existente.[…]



Yo sé que no sé tomar una decisión. Ando como perro en cancha de bochas Quiero algo pero digo no Y en vez de irme siempre me quedo. Tengo que librarme de toda opinión Dudo de lo que hago aunque me guste Y si alguien viene y dice: mmm! Largo todo y pienso en cómo, dónde y cuando hacerlo ¿Qué le voya a hacer? ¡No hay caso, no aprendo! Sólo sé que al final lo lamento Cambio ideas que me llaman, llaman, llamando Y van cambiando, yo voy cambiando Y voy dudando, lo hago dudando Y voy pensando, lo hago pensando ¿Para qué sembraron la duda? Oigo voces dentro Me abruman

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Pesadelos e enamoramentos......

Remember this... Don't let a fool kiss you Never marry for love...



I wish I had the guts to bum one, but we've never met, And I hope that I don't fall in love with you... and you look back at me, The guy you're with has up and splits, the chair next to you's free, And I hope that you don't fall in love with me...

Pensar-te e pensar em tudo o que não li nem lerei é um só pesadelo: o meu...

Europa - Isto começou assim. Eu cá nunca tinha dito nada.Nada. Foi o Arthur Ganate que me fez falar. Arthur, estudante, de Medicina como eu, um colega. Encontrámo-nos, por sinal, na praça Clichy.
O amor é o infinito posto ao alcance dos cachorrinhos, e eu cá tenho a minha dignidade!
Quem saberia prever, antes de entrar verdadeiramente na guerra, tudo quanto esconde a alma sórdida, heróica e calaceira dos homens?

África - Os crepúsculos daquele inferno africano revelavam-se famosos... Durante uma hora o céu exibia-se de uma ponta a outra com um escarlate delirante, e depois o verde abria no meio das árvores e subia do solo em listas trémulas até às primeiras estrelas.
É precisos roubá-los antes que nos roubem, o comércio é isto, mais nada.
Tudo rouba minha gente.

América - o Dólar, um verdadeiro Espírito Santo, mais precioso do que o sangue.(...) Quando os fiéis entram no banco...falam ao Dólar murmurando -lhe coisas através de uma rede estreita, a bem dizer confessando-se .... Não engolem a Hóstia: encostam-na ao coração.

Os pobres são iguais em todo o lado...

Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos, estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar de coisas familiares, eu descobrira que nada me impediria de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão.

Tem presença de um nível de língua que me desagrada : o que ,no início do século passado, era, em termos de linguagem, uma inovação, um atrevimento, uma ousadia rebelde e criativa, um século depois é a banalidade a imiscuir-se e a macular numa obra, de facto, excecional...Depois da elevação da prosa de Régio, mergulhar no bas-fonds de Paris é violento...

"Céline é um daqueles autores aos quais não passamos incólumes. Seja por se ter celebrizado como apoiante das mais hediondas políticas anti-semitas,seja,é isto sim importa relevar,por se tratar de uma das vozes mais lúcidas,claras e corajosas da história recente da literatura universal. Viajem ao fim da noite é um livro com cariz inegavelmente auto-biográfico, escuro, pessimista e que nos deixa,muitas vezes,sem sangue. A misantropia do autor fá-lo percorrer sem hesitação o absurdo e o grotesco do colonialismo europeu,a artificialidade do sonho americano e a hipocrisia social vigente na primeira metade do século XX. Esteticamente é incomparável e inovador,o que, inicialmente,causa alguma estranheza e necessita de um (breve) período de adaptação. A linguagem é crua,direta e com uma oralidade tremendamente realista. O resultado final é absolutamente memorável,e não deve haver consideração pessoal ou política que nos deva impedir de o ler. " Fabio Lavos Martins

Take the highway to the end of the night End of the night End of the night Take a journey to the bright midnight End of the night


Quando era adolescente, Lobo Antunes escreveu a Céline. E o francês respondeu-lhe. Isto começou assim: António Lobo Antunes tinha 14 ou 15 anos quando o pai lhe deu para ler, na versão original, “Morte a Crédito”, de Louis-Ferdinand Céline. Era um médico a dar um livro escrito por um médico a um filho que viria a ser médico. António leu-o e teve um dos seus “primeiros deslumbramentos”. Mais tarde leu “Viagem ao Fim da Noite” e Céline foi vital. “É um dos grandes escritores do século XX e, em Portugal, é muito mal conhecido ou então não é compreendido.”

