Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 27 de julho de 2018
Inspirações...
Uno debió perder la vergüenza hace tanto...cómo me hizo perder, la vergüenza, mis años cuando llegaba a mi el amor de mi vida, enardecida, me congelaba y me iba acorralada estaba en mis pensamientos. el amor, la pasión, se quedaban adentro años pasaron y me animé a la victoria. pude salir, al fin, y llegar a la gloria la gloria es verte volver, saber que un beso llega...
A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.
"Can we start it all over again this morning?"
"These are the words we use to say goodbye..."
Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim
Fernando
"Stendhal é com certeza o romancista menos lido, mais admirado e mais negado" ... Zola
" Quantos jovens não sentirão uma súbita paixão pelas primeiras páginas de A Cartuxa de Parma, convencendo-se, de imediato, que é, sem dúvida, o mais belo romance do mundo, reconhecendo nele o romance que sempre quiseram ler e que lhes servirá de pedra de toque para todos os que vão ler depois! (Refiro-me sobretudo aos primeiros capítulos; à medida que se avança na leitura deparamos com um romance diferente, com vários romances entre si distintos, que vão exigir algumas alterações no modo de participar no que aí se passa; mas o impulso inicial continuará a fazer sentir o seu efeito.) "Italo Calvino
Escrito em 53 dias, no inverno de 1830, o romance narra as desventuras de Fabrice Del Dongo, um jovem idealista e imaturo que decide alistar-se o exército de Napoleão Bonaparte.
A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor. Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses ainda não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.
Fabrício, poupa a tua vida! Que ficaria à tua mãe e a mim , se nos faltasses? Quanto a Napoleão, o seu sucesso é impossível, meu pobre amigo; os seus amigos hã de arranjar maneira de dar cabo dele... Permitindo-te ires ter com ele, sacrifico-lhe o que tenho de mais querido no mundo.
a la mañana estoy duermiendo no veo el sol pa...pasan las horas lo veo va llegando al oeste está el sol al oeste está el sol al oeste está el sol
¿Cuándo va a venir el día? ¿Cuándo va a llegar? ¡Ah, qué miedo, todavía! Pero el día ya va a llegar Veo que esto se termina Y que un día me voy de acá...
Se me deixasses ser O sítio onde podes voltar Depois do dia entardecer Ou quando a noite te agarrar O corpo forte de chegar A casa de permanecer A casa para regressar Se me deixasses ser...
All that you touch And all that you see All that you taste All you feel...
Devolva o Neruda que você me tomou E nunca leu Eu bato o portão sem fazer alarde Eu levo a carteira de identidade Uma saideira, muita saudade E a leve impressão de que já vou tarde.
Podemos ser amigos simplesmente Coisas do amor nunca mais Amores do passado, no presente Repetem velhos temas tão banais Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...
Jeanne Hébuterne: a musa de Modigliani...
domingo, 21 de janeiro de 2018
Tempo e Espaço...
No hay tiempo.
Ya no hay tiempo.
Pero ¿alguna vez hubo tiempo?
La ilusión de la vida por delante
se conjuga con el verbo
de la vida por detrás.
Y todo transcurrir no es más que un punto,
quizá un punto extensible
o el revés de ese punto,
porque el tiempo es puntual.
Un punto que a veces se desliza levemente,
como una gota de asombro de la luz
o un inesperado corpúsculo de sombra,
tan sólo para justificar algo parecido a un nivel
en el barómetro casi fijo
que mide la presión imposible de la vida.
O tal vez simplemente
la presión diagonal de lo imposible.
Todas as sensações são boas, logo que se não tente reduzi-las à acção. Um acto é uma sensação que se deita fora. Age para dentro, colhendo só com as mãos do espírito as flores na margem da vida. Combater a escravidão mental representada pela associação de ideias. Aprender a não associar ideias, a quebrar em pedaços a alma. Saber simultanizar as sensações, dispersar o espírito por si-próprio, espalhado e disperso. Nós temos pela vida social e política uma grande indiferença dinâmica. Por muito que nos interessem essas coisas, interessam-nos apenas para sobre elas construirmos teorias passageiras, hipóteses inexpressas.
Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como a grande indiferença das estrelas.
Uma perda de tempo...
Apesar de ginny, o filme é banal...
"A dream about memory and the degradation of memory. It’s about distance in time and space. Time moves forward, but then backward as memory. The image of the two-faced Roman god Janus, who can look into the past and future, is the core visual language."- Casey
It's nobody's fault No guilty party You just got nothing Nothing left to say ... I just got nothing Nothing left to say It all, all catches up to me It all, all catches up to me All the time...
Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que ninguém ainda que válido, poderia salvar. A dor alheia tornou-se em mim mais do que uma só dor - a de a ver, a de a ver irreparável, e a de saber que o conhecê-la irreparável me empobrece até da nobreza inútil de querer ter os gestos de a reparar. A minha falta de impulso foi sempre, afinal, a fonte da origem destes males todos - o não saber querer antes de pensar, o não saber entregar-me, o não saber decidir do único modo como se decide - com a decisão, que não com o conhecimento -, burro de Buridan morrendo na bissectriz matemática da água da emoção e da palha do esforço, podendo, se não pensasse, morrer sim, porém não de fome nem de sede...
The time has gone, the song is over Thought I'd something more to say...
Tired of lying in the sunshine
Staying home to watch the rain
You are young and life is long
And there is time to kill today
And then one day you find
Ten years have got behind you
No one told you when to run
You missed the starting gun
And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death
Every year is getting shorter...
Gripsholm: Tempo de Amar.
"Bem-vindo à Europa na década de 1930, no início do nacional-socialismo na Alemanha...
Gripsholm: Tempo de Amar leva-nos a um mundo decadente de prazer e desejo: Kurt é convidado a passar o verão num palácio sueco de Gripsholm com a sua namorada, Lydia, e os seus amigos. Esta produção, baseada em factos reais sobre a vida do jornalista político e escritor Tucholsky, leva os espectadores para um mundo além dos transtornos sociais e políticos que ocorreram na Europa durante a década de 1930."
espaço-tempo
Dois dias de viagem separam um homem e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida do seu mundo quotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; separam-no muito mais do que esse jovem imaginava, enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se ergue de permeio entre ele e o seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o esquecimento; porém fá-lo, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido.
Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem “tediosos” o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tem¬po, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o facto de os anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, um retardamento da nossa experiência do tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto aplica -se a uns seis ou oito dias. Depois, à medida que a pessoa se “aclimata”, começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de o fazer, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital –, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite.
