Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
Mostrar mensagens com a etiqueta jorge_palma. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jorge_palma. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de dezembro de 2019

Cidades e bairros...

Vendo-te recordei que as cidades mudam mas os campos são eternos. Chamam bíblicas às pedras e aos montes, porque são os mesmos, do mesmo modo que os dos tempos bíblicos deviam ter sido. -Bernardo Soares

Chegados de Budapeste. Dois vultos de noite. Duas manchas escuras sobre uma grande mancha escura. Mas as duas pequenas manchas escuras agem, têm um objectivo; a noite, essa — a grande mancha escura —, tudo indica que não; não tem objectivo.

Os traços, que no primeiro olhar pareciam gerais, tornavam‑se, a cada segundo que passava, indiscutíveis. Haviam encontrado o que procuravam. Era o rosto de Lenine, sem dúvida.
É ele. É ele.

A fealdade ali não entrava, nem o grotesco, nem o nojo, nem a violência, nem o disforme, nem a deficiência: um arquivo de imagens sobre a beleza, fotografias que apanhavam o calmo, o tranquilo, aquilo que no mundo das coisas e dos homens parecia ter uma duração cega, uma duração interminável: uma beleza sem ameaça...


Quando ninguém está a ver, o amor revela a sua barbatana escondida. Alguém que dá festas a um gato nas escadas do prédio, no espelho do elevador alguém que limpa as manchas do vidro. Na estrada, alguém que deixa passar o outro sem reclamar. Alguém que salva o amigo de uma piada sem graça que o faz corar. Atirar gelo para a água dos cães numa tarde de Verão. Cantar a música horrível, preferida da namorada, com uma vontade quase universal. Não meter pimenta no bife. Não ligar o telefone. Não perguntar.

Ainda que os moradores não fossem "artistas ", o bairro, no seu conjunto, era sem dúvida artístico...Tal era a maneira, a única maneira, de conceber o bairro como um todo. Teria de ser considerado não tanto uma oficina de artistas, mas antes como uma frágil, se bem que consumada obra de arte. Aquele que entrasse na atmosfera da sua sociedade sentir-se-ia como se tivesse entrado numa peça de teatro.

Dve ser bom viver neste bairro...

Quando Symesaiu para a rua iluminada pelas estrelas achou-a momentaneamente deserta. Apercebeu-se então( de modo estranho) de que o silêncio que o rodeava não era morto, mas vivo.

Não vê que demos xeque-mate um ao outro? -Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista.Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou polícia.(...) Em resumo,é um duelo intelectual dos dois a sós: a minha cabeça contra a sua.

O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba. Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado. O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.

Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade, Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas A expectativa em grupos...Ninguém sabe nada. Leve rastro de brisa Coisa nenhuma que é real E que, com um afago ou um sopro Toca o que há até que seja...Magnificência da naturalidade. Coração. Que Áricas inéditas em cada desejo! Que melhores coisas que tudo lá longe! Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico Com uma involuntariedade fruste Curto-circuito da proximidade... Ideias ao acaso Como um balde que se entornou — Fito-o é um balde entornado... Jaz: jazo..



Bairro da Liberdade, gente de casebres, pegado com Monsanto, vizinhos do Aqueduto, nem de graça se iria para lá. E, no entanto, a encosta da serra começou a povoar-se. Vinham famílias sacudidas pela miséria, abrigar-se comodamente, por cem mil réis de renda. Três cubículos de madeira velha, telhas em cima de vigas que o cair das chuvadas logo apodrecia, portas estreitas onde o gemido, o pranto ou a alegria eram vizinhos da rua - e tudo isto rodeado de um chão barrento, onde os homens, as mulheres e as crianças deixavam marcados os trilhos do seu caminho. Na cidade, no centro, ninguém lhes dava guarida. Gente pobre, carregada de filhos, enxovalhada na roupa que se traz todos os dias, morar em casas, era uma ousadia dos diabos...

Romance de natália correia, escrito em 1946, que tento ler há um tempo, mas sem sucesso...
Sinopse: Anoiteceu no Bairro revela, além do mais, a cuidada aprendizagem de uma tradição romanesca onde se cruzam as vozes de Dostoievski, aqui invocado, e os caminhos do romance naturalista urbano: nos tipos, na construção dos ambientes e dos retratos, nas situações. E vemos já a futura dramaturga a ensaiar aqui, com sucesso, a arte da representação teatral e da composição do diálogo.
Opinião de um leitor: Manifesto feminista e social: se, por um lado, vemos a completa estupidificação de algumas mulheres, por outro vemos a vontade de luta e de independência por parte de outras. E, numa fase mais avançada, e numa dimensão mais profunda, a luta de um povo, o português, que vive de costas para o futuro e virado para as histórias do passado que já se contam sem convicção. É preciso ter em conta que este romance foi publicado ainda em plena ditadura salazarista, o que certamente tem o seu peso. Mas, há uma enorme ousadia, um atrevimento revolucionário nestas linhas. Há o retrato realista dos podres de pessoas que vivem de aparências, há tudo o que normalmente se quer escamotear. Natália Correia tem aqui um texto que já demonstra muitas das características que haviam de se fazer notar ao longo de toda a sua carreira: na poesia, que incia no ano seguinte com "Rio de Nuvens", no romance, que retoma nos anos oitenta, e no teatro. Este é um romance sem poder suficente para competir com "A Madona" ou sem carisma suficiente para competir com "As Núpcias", mas é, certamente, o mais realista de todos, seguindo tanto uma linha ideológica mais queiroziana, mas tambem um pensamento ligado a Nietsze, e uma estrutura narrativa que remete a Dostoyevski ou Tolstoi.