“Aprendi a escrever muito cedo. Foi a minha mãe que nos ensinou a ler a todos. O meu pai começou a dar-me livros para ler, e eu ia lendo. Aos 13 ou 14 anos, ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, do Céline, e eu fiquei deslumbrado. Pensei: "O que se pode fazer com as palavras!" Escrevi uma carta ao Céline a pedir-lhe um retrato, como se ele fosse um ator de cinema. Ele respondeu-me e andei anos com o envelope no bolso, onde ele tinha escrito o meu nome. Foi uma alegria tão grande! Ele a dizer: "Queres ser escritor? Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.Não tenho fotografia porque não sou ator de cinema. Mas se queres ser escritor vê lá porque depois não podes ir ao cinema, não podes ter namoradas, não podes não sei lá o quê… Porque escrever é uma coisa muito difícil e exige muito tempo, tens que passar a vida agarrado ao livro…’" Nunca mais me esqueço disto: eu ter escrito uma carta ao Céline e ele ter-me respondido...”

I thought as much 'Cause you turned over there Pulling that silent disappointment face The one that I can't bea...

It's bugging me Grating me And twisting me around Yeah I'm endlessly Caving in And turning inside ...

" De toda essa obra séria e profunda que é a de Régio, nada até agora me pareceu sê-lo tão completamente como este volume." Adolfo Casais Monteiro
O tema é a viagem humana no sentido da perfeição: sempre inatingível, sem procurada.

Régio recusa a acusação narcisismo dos seus detractores: ao confessar-se, propõe-se seguir o modelo do seu personagem (o Príncipe Leonel do romance O Príncipe com Orelhas de Burro) que diz ao seu povo, falando-lhes na «praça pública»: «vou-vos fazer uma confissão e dar um exemplo». Tirando o turbante, diante da multidão atónita, o príncipe quer revelar a sua monstruosidade até aí escondida – as orelhas de burro - , mostrando-se, por fim, nu e verdadeiro – assim inaugura um reino de transparência nas suas relações com o seu povo. Régio considera que na sua confissão não há complacência narcísica, mas um desejo de transparência e verdade.

https://www.luso-livros.net/wp-content/uploads/2014/08/O-Principe-com-Orelhas-de-Burro-Jose-Regio.pdf

SINOPSE: "Não pode ser considerado em paralelo com qualquer outra obra do nosso tempo, em Portugal [...], é uma obra destinada a ficar como uma grande data da nossa literatura. José Régio encheu o seu livro de quadros e retratos em que se revela toda a sua lucidez de moralista, e também toda a força da sua criação poética; quadros e retratos em que os mais diversos tipos de humanidade perpassam, mas que são sobretudos magníficos como sátira e como crítica de costumes. Régio pretendeu dar-nos um microcosmos em que cada paixão, cada tipo humano, tivesse a sua representação."

Como quase todos os infelizes ligados por uma desgraça comum e odiada, cada um via no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentemos que...cada um tendia a ver no outro o próprio causador do infortúnio. Este mútuo ressentimento ia a pontos de já nem poder o triste casal escondê-lo...

"Poetas, porque vos não libertais dos vossos segredos? Que medo tendes de vos abrir? As palavras e as imagens, as rimas e os ritmos, as anedotas dos vossos poemas, suficientemente esconderão a vossa nudez; suficientemente protegerão o vosso pudor ou a vossa cobardia. E a vossa terrível nudez presente e oculta, dará aos vossos poemas uma força que os cegos não saberão donde vem, e, todavia, sentirão..." Eis a inútil lição de Rolão Rebolão aos seus confrades...

De modo que, por uma delicada, e, neste caso, inconscientemente genial adulação, desde tenra idade todos os filhos dos nobres da corte tinham também passado a usar turbantes, que mantinham em toda e qualquer eventualidade; como se todos tivessem orelhas de burro que devessem andar escondidas!... Mas esta moda foi ainda fortificada pelo seguinte: Reparara qualquer nobre dama da corte, mãe de família, que o sítio onde toda a gente tem as suas orelhas naturais e normais — era, na cabecinha do príncipe, de tal modo embrulhado em ricos tecidos, de forma a que nem pontinha das suas certamente naturais e normais orelhas fora alguma vez vista! Vá, então, de capricharem as mais elegantes donas da corte em nada deixar ver das orelhas dos seus nobres filhos! O que, perdoe-se-me a insistência, pudera atrair a inaceitável suposição de terem todos eles orelhas de burro a esconder...

A qualquer homem não dará a indumentária (e particularissimamente a um príncipe) uma superior confiança em si próprio e um superior contentamento de si próprio, uma noção mais pertinente da sua posição social e adstritas responsabilidades civis, —
consequentemente, um maior rendimento da sua atividade e uma bem mais entusiasta dedicação ao exercício das suas funções?E não será esta a razão profunda do uso de fardas, librés, uniformes?


Assente a sociedade sobre convenções necessárias, firmada toda a vida de relação em necessárias ilusões e miragens, (sejamos corajosos e digamos tudo: entronizado este mundo no altar da imprescindível e triunfante mentira) acaso o tal qual se é ou como se é sem disfarce, porventura o nu ou o traje menor mesmo belos, (e em que nudez não haverá crueza chocante?...) não serão, em última análise, perturbantes e perigosos, anarquizantes e destrutivos? E disto não mostra a sociedade intuição aguda, lúcida, tentando, por todos os meios, amordaçar quaisquer pregadores da sinceridade bruta?