A imagem do tempo, também ele produz esquecimento, mas fá-lo libertando-nos das nossas obrigações, transpondo-nos para um estado original...
As time goes by...
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.
A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água.(...) Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
No seu feitio de S (que, se se considerar fechada, é 8, e, deitado, igualmente serpentino, Infinito), a Serpente inclui dois espaços, que rodeia e transcende. (O primeiro espaço é o mundo inferior, o segundo o mundo superior.) Em outra figuração serpentina — a da cobra em círculo, a boca mordendo a cauda —reproduz-se, não o S, de que a letra é sinal, mas o círculo, símbolo da terra, ou do mundo tal qual o temos. No feitio de S a Serpente evade-se das duas Realidades e desaparece dos Mundos e Universos.
As ação desenvolve-se, conforme esclarece o dramaturgo na apresentação do texto, em “qualquer lugarejo serrano e primitivo, em Portugal”. O caráter “primitivo” e indeterminado do espaço diz muito sobre seus propósitos futuros. O pecado de João de Agonia reparte-se em três atos, desmembrados em cenas que nos permitem conhecer os valores vigentes e as personagens. Esse mundo é composto por três famílias – Agonia, Giesta e Lamas. Da primeira, surgem José e Rita, pais de João, Fernando e Teresa, além de seus tios Miguel e Carlos, e Rosa, a avó; já da segunda, os Giestas, surgem Toino e Maria, filhos de Guilhermina; da terceira, origina-se Manuel.
Ya no hay tiempo.
Pero ¿alguna vez hubo tiempo?
La ilusión de la vida por delante
se conjuga con el verbo
de la vida por detrás.
Y todo transcurrir no es más que un punto,
quizá un punto extensible
o el revés de ese punto,
porque el tiempo es puntual.
Un punto que a veces se desliza levemente,
como una gota de asombro de la luz
o un inesperado corpúsculo de sombra,
tan sólo para justificar algo parecido a un nivel
en el barómetro casi fijo
que mide la presión imposible de la vida.
O tal vez simplemente
la presión diagonal de lo imposible.
Todas as sensações são boas, logo que se não tente reduzi-las à acção. Um acto é uma sensação que se deita fora. Age para dentro, colhendo só com as mãos do espírito as flores na margem da vida. Combater a escravidão mental representada pela associação de ideias. Aprender a não associar ideias, a quebrar em pedaços a alma. Saber simultanizar as sensações, dispersar o espírito por si-próprio, espalhado e disperso. Nós temos pela vida social e política uma grande indiferença dinâmica. Por muito que nos interessem essas coisas, interessam-nos apenas para sobre elas construirmos teorias passageiras, hipóteses inexpressas.
Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como a grande indiferença das estrelas.
Uma perda de tempo...
Apesar de ginny, o filme é banal...
"A dream about memory and the degradation of memory. It’s about distance in time and space. Time moves forward, but then backward as memory. The image of the two-faced Roman god Janus, who can look into the past and future, is the core visual language."- Casey
It's nobody's fault No guilty party You just got nothing Nothing left to say ... I just got nothing Nothing left to say It all, all catches up to me It all, all catches up to me All the time...
Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que ninguém ainda que válido, poderia salvar. A dor alheia tornou-se em mim mais do que uma só dor - a de a ver, a de a ver irreparável, e a de saber que o conhecê-la irreparável me empobrece até da nobreza inútil de querer ter os gestos de a reparar. A minha falta de impulso foi sempre, afinal, a fonte da origem destes males todos - o não saber querer antes de pensar, o não saber entregar-me, o não saber decidir do único modo como se decide - com a decisão, que não com o conhecimento -, burro de Buridan morrendo na bissectriz matemática da água da emoção e da palha do esforço, podendo, se não pensasse, morrer sim, porém não de fome nem de sede...
The time has gone, the song is over Thought I'd something more to say...
Tired of lying in the sunshine
Staying home to watch the rain
You are young and life is long
And there is time to kill today
And then one day you find
Ten years have got behind you
No one told you when to run
You missed the starting gun
And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death
Every year is getting shorter...
Gripsholm: Tempo de Amar.
"Bem-vindo à Europa na década de 1930, no início do nacional-socialismo na Alemanha...
Gripsholm: Tempo de Amar leva-nos a um mundo decadente de prazer e desejo: Kurt é convidado a passar o verão num palácio sueco de Gripsholm com a sua namorada, Lydia, e os seus amigos. Esta produção, baseada em factos reais sobre a vida do jornalista político e escritor Tucholsky, leva os espectadores para um mundo além dos transtornos sociais e políticos que ocorreram na Europa durante a década de 1930."
espaço-tempo
Dois dias de viagem separam um homem e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida do seu mundo quotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; separam-no muito mais do que esse jovem imaginava, enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se ergue de permeio entre ele e o seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o esquecimento; porém fá-lo, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido.
Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem “tediosos” o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tem¬po, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o facto de os anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, um retardamento da nossa experiência do tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto aplica -se a uns seis ou oito dias. Depois, à medida que a pessoa se “aclimata”, começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de o fazer, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital –, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite.
A imagem do tempo, também ele produz esquecimento, mas fá-lo libertando-nos das nossas obrigações, transpondo-nos para um estado original...
As time goes by...
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.
A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água.(...) Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
No seu feitio de S (que, se se considerar fechada, é 8, e, deitado, igualmente serpentino, Infinito), a Serpente inclui dois espaços, que rodeia e transcende. (O primeiro espaço é o mundo inferior, o segundo o mundo superior.) Em outra figuração serpentina — a da cobra em círculo, a boca mordendo a cauda —reproduz-se, não o S, de que a letra é sinal, mas o círculo, símbolo da terra, ou do mundo tal qual o temos. No feitio de S a Serpente evade-se das duas Realidades e desaparece dos Mundos e Universos.
As ação desenvolve-se, conforme esclarece o dramaturgo na apresentação do texto, em “qualquer lugarejo serrano e primitivo, em Portugal”. O caráter “primitivo” e indeterminado do espaço diz muito sobre seus propósitos futuros. O pecado de João de Agonia reparte-se em três atos, desmembrados em cenas que nos permitem conhecer os valores vigentes e as personagens. Esse mundo é composto por três famílias – Agonia, Giesta e Lamas. Da primeira, surgem José e Rita, pais de João, Fernando e Teresa, além de seus tios Miguel e Carlos, e Rosa, a avó; já da segunda, os Giestas, surgem Toino e Maria, filhos de Guilhermina; da terceira, origina-se Manuel.
domingo, 23 de julho de 2017
Reinos e Espelhos...
