Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
Mostrar mensagens com a etiqueta fernando_pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fernando_pessoa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Talvez saudade...

" Sinto mais longe o passado, / Sinto a saudade mais perto."



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ano novo, velhos pensamentos...

Conjunto de meditações que têm como ponto de partida coisas brancas, como Nuvem de respiração, Areia ou; Silêncio. 

    Cada momento é um salto em frente, e impulsionamo-nos da beira de um penhasco invisível em direção aos contornos afiados dos dias, constantemente renovados. Levantamos os pés do terreno sólido quer foi toda a vida que vivemos até ali e damos esse passo perigoso para o vazio. Não por qualquer ato de coragem em concreto, mas apenas porque não há outro caminho. Agora, neste preciso instante, sinto essa vibração vertiginosa a percorrer-me o corpo, o que coincide com o momento em que decido irrefletidamente avançar para um tempo que ainda não vivi, para este livro que não está ainda escrito

 Nas manhãs frias, essa primeira nuvem de respiração fugidia é a prova de que estamos vivos. (...) Dá-se assim a milagrosa difusão das nossas vidas pelo ar vazio.


    Ela esquecia-se muitas vezes  de que o seu corpo ( e o de todos nós) é uma casa de areia. Que fora despedaçada e continuava a despedaçar-se.  Fugindo-lhe teimosamente por entre os dedos. 

    Quando os dias compridos finalmente chegam ao fim, é preciso tempo para se estar em silêncio. Como quando estou em frente da lareira e, inconscientemente,  estendo as mãos para o silêncio, com os dedos abertos para o seu calir fugidio.

Toda a brancura -  Dentro desse branco , de todas as coisas brancas, sorverei o último sopro do ar que exalaste,

  Homenagem a alguém que Agustina considera" genial num país que não consome o génio como consome bifes de cebolada."



















"Entre os homens cultos, a ciência substituirá a religião"

A obra sanificadora da ciência tem de ser gradual
. Nenhum homem de ciência quer «revolucionar», reformar de repente. 

Aquilo a que é costume chamar «os maus resultados de tirar a crença ao povo» não é senão uma estigmatização perfeitamente justa dos métodos de cérebros mal-educados na ciência que cometeram o duplo erro de julgar que se pode arrancar uma crença a um povo de repente, e de lhe ir pregar absurdos como o que de que «Deus não existe» e «não há imortalidade da alma» - coisas que ninguém sabe se há ou não há, e sobre as quais a ciência não tem voz nem decisão. 

 Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo? Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta! 

 Não se deve ir abalar a crença a um ignorante. Deve-se instruí-lo. A instrução lhe abalará a crença. E se não lha abalar é que ela está ainda arreigada de mais para poder ser abalada. Fica para outra geração. 

 É mesmo duvidoso se se deva proibir o ensino religioso. Deve criar-se uma atmosfera de cultura científica que o vá lentamente fazer caducar. A ciência, não um legislador científico, não pode proceder violentamente contra uma religião, por 3 razões: (1) porque não sabe em absoluto se ela é errónea, ou, pelo menos, inteiramente errónea; (2) porque os processos de propaganda da ciência são incompatíveis com violências, próprias só dos fanáticos religiosos que há entre os homens de ciência, que fazem da ciência uma religião; (3) porque toda a violência levanta uma reacção.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Nunca...

Nunca li um livro que me provocasse sentimentos tão contraditórios: o prazer da palavra e estados de alma   de um sofrimento inexplicável. A emoção  intensa aliou-se a uma culpa de estar a violar a privacidade de alguém. Não sou capaz de traduzir em palavras o que sinto, só sei que as  lágrimas  que chorei foram de  felicidade...

A felicidade pelo ciúme...É fácil não ser ciumento, enquanto não se ama...

Ao mesmo tempo, somos capazes de amar várias pessoas, porque o ser humano é assim...

Nada melhor no mundo do que as volúpias malignas...

A indiferença mantém o ser intacto, a paixão humilha.

Aqui é tudo obrigação...já nem sabem o que é a alegria de viver.

Ser rico é viajar sem malas...

Como é estranha, a vida humana!Fugidia, inapreemsível. É talvez o suspiro o que melhor exprime a sua substância.

Não podemos  livrar-nos do passado, sobretudo quando não queremos.

    Que a minha mulher me engana já eu suspeitava há muito.(...) Na verdade, fiz mal em casar, eu sei.Porque, até aí, pouco me interessavam as mulheres, era frio por natureza.
 (...) Mas eu sou umhomemdifícil por natureza,não o esqueçamos.

Há algo desntro do homem que ele nunca compreenderá.

A vida depende de formalidades.

Já não quero fechar os olhos...

Que pensas : que eu sou uma besta quadrada, ou estúpido como uma porta? - Isto é que lhe devia ter dito.  Mas não disse.
E estes apantamentos talvez sirvam justamente para isso. Para colmatar aquele vazio, que deixei escapartanta coisa na vida. Porque nunca fiz nada,nem disse nada, na altura e no lugar certos. Que fazer? 

Não mais responsável pelo acontecido- sou leve, sem bagagem. Interrompe-se o passado  e isso é  bom.Para quê preocupar-me com fantasias desmedidas como saber se alguém me ama ou não? .

Silencioso, definitivamente silencioso... já o fui na minha juventude, mas, então, igualmente sombrio...

Oh, eu amava-a , hoje não tenho dúvidas, talvez perdidamente - seria bom dizer a alguém-

Sou um homem amadiçoado. Incapaz,hoje, de imaginar coisa diferente sobre mim-  alguém que nada satisfaz neste mundo.É o meu destino, parece. Ter sede enquanto viver. E não encontrar alívio em parte alguma.

... Aliás,para quê a felicidade? Talvez seja essa, em nós, a maior obsessão.

«Parece ser esse o teu destino.Aprende a viver sozinho... Mas definitiva e completamente sozinho». E ainda me aflige yer-lhe consagrado tão pouco tempo. E logo a ele. Preocupamo-nos ...cpm toda a espécie de gente e não temos tempo para quem vale a pena

Eu pensei numa pequena e curta aventura...com a pessoa que outrora tanto amava. Era um sentimento ignóbil e interessante porque eu aspirava ao vazio., à volúpia sem conteúdo  nem alma, como se nunca a tivesse visto antes

 Nessa época, lia ainda mais e, como do costume, deitada. Numa palavra: como se, de factovivesse numa ilha, longe das pessoas, num sossego constante e continuado... 

Mas firmemento acredito...que, num belo dia de sol, ela vai reaparecer algures, numa rua deserta, numa esquina, e que, não sendo já nova, há de correr nos seus passsos miúdos e queridos...E que o sol atravessará, brilhando a sua capa preta.
Aposto, à luz da minha alma, que será assim, tal e qual. Caso contrário, de que me serve viver?  Eu já só espero isso, e esperarei, enquanto for vivo. Prometo. A quem? Não sei.
                                            
                                                        É O FIM




    Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir disfarçar a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre a sua cabeça, um prato quente no final do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura está perdido e a sua alma tem preço.
 

  Já naqueles tempos,os meus únicos amigos eram feitos de papel e tinta. [...] Onde os meus colegas viam manchas de tinta em páginas incompreensíveis, eu via luz, ruas, gente. As palavras e o mistério da sua ciência oculta fascinavam-me e, para mim, eram a chave que abria um mundo sem fim e a salvo daquele caos

 Quando Cristina e Pedro casaram, Uma brisa gelada acariciou-me a pele, trazendo o hálito perdido das grandes esperanças. / Com a sua ausência,notei pela primeira vez o silêncio que enfeitiçava aquela casa. / Falo de uma mulher a sério,daquelas que nos fazem ser o que temos de ser. /  Cristina ofereceu-me aquele olhar ferido e destroçado que me teria perseguido até ao inferno.