Assim a proscrição de espelhos nas câmaras do nosso príncipe acabara por já nem ser notado: Tal era a moda em todas as casas de gente bem nascida, ou satélite desta. E já ninguém sequer se lembrava que do palácio viera tal moda, nem à cabeça de ninguém podia ocorrer o achá-la estranha!

Um rapaz de dezoito anos e tão perfeito, com tão bem timbrada voz, tão amável para todos, ser o herdeiro do trono e já saber tanto, e ainda estudar tanto, — que maravilha! (...) Sem dificuldade criam os mais simples todos esses ditos e lendas. Por isso, quando ouviam o príncipe Leonel, olhavam-no com gratidão e um embevecido pasmo. Nem precisavam de o entender: Sabiam que dizia coisas admiráveis.

Não poderia a juvenil despretensão do herdeiro do trono encorajar certas ideias subversivas de igualdade antinatural e antissocial? ou não poderiam os propagandistas da confusão, os incitadores da desordem, os semeadores da rebelião e do erro, aproveitar junto dos simples, dos idealistas, dos desgraçados, dos incautos, torcendo-as e corrompendo-as no seu verdadeiro
sentido, essas generosas e arejadas inclinações da sua Alteza? Numa palavra: Não poderia, em parte, propiciar Sua Alteza, com os seus levantados ânimos de inovação e fraternidade, futuras complicações a si próprio, dificuldades imediatas ao seu real Pai? E valeria esse risco a mísera canalha que vai para aonde a levam todos os agitadores, crê em tudo com que lhe acenam todos os
comicieiros, e acaba por pôr ao serviço de todos os violentos, audaciosos, ambiciosos ou doentios exibicionistas a sua força bruta de monstro sem cabeça...?


Ora pergunto, perguntará o leitor, e todos, então, perguntavam: Seria fácil escolher noiva para tal portento?

Leonel... Leonilde!... E vendo-os bailar juntos, a cara dela um bocadinho acima do ombro dele, o corpo dele, esbelto e másculo, tão bem proporcionado ao fino, ondulante, e, ao mesmo tempo, macio e altivo corpo dela, a mão dela poisada com tanta graça, e tão branca e longa, na mão dele, tão forte, mas segurando-a com tanta leveza, — quem não repetiria o «Deus os fez Deus os juntou» das velhas princesas e duquesas enlevadas? (Das velhas princesas e duquesas babadas, diria eu, se a expressividade do termo não fosse chocantemente realista; demasiado, quando aplicado a damas de tanta linhagem, e em tão delicado e galante momento...)Ora se os corpos de Leonel e Leonilde pareciam as duas metades perfeitas de um corpo ideal completo,um par unificado, em que a força e à seca elegância varonis se fundissem, enfim, com a languidez e a flexuosa finura femininas, não era menos de pasmar que tanto se aproximassem os seus espíritos!

arquejando, (tal qual Rolão Rebolão ao sentir aproximar-se a verdade) pôs-se a desfazer ao espelho, atrapalhadamente, aquele turbante sem o qual nunca se vira. Os seus olhos olhavam espantados, talvez sem ver, na face cor de terra. Pela primeira vez desde que se conhecia, — estranhava nunca se ter visto sem um turbante!

O sarcástico espelho lá estava em frente, a demonstrar-lhe a pavorosa certeza; e perante a grotesca autocaricatura, tudo se lhe representou ao vivo como real. Então, o príncipe Leonel quis tentar um desafogo chorando; mas o seu aniquilamento, o seu negrume interior, o seu doloroso pasmo, — eram demasiado intensos para que pudessem derivar em lágrimas; tanto mais que, até ao presente, sempre fora feliz, e bem raras vezes as glândulas lacrimais lhe tinham tido oportunidade de se exercitarem na sua função.

O que ele queria era fugir!, não podia pensar agora em mais nada. E era com tal fito que, entre os seus opulentos trajos, tão
opulentos que certamente logo denunciariam nele o grande senhor, procurava um com que pudesse passar despercebido. Em vão. Nos seus armários, nos seus gavetões, nas suas arcas, não havia fato que não fosse demasiado elegante, demasiado rico e demasiado belo.


Leonel podia, enfim, chorar. Nem ele sabia como, repentinamente, os olhos se lhe tinham enevoado, cegado de lágrimas que lhe
rolavam agora pelas faces, e caíam nos dedos, umas após outras... Era a primeira vez que tal lhe sucedia na vida! Também era a primeira vez que deixava, tão incerto do regresso, aquele imenso casarão em que nascera, brincara, se criara, — aquele seu mundo em que vivera a sua vida cega e feliz: uma vida que nunca, nunca mais recuperaria!