Each time we return To this crazy place We break the promise made, face to face Easy to make Easy to break Something's here we don't understand I don't know Why we go on so I don't want to fight no more tonight Every time's the same Both of us to blame
I don't want to talk no more tonight We've come through before Now we ask for more Seems to me we can't escape at all Words have no meaning But Oh, such a feeling Can there be a way out of here I don't know Why we go on so I don't want to fight no more tonight
Every time's the same Both of us to blam I don't want to talk no more tonight...
Dei-te a solidão do dia inteiro, / Na praia deserta, brincando com a areia,/ No silêncio que apenas quebrava a maré cheia / A gritar o seu eterno insulto, / Longamente esperei que o teu vulto / Rompesse o nevoeiro
How I wish you were here We're just two lost souls Swimming in a fish bowl Year after year Running over the same old ground What have we found? The same old fears Wish you were here
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num País sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha
de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a
mesma...
Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra...De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me...de vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e,como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral;
Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma
máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.
Jogo que não tenha regra não é jogo.Jogo sem parceiro também não. Era o que se dava aqui.Jogo sem parceiro ou jogo à espera de parceiro; jogo sem regra nem desfecho, por outro. A garrafa dentro da própria garrafa.
Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou envólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão.
Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.
Inocente No sabía Que en la cara El alma se veía Inestable Vacilante Distraerse Hablar y ser amable Pero pronto tiene una experiencia
Que alta ahora no explicó ninguna ciencia En un súbito y casual espejo El inesperado y cruel reflejo De una cara y alarmada Reconoce a su espíritu perplejo Inocente No sabía Que en la cara El alma se veía Uno no sabe qué va a verse en un espejo Pone la cara que espera ver en el reflejo Uno no sabe qué va a verse en un espejo Pone la cara que espera ver en el reflejo
terça-feira, 18 de abril de 2017
Eu e Dosto...
- Porque não fazes nada?
- Eu faço...
- O quê?
- Um trabalho...
- Que trabalho?
- Penso.
Olho para a estante, percorro-me e descubro-me: gosto de livros porque não consigo gostar das pessoas, como gente, como seres humanos, só consigo, excecionalmente, gostar de indivíduos.
É muito fácil viver fazendo-se de idiota. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui, agora, feito um imbecil.
Onde é que eu li aquilo de um condenado à morte que, no momento de morrer, dizia ou pensava que, se o deixassem viver num alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, eterna solidão e tempestade perene -, e tivesse de ficar assim, em todo esse espaço de um archin, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim do que morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!
( Seria uma forma interessante de aferir uma existência: o número de centímetros que os livros de um determnado autor ocupam numa estante.. A olho nu, pessoa e heterónimos, gmt, saramago, eça, dosto e camões estarão em primeiro lugar.)
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski morre, em São Petersburgo, no dia 9 de fevereiro de 1881... 1+8 = 9 / 8-1=9, noves fora nada.
Conheci dostoiévski ( só muito, muito mais tarde, se tornaria " dosto"... ) da pior ou da melhor maneira possível: o primeiro romance que li foi crime e castigo.Nunca reli, nem tenciono fazê-lo.
Muito; havia já muito tempo que se enraizara e crescera nele toda a tristeza atual; nos últimos tempos acumulara -se e reconcentrara-se, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que lhe torturava o coração e a alma, reclamando uma resposta urgente. (...)Era evidente que agora não se tratava de ficar triste, de sofrer passivamente, fazendo apenas apreciações acerca da insolubilidade daqueles problemas, mas de fazer impreterivelmente qualquer coisa, imediatamente, o mais depressa possível. Fosse o que fosse, era preciso tomar uma decisão ou... "Ou renunciar completamente à vida!", exclamou de repente com raiva. "Aceitar o destino docilmente, tal como é, de uma vez para sempre, e abafar tudo no seu íntimo, renunciando a todo o direito à ação, a viver e a amar! "Compreende, meu senhor, o senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir?", de repente veio-lhe à memória a pergunta que Marmieládov lhe dirigira na noite anterior. "Porque todo homem precisa de ter algum lugar aonde ir!"
Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto , passa a desrespeitar -se a si e aos demais.
A perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais razoável de cada ateu.
Ele [Ivan Karamázov] declarou em tom solene que, em toda a face da Terra, não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amar os seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural, mas tão-só ao facto de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou […] que é nisso que consiste toda a lei natural, de modo que, destruindo-se nos homens a fé na sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem, mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre…
Traduções... “Se Deus não existe, tudo é permitido” é uma famosa falsa citação, cuja origem está num excerto, já quase do final do romance, no livro XI, capítulo 4, no momento em que Aliosha discute com Mítia sobre Rakitin. Mítia critica o cinismo do último e conta que o questionou, dizendo: “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?” . Na tradução de Nina e Filipe Guerra, página 309, " Mas, então,como é que o homem vai viver? ... sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?". Em síntese:
1. “Se Deus não existe, tudo é permitido” , versão mais divulgada...
2. “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?”
3. sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?".
Vi-me, envolvida, quase por acaso, numa polémica deveras interessante: parece que há tradutores que, despudoradamente, afirmam deturpar o texto...Interessou-me, mas não é meu objetivo , nestas minhas leituras, falar sobre tal assunto, até porque não sei russo...
Reli ultimamente, embora não na íntegra, e tenho andado a tentar ser aliócha...
Seguiu-se O jogador, um romance considerado " menor", que se revelou, na época, a minha escolha. Ainda recordo a emoção de jogar roleta, algo que só experimentaria anos mais tarde...
- Le jeu est fait! - gritou o croupier. A roleta girou e saiu o treze. Perdemos!
- Mais, mais, mais! Põe mais! - gritava a avó. Eu já não a contrariava e, encolhendo os ombros, apostei mais doze fredericos no zero. A roleta girou demoradamente. A avó tremia ao seguir o movimento da roleta. «Estará a pensar que sai outra vez o zero?» - pensava enquanto olhava espantado para ela. Do rosto dela irradiava a profunda convicção de que ia ganhar, a esperança certa de que iam já gritar zero! A bolinha imobilizou-se numa casa.
- Zero! - gritou o croupier.
- Viste!!! - a avó estava voltada para mim num triunfo louco.
Também eu era jogador - senti-o nesse mesmo instante. Tremiam-me as mãos e as pernas, andava-me a cabeça à volta.
