Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

sábado, 1 de março de 2025

EuropaS...Estilhaços europeus...

Durante a escola primária, europa foi mapa, continente, capitais, paris, madrid, londres...Foi uma realidade teórica, memorizada e papagueada, sem entusiasmo, apontada num mapa. Os continentes são...as capitais são...

A europa fica... Entre os 9 e os 14 anos, a europa foram viagens com os pais... todas as férias, natal, páscoa e agosto, não tinha escolha, não podia ficar. Eles gostavam de viajar, de fazer quilómetros por essa europa fora... Os fins de semana, com feriado a jeito, eram mais sagrados do que uma peregrinação por motivos religiosos: vigo, madrid e andorra ... Lá os seguia, entediada, com o mesmo desinteresse com que aprendeu a europa teórica...Levava sempre uma almofada, de que não se separava nunca, o que enfurecia a mãe e desgostava o pai. Um vez esqueceu-se da almofada algures num hotel na suíca, quando deu pela falta dela, nessa noite não dormiu, chorou, apanhou uns tabefes, fez a birra mais espalhafatosa de toda a vida ... A europa foi o continente da primeira perda, o que sofreu sem a " fofinha"...Sempre que pensa nessa história, não consegue explicar exatamente a ligação afetiva que tinha à almofada, mas talvez ela significasse o desprazer por tanta viagem, a tristeza que sentia por não ser como as outras meninas que ficavam em casa nas férias e, no mês de agosto , iam quinze dias para mira ou para a figueira da foz... 

 França foi também local de "perdição"... Numa rua de paris, cujo nome não recorda, mas que lhe ficou gravada na memória, perdeu-se dos pais. Teve tanto medo, mal sabia falar francês, deve ter tido um ataque de pânico, mas isso era coisa que na época ainda nem tinha nome.Sentou-se num muro a chorar baixinho...Talvez pareça uma cena de filme, mas o facto é que um professor da alliance francaise, que dava aulas em coimbra, a reconheceu e a levou ao hotel...Neste episódio ,registou o modo, algo romanesco, como foi salva e o abraço apertado do pai. Viu-o duas vezes chorar ou melhor com lágrimas pendentes nos olhos: quando a mãe morreu e nesse momento. Como o pai era homem de reconhecimentos à moda antiga, enquanto esteve em coimbra, todos os anos, no natal, o salvador recebeu uma garrafinha de vinho do porto... A europa foi,assim, uma inevitabilidade sazonal a que os pais a condenaram: sempre os sentiu como uma espécie de agentes turísticos perversos...Na europa, perdeu um afeto e perdeu-se. 

 Durante o tempo da faculdade, a europa foram viagens por opção, amigos, alguns excessos, um eu diferente que lhe surgiu, inesperado, mas que rapidamente se desvaneceu: munique e paris ficaram para sempre arquivadas, foram episódios à margem do seu eu essencial... 

 Europa foi CEE, aulas de introdução à política, alcobaça, uma vida diferente... 

 Anos mais tarde, europa foi a angústia de mãe quando um filho,provinciano, inexperiente, com 18 anos, parte um mês com amigos, antes dos telemóveis, dos chats, dessas coisas que anulam as distâncias. As dúvidas( terá sido sensato deixá-lo ir?) a espera de notícias, dias e dias sem saber nada, até que um telefonema de amesterdão lhe diz que ficam lá uma semana. O pavor do fácil acesso a drogas , mais dúvidas, em casa de quem estará, um mês bem mais terrível do que aquele em que a europa privou uma criança da sua almofada... 

 Europa foi concurso de tradução de cícero, roma e adriano...

 Europa foi espanha, mérida, santiago de compostela e salamanca, visitas de estudo, alunos, mas também férias, amigos, emoções desencontradas e sentimentos complexos...

 Europa foi fernando pessoa, mensagem...
A Europa é, agora, um espaço invadido, um espaço de refúgio que lentamente se vai descaracterizando e , tal como tudo, se globaliza numa mescla de culturas , de cores e de religiões: é o paraíso para os que vêm; um inferno para os que estão...

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.



O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.



Confiei, ingenuamente, no meu velho continente, nos valores civilizacionais herdados dos gregos, sonhei uma república de Platão e acreditei nessa quimera. Confesso, mea culpa, mea maxima culpa, que integrei o grupo dos que se congratularam com a entrada de Portugal na comunidade europeia e não acreditei nos "velhos do restelo" que profetizavam desgraça...
Não tive a admirável lucidez de natália correia:

A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista. A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder.Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança! Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente. Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica. Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão. Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores? As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.

nhe'#, em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani...

  Todas as cabeças estão cheias de projetos..

Um livro inclassificável em que os "Espacialistas" são, mais uma vez, os artistas - arquitetos que transformam o pensamento e as palavras de Gonçalo M. Tavares em imagens...Tudo é perfeito neste livro visual que tem de ser percorrido com olhos de ver , de imaginar, de refletir: a qualidade do papel, o design, a sintonia forma - conteúdo, a arquitetura interna deste "Museu Imaginário da Europa"... 

Não foi a literatura que se aproximou da política, foi a política que  invadiu o campo da linguagem- invadiu e aí ficou.

                                    Alguns exemplo da riqueza das "Outras Ideias": 

     E a princípio era o traço, claro, não tanto o Verbo

    a  janela é a curiosidade em forma de vidro
    
     Habitar é uma forma de não esquecer

     
     "Toda a natureza é mensurável e a cultura é a parte da natureza que já foi medida

    "No fundo, o homem já não reza nem vira a cabeça para o céu a pedir justificações ou caridade; quando vira a cabeça para o céu é para perguntar....precisa de ajuda, meu Senhor?"

  "Somos uma espécie humana com tendência para a utopia, que preenche os espaços vazios com materiais concretos. Por isso, precisamos de céu"


Comecei a ler este livro pelo fim... Entrei neste Museu pela porta de saída, mas não deve ter importância porque todas as Romas vão dar a um caminho. É preciso não ficar na cidade.

O álcool é uma água que sonha.

As miniaturas são sínteses que cupam pouco espaço, mas muita atenção.

O arquiteto é um filósofo do efémero. / o homem que só olha para o útil não evita semelhanças com a galinha.

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