— Oh, oh!... — cascalhou Rolão Rebolão — já descobri que o príncipe perfeito também chora! Agora também pede perdão?
— Também! — disse o príncipe — também chora e também pede perdão. O príncipe perfeito nunca foi perfeito...


as mulheres são um belo degrau! Lavando essa cara, e com esses teus modos de príncipe infeliz, podes agradar a uma duquesa. Depois é trepar! Uns descem e outros sobem.

Mais uma vez o príncipe Leonel verificava o seu poder de atração sobre as mulheres. Se ao prestígio do papel ainda pudera atribuir esse poder no seu papel de príncipe prodigioso, — agora tinha confirmação de que a sua simples pessoa bastaria para as seduzir.

disse-lhe com súbita dureza o companheiro — sabes porque sou capaz de claramente me ver... me conhecer... me confessar? Por desprezo! Porque me desprezo. Desprezo é o sentimento, se é sentimento, que a humanidade mais geralmente me inspira; e às vezes ódio, quando pinta de belas aparências os seus piores vícios e cobardices; (...) analisa um bocadinho a caridade deles e o
teu reconhecimento. Qual o fundo dessas lindas aparências? Comodismo, vaidade, capricho, amor próprio, complacência..., e também certa sentimentalidade torpe, certo amolecimento obsceno a que, por aí, chamam bondade, e que só damos aos outros para que os outros no-los deem a nós; ou para os darmos nós a nós próprios. Desprezo, meu rapaz! Eis o que todos merecemos; o que tudo isto merece. (...) Era um grande inquieto; mas desde que desprezo, alcancei a paz. Vivo pachorrentamente, assisto à desgraça dos outros, divirto-me de vários modos, sou tão feliz quanto me é possível sê-lo.

Não há melhor libertação do que o desprezo! nem melhor arma de defesa ou ataque! nem melhor vingança, nem melhor gozo... O amor ou o ódio são fraquezas; cadeias; mas o desprezo quebra todos os laços...

Choro muitas vezes quando invento as minhas histórias.Tudo o que a gente inventa é verdade! demasiado verdade, às vezes...

Por mais suportável, iludível, até superável que se torne, o sofrimento individual dói em qualquer parte do indivíduo.

Contra a nossa corrupção é que é preciso começar a luta, o que mais urge vencer é a nossa condição. Por quê, para quê, falar em progresso, em doutrinas mais amplas ou justas, em melhores regimentos sociais e políticos, — se cada um de nós não busca progredir, alargar-se, tornar-se mais justo, ser, enfim, capaz de realizar um mundo novo? O progresso é conquistado por homens, as doutrinas elaboradas e seguidas por homens, os regimes efetuados por homens, obedecidos por homens. Se o homem não melhora, tudo virá a cair nos mesmos vícios. O erro não pertence às doutrinas senão porque pertence aos homens! Se o homem não melhora, — que poderá melhorar?!

Tell me no lies. Just hold me close; Don't patronize. Don't patronize me.'Cuz I can't make you love me If you don't.

Shadows settle on the place that you left Our minds are troubled by the emptiness...

"En mis libros abundan estas pequeñas cosas, estos pequeños elementos tienen la función —dejando a un lado la historia o la escena que se cuenta- de dar la capacidad de reconocimiento al lector. Creo que las emociones en la literatura se producen a través del reconocimiento. Un lector se emociona porque lee alguna cosa que reconoce como verdad sobre un tema en el que él quizás no había pensado de esa manera o que nunca se había formulado o planteado; y que sin embargo lo reconoce como verdadero. Se necesita que exista el reconocimiento en el interior del libro mismo, de cosas se leyeron cincuenta o cien páginas antes. Estoy muy atento a esto."

As pessoas não querem saber porque é que alguma coisa aconteceu, só que aconteceu e que o mundo está cheio de imprudências, perigos ,ameaças e má sorte que roçam por nós...

É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça:em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia. E assim, mais tarde ou mais cedo, a pessoa triste fica só quando ainda não terminou o seu luto ou já não se lhe consente que fale mais daquilo que ainda é o seu único mundo, porque esse mundo de angústia é insuportável e afugenta. Verifica que para os outros qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espetáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele exista ainda a comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis e salvadores, úteis. Mas ao verificarem que nada muda e que a pessoa afetada não avança nem emerge, os outros sentem-se humilhados e supérfluos, tomam isso quase como uma ofensa e afastam-se...

O que dura deteriora-se e acaba por apodrecer, aborrece-nos, vira-se contra nós, satura-nos , cansa-nos. (...)As únicas coisas que não nos falham são as que nos são arrebatadas, as únicas que não deixamos cair são as que desaparecem contra a nossa vontade... O prolongamento altera tudo .

Toda a gente inicialmente é um sucedâneo. Toda a gente tem um suplente.( ...) Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer...de gente que se deteve , mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto... somos apenas o que está disponível, o resto, as obras...