  A rotina é a governanta da inspiração./ O tempo cura tudo menos a verdade./   A vida só dá uma segunda oportunidade a quem nunca deu a primeira. Foi neste lugar que encontrei quase todas as coisas boas da minha vida...Não lhe quero dizer adeus. Sempere era crente:acreditava nos livros. Ninguém sabe o que cada eu gosta de uma pessoa.

 “O Jogo do Anjo é, a meu ver, uma história de mistério  que, como A Sombra do Vento, explora e combina numerosos géneros, técnicas e registos. É uma história sobre livros, quem os faz, quem os lê e quem vive com eles, através deles e até contra eles. É uma história de amor, amizade e, em alguns momentos, sobre o lado obscuro de cada um de nós. Pelo menos essa é minha ambição, oferecer ao leitor uma experiência intensa e convidá-lo ao jogo da literatura.” O livro não é uma continuação de A Sombra do Vento, mas sim uma segunda tentativa numa narrativa “centrada num mesmo universo literário. É como uma caixinha chinesa, um labirinto de ficção em que há quatro portas de entrada”. Zafón



Nunca devemos ter inveja, mas...


    "Um poema sobre “o vício mais ignóbil”, um livro "repelente"? “O mais longo e mais grandioso poema sobre o amor entre homens”?

     Este folheto polémico, na época escandaloso, com uma inscrição manuscrita por Fernando Pessoa, foi vendido em Londres por cerca de €22.600...
 
    “Tenho muito orgulho em ser o guardião, no presente, deste milagre da poesia”... “Fui tocado pela coragem e pelo espírito empático com que o jovem Pessoa usou a língua inglesa para explorar a relação entre Adriano e Antínoo.” Explicou ao Expresso o comprador, que pediu o anonimato. 

     O meu sentimento de "inveja" foi atenuado por esta preciosidade ser usufruída por quem me parece merecê-la...

sábado, 1 de março de 2025

EuropaS...Estilhaços europeus...

Durante a escola primária, europa foi mapa, continente, capitais, paris, madrid, londres...Foi uma realidade teórica, memorizada e papagueada, sem entusiasmo, apontada num mapa. Os continentes são...as capitais são...

A europa fica... Entre os 9 e os 14 anos, a europa foram viagens com os pais... todas as férias, natal, páscoa e agosto, não tinha escolha, não podia ficar. Eles gostavam de viajar, de fazer quilómetros por essa europa fora... Os fins de semana, com feriado a jeito, eram mais sagrados do que uma peregrinação por motivos religiosos: vigo, madrid e andorra ... Lá os seguia, entediada, com o mesmo desinteresse com que aprendeu a europa teórica...Levava sempre uma almofada, de que não se separava nunca, o que enfurecia a mãe e desgostava o pai. Um vez esqueceu-se da almofada algures num hotel na suíca, quando deu pela falta dela, nessa noite não dormiu, chorou, apanhou uns tabefes, fez a birra mais espalhafatosa de toda a vida ... A europa foi o continente da primeira perda, o que sofreu sem a " fofinha"...Sempre que pensa nessa história, não consegue explicar exatamente a ligação afetiva que tinha à almofada, mas talvez ela significasse o desprazer por tanta viagem, a tristeza que sentia por não ser como as outras meninas que ficavam em casa nas férias e, no mês de agosto , iam quinze dias para mira ou para a figueira da foz... 

 França foi também local de "perdição"... Numa rua de paris, cujo nome não recorda, mas que lhe ficou gravada na memória, perdeu-se dos pais. Teve tanto medo, mal sabia falar francês, deve ter tido um ataque de pânico, mas isso era coisa que na época ainda nem tinha nome.Sentou-se num muro a chorar baixinho...Talvez pareça uma cena de filme, mas o facto é que um professor da alliance francaise, que dava aulas em coimbra, a reconheceu e a levou ao hotel...Neste episódio ,registou o modo, algo romanesco, como foi salva e o abraço apertado do pai. Viu-o duas vezes chorar ou melhor com lágrimas pendentes nos olhos: quando a mãe morreu e nesse momento. Como o pai era homem de reconhecimentos à moda antiga, enquanto esteve em coimbra, todos os anos, no natal, o salvador recebeu uma garrafinha de vinho do porto... A europa foi,assim, uma inevitabilidade sazonal a que os pais a condenaram: sempre os sentiu como uma espécie de agentes turísticos perversos...Na europa, perdeu um afeto e perdeu-se. 

 Durante o tempo da faculdade, a europa foram viagens por opção, amigos, alguns excessos, um eu diferente que lhe surgiu, inesperado, mas que rapidamente se desvaneceu: munique e paris ficaram para sempre arquivadas, foram episódios à margem do seu eu essencial... 

 Europa foi CEE, aulas de introdução à política, alcobaça, uma vida diferente... 

 Anos mais tarde, europa foi a angústia de mãe quando um filho,provinciano, inexperiente, com 18 anos, parte um mês com amigos, antes dos telemóveis, dos chats, dessas coisas que anulam as distâncias. As dúvidas( terá sido sensato deixá-lo ir?) a espera de notícias, dias e dias sem saber nada, até que um telefonema de amesterdão lhe diz que ficam lá uma semana. O pavor do fácil acesso a drogas , mais dúvidas, em casa de quem estará, um mês bem mais terrível do que aquele em que a europa privou uma criança da sua almofada... 

 Europa foi concurso de tradução de cícero, roma e adriano...

 Europa foi espanha, mérida, santiago de compostela e salamanca, visitas de estudo, alunos, mas também férias, amigos, emoções desencontradas e sentimentos complexos...

 Europa foi fernando pessoa, mensagem...
A Europa é, agora, um espaço invadido, um espaço de refúgio que lentamente se vai descaracterizando e , tal como tudo, se globaliza numa mescla de culturas , de cores e de religiões: é o paraíso para os que vêm; um inferno para os que estão...

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.



O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.



Confiei, ingenuamente, no meu velho continente, nos valores civilizacionais herdados dos gregos, sonhei uma república de Platão e acreditei nessa quimera. Confesso, mea culpa, mea maxima culpa, que integrei o grupo dos que se congratularam com a entrada de Portugal na comunidade europeia e não acreditei nos "velhos do restelo" que profetizavam desgraça...
Não tive a admirável lucidez de natália correia:

A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista. A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder.Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança! Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente. Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica. Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão. Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores? As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.

nhe'#, em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani...

  Todas as cabeças estão cheias de projetos..

Um livro inclassificável em que os "Espacialistas" são, mais uma vez, os artistas - arquitetos que transformam o pensamento e as palavras de Gonçalo M. Tavares em imagens...Tudo é perfeito neste livro visual que tem de ser percorrido com olhos de ver , de imaginar, de refletir: a qualidade do papel, o design, a sintonia forma - conteúdo, a arquitetura interna deste "Museu Imaginário da Europa"... 

Não foi a literatura que se aproximou da política, foi a política que  invadiu o campo da linguagem- invadiu e aí ficou.

                                    Alguns exemplo da riqueza das "Outras Ideias": 

     E a princípio era o traço, claro, não tanto o Verbo

    a  janela é a curiosidade em forma de vidro
    
     Habitar é uma forma de não esquecer

     
     "Toda a natureza é mensurável e a cultura é a parte da natureza que já foi medida

    "No fundo, o homem já não reza nem vira a cabeça para o céu a pedir justificações ou caridade; quando vira a cabeça para o céu é para perguntar....precisa de ajuda, meu Senhor?"

  "Somos uma espécie humana com tendência para a utopia, que preenche os espaços vazios com materiais concretos. Por isso, precisamos de céu"


Comecei a ler este livro pelo fim... Entrei neste Museu pela porta de saída, mas não deve ter importância porque todas as Romas vão dar a um caminho. É preciso não ficar na cidade.

