Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
ReleituraS
terça-feira, 28 de novembro de 2023
Pessoa revisitado...
Compararei algumas destas figuras, para mostrar, pelo exemplo, em que consistem essas diferenças. O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares e o Barão de Teive — são ambas figuras minhamente alheias — escrevem com a mesma substância de estilo, a mesma gramática e o mesmo tipo e forma de propriedade: é que escrevem com o estilo que, bom ou mau, é o meu. Comparo as duas porque são casos de um mesmo fenómeno — a inadaptação à realidade da vida, e, o que é mais, a inadaptação pelos mesmos motivos e razões. Mas, ao passo que o português é igual no Barão de Teive [e] em Bernardo Soares, o estilo difere em que o do fidalgo é intelectual, despido de imagens, um pouco — como direi? — hirto e restrito; e o do burguês é fluido, participando da música e da pintura, pouco arquitectural. O fidalgo pensa claro, escreve claro, e domina as suas emoções, se bem que não os seus sentimentos; o guarda-livros nem emoções nem sentimentos domina, e quando pensa é subsidiariamente a sentir.
Páginas que recomendaria a um amigo escritor : 45,46,47; 50,51, 52.
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma felicidade frouxa de sonhador débil. Desde que a paisagem é paisagem, deixa de ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver.(...)
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno - vapor de carga preto - dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha inimportância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz.
O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh!
EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti demais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar nocturno.
E logo que sinto que, há um mar nocturno dentro de mim,
Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio,
Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo.
De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura,
Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo
Húmido e sombrio marulho humano nocturno,
Voz de sereia longínqua chorando, chamando,
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,
E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos...
Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy...
Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy......
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
De longe vejo passar no rio um navio...
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimir desolação com isto...
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença da metafísica...
Rio abaixo até à realidade do mar.
sábado, 18 de novembro de 2023
Tédio...
Uma obra prima que me começou por causar um profundíssimo, " íssimo", tédio, mas que evoluiu de forma agradável...
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve.mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói
A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra. Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.
Quando o Tédio, invencível e infecundo,
Nos faz sentir a solidão de ser,
E uma monotonia ocupa o mundo,
Que mais tem o espírito a fazer
Do que ensinar ao corpo que o profundo
Desgosto da existência lhe requere
Que veja sempre ao cálix o seu fundo
E sempre tome o cálix a encher?
domingo, 29 de outubro de 2023
Dúvidas...
domingo, 12 de dezembro de 2021
Dualidades...
De resto eu não sonho, eu não vivo, salvo a vida real. Todas as naus são naus de sonho logo que esteja em nós o poder de (as) sonhar. O que mata o sonhador é não viver quando sonha; o que fere o agente [...] é não sonhar quando vive. Eu fundi numa cor una de felicidade a beleza do sonho e a realidade da vida. Por mais que possuamos um sonho nunca se possui um sonho tanto como se possui o lenço que se tem na algibeira, ou, se quisermos, como se possui a nossa própria carne.
Por mais que se viva a vida em plena [...] e triunfante acção, nunca desaparecem o (...) do contacto com os outros, o tropeçar em obstáculos, ainda que mínimos, o sentir o tempo decorrer.
Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Universo, a Vida — seja isso real ou ilusão — é de todos, todos podem ver o que eu vejo, e possuir o que eu possuo — ou, pelo menos, pode conceber-se vendo-o e passando e isso é (...)
Mas o que eu sonho ninguém pode ver senão eu, ninguém a não ser eu possuir. E se do mundo exterior o meu vê-lo difere de como outros o vêem, isso vem de que do sonho meu eu ponho em vê-lo sem querer, do que do sonho meu se cola a meus olhos e ouvidos.
sábado, 27 de março de 2021
Teatro: uma saudade...Humor: uma incapacidade...
And by opposing end them.To die, to sleep -
Será que a opinião de Pessoa/ Bernardo Soares me motiva?