Mais um dia , mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber qualquer notícia, e esperamos até outra noite para as considerarmos definitivamente desertas ou perdidas...pensamos" Lembra-se de mim quando está aborrecido ou sofreu uma contrariedade com a pessoa que lhe interessa..."( ...) Quando a teia de aranha nos apanha, fantasiamos, sem limites e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o facto de estar ainda no nosso horizonte não ter desaparecido de todo...

A retificação dos sentimentos é lenta,desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo - e adquire-se também o de o desejar - e não se sabe renunciar a isso da noite para o dia, ou durante meses e anos , tão longa pode ser a sua aderência.



I fantasise and call it quits I swim with the economists And I get to the bottom of it for good By the time reality hits The chimes of freedom fall to bits The shining city on the fritz They come out of the cracks Thirsty for blood...


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Eu, Roth e afins...


“Não estar vivo, basicamente, não sentir a vida, não a cheirar. Mas a diferença entre hoje e o medo que tinha de morrer quando tinha 12 anos é que agora tenho uma espécie de resignação em relação à realidade. Já não me parece uma injustiça tão grande morrer”.


É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre. Criar todos os prazeres, os mais artificiais possível, os mais estúpidos possível, para que a chama atraia e queime.(...) Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um indivíduo.

"El efecto tarima"...
Y en una de aquellas alumnas creí notar una expresión de contento al oír que no estaba casado. Nada de lo que presumir ni enorgullecerse, dado que todos los profesores y profesoras del mundo disfrutan de lo que puede llamarse "el efecto tarima" y gracias a él levantan pasiones espúreas y alucinadas, hasta los más feos, los más sucios, los más odiosos, los más despóticos y los más ruines, lo sé de sobra. Yo he visto a deslumbrantes mujeres casi adolescentes flaquear y derretirse por infrahombres apestosos con una tiza en la mano, y a candorosos muchachos envilecerse (circunstancialmente) por un escote estriado inclinado sobre un pupitre. Algunos se aprovechan del mismo hasta convertirse en profesionales –léase aquí, por ejemplo, un par de profes de la Facultad- mientras otros hacen lo imposible por esquivar esas miradas fogosas y entregadas, intentaba explicarme ayer un príncipe de Cachemira mientras yo me perdía irremediablemente en sus ojos azulísimos.



En ‘Negra espalda del tiempo’ Javier Marías recoge de su protagonista –él mismo, más o menos- los años en que, ejerciendo la docencia en la universidad, atraía la atención de sus alumnas simplemente por ser su profesor. El “efecto tarima”, le llama. También en nesta película, el protagonista es un profesor prosigue la docencia y sus gratificaciones más allá de las aulas. Pero no es la única convergencia entre ambas obras. Comparten también la pregunta inicial sobe su estatuto de realidad, cuánto de ficción y cuánto de documental, pregunta que se va desinflando cuando cada obra dirige su interés hacia la búsqueda de una verdad interior ajena a estas clasificaciones.(...) Pero la película sabe buscar y encontrar algo más que la calidad de sus debates y la riqueza de sus encuadres, nutridos por sorprendentes reflejos. Hay también otras disputas y lamentos subterráneos sobre el poder, la seducción, la debilidad, la necesidad de afecto o el sabor de la belleza. Y varios registros simultáneos que pueden abarcar el ejercicio de la tarima profesoral o la burla de la carcoma que la corroe.

Conhecia-a há oito anos. Era minha aluna. Já não ensino a tempo inteiro; rigorosamente falando, já não ensino literatura, ponto final – há anos que tenho apenas uma aula, um grande seminário sénior sobre escrita crítica chamado Crítica Prática. Atraio uma boa quantidade de estudantes femininas. Por duas razões. Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NPR a fazer a crítica de livros ou me viram no Thirteen a falar de cultura. Nos últimos quinze anos, o facto de ser crítico cultural no programa de televisão tornou-me razoavelmente conhecido, localmente, e elas são atraídas para a minha aula por esse motivo. No início, não tive consciência de que falar na TV uma vez por semana durante dez minutos podia impressionar tanto, como afinal impressiona, estas estudantes. Mas elas sentem-se irremediavelmente atraídas pela celebridade, por muito insignificante que a minha possa ser.Acontece que, como sabem, sou muito vulnerável à beleza feminina. Todos nos sentimos indefesos contra alguma coisa, e a minha vulnerabilidade é essa. Vê-la cega-me para tudo o mais. Elas apresentam-se na minha primeira aula e eu sei quase de imediato qual é a rapariga para mim.

(Não confirmo " el efecto tarima": nunca me apercebi que um aluno se tivesse apaixonado por mim. Julgo que, ao contrário do que teoriza Marías, este " efecto" ocorre , essencialmente, com professores: conheço inúmeros casos. Comigo o que aconteceu - mas eram outros tempos - foi sentir muitos professores atraídos por mim, mas nunca foram correspondidos, antes pelo contrário, exceto num caso... Julgo que essas situações não se justificariam pelo "efecto tarima", mas terei de solidificar melhor este conceito. Provisoriamente, afirmo que a minha experiência confirma , sobretudo, a teoria de Roth, cujos protagonistas professores parecem condenados a apaixonarem-se por alunas...No entanto,parece-me que não há nada de científico nem qualquer especificidade na dicotomia relacional aluna/ professor... São atrações que surgem pela inevitável proximidade, tal como enfermeira/ médico; secretária/ adiministrador, and so on...)

Esperava pela liberdade de começar, pelo momento de se tornar real, esperava a hora de esquecer quem ele era e se tornar a pessoa que estava a interpretar, mas em vez disso estava ali parado, completamente vazio, atuando do modo que se faz quando não se sabe o que se está a fazer. Não conseguia dar e não conseguia reter; não tinha fluidez e não tinha reserva. A atuação tornou-se uma tentativa, repetida noite após noite, de se conseguir livrar de um fardo ...Ele perdera a magia. O impulso esgotara-se. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia comunicar com a plateia. O seu talento havia morrido.

Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia, nenhuma das duas funciona mais. Houve um grande conflito a respeito do que é permissível — e uma grande revolução. Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas? Não é essa condição que outrora era simbolizada pelo cachimbo e pela cadeira de balanço. Talvez ainda seja uma espécie de afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta, por mais que a gente envelheça?

A parte final de o animal moribundo comoveu-me: experimentei alguma empatia por consuelo e pela reflexão sobre a relatividade do tempo...Aos 32 anos ela é, afinal, mais velha do que ele, com cerca de 70...É tocante o modo como a doença dela os reaproximou, oito anos depois:

- Mas tenho de ir. Alguém tem de estar com ela.
- Pensa nisso. Pensa. Porque, se fores, estás liquidado.

Consuelo, sem cabelo e sem os seus inebriantes seios, já não era apenas um corpo, era muito mais do que um animal: o fim originou um novo início...

Consuelo agora conhece a ferida da idade. Envelhecer é inimaginável para todos, menos para os idosos...Consuelo já não mede o tempo como os jovens, assinalando para trás, para quando tudo começou. Para os jovens, o tempo é feito do que é passado, mas para Consuelo o tempo é agora a medida do futuro que lhe resta. Agora mede o tempo contando para a frente. Conta o tempo pela proximidade da morte. A ilusão quebrou-se, a ilusão metronómica, o pensamento reconfortante de que,ti-tac, tudo acontece no seu devido tempo. A sua noção de tempo é agora igual à minha, acelerada e mais desamparada , até, do que a minha...

Durante quarenta anos fez o que era necessário fazer. Andou atarefado, e a natureza, que é a besta, mudou-se para uma caixa. Agora essa caixa está aberta. Ser reitor, ser pai, ser marido, ser intelectual, professor, ler livros, dar lições, corrigir textos, dar notas, tudo isso acabou. Evidentemente que já não é a vigorosa besta lúbrica que foi. Mas o que resta da besta, o que resta dessa coisa natural, é com isso que ele está agora em contacto, com o que resta. E sente-se feliz por isso, sente-se grato por estar em contacto com o que resta. Sente-se mais do que feliz: sente-se emocionado, e já está ligado, profundamente ligado a ela, por causa dessa emoção. Não é de família que se trata, a biologia já não lhe serve para nada. Não é família, não é responsabilidade, não é dever, não é dinheiro, não é uma filosofia partilhada ou o amor à literatura, não são grandes discussões de ideias. Não, o que o liga a ela é a emoção. Amanhã descobrem-lhe um cancro e acabou-se. Mas hoje, agora, tem essa emoção.

[...] Só um grande idiota sentiria que é de novo jovem. Se nos sentíssemos jovens, seria uma armadilha. Longe de nos sentirmos jovens, sentimos o tormento do futuro ilimitado dela em comparação com o nosso futuro limitado, sentimos ainda mais do que normalmente o tormento de todos os derradeiros dons que fomos perdendo. É como jogar basebol com um grupo de miúdos de vinte anos. Não que nos sintamos com vinte anos por jogarmos com eles. Notamos a diferença durante cada segundo do jogo. Mas pelo menos não estamos sentados nas linhas laterais. O que acontece é o seguinte: sentimos lancinantemente como estamos velhos, mas de uma maneira nova. Conseguem imaginar a velhice? É claro que não. Eu não conseguia. Não era capaz. Não fazia a mínima ideia de como era. Não tinha sequer uma falsa ideia - não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa qualquer. Ninguém quer enfrentar nada disto antes de não ter outro remédio. Como vai ser?
[...] É, de modo muito interessante, a primeira vez na vida em que nos encontramos inteiramente do lado de fora ao mesmo tempo que estamos nele. Observando durante todo esse tempo a nossa decadência (se temos tanta sorte como eu), encontramo-nos, graças à nossa constante vitalidade, a uma distância considerável da nossa decadência - sentimo-nos até alegremente independentes dela. Inevitavelmente, sim, inevitavelmente há uma multiplicação dos sinais que conduzem à desagradável conclusão, e no entanto, apesar disso, mantemo-nos de fora. E a ferocidade da objectividade é brutal. Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender apenas isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que ainda não são velhos ser velho significa que já fomos. Mas ser velho também significa que apesar de, além de e para lá do nosso estado de ser, ainda somos. O nosso estado de ser está muito vivo. Ainda somos e sentimo-nos tão atormentados pelo ainda-ser e pela sua plenitude como pelo já-ter-sido e pela sua qualidade de passado. Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos [...].
Há algo de fascinante no que o sofrimento moral pode fazer a alguém que nada indicia ser uma pessoa frágil ou fraca. É uma coisa ainda mais insidiosa do que a doença física pode causar, pois não há perfusão de morfina, epidural ou cirurgia radical que possam aliviá-la. Quando caímos nas suas garras, dir-se-ia que só nos libertaremos dela se nos matar.

A humilhante ignomínia que continuava a consumir alguém ainda cheio de vitalidade. O grande homem derrubado ainda a sofrer a vergonha da queda.

Reconheço eficácia narrativa a philip roth, encontrei gente conhecida e, até, senti algumas afinidades com o narrador-protagonista, professor de literatura, ator de teatro, dado a enamoramentos. No entanto, a sensualidade exacerbada, o let's fuck - como forma de emancipação e de realização pessoal- não é motivo literário que me alicie. Não por puritanismo, não por preconceito: esteticamente não me emociona, racionalmente não me seduz, pessoalmente incomoda-me sentir-me voyeur, devassadora de alcovas e de intimidades alheias. ( Gostei, todavia, mais quando reli. Muito mais...)

O homem que cai na vida chamada dissoluta, e nela se fixa mantém-se homem, cumpre o seu dever para consigo próprio que é o de se dar prazer sexual, visto que tem faculdades psíquicas e físicas que o exigem. Excusa - dada a existência da prostituição - de se intranquilisar nessa caça ao prazer; pode anular uma coisa a que os moralistas chamam «as suas faculdades superiores de amoroso», mas essas faculdades não são senão as que tendem para o sossego sexual, interpretadas através dos sonetos de Petrarca que, aliás, teve variados bastardos. Mas a mulher que ganha a vida perde a sua qualidade fundamental de mulher. Todo o tempo que gasta a trabalhar para ganhar a vida, perde-o para o seu único fim vital e psíquico, que é captar o homem. Por isso a única profissão feminina que não estraga a mulher é a de prostituta. (...) Absolutamente. A mulher que ganha a vida «honradamente» é uma invertida. O que no homem corresponde a esse desvio feminino é a inversão sexual. É o desvio do fenómeno sexual para onde o sossego é obtido pela impossibilidade natural de realizar o fenómeno sexual. Essa impossibilidade pode ser porque as relações sexuais entre homens são realmente possíveis. Mas isso é um requinte da inversão sexual normal em determinado tipo de homem, que, por si, não é anormal. Shakespeare, nos seus Sonetos, apaixonando-se por um mancebo qualquer, foi, como sempre o grande normal que ele era, e representante supremo do tipo máximo masculino, o do homem cheio de interesses e atenções para tantas coisas da vida, que não pode gastar tempo na caça ao prazer sexual normal, e por isso o substitui pelo prazer sexual dado pela amizade com outros homens levada ao requinte, visto que esses interesses da sua vida o levarão por certo a lidar mais com homens do que com mulheres.
A mulher desvia-se do seu papel normal de captar o homem. Feito isso, ela já está invertida, está homem. Safo, por exemplo, caindo no erro terrível e imoralíssimo, de, sendo mulher, escrever versos, ficou ipso facto invertida; uma vez invertida, tomou-se psiquicamente homem...


eu queria estar só. Sem mim. quero dizer , sem aquele" mim" que eu já conhecia, ou que julgava conhecer. Só , com um determinado estranho que eu já sentia obscuramente que não poderia afastar de mim, e que era eu próprio: o estranho inseparável de mim.(...) Se para os outros eu não era aquilo que até agora acreditava ser para mim, quem era eu?


As almas têm um modo especial de se entenderem, de entrarem em intimidade, de se tratarem, até, por tu, enquanto as pessoas ainda se sentem embaraçadas com o comércio das palavras, na escravidão das exigências sociais. As almas têm necessidades próprias e aspirações próprias, que o corpo finge não reconhecer quando se vê impossibilitado de as satisfazer a de as traduzir em acções. E de todas as vezes que duas pessoas comunicam entre si desta maneira, apenas como almas, se encontram a sós num qualquer lugar, experimentam uma perturbação angustiosa e quase um repúdio violento de todo e qualquer contacto material, um sofrimento que os afasta e que cessa de imediato logo que intervém uma terceira pessoa. Então, desvanecida a angústia, as duas almas aliviadas buscam-se reciprocamente e voltam a sorrir uma para a outra.







O homem, quando sofre, faz uma ideia muito especial do bem e do mal, ou seja, do bem que os outros lhe deveriam fazer e que ele pretende, como se do seu sofrimento derivasse um qualquer direito a ser compensado, e do mal que pode fazer aos outros, como se igualmente o seu sofrimento o autorizasse a praticá-lo. E se os outros não lhe fazem o bem quase por dever, ele acusa-os; e de todo o mal que ele faz, quase por direito, facilmente se desculpa.

A sensação de que me ando a dissolver ,tragicamente, numa pluralidade de seres, levou-me a este romance de pirandello, que li há quatro anos... Costumo recordar-me das circunstâncias que me impelem para a leitura de um livro, mas, neste caso, não me recordo, embora tenha a vaga e imprecisa ideia de que foi referido por GMT numa conferência na gulbenkian...Talvez.

Julga que se conhece, se não se construir de algum modo? E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira? E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira? Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento pode ser esse? Não será essa forma a própria coisa? Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou; e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente. E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas. A realidade que eu tenho para si está na forma que me dá; mas é realidade para si, não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio. Como? Construindo-me, precisamente.

O meu caso, agora, é diferente ou é o mesmo? Enquanto eu mantenho os olhos fechados, somos dois: eu aqui, e ele no espelho. Devo impedir que ao abrir os olhos, ele se torne eu e eu, ele. Eu devo vê-lo sem ser visto. Isso é possível? Assim o vir, ele me verá, e nos reconheceremos. Mas muito obrigado! Eu não quero reconhecer-me; quero conhecê-lo fora de mim. Isso é possível? Meu esforço supremo deve consistir nisso: não me ver em mim, mas ser visto por mim, com os meus próprios olhos, mas como se fosse um outro, aquele outro que todos veem e eu não vejo. Então calma, pare tudo e atenção! Após uma boa hora de conversa, entendemo-nos perfeitamente. Amanhã vem ter comigo com as mãos na cabeça, gritando:
- Como é possível? O que é que percebeu? Não me disse isto e isto?
Isto e isto, perfeitamente. Mas o problema, meu caro,é que nunca saberá nem eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que me disse. Não falou turco, não. Nós usámos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. Ao dizê-las a mim, preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensámos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos.(...) Infelizmente, meu caro, faça o que fizer, dar-me-á sempre uma realidade à sua maneira, mesmo acreditando de boa-fé que é à minha maneira; e será, não digo que não; talvez seja; mas um «à minha maneira» que eu não conheço nem poderei nunca conhecer, portanto, um «à minha maneira» para si, não um «à minha maneira para mim.


Se, por acaso, a visão dos outros não nos ajudar a constituir em nós, de algum modo, a realidade daquilo que vemos, os nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência perde-se, porque aquilo que pensamos ser a nossa coisa mais íntima, a consciência, significa os outros em nós; e não podemos sentir-nos sós.

Farei, porém, um esforço para vos dar aquela realidade que vocês julgam ter, ou seja, esforçar-me-ei por vos querer em mim como vocês se querem. Já sabemos que não é possível, dado que, por mais esforços que eu faça para vos representar à vossa maneira, será sempre «à vossa maneira» apenas para mim, não «à vossa maneira» para vocês e para os outros. Mas desculpem: se para vocês eu não tenho outra realidade fora daquela que vocês me dão, e estou pronto a reconhecer e a admitir que essa não é menos verdadeira que a que eu poderei dar a mim mesmo, que essa, para vocês, é a única verdadeira, vão lamentar-se agora da realidade que eu lhes darei, esforçando-me, com toda a boa vontade, por vos representar à vossa maneira tanto quanto me seja possível?
Não presumo que vocês sejam como eu vos represento. Já disse que vocês também não são aquele um tal como o representam para vocês próprios, mas muitos ao mesmo tempo, segundo todas as vossas possibilidades de ser e os acasos, as relações e as circunstâncias. Então, que mal é que eu vos fiz? Vocês é que me fazem mal, julgando que eu não tenho ou não posso ter outra realidade fora da que vocês me dão e que é apenas vossa, acreditem, uma ideia que vocês fizeram de mim, uma possibilidade de ser como vocês a sentem, como vos parece, como intimamente a reconhecem possível, já que daquilo que eu posso ser para mim, não só não podem saber nada, como eu mesmo nada posso saber.