O álcool é uma água que sonha.

As miniaturas são sínteses que cupam pouco espaço, mas muita atenção.

O arquiteto é um filósofo do efémero. / o homem que só olha para o útil não evita semelhanças com a galinha.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Pessoa revisitado...

Compararei algumas destas figuras, para mostrar, pelo exemplo, em que consistem essas diferenças. O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares e o Barão de Teive — são ambas figuras minhamente alheias — escrevem com a mesma substância de estilo, a mesma gramática e o mesmo tipo e forma de propriedade: é que escrevem com o estilo que, bom ou mau, é o meu. Comparo as duas porque são casos de um mesmo fenómeno — a inadaptação à realidade da vida, e, o que é mais, a inadaptação pelos mesmos motivos e razões. Mas, ao passo que o português é igual no Barão de Teive [e] em Bernardo Soares, o estilo difere em que o do fidalgo é intelectual, despido de imagens, um pouco — como direi? — hirto e restrito; e o do burguês é fluido, participando da música e da pintura, pouco arquitectural. O fidalgo pensa claro, escreve claro, e domina as suas emoções, se bem que não os seus sentimentos; o guarda-livros nem emoções nem sentimentos domina, e quando pensa é subsidiariamente a sentir.


O único manuscrito de Álvaro Coelho de Athayde, décimo quarto  Barão de Teive.

Manuscrito encontrado numa gaveta. 
Para não deixar o livro em cima da mesa do meu quarto, sujeito assim ao exame de mãos suspeitamente limpas dos criados do hotel, abri, com certo esforço, a gaveta, e meti-o lá, empurrando-o para trás.

Esbarrou em qualquer coisa, pois a própria gaveta não era tão pouco funda. 

 Atingi a saciedade do nada, à plenitude de coisa nenhuma. O que me levará ao suicídio é um impulso como o que lava a deitar cedo. Tenho um sono íntimo de todas as intenções. Nada pode transformar a minha vida. Se...se...Sim, mas se é sempre uma cousa que não aconteceu; e se não aconteceu, parq que supor o que seria se ela fosse?

Estas páginas não são a minha confissão senão a minha definição.(...) Por ter duas virtudes, o sentimento intelectual e o sentimento mora) nunca pude fazer nada de mim.

Ainda me punge perder uma ideia, escapar-me da memória uma frase por escrever, não fixar um ponto de vista. Sei bem,  muitas vezes,  que não conseguiria dar corpo real a esses esboços dele. Mas há um ciúme de mim mesmo, uma avareza do abstracto, e tenho notado que a avareza e o espírito de vingança, talvez por serem duas formas de mesquinhez, têm parentesco e sangue comum.

Se tive certezas, lembro-me que todos os loucos as tiveram maiores.

Na construção de um sistema sobre os fenómenos sexuais próprios, não posso esquivar-me a ver qualquer coisa de implacavelmente grosseiro e vil. Todos os indivíduos grosseiros têm necessidade da nota sexual; é ela, até , que os distingue. Não podem contar anedotas fora da sexualidade; não sabem ter espírito fora da sexualidade. Vêem em todos os pares uma razão sexual de serem pares.

Nunca tive saudades , porque nunca tive de que as ter e fui sempre racional com os meus sentimentos. Como nada fiz da minha vida, não tenho de que recordar-me com saudade, pude ter esperanças, porque o que não existe pode ser tudo; hoje  nem tenho esperanças , porque não vejo razão porque o futuro seja diferente do passado.

Há páginas ...que me angustiam; parecem escritas, não diria  por mim, mas, que me seriam de um absurdo apropriado, por um irmão gémeo que não tive, algém que é diferentemente a mesma cousa que sou.

O prazer é para os cães, a queixa para as mulheres; o homem tem somente, de seu e próprio, a honra ou o silêncio.

Atingi, creio, a plenitude do emprego da razão. E é por isso que me vou matar.

Nota explicativa : Transferi para Teive a especulação sobre a certeza, que os loucos têm nais do que nós.

Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o selêncio de quem está calado e o silêncio de que não foi entendido, e em torno dist, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino.

Páginas que recomendaria a um amigo escritor : 45,46,47; 50,51, 52.
Páginas que recomendaria a um amigo namoradeiro: 54,55.
Páginas que recomendaria a um amigo, admirador de Antero:  68 a 72.

Reflexão final de Richard Zenith:

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.


Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.



Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma felicidade frouxa de sonhador débil. Desde que a paisagem é paisagem, deixa de ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver.(...)
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno - vapor de carga preto - dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha inimportância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz.


O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.



Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!



Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh!
EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti demais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar nocturno.
E logo que sinto que, há um mar nocturno dentro de mim,
Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio,
Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo.
De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura,

Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo
Húmido e sombrio marulho humano nocturno,
Voz de sereia longínqua chorando, chamando,
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,
E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos...
Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy...
Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy......


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

De longe vejo passar no rio um navio...
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimir desolação com isto...
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença da metafísica...
Rio abaixo até à realidade do mar.

sábado, 18 de novembro de 2023

Tédio...



 "Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério. Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante  e revolucionária   A sua popularidade irrita muita gente. Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. ...

Uma obra prima que me começou por  causar um  profundíssimo, " íssimo",  tédio, mas que evoluiu de forma agradável...

A bibliotecária é a educadora mais importante da escola. Aquilo que ela não souber, consegue encontrar. Isto não é uma opinião, é um facto. Não partilhes este facto com Mrs Mudford. 

Momento mais interessante; conversa, na biblioteca, entre Mad, uma criança muito especial, e Wakely, o reverendo presbiteriano...( p.289- 301)


Sono de ser, sem remédio,

Vestígio do que não foi,

Leve.mágoa, breve tédio,

Não sei se pára, se flui;

Não sei se existe ou se dói



A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.  Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.



O tédio... Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio... É como a possessão por um demónio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas infligindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflictam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta imagem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demónio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. E na sombra íntima de mim, no exterior do interior da minha alma, que se colam papéis ou se espetam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu.
 

  ...e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue......um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito. 

 A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas do esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros (...) tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor, (...) E, perante, a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza de meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais.

As misérias de um homem que sente o tédio da vida do terraço da sua vila rica são uma coisa; são outra coisa as misérias de quem, como eu, tem que contemplar a paisagem do meu quarto num 4º andar da Baixa, e sem poder esquecer que é ajudante de guarda-livros.

Tenho às vezes o tédio de ser eu 
Com esta forma de hoje e estas maneiras...
 Gasto inúteis horas inteiras 
A descobrir quem sou; e nunca deu


Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


Quando o Tédio, invencível e infecundo,

Nos faz sentir a solidão de ser,

E uma monotonia ocupa o mundo,

Que mais tem o espírito a fazer

Do que ensinar ao corpo que o profundo

Desgosto da existência lhe requere

Que veja sempre ao cálix o seu fundo

E sempre tome o cálix a encher?


sábado, 17 de dezembro de 2022

Ambiguidades...

Era demasiado amor. Demasiado grande, demasiado complicado, demasiado confuso, y arriesgado, y fecundo, y doloroso. Tanto como yo podía dar, más del que me convenía. Por eso se rompió. No se agotó, no se acabó, no se murió, sólo se rompió, se vino abajo como una torre demasiado alta, como una apuesta demasiado alta, como una esperanza demasiado alta.
O erro central na interpretação moderna do paganismo consiste em que, como é natural, mas, posto que natural, erróneo, não concebemos nunca o paganismo senão consciente ou inconscientemente contrapondo-o ao sistema cristão. Como nascemos adentro do psiquismo cristista e esse psiquismo se consubstanciou com o nosso, individual, não nos libertamos nunca completamente dele, e, quando menos nos receamos, mais certa posse ele tem de nós.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Passos da cruz...