Não somente se afastou da vida, dos seus interesses próprios e dos interesses sociais, dos seus deveres de homem e de cidadão, dos seus amigos (pois os tinha), não somente se afastou de todo e qualquer objetivo que não seja o de ganhar, como até mesmo das suas recordações...
Mas será possível,será possível que seja assim tão infantil? Será que não compreendo que sou um homem perdido? Mas, porque não poderia ressuscitar? Bastaria por uma vez ter caráter, e numa hora poderia mudar toda a minha vida.
Experimenta-se uma sensação muito especial quando, sozinho, numa terra estranha, longe de parentes e amigos, sem saber o que se vai comer dali a pouco, se aposta o último florim, exactamente o último! Ganhei e, vinte minutos depois, saía do casino com cento e setenta florins no bolso. Foi um facto! Eis o que, por vezes, pode significar o último florim! E se agora perdesse a coragem, se não me atrevesse a tomar uma decisão?
Amanhã, amanhã tudo isto acabará.
Li, em seguida, o eterno marido...
ele mesmo compreendia que o que havia tão cedo envelhecido não era a quantidade mas, por assim dizer, a qualidade dos anos, e que se se sentia enfraquecer antes da idade, era mais depressa por dentro do que por fora ...
de que servem tais recordações, quando não sei nem mesmo libertar-me suficientemente de mim no presente?
É uma dessas mulheres, pensava ele, que nasceram para ser infiéis. Não há risco de que mulheres dessa espécie caiam enquanto são donzelas: é lei de sua natureza esperarem para isso que estejam casadas. O marido é o primeiro amante delas, porém jamais antes do casamento. Não há mulheres mais honestas do que elas para o casamento.
O homem dessa espécie vem ao mundo e cresce apenas para se casar e, logo que casa, torna-se imediatamente algo de complementar da sua mulher. (...)E o maravilhoso é que com tudo isso não se podia dizer que aquele marido vivesse sob o chinelo de sua esposa. Natalia Vassílievna mostrava toda a aparência da mulher perfeitamente obediente e talvez ela própria estivesse convencida de sua obediência.
O isolamento torna o protagonista num idealista capaz de se apaixonar por mulheres que não existem realmente, mas que ,nem por isso, deixa de desejar, acreditando que um dia virá em que esse desejo se torne realidade, à semelhança de um sonho que se vive intensamente.
Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente quando estamos ambos de bom humor. Recentemente, como não nos víssemos há já dois dias, ao terceiro, quando nos encontramos, íamos já a levar as mãos aos chapéus, mas reprimimos a tempo essa intenção.
Que seja claro o teu céu, que seja luminoso e sereno o teu doce sorriso e bendita sejas pelos minutos de felicidade e de alegria que deste a outro coração solitário e agradecido.Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Não será isso o bastante para preencher toda a vida de um homem!
( Quando li o estrangeiro de camus, pela primeira vez, tive a certeza de que já tinha lido esta ideia, mas, na época, não me consegui lembrar em que romance...Compreendi , então , que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.
Só há pouco tempo, ao reler noites brancas, tive a revelação...Fui feliz nesse momento.Fui-o outrora agora...
Certo homem(...) ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, era -lhe lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer. Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e, muitas vezes, depois, eu interrogava -o sobre isso. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, rodeado de soldados e populares, havia três postes fincados no chão, pois eram vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento . E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao despedir -se dos camaradas ocorreu-lhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles…
A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta ideia lhe veio com tal furor que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!…
Os dois romances que se seguem já foram lidos pelo meu eu atual. Registo alguns sublinhados e uma apreensão...
Será que é possível,será que é concebível um homem ter qualquer respeito por si mesmo se no seu sentimento próprio de auto-humilhação ousou encontar prazer?
Eu inventava para mim fantasmas e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida.
Em qualquer dos casos,a civilização tornou o homem,senão mais sanguinário,de certeza sanguinário de maneira mais feia, mais ignóbil do que antes.
O que eu fazia ,sobretudo em casa era ler. Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no interior de mim. E as únicas impressões exteriores, para mim, vinham da leitura.
Eram quase oito da manhã quando o conselheiro titular Iákov Petróvitch Góliádkin acordou do seu longo sono, bocejou, espreguiçou -se e, finalmente, abriu por completo os olhos.
Desconfiado,começou por verificar tudo o que tinha escrito - e não percebia nadado que escrevera. Por fim, o outro senhor Goliádkin, que até então tinha estado sentado e sisudo,levantou-se e desapareceu pela porta que dava para outra repartição.
Gostei, sem entusiasmo, sem emoção, mas gostei. Ficou-me uma apreensão: saramago terá conhecido este romance, quando escreveu o homem duplicado??
O homem que acabou de entrar no loja para alugar uma casse vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso.
Comprei O Adolescente, folheei, informei-me sobre, mas , afinal, não acabei de ler...Registarei a sinopse oficial da wook, porque,assumidamente, tenho horror vacui (A minha paradoxal faceta barroca ...)
"O Adolescente (1874-1875) é o menos conhecido dos cinco longos romances produzidos por Dostoiévski, entre 1866 e 1880, o seu período de plena maturidade literária. Escrito na primeira pessoa, é a história de um filho ilegítimo. Mais um herói humilhado e ofendido, que cresceu entre estranhos, sem quase ter visto a mãe nos seus primeiros anos de vida, e atormentado por uma existência parental «dupla» - o pai biológico e o marido de sua mãe, que lhe deu o nome – divisão acentuada ainda pela diferença de estrato social entre essas figuras parentais. A história de Arkádi é assim uma espécie de «educação sentimental», extremamente complexa pela multiplicidade de contradições que dividem o jovem. Todos os grandes temas de Dostoiévski estão aqui presentes: a luta entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, a degradação moral inerente à condição humana e a possibilidade de redenção...Dostoiévski evidencia, nesta obra, os sinais terríveis que são o reflexo dessa dicotomia em todos os estratos da sociedade russa, nos meados do século XIX."
O meu horror vacui conduz-me, por mero acaso, a um grupo de que nunca ouvira falar e o tema darkness pareceu-me bem adequado para encerrar este dia dedicado a Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski...
In darkness I will feel alright... You are so dark, You are so dark...
You don't know my mind You don't know my kind Dark necessities are part of my design... Do you want this love of mine The darkness helps to sort the shine Do you want it, do you want it now Do you want it all the time But darkness helps us all to shine Do you want it, do you want it now...
Post scriptum
Existe na minha estante, mas não o li nem me apetece fazê-lo. Nunca me cativou: nem no passado nem no presente ...
