Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sábado, 1 de março de 2025

EuropaS...Estilhaços europeus...

Durante a escola primária, europa foi mapa, continente, capitais, paris, madrid, londres...Foi uma realidade teórica, memorizada e papagueada, sem entusiasmo, apontada num mapa. Os continentes são...as capitais são...

A europa fica... Entre os 9 e os 14 anos, a europa foram viagens com os pais... todas as férias, natal, páscoa e agosto, não tinha escolha, não podia ficar. Eles gostavam de viajar, de fazer quilómetros por essa europa fora... Os fins de semana, com feriado a jeito, eram mais sagrados do que uma peregrinação por motivos religiosos: vigo, madrid e andorra ... Lá os seguia, entediada, com o mesmo desinteresse com que aprendeu a europa teórica...Levava sempre uma almofada, de que não se separava nunca, o que enfurecia a mãe e desgostava o pai. Um vez esqueceu-se da almofada algures num hotel na suíca, quando deu pela falta dela, nessa noite não dormiu, chorou, apanhou uns tabefes, fez a birra mais espalhafatosa de toda a vida ... A europa foi o continente da primeira perda, o que sofreu sem a " fofinha"...Sempre que pensa nessa história, não consegue explicar exatamente a ligação afetiva que tinha à almofada, mas talvez ela significasse o desprazer por tanta viagem, a tristeza que sentia por não ser como as outras meninas que ficavam em casa nas férias e, no mês de agosto , iam quinze dias para mira ou para a figueira da foz... 

 França foi também local de "perdição"... Numa rua de paris, cujo nome não recorda, mas que lhe ficou gravada na memória, perdeu-se dos pais. Teve tanto medo, mal sabia falar francês, deve ter tido um ataque de pânico, mas isso era coisa que na época ainda nem tinha nome.Sentou-se num muro a chorar baixinho...Talvez pareça uma cena de filme, mas o facto é que um professor da alliance francaise, que dava aulas em coimbra, a reconheceu e a levou ao hotel...Neste episódio ,registou o modo, algo romanesco, como foi salva e o abraço apertado do pai. Viu-o duas vezes chorar ou melhor com lágrimas pendentes nos olhos: quando a mãe morreu e nesse momento. Como o pai era homem de reconhecimentos à moda antiga, enquanto esteve em coimbra, todos os anos, no natal, o salvador recebeu uma garrafinha de vinho do porto... A europa foi,assim, uma inevitabilidade sazonal a que os pais a condenaram: sempre os sentiu como uma espécie de agentes turísticos perversos...Na europa, perdeu um afeto e perdeu-se. 

 Durante o tempo da faculdade, a europa foram viagens por opção, amigos, alguns excessos, um eu diferente que lhe surgiu, inesperado, mas que rapidamente se desvaneceu: munique e paris ficaram para sempre arquivadas, foram episódios à margem do seu eu essencial... 

 Europa foi CEE, aulas de introdução à política, alcobaça, uma vida diferente... 

 Anos mais tarde, europa foi a angústia de mãe quando um filho,provinciano, inexperiente, com 18 anos, parte um mês com amigos, antes dos telemóveis, dos chats, dessas coisas que anulam as distâncias. As dúvidas( terá sido sensato deixá-lo ir?) a espera de notícias, dias e dias sem saber nada, até que um telefonema de amesterdão lhe diz que ficam lá uma semana. O pavor do fácil acesso a drogas , mais dúvidas, em casa de quem estará, um mês bem mais terrível do que aquele em que a europa privou uma criança da sua almofada... 

 Europa foi concurso de tradução de cícero, roma e adriano...

 Europa foi espanha, mérida, santiago de compostela e salamanca, visitas de estudo, alunos, mas também férias, amigos, emoções desencontradas e sentimentos complexos...

 Europa foi fernando pessoa, mensagem...
A Europa é, agora, um espaço invadido, um espaço de refúgio que lentamente se vai descaracterizando e , tal como tudo, se globaliza numa mescla de culturas , de cores e de religiões: é o paraíso para os que vêm; um inferno para os que estão...

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.



O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.



Confiei, ingenuamente, no meu velho continente, nos valores civilizacionais herdados dos gregos, sonhei uma república de Platão e acreditei nessa quimera. Confesso, mea culpa, mea maxima culpa, que integrei o grupo dos que se congratularam com a entrada de Portugal na comunidade europeia e não acreditei nos "velhos do restelo" que profetizavam desgraça...
Não tive a admirável lucidez de natália correia:

A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista. A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder.Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança! Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente. Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica. Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão. Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores? As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.

nhe'#, em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani...

  Todas as cabeças estão cheias de projetos..

Um livro inclassificável em que os "Espacialistas" são, mais uma vez, os artistas - arquitetos que transformam o pensamento e as palavras de Gonçalo M. Tavares em imagens...Tudo é perfeito neste livro visual que tem de ser percorrido com olhos de ver , de imaginar, de refletir: a qualidade do papel, o design, a sintonia forma - conteúdo, a arquitetura interna deste "Museu Imaginário da Europa"... 

Não foi a literatura que se aproximou da política, foi a política que  invadiu o campo da linguagem- invadiu e aí ficou.

                                    Alguns exemplo da riqueza das "Outras Ideias": 

     E a princípio era o traço, claro, não tanto o Verbo

    a  janela é a curiosidade em forma de vidro
    
     Habitar é uma forma de não esquecer

     
     "Toda a natureza é mensurável e a cultura é a parte da natureza que já foi medida

    "No fundo, o homem já não reza nem vira a cabeça para o céu a pedir justificações ou caridade; quando vira a cabeça para o céu é para perguntar....precisa de ajuda, meu Senhor?"

  "Somos uma espécie humana com tendência para a utopia, que preenche os espaços vazios com materiais concretos. Por isso, precisamos de céu"


Comecei a ler este livro pelo fim... Entrei neste Museu pela porta de saída, mas não deve ter importância porque todas as Romas vão dar a um caminho. É preciso não ficar na cidade.

O álcool é uma água que sonha.

As miniaturas são sínteses que cupam pouco espaço, mas muita atenção.

O arquiteto é um filósofo do efémero. / o homem que só olha para o útil não evita semelhanças com a galinha.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Cidades e bairros...

Vendo-te recordei que as cidades mudam mas os campos são eternos. Chamam bíblicas às pedras e aos montes, porque são os mesmos, do mesmo modo que os dos tempos bíblicos deviam ter sido. -Bernardo Soares

Chegados de Budapeste. Dois vultos de noite. Duas manchas escuras sobre uma grande mancha escura. Mas as duas pequenas manchas escuras agem, têm um objectivo; a noite, essa — a grande mancha escura —, tudo indica que não; não tem objectivo.

Os traços, que no primeiro olhar pareciam gerais, tornavam‑se, a cada segundo que passava, indiscutíveis. Haviam encontrado o que procuravam. Era o rosto de Lenine, sem dúvida.
É ele. É ele.

A fealdade ali não entrava, nem o grotesco, nem o nojo, nem a violência, nem o disforme, nem a deficiência: um arquivo de imagens sobre a beleza, fotografias que apanhavam o calmo, o tranquilo, aquilo que no mundo das coisas e dos homens parecia ter uma duração cega, uma duração interminável: uma beleza sem ameaça...


Quando ninguém está a ver, o amor revela a sua barbatana escondida. Alguém que dá festas a um gato nas escadas do prédio, no espelho do elevador alguém que limpa as manchas do vidro. Na estrada, alguém que deixa passar o outro sem reclamar. Alguém que salva o amigo de uma piada sem graça que o faz corar. Atirar gelo para a água dos cães numa tarde de Verão. Cantar a música horrível, preferida da namorada, com uma vontade quase universal. Não meter pimenta no bife. Não ligar o telefone. Não perguntar.

Ainda que os moradores não fossem "artistas ", o bairro, no seu conjunto, era sem dúvida artístico...Tal era a maneira, a única maneira, de conceber o bairro como um todo. Teria de ser considerado não tanto uma oficina de artistas, mas antes como uma frágil, se bem que consumada obra de arte. Aquele que entrasse na atmosfera da sua sociedade sentir-se-ia como se tivesse entrado numa peça de teatro.

Dve ser bom viver neste bairro...

Quando Symesaiu para a rua iluminada pelas estrelas achou-a momentaneamente deserta. Apercebeu-se então( de modo estranho) de que o silêncio que o rodeava não era morto, mas vivo.

Não vê que demos xeque-mate um ao outro? -Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista.Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou polícia.(...) Em resumo,é um duelo intelectual dos dois a sós: a minha cabeça contra a sua.

O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba. Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado. O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.

Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade, Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas A expectativa em grupos...Ninguém sabe nada. Leve rastro de brisa Coisa nenhuma que é real E que, com um afago ou um sopro Toca o que há até que seja...Magnificência da naturalidade. Coração. Que Áricas inéditas em cada desejo! Que melhores coisas que tudo lá longe! Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico Com uma involuntariedade fruste Curto-circuito da proximidade... Ideias ao acaso Como um balde que se entornou — Fito-o é um balde entornado... Jaz: jazo..



Bairro da Liberdade, gente de casebres, pegado com Monsanto, vizinhos do Aqueduto, nem de graça se iria para lá. E, no entanto, a encosta da serra começou a povoar-se. Vinham famílias sacudidas pela miséria, abrigar-se comodamente, por cem mil réis de renda. Três cubículos de madeira velha, telhas em cima de vigas que o cair das chuvadas logo apodrecia, portas estreitas onde o gemido, o pranto ou a alegria eram vizinhos da rua - e tudo isto rodeado de um chão barrento, onde os homens, as mulheres e as crianças deixavam marcados os trilhos do seu caminho. Na cidade, no centro, ninguém lhes dava guarida. Gente pobre, carregada de filhos, enxovalhada na roupa que se traz todos os dias, morar em casas, era uma ousadia dos diabos...

Romance de natália correia, escrito em 1946, que tento ler há um tempo, mas sem sucesso...
Sinopse: Anoiteceu no Bairro revela, além do mais, a cuidada aprendizagem de uma tradição romanesca onde se cruzam as vozes de Dostoievski, aqui invocado, e os caminhos do romance naturalista urbano: nos tipos, na construção dos ambientes e dos retratos, nas situações. E vemos já a futura dramaturga a ensaiar aqui, com sucesso, a arte da representação teatral e da composição do diálogo.
Opinião de um leitor: Manifesto feminista e social: se, por um lado, vemos a completa estupidificação de algumas mulheres, por outro vemos a vontade de luta e de independência por parte de outras. E, numa fase mais avançada, e numa dimensão mais profunda, a luta de um povo, o português, que vive de costas para o futuro e virado para as histórias do passado que já se contam sem convicção. É preciso ter em conta que este romance foi publicado ainda em plena ditadura salazarista, o que certamente tem o seu peso. Mas, há uma enorme ousadia, um atrevimento revolucionário nestas linhas. Há o retrato realista dos podres de pessoas que vivem de aparências, há tudo o que normalmente se quer escamotear. Natália Correia tem aqui um texto que já demonstra muitas das características que haviam de se fazer notar ao longo de toda a sua carreira: na poesia, que incia no ano seguinte com "Rio de Nuvens", no romance, que retoma nos anos oitenta, e no teatro. Este é um romance sem poder suficente para competir com "A Madona" ou sem carisma suficiente para competir com "As Núpcias", mas é, certamente, o mais realista de todos, seguindo tanto uma linha ideológica mais queiroziana, mas tambem um pensamento ligado a Nietsze, e uma estrutura narrativa que remete a Dostoyevski ou Tolstoi.

Quase nada...
Epígrafe: Não posso apresentar a realidade dos factos, mas apenas a sua sombra...
Uma opinião: Jean Daragane, um sexagenário de hábitos reclusos e com memória nula, tem uma vida pacata, isolada e misantrópica, mas conserva a sua estabilidade existencial. Um dia, começa gradualmente a mergulhar num turbilhão de memórias e histórias do passado, que pareciam expulsas da sua vida, passando a ser uma sombra... A sombra permanece e parece ser a base da existência, não importa se estamos a falar da lembrança ou do esquecimento. Lembrar de um nome, de um encontro, de um tempo ou até de coisas da infância, no pensamento de Modiano, não tem a capacidade de alterar nada no presente, afinal o presente é também “quase nada” como marca temporal para poder ser mudado.
A impressão que se tem é que toda a obra gira em torno de um anacronismo dispendioso, ou seja, a confusão de tempos não tem como valia uma espécie de apresentação fragmentária do pensamento, dos sujeitos ou da materialidade do texto, mas sim uma incapacidade de organização do tempo do pensamento para que, este mesmo tempo, seja capaz de propor qualquer mudança nas coisas do mundo. Eis então porque a diferença entre “ser nada” e “quase nada” desloca esta ideia em apenas um ponto: o nada é uma estabilidade – do nada viemos e para o nada iremos, enquanto que o “quase nada” requer uma consciência processual da vida. Ser quase nada é montar uma zona de instabilidade constante. O que, no caso de Daragane, significa enfrentar um passado que, por mais que se busque, continuará nebuloso.
Por isso que o título Para Você não se Perder no Bairro é, de certa forma, irónico. Não há onde se perder, não há o que perder. A perda é dada de antemão e não pode ser recuperada. Trata-se de um livro complicado de ler, na medida em que os géneros não se definem. E, como curiosidade, a cada minuto após a leitura, parece que ele fica melhor.

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém...



O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.
O primeiro homem a pedir permissão para dormir ali na casa de Walser naquela noite foi um dos eletricistas. Depois muitos outros repetiram o pedido.

De súbito uma borboleta. Calvino fecha as janela: não quer que ela saia.
O senhor Swendenborg não faltava a uma única palestra do senhor Eliot.
Era um livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se , hesitando no número a escolher.
Ia começar a entrevista. O senhor Breton sentou-se, puxou do cigarro, fumou um pouco. Ligou depois o gravador.
Fechou a porta por dentro. Depois sempre poderia dizer que estava numa reunião muito importante.
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível.


Num parêntesis: é interessante pensar que o verbo sentir se refere à acção que fica depois de nos roubarem todas as outras acções...Sentir, poderíamos dizer, é a última hipótese do corpo.


Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estancam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Clube dos poetas mortos...

Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola mais um letreiro que promete raízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginário que tem a forma de uma cidade mais um relógio e um calendário onde não vem a nossa idade...



Penteiam-nos os crânios ermos com as cabeleiras das avós para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a história da nossa história sem enredo e não nos soa na memória outra palavra que o medo...

É em homenagem ao poeta inglês John Keats ( 1795 - 1821) que o professor , protagonista do Clube dos poetas mortos, se chama john Keating.
Keats é uma das principais figuras da segunda geração do movimento romântico, no entanto a sua obra apenas começa a ser publicada quatro anos antes da sua morte. Durante a vida, os seus poemas, caracterizados por um imaginário sensual, não foram bem recebidos pelos críticos, sendo a sua influência e importância só postumamente reconhecidas. Também as conceções pedagógicas de JK foram rejeitadas na década de 50, tendo sido só muito mais tarde consideradas como válidas.
Keats e keating, dois homens incompreendidos no seu tempo, só serão valorizados pelos vindouros.

"Oh, se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos."

Carpe diem, quam minimum credula postero.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.



O Captain! my Captain!

Ó Capitão! Meu capitão! A nossa terrível viagem já se cumpriu,
O Navio cruzou tormentas, é nosso o prémio pio,
O porto vê-se ao perto — os sinos dobram, o povo espera,
Olhos que à quilha firme tornam, desta nave forte e fera;
Mas ó coração, coração!
Ó gotas de vermelho brio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.


E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.As palavras são pedras,o que nelas vive é o espírito que por elas passa.

Este «eu» solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse «eu» e a sua descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lhe razão.

Entendo a tua loucura, meu bom moço, a tua perplexidade diante do poder que te nasceu nas mãos. Mas como não aprendeste que é mais forte criar uma flor (um parafuso...) do que destruir um império.


Aparição e Clube dos poetas mortos- Dois jovens professores de Literatura não convencionais que, por não cumprirem as normas vigentes, acabam por ser destituídos. Ambos têm alunos que, eventualmente influenciados pelas suas teorias existenciais, cometem atos extremos. A culpa será do professor?
Poderá um professor ser responsabilizados pelos atos de um aluno? Será Keating culpado do suicídio de Neil Perry? E Alberto, do ato homicida de Carolino.



Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.

O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.


Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Coisas e dark necessities...

Coisas primeiras...


Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior.

Há certos momentos das nossas vidas (e eu tinha a sorte de já ter experimentado os extremos do espectro), tão felizes ou tão desgraçados que a ideia de altos & baixos desaparece. Em ocasiões semelhantes, todo o ambiente à nossa volta é tão homogéneo, seja translúcido ou opaco, que nos impede de ter uma percepção correcta do lugar em que nos encontramos. Há momentos em que subimos tanto que não é possível manter-se a noção de altitude. Por outro lado, há momentos em que tudo corre tão mal que a ideia de que existe um mundo lá em cima nos abandona e a tristeza deixa de pesar, como se as leis universais ficassem suspensas, à espera de que a nossa vida se resolva para só então voltarem a impor a sua serena e inquestionável autoridade.

Percorrendo as ruas fui descobrindo coisas espantosas que lá ocorriam desde sempre, disfarçadas sob uma máscara ténue de normalidade: um viúvo que, depois de se reformar, passava as tardes sentado no carro, a porta aberta, a perna esquerda fora, a direita dentro; um sujeito tão magro que se podia tomar por uma figura de cartão, ideia reforçada por andar de bicicleta e, sobretudo, por nela carregar o papelão que recolhia nos contentores do lixo; a mulher que, com uma regularidade cronométrica, vinha à janela, olhava para um lado e para o outro, como se aguardasse há muito a chegada de alguém. Eram três exemplos de situações que - creio ser esta a melhor formulação - aconteciam desde sempre e pela primeira vez. Se olharmos para as coisas com alguma distância, retirando-as do contexto, deixando-nos contaminar pela estranheza, tudo, tudo mesmo, adquire uma aura macabra e repetitiva, singular, reconhecível, que se mistura com a substância dos sonhos, a matéria das mentes perturbadas. Penso sempre, não sei porque, que talvez a resposta esteja naquela revista antiga que não resistiu às traças: nos sobreviventes de Hiroxima, no clarão absoluto que os cegou, no mundo irreal em que foram condenados a viver a partir desse momento, no segundo em que uma luz fenomenal e terrível se acendeu, iluminando-lhes a vida de escuridão. Também nós deveríamos olhar para as coisas sob esse novo ângulo de luz, passando os dedos pelas arestas invisíveis, estabelecendo ligações musicais, sinfónicas entre, por exemplo, a perna esquerda do homem do carro e a frequência cardíaca da senhora que assoma à janela. Haverá em toda esta sequência aparentemente aleatória de acontecimentos não uma ordem metafísica mas, sem dúvida, uma harmonia, um ritmo, uma canção, um segredo que não se ouve, que não se vê e, no entanto, existe.

Que coisa: já estou desiludida e sem vontade de continuar a ler. Qual a necessidade de banalizar, de recorrer a uma linguagem grosseira para caracterizar uma personagem? Percebia-se tão bem o tipo de mulher que é a Ana Mendes, sem ser necessário o epíteto " grande cabra", "dotada de um monumental par de colhões.". Desagrada-me ( Será preconceito?) e a minha empatia relativamente ao narrador- personagem fica, irremediavelmente, comprometida.

Coisas fatais...

Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão colectiva. Fomos esmagados [...] por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, [...] Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores...

Coisas reles e grandes coisas...

Na coisa reles que é a terra onde vivo, por mero acidente administrativo, aconteceu uma grande coisa: vi e ouvi um homem livre e, imediatamente a seguir, senti a emoção de ter inspirado a personagem de um filme.


Se uma gaivota viesse ...
Que perfeito coração No meu peito bateria Meu amor na tua mão Nessa mão onde cabia Perfeito o meu coração Se ao dizer adeus à vida As aves todas do céu Me dessem a despedida O teu olhar derradeiro Esse olhar que era só teu Amor que foste o primeiro Que perfeito coração Morreria no meu peito Meu amor na tua mão Nessa mão onde perfeito Bateu o meu coração




As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

I'll make my getaway Time on my own Search for a better way To find my way home to your smile...


Have you no idea that you're in deep? I've dreamt about you nearly every night this week How many secrets can you keep? 'Cause there's this tune I've found That makes me think of you somehow And I play it on repeat Until I fall asleep Spilling drinks on my settee Crawling back to you Ever though of calling when you've had a few? 'Cause I always do Maybe I'm too Busy being yours to fall for somebody new Now I've thought it through Crawling back to you... (Do I wanna know?)


Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas...
O que penso, o que sinto e o que quero? Não são grandes coisas...Sei o que penso, sei o que devo sentir, sei o que quero, apesar de pensar que não quero sentir o que devo e, portanto, não devo querer o que quero.

Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido. Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha inteligência para com o meu senso moral. Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade. (...) Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...) Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulsa dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.


A tristeza solene que habita em todas as coisas grandes — nos píncaros como nas grandes vidas, nas noites profundas como nos poemas eternos...

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.


Era uma tarde de outono, quando o céu tem um calor frio, morto, e há nuvens que abafam a luz em cobertores de lentidão. Duas coisas só me deu o Destino: uns livros(...) e o dom de sonhar.

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.


Não há nada de mais perigoso para o espírito do que a sua relação com as grandes coisas...o perigo da ligação às grandes coisas tem uma particularidade muito desagradável: mudam as coisas, mas o perigo permanece o mesmo. Será que isto se aplica às pessoas? Talvez...

Tudo o que existe é um facto mental, isto é, concebido ; o inconcebível, se o supomos existente, é que o concebemos como conceptível se bem que não por nós. Visto que há coisas que concebemos como independentes do nosso concebê-las , por ex., os corpos exteriores — tudo quanto não é directamente sensação nossa, dada em nós e como só nossa, (distinguimos entre um objecto e a nossa ideia dele) — temos que conceber essas ideias como concebidas por outrem que não nós .

A ideia de viajar seduz-me por translação, como se fosse a ideia própria para seduzir alguém que eu não fosse. Toda a vasta visibilidade do mundo me percorre, num movimento de tédio colorido, a imaginação acordada; esboço um desejo como quem já não quer fazer gestos, e o cansaço antecipado das paisagens possíveis aflige-me, como um vento torpe, a flor do coração que estagnou. E como as viagens as leituras, e como as leituras tudo... Sonho uma vida erudita, entre o convívio mudo dos antigos e dos modernos, renovando as emoções pelas emoções alheias, enchendo-me de pensamentos contraditórios na contradição dos meditadores e dos que quase pensaram que são a maioria dos que escreveram. Mas só a ideia de ler se me desvanece se tomo de cima da mesa um livro qualquer, o facto físico de ter que ler anula-me a leitura... Do mesmo modo se me estiola a ideia de viajar se acaso me aproximo de onde possa haver embarque. E regresso às duas coisas nulas em que estou certo, de nulo também que sou — a minha vida quotidiana de transeunte incógnito, e aos meus sonhos como insónias de acordado. E como as leituras tudo... Desde que qualquer coisa se possa sonhar como interrompendo deveras o decurso mudo dos meus dias, ergo olhos de protesto pesado para a sílfide que me é própria, aquela coitada que seria talvez sereia se tivesse aprendido a cantar.

Considerar todas as coisas que nos sucedem como acidentes ou episódios de um romance a que assistimos não com a atenção senão com a vida. Só com esta atitude poderemos vencer a malícia dos dias e os caprichos dos sucessos.

A literatura que se publica em portugal não é grande coisa. Para variar, concordo com o que antónio lobo antunes disse há quase cinco anos:
Sinto uma consideração quase nula pelo que, em Portugal, se publica. Desgosta-me a infinidade de romances desonestos, entendendo por desonestidade não a falta de valor intrínseco óbvio (isso existe em toda a parte) mas a rede de lucro rápido através da banalização da vida. Livros reles de autores reles.

Embora, por princípio, não goste do adjetivo "reles", neste contexto, ele contribui para uma síntese perfeita: "Livros reles de autores reles." Acrescentaria - publicados por editores reles num país culturalmente reles ( apesar de guterres ser um digno secretário geral de uma organização reles, que, em si, não é grande coisa...)

Com que direito eu, que apresento livros reles de autores reles, me pronuncio sobre tal matéria? Não me reconheço qualquer legitimidade: assumo-me, neste aspeto, como uma reles professora de província...Não sou grande coisa, mas, como não me apetece suicidar-me, vou beber um café...

Coisas de nada, naturais da vida, insignificâncias do usual e do reles, poeira que sublinha com um traço apagado e grotesco a sordidez e a vileza da minha vida humana.

Mas o contraste não me esmaga — liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço. A glória nocturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos...

Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.


Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. E a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
Há momentos em que cada pormenor do vulgar me interessa na sua existência própria, e eu tenho por tudo a afeição de saber ler tudo claramente. Então vejo — como Vieira disse que Sousa descrevia — o comum com singularidade, e sou poeta com aquela alma com que a crítica dos gregos formou idade intelectual da poesia. Mas também há momentos, e um é este que me oprime agora, em que me sinto mais a mim que às coisas externas, e tudo se me converte numa noite de chuva e lama, perdido na solidão de um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe.
Sim, a minha virtude íntima de ser frequentemente objectivo, e assim me extraviar de pensar-me, sofre, como todas as virtudes, e até como todos os vícios, decréscimos de afirmação. Então pergunto a mim mesmo como é que me sobrevivo, como é que ouso ter a cobardia de estar aqui, entre esta gente, com esta igualdade certeira com eles, com esta conformação verdadeira com a ilusão de lixo de eles todos? Ocorrem-me com um brilho de farol distante todas as soluções com que a imaginação é mulher — o suicídio, a fuga, a renúncia, os grandes gestos da aristocracia da individualidade, o capa e espada das existências sem balcão.


Coisas raras...
Esta é a história de Zorbas, um gato grande, preto e gordo. Um dia, uma formosa gaivota apanhada por uma maré negra de petróleo deixa ao cuidado dele, momentos antes de morrer, o ovo que acabara de pôr.Zorbas, que é um gato de palavra, cumprirá as três promessas que nesse momento dramático lhe é obrigado a fazer: não comerá o ovo e não só criará a pequena gaivota, como também a ensinará a voar. Tudo isto com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabetudo, Barlavento e Colonello, dado que, como se verá, a tarefa não é fácil, sobretudo para um bando de gatos mais habituados a fazer frente à vida dura de um porto como o de Hamburgo do que a fazer de pais de uma cria de gaivota ...

É muito fácil aceitar e gostar dos que são iguais a nós, mas fazê-lo com alguém diferente é muito difícil, e tu ajudaste-nos a consegui-lo. És uma gaivota e tens de seguir o teu destino de gaivota. Tens de voar


Coisas inevitáveis...

Quando nos conhecemos , ela era uma jovem cândida e pura, apesar de uma maturidade rara e de uma capacidade de raciocínio superior. O tempo, inevitavelmente, maculou essa encantadora combinação, de ingenuidade com lucidez, e tudo mudou. Estranha e paradoxalmente, eu é que passei a ser a criança e o meu afastamento afigurou-se-me irreversível. Ela deixou de fazer sentido no meu mundo. Eu fiquei deslocado no mundo dela. Gostei de a ter conhecido. Nunca me arrependi de a ter deixado entrar no meu castelo. Gostei de sentir que exerci sobre ela, na juventude, um certo fascínio. Gostei que o nosso afastamento tivesse sido progressivo, natural, consequência inevitável de ela se ter tornado uma mulher com uma vida para além da literatura. O afastamento foi tão natural que nem foi preciso dizer adeus.

Coisas humilhantes...

Não há coisa mais humilhante do que estar doente... Seja muito ou pouco grave, sempre considerei a doença como uma humilhação: a fragilidade; as manifestações inestéticas, como febre, transpiração, suores, tosse, espilros, fezes líquidas, urina escura, tudo coisas absolutamente inestéticas; a necessidade de contar estes segredos do nosso corpo a um estranho é a máxima humilhação...( O médico é sempre um invasor, um violador da privacidade do doente). Pode ser um absurdo, mas, se for preciso, para salvar a minha dignidade, minto ao médico: quero lá saber...Odeio estar doente, não pelo sofrimento, de que obviamente não gosto, não pelo medo de morrer, mas pela humilhação de ter de recorrer a um salvador.


mumford_sons, muse, natália_correia, red_hot_chili_peppers, régio, sá_carneiro, sophia, the_prodigy, yourcenar,

Dark necessities...

Espero que este livro nunca venha a ser lido. Há entre nós algo melhor do que um amor: há uma cumplicidade.

Deixar de ser amado é ficar invisível...

e tu,
vais-te embora? vais-te embora?...

não,
não te vais embora: fico contigo…

deixas-me nas mãos a tua alma,
como um casaco.



(…) Ausente, a tua figura aumenta a ponto de encher o universo. Passas ao estado fluido que é o dos fantasmas. Presente, ela condensa-se; atinges as concentrações dos metais mais pesados, do irídio, do mercúrio. Morro com esse peso quando ele me cai sobre o coração. O admirável Paul enganou-se. (Falo do grande sofista e não do grande pregador.) Existe, para todos os pensamentos, para todos os amores que, entregues a si próprios, talvez desfalecessem, um cordial singularmente enérgico que é todo o resto do mundo, que está em oposição a ele, e que não o vale. Solidão... Não creio como eles crêem, não vivo como eles vivem, não amo como eles amam... Morrerei como eles morrem. O álcool desembriaga. Depois de alguns golos de conhaque já não penso mais em ti.


Fedra consegue tudo. Abandona a mãe ao touro, a irmã à solidão: estas formas de amor não a interessam. Abandona o seu país como quem renuncia aos seus sonhos; renega a família como quem vende as suas recordações na feira da ladra. Nesse meio em que a inocência é um crime, assiste desgostosa àquilo em que acabará por se tornar. O seu destino, visto do exterior, horroriza-a: ainda não o conhece senão sob a forma de inscrição na muralha do Labirinto: pela fuga arranca-se ao seu horrível destino. Desposa distraidamente Teseu, tal como Santa Maria a Egípcia pagava com o corpo o preço da sua passagem; deixa afundar-se no Ocidente, num nevoeiro de tábula, os matadouros gigantes da sua espécie da América cretense. Desembarca, impregnada com o odor do rancho e dos venenos do Haiti, sem saber que traz em si a lepra contraída sob um tórrido Trópico do coração. A sua estupefacção à vista de Hipólito é a de um viajante que descobre ter retrocedido no seu caminho sem o saber: o perfil daquela criança recorda-lhe Cnossos, e o machado de dois gumes. Odeia-o, educa-o; ele cresce contra ela, repelido pelo seu ódio, desde sempre habituado a desconfiar das mulheres, forçado desde a escola, desde as férias do Ano Novo, a saltar os obstáculos que espalha em seu redor a inimizade de uma madrasta. Ela tem ciúme das suas flechas, quer dizer, das suas vítimas, dos seus companheiros, quer dizer, da sua solidão. Nessa floresta virgem que é o lugar de Hipólito, planta inconscientemente os postes indicativos do palácio de Minos: traça através desses bosquedos o caminho de sentido único da Fatalidade. Em cada instante, recria Hipólito; o seu amor é realmente um incesto; não pode matar aquele rapaz sem cometer uma espécie de infanticídio. Fabrica a sua beleza, a sua castidade, as suas fraquezas; arranca-as do fundo de si própria; isola dele essa pureza detestável, para a poder odiar na figura de uma virgem insípida: forja com todas as peças a inexistência de Arícia. Embebeda-se do gosto do impossível, único álcool que serve sempre de base a todas as misturas da infelicidade. No leito de Teseu, tem o amargo prazer de na realidade enganar aquele que ama, e em imaginação aquele que não ama. É mãe: tem filhos como teria remorsos. Entre os lençóis húmidos de febril, consola-se com a ajuda de sussurros de confissão que chegam até às da infância, balbuciadas no pescoço da ama; suga a sua infelicidade; transforma-se por fim na miserável criada de Fedra. Perante a frieza de Hipólito, imita o sol quando incide num cristal: transforma-se em espectro; já não habita o seu corpo senão como o seu próprio inferno. Reconstrói no fundo de si própria um Labirinto onde não pode senão reencontrar-se: o fio de Ariana já não lhe permite sair de lá pois que o enrolou em redor do coração. Enviúva; pode finalmente chorar sem que lhe perguntem porquê; mas o negro não fica bem a essa figura sombria: ela odeia o seu luto por dar troco à dor. Desembaraçada de Teseu, transporta a sua esperança como uma vergonhosa gravidez póstuma. Faz política para se distrair de si própria: aceita a Regência tal como começaria a tricotar um xaile. O regresso de Teseu dá-se demasiado tarde para a fazer regressar ao mundo das fórmulas onde se acantona esse homem de Estado; não consegue lá entrar senão por meio de um subterfúgio; inventa, de alegria em alegria, a violação de que acusa Hipólito, de tal forma que a sua mentira é para ela uma saciedade. Diz a verdade: suportou os maiores ultrajes; a sua impostura é uma tradução. Toma veneno, porque está mitridatada contra si própria; o desaparecimento de Hipólito cria o vazio em seu redor; aspirada por esse vazio, mergulha na morte.

Edições fac simile do primeiro romande de régio, de uma peça de teatro de natália correia, da primeira edição do crime do padre amaro e da confissão de lúcio, incluindo os textos dos censores que os proibiram, são a minha última descoberta...Ter estes livros era uma dark necessitie.

É um livro de abandono e excesso, em que o escritor estava ainda muito adolescente. Não pense que o desestimo, gosto muito de o ter escrito com aquela coragem quase inconsciente....

Régio assume a influência que dostoievski exerceu sobre a sua escrita, À parte o ele ser um génio de primeira grandeza, com ele reconhecia profundas afinidades: sobretudo no seu turvo e fascinante misticismo, e no seu sublime debate entre o Bem e o Mal na alma do homem.
um romance com uma intensidade quase frenética e quase desarrumada. É o que me convém nesta quadra natalícia...

Uma opinião: Tratando-se de um romance de ficção, será que, mesmo assim, é um livro autobiográfico? Há quem defenda que sim, dizendo que a ficção nunca mente: revela o escritor na sua totalidade. Em o Jogo da Cabra Cega encontramos um Eu que procura identificar-se com outro Eu. Aqui encontramos semelhanças óbvias com a Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, de quem Régio era admirador confesso. Lá, como Ricardo e Lúcio eram o espelho um do outro, aqui, o autor conduz-nos, igualmente, para essa relação de amor/ódio (confusão/fragmentação) entre as duas personagens principais da narrativa: Pedro Serra e Jaime Franco. Estamos, assim, perante uma perfeita fragmentação do sujeito, um sujeito, no fundo, estilhaçado...

as aracnídeas arquiteturas da [...] imaginação, a verdadeira ironia brota da visão compreensiva de um conflito perpétuo, da apreensão simultânea de aspetos adversos em atividade... É pelo sentimento, pela paixão que se afirma ou se nega. É pela razão que se nem nega nem afirma. É pela inteligência, a verdadeira, que se aceita sem afirmar nem negar... [...] Ele [o ironista] não só diz o contrário do que pensa! Pensa também o contrário do que pensa, e põe-se à margem da vida para a julgar de fora, compreendendo ao mesmo tempo que não pode sair da vida.

Jogo da Cabra Cega foi o primeiro romance de Régio, editado pela Presença, Ed. Atlântida, em boa parte ainda escrito em Coimbra. Foi posto à venda por volta de Outubro de 1934 e cerca de três meses depois seria proibido, precisamente em 24 de Dezembro desse ano, sendo apreendidos todos os exemplares existentes nas livrarias e na editora.


Crítica a um povo crente, iludido, que não quer ver a realidade, e uma falsa nobreza, interesseira, desejosa de dinheiro.
Segundo o relatório da censor, de 1970, “trata-se do desenvolvimento em estilo ‘paródia’ de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de ‘Natália Correia’, com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar(...) Conclusão: julgo ser de poibir, por inconveniência política e pornográfica"

Em 1977, a peça é representada, sendo distribuída a segunie folha de sala, de autoria de natália correia: O Encoberto tem a condicionante de um tempo mas dele se descondicionana intemporalidade do próprio tema. O seu enquadramento é histórico. Situa-nos no período paradigmático da monarquia filipina. Paradigmático porque em “ocupação estrangeira” se traduz o poder sempre que exercido despoticamente. Na altura em que a peça foi escrita, essa conotação com o regime que então vigorava em Portugal foi-me recurso para focar uma situação presente que o rigor censório não permitia abordar às claras. Mesmo assim não conseguiu a peça passar às malhas da severíssima censura que nela só descortinou um manifesto contra o fascismo exótico à vontade dos portugueses e por isso identificável com o reinado filipino. Dentro da moldura histórica adensavam-se contudo os valores mais importantes de O Encoberto. No negativo da alienação dos povos e dos indivíduos germina o sonho que liberta. A irracionalidade do poder que escraviza só pode ser destruída, no sentir dos que impotentemente a sofrem, por outra irracionalidade: a do libertador impossível, o Monarca da Bruma. O Encoberto é a confrontação surda destas duas irracionalidades. A insolução é, consequentemente, a poética e o humor lírico que se dão lide na peça.

Desejos...

Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfémias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legítimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delícias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos húmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!

Lamentava não poder acender as fogueiras da Inquisição! - Assim aquele inofensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colérica de uma paixão contrariada, ambições grandiosas de tirania católica: - porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espírito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento místico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o subdiácono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser papa: não há seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura à caverna no deserto em que S. Jerônimo, olhando o céu estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça, como um abundante rio de leite: e o abade pançudo que à tardinha, à varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistintos restos dum Torquemada.

assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele próprio, se o incerto outro viveria…

Um desejo realizado...
Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos… nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência. Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.

Porém, a verdade é que em redor da sua figura havia uma auréola. Gervásio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua, dizendo: ali, deve ir alguém. Todo ele encantava as mulheres. Tanta rapariguinha que o seguia de olhos fascinados quando o artista, sobranceiro e esguio, investigava os cafés… Mas esse olhar, no fundo, era mais o que as mulheres lançam a uma criatura do seu sexo, formosíssima e luxuosa, cheia de pedrarias…
— Sabe, meu caro Lúcio — dissera-me o escultor, muita vez —, não sou eu nunca que possuo as minhas amantes; elas é que me possuem
~

Aquele corpo esplêndido, triunfal, dava-se a três homens – três machos se estiraçavam sobre ele, a poluí-lo, a sugá-lo!… Três? Quem sabia se uma multidão? … e ao mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse…

Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.


Desejava ser como os outros, mas os outros não desejam ser como eu.

Vou em mim como entre bosques,
Vou-me fazendo paisagem
Para me desconhecer.
Nos meus sonhos sinto aragem,
Nos meus desejos descer.



Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os Ingleses)
É azul de quando em quando.


A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.




Às vezes, em sonhos distraídos, que me surgem das esquinas do pensamento e da emoção, visiono amores. Uma vez me encontro desenrolando um enredo de uma paixão correspondida por uma tuberculosa génio, que havia escrito o seu livro imortal na esperança de não sei quê, sempre, coitada, à janela da casa caiada. Outras vezes é a marquesa, que mora na quinta alta, que, quando me conheceu residente perto de ali onde eu nunca estaria, me atrai a si sem querer; o nosso amor desenvolve-se sem história, e há uma grande conclusão. Outras vezes ainda o romantismo deixa as tuberculosas e a aristocracia, e há uma grande simplicidade nos desejos sonhados: ela foi encontrada entre a vida como uma flor entre ervas altas, colhi-a para o meu lar limpo e lindo, e a minha vida, pelo menos até onde vai o sonho, dorme quietudes entre sinceridades, e tudo é afago. (...)
Mas, de repente, e com um regresso de pesadelo estatelado, desperto do meu romantismo sexual, e coro a sós comigo de fazer com a mente de dentro a mesma coisa que fazem todos os homens. E tenho, como timbre de fidalguia fraseada, a vantagem ridícula de contra. Sim, às vezes, sonho deste modo. Às vezes sou costureira masculina, e tenho príncipes, que são princesas, e muitas vezes são outra coisa, na imaginação inevitável.E então acordado de todo, rio, quase alto, de me ver assim, como se me visse nu por baixo da nudez, como se me conhecesse esqueleto da alma, e uma alegria ponteaguda valsa nos meus devaneios. Que tristeza!


Teias...

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi! Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser, Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Por vezes fêmea. Por vezes monja. Conforme a noite. Conforme o dia. Molusco. Esponja embebida num filtro de magia. Aranha de ouro presa na teia dos seus ardis. E aos pés um coração de louça quebrado em jogos infantis...

...estar no alto da escada de mão e vir uma teia de aranha lamber-lhe a cara. Esta surpresa, para mim, implicaria uma queda inevitável e de consequências imprevisíveis.( Mesmo a falar de teias , eis uma queda...)

Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.



Eu não saberia nunca como ajeitar a minha alma a levar o meu corpo a possuir o seu. Dentro de mim, mesmo ao pensar nisso, tropeço em obstáculos que não vejo, enredo-me em teias que não sei o que são. Que muito mais me não aconteceria se eu quisesse possuí-la realmente? Que eu — repito-lho — era incapaz de o tentar fazer. Nem sequer me ajeito a sonhar-me fazendo-o.(...) É neste livro que, primeiro, lerá esta carta para si. Se não souber que é para si, resignar-me-ei a que assim seja. Escrevo mais para me entreter do que para lhe dizer qualquer coisa... Só as cartas comerciais são dirigidas. Todas as outras devem, pelo menos para o homem superior, ser apenas dele para si próprio.Nada mais tenho a dizer-lhe. Creia que a admiro tanto quanto posso. Ser-me-ia agradável que pensasse em mim às vezes.

A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter


Insânias...

Nunca se viu mais tranquilidade no encontro de duas criaturas que uma à outra se andavam seduzindo.Durante muito dias se espreitaram,e pareceu que a mudez de Natalina era o apuramento da palavra.Pois horas e mais horas se escoavam,trazendo para baixo o seu crespúculo,sem que a um ou a outro entediasse essa tão grande soma de silêncios.

Para a professora,ele personificava a raça dos políticos de esquerda,da populaça que ela sempre odiara e que temia como uma infecção.Naquele momento olhava para Talívio com um ressentimento acumulado ao longo de anos de democracia.
Pelo meio deles ia vivendo Chico Amor com o seu riso que,esse,não era novidade,sendo conhecimento geral que tresloucava.

Era uma memória que pouco lhe ocorria, porque lhe dava sempre a impressão de não lhe pertencer inteiramente,de que a tinha usurpado à vida de outro alguém...

O mais arrepiante era ele nada dizer,nem com a fala,nem sequer com o olhar. Vinha por dentro delas,como um enorme insecto transparente do qual não se sentisse o latejar,e ali ficava,com visível indiferença,nessas horas de sonho que os relógios ainda não aprenderam a medir...



Spinning Knot that is on my heart is like a Bit of light in a touch of dark you got Sneak attack from the zodiac But I see your fire spark Eat the breeze and go Blow by blow and go away What do you say Yeah, You don't know my mind You don't know my kind Dark necessities are part of my design and Tell the world that I'm Falling from the sky Dark necessities are part of my design...

Olho para a gata e sorrio. Penso na tua imagem e, apesar de tudo, ainda sorrio...Insânia?

Tem razão erasmo: A pior das insânias é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos.

Loucuras...
O amoroso apaixonado já não vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus orgãos, podeis dizer com razão que ele enlouquece. As expressões correntes não querem dizer outra coisa: «Não está em si... Volta a ti... Ele voltou a si.» E quanto mais perfeito é o amor, maior a loucura e mais feliz(...) Aqueles que tiveram o privilégio tão raro de tais sentimentos, experimentam uma espécie de demência: falam sem coerência, pronunciam palavras sem sentido e a cada instante mudam a expressão do rosto. Ora tristes, ora alegres, riem, choram, suspiram. Em resumo, estão fora de si. Quando voltam a si, não sabem dizer onde estiveram, se estavam ou não no seu corpo, despertos ou adormecidos, que ouviram, disseram ou fizeram. Só se recordam como que através de um sonho ou de uma nuvem. Sabem somente que foram felizes durante tal loucura. Lamentam ter regressado à razão e sonham poder viver eternamente nesta insânia. E apenas saboreiam um ligeiro gosto da felicidade futura!

Segundo a definição dos estoicos, a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões; mas para que a vida dos homens não seja triste e aborrecida Júpiter deu-lhes mais paixão do que razão...

Sou a insânia da dor e do pensar Sobre o livro de horror do mundo. Por que fui eu, amaldiçoado horror Que me fizeste ser e que eu nem posso Pensar para te amaldiçoar, ou crer Em ti, tão cheio do consciente e mensurante Que o ódio me não cegue para ver Que não sei que tu és para saber Se sequer poderei pensar odiar-te.

How fickle my heart and how woozy my eyes... That you made in your own head...


Come play my game I'll test ya Psychosomatic addict, insane... I'm the pain you tasted Fell intoxicated (Hey, hey, hey)...



Loucura? - Mas afinal o que é a loucura?...

- Um enigma...A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: É a gente de juízo... Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria... são doidos...O meu amigo não pensava como toda a gente... Eu não o compreendia: chamava-lhe doido...Experimentei uma vaga desilussão quando o vi o meu amigo descer do pedestal de bizarria para a banalidade. Nessa banalidade ele ia ser feliz.Eu alegrava-me por consequência..

O meu destino é outro - é alto e é raro. unicamente custa muito caro: A tristeza de nunca sermos dois...
A esculura faz corpos ,a literatura faz almas...se pudéssemos conjugar as nossas duas artes faríamos vidas.

Saber quem uma pessoa é; é conhecer a sua alma, penetrar nos seus pensamentos; saber como pensa, como executa.
Recordar é morrer...Não hei de morrer assim!...A minha alma é diferente de todas as outras almas...

Ah...mas ninguém ama um corpo sem fogo,um corpo de carne mole e repugnante,ninguém beija um rosto sem nariz...Mas o que eu amo é a tua alma e essa, seja feio o teu corpo, será sempre bela...amá-la-ei sempre.

Os homens deviam procurar «entreter» o tempo, e não entreterem-se a si... Eu é isso que faço... Penso no passado, revivo os dias que passaram... Assim, levanto uma barreira entre o passado e o futuro. O futuro é porém um ótimo saltador... salta todas as barreiras, vai-se tornando no presente e eu pouco resultado alcanço... Escreves para não te aborreceres... Ah! como seria feliz se me conseguisse aborrecer!...

Onde existo que não existo em mim?

É só de mim que eu ando delirante - Manhã tão forte que me anoiteceu.
Nada me expira já, nada me vive - Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive.E só me resta hoje uma alegria: É que, de tão iguais e tão vazios, Os instantes me esvoam dia a dia Cada vez mais velozes, mais esguios..

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Só de ouro falso os meus olhos se douram; Sou esfinge sem mistério no poente. A tristeza das coisas que não foram Na minha'alma desceu veladamente. Na minha dor quebram-se espadas de ânsia, Gomos de luz em treva se misturam. As sombras que eu dimano não perduram, Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
As companheiras que não tive, Sinto-as chorar por mim, veladas, Ao pôr do sol, pelos jardins... Na sua mágoa azul revive A minha dor de mãos finadas Sobre cetins...
Ai, como eu te queria toda de violetas E flébil de cetim... Teus dedos longos, de marfim, Que os sombreassem joias pretas... E tão febril e delicada Que não pudesses dar um passo - Sonhando estrelas, transtornada, Com estampas de cor no regaço... Queria-te nua e friorenta, Aconchegando-te em zibelinas - Sonolenta, Ruiva de éteres e morfinas... Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata - Teus frenesis, lantejoulas; E os ócios em que estiolas, Luar que se desbarata... Teus beijos, queria-os de tule, Transparecendo carmim - Os teus espasmos, de seda... Água fria e clara numa noite azul, Água, devia ser o teu amor por mim...
Tapetes doutras Pérsias mais Oriente... Cortinados de Chinas mais marfim... Áureos Templos de ritos de setim... Fontes correndo sombra, mansamente...Lembranças fluídas... cinza de brocado... Irrealidade anil que em mim ondeia... Ao meu redor eu sou Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia...
Há vácuos, há bolhas de ar, Perfumes de longes ilhas, Amarras, lemes e quilhas - Tantas, tantas maravilhas Que se não podem sonhar!..

Sufoco em pensamento ao existir.(...) Sufoco em alma! Suma-se-me a vida E a consciência e eu deixe de pensar De fitar o mistério e sem querer Compreender-lhe o horror! Abra-me o sonho Ou a loucura a tenebrosa porta Que a treva é menos negra que esta luz.

Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes.


E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura. Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores do que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada.

Dei-te a solidão do dia inteiro./ Na praia deserta, brincando com a areia, / No silêncio que apenas quebrava a maré cheia / A gritar o seu eterno insulto, / Longamente esperei que o teu vulto / Rompesse o nevoeiro.

Dou-te a solidão dos meus dias vazios de ti e de mim. Insânia, loucura ou cetim?


I can't get these memories out of my mind And some kind of madness Is starting to evolve, And I I tried so hard to let you go But some kind of madness Is swallowing me whole Yeah I have finally seen the light And I have finally realised What you mean Now I need to know is this real love Or is it just madness Keeping us afloat...

domingo, 25 de dezembro de 2016

Incoerências natalícias...

O pensar, e o pensar sempre
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.



Toda a alegria me gela, me faz ódio, Toda a tristeza alheia me aborrece, Absorto eu na minha, maior muito Que outras. E a alegria faz-me odiar Porque eu alegre já não posso ser, E, conquanto o não queira assim sentir Sinto em mim que a minha alma não tolera Que seja alguém do que ela mais feliz. O rir insulta-me por existir, Que eu sinto que não quero que alguém ria Enquanto eu não puder! Se acaso tento Sentir, querer, só quero incoerências De indefinida aspiração imensa, Que mesmo no seu sonho é desmedida. E às vezes com pensar sinto crescer Em mim loucuras (...) E impulsos que me transem de terror Mas são apenas (...) e passam. Mais de sempre é em mim (quando não penso E estou no pensamento obscurecido) Uma vaga e (...) aspiração Quiescente, febril e dolorosa Nascida do (...) pensamento E acompanhando-o comovidamente Nas inércias obscuras do meu ser.

Toda a sua vida será obedecer a fantasmas e lutar com eles.A sua passividade feminina leva-o à dependência; a sua consciência de homem, à emancipação: mas a sua vontade vacila: nem obedece nem se emancipa. É uma encruzilhada de caminhos que conduzem a nenhures: um fala-só.

Natal, época em que pode ser necessário um certo esforço para ser educado, e não rosnar uma resposta agressiva quando nos brindam com saudações natalícias. O bom / feliz natal e as inócuas boas festas ainda se toleram, agora o "santo natal" pode mesmo despertar sentimentos negativos...Que saturação! Como é possível que, num país de católicos não praticantes, relativamente ao natal , tudo pratique os rituais, religiosamente. Entendo o natal em famílias católicas, daquelas que comungam, vão à missa do galo, que têm filhinhas virgens, a casar vestidas de branco, na igreja mais aparatosa da sua terra; que procriam, como manda a santa madre igreja, só depois do sacramento do matrimónio, e batizam os bem aventurados rebentos que deus lhes deu. ( Sim porque essa gente tem , como se orgulham de proclamar, os filhos que deus lhes deu.) Famílias de ateus, que recusam todos os mitos sobre a virgem maria, gente com responsabilidades intelectuais perante o seu semelhante, a comemorar acéfala e bovinamente o natal, não consigo perceber. Se gostam da família, ninguém os proibe de jantar um cabritinho ou umas caras de bacalhau, noutro dia qualquer...
Natal e as inefáveis reuniões familiares: sempre as mesmas graças entediantes; sempre memórias que são deles e não nossas: " lembras-te quando e quando e quando e quando??? ". Gargalham se a recordação é feliz; silenciam-se , súbita e reverentemente, quando evocam os ausentes falecidos; uma alternância pateticamente emotiva...


Não vivia ele, em grande parte, escravizado a uma espécie de imagem própria criada pelos que o rodeavam? Não se sentia sufocado por esse colete de gesso que, compassivamente, deixara que lhe vestissem? E a verdade era não poder viver sem isso. Precisava de se encontrar feito nas opiniões que a seu respeito mantinham os outros. Sufocava, mas vivia... Eis, contudo, que, imprevistamente, quebrava os laços! Agora, nada a fazer. Para o futuro, a sociedade ver-se-ia obrigada a criar-lhe uma nova imagem. O Elói pacato, honesto e dócil convertera-se num indisciplinado, num indesejável, num perturbador da paz social. Antes assim.(...) Ao menos uma vez na vida Elói tinha sido Elói. Na verdade , que arrebatadora a satisfação de nos sentirmos nós mesmos! E, sem saber como, sente-se percorrido por um olhar de admiração. Experimenta a carícia de um abraço merecido.



Ah! Ser indiferente! É do alto do poder da sua indiferença Que os chefes dos chefes dominam o mundo. Ser alheio até a si mesmo! É do alto do sentir desse alheamento Que os mestres dos santos dominam o mundo. Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias... ouvi só a música, e nem a essa ouvi...Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...Com quem? Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo..

Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui? Quando, do meio destes amigos que não conheço, Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo, Do meio destas vontades involuntariamente Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?! [...] Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento, Que têm realidade na alma, Que não são mitos, são a realidade Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la... Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.[...] Indefinidamente, incoerentemente, À busca de nada, À busca de não buscar, À busca só de partir. À busca só de não ser À primeira morte possível ainda em vida — O afastamento, a distância, a separar-nos de nós. Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém...

Classificação da outra gente, consoante o modo como formula/aceita os votos natalícios...
Os Ativos
A - Católicos praticantes, "Santo Natal";
B - Católicos não praticantes,"Feliz Natal";
C - Os que nem sabem o que são, "Boas Festas";
D- Os pragmáticos, que aproveitam o típico dois em um, "Bom natal e próspero ano novo".
Os Passivos
Não enviam saudações, mas aceitam-nas gentilmente....
Os Intolerantes
Irritam-se com a atividade dos ativos e com a passividade dos passivos...odeiam natais santos, felizes ou, simplesmente, festejados...

Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amesterdão. Hoje, porém, os nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas.

Reflexão não natalícia sobre a tradução invisível, num estado natal...
A virtude principal da literatura - o não ser música - é ao mesmo tempo o seu principal defeito. Tem que ser composta e expressa em uma língua qualquer. Tem, portanto, por mais largamente que essa língua seja falada ou conhecida, que se não dirigir plenariamente à maioria do género humano. Aquilo por onde é mais explícita que qualquer outra arte, por isso mesmo é menos universal que ela.
Ocorre, pois, perguntar por que processo, em literatura, é alguém universalmente célebre, como, ainda que poucos, há relativamente tantos que o são; porque processo são célebres no espaço, e sobretudo no espaço e no tempo, quando forçosamente, e mormente na poesia, que é a espécie literária mais alta, nenhuma tradução, supondo que existe, pode dar conhecimento da obra em sua completa e verdadeira vida.
Porque o certo é que, a maioria de nós, não mentimos nem fingimos quando, ignorantes do grego, sofremos o entusiasmo de Homero, ou, hóspedes e peregrinos no latim, temos o culto de Horácio ou de Catulo. Não mentimos nem fingimos; pressentimos. E esse pressentimento, feito de não sei que misto de intuição, de sugestão e de entendimento obscuro, é uma espécie de tradutor invisível, que acompanha pelas eras fora, e torna universal como a música, a arte dada em linguagem, esse produto de Babel, com cuja queda o homem pela segunda vez caiu.
O que há de mais alto neste mundo fala, quer queira quer não, uma linguagem simbólica, entendida por poucos com a verdadeira chave hermética, a inteligência, entendida por mais com o instinto de que há que entender, que é a intuição. São os primeiros, para o caso da obra literária, os que conhecem como naturais a língua em que ela está escrita; são os segundos os que a não conhecem assim, ou de todo a não conhecem, mas que, não conhecendo a língua, conhecem todavia a obra.
Mas há mais, e mais estranho. Podemos, por intuição, ou o que quer que seja, figurar-nos a alma e a vida de uma obra poética de que não conhecemos nada, ou, no melhor, não conhecemos mais que uma tradução em prosa, que é outra forma, mais complicada, do mesmo nada. Muitos de nós, porém, nos figuramos, com razoável exactidão, a alma e a vida de obras que nunca lemos, por vagas reminiscências de referencias, por obscuras e casuais alusões, ou de obras, ainda, em idiomas estranhos, e de que não há, ou pelo menos nunca lemos, tradução em idioma que no-lo não seja. Aqui o tradutor invisível opera invisivelmente. Já não intuicionamos: adivinhamos. E como se houvesse em nós uma parte superior da alma que soubesse por condição todos os idiomas e tivesse lido por natureza todas as obras.
Afinal, que é uma obra literária senão a projecção em linguagem de um estado de espírito, ou de uma alma humana? E essa obra é o símbolo vivo da alma que a escreveu (compôs), ou do momento dessa alma - uma pequena alma ocasional - que a projectou. Porque não haverá de alma para alma uma comunicação oculta, um entendimento sem palavras, pelo qual adivinhemos a sombra visível pelo conhecimento do corpo invisível que a projecta, e entendemos o símbolo, não por o conhecermos visto, mas por sabermos aquilo de que é símbolo?Quem sabe, até, se em qualquer estado antenatal, não vimos frente a frente a obra em seu espírito, que não no corpo verbal que aqui tem; que, ouvindo aqui só falar nela, desde logo sabemos de que se trata, na sua verdadeira essência e vida; e que, pois, lendo mal, ou nem sequer lendo, não é em nós suscitado, não um entendimento, ainda que intuitivo, mas uma funda e subtil recordação?
Quem sabe, ainda, se, nesse estado antenatal, livres ainda do espaço e do tempo, não vimos já tudo, aqui hoje passado ou aqui hoje futuro, sub specie aeternitatis; e assim, se pudermos dispertar em nós essa anamnesis, não estamos hoje, nós mesmos nossos tradutores invisíveis, senhores inconscientes das obras ainda por nascer no decurso futuro do mundo?
Não sorrio por isso - ou, melhor, não sorrio sempre, nem prontamente - dos que me falam de Shakespeare sem que saibam o inglês - e escolho Shakespeare para exemplo porque ele é dos poetas mais fielmente casados com a índole e as possibilidades do idioma em que compôs, e, como bom marido, com as maneiras e formas de enganar esse idioma. Não sorrio. Quem sabe se, em qualquer incamação anterior, o que me fala não conheceu Shakespeare como aqui foi, não falou com ele como aqui falou, e não está sendo, sem que ele ou eu o saiba, o tradutor invisível de um grande amigo ignorado?


(Humanismo. A «realidade» do Natal é subjectiva. Sim, no meu ser. A emoção, como veio, passou. Mas um momento convivi com as esperanças e as emoções de gerações inúmeras, com as imaginações mortas de toda uma linhagem morta de místicos. Natal em mim!)

Natal. . . Na província neva. Nos lares aconchegados,Um sentimento conserva Os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, Como a família é verdade!Meu pensamento é profundo,Estou só e sonho saudade.E como é branca de graça A paisagem que não sei,Vista de trás da vidraça Do lar que nunca terei!

Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés

Natal de quê? De quem? Daqueles que o não têm? Dos que não são cristãos? Ou de quem traz às costas as cinzas de milhões? Natal de paz agora nesta terra de sangue? Natal de liberdade num mundo de oprimidos? Natal de uma justiça roubada sempre a todos? Natal de ser-se igual em ser-se concebido, em de um ventre nascer-se, em por de amor sofrer-se, em de morte morrer-se, e de ser-se esquecido? Natal de caridade, quando a fome ainda mata? Natal de qual esperança num mundo todo bombas? Natal de honesta fé, com gente que é traição, vil ódio, mesquinhez, e até Natal de amor? Natal de quê? De quem? Daqueles que o não têm, ou dos que olhando ao longe sonham de humana vida um mundo que não há? Ou dos que se torturam e torturados são na crença de que os homens devem estender-se a mão?

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto
.

Quando um ramo de doze badaladas...se espalhava nos móveis e tu vinhas solstício de mel pelas escadas de um sentimento com nozes e com pinhas, menino eras de lenha e crepitavas porque do fogo o nome antigo tinhas e em sua eternidade colocavas o que a infância pedia às andorinhas. Depois nas folhas secas te envolvias de trezentos e muitos lerdos dias e eras um sol na sombra flagelado. O fel que por nós bebes te liberta e no manso natal que te conserta só tu ficaste a ti acostumado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia! Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. E quanto mais na terra a terra me envolvia E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me À beira desse cais onde Jesus nascia... Serei dos que afinal, errando em terra firme, Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


Natal- época de encontros: diferentes e indiferentes; perfeitos e imperfeitos...

Acabou o amor, porque nada se busca, estando tudo encontrado. O que era amado por ser pequeno continua a ser amado por ser pequeno, mas é grande. O que era amado por ser humano continua a ser amado por ser humano, mas é divino. O que era amado por ser imperfeito continua a ser amado por ser imperfeito, mas é perfeito. Tudo tem o que tinha de belo e Deus a mais. Tudo está liberto. Nada era em vão.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

Conselho de turma para reavivar memórias; jantar com os alunos para nada, só porque eles gostam de vir a minha casa e eu gosto que eles venham... Um reencontro de pessoas que têm prazer em estar juntas, não um jantarinho com espírito natalício. Preciso de um onda de afeto, de ouvir rir...

Cantos, risos e flores alumiem
Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
Do caos redivivo.



Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou fazer sentir... Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os seus grandes gatos prontos e cruéis...Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem. Retiro bruscamente do seu caminho os objectos espirituais que lhes vão vincar certos gestos. Pequenas frases sem sentido, metidas nas conversas que supomos estar tendo, afirmações absurdas feitas com cinzas de outras que já de si não significam nada.

Sua inconsciência alegre é uma ofensa Para mim. O seu rir esbofeteia-me! Sua alegria cospe-me na cara! Oh, com que ódio carnal e espiritual Me escarro sobre o que na alma humana Cria festas e danças e cantigas E veste ao horror e íntima dor de ser Esta capa de risos naturais. Com que alegria minha cairia Um raio entre eles! Com que pronto Criaria torturas para eles Só por rirem a vida em minha cara E atirarem à minha face pálida O seu gozo em viver, a poeira que arde Em meus olhos, dos seus momentos ocos De infância adulta e toda na alegria!

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo ... com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender —Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.

O pior que nos pode acontecer é ficarem sem eco as nossas palavras, e os nossos nomes reverterem ao esquecimento, do qual, nesse caso, mal teriam alguma vez saído. O mal é pouco que é nada acontecer. A derrota será não ter havido vitória.

Toda a minha vida tem sido uma batalha perdida no mapa; a cobardia nem sequer foi no campo, onde talvez a não houvesse, mas no gabinete do chefe do Estado Maior, e de ele a sós com a sua convicção da derrota. Não se ousou o plano porque haveria de ser imperfeito; não se ousou torná-lo perfeito, ainda que não pudesse realmente sê-lo, porque a convicção de que não seria perfeito quebrou a vontade com que ele, ainda que imperfeito, sempre se poderia tentar. Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais perfeito que o do inimigo. É que o meu vero inimigo... era aquela mesma ideia de perfeição, que me saía à frente antes que todas as hostes do mundo, na vanguarda trágica de todos os comandos do mundo.

Para mim a humanidade é um vasto motivo de decoração, que vive pelos olhos e pelos ouvidos, e, ainda, pela emoção psicológica. Nada mais quero da vida senão o assistir a ela. Nada mais quero de mim senão o assistir à vida. Sou como um ser de outra existência que passa indefinidamente interessado através desta. Em tudo sou alheio a ela. Há entre mim e ela como um vidro. Quero esse vidro sempre muito claro, para a poder examinar sem falha de meio intermédio; mas quero sempre o vidro.

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.


A indiferença à dor, o aceitamento orgulhoso, posto que passivo, do destino, não hasta para formar um estóico: falta o estoicismo. A busca, embora moderada, dos prazeres, céptica para com outra espécie de beneficios a esperar do mundo, não é suficiente para que o seu culto mereça o nome de epicurista: falta o epicurismo.

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.


Ars moriendi
Um homem vai no seu corpo e subitamente cai. Ouço desmoronar-se a sílica do coração. E ouço também a terra e o ar acolherem os ossos do filho pródigo. Em si este acontecimento não é nada original mas dói. O vento do Outono morde-me os ossos e dói.

Todo da sombra hasta lo invisible.
Tu, que és o presente, lês o passado; eu , que sou o passado, leio o presente... Distanciámo-nos inevitavelmente: a leitura deixou de ser o nosso ponto de encontro...Apesar de invisível, sinto a tua sombra.

Quando a luz da tarde se inclina sobre as pequenas coisas que fiz ou não fiz e começo a lembrá-las como se tivessem alguma importância o que vejo é a sombra das palavras, os elementos que participam na composição do silêncio.

Escrevo em palavras de sombra que ninguém vai ler.Não é grave. Palavras mudas como essas que foram desenhadas pelo vento...Algo se perde,mas quem sabe se é muito ou pouco? Talvez alguém possa alguma vez traduzir a sombra perdida, o rumor de quem partiu numa garrafa lançada ao mar...

As palavras devoram a vida, parasitas sobreviventes na garganta que lateja. Lépidos esquilos que se concentram na língua,na ponta dos dedos e falam do tempo...E falam do sopro e ouvem o riso - O teu riso azul de ave amarrotada pelas unhas do amor...

O acaso é mãe de todas as coisas e multiplica-se em dez mil quedas como se houvesse uma espécie de luz na cascata escura.

Sentado e anónimo na minha casa branca sou uma folha sem memória onde alguém escreve alguma coisa.Que seja breve e pouco.Tenho a alma pequena e sei,depois de tanto esforço. que nada vale a pena.

Será possível um conhecimento independente da experiência e das impressões dos sentidos? Tais conhecimentos são denominados “a priori”, e distintos dos empíricos, cuja origem e a posteriori”, isto é, da experiência.(...) A universalidade empírica nada mais é do que uma extensão arbitrária de validade, pois se passa de uma validade que corresponde à maior parte dos casos, ao que corresponde a todos eles, como p. ex. nesta proposição: “Todos os corpos são pesados."
Blá,blá,blá,blá,blá,blá...
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