">la (nue) matérialité du geste ..... mais ... où dévoiler la gestualité du geste? ....là, peut-être, dans le doigt qui pointe vers le chemin que la main gauche doit suivre, en acheminement hasardeusement vers sur une singulière forêt qui n' existe que dans le geste du papier-main."

Ó tocadora de harpa, se eu beijasse 
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
 E, beijando-o, descesse pelos desvãos 
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse

Tornado Puro Gesto, gesto-face 
Da medalha sinistra — reis cristãos 
Ajoelhando, inimigos e irmãos, 
Quando processional o andor passasse!...

 Teu gesto que arrepanha e se extasia...
 O teu gesto completo, lua fria 
Subindo, e em baixo, negros, os juncais... 

Caverna em estalactites o teu gesto... 
Não poder eu prendê-lo, fazer mais 
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...

Há um poeta em mim que Deus me disse... 
A primavera esquece nos barrancos 
As grinaldas que trouxe dos arrancos 
Da sua efémera e espectral ledice...

 Pelo prado orvalhado a meninice
 Faz soar a alegria os seus tamancos... 
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse... 

 Florir do dia a capitéis de Luz... 
Violinos do silêncio enternecidos... 
Tédio onde o só ter tédio nos seduz... 

 Minha alma beija o quadro que pintou...
 Sento-me ao pé dos séculos perdidos
 E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fosse eu apenas, não sei onde ou como, 
Uma coisa existente sem viver, 
Noite de Vida sem amanhecer 
Entre as sirtes do meu dourado assomo... 

Fada maliciosa ou incerto gnomo 
Fadado houvesse de não pertencer 
Meu intuito gloriola com ter 
A árvore do meu uso o único pomo... 

Fosse eu uma metáfora somente
 Escrita nalgum livro insubsistente 
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas, 

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas, 
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
 Na última tarde de um império em chamas...

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Fernando Pessoa ...Lisboa

“Lisboa era a família de Fernando Pessoa”. 
Richard Zenith desvenda a relação do poeta com a cidade. 

 Foi no dia de Santo António de 1888, quando as procissões irrompiam pelas ruas de Lisboa, indiferentes àquilo que acontecia no quarto andar de um prédio no Largo de São Carlos, que nasceu Fernando Pessoa. Sessenta e oito anos depois, nascia Richard Zenith, em Washington DC, nos EUA. Nunca ouvira falar de Fernando Pessoa até ao dia em que, quis o destino, o namorado português de uma amiga lhe mostrou os versos do poeta. Richard Zenith ficou fascinado. Só mais tarde é que voltaria a cruzar-se com Pessoa, conhecido pela sua heteronímia e autor da obra que empresta o nome a este jornal, Mensagem

 Fernando Pessoa viveu grande parte da sua vida nesta cidade, com a excepção de alguns anos da sua infância e adolescência que foram passados em Durban, África do Sul, onde o padrasto trabalhava como cônsul português. Mas foi em Lisboa onde tudo aconteceu. Foi aqui que se apaixonou pelas palavras e para onde regressou para estudar. Onde abriu a tipografia Ibis com a herança da avó (que depois faliu), assistiu à queda da monarquia, à instabilidade da República e à ascensão do Estado Novo. Onde criou a revista Orpheu com o amigo Mário de Sá-Carneiro e publicou a Mensagem. 

 Fernando Pessoa morreu aos 47 anos em Lisboa, claro, no Hospital St. Louis. Fica a sua poesia, os mais de 25 mil manuscritos que se encontraram num baú na sua última casa, na Rua Coelho da Rocha. Mas fica também a memória de um poeta que passava os seus dias nos cafés da cidade, como a Brasileira do Chiado. Nasceu e morreu em Lisboa. Passou grande parte da vida dele aqui. 

Como resumiria a relação de Fernando Pessoa com esta cidade? 

 Lisboa era o lar, como diz Bernardo Soares no Livro do Desassossego. Foi um lugar fundamental, como qualquer cidade natal é para qualquer pessoa. Mas, para ele, era ainda mais porque Pessoa era solteiro e solitário. Era também sociável, claro, tinha os seus amigos de café, mas Lisboa era de certo modo a família de Pessoa. Os empregados dos cafés e restaurantes, os tais moços de fretes que havia nessa altura, as pessoas dos escritórios onde Pessoa trabalhava. Todas essas pessoas, com quem Pessoa não mantinha uma relação íntima, eram muito importantes. Não era só o espaço físico, celebrado no Livro do Desassossego com as descrições minuciosas do tempo, das colinas cobertas de casas coloridas, que importava. Eram também as pessoas do mundo popular. 

 Essas pessoas influenciaram também a sua escrita? 

 Sim, existem muitos poemas escritos sobre, por exemplo, os músicos populares. Há também um poema muito bonito sobre o senhor Silva, um barbeiro cujo filho morreu, e a quem o narrador do poema vai consolar. Não sabemos se é autobiográfico, mas pelo menos na imaginação de Pessoa este barbeiro existiu. No final da vida, Pessoa ia sempre ao mesmo barbeiro… Há várias referências a barbeiros. O último, Manassés, era alguém que Pessoa via todos os dias e que até frequentava a sua casa quando Pessoa vivia na rua Coelho da Rocha nos últimos quinze anos de vida. Mas teve outros barbeiros, por isso não sabemos qual deles terá inspirado o poema. Há uma personagem muito marcante na infância de Pessoa, o tio Cunha, que vivia em Pedrouços.

 A sua infância em Lisboa marcou-o muito? 

Esses anos são o início de tudo, são o fundamento. Esse tio Cunha foi uma pessoa da qual não se sabia muito até há pouco tempo. Foi a sobrinha de Fernando Pessoa, Manuela Nogueira, que ainda está viva, que publicou excertos de cartas entre ele e Fernando Pessoa quando Pessoa vivia em Durban. Percebemos através dessas cartas que esse tio iniciou Pessoa no jogo dos alteregos. Era uma brincadeira deles. Esse tio Cunha, casado com a tia Maria, tia-avó de Fernando Pessoa, não tinha filhos e por isso “adotou” Pessoa, especialmente depois da morte do seu pai quando tinha 5 anos. Pessoa passava muitos fins-de-semana na casa dos tios em Pedrouços e o tio, que era do Partido Progressista, inventava muitos jogos políticos. Jogos com deputados, mas também com insetos e outras personagens. Estes jogos continuavam no dia-a-dia. Eram uma espécie de telenovela. Estas personagens povoavam a vida diária de Fernando, e foi aí que ele começou a inventar. Esse tio também o levava a passear pela cidade. Levava-o ao jornal O Correio da Noite, um jornal progressista, e foi aí que Pessoa teve o primeiro contacto com o mundo do jornalismo. Ficou fascinado. 

 Há pontos da cidade que são marcantes para Pessoa enquanto criança?

Sim, primeiro Pessoa viveu no Largo de São Carlos, com vista para o rio Tejo. Há até aquele poema, "Sino da minha aldeia", dos primeiros poemas que publicou, em que dizia que a aldeia dele era o Largo de São Carlos e que o sino era o da Igreja de Nossa Senhora dos Mártires. Todo o Chiado e o centro dessa Lisboa eram importantes para ele. Mas também Pedrouços, perto do rio e a rua São Marçal, para onde foi viver depois da morte do pai. Houve várias zonas de Lisboa que ele passou a conhecer muito bem. Entretanto, com o segundo casamento da mãe, parte para Durban e só regressa anos mais tarde para estudar na faculdade.

 Como terá sido regressar à cidade da sua infância? 