"Em minha infância e primeira adolescência houve
para mirn, que vivia e era educado em terras inglesas, um livro supremo e
envolvente — os «Pickwick Papers», de Dickens; ainda hoje, e por isso, o
leio e releio como se não fizesse mais que 1embrar." Fernando Pessoa, [Carta a José Osório de Oliveira - 1932]
"Deixei para trás o hábito de ler. Já nada leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente."
"Há um livro de que ando sempre acompanhado —As Aventuras de Pickwick. Li várias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O declínio do romance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso à literatura moderna."
"Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos? "
Ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida. (Não posso tornar a relê-lo.) -Vol Há criaturas que sofrem realmente por não poder ter vivido na vida real com o Sr. Pickwick e ter apertado a mão ao Sr. Wardle. Sou um desses. Tenho chorado lágrimas verdadeiras sobre esse romance, por não ter vivido naquele tempo, com aquela gente, gente real.
"Os desastres dos romances são sempre belos porque não corre sangue autêntico neles, nem apodrecem os mortos nos romances, nem a podridão é podre nos romances."
"Quando o Sr. Pickwick é ridículo, não é ridículo, porque o é num romance. Quem sabe se o romance não será uma mais perfeita realidade e vida que Deus cria através de nós, que nós — quem sabe — existimos apenas para criar? As analogias parece não existirem senão para produzir arte e literatura; é, palavras, o que dela fala e fica. Porque não serão essas figuras extra humanas verdadeiramente reais? Dói-me mal na existência mental pensar que isto possa ser assim." – Bernardo Soares
domingo, 7 de fevereiro de 2021
Melancolia, Elegias, Melancolismos...
Elegia na sombra: Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia touca a desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medovNesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia; Lembramos névoas, sonhos a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o sentimos bem no coração? Que vitória maligna conseguimos — Em que guerras, com que armas, com que armada? — Que assim o seu castigo irreal sentimos Colado aos ossos desta carne errada? Terra tão linda com heróis tão grandes, Bom Sol universal localizado Pelo melhor calor que aqui expandes, Calor suave e azul só a nós dado.(...) Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente Nem paira mais no ar, que fora almo Se não fora a nossa alma erma e vazia, Que o nosso fado, vento frio e calmo E a tarde de nós mesmos, baça e fria Como longínquo sopro altivo e humano Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena.
Pequena elegia de setembro: Não sei como vieste... Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro. Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas...? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.
Texto de apresentação, escrito por Vinicius para a primeira edição:
Dessas cinco elegias, as quatro primeiras foram ideadas e em parte escritas - a primeira e a segunda integralmente - em 1937, em Itatiaia, no sítio de Octávio de Faria, ali a meio caminho entre Campo Belo e a Cachoeira de Marombas, lugar que amo e onde passei alguns dos meus melhores dias. Nesse tempo, a terceira, essa que aqui vai com o título de "Desesperada", era para ser na realidade a quarta; em substituição havia outra; que se deveria chamar "Intermédio elegíaco" e afinal se transformou num drama lírico, com que ainda hoje ando lidando. Iniciada nessa ocasião, só fui terminá-la em fins de 1938, em Oxford, quando, estudante, ali assisti. A atual quarta foi a única que me perseguiu, inacabada, ao longo de todos esses anos.Há coisa de um mês, de repente, resolveu-se.Quanto à última, escrevi-a de jato, naquele maio de 1939, em Londres, vendo, do meu apartamento, a manhã nascer sobre os telhados novos do bairro de Chelsea. A qualidade da experiência vivida e o lugar onde a vivi criaram-lhe espontaneamente a linguagem em que se formou, mistura de português e inglês, com vocábulos muitas vezes inventados e sem chave morfológica possível. Mas não houve sombra de vontade de parecer original. É uma fala de amor como a falei, virtualmente transposta para a poesia, na qual procurei traduzir,dentro de sonoridades estanques de duas línguas que me são tão caras e com arranjos gráficos e ordem puramente mnemônica, isso que foi a maior aventura lírica da minha vida.
V.M.Junho de 1943
Elegia ao primeiro amigo
Seguramente não sou eu Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história. É antes uma vontade indizível de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro. Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial. Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia. É apenas um prenúncio do mistério Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada... Vim para ser lembrado Para ser tocado de emoção, para chorar Vim para ouvir o mar contigo Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã. Nossos olhos enegreciam lentamente de dor Nossos corpos duros e insensíveis Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto Para aquele que, entre nós, ferido de beleza Aquele de rosto de pedra De mãos assassinas e corpo hermético de mártir Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar. Pouco importa que tenha passado, e agora Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva... Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar. Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia E abrigaste em ti todo o patético? Não sei o que tenho de te falar assim: sei Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer E eu nada diria de grave; decerto Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros... Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido: Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar. Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo) Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível (Vá lá por conta da necessária gentileza...) No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás... Existo também; de algum lugar Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes Escuto vozes ermas Que me chamam para o silêncio. Sofro O horror dos espaços O pânico do infinito O tédio das beatitudes. Sinto Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação. Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar. Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. Seguramente não sou eu: É a tarde, talvez, assim parada Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo Quisera poder dizer-te tudo; no entanto Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar Uma mulher me vê viver, que me chama; devo Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.
Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfémias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legítimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delícias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos húmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!
Isto só se podia observar pelos ombros, já que o resto do corpo estava coberto por uma manta comum, mas os corpos sentiam esse contacto amortecido pelas roupas de um modo tão suavemente indistinto como o que nos dá a ver as coisas numa noite de luar...A transmissão refinada do desejo do corpo para as roupas, do abraço para os obstáculos, numa palavra, do objectivo para o caminho, ia ao encontro da sua natureza. A sua sensualidade atraía-o para a mulher, mas as outras forças superiores afastavam-no sa pessoa estranha que não se lhe ajustava e que subitamente via à sua frente,de modo que estava sempre dividido, numa viva contradição entre atracção e repulsa.(...)lembrava-se com frequência da despedida aquando da sua primeira visita:segurara então na sua mão suave,uma mão sem peso,artificial e nobre na sua perfeição, e ambos se olharam nos olhos,sentiram certamente a mesma aversão, mas depois perceberam que se poderiam fundir até se extinguirem como um sopro. Algo dessa visão permacera entre eles. Deste modo, temos em cima duas cabeças que se olham com uma frieza extrema, enquanto em baixo os corpos se fundem sem resistência e chegam ao rubro.Há nisto qualquer coisa da força maléfica dos mitos...
Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria do contacto na qual o mistério e a dignidade de outrem consistiriam precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de ligação com um mundo desconhecido. A volúpia seria, nessa filosofia, a forma mais completa e mais especializada de aproximação com o Outro, uma técnica a mais colocada a serviço do conhecimento de uma individualidade estranha à nossa. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção nasce ou morre, tal como acontece com a mão um tanto repugnante da velha que me apresenta uma petição, a fronte húmida do meu pai em agonia, ou a chaga lavada de um ferido. As próprias relações mais intelectualizadas, ou as mais neutras, ocorrem através desse sistema de sinais materiais: o olhar subitamente iluminado do tribuno a quem explico determinada manobra numa manhã de batalha; a saudação impessoal do subalterno que a nossa passagem imobiliza em atitude de obediência; o olhar amistoso do escravo a quem agradeço por trazer-me uma bandeja; ou a expressão apreciadora de um velho amigo ante o camafeu grego com que acabamos de presenteá-lo. Com a maior parte das pessoas, os mais ligeiros ou mais superficiais desses contactos bastam a nosso desejo, ou até o excedem. Que esses mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.
Será que é isto estar apaixonado: "Um ser passar da periferia do nosso universo ao seu centro!?
Have you no idea that you're in deep? I've dreamt about you nearly every night this week How many secrets can you keep? 'Cause there's this tune I've found That makes me think of you somehow And I play it on repeat Until I fall asleep Spilling drinks on my settee...
Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento ,perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador.
Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria. É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está: E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será.
O que diz o dicionário sobre nostalgia? Melancolia, tristeza causada pela saudade da sua terra ou da sua pátria; Saudade do passado, de um lugar. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que deixou de possuir. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados.Condição daquele que é triste sem motivos explícitos.
Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia touca a desgraça.
Tantos poemas contemporâneos! Tantos poetas absolutamente de hoje — Interessante tudo, interessantes todos...Ah, mas é tudo quase...É tudo vestíbulo E tudo só para escrever. Nem arte, Nem ciência Nem verdadeira nostalgia...
O que é a melancolia?
Tristeza vaga e indefinida; estado de tristeza, traduzido pelo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras; enfraquecimento mental e/ou físico, cuja ocorrência ocasiona certas complicações psiquiátricas... Abatimento, desânimo, esmorecimento, languidez, misantropia, prostração e tristeza...
Etimologicamente, o vocábulo tem uma raiz bastante "negra": segundo hipócrates, melancolia é um dos quatro humores corporais que, por influência de saturno, é produzido, em excesso, pelo baço. Bem prosaica, na origem, enaltecida pelos românticos, a melancolia chega até nós, adulterada por psiquiatras e psicanalistas: síndrome mental que se caracteriza pela sensação de impotência, inutilidade, pensamentos negativos, dificuldade de concentração, falta de apetite, ansiedade, insónia e ideias constantes de morte; um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas sem que exista uma perda.
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração.
Y en este titubeo de aliento y agonía, cargo lleno de penas lo que apenas soporto. ¿No oyes caer las gotas de mi melancolía?
As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.
You want her, you need her And yet you don't believe her When she says her love is dead You think she needs you...I know what I have and want But I don't know what I need Well, he said, he said, he said, he said "Where we're going, I'm dead...
Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante:o meu amigo está longe e a saudade é bastante!
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
amor podes mandar se for sincero, saudades isso não pois não as quero/ Quando eu morrer... quero uma fita amarela gravada com o nome dela.
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Exegi monumentum aere perennius regalique situ pyramidum altius, quod non imber edax, non Aquilo inpotens possit diruere aut innumerabilis annorum series et fuga temporum. Este monumento é o texto perfeito, a obra imorredoura. Sem a grandiosidade, o que não implica necessariamente, extensão, mas sim uma organização intrínseca, não existe literatura de qualidade.
Recordo o dia seis de setembro de 2013. Que pena não ter feito,nesse dia, uma reflexão sobre perfeição estrutural... Agora, três anos depois, já não consigo reconstituir a emoção que senti...Só subsite a recordação melancólica desse momento...
Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...
Podem as palavras morrer. Eu estou ainda próximo da noite.
Coleciono lutos,água de faianças,
animais do espírito,demasias.
Coleciono tudo os que as palavras não dizem:
uma feroz tranquilidade,um inventário de silêncios,
um catálogo de medos,
tudo o que não sei dizer sem as palavras.
O homem principia onde a morte o edifica.
A palavra, nunca será a exata habitação
do medo.
Na amena costa da Riviera francesa, mais ou menos a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, ergue-se um vasto e soberbo hotel pintado de cor-de-rosa.
Eu eduquei - te para o trabalho - não especialmente para o casamento.Agora vai em frente e aproveita essa experiência. Magoa-te ou magoa-o a ele - aconteça o que acontecer,não perdes nada,pois economicamente és um rapaz,não uma rapariga.
Encontravam-se ainda na fase feliz do amor.Estavam cheios de corajosas ilusões a respeito um do outro,ilusões tremendas,de tal modo que a sua comunhão mútua parecia dar-se numa esfera onde mais nenhuma relação humana importava.
Estar física e espiritualmente sozinho gera solidão,e a solidão gera mais solidão.
Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas! Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazuli das emoções descontínuas! Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim...
Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.
She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad." And she's making me feel like I've never been born I said, Who put all those things in your head? Things that make me feel that I'm mad. And you're making me feel like I've never been born."She said, "You don't understand what I said." I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right, Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "You don't understand what I said."I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right,Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad. I know what it's like to be dead...
"Estás só. Ninguém o sabe.
Cala e finge. Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."
murmurou estas palavras em outro tempo escritas,e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-la,também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais dizer,porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram estar só, caro senhor, é muito mais conseguir dizê-lo e tê-lo dito.
Mas pra quê? Pra quê tanto céu? Pra quê tanto mar? Pra quê? De quê serve Esta onda Que quebra? E o vento De tarde? De que serve A tarde? Inútil paisagem...
Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Bravo, vejo que você se cansou de idealidades femininas incorpóreas, trocou a Lídia etérea por uma Lídia de encher as mãos e agora está aqui à espera doutra dama(...)Adeus, caro Reis, até um destes dias, deixo-o a namorar a pequena, você afinal desilude-me,amador de criadas,cortejador de donzelas,estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está.
Adéu, adéu amor meu i sort
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim...
Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.
À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida...
Mi viejo refran, mi poema, la fe que perdi no camino mi carreta . Mi dulce placer, mi sueño de ayer...
Mi fuente, mi sed, mi barco, mi red y la arena. Donde te sentí donde te escribí mi poema.
Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todo o mundo, estéril de todas as almas. A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez. Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!
Esplende, ausência de sol, brilha, luar que cessas...Só tu, sol que brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as flores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.
Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o esperemos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.
A cada qual, como a estatura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.
Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa.Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas...
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
Metamorfoses...
"A doença mental e toda a sua envolvência não são estranhos à arte. Na música popular, encontram-se inúmeros exemplos de formulações e imagens que contribuem para incrementar o conhecimento sobre as vivências internas. A tradução dessas experiências subjectivas apresenta grande valor para o conhecimento psiquiátrico, cuja base assenta no movimento empático como meio de exploração de estados patológicos. Os Beatles, grupo inglês de grande expressão, apresentam nas suas letras particularidades psicopatológicas. A canção She Said She Said aparece como especialmente rica nesse aspecto.
Nas letras das canções dos Beatles, encontram-se passagens que podem ser observadas e tratadas como estados psicopatológicos. She Said She Said é um exemplo particularmente rico em noções psicopatológicas, nomeadamente a constelação depressiva ou os fenómenos psicóticos e de despersonalização."
".... por terras de Extremadura, Don Quijote y Saavedra, com o elmo de mambrino na mão direita com que o acaricia, entrevê, numa longínqua proximidade, mas não perto de Toboso, embora ao som de Brel, Dulcinea..."
A alma humana é vítima tão inevitável da dor que sofre a dor da surpresa dolorosa, mesmo com o que devia esperar. Tal homem, que toda a vida falou da inconstância e da volubilidade feminina como de coisas naturais e típicas, terá toda a angústia da surpresa triste quando se encontre traído em amor — tal qual, não outro, como se tivesse sempre tido por dogma ou esperança a fidelidade e a firmeza da mulher.
Tal outro, que tem tudo por oco e vazio, sentirá como um raio súbito a descoberta de que têm por nada o que escreve, ou que é estéril o seu esforço por ensinar ou que é falsa a comunicabilidade da sua emoção.
Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.
..."Ortega 'hablando' de 'El Quijote'..."
Eu creio que a missão mais importante da crítica não é classificar taxar as obras literárias, distribuindo-as em boas ou más. Cada dia me interessa menos sentenciar: no lugar de ser juiz das coisas, prefiro ser o seu amante».
«o ódio impede uma verdadeira apreciação. A crítica pode ser antagónica e polémica, mas nunca basear-se no ódio».
O tema, bastante recorrente no pensamento do filósofo, acerca da necessidade humana de construção de hierarquias, «sem as quais o cosmos volta ao caos», é também considerado uma das razões que legitimam a crítica, porque «louvar o que não é louvável é confundir a cultura».
"....el Quijote en tierras extremeñas......"
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.
Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas...
Num livro nunca escrito, numa folha em branco, ouço, dentro de mim, fonemas, sons que insignificam... No momento em que me procuro e me escrevo, experimento a emoção de encontrar a palavra-que nunca-foi-dita , a palavra que sempre existiu só para mim, a palavra indizível que exprime o que sinto por ti...
Como se consegue transformar um amor em amizade? Será possível? Não será demasiado doloroso? Será que o amor se metamorfoseia de amizade , mas continua a ser amor? Será que a amizade, que já foi amor, tem uma natureza diferente da amizade que nasceu amizade?
“O mito de Eros e Psique não é menos importante para o entendimento da atualidade” Dirigindo-se ao leitor, Inês Pedrosa afirma que este “compreenderá a ligação entre os factos e o mito, se dispuser de paciência para ler este romance e se pertencer a essa fina-flor de almas sábias que encontrou na hipérbole de ficção uma verdade mais cirúrgica do que a fornecida pela científica dieta dos documentos”
A conservação da identidade interior, apesar da mutação exterior, inerente ao conceito de metamorfose em ovídio e em kafka, é um reflexo da teoria da metempsicose, defendida por Pitágoras.
Pigmalião sempre vira a vida dissoluta destas mulheres. / Por isso, revoltado com os vícios sem conta que a natureza / conferira à índole feminina, vivia solteiro e sem esposa; / e por muitos anos não teve com quem partilhar o leito.Um dia, com arte espantosa e feliz, esculpiu uma peça / de marfim da cor da neve, com a beleza com que mulher / alguma consegue nascer; e enamorou-se da sua obra.A face era de uma jovem autêntica,a qual tu julgarias / estar viva e que queria, não obstante a timidez , mover-se (...) Pigmalião extasia-se / a olhá-la e sorve no peito chamas pelo corpo de imitação. / Muitas vezes toca com as mãos na sua obra para testar/ se é corpo ou marfim,e nem admite que ainda é marfim,/ d´-lhe beijos e julga que são devolvidos_; fala-lhe, abraça-a, / crê que,ao tocar-lhe, os dedos se afundam no corpo e teme / que, ao pressionar, marcas lívidas acedam aos membros./ Ora lhe faz carícias, ora lhe traz presentes que encantam/ as donzelas: conchas e pedrinhas polidas,/ e pequeninas aves e flores de mil cores, / e lírios, e bolinhas coloridas, e lágrimas que deslizam/ da árvore das Helíades. Enfeita ainda o corpo de vestidos,/nos dedos põe anéis com jóias,ao pescoço longos colares./ Pendem das orelhas leves pérolas,e fitas sobre o peito./ Tudo lhe fica tão bem! E nem nua pareceria menos bela./ Deita-a então sobre colchas tingidas da concha de Sídon,/ e chama-lhe companheira de leito, e recosta-lhe a cabeça/ em almofadas de macias penas, como se ela pudesse sentir./ Chegara o dia da festa de Vénus, aquela a que toda a Chipre / acorria a celebrar.(...) Findo o ritual, quedou-se junto ao altar / e timidamente disse: " Deuses,se tendes o poder de outorgar/ tudo, desejo que me concedais... esposa semelhante à de marfim"/ Presente à sua festa, a doirada Vénus percebeu o que queria/ dizer a prece; e por três vezes o fogo se avivou e a ponta / da chama se ergueu pelos ares, sinal favorável da deusa./ Ao voltar a casa, logo se abeira da estatueta da sua menina./ Debruçando-se sobre o leito, beijou-a: pareceu-lhe tépida! De novo aproxima os lábios e toca-lhe nos seios com as mãos./ Ao ser tacteado, o marfim torna-se mole ! A rigidez esvai-se, / e sob os dedos cede e molda-se, tal como a cera do Himeto/ sob o sol amolece e, moldada pelos dedos, cede a mudar-se / em formas sem conta, tornando-se útil pelo próprio uso./ Enquanto se pasma, e se alegra na dúvida e receia enganar-se, / uma e outra vez o amante toca com as mãos nos seus desejos. Era corpo humano! As veias tacteadas pelo polegar latejam! / Então, o herói de Pafo pronuncia palavras solenes / de gratidão a Vénus. Comprime, por fim, com os lábios / os lábios que já não eram falsos. A donzela sentiu os beijos / que ele dava e corou. E erguendo o olhar tímido para o dele, / vislumbra, ao mesmo tempo, o céu e quem a amava.
Parafraseando saramago, gostaria de meter esta metamorfose de galateia em cima de um palco...Se tivesse sido atriz, teria sido o papel da minha vida...
Segundo fernando pessoa,o mito de Pigmalião e Galateia mostra que o grego compreendeu a dor de a arte nunca poder chegar à vida, por não poder criar a vida verdadeiramente.
Outras metamorfoses...
Mal finda a prece, invade-lhe um torpor os membros, os seus seios tenros são por fina casca envoltos, dos cachos crescem folhas e ramos dos braços; pés tão velozes fixam-se em lentas raízes, no seu rosto coberto, um brilho apenas resta. Entanto, Febo continua a amar, e pondo a dextra no tronco, sente o peito tremer sob a casca e, os ramos abraçando, qual membros, recobre-o de beijos, mas o tronco se esquiva aos seus beijos. Diz-lhe o deus: “Já que não podes ser a minha esposa, serás a minha árvore..."
De lá, pela imensidão do éter, coberto com um véu dourado, o Himeneu se afasta e se dirige para as regiões da Trácia e é chamado inutilmente pela voz de Orfeu. Aquele, na verdade, se aproximou, contudo não levou palavras sagradas, nem feições alegres, nem presságio favorável. A tocha aguda que ele conservou esteve sempre com funesta fumaça e, até mesmo com movimentos, não obteve nenhuma chama. O desfecho é mais grave do que o auspício: com efeito, enquanto a esposa anda por entre as plantas, acompanhada de uma nova turba de ninfas, morre com a picada de uma serpente recebida no tornozelo. O poeta da Trácia lamentou para os céus superiores a fim de que descesse às sombras, ousou entrar nos infernos e, por entre populações inconstantes e espectros já sepultados, aproximou-se de Perséfone e do senhor das sombras, que detém os reinos infernais. Tocadas as cordas, assim diz os versos: “Ó deuses do mundo posto sob a terra, no qual descemos todos nós, criaturas mortais; cessados os rodeios da palavra enganadora, se é lícito que vós permitis falar coisas verdadeiras, não desci para ver o tenebroso Tártaro, nem para vencer as três goelas cobertas de serpentes do monstro de Medusa: a causa da viagem é a minha esposa, tendo pisado numa víbora, o veneno nela se espalhou e tirou-lhe os anos crescentes. Desejei poder suportar, não negarei que eu tenha tentado: o Amor venceu. Este é um deus bem conhecido na região superior, se aqui o é, não sei, contudo penso que seja. Se a fama do antigo rapto não mentiu, o Amor também vos uniu. Por entre estes lugares plenos de terror, por entre este enorme caos e a sombra de vasto reino, suplico, refazei a vida prematura de Eurídice. Devemos todas as coisas a vós, e tendo vivido um pouco, mais lentamente ou mais rapidamente, nos impelimos para uma única sede. Para aqui nos dirigimos todos, esta é a última casa, e vós tendes vastíssimo domínio sobre o género humano. Ela também, quando já madura tiver percorrido anos suficientes, estará ao vosso poder: pedimos, por favor, aquilo que é necessário; porque se os fados me negam a graça em favor da esposa, estou decidido a não querer regressar, comprazei vós com a morte dos dois”. As almas exangues choravam por aquele que,tocando as cordas, dizia tais palavras. Nem Tântalo cobiçou a água fugidia, e a roda de Íxion ficou imóvel, nem as aves comeram o fígado, e as Danaides ficaram desocupadas quanto às urnas, e tu, ó Sísifo, tomaste assento em teu rochedo. Então, diz-se que, pela primeira vez, os olhos das Euménides, vencidas pelo canto, encheram-se de lágrimas. Nem a esposa real ousa negar àquele que suplica, nem quem governa as profundezas. Chamam Eurídice. Ela estava entre as sombras recentes e caminhou com o passo lento por causa da ferida. O herói de Ródope a recebe com a condição de que não volte seus olhos para trás até que tenha atravessado os vales do Averno. Do contrário, as oferendas haverão de ser inúteis. O caminho escarpado, árduo, obscuro, coberto de negra fumaça, é trilhado por entre a silenciosa escuridão. Não longe, aproximaram-se da entrada do solo elevado: neste momento, temendo que ela o abandonasse e ávido de vê-la, o amante voltou os olhos, e imediatamente ela foi reconduzida, e estendendo os braços para ser agarrada e esforçando-se para agarrar, a infeliz nada toma senão os ares que se dissipam. E agora ,morta pela segunda vez, nada murmura contra seu esposo (o que, de facto, haveria de se queixar, senão o facto de ser amada?). E ela disse um último “adeus”, que desde então com dificuldade ele compreendeu, e foi conduzida de novo para o mesmo lugar. Orfeu ficou perplexo com a dupla morte da esposa, não de modo diferente de quem, medroso, viu os três pescoços do cão, carregando no meio correntes, a quem o pavor não abandonou antes de sua natureza primeira, erguendo-se a rocha por entre o corpo. Tal como Óleno que arrastou contra si um crime e desejou ser visto como um culpado, e como tu, ó infeliz Letéia, confiaste na tua aparência, os corações muito unidos de outrora, agora são pedras, as quais sustenta o húmido Ida. O barqueiro contivera Orfeu que, em vão, suplicava e desejava atravessar pela segunda vez: contudo, ele permaneceu de luto e sem o dom de Ceres por sete dias na costa. O cuidado e a dor do coração e as lágrimas foram o seu sustento. Lamentou que os deuses do Érebo eram cruéis, refugia-se no alto Ródope e no monte Hemo batido pelos ventos do norte. O terceiro Titan determinara o ano encerrado com os Peixes marinhos e Orfeu recusara todo encanto feminino, ou porque tristemente lhe sucedera ou porque concedera fidelidade, contudo o desejo de unir-se ao vate se apossava de muitas; muitas, repelidas, sofreram. Ele ainda foi, para os povos da Trácia, conselheiro em levar o amor aos jovens rapazes e em colher, antes da juventude, as primeiras flores e a breve primavera da vida.
Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se na sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
Não era um sonho. O seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas.
Mas Gregor estava agora muito mais calmo. As palavras que pronunciava já não eram inteligíveis, aparentemente, embora a ele lhe parecessem distintas, mais distintas mesmo que antes, talvez porque o ouvido se tivesse acostumado ao som ...
Morto? — perguntou a Senhora Samsa, olhando inquisidoramente para a criada, embora pudesse ter verificado por si própria e o facto fosse de tal modo evidente que dispensava qualquer investigação(...) — Muito bem — disse o Senhor Samsa —, louvado seja Deus.
Aderga de agastura atabafada,
aterma barafusta e por betado
compeça batocante de chapado(...)
Forfante de incha e de maninconia,
gualdido parafusa testaçudo.
Mas trefo e sengo nos vindima tudo
focinho rechaçando e galasia.
Anadiómena Afrodite? Não:
Apenas Duarte Nunes de Leão
É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.
In the jostling crowd, you're not allowed to tell the truth and the photobooth's a liar...












