Fica uma breve nota e uma curiosidade: O livro Recordações da Casa dos Mortos resulta da experiência que Dostoiévski viveu na prisão de Omsk, na Sibéria. Curiosa a semelhança no modo de introduzir o romance , entre dosto e Hermann Hesse, em O Lobo das Estepes.
O dia decorrera como de resto os dias costumam decorrer; matara o tempo, matara-o com suavidade, com aquele meu modo primitivo e acanhado de levar a vida...
Mais uma similitude...
- Eu faço...
- O quê?
- Um trabalho...
- Que trabalho?
- Penso.
Olho para a estante, percorro-me e descubro-me: gosto de livros porque não consigo gostar das pessoas, como gente, como seres humanos, só consigo, excecionalmente, gostar de indivíduos.
É muito fácil viver fazendo-se de idiota. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui, agora, feito um imbecil.
Onde é que eu li aquilo de um condenado à morte que, no momento de morrer, dizia ou pensava que, se o deixassem viver num alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, eterna solidão e tempestade perene -, e tivesse de ficar assim, em todo esse espaço de um archin, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim do que morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!
( Seria uma forma interessante de aferir uma existência: o número de centímetros que os livros de um determnado autor ocupam numa estante.. A olho nu, pessoa e heterónimos, gmt, saramago, eça, dosto e camões estarão em primeiro lugar.)
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski morre, em São Petersburgo, no dia 9 de fevereiro de 1881... 1+8 = 9 / 8-1=9, noves fora nada.
Conheci dostoiévski ( só muito, muito mais tarde, se tornaria " dosto"... ) da pior ou da melhor maneira possível: o primeiro romance que li foi crime e castigo.Nunca reli, nem tenciono fazê-lo.
Muito; havia já muito tempo que se enraizara e crescera nele toda a tristeza atual; nos últimos tempos acumulara -se e reconcentrara-se, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que lhe torturava o coração e a alma, reclamando uma resposta urgente. (...)Era evidente que agora não se tratava de ficar triste, de sofrer passivamente, fazendo apenas apreciações acerca da insolubilidade daqueles problemas, mas de fazer impreterivelmente qualquer coisa, imediatamente, o mais depressa possível. Fosse o que fosse, era preciso tomar uma decisão ou... "Ou renunciar completamente à vida!", exclamou de repente com raiva. "Aceitar o destino docilmente, tal como é, de uma vez para sempre, e abafar tudo no seu íntimo, renunciando a todo o direito à ação, a viver e a amar! "Compreende, meu senhor, o senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir?", de repente veio-lhe à memória a pergunta que Marmieládov lhe dirigira na noite anterior. "Porque todo homem precisa de ter algum lugar aonde ir!"
Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto , passa a desrespeitar -se a si e aos demais.
A perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais razoável de cada ateu.
Ele [Ivan Karamázov] declarou em tom solene que, em toda a face da Terra, não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amar os seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural, mas tão-só ao facto de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou […] que é nisso que consiste toda a lei natural, de modo que, destruindo-se nos homens a fé na sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem, mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre…
Traduções... “Se Deus não existe, tudo é permitido” é uma famosa falsa citação, cuja origem está num excerto, já quase do final do romance, no livro XI, capítulo 4, no momento em que Aliosha discute com Mítia sobre Rakitin. Mítia critica o cinismo do último e conta que o questionou, dizendo: “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?” . Na tradução de Nina e Filipe Guerra, página 309, " Mas, então,como é que o homem vai viver? ... sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?". Em síntese:
1. “Se Deus não existe, tudo é permitido” , versão mais divulgada...
2. “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?”
3. sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?".
Vi-me, envolvida, quase por acaso, numa polémica deveras interessante: parece que há tradutores que, despudoradamente, afirmam deturpar o texto...Interessou-me, mas não é meu objetivo , nestas minhas leituras, falar sobre tal assunto, até porque não sei russo...
Reli ultimamente, embora não na íntegra, e tenho andado a tentar ser aliócha...
Seguiu-se O jogador, um romance considerado " menor", que se revelou, na época, a minha escolha. Ainda recordo a emoção de jogar roleta, algo que só experimentaria anos mais tarde...
- Le jeu est fait! - gritou o croupier. A roleta girou e saiu o treze. Perdemos!
- Mais, mais, mais! Põe mais! - gritava a avó. Eu já não a contrariava e, encolhendo os ombros, apostei mais doze fredericos no zero. A roleta girou demoradamente. A avó tremia ao seguir o movimento da roleta. «Estará a pensar que sai outra vez o zero?» - pensava enquanto olhava espantado para ela. Do rosto dela irradiava a profunda convicção de que ia ganhar, a esperança certa de que iam já gritar zero! A bolinha imobilizou-se numa casa.
- Zero! - gritou o croupier.
- Viste!!! - a avó estava voltada para mim num triunfo louco.
Também eu era jogador - senti-o nesse mesmo instante. Tremiam-me as mãos e as pernas, andava-me a cabeça à volta.
Não somente se afastou da vida, dos seus interesses próprios e dos interesses sociais, dos seus deveres de homem e de cidadão, dos seus amigos (pois os tinha), não somente se afastou de todo e qualquer objetivo que não seja o de ganhar, como até mesmo das suas recordações...
Mas será possível,será possível que seja assim tão infantil? Será que não compreendo que sou um homem perdido? Mas, porque não poderia ressuscitar? Bastaria por uma vez ter caráter, e numa hora poderia mudar toda a minha vida.
Experimenta-se uma sensação muito especial quando, sozinho, numa terra estranha, longe de parentes e amigos, sem saber o que se vai comer dali a pouco, se aposta o último florim, exactamente o último! Ganhei e, vinte minutos depois, saía do casino com cento e setenta florins no bolso. Foi um facto! Eis o que, por vezes, pode significar o último florim! E se agora perdesse a coragem, se não me atrevesse a tomar uma decisão?
Amanhã, amanhã tudo isto acabará.
Li, em seguida, o eterno marido...
ele mesmo compreendia que o que havia tão cedo envelhecido não era a quantidade mas, por assim dizer, a qualidade dos anos, e que se se sentia enfraquecer antes da idade, era mais depressa por dentro do que por fora ...
de que servem tais recordações, quando não sei nem mesmo libertar-me suficientemente de mim no presente?
É uma dessas mulheres, pensava ele, que nasceram para ser infiéis. Não há risco de que mulheres dessa espécie caiam enquanto são donzelas: é lei de sua natureza esperarem para isso que estejam casadas. O marido é o primeiro amante delas, porém jamais antes do casamento. Não há mulheres mais honestas do que elas para o casamento.