 Bem, teremos que especular. Os poemas de Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited" (1923) e "Lisbon Revisited"  (1926) talvez falem sobre esse sentimento. Segundo a ficção, Álvaro de Campos trabalhava em Inglaterra e, quando voltava a Lisboa, era um choque confrontar-se com a sua infância já longínqua. Podemos especular que esses poemas são autobiográficos. Ao chegar de Durban, Pessoa encontrou uma Lisboa bastante diferente. Houve um boom imobiliário, Lisboa expandiu-se para as Avenidas Novas, surgiram os elétricos a motor quando Fernando dantes só conhecia os americanos puxados por cavalos.

 Quando somos crianças, tudo nos parece maior. Vim há pouco de uma viagem aos EUA, a minha primeira desde há quatro anos, e fui com uma amiga antiga à minha cidade perto de Washington DC. Fomos à floresta onde fui criado, e tudo para mim pareceu-me agora muito pequeno. Eu lembrava-me da floresta enorme. É uma floresta bonita, mas não tão grande.

 Como foram os primeiros anos deste jovem que chega a Lisboa? 

Quando Pessoa volta, vem para estudar no curso superior de Letras que estava ao pé da Academia das Ciências, que depois seria integrada na Universidade de Lisboa, em 1911. Aquela era uma Lisboa nova que ele descobria com os colegas do curso. Passava muito tempo na Biblioteca Nacional, nessa altura no Chiado, e vivia na rua de São Bento com a tia Anica. Era uma zona nova de Lisboa que não conhecia tanto. Ficou no curso durante dois anos, e foi aí mais ou menos que começou a frequentar os cafés, que eram uma coisa nova para ele. Todos os dias, ia a mais do que um café. A esta Brasileira onde estamos hoje, à Brasileira do Rossio, ao Martinho da Arcada. 

 Era um mundo novo, essa Lisboa mais intelectual, e tudo isso para Pessoa era estimulante. Começou a discutir com outros jovens com ambições literárias, a ter ideias de querer mudar o status quo. Tudo isso levaria à criação do Orpheu. Nessa altura, começa também a ter mais consciência política… É verdade. Era outra grande descoberta: a política. Pessoa sempre fora patriota, tinha orgulho em ser português, talvez fosse uma forma de se defender numa colónia inglesa. Quando volta a Lisboa, ainda é monárquico, não por ter pensado muito sobre o assunto, mas exatamente por não ter pensado muito, mas rapidamente torna-se republicano, muito por causa da influência estudantil, e pela influência do tio que aqui vive, irmão do padrasto, o tio Henrique, um general que não tinha filhos, e, uma vez mais, Pessoa é “adotado”. O tio Henrique influenciou-o muito com as suas ideias políticas: era um republicano convicto e, para além disso, interessava-se muito pelas ciências sociais e pela evolução darwinista. Era um cético em relação à religião e à Igreja Católica, tal como Pessoa, que não era exatamente cético quanto ao cristianismo, mas, tal como muitos republicanos, era anticlerical. Achava que a Igreja tinha a sua aliança com a monarquia. Com a Ibis, a tipografia que tentou abrir nos primeiros anos em Lisboa com a herança da avó, Pessoa pretendia publicar dois jornais republicanos para incentivar a abolição da monarquia. 

Mas quando finalmente vem a República, depara com uma república disfuncional, com vários partidos republicanos em guerra. Lisboa era então uma cidade caótica. É na Brasileira que o escritor e tradutor. Foram anos de instabilidade política, mas também de instabilidade para Pessoa, que preferia frequentar os cafés a arranjar um emprego, por exemplo. Os cafés para Pessoa também funcionavam como escritório. Aqui, encontrava-se com pessoas mas também escrevia e lia. Há muitos escritos dele em papel timbrado de cafés como a Brasileira. Os cafés eram centros de atividade política e cada café tinha a sua frequência: alguns cafés eram mais dedicados aos jornalistas, outros aos atores, outros aos escritores e poetas, outros aos homens de negócios. Claro que nem sempre havia essa segregação. Pessoa, dentro das suas amizades, contava com um dentista com veia literária e até mesmo com um sujeito que tinha uma garagem e que emprestava dinheiro a Pessoa. Outro aspeto da vida de Pessoa era que estava sempre endividado e os cafés serviam também para pedir dinheiro aos amigos. À custa das dívidas, ao longo dos anos que se seguem, Pessoa muda várias vezes de casa. Chega mesmo a mudar-se para Benfica. Pessoa geralmente vive com parentes. 

Na altura de criar a Ibis, tem casa própria durante um ano, mas com a falência da tipografia, vai viver com a tia Anica. Entretanto, a tia vai para Suíça, e Pessoa fica obrigado a encontrar alojamento. Entre 1914 e 1920, vive numa série de casas. Há uma altura em que está mais próspero e tem uma casa um pouco melhor e chega a ter uma governanta, a dona Emília, com quem tem uma relação mais próxima. Mas muda de casa a cada ano, às vezes a cada seis meses. A maioria das vezes ficava na zona dos Anjos e da Estefânia, mas, em 1919, vai para Benfica. 

Pessoa tinha essa ideia de que fora do centro teria mais calma para escrever, mas a verdade é que ele também precisava da confusão e do rebuliço, talvez por ser um sujeito solitário, tinha necessidade disso. Pessoa guardava os seus escritos num baú, que mais tarde seria descoberto.O baú que Fernando Pessoa transportava de apartamento em apartamento e que continha mais de 25 mil manuscritos.

 Transportava-o de apartamento em apartamento?

Sim. Sabemos isso pelo testemunho de Augusto Ferreira Gomes, talvez dos seus amigos mais assíduos dos últimos quinze anos. Conheceram-se em 1915. Ele contou numa entrevista que Pessoa levava sempre o baú de um apartamento para o outro. Apesar de ter esse lado mais solitário, era uma pessoa com amigos, e era com eles que se encontrava em Lisboa. Pessoa era sociável e era fiel. Teve vários amigos durante toda a vida, e todos os dias de tarde encontrava-se com eles num ou outro café. A partir de 1920, vai ser sempre o Martinho da Arcada. Pessoa tinha sentido de humor, não era um sujeito sempre soturno, mas era uma pessoa muito reservada, não se abria. Fazia piadas, conversava sobre política e literatura, mas sobre o seu interior não falava muito. Tanto é que a irmã da Pessoa, que viveu com ele durante muitos anos na rua Coelho da Rocha, não sabia de nada da sua relação com Ofélia Queiroz, o que nos dá uma ideia do quão reservado Pessoa era.

 Como foi, afinal, essa relação com Ofélia Queiroz?

A relação com Ofélia era uma tentativa de amar, mas eu acho que Pessoa tinha dificuldade em enquadrar-se em qualquer espécie de normalidade. Não tinha uma relação amorosa duradoura, também não tinha um emprego. Ficou sempre um adolescente, não queria crescer, e isso poderá ter a ver com a sua noção de que tudo é transitório. É através da escrita que se tem um vislumbre desses sentimentos dos quais não falava… 
 É na escrita que se abre. Esse ser mais íntimo, do qual não fala, surge na escrita

Mas a escrita é muito ficcionalizada, temos de ter em conta toda a sua obra, mas aí sim é a ferramenta mais útil que há. Fernando Pessoa escrevia sobre viajar e viver noutros países, mas foram raras as vezes em que saiu de Lisboa. Porque terá sido? Como viajava muito mentalmente, viajar geograficamente seria uma redundância. Londres e Inglaterra eram um sonho, mas Pessoa viajava muito na cabeça. Não gostava de situações novas, em que não conhecia ninguém, gostava de rotinas. Era uma pessoa tímida, sentia-se bem na companhia dos amigos que conhecia e da família, mas evitava situações em que não conhecia ninguém. Não se sentia confortável.
  Também haveria algum amor por Lisboa… 

 Sim, tinha amor por Lisboa. Era a cidade dele. Pessoa aliás escreve “A minha pátria é a língua portuguesa”, mesmo depois de anos a viver em Durban e a escrever em inglês. Quando voltou a Lisboa em 1905, Pessoa escrevia em inglês quase exclusivamente. A sua ambição era ser um poeta de língua inglesa, mas foi-se apercebendo pouco a pouco que tinha outra relação com a sua língua materna. Continuou a escrever na língua inglesa, mas mais na língua portuguesa. Quando diz “a minha pátria é a língua portuguesa” está, por um lado, a exprimir o seu amor pela língua portuguesa, mas também a dizer que não é nacionalista em termos do espaço. Pessoa queria dizer que a pátria dele não é Portugal, mas a língua portuguesa. E finalmente está a dizer que aquilo que importa não é só a língua portuguesa, mas sim a língua. 