Quase nada...
Epígrafe: Não posso apresentar a realidade dos factos, mas apenas a sua sombra...
Uma opinião: Jean Daragane, um sexagenário de hábitos reclusos e com memória nula, tem uma vida pacata, isolada e misantrópica, mas conserva a sua estabilidade existencial. Um dia, começa gradualmente a mergulhar num turbilhão de memórias e histórias do passado, que pareciam expulsas da sua vida, passando a ser uma sombra... A sombra permanece e parece ser a base da existência, não importa se estamos a falar da lembrança ou do esquecimento. Lembrar de um nome, de um encontro, de um tempo ou até de coisas da infância, no pensamento de Modiano, não tem a capacidade de alterar nada no presente, afinal o presente é também “quase nada” como marca temporal para poder ser mudado.
A impressão que se tem é que toda a obra gira em torno de um anacronismo dispendioso, ou seja, a confusão de tempos não tem como valia uma espécie de apresentação fragmentária do pensamento, dos sujeitos ou da materialidade do texto, mas sim uma incapacidade de organização do tempo do pensamento para que, este mesmo tempo, seja capaz de propor qualquer mudança nas coisas do mundo. Eis então porque a diferença entre “ser nada” e “quase nada” desloca esta ideia em apenas um ponto: o nada é uma estabilidade – do nada viemos e para o nada iremos, enquanto que o “quase nada” requer uma consciência processual da vida. Ser quase nada é montar uma zona de instabilidade constante. O que, no caso de Daragane, significa enfrentar um passado que, por mais que se busque, continuará nebuloso.
Por isso que o título Para Você não se Perder no Bairro é, de certa forma, irónico. Não há onde se perder, não há o que perder. A perda é dada de antemão e não pode ser recuperada. Trata-se de um livro complicado de ler, na medida em que os géneros não se definem. E, como curiosidade, a cada minuto após a leitura, parece que ele fica melhor.

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém...



O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.
O primeiro homem a pedir permissão para dormir ali na casa de Walser naquela noite foi um dos eletricistas. Depois muitos outros repetiram o pedido.

De súbito uma borboleta. Calvino fecha as janela: não quer que ela saia.
O senhor Swendenborg não faltava a uma única palestra do senhor Eliot.
Era um livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se , hesitando no número a escolher.
Ia começar a entrevista. O senhor Breton sentou-se, puxou do cigarro, fumou um pouco. Ligou depois o gravador.
Fechou a porta por dentro. Depois sempre poderia dizer que estava numa reunião muito importante.
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível.


Num parêntesis: é interessante pensar que o verbo sentir se refere à acção que fica depois de nos roubarem todas as outras acções...Sentir, poderíamos dizer, é a última hipótese do corpo.


Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estancam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Conversa acabada... Despedida

A veces siento que es el momento Entonces me preparo Pero al oír vos estas ausente otra vez Así que mirá, mejor lo dejamos Se exactamente a donde queres llegar Tanto tanto te conozco... uma mesa posta para um chá discreto — mero pretexto para conversas inteiramente estéreis — teve sempre para mim qualquer coisa de ente e individualidade com alma. Forma, como um organismo, um todo sintético! Que não é a pura soma das partes (que o compõem)

A toda gente que vem lá das tuas bandas eu pergunto por ti, procuro saber como vais, onde e com quem costumas passar o tempo. Não podes enganar‐me: estou na tua companhia. Vive como se todos os teus actos me fossem relatados, ou melhor, como se eu próprio assistisse a eles. Daquilo que oiço dizer de ti sabes o que me dá mais satisfação? É não ouvir dizer nada, uma vez que a maior parte daqueles que eu interrogo ignora o que tu andas fazendo. Aí está uma coisa salutar, não te relacionares com pessoas de índole e objectivos distintos dos teus.

Ao incitar‐te insistentemente ao estudo da filosofia estou a trabalhar em meu proveito: é que pretendo ter um amigo [...] Apressa‐te, pois, enquanto podes ser‐me proveitoso, não vá a tua aprendizagem redundar em benefício de outro qualquer! Eu já estou a antever o resultado, já imagino como nós dois havemos de ter uma só alma, e sei que o que a minha idade já perdeu em vigor poderá recebê‐lo da tua...

I've been trying hard to reach you 'Cause I don't know what to do Oh, brother, I can't believe it's true I'm so scared about the future And I wanna talk to you Oh, I wanna talk to you...

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


Nada nem ninguém preenche o vazio que me ficou...



Familiar conversation
Disappointment, my old friend,
I had forgot thou wert with me.
Forgive me. I did half pretend,
Deceiving ill my misery,
That thou hadst gone. Forgive me thou.
Thou old true friend, thou'rt with me now!
Despair, my old companion sure,
Thou too - though not forgotten quite -
Yet for a moment I had fewer
Thoughts of thee - somewhat of respite.
Entirely to forget thee were
Impossible. Friend, thou art here!
And thou, old comrade, Solitude,
Bare of affection and of hope,
Thou twin with me - I were quite rude
Were I to omit by thee to stop
And play the game of cares and fears?...
Why come ye to shame me, oh tears?



Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vós comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós vos fostes, tudo se tornou tristeza, nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis. E porque tudo ainda mais me magoasse tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de saber para que parte de terra íeis, que descansaram meus olhos em levarem para lá a vista. Tudo me foi tirado, no meu mal nem remédio nem conforto houve aí. Para morrer asinha, me pudera isto aproveitar, mas para isto não me aproveitou. Inda convosco usou desaventura algum modo de piedade em vos alongar desta terra, pois que pera não sentirdes mágoas não havia remédio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou falando e não vejo ora eu que leva o vento as minhas palavras, e 'e que me não pode ouvir a quem falo! Bem sei que não era eu para isto a que me quero ora pôr, porque escrever algua cousa pede alto repouso, e a mim as minhas mágoas oras me levam para um cabo, oras para outro, e trazem-me assi, que me é forçado tomar as palavras que me elas dão, porque não são tão constrangida servir ao engenho como à minha dor.


Meu amor adeus Tem cuidado Se a dor é um espinho Que espeta sozinho Do outro lado Meu bem desvairado Tão aflito Se a dor é um dó Que desfaz o nó E desata um grito Um mau olhado Um mal pecado E a saudade é uma espera É uma aflição ...Vem-me ver amor De mansinho Se a dor é um mar Louco a transbordar Noutro caminho Quase a espraiar Quase a afundar ...E a saudade é uma espera É uma aflição...

Ophelinha:
Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa — o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?
Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.
O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou. (...)
Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.


Meu Querido Amigo,
Estou muito preocupado, muito enervado com o seu inexplicável silêncio de há mais de 15 dias! Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa de gravidade? Não sei —e isso ainda mais me preocupa. Em todo o caso, sabendo o meu querido Pessoa como a incerteza é dolorosa para mim parece impossível que não me escrevesse ainda. Creia que fez muito mal em proceder assim — fossem quais fossem as circunstâncias. Eu não me zango com você por ainda não ter recebido o dinheiro apesar da falta que ele me faz. Zango-me apenas — e muito, pela sua inadmissível falta de notícias. Assim não lhe posso desculpar o seu silêncio. Creia que o meu querido Amigo me tem feito mal —e, sobretudo, tem sido injusto para comigo. De resto o meu afecto por si é grande em demasia para eu não esquecer tudo isto. Mas, por amor de Deus, em nome justamente desse afecto —dê-me notícias suas (se possível por telégrafo) logo que receber esta carta. Imploro-lhe como um dever. Ofender-me-ia muito se continuasse sem me dar notícias suas. Imploro-lhe!...




E, agarrada a ervas e raízes, içou-se para o carreiro. Mas o carreiro tinha desaparecido. Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia, onde nem os seus pés cabiam. Um rebordo sem saída. Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. Sentia que as erva se as raízes a que se segurava cediam lentamente com o peso do seu corpo. Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.
Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis. (...)
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto.

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio.Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.

Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.(...) Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.


«Vivo no passado. Agarro em tudo quanto me sucedeu, e componho-o. De longe, assim, as lembranças não nos doem e por um pouco não nos deixamos enganar. A nossa história é toda bastante bela. Dou-lhe uns jeitinhos. E pronto!, fica uma sequência de momentos perfeitos. Nessa altura fecho os olhos e tento imaginar que estou a viver ainda dentro deles. Disponho também de outras personagens É preciso sabermos concentrar-nos. Queres saber o que li? Os Exercícios Espirituais, de Loyola. Foram-me muito úteis. Há uma maneira de colocar primeiro o cenário e de fazer aparecer depois as personagens. Consegue-se ver», acrescentou ela com um ar mágico.
«Sim, mas, a mim, isso não me satisfaria nada», digo eu.
«E pensas que, a mim, me satisfaz?»
Ficamos um momento silenciosos. A tarde cai; mal distingo a mancha pálida do rosto de Anny. O seu vestido preto confunde-se com a sombra que invadiu a casa. Maquinalmente, agarro na chávena, onde há ainda um resto de chá, e levo-a aos lábios. O chá está frio. Sinto vontade de fumar, mas não me atrevo. Tenho a impressão penosa de não termos mais nada a dizer um ao outro. Ainda ontem pensava em tantas perguntas a fazer-lhe: onde tinha ela estado, que tinha feito, quem tinha encontrado... Mas isso só me interessava na medida em que Anny se tivesse entregado com todas as veras do coração. Agora, nenhuma curiosidade me resta: todos os países, todas as cidades por que ela passou, todos os homens que a cortejaram e que ela talvez tenha amado, tudo isso era inconsistente, tudo isso, no fim de contas, lhe era tão indiferente! Pequenos clarões de sol à superfície dum mar escuro e frio. Anny está à minha frente, há quatro anos que não nos víamos, e não temos mais nada a dizer um ao outro. «Agora», diz ela subitamente, «tens de te ir embora. Estou à espera duma pessoa.»


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço (...)
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver(...)
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser(...)

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Hqt x sefee hithi...Analter ticro qdwh du wrscrib mir,shanaofmbio...


This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end...

Atque in perpetuum, amice meo, ave atque vale!

Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo de espiral da escada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.



Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloé, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.


Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!

Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.(...)
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...


Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!


terça-feira, 1 de março de 2016

Fragilidade e outros problemas...

I'm afraid of day and night I'm breaking into thousand pieces Hands are touching me, again and again And I can't defeat myself Is this only a dream? Please tell me why...



Ela canta, pobre ceifeira... É, afinal, uma ceifeira que nem cantar consegue...

Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.




Põe-me o braço no ombro Eu preciso de alguém Dou-me com toda a gente E não me dou a ninguém Frágil Sinto-me frágil Faz-me um sinal qualquer Se me vires falar de mais Eu às vezes embarco Em conversas banais Frágil Eu sinto-me frágil...


A dureza, a fragilidade, a maleabilidade são os mesmos fenómenos, são factos justapostos a factos, e ficamos encerrados num círculo vicioso: quebra-se porque é frágil, é frágil porque se quebra. Nada explicamos...

Tu não estás só - não me sentes, real amiga imaginária? Distribui a dor que te deixei pelos famintos de dor, meu querido, pelos que não experimentaram ainda a mobilização do sofrimento. Faz-me existir nesse trabalho de conferir beleza aos dias póstumos. Havia uma criança abandonada chorando por detrás da porta, no centro da nossa cidade. Havia uma criança que acabou por morrer de fome, arranhando a porta, sem que os vizinhos, ouvindo esse choro incessante, se movessem. E se nessa criança habitasse o segredo derradeito da teoria quântica? Há tão poucas pessoas cujo talento possa salvar-nos - e nem sequer sabemos descobri-las e salvá-las. Consolamo-nos na beleza imediata das coincidências, escapa-nos a beleza catastrófica dos acasos.

Ninguém mais vai estar à minha espera, não terei de me disfarçar de desculpas, não voltarei a iludir ou desiludir ninguém. Como sabes, eu vivo por relâmpagos, contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. Há tantas coisas que nunca te disse – e dizias tu que eu falava demais. Flutuo por este noante em busca dessas palavras a menos, atravessadas entre nós como um longo corredor de prisão. (...) não te perdoo o que não soubeste saber de mim. (...) não me perdoo o que não soube verter-te de mim. Tanto que eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira como um chocolate de leite – por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?.

Consolamo-nos na beleza imediata das coincidências, escapa-nos a beleza catastrófica dos acasos. Ainda terei tempo para te esquecer? O teu riso em carrossel, é esquecível? Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua. Tão efémeras, as cumplicidades radiosas. Terei saudades de ti, ou da inocência que tinhas quando te conheci? Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável.Os seres que criáramos precisavam de nos matar para sobreviver. E nós deixámo-nos matar, porque está na natureza do amor estilhaçar-se sem ruído, desfazer-se em vidros e pesar-nos. Tudo o que tocamos se desfaz. Depois fica-nos o vício da decomposição, o perfume intoxicante das coisas mortas.
Encontrámo-nos demasiado cedo numa civilização descrente de encontros definitivos. Entendíamo-nos inteiramente.
Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos. Durante muitos meses apenas nos víamos. Não nos olhávamos. Até que veio ter connosco aquele momento. Sabes que começo a esquecer o som do teu riso? Sei tão pouco de ti. Foi sem querer. Se deixei de te comover, de te divertir, de te inspirar, (...) Foi sem querer que te copiei, para não te perder, para não perceberes que eu se calhar não era capaz.


Tive Prazer a durar Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir Gozar.

Acontece-me às vezes, e sempre que acontece e quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço que ambiciona, não o deixar de existir — o que pode ser ou pode não ser possível —, mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser.
Creio entrever, por vezes, nas especulações, em geral confusas, dos índios qualquer coisa desta ambição mais negativa do que o nada. Mas ou lhes falta a agudeza de sensação para relatar assim o que pensam ou lhes falta a acuidade de pensamento para sentir assim o que sentem. O facto é que o que neles entrevejo não vejo. O facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.(...) Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo «infelizmente» porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição. Mas também nenhuma dor das que esfacelam a alma consegue ser tão realmente dor como a dor de dentes, ou a das cólicas, ou (suponho) a dor de parto. De tal modo somos constituídos que a inteligência que enobrece certas emoções ou sensações, e as eleva acima das outras, as deprime também se estende a sua análise à comparação entre todas.
Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.

Existir é tão fácil:só há meia dúzia de problemas...

1- Desaparecimento do tempo...

Necessidade do tempo em que muito tempo era um, dois,três dias... O tempo deixou de ser medido em segundos, minutos, horas e dias. Estas unidades mínimas deixaram de signficar, o tempo só é mensurável em meses: um, dois,três... arrastando-se lenta e dolorosamente. Os meses tornar-se-ão anos: um, dois,três...e tudo começará a esvair-se, a perder sIgnificado, transformando-se numa memória difusa. O presente e o futuro tornam-se passado, convergindo numa amálgama opaca, e o tempo deixará de existir...
...eu não tenho problemas tenho só mistérios.

2- Insolubilidade...

(...) esta melancolia sombria, acumulada em mim por um pensamento constante, um pensamento muito acima do meu alcance: que tudo na vida não tem importância. Sim, este pensamento ocupa-me há já muito tempo, mas a convicção completa só apareceu em mim, no ano passado. Tudo é sem importância, eis a verdade. Existirá o mundo? Ou não haverá nada em nenhuma parte? E tive a revelação de que não há nada à minha volta. Parecia-me, no entanto, que até essa altura estive rodeado por seres estranhos a mim, mas compreendi que eram aparências infrutíferas. Nada existiu, nada existe, nada existirá. Deixei logo de me irritar com os outros e de me ocupar deles. Palavra! Até chocava com os transeuntes, de tão alheado que estava. Contudo, alheado por quê? Tinha deixado de pensar. Tudo me era indiferente. Ainda se eu procurasse resolver os grandes problemas! Eu não resolvia nada, os problemas bloqueavam-me em vão; tudo se tornou para mim sem importância, e todos os problemas se dissiparam.


Todos os problemas são insolúveis. A essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar um facto significa não haver um facto. Pensar é não saber existir.

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida. Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.

O pasmo que me causa a minha capacidade para a angústia. Não sendo, de natureza, um metafísico, tenho passado dias da angústia aguda física mesmo, com a indecisão dos problemas metafísicos e religiosos... Vi depressa que o que eu tinha por a solução do problema religioso era resolver um problema emotivo em termos da razão.

Às vezes passam Em mim relâmpagos do pensamento Intuitivo e aprofundador Que angustiadamente me revelam Momentos dum mistério que apavora;(...) E eu talvez à ternura outrora afeito (Se o pensamento me não dominasse) Sinto — como não sei — a alma mirrada E pálida no ser. Não é apenas, (...), o pensamento Que assim me traz; é o pensamento fundo, A consciência funda e absoluta De todos os problemas minuciosos Do mundo, transsentidos no meu ser.

FAUSTO: (só) Em todo os raciocínios em que vivo Aquele (...) nunca fizera. Como aquelas palavras me feriram! Sim, por que ter orgulho — para quê? Mas — ah, quantos problemas e mistérios Essas palavras dum inconsciente Me abrem no pensamento. Que intenso Atropelar de (?) e teorias De raciocínios, conclusões d'espírito Mal geradas dentro em mim, Não poder apagar este tormento; Não poder despegar-me deste ser; Não poder esquecer-me desta vida...

3- Ser...

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte), em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista. Não tenho uma ideia de mim próprio; nem aquela que consiste em uma falta de ideia de mim próprio. Sou um nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da minha riqueza íntima. A única tragédia é não nos podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.

Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou.(...) Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado.(...) Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro.(...) O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.


4- Sermos...

O problema que nos confronta é três problemas: como transformar o indivíduo português? como transformar o estado português? como transformar a nação portuguesa?
Estes problemas têm que ser aceites na base da sua realidade. Quando se trata de transformar o indivíduo português, trata-se de transformar o indivíduo português actual, e não um indivíduo português abstracto, que se chama, em português, Ninguém. Quando se trata de transformar o estado português trata-se de extrair um estado português da situação de ditadura militar, que é a que existe, e não de outra qualquer coisa que não exista, e de onde, portanto, se não pode extrair coisa alguma. Quando se trata de transformar a nação portuguesa, trata-se de construir a mentalidade nacional sobre os alicerces que há e não sobre os alicerces que já aqui não estão, ou sobre os que hão-de vir, que é a maneira estúpida de dizer os que naturalmente nunca vêm.
Temos pois que estudar a maneira de transformar o português presente em ente humano; de transformar o estado português, na sua presente forma transitória, em estado constituído e certo; de dar à nação portuguesa uma orientação definida, partindo de onde estamos, e não de outra parte qualquer.Este problema complexo torna-se simples se nos lembrarmos de olhar para ele, e não para outro lado do espaço social.É no interregno que nascem os Reis. Não se trata, infelizmente, de reis gente, mas de reis metáfora.


5-Ler / Traduzir ...

O leitor da obra de Nietzsche é ele mesmo constrangido a abordar os textos deste pensador de maneira tateante: se num primeiro momento a leitura parece impossível de dominar, a segunda parte da contribuição lembra que uma leitura metódica pode ser considerada, leitura que não pode, todavia, pretender absorver totalmente as dificuldades colocadas pelo pensamento de Nietzsche. O Versuch nietzschiano conduz, por conseguinte, a construir um Versuch do leitor em um caminho que, de forma mais ampla, convida a considerar a obra de Nietzsche como problema ("als Problem").
De maneira radical e inovadora, Nietzsche faz do pensamento um Versuch, isto é, uma filosofia concebida como "ensaio", "tentativa", ou "experimentação", ao contrário de toda a pretensão dogmática. A verdade imutável e, então, fixa, é substituída por Nietzsche por um estudo constantemente renovado, diferenciando -se sempre de um estado precedente da pesquisa, daí a emergência de uma obra abundante. É verdade que o nome "Versuch" poderia ser interpretado como uma dívida de pensadores tão diversos como Montaigne e Emerson, dois autores de "ensaios" famosos, porém, mais largamente, Nietzsche considera a própria vida como Versuch.(...)
Nestas condições, o Versuch seria o pensar enquanto processo por meio do qual uma proliferação recorrente de ideias se traduz em ato, até mesmo uma contingência residual, em que a manifestação constante do niilismo sobre a cena histórica impede esta concretização, ou seria o ponderar enquanto uma multiplicação de interpretações em potência, à maneira do funcionamento de um tipo de "laboratório" em que a razão de ser residiria definitivamente na produção de hipóteses múltiplas, estimulantes, verdadeiramente fecundas no que diz respeito ao plano intelectual, no sentido de um impulso incessante do questionamento, nem sempre plenamente aplicável? Parece, assim, que o alcance efetivo do método filosófico de Nietzsche é o próprio pensar como problema, manifestação da vida como Versuch, porém, o filosofar nietzschiano conduz necessariamente a um Versuch do leitor a ser esclarecido.

Opinião de Raquel Costa, "a gaja":

"Não se trata efectivamente de uma leitura fácil – quer no que diz respeito à forma, quer ao tom, quer ao conteúdo. Exige algum espírito de sacrifício, alguma luta interior, resistência para sobreviver-lhe. Essencialmente, exige paciência e dedicação para lhe captar todas as nuances, já que a grande riqueza do texto reside também no estilo, e na sua construção complexa como uma sinfonia.
Trata-se sem dúvida de uma obra-prima da literatura do século XX, mas acima de tudo também da grande obra da vida de Malcolm Lowry, ora subtil ora descaradamente autobiográfica; aquela na qual não só o autor se recriou e sublimou enquanto personagem, mas em que também exibiu a sua mestria, inigualável, no domínio da narrativa através da própria forma da linguagem. Obra sucessivamente reconstruída e burilada durante quase 10 anos, Debaixo do Vulcão resulta naturalmente num portento que desafia os nervos de qualquer um. Para mais, conheço poucos autores com tão afirmada auto-consciência do processo criativo e tão justo juízo crítico sobre os elementos de estilo que ganham forma num romance escrito por si. Aquilo que, em suma, caracteriza o estilo de Debaixo do Vulcão é a marca de uma espécie de discurso desordenado, sobrepondo camadas sobre camadas sobre camadas, tornando muito difícil ao leitor a apreensão em pleno de toda a intrincada arquitectura da narrativa: aquilo que o próprio Lowry reconhece como sendo a marca de quem, querendo dizer seis coisas em simultâneo, se recusa à solução de dizê-las em sequência, pelo que abre parêntesis dentro de parêntesis dentro de parêntesis, como se o texto se abrisse e revelasse ao leitor não segundo uma estrutura linear simples, mas antes como um conjunto de bonecas russas encontradas sucessivamente umas dentro das outras.Além disso, encontramos ainda outro pormenor de estilo muito interessante: esse discurso desordenado, elaborado por meio síncopes, interrupções, mudanças de direcção, avanços e recuos, acaba por imprimir na forma do texto a marca ilustrativa das deambulações mentais desordenadas e voláteis de um alcoólico irrecuperável, que é em simultâneo o autor/narrador e a figura da personagem do Cônsul, na qual este se projecta. Por esse motivo, a leitura empenhada de Debaixo do Vulcão induz um certo espírito de desequilíbrio no leitor – acabamos por sentir-nos também vagamente embriagados. Agora percebo então que a leitura não deveria arrastar-se durante três meses, mas antes é tarefa para ser repetida até à coragem de o devorar de um fôlego só.Lowry projecta-se na figura do Cônsul, o alcoólico irrecuperável, que encontra na bebida uma forma muito particular de lucidez; o único estado em que se acha capaz de raciocinar com clareza (ainda que muito mais lentamente) e enfrentar a desordem natural das coisas. A mulher do Cônsul, Yvonne, surge como uma mistura das duas esposas de Lowry, Jan Gabrial – que evoca o lado sombrio do casamento, o fracasso, a depressão, e em última instância o abandono e o refúgio violento no álcool – e Margerie Bonner – aquela através da qual nos deixa entrever uma porta para a felicidade, um sonho vago de uma casa à beira-mar, um vislumbre da salvação, a redenção. As relações entre as personagens, as várias dimensões do enredo, o próprio fio condutor da narrativa, nunca chegam a ser revelados de forma clara e directa – o que encontramos são fragmentos de uma história que nos chegam, frequentemente desconexos e desencontrados de um sentido aparente, segundo a perspectiva, em reflexão, das várias personagens. Ainda assim, esta espécie de mosaico que forma o quadro incompleto do que é o romance que Lowry quis escrever, permite construir uma rede subtil de deduções, através das quais é possível preencher alguns dos espaços em branco da história.

A narrativa desenrola-se ao longo de 12 capítulos, que correspondem (ainda que não linearmente) às 12 horas em que decorre o tempo real da acção. Ainda assim, o autor logo nos confunde: o diálogo de Jacques Laruelle com o Dr. Vigil no Dia dos Mortos de 1938 corresponde ao final da história, os acontecimentos de que falam são ainda absolutamente obscuros para nós; o capítulo seguinte procede à analepse e reencaminha-nos para o Dia dos Mortos de 1937, 12 meses antes – uma vez mais, a simbologia do número de capítulos não surge ao acaso. Poucos são os factos inequivocamente enunciados. Sabemos efectivamente que a mulher do Cônsul o abandonou, mas desconhecemos a ordem de eventos que conduziram a esse desfecho; podemos, por exemplo, intuir as traições da esposa do Cônsul, que terão induzido este ao alcoolismo desenfreado, ou teria sido antes o alcoolismo desenfreado do Cônsul, que terá conduzido a mulher a procurar outros homens…
A ambiguidade é quase sempre dominante. Aquilo que é claro, nesta espiral decadente em que embarcam, de um modo ou de outro, todas as personagens, é a impossibilidade de determinar com precisão o que terá originado o impulso destrutivo. A figura do Cônsul é arquetipal, o homem que se considera perdido e, por conseguinte, sem remédio: o abandono da mulher fá-lo sofrer, ama-a e deseja tê-la de volta; por outro lado, já se encontra demasiado distante da possibilidade de uma reconciliação, já não tem esperança, o amor não se basta sequer a si mesmo. Assim, incapaz de viver sem Yvonne, mas também já incapaz de saber como aceitá-la de volta, o Cônsul encontra-se perdido num limbo, um oceano turbulento, em que apenas a bebida parece impedi-lo de se afogar. Temos enfim o retrato de uma descida aos infernos, implacável e sem recurso. A simbologia é permanente: o barranco, ou precipício, evocado logo nas primeiras páginas do livro tem na região precisamente o nome de “Buraco do Inferno”; e é também do inferno que nos fala o autor no já referido
prefácio, quando descreve a simbologia mística implícita em Debaixo do Vulcão...

Parece-me arriscado dizer-se se o livro vai vender bem ou não. Mas existe qualquer coisa de intrínseco no destino da sua criação que parece indicar que vai vender-se durante muito tempo.

A edição portuguesa, da Relógio d’Água, é inequivocamente a mais bonita e mais cuidada do mundo. Já a opção de aproveitar a tradução já existente, da Livros do Brasil, a meu ver, é discutível. Nem me vou alongar a apontar a infinidade de gralhas resultantes de uma revisão gráfica nitidamente deficiente. Mas à revisão da tradução no mínimo falta-lhe brio. E se é mais ou menos aceitável que uma gralha possa não perturbar a natureza do conteúdo lido, já não é tão aceitável que no texto se deturpe, modifique e até suprima parcialmente aspectos do texto original. Dois exemplos:

1) A tradutora não percebe a referência a “The Fall of the House of Usher” de Edgar Allan Poe e traduz «darkness had fallen, like the house of Usher» para «Como na casa de Usher, a escuridão acabara por se apossar de tudo». Já estamos a perder o sentido. Numa obra tão intimamente comprometida com as possibilidades de riqueza simbólica da língua, isto mortifica o espírito da coisa.

2) Na página 42 podemos ler, em português: «Embora as luzes houvessem voltado ao teatro e à cantina, nem por isso o espectáculo recomeçara. Laruelle encontrou-se sozinho, a uma mesa de canto que vagara na Cervecería XX, diante de mais um cálice de anis. Mantinha-se muito direito, com o livro das peças isabelinas fechado em cima da mesa a olhar para a raqueta encostada às costas da cadeira, que tinha em frente e que reservara para o Dr. Vigil.»
Já na página correspondente em inglês, lemos: «The lights had dimly come on again both in the theatre and the cantina, though the show had not recommenced, and M. Laruelle sat alone at a vacated corner table of the Cervecería XX with another anis before him. His stomach would suffer for it: it was only during the last year he had been drinking so heavily. He sat rigidly, the book of Elizabethan plays closed on the table, staring at the tennis racket propped against the back of the seat opposite he was keeping for Dr. Vigil.» Não sei o que terá acontecido ao estômago do pobre Laruelle durante a tradução, mas é certo que se perdeu. Eu só perguntaria por que carga de água… "

Gosto de prefácios. Por vezes não continuo a ler e é possível que neste caso os meus leitores não continuem. Se assim for, este prefácio não terá atingido o seu objectivo,que é de tornar muito mais fácil a compreensão de Debaixo do vulcão. De qualquer modo , leitor, não consideres estas páginas com uma afronta à tua intelgência,pois elas mostram,pelo contrário,que em certas ocasiões o autor põe em causa a sua. Este romance tem como tema as forças que habitam o interior do homem,e que o levam a assustar-se consigo próprio. O tema é também o da queda do homem,o dos seus remorsos,e do seu incessante combate para alcançar a luz,sob o peso do passado,ou do seu destino. A alegoria é a do jardim do Éden, e o jardim representa este mundo, de que corremos o risco de ser expulsos,talvez mais agora do que na altura em que escrevi o livro.Num desses muitos planos de significação,a bebedeira do Cônsul deve simbolizar a bebedeira universl durante a guerra,ou durante o período que a antecedeu,ou em qualquer altura. Ao logo dos doze capítulos o destino do meu herói pode ser considerado em relação com o destino da humanidade.(...)

6- Viver ...

Desde Shakespeare e Schopenhauer, até Marx, Sartre e Becket, de modo muito mordaz e bem humorado, Eagleton explica até que ponto se tornou especialmente problemático, na era contemporânea, encontrar um sentido para a existência. Em vez de de sermos honestos e confessarmos que a desorientação domina as nossas vidas, refugiamo-nos num sem fim de atividades, cada qual a mais disparatada...
Uma perpetiva engenhosa e estimulante sobre a mais pertinente das interrogações: qual é sentido da vida?

The philosophy of language can be applied to questions of any kind, how meaning can be understood and applied, and where the limits of questioning lie ...



Made a meal and threw it up on sunday, I've Gotta lot of things to learn Said I would and I'll be leaving one day Before my heart starts to burn So what's the matter with you? Sing me something new Don't you know? The cold and wind and rain don't know They only seem to come and go away...

domingo, 24 de janeiro de 2016

Talvez lucidez...

REVER




Cansa sentir quando se pensa.

Uivemos, disse o cão. (Preferiu miar...)

Os comentadores que nas várias televisões acompanhavam o processo eleitoral,dando palpites à falta de dados seguros de apreciação,inferindo do voo e do canto das aves a vontade dos deuses, lamentando que já não esteja autorizado o sacrifício de animais para nas suas vísceras ainda palpitantes decifrar os segredos de cronos e do fado,despertaram subitamente do torpor em que as perspectivas mais do que sombrias do escrutínio os haviam feito soçobrar.

o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno conselho do governo, a pronunciar tamanha barbaridade antidemocrática, deveria ter vergonha, nem parece ministro da justiça, explodiu o da defesa, Pergunto-me se alguma vez terei sido tão ministro da justiça, ou de justiça como neste momento

O cão veio a correr lá de dentro ,fareja e lambe a cara da dona,depois estica o pescoço para o alto e solta um uivo arrepiante que outro tiro imediatamente corta.Então um cego perguntou,Ouviste alguma coisa,Três tiros respondeu o outro,Mas havia também um cão aos uivos,Já se calou,deve ter sido o terceiro tiro,Ainda bem, detesto ouvir os cães a uivar.

Coachem, cacarejem: nem para uivar têm lucidez...

Decididamente, fomos, somos e seremos um povo errado. Um povo que não encontra nem o seu destino, nem os seus homens.

Lucidez - s.f. Estado da pessoa lúcida, que compreende bem, que expressa as suas ideias com clareza, que utiliza perfeitamente as suas faculdades mentais; Clareza; grande percepção; capacidade para entender ou expressar -se claramente; Claridade; Transparência; aquilo que admite a passagem da luz. Período de sanidade entre momentos de insanidade ou de confusão mental.

Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos (delirantes sistematizados) justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.

Há ideias, por exemplo as vagas, que não comportam uma apresentação lúcida. Há sentimentos, por exemplo os desmarcados, que não admitem uma manifestação sóbria. Há pontos em que nem é útil, nem possível ser conciso, como aqueles em que a explanação é de um assunto complexo, ou a demonstração de um assunto controverso, onde as objecções hão-de ser previstas e respondidas, e as diversas formas da interpretação revistas e classificadas.bEu não defendo a falta de lucidez, a falta de sobriedade, ou a falta de concisão. Quero, porém, indicar que essas qualidades, sendo naturais no pagão, não são essenciais nele. Era preciso que não houvesse confusão neste respeito.

CARNAVAL
A vida é uma tremenda bebedeira. Eu nunca tiro dela outra impressão. Passo nas ruas, tenho a sensação De um carnaval cheio de cor e poeira... A cada hora tenho a dolorosa Sensação, agradável todavia, De ir aos encontrões atrás da alegria Duma plebe farsante e copiosa... Cada momento é um carnaval imenso Em que ando misturado sem querer. Se penso nisto maça-me viver E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça Dentro a quem quer parar um só momento Em ver onde é que tem o pensamento Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça...(...) Uma pândega esta existência toda... Que embrulhada se mete por mim dentro E sempre em mim desloca o crente centro Do meu psiquismo, que anda sempre à roda... E contudo eu estou como ninguém De amoroso acordo com isto tudo... Que tipos! Que agradáveis e antipáticos! Como eu sou deles com um nojo a eles! O mesmo tom europeu em nossas peles E o mesmo ar conjuga-nos Tenho às vezes o tédio de ser eu Com esta forma de hoje e estas maneiras... Gasto inúteis horas inteiras A descobrir quem sou; e nunca deu Resultado a pesquisa...


Memórias de pensar vivem em mim Desordenadamente desconexas Num atordoamento do meu ser. A lucidez horrorosa d'outrora (E outrora era ontem) já não tenho; Mas sinto-a, não sei como, nesta surda Nocturna confusão aglomerada De (...) e porções de pensamento.

Cansa sentir quando se pensa. No ar da noite a madrugar Há uma solidão imensa Que tem por corpo o frio do ar. Neste momento insone e triste Em que não sei quem hei de ser, Pesa-me o informe real que existe Na noite antes de amanhecer.


Põe-me o braço no ombro Eu preciso de alguém Dou-me com toda a gente E não me dou a ninguém Frágil Sinto-me frágil



Dá-me um abraço que seja forte E me conforte a cada canto Não digas nada que nada é tanto E eu não me importo Dá-me um abraço...Não quero mais nada, só o silêncio Do teu abraço

Só uma palavra me devora Aquela que meu coração não diz...

E tremo a mezza state, ardendo inverno - Tenho frio e ardo em febre!


Triunfo da dor. Traição dos olhos, dos ouvidos, da pele. É preciso caminhar, toda a vida, no meio deste deserto. Ver, ouvir. Ouvir, ver. Comer, Rir. Falar, fumar, beber. Cheirar. Procriar. Escrever. Respirar. Ter dores. Sangrar, tremer. Encolerizar-se. Sofrer. Gritar, dormir, esperar. O cansaço está em todo o lado. Não há meio, não, não há meio de lhe escapar. É preciso sofrer, ter calor, ter frio. Acariciar. Gozar. Compreender, compreender sem parar. Todos os dias. Assim, todos os dias, sem excepção. Urinar. Saborear. Deixar-se levar pelas palavras inúteis, adoptar os ritmos, os hábitos. Procurar as frases, estender os ouvidos e os olhos, estender a pele. Fingir amar, amar, talvez. Tudo isto, mesmo por nada; porque nem sequer há meio de poder recorrer ao nada para determinar a vida; o homem não está sozinho: coisas comuns e gritantes habitam-no, dão-lhe a sua forma. Não há meio de poder julgar. Não há absurdo, porque não há somente divórcio entre o que é e o que devia ser.


Doía tudo. Até a alma, minha gente.
A danada da gripe foi de lascar
Era dor de tudo que é jeito
Remédio tomei pra dela escapar
Qual nada! Nenhum fez efeito
Fiquei na cama com febre a me danar
Mas a filha-da-puta da gripe
Não veio sozinha, não!
Trouxe a danada da febre
Não bastasse isso, me deu por companhia
O cof-cof… cof-cof… em vez de poesia


Sententia latina: amor et tussis non celantur...

Why do we kiss people? At one level, merely to generate the pleasurable sensation of rubbing an area of nerve endings against a corresponding strip of soft, fleshy, moist skin tissue. However, the hopes with which we approach the prospect of an initial kiss typically extend beyond this. We seek to hold and savor not just a mouth but an entire beloved person. With the kiss, we hope to achieve a higher form of possession; the longing a beloved inspires in us promises to come to an end once our lips are allowed to roam freely over theirs.

Ah, como incerta, na noite em frente,
De uma longínqua tasca vizinha
Uma ária antiga, subitamente,
Me faz saudades do que as não tinha.


O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, e o homem é um animal irracional complexo.(...) O subconsciente, inconsciente, é que dirige e impera, no homem como no animal. A consciência, a razão, o raciocínio são meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe são inferiores.
Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada. A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de um instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior, é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto.A humanidade, ou qualquer nação, divide‑se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio. A plebe só pode compreender a civilização material. Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu.


Mais sol non posso eu enganar
meu coraçón que m'enganou,
por quanto me fez desejar
a quen me nunca desejou.

e per esto non dormio eu,
porque non poss'eu coita dar,
a quen me sempre coita deu

Mais rog'a Deus que desampar
a quen m'assí desamparou
vel que pudess'eu destorvar,
a quen me sempre destorvou
E logo dormiria eu,
se eu pudesse coita dar,
a quen me sempre coita deu.



Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de tão estranhas qualidades? Faça chover sobre ele todos os tipos de bênçãos terrenas; submerja-o em felicidade até acima da cabeça, de modo que só pequenas bolhas apareçam na superfície dessa felicidade, como se em água; dê-lhe uma prosperidade económica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, excepto dormir, comer pão-de-ló e preocupar-se com a continuação da história mundial — mesmo assim, por pura ingratidão, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum acto repulsivo. Ele até mesmo arriscará perder o seu pão-de-ló e desejará intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antieconómico absurdo, simplesmente a fim de injectar o seu fantástico e pernicioso elemento no âmago de toda essa racionalidade positiva.