O homem dessa espécie vem ao mundo e cresce apenas para se casar e, logo que casa, torna-se imediatamente algo de complementar da sua mulher. (...)E o maravilhoso é que com tudo isso não se podia dizer que aquele marido vivesse sob o chinelo de sua esposa. Natalia Vassílievna mostrava toda a aparência da mulher perfeitamente obediente e talvez ela própria estivesse convencida de sua obediência.
O isolamento torna o protagonista num idealista capaz de se apaixonar por mulheres que não existem realmente, mas que ,nem por isso, deixa de desejar, acreditando que um dia virá em que esse desejo se torne realidade, à semelhança de um sonho que se vive intensamente.
Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente quando estamos ambos de bom humor. Recentemente, como não nos víssemos há já dois dias, ao terceiro, quando nos encontramos, íamos já a levar as mãos aos chapéus, mas reprimimos a tempo essa intenção.
Que seja claro o teu céu, que seja luminoso e sereno o teu doce sorriso e bendita sejas pelos minutos de felicidade e de alegria que deste a outro coração solitário e agradecido.Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Não será isso o bastante para preencher toda a vida de um homem!
( Quando li o estrangeiro de camus, pela primeira vez, tive a certeza de que já tinha lido esta ideia, mas, na época, não me consegui lembrar em que romance...Compreendi , então , que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.
Só há pouco tempo, ao reler noites brancas, tive a revelação...Fui feliz nesse momento.Fui-o outrora agora...
Certo homem(...) ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, era -lhe lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer. Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e, muitas vezes, depois, eu interrogava -o sobre isso. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, rodeado de soldados e populares, havia três postes fincados no chão, pois eram vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento . E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao despedir -se dos camaradas ocorreu-lhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles…
A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta ideia lhe veio com tal furor que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!…
Os dois romances que se seguem já foram lidos pelo meu eu atual. Registo alguns sublinhados e uma apreensão...
Será que é possível,será que é concebível um homem ter qualquer respeito por si mesmo se no seu sentimento próprio de auto-humilhação ousou encontar prazer?
Eu inventava para mim fantasmas e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida.
Em qualquer dos casos,a civilização tornou o homem,senão mais sanguinário,de certeza sanguinário de maneira mais feia, mais ignóbil do que antes.
O que eu fazia ,sobretudo em casa era ler. Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no interior de mim. E as únicas impressões exteriores, para mim, vinham da leitura.
Eram quase oito da manhã quando o conselheiro titular Iákov Petróvitch Góliádkin acordou do seu longo sono, bocejou, espreguiçou -se e, finalmente, abriu por completo os olhos.
Desconfiado,começou por verificar tudo o que tinha escrito - e não percebia nadado que escrevera. Por fim, o outro senhor Goliádkin, que até então tinha estado sentado e sisudo,levantou-se e desapareceu pela porta que dava para outra repartição.
Gostei, sem entusiasmo, sem emoção, mas gostei. Ficou-me uma apreensão: saramago terá conhecido este romance, quando escreveu o homem duplicado??
O homem que acabou de entrar no loja para alugar uma casse vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso.
Comprei O Adolescente, folheei, informei-me sobre, mas , afinal, não acabei de ler...Registarei a sinopse oficial da wook, porque,assumidamente, tenho horror vacui (A minha paradoxal faceta barroca ...)
"O Adolescente (1874-1875) é o menos conhecido dos cinco longos romances produzidos por Dostoiévski, entre 1866 e 1880, o seu período de plena maturidade literária. Escrito na primeira pessoa, é a história de um filho ilegítimo. Mais um herói humilhado e ofendido, que cresceu entre estranhos, sem quase ter visto a mãe nos seus primeiros anos de vida, e atormentado por uma existência parental «dupla» - o pai biológico e o marido de sua mãe, que lhe deu o nome – divisão acentuada ainda pela diferença de estrato social entre essas figuras parentais. A história de Arkádi é assim uma espécie de «educação sentimental», extremamente complexa pela multiplicidade de contradições que dividem o jovem. Todos os grandes temas de Dostoiévski estão aqui presentes: a luta entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, a degradação moral inerente à condição humana e a possibilidade de redenção...Dostoiévski evidencia, nesta obra, os sinais terríveis que são o reflexo dessa dicotomia em todos os estratos da sociedade russa, nos meados do século XIX."
O meu horror vacui conduz-me, por mero acaso, a um grupo de que nunca ouvira falar e o tema darkness pareceu-me bem adequado para encerrar este dia dedicado a Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski...
In darkness I will feel alright... You are so dark, You are so dark...
You don't know my mind You don't know my kind Dark necessities are part of my design... Do you want this love of mine The darkness helps to sort the shine Do you want it, do you want it now Do you want it all the time But darkness helps us all to shine Do you want it, do you want it now...
Post scriptum
Existe na minha estante, mas não o li nem me apetece fazê-lo. Nunca me cativou: nem no passado nem no presente ...
Fica uma breve nota e uma curiosidade: O livro Recordações da Casa dos Mortos resulta da experiência que Dostoiévski viveu na prisão de Omsk, na Sibéria. Curiosa a semelhança no modo de introduzir o romance , entre dosto e Hermann Hesse, em O Lobo das Estepes.
O dia decorrera como de resto os dias costumam decorrer; matara o tempo, matara-o com suavidade, com aquele meu modo primitivo e acanhado de levar a vida...
Mais uma similitude...
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quarta-feira, 1 de março de 2017
Vaidade, orgulho, prestígio...
O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhadas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombras e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível.
Every part of me says go ahead I got my hopes up again, oh no... not again Feels like we only go backwards...
And when it happens, when it happens (I won't be holding on) So let it happen, let it happen...
A emergência demasiado fácil das personalidades secundárias; a excessiva estimulação da revelação, por cada indivíduo, da sua individualidade específica, que, salvo quando é grande, nada interessa a ninguém que se revele; a adopção de um código de sociabilidade pelo qual o que vale em cada indivíduo é o que tem de diferente dos outros, e não o que tem de comum com eles — fenómenos são estes que caracterizam bem a doença extrema da época.(...) Conseguimos esse desiderato de alienado — a normalização da anormalidade.(...) Nós realizamos, modernamente, o sentido preciso daquela frase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a terra é o manicómio do Universo Somos, com efeito, um manicómio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção da normalidade, e onde a rigidez vive por uma concessão da doença.Vivemos em doença crónica, em anemia febricitante O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao estado de (perpétuos) moribundos.