 Fernando Pessoa assistiu à ascensão dos nacionalismos pela Europa. Inicialmente, em Portugal, não se opunha ao Estado Novo e ao salazarismo, mas foi mudando de ideias com a censura e a restrição à liberdade de expressão. O que aconteceu durante estes anos? 

A sua única obra publicada em vida, Mensagem, representa aquilo que Pessoa chamou o seu nacionalismo místico. Muitos anos antes, nascera a ideia do Quinto Império, uma ideia do Padre António Vieira, e que Pessoa ressuscita. O Quinto Império seria esse império cultural de liderança. Não sei se Pessoa achava mesmo que este Quinto Império se poderia concretizar. Eu acho que ele era um poeta e era uma ideia poética. Publicou a Mensagem no outono de 1934 e em 1935 começa a rejeitar o Estado Novo e Salazar. Penso que não abandonou o seu ideal do Quinto Império, mas percebeu que era isso mesmo: um ideal. Era poesia. Era a Mensagem. Mas é curioso porque Pessoa, sendo tão sonhador, estava também consciente da realidade. Acabou por mudar enquanto outros escritores não abandonaram os seus ideais, como foi o caso de Ezra Pound, que era anti-semita. 

 No final da vida, tornou-se menos idealista, talvez até mais calmo?

Eu acho que se tornou mais solitário, e sentia mais o peso da solidão. Um pouco mais melancólico, mais calmo num certo sentido, de certo modo resignado. Havia também uma busca espiritual muito forte, uma tentativa de encontrar um lugar, sentia-se pequeno neste mundo. Há uma certa deceção com a literatura — não a abandona, mas deixa de escrever para o Livro do Desassossego, a poesia dos heterónimos começa a diminuir e começa a escrever poemas de jeito popular. 

 Há uma sensação de fracasso? 

 Sim, o fracasso desse idealismo. Ao mesmo tempo, fica muito militante politicamente: escreve artigos a criticar a invasão de Mussolini, poemas contra Salazar. Se tivesse vivido para além de 1935, poderia ter continuado nessa vertente muito engajada politicamente.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Fins...

A partir de certa idade, a vida torna-se uma série interminável de fins, da mais diversa natureza. Hoje, 29 de abril de 2022, às 13:00h, a empregada , que foi a minha companhia desde sempre, reformou-se e abandonou-me como se me tivesse conhecido o mês passado. A minha capacidade de ser desamada é ainda mais inesgotável do que os fins que têm caracterizado a minha existência. Sinto uma solidão enorme que não consigo explicar, mas que magoa, magoa...

Tinha-nos parecido filosoficamente evidente que o suicídio era um direito de todas as pessoas livres: um ato lógico , quando confrontadas com uma doença terminal ou com a senilidade; heroico quando confrontadas com a tortura ou as mortes evitáveis de outros; fascinante na fúria do amor desiludido. 

  Vivemos com suposições fáceis,não vivemos? Por exemplo,de que a memória é igual aos acontecimentos mais o tempo. Mas tudo é muito mais acidental do que isso. 

  Aproximamo-nos do fim da vida - não, não da vida em si, mas de outra coisa: o fim de qualquer possibilidade de mudança dessa vida.



Meu querido Sá-Carneiro:
Acrescente-se-lhe o grande sofrimento que você — sem querer, é claro — me causou com a sua terrível crise. Não sei se você avalia bem até que ponto eu sou seu amigo, a que grau eu lhe sou dedicado e afeiçoado. O facto é que a sua grande crise foi uma grande crise minha, e eu sentia, como já lhe disse não só pelas suas cartas, como, já de antes, telegraficamente, pela «projecção astral» (como eles dizem) do seu sofrimento. Acrescente a estas duas graves razões para eu me apoquentar esta outra — que, à parte tudo aquilo, estou atravessando agora uma das minhas graves crises mentais. E imagine você que, para isto não ser tudo, essa crise mental é de várias espécies ao mesmo tempo, e por diversas razões.


Meu querido Amigo.
A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas «cartas de despedida»... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...]



O que é um fim?
1.O que termina;cessação;morte;desaparecimento;termo...
2.Objetivo para o qual se tende; intenção;finalidade...


O fim cessação conflitua com o fim objetivo; se existe fim objetivo, não há motivo para existir fim cessação. Não será? Tudo tem, afinal, um fim, mas que fim, qual deles?

Escravo do temperamento como das circunstâncias, insultado pela indiferença dos homens como pela sua afeição a quem supõem que sou — (…) os insultos humanos do Destino.

Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser ao mesmo tempo curtos e longos.Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros e perder o nome. As palavras ontem e amanhã eram as únicas que conservavam o sentido.

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã... Só depois de amanhã...Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã...

Depois de amanhã parece-me uma boa decisão. Depois de amanhã ... Depois de amanhã, posso adiar o fim para depois de amanhã e o desaparecimento será sempre só depois de amanhã; o fim de tudo eternamente adiado para depois de amanhã...Sempre depois de amanhã. Não gosto de ontem, não gosto de hoje, não gosto de amanhã, só depois de amanhã...

A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida. Antigamente, a perda dos meus manuscritos, de toda a obra fragmentária mas cuidada da minha vida, reduzir-me-ia à loucura; já agora a contemplava como um incidente casual do meu destino, não como um golpe mortal que aniquilasse, por lhe aniquilar as manifestações, a minha própria personalidade.
Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha».Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera


Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante de uma noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo , tão fraternar, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que se sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.

Time moves slow When you're all alone And the time moves slow When you're out on your own And the time moves slow When you're missing a friend And the time moves slow When you came to the end...


This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end I'll never look into your eyes... again...

Fim
Meteu o revólver na boca e estremeceu ao senti-lo frio contra o céu da boca. Mas lembrou-se, não sem prazer [...], que assim se tinha suicidado Antero de Quental. Tirou o revólver e manteve-o na mão, descaída esta sobre a colcha, ao longo da perna.
Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista.
Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da
morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio,
e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já.
Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto.
Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si.
Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida…
Tudo era indeciso e sem fim.
Fechou os olhos e puxou o gatilho…


Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero, Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim

A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto. ...A nossa morte é um assunto que interessa mais aos vivos do que a nós próprios...Enquanto nós existimos, não há espaço para a morte, quando a morte chega, deixa de haver espaço para nós. Entre nós e a morte não há nenhuma relação real. A morte não teria nada a ver connosco...o que também explicaria a total serenidade e indiferença, irresponsabilidade e inocência egoísta com que todos os seres a encaram.

A desilusão é só mais um passo Há que saber perder Ceder o espaço Se a desilusão é tudo o que penso Há que saber lembrar O que mereço O que mereço ...A mentira não chega ao fim A mentira não chega ao fim Olha-me mas não de frente Olha-me e a toda a gente A mentira não chega ao fim Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista. Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já. Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto. Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si. Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida… Tudo era indeciso e sem fim.Fechou os olhos e puxou o gatilho Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.


Sem dúvida teve um fim a minha personalidade. Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica — Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio, A tua libertação constelada de Noite Infinita. Não tive talvez missão alguma na terra...

Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida.

A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar


Amei-te e por te amar Só a ti eu não via... Eras o céu e o mar, Eras a noite e o dia... Só quando te perdi É que eu te conheci...(...)Meu sentir meu anseio Meu jeito de pensar... Eras minha alma, fora Do Lugar e da Hora... Hoje eu busco-te e choro Por te poder achar Não sequer te memoro Como te tive a amar...Nem foste um sonho meu... Porque te choro eu? Não sei... Perdi-te, e és hoje Real no [...] real... Como a hora que foge, Foges e tudo é igual A si-próprio e é tão triste O que vejo que existe. E hoje pergunto em mim Quem foi que amei, toquei Com quem perdi o fim Aos sonhos que sonhei… Procuro-te e nem vejo O meu próprio desejo… Que foi real em nós? Que houve em nós de sonho?[...] Tu e eu lado a lado... Isto... e isto acabado... Como houve em nós amor E deixou de o haver? Amámo-nos deveras? Amamo-nos ainda? [...] Hoje que te deixei É que sei que te amei...Somos a nossa bruma…[...]

Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.


Before I disappear Whisper in my ear Give me something to echo In my unknown futures ear My dear The end Comes near I'm here But not much longer My dear The end Comes near I'm here But not much longe...

Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometidos loucuras em vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante... Quincas, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sobre o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto nem botequim, de cachaça caseira e comedida.
Há leitores que consideram este retrato de quincas, antes de ser livre, um primor. É entediante: são palavras que não acrescentam nada à imagem que, de imediato , se constrói, assim que se lê nome e apelidos, precedidos de "antigo e respeitável"... As apreciadíssimas descrições minuciosamente realistas são exasperantes e só necessárias para leitores incapazes: palavras, sobre palavras...

Eis uma verdade sacrílega que, em público, não pode ser revelada: eça, jorge amado, garcia marquez e quejandos são escritores menores porque dizem, dizem, explorando o fácil, o imediato e o mais do que óbvio...Gastam palavras com minudências evidentes, estatelando nos seus romances uma pretensa realidade real...


Pátroclo é um herói sem vida própria: uma mera projeção de aquiles, uma eterna personagem secundária... Aquiles era filho de uma deusa e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era herói apenas pela sua virtude, pela pureza da sua aretê....Quem amou, além de aquiles? Que tipo de amor? Filial? Fraterno? Romântico? Sexual? Terá sido amado por aquiles? Pátrocolo só tem princípio e fim...

Aquiles amou-o também distraidamente — ama-se sempre o nosso duplo. Mas, só quando pátroclo morre, aquiles chora , dolorosa e convulsivamente. Lágrimas que pátroclo já não sentiria, lágrimas que lhe poderiam ter permitido morrer com a ilusão de ser amado, mas o destino não lhe concedeu, sequer, um fugaz momento de volúpia, antes da libertação definitiva da sua alma. Pátroclo foi morto porque heitor o confundiu com aquiles. Será que este equívoco o elogiou? O facto é que a trágica morte de pátroclo vai desencadear um impiedoso desfile de mortes...

Se aquiles e pátroclo repartiram, intimamente, o leito, nunca se saberá. Muitos, entre os quais Sócrates, acreditaram que não; tantos outros asseveraram que sim. É-Me, pessoalmente, indiferente a resposta. Uma certeza tenho como indesmentível: aquiles chora de raiva, aquiles não suporta a afronta de destruirem pátroclo; aquiles sentiu-se humilhado; aquiles não chorou por amor...
- Nobre filho de Peleu, é triste e desoladora a notícia que te trago! Pátroclo foi morto em combate...Ao ouvir tais palavras, Aquiles atirou-se ao chão e arrancou os cabelos em desespero. Abundantes lágrimas inundavam-lhe as faces e não cessava de suspirar e lamentar-se profundamente...

Por amor a aquiles, também a escrava briseida chora, embora silenciosamente, o fim de pátroclo: a dignidade obriga-a a ocultar o que sente... O sofrimento de quem não tem , sequer, o direito de chorar é , talvez, o mais intenso...

Antínoo estava morto... Se pensou proteger-me com aquele sacrifício, deve ter-se julgado bem pouco amado para não sentir que o pior dos males seria perdê-lo...Resisti ;lutei contra a dor como contra uma gangrena.A morte é horrenda, mas a vida também.
Contemplemos juntos, um instante ainda, as praias familiares, os objectos que certamente nunca mais veremos...Procuremos entrar na morte de olhos abertos...

Era em Adriano fria a chuva fora. Jaz morto o jovem No raso leito, e sobre o seu desnudo todo, Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo, A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa. Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme Da Natureza em acto de matá-lo. Memória de que el' foi não dava já deleite, Deleite no que el' foi era morto e indistinto. Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes, Cuja frieza agora as sente frias! Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo! Ó olhos algo inquietantemente ousados! Ó simples macho corpo feminino qual O aparentar-se um deus à humanidade! Os lábios cujo abrir vermelho titilava Os sítios da luxúria com tanta arte viva! Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito! Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!

A minha vida é um barco abandonado (...) Ah! falta quem o lance ao mar, e alado Torne seu vulto em velas; peregrino Frescor de afastamento, no divino Amplexo da manhã, puro e salgado. Morto corpo da ação sem vontade Que o viva, vulto estéril de viver, Boiando à tona inútil da saudade. Os limos esverdeiam tua quilha, O vento embala-te sem te mover, E é para além do mar a ansiada Ilha...

Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!


Duas vezes, naquela minha adolescência... longínqua... gozei a dor da humilhação de amar. Do alto de hoje, olhando para trás, para esse passado, que já não sei designar nem como longínquo nem como recente, creio que foi bom que essa experiência da desilusão me acontecesse tão cedo. Não foi nada, salvo o que passei comigo.(...) Cedo de mais obtive, por uma experiência, simultânea e conjunta, da sensibilidade e da inteligência, a noção de que a vida da imaginação, por mórbida que pareça, é contudo aquela que calha aos temperamentos como é o meu. As ficções da minha imaginação podem cansar, mas não doem nem humilham. Às amantes impossíveis é também impossível o sorriso falso, o dolo do carinho, a astúcia das carícias. Nunca nos abandonam, nem de qualquer modo nos cessam.

Viu-a desaparecer com mágoa, com rancor, com humilhação, mas também com um grande alívio, um repouso fundo da respiração da alma, por fim restituída a si mesma. E sentiu, com todo o subtil da intuição, que ela deveria estar sentindo isso mesmo agora, mas deveria estar sorrindo um pouco mais...

Sentiu a grande humilhação de ter sido estimado ... A própria troça fora melhor, porque a troça fora da mulher, mas a estima era da natureza através dela.

Quando a canção chegou ao fim, Kraus deu um passo em frente, afastando-se do semicírculo que havíamos formado, e disse lentamente mas com uma solenidade tanto maior." Dorme, descansa tranquilamente, querida Fraulein.(...) E agora adeus, Instituto Benjamenta



As a free-fall advances I'm the moron who dances Ahhahhhahhhahhhahhahh I was teething on roses I was in guns and noses Ahhahhhahhhahhhahhahh Under the withering white sky's a humiliation...

No fim de tudo dormir. No fim de quê? No fim do que tudo parece ser..., Este pequeno universo provinciano entre os astros, Esta aldeola do espaço, E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

O, du lieber Augustin, alles ist hin... Lembrou-se da professora de alemão, a cantar com um entusiasmo verdadeiramente contagiante, com o ponteiro a fazer de batuta... Recordou uma pessoa bonita e ensaiou um desenvolvimento não humilhante para estes fins...
Me and you and you and me No matter how they toss the dice It had to be The only one for me is you And you for me...



Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim... Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. Com esforço, mas era para bom fim. Ao menos era para um fim. E assim como sou não tenho nem fim nem vida.

E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras.(...) Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. (...)Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!(...) Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.

Chamo-me Clarisse e vou morrer. Mas, entretanto conheci um tipo cínico que era médico e resolvera os seus problemas de consciência escolhendo uma especialidade cujos clientes não tinham uma migalha de esperança à sua frente.

Pedia-me aqueles nadas que reanimam uma vida. Enfim: a torpe ilusão de que poderia haver um erro ou uma possibilidade. Mas nem só Clarisse necessitava dessa ilusão, embora fosse eu, que também dela necessitava, a última pessoa que a doença pudesse burlar. Não era apenas a magreza, o embaciado amarelento da face, os olhos que começavam a parecer desmedidos, isolados numa paisagem desabitada... No entanto, à medida que essa decadência se acentuava, menos eu a queria admitir. Pela primeira vez, por assim dizer, nessa revolta das vísceras, eu fazia a violenta descoberta da morte – através de uma pessoa viva. Durantes as minhas longas vigílias de cigarros trespassava-me o eco de longínquas vozes.

Esperava pela liberdade de começar, pelo momento de se tornar real, esperava a hora de esquecer quem ele era e se tornar a pessoa que estava a interpretar, mas em vez disso estava ali parado, completamente vazio, atuando do modo que se faz quando não se sabe o que se está a fazer. Não conseguia dar e não conseguia reter; não tinha fluidez e não tinha reserva. A atuação tornou-se uma tentativa, repetida noite após noite, de se conseguir livrar de um fardo ...Ele perdera a magia. O impulso esgotara-se. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia comunicar com a plateia. O seu talento havia morrido.

Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia, nenhuma das duas funciona mais. Houve um grande conflito a respeito do que é permissível — e uma grande revolução. Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas? Não é essa condição que outrora era simbolizada pelo cachimbo e pela cadeira de balanço. Talvez ainda seja uma espécie de afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta, por mais que a gente envelheça?

- Mas tenho de ir. Alguém tem de estar com ela.
- Pensa nisso. Pensa. Porque, se fores, estás liquidado.

Consuelo, sem cabelo e sem os seus inebriantes seios, já não era apenas um corpo, era muito mais do que um animal: o fim originou um novo início...

Consuelo agora conhece a ferida da idade. Envelhecer é inimaginável para todos, menos para os idosos...Consuelo já não mede o tempo como os jovens, assinalando para trás, para quando tudo começou. Para os jovens, o tempo é feito do que é passado, mas para Consuelo o tempo é agora a medida do futuro que lhe resta. Agora mede o tempo contando para a frente. Conta o tempo pela proximidade da morte. A ilusão quebrou-se, a ilusão metronómica, o pensamento reconfortante de que,ti-tac, tudo acontece no seu devido tempo. A sua noção de tempo é agora igual à minha, acelerada e mais desamparada , até, do que a minha...


Durante quarenta anos fez o que era necessário fazer. Andou atarefado, e a natureza, que é a besta, mudou-se para uma caixa. Agora essa caixa está aberta. Ser reitor, ser pai, ser marido, ser intelectual, professor, ler livros, dar lições, corrigir textos, dar notas, tudo isso acabou. Evidentemente que já não é a vigorosa besta lúbrica que foi. Mas o que resta da besta, o que resta dessa coisa natural, é com isso que ele está agora em contacto, com o que resta. E sente-se feliz por isso, sente-se grato por estar em contacto com o que resta. Sente-se mais do que feliz: sente-se emocionado, e já está ligado, profundamente ligado a ela, por causa dessa emoção. Não é de família que se trata, a biologia já não lhe serve para nada. Não é família, não é responsabilidade, não é dever, não é dinheiro, não é uma filosofia partilhada ou o amor à literatura, não são grandes discussões de ideias. Não, o que o liga a ela é a emoção. Amanhã descobrem-lhe um cancro e acabou-se. Mas hoje, agora, tem essa emoção.

A pancada atinge-o do lado direito,violenta,surpreendente e dolorosa, como uma faísca eléctrica, projectando-o da bicicleta.

Acorda num casulo de ar morto. Tenta soerguer-se mas não é capaz; é como se estivesse encerrado em cimento. Rodeia-o uma brancura ininterrupta: tecto branco, lençóis brancos, luz branca; e também uma brancura granulosa como pasta de dentes velha que parece revestir-lhe a mente...

As noites são intermináveis. Sente demasiado calor, demasiado frio; tem comichão na perma... De noite e de dia o tempo arrasta-se. O relógio está parado mas o tempo não.
Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment.


Deslizar pelo mundo: era assim, em tempos idos, que se costumava designar vidas como a sua: velando pelos seus interesses, prosperando calmamente,sem chamar a atenção... Uma oportunidade desperdiçada.

Uma vida circunscrita. ... Pode uma vida tornar-se e tal modo circunscrita que já não valha a pena ser vivida? Há homens que saem da prisão,depois de anos a olharem para a mesma parede nua,sem que o pessimismo se apodere da sua alma. O que te de tão especial perder um membro?

Todo o amor que ele pudesse ter tido alguma vez pelo seu corpo «desapareceu há muito. Não tem interesse em consertá-lo,em fazê-lo voltar a alguma eficiência ideal. O homem que ele era não passa de uma recordação, e uma recordação que se dissipa rapidamente. Ainda tem a sensação de ser uma alma com uma vida anímica não diminuída...

Não sabe se alguma vez gostou da paixão, ou a aprovou.Paixão: território estrangeiro; uma afecção cómica mas inevitável como a papeira, que a pessoa espera ter quando ainda é jovem, numa das suas formas mais brandas, menos ruinosas,para não a contrair com maior gravidade mais tarde. Cães avassalados pela paixão a acasalar,com sorrisos infelizes na cara,com a língua de fora.

A cabeça da escrevinhadora poisa,a descansar,na almofada...Ele parece estar a tornar-se o tipo de pessoa que adormece cedo e acorda quando ainda está escuro; ela parece ser o tipo de pessoa que fica acordada até tarde,inventando as suas fantasias pela noite fora. Como poderiam eles ir morar juntos?

- Não...Isto não é amor. É algo diferente. É algo menor.
- Mas que vou eu fazer sem si?
Ela parece estar a sorrir, mas os seus lábios tremem também.
- Isso é consigo... Mas ,quanto a mim, quanto ao presente: adeus.
E curva-se para diante e beija-a três vezes, da maneira formal que lhe ensinaram em criança - esquerda direita esquerda.


De acordo com uma lenda escandinava, o último homem a morrer, no último dia do ano, torna-se automaticamente, o cocheiro da morte....

Já viram com certeza gravuras representando a Morte, e viram-na sempre a andar a pé. Razão porque o cocheiro de que vos falo não é a Morte em pessoa, mas apenas o seu criado. Compreendem que uma personagem tão importante só se digna recolher a fina flor da colheita, e é ao seu cocheiro que confia a tarefa de juntar as pobres ervinhas que crescem à borda dos fossos.(...) Mas compreendem agora do que é que o meu camarada tinha medo. Era de morrer precisamente à meia noite, na véspera do Ano Novo, e de se tornar o cocheiro da Morte. Suponho que imaginava ouvir durante todo o dia o coche funerário a chiar e a baloiçar sobre as estradas. E, imaginem, parece que morreu no ano passado, precisamente na noite de S. Silvestre.
- E mesmo à meia-noite?
- Sei, apenas que morreu à noite, mas ignoro a hora. Poderia, aliás, ter-lhe predito que havia de morrer nesse dia, tal era o medo que tinha. Se uma ideia parecida se apoderasse de vocês, eram capazes de ir também.


A certeza — isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a «realidade» ou a «verdade» — é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente...


Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro