28 de fevereiro de 2025 -Há cinco anos que não escrevia nada neste dia. Penso sempre no que esta tarde de sexta de Carnaval já significou para mim. Agora já não existe, sequer Carnaval, há a solidão que é uma ideia negativa... Penso que talvez seja a última vez que por aqui passo...
21 de fevereiro de 2020- Mais uma sexta de carnaval, este ano a coincidir com o dia da língua materna.
Não fui hoje à escola- roubei esta fotografia no face-book - e sinto que nunca mais irei Mais um fim, entre tantos outros.
1 de março de 2019 - Dia de máscaras na escola: visita, por obrigação. Não senti a folia, mas também já não ouvi o silêncio da tua ausência.
9 de fevereiro de 2018 - Mais um dia de carnaval numa escola que já foi a minha. Não senti qualquer apelo para subir a rampa: ninguém me espera.
Carnaval de 2017 - A explicação surgiu com uma evidência invasiva que não me deixou dormir...Foi uma revelação, depois da cegueira em que andara envolvida...Na mancha branca, começam a surgir imagens, progressivamente mais nítidas, mais reveladoras...Depois foram-se delineando letras que formaram sílabas que foram constituindo palavras...Ao princípio era o Verbo: o verbum foi matéria e a verdade surgiu, luminosa, mas terrível...Insistente, surges,difuso, estando sem estar...Mas é, afinal, o teu duplo, aquele que eu esculpi, a partir de ti...
Porque te mostras, perturbando o meu sono? A tua transparência roça-me a pele e convida-me a carícias impossíveis. Ouço-te a voz: o mesmo timbre, os mesmos sons de sempre. Ouço o teu nome: a única parte de ti que nunca se dissolve e continua real, na pureza do seu significante. Abraço o ar em que me surges e, sofregamente, beijo o nada. Como és tão real, sendo tão ilusório? Será que sempre foste como uma aparição e a nossa história ,afinal, um mero enredo de um livro por escrever?
5 de fevereiro de 2016 - Dia de máscaras, mas não fui à escola... Escolho o dia para as últimas palavras... Shana ofmbio, mi vowaqu du blas mei, pl. Mi vowa onnu sckno is du vowa mt mi blas, is du hat samiss m… nvo puth du, shanaofmbio; m no knsci du puth...
13 de fevereiro de 2015- Dia de máscaras na escola. Não vi, não vivi nada da folia... Estive sozinha numa sala gelada, a recordar...Ao fim da tarde, fui à biblioteca e senti a tua ausência.
28 de fevereiro de 2014-Dia de máscaras na escola . Agora, dois anos depois, estou sozinha, na belabiblioteca, um espaço que já foi o meu reino.... Acabou a folia, desapareceram os mascarados...Detesto estados melancólicos, mas tive saudades do passado, do presente e do futuro. Ainda faço concorrência ao teixeira de pascoaes: o saudosismo até combina bem com o meu temperamento irremediavelmente emotivo.
12 de Fevereiro de 2013- Charlot é ...o que simultaneamente está a ser visto de modo diverso por todas as lunetas. Esse – é inimitável e solitário...Tem o gosto de usar muitas máscaras a ver se esconde a sua verdadeira cara, ou antes: a ver se revela as muitas caras da sua cara..
Fevereiro de 2012 - Gosto da palavra encanto, mas os sons de desencanto arrastam-se, prolongam-se e , paradoxalmente, o encanto em desencanto é mais autêntico...Gosto de imaginar um recanto em que um encanto se encontre com o meu desencanto... Imagino esse encontro, sorrio, o meu desencanto desaparece, mas o encanto também...o encanto só existe dentro do meu desencanto.
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.
Enquanto nesta vida É possível, com subterfúgios mil, Esquecer-se (...) não pensar, Fechar-se em imaginações (...) Mas na morte — oh horror que mais eu temo! — O grande Facto iniludível jaz. Este perpétuo, dorido hesitar Do pensamento temo e (...) Não me horroriza tanto, como o ter De resolver na Morte esse problema.
O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma.
O primeiro pensamento do dia foi o reflexo de uma coincidência...que, por segundos, a perturbou, levando-a a imaginar o inimaginável...Olhou para o espelho e não foi a sua imagem que viu refletida... Era uma máscara ...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
(...)Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime...
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Máscaras:fingimento+ engano+ sonho + realidade+ ilusão+ felicidade+ frustração existencial+ incoerência + humilhação = mascarado + eu + poeta + jogador+ pierrot+ mefistófoles ...Eu sou o disfarçado, a máscara insuspeita.
Escuto-me… São cerimoniais em mim… Cortejos… Lantejoulas no meu tédio… Baile de máscaras…Assisto à minha alma com deslumbramento
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.E volto à personalidade como a um términus de linha...
Gosta de máscaras, gosta de fingimento, detesta ser confrontada com a realidade. Recusa a crueldade de uma verdade incómoda. A verdade é sempre impositiva, incómoda , revela demais, não dá possibilidade de escape, não permite ficcionar, não possibilita fingir que não se entende...Gosta de viver no engano, desde que ele a faça feliz. Gosta de jogar Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro...
Ése es mi mal. Soñar. La poesía es la camisa férrea de mil puntas cruentas que llevo sobre el alma. Las espinas sangrientas dejan caer las gotas de mi melancolía....
El mundo es una máscara: el rostro, el traje y la voz todo es fingido. La máscara no es lo que esconde el rostro humano, sino lo que desenmascara... todos quieren aparentar lo que no son, todos se engañan y nadie se conoce...
Há momentos em que se arranca a máscara...Não se suporta continuar a fingir. É , talvez, a nostalgia de um vestígio de realidade...De algo que exista mesmo, como na vida da outra gente.
Pierrot - Às vezes, de noite, certas noites, ponho-me a seguir os homens bem vestidos. Conheço-os até de longe, pelo andar: os que vivem nos meios que sonho, na elegância que me usurparam. Odeio-os! Desprezo-os! E tenho por eles uma curiosidade insaciável, sigo-os fascinado... Sei que não valem mais do que eu. Mas se um deles – qualquer! qualquer um! – me estendesse a mão e sorrisse, me dirigisse a palavra, sentiria faltar-me a voz, tremerem-me as pernas... Não, não consigo desprezá-los.
Mefistófoles – Uf!... És doente, Pierrot. Tenho de te mandar calar.
Pierrot (voltando-se brusco para Mefistófeles) – Tu... deves ser de eles. Odeio-te! desprezo-te! invejo-te! Com certeza já te segui de noite, como um rafeiro vadio...
Mefistófoles – Não exageres a doença, Pierrot. Pode tornar-se desgostante. Aliás já sabes que esses teus homens bem vestidos não passam de cabides.
Pierrot – Com certeza já te segui de noite! Tens bom ar, tens o tipo...
Mefistófoles – (erguendo-se) – De bom grado satisfarei um dos teus caprichos dessas noites. (Curva-se ligeiramente, estende-lhe a mão.)
Pierrot (de braços caídos, hirto) – Cobarde!
Mefistófoles – (olha um instante a própria mão estendida, baixa o braço) – eu devia saber que Mefistófeles não pode dar esmolas.
Pierrot – A não ser para humilhar.
Há mulheres que(...) não têm interior, são puras máscaras, (...) seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas capazes de despertar, da maneira mais intensa, o desejo de um homem: ele procura a sua alma - e continuará para sempre a procurar
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Aquela falsa e triste semelhança Entre quem julgo ser e quem eu sou...Despir a alma postiça como a um traje.Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar.
Nada existia naquele rosto que não fosse a mera superfície da beleza.Parecia que as íris fulguravam como sob o poder de um forte pensamento, mas,vendo bem,apenas espelhavam a claridade vinda do exterior...
Ah quantas máscaras e submáscaras, Usamos nós no rosto de alma, e quando, Por jogo apenas, ela tira a máscara, Sabe que a última tirou enfim? De máscaras não sabe a vera máscara, E lá de dentro fita mascarada. Que consciência seja que se afirme, O aceite uso de afirmar-se a ensona. Como criança que ante o espelho teme, As nossas almas, crianças, distraídas, Julgam ver outras nas caretas vistas E um mundo inteiro na esquecida causa; E, quando um pensamento desmascara, Desmascarar não vai desmascarado.
É Carnaval, e estão as ruas cheias De gente que conserva a sensação, Tenho intenções, pensamento, ideias, Mas não posso ter máscara nem pão. Esta gente é igual, eu sou diverso — Mesmo entre os poetas não me aceitariam. Às vezes nem sequer ponho isto em verso — E o que digo, eles nunca assim diriam. Que pouca gente a muita gente aqui! Estou cansado, com cérebro e cansaço. Vejo isto, e fico, extremamente aqui Sozinho com o tempo e com o espaço. Detrás de máscaras nosso ser espreita, Detrás de bocas um mistério acode Que meus versos anódinos enjeita. Sou maior ou menor? Com mãos e pés E boca falo e mexo-me no mundo. Hoje, que todos são máscaras, és Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Gostar de estar vivo dói. Gostar dói... Estar dói...Viver dói...Ser dói...
Olha, tenho as mãos em febre...Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso Porque se eu te tivesse como te quereria ter (Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico) Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder... Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá... Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto... Minha lantejoula, minha casa de bonecas, Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis! Ó meu regimento que passa com a banda à frente, Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...Ó minha (...)
Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena acção interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena acção externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.
Ódio da introspeção ativa. Explicações da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela razão; hoje estou assim e assado, por qualquer outra razão. Não é verdade, nem por esta razão nem por aquela razão, e por isso também nem assim nem assado. Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão.
Creio que, desde muito pequeno, a minha infelicidade e, ao mesmo tempo, a minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a estilhaçar-me...Em suma, desde pequeno,a minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia da minha relação com o mundo. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.
Nunca gostou de circo...Sempre detestou palhaços e palhaçadas, o circo sempre foi um espectáculo deprimente. Não quer ser um "palhaço sem riso"
Não há outro pecado além da estupidez, disse wilde.
A estupidez insiste sempre, disse camus.
A universidade desenvolve(...) inclusive a estupidez, disse tchekhov.
O homem é um castelo feito feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma., disse teixeira de pascoaes.
Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez.A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem.
No circo cheio de luz Há tanto que ver!...«Senhores!» — Grita o palhaço da entrada,Todo listrado de cores —«Entrai, que não custa nada!» «À saída é que se paga» (E eu sou aquele palhaço Com listras!, e estardalhaço, Chamando público...) Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio!...Ri, palhaço! Ri..., ri de ti para os outros, Ri dos outros para ti, Ri de ti para ti... ri!, Ri dos outros para os outros...,Ri, arre!, ri, irra!, ri! (E eu sou, também, esse ...Que à força de desejar Transformou em realidade O seu desejo. Na verdade..., Sim, na verdade, não vejo Porque me não enganar...
Os artistas de circo são superiores a mim Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo E dão os saltos só por os dar E eu se desse um salto havia de querer saber porque o dava E não os dando entristecia-me Eles não são capazes de dizer como é que os dão Mas saltam como só eles sabem saltar E nunca perguntaram a si-mesmos se realmente saltam Porque eu quando vejo alguma coisa Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam E se as visse também podia supor que elas sucedia...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído
Don’t lie to yourself. The man who lies to himself and listens to his own lie comes to a point that he cannot distinguish the truth within him, or around him, and so loses all respect for himself and for others.
Eu vejo-me como um ser humano sensível e inteligente, mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes.
O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga ao jogo da seriedade para melhor esconder a loucura.
Os deuses vão-se como forasteiros.Como uma feira acaba a tradição. Somos todos palhaços estrangeiros.A nossa vida é palco e confusão
Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!
Sexta de carnaval de 2012 ...Dia de máscaras na escola ...
Neste dia foi possuída por um deslumbramento... Que linda palavra...sente-a dentro de si... De repente o teu nome ficou enorme cresceu em letras gigantes dentro do meu espaço. Sinto prazer de olhar as letras enormes do teu nome. Gosto do teu nome, é bonito. Foi como uma inesperada aparição e ... ficou deslumbrada...
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 1 de março de 2019
domingo, 8 de julho de 2018
Arte de viver...
Dias de aniversário
Os dias de aniversário são uma espécie de cemitérios afetivos. Significam, como qualquer outro dia, a evidência de que se está vivo, o que - partindo do princípio de que, apesar de tudo, se valoriza o andar por aqui- é um bom sinal. No entanto, obrigam a rememorar, a comparar, o que me faz sempre pensar, nem sei bem porquê, nas eternas solenes sessões oficiais, em homenagem aos mortos na primeira grande guerra mundial ...
Ai o tempo: neste dia percorrem-se anos e anos, as vinte e quatro horas convertem-se em trezentos e sessenta e cinco dias, multiplicados pelo período epocal que a nossa memória alcança. É uma espécie de milagre da multiplicação dos dias... O tempo passado agiganta-se, esmaga-nos , o presente é, subitamente, invadido por essa massa amorfa de horas, minutos e segundos, e o futuro fica ameaçadoramente mais reduzido...Mais reduzido ou gigantesco?
"Foi Marlowe quem trouxe para a grande literatura essa solitária experiência de dor que é a tragédia do Doutor Fausto. Nesta figura, projeta o dramaturgo inglês uma linha de compreensão da natureza humana como excesso e paixão, devir e mudança, exuberância e individualismo revolto, que expressa bem a ousada aspiração do renascimento nos campos científico, político, ético e estético.
Marlowe dramatiza o choque entre a aspiração do Homem e a imobilidade divinamente organizada pela Criação, choque onde se joga o importante meditar marloviano sobre a utilização da Magia como modo de aquisição de conhecimento."
Uma particularidade deste Doutor Fausto, publicado em 1604, mas escrito em 1588 ou 1592, é a referência a dois anjos: o Anjo Bom e o Anjo Mau. Há cenas muito parecidas com o Auto da Alma, escrito por Gil Vicente em 1508. Como se justificará esta similitude? Uma fonte comum aos dois dramaturgos? Mera coincidência?
Fausto - Escura é a filosofia,/ Direito e medicina são para os mesquinhos,/ De todas a mais baixa é a teologia, / Enfadonha, rude, vil e desprezível./ É a magia , só a magia, que me encanta.
Perguntas de Fernando Pessoa: O que são os graus místicos, mágicos e alquímicos? O que é o subgrau de Senhor do Limiar? (A confusão psíquica em Cagliostro, Blavastzky, Crowley, é isso?) É o uso da magia uma tentação a evitar? Ou uma força?Caeiro é um acto mágico? E outros assim? A criação artística (ou filosófica) é um acto alquímico (ou mágico?)
OMAR [KHAYYAM] -Por que obscura magia é que esse persa longínquo manda tão diversamente sobre as nossas almas? Que potência de encantamento jaz viva na sepultura do seu tédio? Ah, é que real ou facticiamente, nele ou em Fitzgerald por ele, falou, melhor que em qualquer outro, a voz completa do tédio inteiro, não do tédio que está cansado de viver, mas do tédio que está cansado de ser. Cansado de ser, não como o Buda, que renega a vida porque é pouco, mas de outro modo — o de quem renega a vida porque é tudo.
Repara bem que a obra que te propões fazer é no mais alto de tudo. Sonhar é encontrarmo-nos. Vais ser o Colombo da tua alma. Vais buscar as suas paisagens. Cuida bem pois em que o teu rumo seja certo e não possam errar os teus instrumentos.A arte de sonhar é difícil porque é uma arte de passividade, onde o que é de esforço é na concentração da ausência de esforço. A arte de dormir se a houvesse, deveria ser de qualquer forma parecida com esta.
Repara bem: a arte de sonhar não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si próprio, deixa-se possuir por si próprio.Foge a todas as provocações materiais. Há no início a tentação de te masturbares. Há a do álcool, a do ópio, a do (...). Tudo isso é esforço e procura. Para seres um bom sonhador, tens de não ser senão sonhador. Ópio e morfina compram-se nas farmácias — como, pensando nisto queres poder sonhar através deles? Masturbação é uma coisa física — como queres tu que (...)Que te sonhes masturbando-te, vá; que em sonhar talvez fumando ópio, recebendo morfina te embriagues da ideia do ópio (...) da morfina dos sonhos — não há senão que elogiar-te por isso: estás no teu papel áureo de sonhador perfeito.
Julga-te sempre mais triste e mais infeliz do que és. Isso não faz mal. E mesmo, por ilusão, um pouco escadas para o sonho.
Não verei certamente esta forma de viver a arte. Não acho esta genialidade nada "gira"...Nada. Não me identifico com formas degradantes e decadentes de exibir, digo exibir, a diferença e de reduzir todos os que se esforçam por não sucumbir à dor de pensar a burgueses desinteressantes...
Não gosto de ver gente fraca , por muito talento que tenha, ser eudeusada... gente que se autodestrói e destrói os jovens que lhes seguem o exemplo, numa tentativa inconsequente de serem" artistas"...
A arrogância com que exibem, repito exibem, a sua forma " livre" e anticonvencional de ser e de existir irrita-me.
Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.
Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilh açava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.
Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.
Sentia-se finalmente a começar a ser um professor, que é simplesmente um homem para quem o livro é verdadeiro, que é simplesmente a quem é dada a dignidade artística que pouco tem a ver com a sua tolice ou fraqueza ou insuficiência enquanto homem. Era um conhecimento sobre o qual não podia falar, mas que o transfigurara assim que o adquirira, uma transfiguração que saltava aos olhos de qualquer pessoa.
Tinham chegado aquele ponto na vida juntos em que raramente falavam de si próprios ou um do outro,para não quebrarem o delicado equilíbrio que tornava essa vida possível.
Terceiro Ato, Cena quatro – disse Masters. – E, assim, a providência, ou a sociedade, ou o destino, ou seja qual for o nome que lhe quiserem dar, criou este telheiro para nós, para nos abrigarmos da tempestade. É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Enumeramos as razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos. Tal como a Igreja na Idade Média, que se estava nas tintas para a laicidade ou inclusive para Deus, também nós temos as nossas pretensões para podermos sobreviver. E sobreviveremos… porque temos de o fazer.
Enterrou-a ao lado do pai. Terminada a cerimónia fúnebre, e depois de os poucos convidados terem partido, Stoner ficou sozinho, no vento frio de novembro, a olhar para as duas campas, uma aberta, tendo acabado de receber o seu fardo, e a outra coberta de terra e ervas penugentas. Virou as costas ao pequeno cemitério árido e sem árvores, onde jaziam outras pessoas como os seus pais, e olhou para a extensão de terra plana, na direção da quinta onde nascera, onde os pais tinham passado a vida inteira. Pensou no preço que a terra, ano após ano, exigira; e continuava como sempre fora… um pouco mais árida, um pouco mais frugal. Nada mudara. As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia. Lentamente, a humidade e a putrefação infestariam os caixões de pinho que continham os seus corpos e, lentamente, tocariam a pele deles e, por fim, consumiriam os últimos vestígios da sua essência. E eles tornar-se-iam uma parte insignificante dessa terra obstinada à qual se tinham entregado de corpo e alma, havia muito.
Só uma vez teve notícia de Katherine. No início da primavera recebeu uma circular da editora de uma grande universidade do leste do país, que anunciava a publicação do livro de K. e trazia umas palavrinhas sobre a autora. Lecionava numa boa faculdade de letras em Massachusetts; era solteira. Comprou um exemplar do livro assim que pôde.Quando o teve nas mãos, os seus dedos pareciam ganhar vida; tremiam de tal maneira que teve dificuldade em abri-lo. Folheou as primeiras páginas e viu a dedicatória: "Para W.S." Os olhos turvaram-se-lhe e durante muito tempo ficou sentado sem se mexer.
Desejara ser professor e assim fora e, no entanto, sabia, sempre soube, que durante a maior parte da sua vida fora um professor indiferente. Sonhara com a integridade, um tipo de pureza total, mas encontrara o meio-termo e a distração assoladora da banalidade. Ansiara pela sabedoria e, ao fim de tantos anos, de parara com a ignorância. E que mais? , pensou. Que mais?
Estou de acordo com julian Barnes: " Um romance formidável de uma latejante tristeza." A passividade, o conformismo, a aceitação,o "sem raiva nem alegria" do professor Stoner sintetizam, quanto a mim, a essência deste romance que poderia ter como subtítulo " o silêncio"...
O centro neurológico do Professor Bestombes fazia o verdadeiro lugar do intenso fervor patriótico, por assim dizer o seu foco.
Este professor terá inspirado Lenz?
Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual.Num meio diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso...eu descobrira que nada me impediria de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma.
Em todo o nosso passado ridículo descobrimos tanto ridículo, tanta aldrabice, tanta credulidade, que talvez desejássemos acabar de vez com isso de sermos jovens, esperar que a juventude de desprenda, esperar que nos ultrapasse, vê-la ir-se,afastar-se,olhar para toda a sua vaidade, chegar com a mão ao seu vazio, vê-la passar de novo à nossa frente e depois partirmos nós, ficarmos certos de que realmente a juventude se foi e tranquilamente , pelo caminho que é muito nosso, passarmos vagarosamente para o lado de lá do Tempo, e então observarmos como as pessoas e as coisas realmente são.
O manicómio de Vigny-sur-Seine nunca desenchia lá muito. Nos jornais intitulavam-no "Casa de Saúde" por causa de um grande jardim que o rodeava e onde os nossos loucos passeavam quando fazia bom tempo. Passeavam, os loucos, com um estranho ar de quem achava difícil equilibrar a cabeça sobre os ombros, como se tivessem medo de tropeçar e espalhar o seu conteúdo no chão(...) Só nos falavam dos seus tesouros mentais, os alienados, com uma porção de contorções horrorizadas ou ares condescendentes e protectores, como se fossem muito poderosos e meticulosos administradores. Nem um império faria aquela gente abdicar das suas cabeças.Um louco não passa de vulgares ideias de homem, embora bem fechadas numa cabeça. Uma cabeça bem fechada transforma-se numa espécie de lago sem rio, numa infecção.
As oitenta e tal páginas finais, em que conhecemos o Dr. Baryton, "o patrão do manicómio" , a " casa de saúde", a loucura dos doentes e a dos psiquiatras, a indiferença da enfermeira Sophie, a loucura de quem não está internado, são um remate excecional de um dos romances mais desencantados sobre a condição humana que já li. Uma breve e ténue nota de otimismo: a fuga do Dr. Baryton que entrega a casa ao narrador...Será que só a literatura nos pode salvar?
(Recomendado por GMT, como contraponto à Viagem de Céline que nos "obrigou" a ler...Registo a sinopse da Wook. O romance fica em lista de espera,não sei até quando, mais um...)
"Se quiseres encontrar-te, começa por te perder, escreveu um dia Jacques Lanzmann. O Rato da América, relato autobiográfico retocado pelas exigências formais e literárias da ficção, é desta fatalidade maior exemplo. Lanzmann […] fala-nos dos dias em que se perdeu noutro continente, desiludido numa esperança, vergado pelo destino do rato da América — entenda-se a expressão como ajustada ao emigrante ou ao autóctone sul-americano com dias rastejados por baixos expedientes e duras tarefas impostas à sua condição humana. […] O Rato da América pôs a segunda pedra no percurso de um escritor que chegaria ao fim da vida com o respeitável número de quarenta e seis romances e narrativas publicados.[…] Os comunistas, jovens e velhos, fizeram do livro um triunfo. Era previsível; através de um herói deserdado eu ocupava-me da luta de classes. Não era, de facto, O Germinal, mas grande parte da sua história desenrolava-se numa mina. Orgulhoso com este apreço das massas trabalhadoras, deixei-me ir na onda de uns e outros, ao ponto de aderir ao Partido alguns dias depois de me casar [com uma fervorosa militante]. Sentiria eu necessidade de estar enquadrado? Talvez estivesse farto de me arrastar pelos cafés.[…] palavras suas para uma canção de Dutronc tinham avisado: De tanto bater, o meu coração parou. O coração de Lanzmann parou de bater em Junho de 2006. Ele tinha acabado de publicar o romance Uma Vida de Família, a vida que a idade acabara por lhe apontar como inevitável e ele vivia calmamente ali, em Montparnasse, rodeado por memórias de uma imparável agitação vital. [Aníbal Fernandes]"
"Foi Marlowe quem trouxe para a grande literatura essa solitária experiência de dor que é a tragédia do Doutor Fausto. Nesta figura, projeta o dramaturgo inglês uma linha de compreensão da natureza humana como excesso e paixão, devir e mudança, exuberância e individualismo revolto, que expressa bem a ousada aspiração do renascimento nos campos científico, político, ético e estético.
Marlowe dramatiza o choque entre a aspiração do Homem e a imobilidade divinamente organizada pela Criação, choque onde se joga o importante meditar marloviano sobre a utilização da Magia como modo de aquisição de conhecimento."
Uma particularidade deste Doutor Fausto, publicado em 1604, mas escrito em 1588 ou 1592, é a referência a dois anjos: o Anjo Bom e o Anjo Mau. Há cenas muito parecidas com o Auto da Alma, escrito por Gil Vicente em 1508. Como se justificará esta similitude? Uma fonte comum aos dois dramaturgos? Mera coincidência?
Fausto - Escura é a filosofia,/ Direito e medicina são para os mesquinhos,/ De todas a mais baixa é a teologia, / Enfadonha, rude, vil e desprezível./ É a magia , só a magia, que me encanta.
Perguntas de Fernando Pessoa: O que são os graus místicos, mágicos e alquímicos? O que é o subgrau de Senhor do Limiar? (A confusão psíquica em Cagliostro, Blavastzky, Crowley, é isso?) É o uso da magia uma tentação a evitar? Ou uma força?Caeiro é um acto mágico? E outros assim? A criação artística (ou filosófica) é um acto alquímico (ou mágico?)
OMAR [KHAYYAM] -Por que obscura magia é que esse persa longínquo manda tão diversamente sobre as nossas almas? Que potência de encantamento jaz viva na sepultura do seu tédio? Ah, é que real ou facticiamente, nele ou em Fitzgerald por ele, falou, melhor que em qualquer outro, a voz completa do tédio inteiro, não do tédio que está cansado de viver, mas do tédio que está cansado de ser. Cansado de ser, não como o Buda, que renega a vida porque é pouco, mas de outro modo — o de quem renega a vida porque é tudo.
Repara bem que a obra que te propões fazer é no mais alto de tudo. Sonhar é encontrarmo-nos. Vais ser o Colombo da tua alma. Vais buscar as suas paisagens. Cuida bem pois em que o teu rumo seja certo e não possam errar os teus instrumentos.A arte de sonhar é difícil porque é uma arte de passividade, onde o que é de esforço é na concentração da ausência de esforço. A arte de dormir se a houvesse, deveria ser de qualquer forma parecida com esta.
Repara bem: a arte de sonhar não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si próprio, deixa-se possuir por si próprio.Foge a todas as provocações materiais. Há no início a tentação de te masturbares. Há a do álcool, a do ópio, a do (...). Tudo isso é esforço e procura. Para seres um bom sonhador, tens de não ser senão sonhador. Ópio e morfina compram-se nas farmácias — como, pensando nisto queres poder sonhar através deles? Masturbação é uma coisa física — como queres tu que (...)Que te sonhes masturbando-te, vá; que em sonhar talvez fumando ópio, recebendo morfina te embriagues da ideia do ópio (...) da morfina dos sonhos — não há senão que elogiar-te por isso: estás no teu papel áureo de sonhador perfeito.
Julga-te sempre mais triste e mais infeliz do que és. Isso não faz mal. E mesmo, por ilusão, um pouco escadas para o sonho.
Não verei certamente esta forma de viver a arte. Não acho esta genialidade nada "gira"...Nada. Não me identifico com formas degradantes e decadentes de exibir, digo exibir, a diferença e de reduzir todos os que se esforçam por não sucumbir à dor de pensar a burgueses desinteressantes...
Não gosto de ver gente fraca , por muito talento que tenha, ser eudeusada... gente que se autodestrói e destrói os jovens que lhes seguem o exemplo, numa tentativa inconsequente de serem" artistas"...
A arrogância com que exibem, repito exibem, a sua forma " livre" e anticonvencional de ser e de existir irrita-me.
Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.
Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilh açava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.
Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.
Sentia-se finalmente a começar a ser um professor, que é simplesmente um homem para quem o livro é verdadeiro, que é simplesmente a quem é dada a dignidade artística que pouco tem a ver com a sua tolice ou fraqueza ou insuficiência enquanto homem. Era um conhecimento sobre o qual não podia falar, mas que o transfigurara assim que o adquirira, uma transfiguração que saltava aos olhos de qualquer pessoa.
Tinham chegado aquele ponto na vida juntos em que raramente falavam de si próprios ou um do outro,para não quebrarem o delicado equilíbrio que tornava essa vida possível.
Terceiro Ato, Cena quatro – disse Masters. – E, assim, a providência, ou a sociedade, ou o destino, ou seja qual for o nome que lhe quiserem dar, criou este telheiro para nós, para nos abrigarmos da tempestade. É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Enumeramos as razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos. Tal como a Igreja na Idade Média, que se estava nas tintas para a laicidade ou inclusive para Deus, também nós temos as nossas pretensões para podermos sobreviver. E sobreviveremos… porque temos de o fazer.
Enterrou-a ao lado do pai. Terminada a cerimónia fúnebre, e depois de os poucos convidados terem partido, Stoner ficou sozinho, no vento frio de novembro, a olhar para as duas campas, uma aberta, tendo acabado de receber o seu fardo, e a outra coberta de terra e ervas penugentas. Virou as costas ao pequeno cemitério árido e sem árvores, onde jaziam outras pessoas como os seus pais, e olhou para a extensão de terra plana, na direção da quinta onde nascera, onde os pais tinham passado a vida inteira. Pensou no preço que a terra, ano após ano, exigira; e continuava como sempre fora… um pouco mais árida, um pouco mais frugal. Nada mudara. As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia. Lentamente, a humidade e a putrefação infestariam os caixões de pinho que continham os seus corpos e, lentamente, tocariam a pele deles e, por fim, consumiriam os últimos vestígios da sua essência. E eles tornar-se-iam uma parte insignificante dessa terra obstinada à qual se tinham entregado de corpo e alma, havia muito.
Só uma vez teve notícia de Katherine. No início da primavera recebeu uma circular da editora de uma grande universidade do leste do país, que anunciava a publicação do livro de K. e trazia umas palavrinhas sobre a autora. Lecionava numa boa faculdade de letras em Massachusetts; era solteira. Comprou um exemplar do livro assim que pôde.Quando o teve nas mãos, os seus dedos pareciam ganhar vida; tremiam de tal maneira que teve dificuldade em abri-lo. Folheou as primeiras páginas e viu a dedicatória: "Para W.S." Os olhos turvaram-se-lhe e durante muito tempo ficou sentado sem se mexer.
Desejara ser professor e assim fora e, no entanto, sabia, sempre soube, que durante a maior parte da sua vida fora um professor indiferente. Sonhara com a integridade, um tipo de pureza total, mas encontrara o meio-termo e a distração assoladora da banalidade. Ansiara pela sabedoria e, ao fim de tantos anos, de parara com a ignorância. E que mais? , pensou. Que mais?
Estou de acordo com julian Barnes: " Um romance formidável de uma latejante tristeza." A passividade, o conformismo, a aceitação,o "sem raiva nem alegria" do professor Stoner sintetizam, quanto a mim, a essência deste romance que poderia ter como subtítulo " o silêncio"...
O centro neurológico do Professor Bestombes fazia o verdadeiro lugar do intenso fervor patriótico, por assim dizer o seu foco.
Este professor terá inspirado Lenz?
Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual.Num meio diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso...eu descobrira que nada me impediria de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma.
Em todo o nosso passado ridículo descobrimos tanto ridículo, tanta aldrabice, tanta credulidade, que talvez desejássemos acabar de vez com isso de sermos jovens, esperar que a juventude de desprenda, esperar que nos ultrapasse, vê-la ir-se,afastar-se,olhar para toda a sua vaidade, chegar com a mão ao seu vazio, vê-la passar de novo à nossa frente e depois partirmos nós, ficarmos certos de que realmente a juventude se foi e tranquilamente , pelo caminho que é muito nosso, passarmos vagarosamente para o lado de lá do Tempo, e então observarmos como as pessoas e as coisas realmente são.
O manicómio de Vigny-sur-Seine nunca desenchia lá muito. Nos jornais intitulavam-no "Casa de Saúde" por causa de um grande jardim que o rodeava e onde os nossos loucos passeavam quando fazia bom tempo. Passeavam, os loucos, com um estranho ar de quem achava difícil equilibrar a cabeça sobre os ombros, como se tivessem medo de tropeçar e espalhar o seu conteúdo no chão(...) Só nos falavam dos seus tesouros mentais, os alienados, com uma porção de contorções horrorizadas ou ares condescendentes e protectores, como se fossem muito poderosos e meticulosos administradores. Nem um império faria aquela gente abdicar das suas cabeças.Um louco não passa de vulgares ideias de homem, embora bem fechadas numa cabeça. Uma cabeça bem fechada transforma-se numa espécie de lago sem rio, numa infecção.
As oitenta e tal páginas finais, em que conhecemos o Dr. Baryton, "o patrão do manicómio" , a " casa de saúde", a loucura dos doentes e a dos psiquiatras, a indiferença da enfermeira Sophie, a loucura de quem não está internado, são um remate excecional de um dos romances mais desencantados sobre a condição humana que já li. Uma breve e ténue nota de otimismo: a fuga do Dr. Baryton que entrega a casa ao narrador...Será que só a literatura nos pode salvar?
(Recomendado por GMT, como contraponto à Viagem de Céline que nos "obrigou" a ler...Registo a sinopse da Wook. O romance fica em lista de espera,não sei até quando, mais um...)
"Se quiseres encontrar-te, começa por te perder, escreveu um dia Jacques Lanzmann. O Rato da América, relato autobiográfico retocado pelas exigências formais e literárias da ficção, é desta fatalidade maior exemplo. Lanzmann […] fala-nos dos dias em que se perdeu noutro continente, desiludido numa esperança, vergado pelo destino do rato da América — entenda-se a expressão como ajustada ao emigrante ou ao autóctone sul-americano com dias rastejados por baixos expedientes e duras tarefas impostas à sua condição humana. […] O Rato da América pôs a segunda pedra no percurso de um escritor que chegaria ao fim da vida com o respeitável número de quarenta e seis romances e narrativas publicados.[…] Os comunistas, jovens e velhos, fizeram do livro um triunfo. Era previsível; através de um herói deserdado eu ocupava-me da luta de classes. Não era, de facto, O Germinal, mas grande parte da sua história desenrolava-se numa mina. Orgulhoso com este apreço das massas trabalhadoras, deixei-me ir na onda de uns e outros, ao ponto de aderir ao Partido alguns dias depois de me casar [com uma fervorosa militante]. Sentiria eu necessidade de estar enquadrado? Talvez estivesse farto de me arrastar pelos cafés.[…] palavras suas para uma canção de Dutronc tinham avisado: De tanto bater, o meu coração parou. O coração de Lanzmann parou de bater em Junho de 2006. Ele tinha acabado de publicar o romance Uma Vida de Família, a vida que a idade acabara por lhe apontar como inevitável e ele vivia calmamente ali, em Montparnasse, rodeado por memórias de uma imparável agitação vital. [Aníbal Fernandes]"
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quinta-feira, 7 de junho de 2018
Pesadelos e enamoramentos......
Remember this... Don't let a fool kiss you Never marry for love...
I wish I had the guts to bum one, but we've never met, And I hope that I don't fall in love with you... and you look back at me, The guy you're with has up and splits, the chair next to you's free, And I hope that you don't fall in love with me...
Pensar-te e pensar em tudo o que não li nem lerei é um só pesadelo: o meu...
Europa - Isto começou assim. Eu cá nunca tinha dito nada.Nada. Foi o Arthur Ganate que me fez falar. Arthur, estudante, de Medicina como eu, um colega. Encontrámo-nos, por sinal, na praça Clichy.
O amor é o infinito posto ao alcance dos cachorrinhos, e eu cá tenho a minha dignidade!
Quem saberia prever, antes de entrar verdadeiramente na guerra, tudo quanto esconde a alma sórdida, heróica e calaceira dos homens?
África - Os crepúsculos daquele inferno africano revelavam-se famosos... Durante uma hora o céu exibia-se de uma ponta a outra com um escarlate delirante, e depois o verde abria no meio das árvores e subia do solo em listas trémulas até às primeiras estrelas.
É precisos roubá-los antes que nos roubem, o comércio é isto, mais nada.
Tudo rouba minha gente.
América - o Dólar, um verdadeiro Espírito Santo, mais precioso do que o sangue.(...) Quando os fiéis entram no banco...falam ao Dólar murmurando -lhe coisas através de uma rede estreita, a bem dizer confessando-se .... Não engolem a Hóstia: encostam-na ao coração.
Os pobres são iguais em todo o lado...
Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos, estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar de coisas familiares, eu descobrira que nada me impediria de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão.
Tem presença de um nível de língua que me desagrada : o que ,no início do século passado, era, em termos de linguagem, uma inovação, um atrevimento, uma ousadia rebelde e criativa, um século depois é a banalidade a imiscuir-se e a macular numa obra, de facto, excecional...Depois da elevação da prosa de Régio, mergulhar no bas-fonds de Paris é violento...
"Céline é um daqueles autores aos quais não passamos incólumes. Seja por se ter celebrizado como apoiante das mais hediondas políticas anti-semitas,seja,é isto sim importa relevar,por se tratar de uma das vozes mais lúcidas,claras e corajosas da história recente da literatura universal. Viajem ao fim da noite é um livro com cariz inegavelmente auto-biográfico, escuro, pessimista e que nos deixa,muitas vezes,sem sangue. A misantropia do autor fá-lo percorrer sem hesitação o absurdo e o grotesco do colonialismo europeu,a artificialidade do sonho americano e a hipocrisia social vigente na primeira metade do século XX. Esteticamente é incomparável e inovador,o que, inicialmente,causa alguma estranheza e necessita de um (breve) período de adaptação. A linguagem é crua,direta e com uma oralidade tremendamente realista. O resultado final é absolutamente memorável,e não deve haver consideração pessoal ou política que nos deva impedir de o ler. " Fabio Lavos Martins
Take the highway to the end of the night End of the night End of the night Take a journey to the bright midnight End of the night
Quando era adolescente, Lobo Antunes escreveu a Céline. E o francês respondeu-lhe. Isto começou assim: António Lobo Antunes tinha 14 ou 15 anos quando o pai lhe deu para ler, na versão original, “Morte a Crédito”, de Louis-Ferdinand Céline. Era um médico a dar um livro escrito por um médico a um filho que viria a ser médico. António leu-o e teve um dos seus “primeiros deslumbramentos”. Mais tarde leu “Viagem ao Fim da Noite” e Céline foi vital. “É um dos grandes escritores do século XX e, em Portugal, é muito mal conhecido ou então não é compreendido.”
“Aprendi a escrever muito cedo. Foi a minha mãe que nos ensinou a ler a todos. O meu pai começou a dar-me livros para ler, e eu ia lendo. Aos 13 ou 14 anos, ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, do Céline, e eu fiquei deslumbrado. Pensei: "O que se pode fazer com as palavras!" Escrevi uma carta ao Céline a pedir-lhe um retrato, como se ele fosse um ator de cinema. Ele respondeu-me e andei anos com o envelope no bolso, onde ele tinha escrito o meu nome. Foi uma alegria tão grande! Ele a dizer: "Queres ser escritor? Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.Não tenho fotografia porque não sou ator de cinema. Mas se queres ser escritor vê lá porque depois não podes ir ao cinema, não podes ter namoradas, não podes não sei lá o quê… Porque escrever é uma coisa muito difícil e exige muito tempo, tens que passar a vida agarrado ao livro…’" Nunca mais me esqueço disto: eu ter escrito uma carta ao Céline e ele ter-me respondido...”
I thought as much 'Cause you turned over there Pulling that silent disappointment face The one that I can't bea...
It's bugging me Grating me And twisting me around Yeah I'm endlessly Caving in And turning inside ...
" De toda essa obra séria e profunda que é a de Régio, nada até agora me pareceu sê-lo tão completamente como este volume." Adolfo Casais Monteiro
O tema é a viagem humana no sentido da perfeição: sempre inatingível, sem procurada.
Régio recusa a acusação narcisismo dos seus detractores: ao confessar-se, propõe-se seguir o modelo do seu personagem (o Príncipe Leonel do romance O Príncipe com Orelhas de Burro) que diz ao seu povo, falando-lhes na «praça pública»: «vou-vos fazer uma confissão e dar um exemplo». Tirando o turbante, diante da multidão atónita, o príncipe quer revelar a sua monstruosidade até aí escondida – as orelhas de burro - , mostrando-se, por fim, nu e verdadeiro – assim inaugura um reino de transparência nas suas relações com o seu povo. Régio considera que na sua confissão não há complacência narcísica, mas um desejo de transparência e verdade.
https://www.luso-livros.net/wp-content/uploads/2014/08/O-Principe-com-Orelhas-de-Burro-Jose-Regio.pdf
SINOPSE: "Não pode ser considerado em paralelo com qualquer outra obra do nosso tempo, em Portugal [...], é uma obra destinada a ficar como uma grande data da nossa literatura. José Régio encheu o seu livro de quadros e retratos em que se revela toda a sua lucidez de moralista, e também toda a força da sua criação poética; quadros e retratos em que os mais diversos tipos de humanidade perpassam, mas que são sobretudos magníficos como sátira e como crítica de costumes. Régio pretendeu dar-nos um microcosmos em que cada paixão, cada tipo humano, tivesse a sua representação."
Como quase todos os infelizes ligados por uma desgraça comum e odiada, cada um via no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentemos que...cada um tendia a ver no outro o próprio causador do infortúnio. Este mútuo ressentimento ia a pontos de já nem poder o triste casal escondê-lo...
"Poetas, porque vos não libertais dos vossos segredos? Que medo tendes de vos abrir? As palavras e as imagens, as rimas e os ritmos, as anedotas dos vossos poemas, suficientemente esconderão a vossa nudez; suficientemente protegerão o vosso pudor ou a vossa cobardia. E a vossa terrível nudez presente e oculta, dará aos vossos poemas uma força que os cegos não saberão donde vem, e, todavia, sentirão..." Eis a inútil lição de Rolão Rebolão aos seus confrades...
De modo que, por uma delicada, e, neste caso, inconscientemente genial adulação, desde tenra idade todos os filhos dos nobres da corte tinham também passado a usar turbantes, que mantinham em toda e qualquer eventualidade; como se todos tivessem orelhas de burro que devessem andar escondidas!... Mas esta moda foi ainda fortificada pelo seguinte: Reparara qualquer nobre dama da corte, mãe de família, que o sítio onde toda a gente tem as suas orelhas naturais e normais — era, na cabecinha do príncipe, de tal modo embrulhado em ricos tecidos, de forma a que nem pontinha das suas certamente naturais e normais orelhas fora alguma vez vista! Vá, então, de capricharem as mais elegantes donas da corte em nada deixar ver das orelhas dos seus nobres filhos! O que, perdoe-se-me a insistência, pudera atrair a inaceitável suposição de terem todos eles orelhas de burro a esconder...
A qualquer homem não dará a indumentária (e particularissimamente a um príncipe) uma superior confiança em si próprio e um superior contentamento de si próprio, uma noção mais pertinente da sua posição social e adstritas responsabilidades civis, —
consequentemente, um maior rendimento da sua atividade e uma bem mais entusiasta dedicação ao exercício das suas funções?E não será esta a razão profunda do uso de fardas, librés, uniformes?
Assente a sociedade sobre convenções necessárias, firmada toda a vida de relação em necessárias ilusões e miragens, (sejamos corajosos e digamos tudo: entronizado este mundo no altar da imprescindível e triunfante mentira) acaso o tal qual se é ou como se é sem disfarce, porventura o nu ou o traje menor mesmo belos, (e em que nudez não haverá crueza chocante?...) não serão, em última análise, perturbantes e perigosos, anarquizantes e destrutivos? E disto não mostra a sociedade intuição aguda, lúcida, tentando, por todos os meios, amordaçar quaisquer pregadores da sinceridade bruta?
Assim a proscrição de espelhos nas câmaras do nosso príncipe acabara por já nem ser notado: Tal era a moda em todas as casas de gente bem nascida, ou satélite desta. E já ninguém sequer se lembrava que do palácio viera tal moda, nem à cabeça de ninguém podia ocorrer o achá-la estranha!
Um rapaz de dezoito anos e tão perfeito, com tão bem timbrada voz, tão amável para todos, ser o herdeiro do trono e já saber tanto, e ainda estudar tanto, — que maravilha! (...) Sem dificuldade criam os mais simples todos esses ditos e lendas. Por isso, quando ouviam o príncipe Leonel, olhavam-no com gratidão e um embevecido pasmo. Nem precisavam de o entender: Sabiam que dizia coisas admiráveis.
Não poderia a juvenil despretensão do herdeiro do trono encorajar certas ideias subversivas de igualdade antinatural e antissocial? ou não poderiam os propagandistas da confusão, os incitadores da desordem, os semeadores da rebelião e do erro, aproveitar junto dos simples, dos idealistas, dos desgraçados, dos incautos, torcendo-as e corrompendo-as no seu verdadeiro
sentido, essas generosas e arejadas inclinações da sua Alteza? Numa palavra: Não poderia, em parte, propiciar Sua Alteza, com os seus levantados ânimos de inovação e fraternidade, futuras complicações a si próprio, dificuldades imediatas ao seu real Pai? E valeria esse risco a mísera canalha que vai para aonde a levam todos os agitadores, crê em tudo com que lhe acenam todos os
comicieiros, e acaba por pôr ao serviço de todos os violentos, audaciosos, ambiciosos ou doentios exibicionistas a sua força bruta de monstro sem cabeça...?
Ora pergunto, perguntará o leitor, e todos, então, perguntavam: Seria fácil escolher noiva para tal portento?
Leonel... Leonilde!... E vendo-os bailar juntos, a cara dela um bocadinho acima do ombro dele, o corpo dele, esbelto e másculo, tão bem proporcionado ao fino, ondulante, e, ao mesmo tempo, macio e altivo corpo dela, a mão dela poisada com tanta graça, e tão branca e longa, na mão dele, tão forte, mas segurando-a com tanta leveza, — quem não repetiria o «Deus os fez Deus os juntou» das velhas princesas e duquesas enlevadas? (Das velhas princesas e duquesas babadas, diria eu, se a expressividade do termo não fosse chocantemente realista; demasiado, quando aplicado a damas de tanta linhagem, e em tão delicado e galante momento...)Ora se os corpos de Leonel e Leonilde pareciam as duas metades perfeitas de um corpo ideal completo,um par unificado, em que a força e à seca elegância varonis se fundissem, enfim, com a languidez e a flexuosa finura femininas, não era menos de pasmar que tanto se aproximassem os seus espíritos!
arquejando, (tal qual Rolão Rebolão ao sentir aproximar-se a verdade) pôs-se a desfazer ao espelho, atrapalhadamente, aquele turbante sem o qual nunca se vira. Os seus olhos olhavam espantados, talvez sem ver, na face cor de terra. Pela primeira vez desde que se conhecia, — estranhava nunca se ter visto sem um turbante!
O sarcástico espelho lá estava em frente, a demonstrar-lhe a pavorosa certeza; e perante a grotesca autocaricatura, tudo se lhe representou ao vivo como real. Então, o príncipe Leonel quis tentar um desafogo chorando; mas o seu aniquilamento, o seu negrume interior, o seu doloroso pasmo, — eram demasiado intensos para que pudessem derivar em lágrimas; tanto mais que, até ao presente, sempre fora feliz, e bem raras vezes as glândulas lacrimais lhe tinham tido oportunidade de se exercitarem na sua função.
O que ele queria era fugir!, não podia pensar agora em mais nada. E era com tal fito que, entre os seus opulentos trajos, tão
opulentos que certamente logo denunciariam nele o grande senhor, procurava um com que pudesse passar despercebido. Em vão. Nos seus armários, nos seus gavetões, nas suas arcas, não havia fato que não fosse demasiado elegante, demasiado rico e demasiado belo.
Leonel podia, enfim, chorar. Nem ele sabia como, repentinamente, os olhos se lhe tinham enevoado, cegado de lágrimas que lhe
rolavam agora pelas faces, e caíam nos dedos, umas após outras... Era a primeira vez que tal lhe sucedia na vida! Também era a primeira vez que deixava, tão incerto do regresso, aquele imenso casarão em que nascera, brincara, se criara, — aquele seu mundo em que vivera a sua vida cega e feliz: uma vida que nunca, nunca mais recuperaria!
— Oh, oh!... — cascalhou Rolão Rebolão — já descobri que o príncipe perfeito também chora! Agora também pede perdão?
— Também! — disse o príncipe — também chora e também pede perdão. O príncipe perfeito nunca foi perfeito...
as mulheres são um belo degrau! Lavando essa cara, e com esses teus modos de príncipe infeliz, podes agradar a uma duquesa. Depois é trepar! Uns descem e outros sobem.
Mais uma vez o príncipe Leonel verificava o seu poder de atração sobre as mulheres. Se ao prestígio do papel ainda pudera atribuir esse poder no seu papel de príncipe prodigioso, — agora tinha confirmação de que a sua simples pessoa bastaria para as seduzir.
disse-lhe com súbita dureza o companheiro — sabes porque sou capaz de claramente me ver... me conhecer... me confessar? Por desprezo! Porque me desprezo. Desprezo é o sentimento, se é sentimento, que a humanidade mais geralmente me inspira; e às vezes ódio, quando pinta de belas aparências os seus piores vícios e cobardices; (...) analisa um bocadinho a caridade deles e o
teu reconhecimento. Qual o fundo dessas lindas aparências? Comodismo, vaidade, capricho, amor próprio, complacência..., e também certa sentimentalidade torpe, certo amolecimento obsceno a que, por aí, chamam bondade, e que só damos aos outros para que os outros no-los deem a nós; ou para os darmos nós a nós próprios. Desprezo, meu rapaz! Eis o que todos merecemos; o que tudo isto merece. (...) Era um grande inquieto; mas desde que desprezo, alcancei a paz. Vivo pachorrentamente, assisto à desgraça dos outros, divirto-me de vários modos, sou tão feliz quanto me é possível sê-lo.
Não há melhor libertação do que o desprezo! nem melhor arma de defesa ou ataque! nem melhor vingança, nem melhor gozo... O amor ou o ódio são fraquezas; cadeias; mas o desprezo quebra todos os laços...
Choro muitas vezes quando invento as minhas histórias.Tudo o que a gente inventa é verdade! demasiado verdade, às vezes...
Por mais suportável, iludível, até superável que se torne, o sofrimento individual dói em qualquer parte do indivíduo.
Contra a nossa corrupção é que é preciso começar a luta, o que mais urge vencer é a nossa condição. Por quê, para quê, falar em progresso, em doutrinas mais amplas ou justas, em melhores regimentos sociais e políticos, — se cada um de nós não busca progredir, alargar-se, tornar-se mais justo, ser, enfim, capaz de realizar um mundo novo? O progresso é conquistado por homens, as doutrinas elaboradas e seguidas por homens, os regimes efetuados por homens, obedecidos por homens. Se o homem não melhora, tudo virá a cair nos mesmos vícios. O erro não pertence às doutrinas senão porque pertence aos homens! Se o homem não melhora, — que poderá melhorar?!
Tell me no lies. Just hold me close; Don't patronize. Don't patronize me.'Cuz I can't make you love me If you don't.
Shadows settle on the place that you left Our minds are troubled by the emptiness...
"En mis libros abundan estas pequeñas cosas, estos pequeños elementos tienen la función —dejando a un lado la historia o la escena que se cuenta- de dar la capacidad de reconocimiento al lector. Creo que las emociones en la literatura se producen a través del reconocimiento. Un lector se emociona porque lee alguna cosa que reconoce como verdad sobre un tema en el que él quizás no había pensado de esa manera o que nunca se había formulado o planteado; y que sin embargo lo reconoce como verdadero. Se necesita que exista el reconocimiento en el interior del libro mismo, de cosas se leyeron cincuenta o cien páginas antes. Estoy muy atento a esto."
As pessoas não querem saber porque é que alguma coisa aconteceu, só que aconteceu e que o mundo está cheio de imprudências, perigos ,ameaças e má sorte que roçam por nós...
É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça:em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia. E assim, mais tarde ou mais cedo, a pessoa triste fica só quando ainda não terminou o seu luto ou já não se lhe consente que fale mais daquilo que ainda é o seu único mundo, porque esse mundo de angústia é insuportável e afugenta. Verifica que para os outros qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espetáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele exista ainda a comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis e salvadores, úteis. Mas ao verificarem que nada muda e que a pessoa afetada não avança nem emerge, os outros sentem-se humilhados e supérfluos, tomam isso quase como uma ofensa e afastam-se...
O que dura deteriora-se e acaba por apodrecer, aborrece-nos, vira-se contra nós, satura-nos , cansa-nos. (...)As únicas coisas que não nos falham são as que nos são arrebatadas, as únicas que não deixamos cair são as que desaparecem contra a nossa vontade... O prolongamento altera tudo .
Toda a gente inicialmente é um sucedâneo. Toda a gente tem um suplente.( ...) Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer...de gente que se deteve , mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto... somos apenas o que está disponível, o resto, as obras...
Mais um dia , mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber qualquer notícia, e esperamos até outra noite para as considerarmos definitivamente desertas ou perdidas...pensamos" Lembra-se de mim quando está aborrecido ou sofreu uma contrariedade com a pessoa que lhe interessa..."( ...) Quando a teia de aranha nos apanha, fantasiamos, sem limites e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o facto de estar ainda no nosso horizonte não ter desaparecido de todo...
A retificação dos sentimentos é lenta,desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo - e adquire-se também o de o desejar - e não se sabe renunciar a isso da noite para o dia, ou durante meses e anos , tão longa pode ser a sua aderência.
I fantasise and call it quits I swim with the economists And I get to the bottom of it for good By the time reality hits The chimes of freedom fall to bits The shining city on the fritz They come out of the cracks Thirsty for blood...
I wish I had the guts to bum one, but we've never met, And I hope that I don't fall in love with you... and you look back at me, The guy you're with has up and splits, the chair next to you's free, And I hope that you don't fall in love with me...
Pensar-te e pensar em tudo o que não li nem lerei é um só pesadelo: o meu...
Europa - Isto começou assim. Eu cá nunca tinha dito nada.Nada. Foi o Arthur Ganate que me fez falar. Arthur, estudante, de Medicina como eu, um colega. Encontrámo-nos, por sinal, na praça Clichy.
O amor é o infinito posto ao alcance dos cachorrinhos, e eu cá tenho a minha dignidade!
Quem saberia prever, antes de entrar verdadeiramente na guerra, tudo quanto esconde a alma sórdida, heróica e calaceira dos homens?
África - Os crepúsculos daquele inferno africano revelavam-se famosos... Durante uma hora o céu exibia-se de uma ponta a outra com um escarlate delirante, e depois o verde abria no meio das árvores e subia do solo em listas trémulas até às primeiras estrelas.
É precisos roubá-los antes que nos roubem, o comércio é isto, mais nada.
Tudo rouba minha gente.
América - o Dólar, um verdadeiro Espírito Santo, mais precioso do que o sangue.(...) Quando os fiéis entram no banco...falam ao Dólar murmurando -lhe coisas através de uma rede estreita, a bem dizer confessando-se .... Não engolem a Hóstia: encostam-na ao coração.
Os pobres são iguais em todo o lado...
Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos, estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar de coisas familiares, eu descobrira que nada me impediria de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão.
Tem presença de um nível de língua que me desagrada : o que ,no início do século passado, era, em termos de linguagem, uma inovação, um atrevimento, uma ousadia rebelde e criativa, um século depois é a banalidade a imiscuir-se e a macular numa obra, de facto, excecional...Depois da elevação da prosa de Régio, mergulhar no bas-fonds de Paris é violento...
"Céline é um daqueles autores aos quais não passamos incólumes. Seja por se ter celebrizado como apoiante das mais hediondas políticas anti-semitas,seja,é isto sim importa relevar,por se tratar de uma das vozes mais lúcidas,claras e corajosas da história recente da literatura universal. Viajem ao fim da noite é um livro com cariz inegavelmente auto-biográfico, escuro, pessimista e que nos deixa,muitas vezes,sem sangue. A misantropia do autor fá-lo percorrer sem hesitação o absurdo e o grotesco do colonialismo europeu,a artificialidade do sonho americano e a hipocrisia social vigente na primeira metade do século XX. Esteticamente é incomparável e inovador,o que, inicialmente,causa alguma estranheza e necessita de um (breve) período de adaptação. A linguagem é crua,direta e com uma oralidade tremendamente realista. O resultado final é absolutamente memorável,e não deve haver consideração pessoal ou política que nos deva impedir de o ler. " Fabio Lavos Martins
Take the highway to the end of the night End of the night End of the night Take a journey to the bright midnight End of the night
Quando era adolescente, Lobo Antunes escreveu a Céline. E o francês respondeu-lhe. Isto começou assim: António Lobo Antunes tinha 14 ou 15 anos quando o pai lhe deu para ler, na versão original, “Morte a Crédito”, de Louis-Ferdinand Céline. Era um médico a dar um livro escrito por um médico a um filho que viria a ser médico. António leu-o e teve um dos seus “primeiros deslumbramentos”. Mais tarde leu “Viagem ao Fim da Noite” e Céline foi vital. “É um dos grandes escritores do século XX e, em Portugal, é muito mal conhecido ou então não é compreendido.”
“Aprendi a escrever muito cedo. Foi a minha mãe que nos ensinou a ler a todos. O meu pai começou a dar-me livros para ler, e eu ia lendo. Aos 13 ou 14 anos, ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, do Céline, e eu fiquei deslumbrado. Pensei: "O que se pode fazer com as palavras!" Escrevi uma carta ao Céline a pedir-lhe um retrato, como se ele fosse um ator de cinema. Ele respondeu-me e andei anos com o envelope no bolso, onde ele tinha escrito o meu nome. Foi uma alegria tão grande! Ele a dizer: "Queres ser escritor? Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.Não tenho fotografia porque não sou ator de cinema. Mas se queres ser escritor vê lá porque depois não podes ir ao cinema, não podes ter namoradas, não podes não sei lá o quê… Porque escrever é uma coisa muito difícil e exige muito tempo, tens que passar a vida agarrado ao livro…’" Nunca mais me esqueço disto: eu ter escrito uma carta ao Céline e ele ter-me respondido...”
I thought as much 'Cause you turned over there Pulling that silent disappointment face The one that I can't bea...
It's bugging me Grating me And twisting me around Yeah I'm endlessly Caving in And turning inside ...
" De toda essa obra séria e profunda que é a de Régio, nada até agora me pareceu sê-lo tão completamente como este volume." Adolfo Casais Monteiro
O tema é a viagem humana no sentido da perfeição: sempre inatingível, sem procurada.
Régio recusa a acusação narcisismo dos seus detractores: ao confessar-se, propõe-se seguir o modelo do seu personagem (o Príncipe Leonel do romance O Príncipe com Orelhas de Burro) que diz ao seu povo, falando-lhes na «praça pública»: «vou-vos fazer uma confissão e dar um exemplo». Tirando o turbante, diante da multidão atónita, o príncipe quer revelar a sua monstruosidade até aí escondida – as orelhas de burro - , mostrando-se, por fim, nu e verdadeiro – assim inaugura um reino de transparência nas suas relações com o seu povo. Régio considera que na sua confissão não há complacência narcísica, mas um desejo de transparência e verdade.
https://www.luso-livros.net/wp-content/uploads/2014/08/O-Principe-com-Orelhas-de-Burro-Jose-Regio.pdf
SINOPSE: "Não pode ser considerado em paralelo com qualquer outra obra do nosso tempo, em Portugal [...], é uma obra destinada a ficar como uma grande data da nossa literatura. José Régio encheu o seu livro de quadros e retratos em que se revela toda a sua lucidez de moralista, e também toda a força da sua criação poética; quadros e retratos em que os mais diversos tipos de humanidade perpassam, mas que são sobretudos magníficos como sátira e como crítica de costumes. Régio pretendeu dar-nos um microcosmos em que cada paixão, cada tipo humano, tivesse a sua representação."
Como quase todos os infelizes ligados por uma desgraça comum e odiada, cada um via no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentemos que...cada um tendia a ver no outro o próprio causador do infortúnio. Este mútuo ressentimento ia a pontos de já nem poder o triste casal escondê-lo...
"Poetas, porque vos não libertais dos vossos segredos? Que medo tendes de vos abrir? As palavras e as imagens, as rimas e os ritmos, as anedotas dos vossos poemas, suficientemente esconderão a vossa nudez; suficientemente protegerão o vosso pudor ou a vossa cobardia. E a vossa terrível nudez presente e oculta, dará aos vossos poemas uma força que os cegos não saberão donde vem, e, todavia, sentirão..." Eis a inútil lição de Rolão Rebolão aos seus confrades...
De modo que, por uma delicada, e, neste caso, inconscientemente genial adulação, desde tenra idade todos os filhos dos nobres da corte tinham também passado a usar turbantes, que mantinham em toda e qualquer eventualidade; como se todos tivessem orelhas de burro que devessem andar escondidas!... Mas esta moda foi ainda fortificada pelo seguinte: Reparara qualquer nobre dama da corte, mãe de família, que o sítio onde toda a gente tem as suas orelhas naturais e normais — era, na cabecinha do príncipe, de tal modo embrulhado em ricos tecidos, de forma a que nem pontinha das suas certamente naturais e normais orelhas fora alguma vez vista! Vá, então, de capricharem as mais elegantes donas da corte em nada deixar ver das orelhas dos seus nobres filhos! O que, perdoe-se-me a insistência, pudera atrair a inaceitável suposição de terem todos eles orelhas de burro a esconder...
A qualquer homem não dará a indumentária (e particularissimamente a um príncipe) uma superior confiança em si próprio e um superior contentamento de si próprio, uma noção mais pertinente da sua posição social e adstritas responsabilidades civis, —
consequentemente, um maior rendimento da sua atividade e uma bem mais entusiasta dedicação ao exercício das suas funções?E não será esta a razão profunda do uso de fardas, librés, uniformes?
Assente a sociedade sobre convenções necessárias, firmada toda a vida de relação em necessárias ilusões e miragens, (sejamos corajosos e digamos tudo: entronizado este mundo no altar da imprescindível e triunfante mentira) acaso o tal qual se é ou como se é sem disfarce, porventura o nu ou o traje menor mesmo belos, (e em que nudez não haverá crueza chocante?...) não serão, em última análise, perturbantes e perigosos, anarquizantes e destrutivos? E disto não mostra a sociedade intuição aguda, lúcida, tentando, por todos os meios, amordaçar quaisquer pregadores da sinceridade bruta?
Assim a proscrição de espelhos nas câmaras do nosso príncipe acabara por já nem ser notado: Tal era a moda em todas as casas de gente bem nascida, ou satélite desta. E já ninguém sequer se lembrava que do palácio viera tal moda, nem à cabeça de ninguém podia ocorrer o achá-la estranha!
Um rapaz de dezoito anos e tão perfeito, com tão bem timbrada voz, tão amável para todos, ser o herdeiro do trono e já saber tanto, e ainda estudar tanto, — que maravilha! (...) Sem dificuldade criam os mais simples todos esses ditos e lendas. Por isso, quando ouviam o príncipe Leonel, olhavam-no com gratidão e um embevecido pasmo. Nem precisavam de o entender: Sabiam que dizia coisas admiráveis.
Não poderia a juvenil despretensão do herdeiro do trono encorajar certas ideias subversivas de igualdade antinatural e antissocial? ou não poderiam os propagandistas da confusão, os incitadores da desordem, os semeadores da rebelião e do erro, aproveitar junto dos simples, dos idealistas, dos desgraçados, dos incautos, torcendo-as e corrompendo-as no seu verdadeiro
sentido, essas generosas e arejadas inclinações da sua Alteza? Numa palavra: Não poderia, em parte, propiciar Sua Alteza, com os seus levantados ânimos de inovação e fraternidade, futuras complicações a si próprio, dificuldades imediatas ao seu real Pai? E valeria esse risco a mísera canalha que vai para aonde a levam todos os agitadores, crê em tudo com que lhe acenam todos os
comicieiros, e acaba por pôr ao serviço de todos os violentos, audaciosos, ambiciosos ou doentios exibicionistas a sua força bruta de monstro sem cabeça...?
Ora pergunto, perguntará o leitor, e todos, então, perguntavam: Seria fácil escolher noiva para tal portento?
Leonel... Leonilde!... E vendo-os bailar juntos, a cara dela um bocadinho acima do ombro dele, o corpo dele, esbelto e másculo, tão bem proporcionado ao fino, ondulante, e, ao mesmo tempo, macio e altivo corpo dela, a mão dela poisada com tanta graça, e tão branca e longa, na mão dele, tão forte, mas segurando-a com tanta leveza, — quem não repetiria o «Deus os fez Deus os juntou» das velhas princesas e duquesas enlevadas? (Das velhas princesas e duquesas babadas, diria eu, se a expressividade do termo não fosse chocantemente realista; demasiado, quando aplicado a damas de tanta linhagem, e em tão delicado e galante momento...)Ora se os corpos de Leonel e Leonilde pareciam as duas metades perfeitas de um corpo ideal completo,um par unificado, em que a força e à seca elegância varonis se fundissem, enfim, com a languidez e a flexuosa finura femininas, não era menos de pasmar que tanto se aproximassem os seus espíritos!
arquejando, (tal qual Rolão Rebolão ao sentir aproximar-se a verdade) pôs-se a desfazer ao espelho, atrapalhadamente, aquele turbante sem o qual nunca se vira. Os seus olhos olhavam espantados, talvez sem ver, na face cor de terra. Pela primeira vez desde que se conhecia, — estranhava nunca se ter visto sem um turbante!
O sarcástico espelho lá estava em frente, a demonstrar-lhe a pavorosa certeza; e perante a grotesca autocaricatura, tudo se lhe representou ao vivo como real. Então, o príncipe Leonel quis tentar um desafogo chorando; mas o seu aniquilamento, o seu negrume interior, o seu doloroso pasmo, — eram demasiado intensos para que pudessem derivar em lágrimas; tanto mais que, até ao presente, sempre fora feliz, e bem raras vezes as glândulas lacrimais lhe tinham tido oportunidade de se exercitarem na sua função.
O que ele queria era fugir!, não podia pensar agora em mais nada. E era com tal fito que, entre os seus opulentos trajos, tão
opulentos que certamente logo denunciariam nele o grande senhor, procurava um com que pudesse passar despercebido. Em vão. Nos seus armários, nos seus gavetões, nas suas arcas, não havia fato que não fosse demasiado elegante, demasiado rico e demasiado belo.
Leonel podia, enfim, chorar. Nem ele sabia como, repentinamente, os olhos se lhe tinham enevoado, cegado de lágrimas que lhe
rolavam agora pelas faces, e caíam nos dedos, umas após outras... Era a primeira vez que tal lhe sucedia na vida! Também era a primeira vez que deixava, tão incerto do regresso, aquele imenso casarão em que nascera, brincara, se criara, — aquele seu mundo em que vivera a sua vida cega e feliz: uma vida que nunca, nunca mais recuperaria!
— Oh, oh!... — cascalhou Rolão Rebolão — já descobri que o príncipe perfeito também chora! Agora também pede perdão?
— Também! — disse o príncipe — também chora e também pede perdão. O príncipe perfeito nunca foi perfeito...
as mulheres são um belo degrau! Lavando essa cara, e com esses teus modos de príncipe infeliz, podes agradar a uma duquesa. Depois é trepar! Uns descem e outros sobem.
Mais uma vez o príncipe Leonel verificava o seu poder de atração sobre as mulheres. Se ao prestígio do papel ainda pudera atribuir esse poder no seu papel de príncipe prodigioso, — agora tinha confirmação de que a sua simples pessoa bastaria para as seduzir.
disse-lhe com súbita dureza o companheiro — sabes porque sou capaz de claramente me ver... me conhecer... me confessar? Por desprezo! Porque me desprezo. Desprezo é o sentimento, se é sentimento, que a humanidade mais geralmente me inspira; e às vezes ódio, quando pinta de belas aparências os seus piores vícios e cobardices; (...) analisa um bocadinho a caridade deles e o
teu reconhecimento. Qual o fundo dessas lindas aparências? Comodismo, vaidade, capricho, amor próprio, complacência..., e também certa sentimentalidade torpe, certo amolecimento obsceno a que, por aí, chamam bondade, e que só damos aos outros para que os outros no-los deem a nós; ou para os darmos nós a nós próprios. Desprezo, meu rapaz! Eis o que todos merecemos; o que tudo isto merece. (...) Era um grande inquieto; mas desde que desprezo, alcancei a paz. Vivo pachorrentamente, assisto à desgraça dos outros, divirto-me de vários modos, sou tão feliz quanto me é possível sê-lo.
Não há melhor libertação do que o desprezo! nem melhor arma de defesa ou ataque! nem melhor vingança, nem melhor gozo... O amor ou o ódio são fraquezas; cadeias; mas o desprezo quebra todos os laços...
Choro muitas vezes quando invento as minhas histórias.Tudo o que a gente inventa é verdade! demasiado verdade, às vezes...
Por mais suportável, iludível, até superável que se torne, o sofrimento individual dói em qualquer parte do indivíduo.
Contra a nossa corrupção é que é preciso começar a luta, o que mais urge vencer é a nossa condição. Por quê, para quê, falar em progresso, em doutrinas mais amplas ou justas, em melhores regimentos sociais e políticos, — se cada um de nós não busca progredir, alargar-se, tornar-se mais justo, ser, enfim, capaz de realizar um mundo novo? O progresso é conquistado por homens, as doutrinas elaboradas e seguidas por homens, os regimes efetuados por homens, obedecidos por homens. Se o homem não melhora, tudo virá a cair nos mesmos vícios. O erro não pertence às doutrinas senão porque pertence aos homens! Se o homem não melhora, — que poderá melhorar?!
Tell me no lies. Just hold me close; Don't patronize. Don't patronize me.'Cuz I can't make you love me If you don't.
Shadows settle on the place that you left Our minds are troubled by the emptiness...
"En mis libros abundan estas pequeñas cosas, estos pequeños elementos tienen la función —dejando a un lado la historia o la escena que se cuenta- de dar la capacidad de reconocimiento al lector. Creo que las emociones en la literatura se producen a través del reconocimiento. Un lector se emociona porque lee alguna cosa que reconoce como verdad sobre un tema en el que él quizás no había pensado de esa manera o que nunca se había formulado o planteado; y que sin embargo lo reconoce como verdadero. Se necesita que exista el reconocimiento en el interior del libro mismo, de cosas se leyeron cincuenta o cien páginas antes. Estoy muy atento a esto."
As pessoas não querem saber porque é que alguma coisa aconteceu, só que aconteceu e que o mundo está cheio de imprudências, perigos ,ameaças e má sorte que roçam por nós...
É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça:em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia. E assim, mais tarde ou mais cedo, a pessoa triste fica só quando ainda não terminou o seu luto ou já não se lhe consente que fale mais daquilo que ainda é o seu único mundo, porque esse mundo de angústia é insuportável e afugenta. Verifica que para os outros qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espetáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele exista ainda a comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis e salvadores, úteis. Mas ao verificarem que nada muda e que a pessoa afetada não avança nem emerge, os outros sentem-se humilhados e supérfluos, tomam isso quase como uma ofensa e afastam-se...
O que dura deteriora-se e acaba por apodrecer, aborrece-nos, vira-se contra nós, satura-nos , cansa-nos. (...)As únicas coisas que não nos falham são as que nos são arrebatadas, as únicas que não deixamos cair são as que desaparecem contra a nossa vontade... O prolongamento altera tudo .
Toda a gente inicialmente é um sucedâneo. Toda a gente tem um suplente.( ...) Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer...de gente que se deteve , mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto... somos apenas o que está disponível, o resto, as obras...
Mais um dia , mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber qualquer notícia, e esperamos até outra noite para as considerarmos definitivamente desertas ou perdidas...pensamos" Lembra-se de mim quando está aborrecido ou sofreu uma contrariedade com a pessoa que lhe interessa..."( ...) Quando a teia de aranha nos apanha, fantasiamos, sem limites e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o facto de estar ainda no nosso horizonte não ter desaparecido de todo...
A retificação dos sentimentos é lenta,desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo - e adquire-se também o de o desejar - e não se sabe renunciar a isso da noite para o dia, ou durante meses e anos , tão longa pode ser a sua aderência.
I fantasise and call it quits I swim with the economists And I get to the bottom of it for good By the time reality hits The chimes of freedom fall to bits The shining city on the fritz They come out of the cracks Thirsty for blood...
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Deuses e semideuses...
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam... é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses...
Não consentem os deuses mais que a vida.Tudo pois refusemos que nos alce a irrespiráveis píncaros, perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes ...duremos
Da nossa semelhança com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas... Altivamente donos de nós-mesmos, Usemos a existência ... Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos
Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.
Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem.
Um alto pinheiro é mais frequentemente pelos ventos fustigado, as excelsas torres de mais alto caem, e os raios ferem os montes mais elevados.
Tantas vezes ensinou esta lição. Tantas vezes, em latim e em português, repetiu estes versos, perante alunos, ora incrédulos , ora fascinados, por este estranho ideal de vida, por este epicurismo profundamente triste, mas sereno, apaziguador...Para quê?
Desculpa se te fiz fogo e noite Sem pedir autorização por escrito Ao sindicato dos deuses...Mas não fui eu que te escolhi. Desculpa se te usei Como refúgio dos meus sentidos Pedaço de silêncios perdidos Que voltei a encontrar em ti..
Era talvez preciso que alguém repetisse o gesto de Platão e inventasse um lugar às portas da cidade, chamado Academia, onde, quem quisesse pensar em paz, se pudesse instalar para parar e pensar em silêncio. Um afastamento eremita desta violência psicológica que vai desgastando sem parar a pouca saúde psicológica e física que resta. Não fugir do mundo, mas fugir desta "descrição do mundo" com a qual nos querem convencer à força de que "é o único possível". Não é o único possível; mas é o único que tem meios devastadores para tentar fazer-nos acreditar que é o único possível e assim nos poderá vencer pelo cansaço ou pelo enlouquecimento.
Habituava-me a tudo, ou seja, não me habituava, mas, não sei, acho que aceitava de boa mente aguentar. E tinha uma saída para trazer de volta a paz, era refugiar-me no "belo e sublime", em sonho,evidentemente. Eu sonhava terrivelmente e, acreditai em mim, nesses momentos eu(...)num repente virava herói.(...) Vivia instantes de uma plenitude tão jubilosa, de uma felicidade tão profunda que nem sequer sentia, juro-vos, o mínimo sarcasmo. Enquanto a nova academia não é fundada...
Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu E Homero fez florir o roxo sobre o mar O Kouros avançou um passo exactamente A palidez de Athena cintilou no dia Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos E para o fundo do seu império recuaram os Persas Celebrámos a vitória: a treva Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos O grito rouco do coro purificou a cidade Como golfinhos a alegria rápida Rodeava os navios O nosso corpo estava nu porque encontrara A sua medida exacta Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz O mundo era mais nosso cada dia Mas eis que se apagaram Os antigos deuses sol interior das coisas Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: «Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa A água que fala calou-se»
Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.
Não me amaram os deuses... Pelo menos podiam -me ofertar as únicas coisas que verdadeiramente me faltam: sensatez e lucidez para ver a realidade e viver de acordo com ela.
É importante que você fique a saber que eu pensava já ter o suficiente! ...setecentas,oitocentas páginas...ia reler tudo...mandar passar à máquina...e adiante!...e os editores? ...desses devemos ter ainda mais medo! a mesma mentalidade,mas em versão de monstros! ...e depois têm todos os vícios! e dependemos totalmente deles!...acrobatas da roubalheira! as suas intrujices são terríveis e armadas com precisão! tão perfeitamente urdidas que você acabaria num asilo de doidos com muitos coletes-de-forças,se tentasse descobri-las! ou cheirá-las!...e de muito longe!...a maneira como eles actuam!...e você é o ingrato que lhes deve tudo!...a si eles não lhe devem nada! ...eles,nos seus automóveis cada vez maiores,talvez o levassem atrás,andrajoso, e de língua no chão.
A cabeça é uma espécie de fábrica que não funciona exactamente como nós queremos...veja só...milhões e milhões de neurónios...um mistério absoluto...você está bem arranjado! neurónios entregues a si próprios! ao mínimo ataque, a sua cabeça dispara em todas as direções,você já não agarra uma ideia ...sente-se envergonhado...Queria-lhe contar uma coisa...mas perdi-me...não encontro nada! a minha cabeça anda à roda...oh!...mas espere...já me vou lembrar...você e o meu castelo ...e a minha cabeça! ...espere...espere...lembro-me de uma palavra...
Era um homem interessante... Céline tem razão: um médico, para ter sucesso e um quase estatuto de semideus, tem de ter aparência cativante e sinais exteriores de riqueza - Era um homem,de meia idade, bonito, com uns jeans de marca...Olhou para ela , com ar amável, e disse , com um sentido de humor que a divertiu: " a senhora está muito bem conservada.... por fora..." Ela riu-se...O diálogo prossegiu sem referentes desnecessários: " Sabe o que tem?" "Sei..."; Sabe que?..." Sei..."; "As estatisticas dizem ..."; " Evite, por favor, exlicações numéricas. Odeio estatísticas..."; "Volta cá em maio?" " Com todo o prazer...se...";" Gostei de a conhecer..." " Apesar das circunstâncias... eu também..." ; Fique com o meu telemóvel, se precisar..." "Obrigada" ... Despediram-se com um abraço, como se fossem amigos de longa data...Nesse dia à noite , sonhou com ele, a presidir ao concílio dos deuses no Olimpo...
Já me esquecia de lhe dizer! ...sou médico...a clientela médica, e isto que fique entre nós,em confidência,não é apenas uma questão de ciência e de consciência...mas sim,em primeiro lugar,e acima de tudo, de encanto pessoal... encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!…
Uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!
Se eu fosse curandeiro, as coisas correriam bem...seria uma solução...e nada tonta...faria do meu consultório a meio da rue Bellevue, um lugar de " reactivação" de velhos! ...uma espécie de santuário de Lourdes new-look...está a ver? ...mas há um problema ...eu não passo de um médico vulgar...tenho tempo para meditar, pensar, repensar...reflectir sobre o que mais me prejudica? ...o meu fato talvez? os meus sapatos? andar de chinelos? ...os meus cabelos? ...estou convencido de que o pior é não ter criada ...ah, e ainda pior do que tudo " ele escreve livros"...eles não os lêem, mas sabem... sou eu que faço as compras...é isso que desacredita uma pessoa!...também despejo o lixo! eu próprio! levo o caixote do lixo até à entrada! ...Imagine!
Vergonha é ser-se pobre...essa é a única vergonha!...olhe para mim, sem carro, médico apeado! o que é que eu pareço? ...a utilidade de um médico, mesmo que muito imbecil, é um telefonema, e ele vem logo...
" traidor, médico clandestino, pró-estaline, pornógrafo, bêbado..." mas talvez ainda mais o que me prejudica:" Sabe, ele não tem automóvel!" Um médico a pé? você merece tudo o que dizem de si!...não tem automóvel? o descaramento deste tolo!...charlatão perigoso, está mesmo a pedir que o enforquem!...a calçada, o passeio, é para os vádios!...para as mulheres da vida!...ir ver um doente a pé? ...é um insulto! o doente corre consigo!...depois queixe-se. (...) o doente consciente dos seus direitos, benificiário da segurança social,sindicalizado,leitor de três,quatro,cinco jornais, primo de duzentos,trezentos milionários, está muito seguro de si...Ainda por cima ...o cúmulo!... o cerne da questão! ...as compras!...vêem-me com os meus dois sacos de rede! ...um para os ossos...outro para os legumes...sobretudo cenouras!
O que eu gostava era de ver Luís XIV com um cartão da Segurança Social! ...ele ia ver se o Estado era ele..
Ah! não são só os meus crimes! ...também há, e talvez, mais importante, a maneira como me visto ...acham que eu não ando bem arranjado? ...se eles se vissem como eu os vejo a eles! uma explosão atómica!...lufadas de neutrões! ...o horror da fealdade! ...cabeças! almas! cus! ...sim!...sim!...ah! a Srª Niçois!...
Não vou tomar decisões com febre...Oh!eu tinha decidido que nunca mais escrevia...só a palavra "escrever" sempre me pareceu indecente!...pretensiosa, narcisista," tu-já-me-leste?"...esta é a verdadeira razão do meu constrangimento...a única!...não sou candidato ao Panteão! os vermezinhos mais valiosos! os glutões de Souffot!...não!...não é a vaidade que me atormenta...é o gás,as cenouras,as tostas? (...) Quando se chega aos trinta e nove graus, vâe-se tudo! ...A febre tem de servir para alguma coisa!...nunca me esqueço de nada!..nunca é a minha natureza!... Agora com a febre a descer...mais baixa...deixo de disparatar...delírio? ...delírio?...nada disso reflexão!...
Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!
...noventa e seis anoa,mãe de um ministro...a minha doente mais velha...belo espírito! sagacidade! memória!Christine de Pisant! Loise Labé! ...Marcéline! ela recitava-me tudo,tudo. eu gostava tanto dela!
"Sozinha fiquei! Sozinha estou!" Como ela tinha razão!
Eu protesto de mais?...nada disso! ...as minhas ideias racistas não têm nada a ver com o assunto! hipócritas! ...Há muito que ela não existe , a raça branca(...) ...nada disso é importante!...o que me prejudicou grandemente foi a " Viagem" ...os ódios assanhados contra mim surgiram por causa da " Viagem" ...ninguém me perdoou a " Viagem" ...desde a " Viagem", tenho pago um preço bem alto! ...ainda se eu me chamasse Vlazine ...Vlazine Progrogrof...e tivesse nascido em Tarnopol, à beira do Don...mas em Courbevoise Seine! ...se tivesse nascido em Tarnopol, há muito que teria ganho o Nobel!...mas sendo eu daqui, e nem sequer sefardita! ...não sabem onde me meter! ... onde me fazer desaparecer mais depressa! vergonha das vergonhas!...em que alçapão? a que ratazanas suplicar? a " Vrunza para os Vrunzeses"!...
Olhou à sua volta: livros, livros, muitos livros. Está submersa num mar de livros. É estranho chegar ao fim da viagem e pensar que só os livros valeram a pena...
A menos que se tenha muito dinheiro, não vale a pena ser uma pessoa encantadora. O sentimentalismo é privilégio dos ricos, não é profissão para desempregados. Os pobres devem ser práticos e prosaicos. Antes ter um bom rendimento do que ser insinuante.
Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)
A abertura da peça surpreende, intriga, perturba. Sob um sol inclemente, Winnie, enterrada até à cintura, comporta-se como se a sua condição fosse a coisa mais natural do mundo, respondendo à cruel estranheza da sua circunstância com um discurso falsamente otimista e hábitos ritualizados.
A sombrinha que me deste. naquele dia.(Pausa.). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa.) Qual dia? (Pausa.) Quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita.)
Winnie passa o tempo a contar histórias para si própria, dolorosamente consciente da sua situação física, mas não do seu absurdo. É nessa inconsciência que reside a sua força. Ela reconstrói-se com uma graça e tenacidade invulgares, superando o sentimento crescente de incapacidade, com a ilusão de que ainda se vai reencontrar com Willie...
Dois vultos, protagonistas de uma inexplicada história de amor, são os únicos seres humanos. Estão à mercê de uma campainha, espécie de deus ex-machina... Nunca ninguém construiu , de modo tão perfeito, a espera. Nunca ninguém escreveu, com tanta ternura, sobre a condição de quem espera... Persistir é a felicidade possível.
Oh, que dia feliz terá sido este! Mais um! Apesar de tudo. Até agora.
Winnie sem pernas, Winnie sem braços nem seios, é visitada por Willie e, finalmente, canta a sua canção: Tua mão está fria/ E tem tanto tremor / Ela não tremia / Sem o teu amor./ Mas se me desdouro/ Em me declarar, tendo tu tanto ouro/ Não te devo amar.
( Pausa.Expressão feliz. Fecha os olhos.Toque estridente da campainha. Abre imediatamente os olhos. Sorri,olhando em frente.Olha à direita , na direção de Willie, que continua de gatas, o rosto levantado para ela. Fim do sorriso. Olham-se um ao outro. Longa pausa.)
Cai o pano.
I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can be heroes, just for one day We can be us, just for one day We can be heroes Just for one day...
Prometeu incorre no pecado da hybris, ultrapassa os limites da justa medida, como lhe faz notar Vulcano, quando o agrilhoa. Esta voluntária hamartia, gerada por um desmesurado amor, perpretou-a Prometeu com plena consciência, até mesmo com presciência - ou não significasse o seu nome "o Previdente": Mas eu sabia tudo isto. Cometi este erro por querer, por querer - não o negarei.
Como castigo da sua insolência, Zeus ordenou ao deus Vulcano que acorrentasse Prometeu no topo do monte Cáucaso durante trinta mil anos. O castigo era ser devorado aos poucos por uma águia que todos os dias lhe comia um pouco do fígado, o qual se regenerava logo de seguida porque Prometeu era um semideus...
Admiro os viciados. Num mundo em que está toda a gente à espera de uma catástrofe total e aleatória ou de uma doença súbita qualquer, o viciado tem o conforto de saber aquilo que quase de certeza estará à sua espera ao virar da esquina. Adquiriu algum controlo sobre o seu destino final e o vício faz com que a causa da sua morte não seja uma completa surpresa.
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactiva. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é como planear a fuga.
Quero dizer, num mundo sem Deus, as mães não são os novos deuses? A última posição inexpugnável e sagrada. Não é a maternidade o último milagre mágico e perfeito? Mas um milagre que é impossível para os homens. E talvez os homens digam que estão contentes por não darem à luz, todo aquele sofrimento e todo aquele sangue, mas na verdade não passam de uvas verdes. É óbvio que o homem não é capaz de fazer nada tão incrível. Força de braços, pensamento abstracto, falos, quaisquer outras vantagens que os homens pareçam ter são coisas muito insignificantes.
Nem sequer podes martelar um prego com um falo. As mulheres já nascem tão adiantadas em termos de capacidades. No dia em que os homens conseguirem dar à luz, nessa altura é que podemos começar a falar em igualdade de direitos.
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses...
Não consentem os deuses mais que a vida.Tudo pois refusemos que nos alce a irrespiráveis píncaros, perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes ...duremos
Da nossa semelhança com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas... Altivamente donos de nós-mesmos, Usemos a existência ... Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos
Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.
Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem.
Um alto pinheiro é mais frequentemente pelos ventos fustigado, as excelsas torres de mais alto caem, e os raios ferem os montes mais elevados.
Tantas vezes ensinou esta lição. Tantas vezes, em latim e em português, repetiu estes versos, perante alunos, ora incrédulos , ora fascinados, por este estranho ideal de vida, por este epicurismo profundamente triste, mas sereno, apaziguador...Para quê?
Desculpa se te fiz fogo e noite Sem pedir autorização por escrito Ao sindicato dos deuses...Mas não fui eu que te escolhi. Desculpa se te usei Como refúgio dos meus sentidos Pedaço de silêncios perdidos Que voltei a encontrar em ti..
Era talvez preciso que alguém repetisse o gesto de Platão e inventasse um lugar às portas da cidade, chamado Academia, onde, quem quisesse pensar em paz, se pudesse instalar para parar e pensar em silêncio. Um afastamento eremita desta violência psicológica que vai desgastando sem parar a pouca saúde psicológica e física que resta. Não fugir do mundo, mas fugir desta "descrição do mundo" com a qual nos querem convencer à força de que "é o único possível". Não é o único possível; mas é o único que tem meios devastadores para tentar fazer-nos acreditar que é o único possível e assim nos poderá vencer pelo cansaço ou pelo enlouquecimento.
Habituava-me a tudo, ou seja, não me habituava, mas, não sei, acho que aceitava de boa mente aguentar. E tinha uma saída para trazer de volta a paz, era refugiar-me no "belo e sublime", em sonho,evidentemente. Eu sonhava terrivelmente e, acreditai em mim, nesses momentos eu(...)num repente virava herói.(...) Vivia instantes de uma plenitude tão jubilosa, de uma felicidade tão profunda que nem sequer sentia, juro-vos, o mínimo sarcasmo. Enquanto a nova academia não é fundada...
Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu E Homero fez florir o roxo sobre o mar O Kouros avançou um passo exactamente A palidez de Athena cintilou no dia Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos E para o fundo do seu império recuaram os Persas Celebrámos a vitória: a treva Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos O grito rouco do coro purificou a cidade Como golfinhos a alegria rápida Rodeava os navios O nosso corpo estava nu porque encontrara A sua medida exacta Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz O mundo era mais nosso cada dia Mas eis que se apagaram Os antigos deuses sol interior das coisas Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: «Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa A água que fala calou-se»
Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.
Não me amaram os deuses... Pelo menos podiam -me ofertar as únicas coisas que verdadeiramente me faltam: sensatez e lucidez para ver a realidade e viver de acordo com ela.
É importante que você fique a saber que eu pensava já ter o suficiente! ...setecentas,oitocentas páginas...ia reler tudo...mandar passar à máquina...e adiante!...e os editores? ...desses devemos ter ainda mais medo! a mesma mentalidade,mas em versão de monstros! ...e depois têm todos os vícios! e dependemos totalmente deles!...acrobatas da roubalheira! as suas intrujices são terríveis e armadas com precisão! tão perfeitamente urdidas que você acabaria num asilo de doidos com muitos coletes-de-forças,se tentasse descobri-las! ou cheirá-las!...e de muito longe!...a maneira como eles actuam!...e você é o ingrato que lhes deve tudo!...a si eles não lhe devem nada! ...eles,nos seus automóveis cada vez maiores,talvez o levassem atrás,andrajoso, e de língua no chão.
A cabeça é uma espécie de fábrica que não funciona exactamente como nós queremos...veja só...milhões e milhões de neurónios...um mistério absoluto...você está bem arranjado! neurónios entregues a si próprios! ao mínimo ataque, a sua cabeça dispara em todas as direções,você já não agarra uma ideia ...sente-se envergonhado...Queria-lhe contar uma coisa...mas perdi-me...não encontro nada! a minha cabeça anda à roda...oh!...mas espere...já me vou lembrar...você e o meu castelo ...e a minha cabeça! ...espere...espere...lembro-me de uma palavra...
Era um homem interessante... Céline tem razão: um médico, para ter sucesso e um quase estatuto de semideus, tem de ter aparência cativante e sinais exteriores de riqueza - Era um homem,de meia idade, bonito, com uns jeans de marca...Olhou para ela , com ar amável, e disse , com um sentido de humor que a divertiu: " a senhora está muito bem conservada.... por fora..." Ela riu-se...O diálogo prossegiu sem referentes desnecessários: " Sabe o que tem?" "Sei..."; Sabe que?..." Sei..."; "As estatisticas dizem ..."; " Evite, por favor, exlicações numéricas. Odeio estatísticas..."; "Volta cá em maio?" " Com todo o prazer...se...";" Gostei de a conhecer..." " Apesar das circunstâncias... eu também..." ; Fique com o meu telemóvel, se precisar..." "Obrigada" ... Despediram-se com um abraço, como se fossem amigos de longa data...Nesse dia à noite , sonhou com ele, a presidir ao concílio dos deuses no Olimpo...
Já me esquecia de lhe dizer! ...sou médico...a clientela médica, e isto que fique entre nós,em confidência,não é apenas uma questão de ciência e de consciência...mas sim,em primeiro lugar,e acima de tudo, de encanto pessoal... encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!…
Uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!
Se eu fosse curandeiro, as coisas correriam bem...seria uma solução...e nada tonta...faria do meu consultório a meio da rue Bellevue, um lugar de " reactivação" de velhos! ...uma espécie de santuário de Lourdes new-look...está a ver? ...mas há um problema ...eu não passo de um médico vulgar...tenho tempo para meditar, pensar, repensar...reflectir sobre o que mais me prejudica? ...o meu fato talvez? os meus sapatos? andar de chinelos? ...os meus cabelos? ...estou convencido de que o pior é não ter criada ...ah, e ainda pior do que tudo " ele escreve livros"...eles não os lêem, mas sabem... sou eu que faço as compras...é isso que desacredita uma pessoa!...também despejo o lixo! eu próprio! levo o caixote do lixo até à entrada! ...Imagine!
Vergonha é ser-se pobre...essa é a única vergonha!...olhe para mim, sem carro, médico apeado! o que é que eu pareço? ...a utilidade de um médico, mesmo que muito imbecil, é um telefonema, e ele vem logo...
" traidor, médico clandestino, pró-estaline, pornógrafo, bêbado..." mas talvez ainda mais o que me prejudica:" Sabe, ele não tem automóvel!" Um médico a pé? você merece tudo o que dizem de si!...não tem automóvel? o descaramento deste tolo!...charlatão perigoso, está mesmo a pedir que o enforquem!...a calçada, o passeio, é para os vádios!...para as mulheres da vida!...ir ver um doente a pé? ...é um insulto! o doente corre consigo!...depois queixe-se. (...) o doente consciente dos seus direitos, benificiário da segurança social,sindicalizado,leitor de três,quatro,cinco jornais, primo de duzentos,trezentos milionários, está muito seguro de si...Ainda por cima ...o cúmulo!... o cerne da questão! ...as compras!...vêem-me com os meus dois sacos de rede! ...um para os ossos...outro para os legumes...sobretudo cenouras!
O que eu gostava era de ver Luís XIV com um cartão da Segurança Social! ...ele ia ver se o Estado era ele..
Ah! não são só os meus crimes! ...também há, e talvez, mais importante, a maneira como me visto ...acham que eu não ando bem arranjado? ...se eles se vissem como eu os vejo a eles! uma explosão atómica!...lufadas de neutrões! ...o horror da fealdade! ...cabeças! almas! cus! ...sim!...sim!...ah! a Srª Niçois!...
Não vou tomar decisões com febre...Oh!eu tinha decidido que nunca mais escrevia...só a palavra "escrever" sempre me pareceu indecente!...pretensiosa, narcisista," tu-já-me-leste?"...esta é a verdadeira razão do meu constrangimento...a única!...não sou candidato ao Panteão! os vermezinhos mais valiosos! os glutões de Souffot!...não!...não é a vaidade que me atormenta...é o gás,as cenouras,as tostas? (...) Quando se chega aos trinta e nove graus, vâe-se tudo! ...A febre tem de servir para alguma coisa!...nunca me esqueço de nada!..nunca é a minha natureza!... Agora com a febre a descer...mais baixa...deixo de disparatar...delírio? ...delírio?...nada disso reflexão!...
Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!
...noventa e seis anoa,mãe de um ministro...a minha doente mais velha...belo espírito! sagacidade! memória!Christine de Pisant! Loise Labé! ...Marcéline! ela recitava-me tudo,tudo. eu gostava tanto dela!
"Sozinha fiquei! Sozinha estou!" Como ela tinha razão!
Eu protesto de mais?...nada disso! ...as minhas ideias racistas não têm nada a ver com o assunto! hipócritas! ...Há muito que ela não existe , a raça branca(...) ...nada disso é importante!...o que me prejudicou grandemente foi a " Viagem" ...os ódios assanhados contra mim surgiram por causa da " Viagem" ...ninguém me perdoou a " Viagem" ...desde a " Viagem", tenho pago um preço bem alto! ...ainda se eu me chamasse Vlazine ...Vlazine Progrogrof...e tivesse nascido em Tarnopol, à beira do Don...mas em Courbevoise Seine! ...se tivesse nascido em Tarnopol, há muito que teria ganho o Nobel!...mas sendo eu daqui, e nem sequer sefardita! ...não sabem onde me meter! ... onde me fazer desaparecer mais depressa! vergonha das vergonhas!...em que alçapão? a que ratazanas suplicar? a " Vrunza para os Vrunzeses"!...
Olhou à sua volta: livros, livros, muitos livros. Está submersa num mar de livros. É estranho chegar ao fim da viagem e pensar que só os livros valeram a pena...
A menos que se tenha muito dinheiro, não vale a pena ser uma pessoa encantadora. O sentimentalismo é privilégio dos ricos, não é profissão para desempregados. Os pobres devem ser práticos e prosaicos. Antes ter um bom rendimento do que ser insinuante.
Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)
A abertura da peça surpreende, intriga, perturba. Sob um sol inclemente, Winnie, enterrada até à cintura, comporta-se como se a sua condição fosse a coisa mais natural do mundo, respondendo à cruel estranheza da sua circunstância com um discurso falsamente otimista e hábitos ritualizados.
A sombrinha que me deste. naquele dia.(Pausa.). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa.) Qual dia? (Pausa.) Quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita.)
Winnie passa o tempo a contar histórias para si própria, dolorosamente consciente da sua situação física, mas não do seu absurdo. É nessa inconsciência que reside a sua força. Ela reconstrói-se com uma graça e tenacidade invulgares, superando o sentimento crescente de incapacidade, com a ilusão de que ainda se vai reencontrar com Willie...
Dois vultos, protagonistas de uma inexplicada história de amor, são os únicos seres humanos. Estão à mercê de uma campainha, espécie de deus ex-machina... Nunca ninguém construiu , de modo tão perfeito, a espera. Nunca ninguém escreveu, com tanta ternura, sobre a condição de quem espera... Persistir é a felicidade possível.
Oh, que dia feliz terá sido este! Mais um! Apesar de tudo. Até agora.
Winnie sem pernas, Winnie sem braços nem seios, é visitada por Willie e, finalmente, canta a sua canção: Tua mão está fria/ E tem tanto tremor / Ela não tremia / Sem o teu amor./ Mas se me desdouro/ Em me declarar, tendo tu tanto ouro/ Não te devo amar.
( Pausa.Expressão feliz. Fecha os olhos.Toque estridente da campainha. Abre imediatamente os olhos. Sorri,olhando em frente.Olha à direita , na direção de Willie, que continua de gatas, o rosto levantado para ela. Fim do sorriso. Olham-se um ao outro. Longa pausa.)
Cai o pano.
I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can be heroes, just for one day We can be us, just for one day We can be heroes Just for one day...
Prometeu incorre no pecado da hybris, ultrapassa os limites da justa medida, como lhe faz notar Vulcano, quando o agrilhoa. Esta voluntária hamartia, gerada por um desmesurado amor, perpretou-a Prometeu com plena consciência, até mesmo com presciência - ou não significasse o seu nome "o Previdente": Mas eu sabia tudo isto. Cometi este erro por querer, por querer - não o negarei.
Como castigo da sua insolência, Zeus ordenou ao deus Vulcano que acorrentasse Prometeu no topo do monte Cáucaso durante trinta mil anos. O castigo era ser devorado aos poucos por uma águia que todos os dias lhe comia um pouco do fígado, o qual se regenerava logo de seguida porque Prometeu era um semideus...
Admiro os viciados. Num mundo em que está toda a gente à espera de uma catástrofe total e aleatória ou de uma doença súbita qualquer, o viciado tem o conforto de saber aquilo que quase de certeza estará à sua espera ao virar da esquina. Adquiriu algum controlo sobre o seu destino final e o vício faz com que a causa da sua morte não seja uma completa surpresa.
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactiva. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é como planear a fuga.
Quero dizer, num mundo sem Deus, as mães não são os novos deuses? A última posição inexpugnável e sagrada. Não é a maternidade o último milagre mágico e perfeito? Mas um milagre que é impossível para os homens. E talvez os homens digam que estão contentes por não darem à luz, todo aquele sofrimento e todo aquele sangue, mas na verdade não passam de uvas verdes. É óbvio que o homem não é capaz de fazer nada tão incrível. Força de braços, pensamento abstracto, falos, quaisquer outras vantagens que os homens pareçam ter são coisas muito insignificantes.
Nem sequer podes martelar um prego com um falo. As mulheres já nascem tão adiantadas em termos de capacidades. No dia em que os homens conseguirem dar à luz, nessa altura é que podemos começar a falar em igualdade de direitos.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Perigos, perdições...proibições...
Aviso - Se não achar este conto nada de especial, ou achar até divertido e, de alguma forma, engraçado, vá buscar ajuda psiquiátrica, ou comece a escrever.
O maior perigo é cuidar que se ganha em se perder...Se ao menos eu por fora fosse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro. Não fazer nada é a minha perdição.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que já as frequências suas me ensinaram A desejos deixar de ser contente.
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
In spite of all the heartache That you may cause me I'll do anything for you Anything you want me to If you'll be true to me...
Não fiz da minha dor um poema, fiz dela, porém, um cortejo. E da janela para mim contemplo, espantado, os [...] os crepúsculos vagos de dores sem razão, onde passam, nos cerimoniais do meu descaminho, os perigos, os fardos, os falhanços da minha incompetência de existir. A criança, que nada matou em mim, assiste ainda, de febre e fitas, ao circo que me dou. Ri dos palhaços, sem haver cá fora do circo; põe nos habilidosos e nos acrobatas olhos de quem vê ali toda a vida. E assim, sem alegria, sem contacto, entre as quatro paredes do meu quarto durmo, por [...] Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. [...] Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos.
I can’t explain The slowing of my brain The underlying vein That flows right into you...La la la la La la la la...
Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro eléctrico e a espantosa faculdade de abstracção que tenho e cultivo. Num carro eléctrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da mera-velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro imitar da velocidade e a meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios. Correr riscos reais, além de me apavorar não é por medo que eu sinta excessivamente — perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza. Nunca vou para onde há risco. Tenho medo ao tédio dos perigos. Um poente é um fenómeno intelectual.
Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano.O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica...
A escrita celiniana atinge, neste equilíbrio entre o delírio fantasmático e o real, a sua máxima perfeição…. A perfeição é um castelo perigoso...
Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi...
Simão, estendido no chão com o ferimento da bala aberto, chorava baixinho. O quarto estava desarrumado. Entornou a tinta, rasgou papéis e tinha o lábio cortado. A mancha de sangue que aumentava no seu ombro mostrava o quanto o pobre rapaz, que pouco conhecia do amor a não ser das quiméricas cartas que a menina lhe mandava, desejava sair do corpo. Morrer ali, esvaindo-se, sentindo a vida escorrer-lhe, seria a saída perfeita do mundo que o derrotara.
Ninguém sente em si o peso do amor que se inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras do coração e da vida, é grato sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.
Não é sensato deixar um dragão fora dos teus cálculos se vives perto dele.
22 de Agosto de 1944:Foram necessários cinco anos de luta obstinada e silenciosa para que um jornal, nascido do espírito de resistência débil e ininterrupto, no meio de todos os perigos da clandestinidade, pudesse finalmente circular às claras, numa Paris liberta de sua vergonha. Não se pode escrever isso sem emoção. Esta alegria confusa que começamos a ler nos rostos dos parisienses é também a nossa. Mas a tarefa dos homens da resistência não terminou. Houve o tempo da provação, e estamos vislumbrando o seu fim. É fácil para nós acolher um tempo de alegria. Nos nossos corações ela toma o lugar que a esperança ocupou durante cinco anos. A ela também seremos fiéis...
É proibido proibir..
Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu. Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.
Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
Panfleto mágico em forma de romance...
Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora -Que -Logo -Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
– Bem sei que podem perseguir -me, arrancar -me os olhos, torcer -me as orelhas, transformar -me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei -de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO. E João Sem Medo continuou a subir o caminho árduo, resoluto na sua pertinácia de ocultar o medo – a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.
― Eh! Fada dos bosques! Aparece, rica fada da minh’alma.
Então ― ó pasmo dos pasmos! ― João Sem Medo viu sair da espessura da floresta um ser prodigioso que de longe parecia uma mulher jovem e bela, cabelo loiro até à cintura, três estrelas de prata na testa, varinha na mão direita, roca na mão esquerda, túnica bordada de rubis e esmeraldas, chapinsdellatina e tudo o mais que as fadas costumam usar nos bailes de Entrudo.
No primeiro momento contemplou-a, deslumbrado. Mas, à medida que a observava mais de perto, o sorriso inicial desfez-se pouco a pouco em caretas de desconfiança.
― És a Fada dos Dois Caminhos? – inquiriu, duvidoso. ― Palavra? Mostra cá o bilhete de identidade.
― Não acreditas? – protestou, para desviar a conversa, a hipotética fada com voz aflautada, voz de máscara aos guinchos. ― Sim, sou a Fada Infalível, a Fada Lugar-Comum…
― Acredito, acredito… – concordou o rapaz por zombaria complacente.
E insistiu em examiná-la, com manifesta vontade de rir. E com razão. Pois a pseudo fada parecia… Parecia, não. Era… Era mesmo um homem vestido de mulher, como se deduzia no desarrumo da cabeleira postiça à banda, no negror evidente da barba mal disfarçada por várias camadas de pó-de-arroz, além da maneira canhestra e hirta de andar e da falta daqueles mil e um ademanes femininos tão difíceis de imitar pelos homens. O jeito de pentear os cabelos com os dedos, por exemplo.
Embora não desejasse humilhá-lo, João Sem Medo não evitou um incondescendente riso de chacota.
― Que queres, filho? – explicou a fada falsificada, vexadíssima, a tropeçar na túnica. ― Quando telefonaram para a Repartição da 3ª Mágica a requisitar uma funcionária, só me encontrava lá eu, que sou contínuo, e uma fada já muito velhinha, muito perra, entrevada de reumatismo e com mais de 50 000 anos de serviço activo, quase na idade da reforma por inteiro, coitadinha! E então, por uma questão de prestígio, ofereci-me para esta fantochada. Nem quero pensar no que diria o Mago-Mor se não mandássemos uma fada válida para os Dois Caminhos. Pregava-nos uma descompostura tremenda. Foi por isso que me mascarei e vim… Não julgues, porém, que não percebo de artes mágicas!
Keith debruçou-se sobre o lavatório do seu gabinete ou estúdio ao fundo do jardim, para tratar a ferida que tinha nas costas da mão. Essa ferida fora contraída no início de Março, quando os seus nós dos dedos haviam entrado em contacto não enfático com uma parede de tijolos. A ferida ia agora na sua terceira crosta, mas ele continuava a tratar dela, a afagá-la, a soprá-la, a acarinhá-la — à sua pobre mão. Estes pequenos aleijões eram como pequenos animais de estimação ou vasos de plantas que abruptamente ficassem a nosso cargo, que tivessem de ser alimentados, passeados ou regados.
Quando se passa o meio século, a carne, a cobertura da pessoa, começa a atenuar-se. E o mundo está cheio de lâminas e de espinhos. Durante um ano ou dois as nossas mãos andam tão arranhadas e esfoladas como os joelhos de um menino. Depois aprendemos a proteger-nos. Isto é o que vamos continuar a fazer até que, perto do fim, já nem fazemos mais nada — só nos protegemos. E enquanto aprendemos a fazer isso, uma chave numa porta é como um prego numa porta, e a tampa da caixa do correio é como um cutelo, e até o próprio ar está cheio de espinhos e de lâminas.
Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze -em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.
"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez.
É proibido proibir...
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.
As nossas vidas são cheias de absurdos e de abdicações. Não temos ousadia em nada. Quando julgamos ousar, é que temos febre. Ousamos febrilmente, com demasiada noção do risco e demasiada embriaguez do perigo. Somos incompletos e infecundos. Nascemos escravos. O nosso humanitarismo é uma grilheta que nos pusemos. Não sabemos mandar. Não sabemos sentir, não sabemos sequer ver. Há mais de vinte séculos que seguimos um caminho errado, e nem esse seguimos persistentemente.
Com o sobretudo abotoado até ao queixo Embiocado afastado No lugar mais escuro do café escrevia O múltiplo poema o canto inumerável Arrancado ao desejo à paixão à memória Às lucidíssimas fúrias da renúncia...
Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante /Do tempo sem fim/ O mesmo momento voltando improfícuo e distante / Do que quero em mim!
Começo a conhecer-me. Não existo./ Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,/ou metade desse intervalo, porque também há vida .../ Sou isso, enfim .../Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. / Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo./ É um universo barato.
O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perder, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes...
Junta as mãos, põe-as entre as minhas e escuta-me, ó meu amor.
Eu quero, falando numa voz suave e embaladora, como a dum confessor que aconselha, dizer-te o quanto a ânsia de atingir fica aquém do que atingimos. Quero rezar contigo, a minha voz com a tua atenção, a litania da desesperança. Não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos teria que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais intensos, e nunca o seu conjunto é tão perfeito que o não pudesse ser muitíssimo mais.(...) E para que exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito. Porque tu não amas o que eu digo com os ouvidos com que eu me ouço dizê-lo. Eu próprio se me ouço falar alto, os ouvidos com que me ouço falar alto não me escutam do mesmo modo que o ouvido íntimo com que me ouço pensar palavras. Se eu me erro, ouvindo-me, e tenho que perguntar tantas vezes, a mim próprio, o que quis dizer, os outros quanto me não entenderão! De quão complexas ininteligências não é feita a compreensão dos outros de nós. A delícia de se ver compreendido, não a pode ter quem se quer não compreendido, porque só aos complexos e incompreendidos isso acontece; e os outros, os simples, aqueles que os outros podem compreender — esses nunca têm o desejo de serem compreendidos
Olho para ti, dentro de mim, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal). Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos...
Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa. Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.
E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos da […] estranha recebida por anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém estático...
A intervisão das coisas atingíveis, E o renunciá-las, como um lindo modo Das mãos que a palidez torna impassíveis.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.
O mundo, no qual nascemos — meio de renúncia e de violência —, da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória. Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na especulativa.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água?
Não será melhor Colher coisa nenhuma Nas roseiras sonhadas, E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros, Nas primaveras por haver?
Não será melhor Renunciar, como um rebentar de bexigas populares Na atmosfera das feiras, A tudo Sim, a tudo, Absolutamente a tudo?
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Este é o tempo Da selva mais obscura / Até o ar azul se tornou grades E a luz do sol se tornou impura / Esta é a noite Densa de chacais Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.
I'm so tired, I haven't slept a wink I'm so tired, my mind is on the blink I wonder should I get up and fix myself a drink No,no,no. I'm so tired I don't know what to do I'm so tired my mind is set on you I wonder should I call you but I know what you'd do...
Tenho medo, não da morte, mas da doença, do sofrimento, da dor... Não quero ser tratado, não quero que me prolonguem a vida por mais um, dois anos. Viver já é difícil, viver a prazo é impossível. Quanto mais rápido se acabar com a comiseraçãozinha de familiares, amigos e falsos amigos, melhor. É proibido proibir...
O maior perigo é cuidar que se ganha em se perder...Se ao menos eu por fora fosse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro. Não fazer nada é a minha perdição.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que já as frequências suas me ensinaram A desejos deixar de ser contente.
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
In spite of all the heartache That you may cause me I'll do anything for you Anything you want me to If you'll be true to me...
Não fiz da minha dor um poema, fiz dela, porém, um cortejo. E da janela para mim contemplo, espantado, os [...] os crepúsculos vagos de dores sem razão, onde passam, nos cerimoniais do meu descaminho, os perigos, os fardos, os falhanços da minha incompetência de existir. A criança, que nada matou em mim, assiste ainda, de febre e fitas, ao circo que me dou. Ri dos palhaços, sem haver cá fora do circo; põe nos habilidosos e nos acrobatas olhos de quem vê ali toda a vida. E assim, sem alegria, sem contacto, entre as quatro paredes do meu quarto durmo, por [...] Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. [...] Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos.
I can’t explain The slowing of my brain The underlying vein That flows right into you...La la la la La la la la...
Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro eléctrico e a espantosa faculdade de abstracção que tenho e cultivo. Num carro eléctrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da mera-velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro imitar da velocidade e a meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios. Correr riscos reais, além de me apavorar não é por medo que eu sinta excessivamente — perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza. Nunca vou para onde há risco. Tenho medo ao tédio dos perigos. Um poente é um fenómeno intelectual.
Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano.O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica...
A escrita celiniana atinge, neste equilíbrio entre o delírio fantasmático e o real, a sua máxima perfeição…. A perfeição é um castelo perigoso...
Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi...
Simão, estendido no chão com o ferimento da bala aberto, chorava baixinho. O quarto estava desarrumado. Entornou a tinta, rasgou papéis e tinha o lábio cortado. A mancha de sangue que aumentava no seu ombro mostrava o quanto o pobre rapaz, que pouco conhecia do amor a não ser das quiméricas cartas que a menina lhe mandava, desejava sair do corpo. Morrer ali, esvaindo-se, sentindo a vida escorrer-lhe, seria a saída perfeita do mundo que o derrotara.
Ninguém sente em si o peso do amor que se inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras do coração e da vida, é grato sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.
Não é sensato deixar um dragão fora dos teus cálculos se vives perto dele.
22 de Agosto de 1944:Foram necessários cinco anos de luta obstinada e silenciosa para que um jornal, nascido do espírito de resistência débil e ininterrupto, no meio de todos os perigos da clandestinidade, pudesse finalmente circular às claras, numa Paris liberta de sua vergonha. Não se pode escrever isso sem emoção. Esta alegria confusa que começamos a ler nos rostos dos parisienses é também a nossa. Mas a tarefa dos homens da resistência não terminou. Houve o tempo da provação, e estamos vislumbrando o seu fim. É fácil para nós acolher um tempo de alegria. Nos nossos corações ela toma o lugar que a esperança ocupou durante cinco anos. A ela também seremos fiéis...
É proibido proibir..
Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu. Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.
Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
Panfleto mágico em forma de romance...
Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora -Que -Logo -Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
– Bem sei que podem perseguir -me, arrancar -me os olhos, torcer -me as orelhas, transformar -me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei -de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO. E João Sem Medo continuou a subir o caminho árduo, resoluto na sua pertinácia de ocultar o medo – a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.
― Eh! Fada dos bosques! Aparece, rica fada da minh’alma.
Então ― ó pasmo dos pasmos! ― João Sem Medo viu sair da espessura da floresta um ser prodigioso que de longe parecia uma mulher jovem e bela, cabelo loiro até à cintura, três estrelas de prata na testa, varinha na mão direita, roca na mão esquerda, túnica bordada de rubis e esmeraldas, chapinsdellatina e tudo o mais que as fadas costumam usar nos bailes de Entrudo.
No primeiro momento contemplou-a, deslumbrado. Mas, à medida que a observava mais de perto, o sorriso inicial desfez-se pouco a pouco em caretas de desconfiança.
― És a Fada dos Dois Caminhos? – inquiriu, duvidoso. ― Palavra? Mostra cá o bilhete de identidade.
― Não acreditas? – protestou, para desviar a conversa, a hipotética fada com voz aflautada, voz de máscara aos guinchos. ― Sim, sou a Fada Infalível, a Fada Lugar-Comum…
― Acredito, acredito… – concordou o rapaz por zombaria complacente.
E insistiu em examiná-la, com manifesta vontade de rir. E com razão. Pois a pseudo fada parecia… Parecia, não. Era… Era mesmo um homem vestido de mulher, como se deduzia no desarrumo da cabeleira postiça à banda, no negror evidente da barba mal disfarçada por várias camadas de pó-de-arroz, além da maneira canhestra e hirta de andar e da falta daqueles mil e um ademanes femininos tão difíceis de imitar pelos homens. O jeito de pentear os cabelos com os dedos, por exemplo.
Embora não desejasse humilhá-lo, João Sem Medo não evitou um incondescendente riso de chacota.
― Que queres, filho? – explicou a fada falsificada, vexadíssima, a tropeçar na túnica. ― Quando telefonaram para a Repartição da 3ª Mágica a requisitar uma funcionária, só me encontrava lá eu, que sou contínuo, e uma fada já muito velhinha, muito perra, entrevada de reumatismo e com mais de 50 000 anos de serviço activo, quase na idade da reforma por inteiro, coitadinha! E então, por uma questão de prestígio, ofereci-me para esta fantochada. Nem quero pensar no que diria o Mago-Mor se não mandássemos uma fada válida para os Dois Caminhos. Pregava-nos uma descompostura tremenda. Foi por isso que me mascarei e vim… Não julgues, porém, que não percebo de artes mágicas!
Keith debruçou-se sobre o lavatório do seu gabinete ou estúdio ao fundo do jardim, para tratar a ferida que tinha nas costas da mão. Essa ferida fora contraída no início de Março, quando os seus nós dos dedos haviam entrado em contacto não enfático com uma parede de tijolos. A ferida ia agora na sua terceira crosta, mas ele continuava a tratar dela, a afagá-la, a soprá-la, a acarinhá-la — à sua pobre mão. Estes pequenos aleijões eram como pequenos animais de estimação ou vasos de plantas que abruptamente ficassem a nosso cargo, que tivessem de ser alimentados, passeados ou regados.
Quando se passa o meio século, a carne, a cobertura da pessoa, começa a atenuar-se. E o mundo está cheio de lâminas e de espinhos. Durante um ano ou dois as nossas mãos andam tão arranhadas e esfoladas como os joelhos de um menino. Depois aprendemos a proteger-nos. Isto é o que vamos continuar a fazer até que, perto do fim, já nem fazemos mais nada — só nos protegemos. E enquanto aprendemos a fazer isso, uma chave numa porta é como um prego numa porta, e a tampa da caixa do correio é como um cutelo, e até o próprio ar está cheio de espinhos e de lâminas.
Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze -em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.
"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez.
É proibido proibir...
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.
As nossas vidas são cheias de absurdos e de abdicações. Não temos ousadia em nada. Quando julgamos ousar, é que temos febre. Ousamos febrilmente, com demasiada noção do risco e demasiada embriaguez do perigo. Somos incompletos e infecundos. Nascemos escravos. O nosso humanitarismo é uma grilheta que nos pusemos. Não sabemos mandar. Não sabemos sentir, não sabemos sequer ver. Há mais de vinte séculos que seguimos um caminho errado, e nem esse seguimos persistentemente.
Com o sobretudo abotoado até ao queixo Embiocado afastado No lugar mais escuro do café escrevia O múltiplo poema o canto inumerável Arrancado ao desejo à paixão à memória Às lucidíssimas fúrias da renúncia...
Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante /Do tempo sem fim/ O mesmo momento voltando improfícuo e distante / Do que quero em mim!
Começo a conhecer-me. Não existo./ Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,/ou metade desse intervalo, porque também há vida .../ Sou isso, enfim .../Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. / Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo./ É um universo barato.
O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perder, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes...
Junta as mãos, põe-as entre as minhas e escuta-me, ó meu amor.
Eu quero, falando numa voz suave e embaladora, como a dum confessor que aconselha, dizer-te o quanto a ânsia de atingir fica aquém do que atingimos. Quero rezar contigo, a minha voz com a tua atenção, a litania da desesperança. Não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos teria que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais intensos, e nunca o seu conjunto é tão perfeito que o não pudesse ser muitíssimo mais.(...) E para que exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito. Porque tu não amas o que eu digo com os ouvidos com que eu me ouço dizê-lo. Eu próprio se me ouço falar alto, os ouvidos com que me ouço falar alto não me escutam do mesmo modo que o ouvido íntimo com que me ouço pensar palavras. Se eu me erro, ouvindo-me, e tenho que perguntar tantas vezes, a mim próprio, o que quis dizer, os outros quanto me não entenderão! De quão complexas ininteligências não é feita a compreensão dos outros de nós. A delícia de se ver compreendido, não a pode ter quem se quer não compreendido, porque só aos complexos e incompreendidos isso acontece; e os outros, os simples, aqueles que os outros podem compreender — esses nunca têm o desejo de serem compreendidos
Olho para ti, dentro de mim, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal). Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos...
Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa. Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.
E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos da […] estranha recebida por anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém estático...
A intervisão das coisas atingíveis, E o renunciá-las, como um lindo modo Das mãos que a palidez torna impassíveis.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.
O mundo, no qual nascemos — meio de renúncia e de violência —, da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória. Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na especulativa.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água?
Não será melhor Colher coisa nenhuma Nas roseiras sonhadas, E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros, Nas primaveras por haver?
Não será melhor Renunciar, como um rebentar de bexigas populares Na atmosfera das feiras, A tudo Sim, a tudo, Absolutamente a tudo?
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Este é o tempo Da selva mais obscura / Até o ar azul se tornou grades E a luz do sol se tornou impura / Esta é a noite Densa de chacais Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.
I'm so tired, I haven't slept a wink I'm so tired, my mind is on the blink I wonder should I get up and fix myself a drink No,no,no. I'm so tired I don't know what to do I'm so tired my mind is set on you I wonder should I call you but I know what you'd do...
Tenho medo, não da morte, mas da doença, do sofrimento, da dor... Não quero ser tratado, não quero que me prolonguem a vida por mais um, dois anos. Viver já é difícil, viver a prazo é impossível. Quanto mais rápido se acabar com a comiseraçãozinha de familiares, amigos e falsos amigos, melhor. É proibido proibir...
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