Não nos adaptamos, porque os sãos se não adaptam a meio mórbido. Não nos adaptando, somos mórbidos. Neste paradoxo, nós, os pagãos, vivemos. Não temos outra esperança, nem outro remédio. Aceito como tal esta atitude nossa, mas não aceito o modo como a aceita Ricardo Reis. Quero que sejamos indiferentes para com uma época que nada pode querer de nós, e sobre a qual em nada podemos agir. Mas não quero que se cante essa indiferença como coisa boa de per si. É isso que faz Ricardo Reis. Por esse ponto, longe de tornar-se indiferente às correntes da época, integra-se em uma delas, que é a decadente. Essa indiferença, é já uma adaptação ao meio. É já uma concessão.
we’re half-awake in a fake empire we’re half-awake in a fake empire...
You're the only thing I want And I said I wouldn't cry about Ahhahhahhahh This is the last time.
O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos.
Não é mais a vaidade que a confiança no efeito do valor próprio. A confiança só no valor próprio, que não no efeito d'ele, é outra coisa, e chama-se orgulho. Podem coexistir, podem não coexistir. Tão contraditória é a aparência da condição humana, que, podemos confiar no efeito de nosso valor, sem confiar nesse valor mesmo. É que na vida do espírito a acção precede sempre a consciência; movemo-nos antes que o queiramos.(...) Há por isso um sinal distintivo, pelo qual se diferençam os orgulhosos dos vaidosos: os orgulhosos são tímidos, os vaidosos são audazes. Há quem seja cumulativamente orgulhoso e vaidoso; quem o é será tímido e audaz ou intermitentemente, ou em manifestações diferentes do espírito.Se a vaidade é mais ridícula que o orgulho, é que é por natureza activa, e se revela sempre; o orgulho, como se esconde, mal pode aparecer onde o escarneçam. Por isto, e ordinariamente, tem-se a vaidade por baixa, e por nobre o orgulho. Nem um, nem outro, é nobre ou deixa de sê-lo. Pela razão já exposta — a essência activa da vida —, a vaidade é mais vulgar, o orgulho — sobretudo o orgulho sem, ou com pouca, vaidade — raro. Da sua raridade se deriva — (assim) como de seu menor ridículo e de sua pouca incidência, por inerte, sobre outrem — o mito da sua nobreza.É a vaidade a mestra do esforço, o sal da acção, o alimento da vida. Todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies. D'elas nasce tudo que é social — o bom como o mau, assim o nobre como o mesquinho. O fato melhor do caixeiro, os gestos da condessa, a conquista da Gália por César, a Divina Comédia têm esta comum origem. Não há mister inventar, como Nietzsche, uma «vontade de poder» para disfarce opulento d'esta nudez do egoísmo humano. O pitecantropo vestido é menos dionisíaco do que isso.Como o orgulho vive para dentro, pensando e sentindo, e a vaidade para fora, operando, resulta que, ante o conseguimento alheio, o primeiro movimento de um é o desconsolo e o tédio, da outra o despeito e a inveja. A inveja é a qualidade primária da comparação social: gera as intrigas e as malícias de que se compõe a quotidianidade da vida; estimula rancorosamente o esforço que se vai cansando; é a matriz de quase todas as censuras e de todas as revoluções.Tal é a realidade da vida humana: a vaidade como base, a inveja como meio, o progresso como fim. Certos há, porém, que escapam à inveja do comum dos homens. Ao sentimento, que despertam, e pelo qual fogem a essa inveja, chama-se ordinariamente prestígio. O prestígio é, pois, aquela imposição da nossa personalidade aos outros, que não lhes desperta a inveja.
Parece que a primeira condição do prestígio deve ser a superioridade — a superioridade por nós reconhecida. Não é assim. A só superioridade não evita a inveja; há mister que essa superioridade se baseie em uma diferença de qualidade, que não, ou que não só, de grau.A quem não temos por superior, e nos supera nos benefícios da vida, invejamos, invejamos simplesmente. A quem temos por nosso superior, porém como da mesma espécie que nós e nosso superior só em grau, invejamos ainda, porém de diverso modo: invejamos que a Natureza, que não já a Sorte ou o Destino, lhe concedesse as qualidades, por meio das quais nos supera. A quem, porém, sentimos não só superior, senão também diferente, dificilmente invejaremos, salvo se a inveja for uma disposição habitual nossa. Não há contraste sem semelhança. Não podemos comparar-nos com quem nos não parecemos. O nosso superior semelhante faz o que fazemos, porém melhor; o nosso superior diferente faz o que não poderíamos fazer nunca. Por isso um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro. Por isso Byron invejava Shakespeare, e só admirava Milton: o intuitivo menor doía-se do intuitivo maior; o grande racional não o ofendia. A primeira condição do prestígio é, pois, necessariamente a diferença — a diferença, porém, desacompanhada de inferioridade. Todos sentimos diferente um louco ou um imbecil; a nenhum damos prestígio. Não falemos ainda de superioridade; falemos só de diferença. A primeira condição do prestígio é a diferença que não é inferior. É que todo o raro, desde que não seja baixo, atrai e preocupa.Como, porém, a diferença tanto mais nos preocupará quanto menos pudermos definir em que consiste, segue que a segunda condição do prestígio é o mistério. Todos os grandes fascinadores se destacam por diferentes, e se insinuam por não se revelarem. Quando ouvirdes dizer que certo homem é «interessante» — é o primeiro adjectivo do prestígio — vereis que se deve entender que de certo modo se não compreende bem o que pensa, o que sente, que carácter tem. Os grandes sedutores usam conscientemente este processo de insinuação; muitas vezes não têm mais mistério que o saber o que o mistério vale.A terceira — mas só a terceira — condição do prestígio é, então, a superioridade. Quando é enorme e sensível envolve já a diferença, e por aí, que não por si, se prestigia. Quando é súbita, deslumbrante envolve já o mistério, e por ele, que não por si, adquire prestígio. De per si — isto é, como superioridade explicável, racional — não é nem o primeiro nem o segundo elemento da sujeição do espírito alheio.
São estas as três condições do prestígio. Quem queira analisar o conteúdo d'ele não encontrará mais que isto. O prestígio do homem de génio é d'esta ordem, porque o génio é diferente e misterioso.
Síntese por tópicos:
A vaidade é a confiança no efeito do valor próprio. O orgulho é só confiança no valor próprio, não no seu efeito.
A vaidade é a mestra do esforço, o sal da ação, o alimento da vida: todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies.
A inveja é a qualidade primária da comparação social: não nos podemos comparar com quem nos não parecemos. Um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro.
Três condições do prestígio: a diferença; o mistério; a superioridade.
Como me delicio com a elaboração de listas inúteis, a não ser para mim, vou começar a organizar os meus conhecidos com prestígio, de acordo com o critério de fernando pessoa: diferentes, misteriosos e superiores...
Meu orgulho, porém, nunca sofreu que eu me permitisse menos que o que a minha inteligência poderia fazer. Nunca pude conceder a mim mesmo a autorização para o meio termo, para qualquer coisa menos na obra que a minha personalidade inteira e o meu desejo todo (e a minha ambição toda). Se eu houvesse reconhecido na minha inteligência uma incapacidade para a obra sintética, teria sofreado o meu orgulho, reconhecendo-o por loucura. Mas a deficiência não esteve nunca na minha inteligência capaz sempre de grandes sínteses e de poderosas sistematizações. O meu mal estava na tibieza da vontade ante o esforço medonho que essas inteirezas envolviam.
Every part of me says go ahead I got my hopes up again, oh no... not again Feels like we only go backwards...
And when it happens, when it happens (I won't be holding on) So let it happen, let it happen...
A emergência demasiado fácil das personalidades secundárias; a excessiva estimulação da revelação, por cada indivíduo, da sua individualidade específica, que, salvo quando é grande, nada interessa a ninguém que se revele; a adopção de um código de sociabilidade pelo qual o que vale em cada indivíduo é o que tem de diferente dos outros, e não o que tem de comum com eles — fenómenos são estes que caracterizam bem a doença extrema da época.(...) Conseguimos esse desiderato de alienado — a normalização da anormalidade.(...) Nós realizamos, modernamente, o sentido preciso daquela frase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a terra é o manicómio do Universo Somos, com efeito, um manicómio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção da normalidade, e onde a rigidez vive por uma concessão da doença.Vivemos em doença crónica, em anemia febricitante O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao estado de (perpétuos) moribundos.
Não nos adaptamos, porque os sãos se não adaptam a meio mórbido. Não nos adaptando, somos mórbidos. Neste paradoxo, nós, os pagãos, vivemos. Não temos outra esperança, nem outro remédio. Aceito como tal esta atitude nossa, mas não aceito o modo como a aceita Ricardo Reis. Quero que sejamos indiferentes para com uma época que nada pode querer de nós, e sobre a qual em nada podemos agir. Mas não quero que se cante essa indiferença como coisa boa de per si. É isso que faz Ricardo Reis. Por esse ponto, longe de tornar-se indiferente às correntes da época, integra-se em uma delas, que é a decadente. Essa indiferença, é já uma adaptação ao meio. É já uma concessão.
we’re half-awake in a fake empire we’re half-awake in a fake empire...
You're the only thing I want And I said I wouldn't cry about Ahhahhahhahh This is the last time.
O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos.
Não é mais a vaidade que a confiança no efeito do valor próprio. A confiança só no valor próprio, que não no efeito d'ele, é outra coisa, e chama-se orgulho. Podem coexistir, podem não coexistir. Tão contraditória é a aparência da condição humana, que, podemos confiar no efeito de nosso valor, sem confiar nesse valor mesmo. É que na vida do espírito a acção precede sempre a consciência; movemo-nos antes que o queiramos.(...) Há por isso um sinal distintivo, pelo qual se diferençam os orgulhosos dos vaidosos: os orgulhosos são tímidos, os vaidosos são audazes. Há quem seja cumulativamente orgulhoso e vaidoso; quem o é será tímido e audaz ou intermitentemente, ou em manifestações diferentes do espírito.Se a vaidade é mais ridícula que o orgulho, é que é por natureza activa, e se revela sempre; o orgulho, como se esconde, mal pode aparecer onde o escarneçam. Por isto, e ordinariamente, tem-se a vaidade por baixa, e por nobre o orgulho. Nem um, nem outro, é nobre ou deixa de sê-lo. Pela razão já exposta — a essência activa da vida —, a vaidade é mais vulgar, o orgulho — sobretudo o orgulho sem, ou com pouca, vaidade — raro. Da sua raridade se deriva — (assim) como de seu menor ridículo e de sua pouca incidência, por inerte, sobre outrem — o mito da sua nobreza.É a vaidade a mestra do esforço, o sal da acção, o alimento da vida. Todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies. D'elas nasce tudo que é social — o bom como o mau, assim o nobre como o mesquinho. O fato melhor do caixeiro, os gestos da condessa, a conquista da Gália por César, a Divina Comédia têm esta comum origem. Não há mister inventar, como Nietzsche, uma «vontade de poder» para disfarce opulento d'esta nudez do egoísmo humano. O pitecantropo vestido é menos dionisíaco do que isso.Como o orgulho vive para dentro, pensando e sentindo, e a vaidade para fora, operando, resulta que, ante o conseguimento alheio, o primeiro movimento de um é o desconsolo e o tédio, da outra o despeito e a inveja. A inveja é a qualidade primária da comparação social: gera as intrigas e as malícias de que se compõe a quotidianidade da vida; estimula rancorosamente o esforço que se vai cansando; é a matriz de quase todas as censuras e de todas as revoluções.Tal é a realidade da vida humana: a vaidade como base, a inveja como meio, o progresso como fim. Certos há, porém, que escapam à inveja do comum dos homens. Ao sentimento, que despertam, e pelo qual fogem a essa inveja, chama-se ordinariamente prestígio. O prestígio é, pois, aquela imposição da nossa personalidade aos outros, que não lhes desperta a inveja.
Parece que a primeira condição do prestígio deve ser a superioridade — a superioridade por nós reconhecida. Não é assim. A só superioridade não evita a inveja; há mister que essa superioridade se baseie em uma diferença de qualidade, que não, ou que não só, de grau.A quem não temos por superior, e nos supera nos benefícios da vida, invejamos, invejamos simplesmente. A quem temos por nosso superior, porém como da mesma espécie que nós e nosso superior só em grau, invejamos ainda, porém de diverso modo: invejamos que a Natureza, que não já a Sorte ou o Destino, lhe concedesse as qualidades, por meio das quais nos supera. A quem, porém, sentimos não só superior, senão também diferente, dificilmente invejaremos, salvo se a inveja for uma disposição habitual nossa. Não há contraste sem semelhança. Não podemos comparar-nos com quem nos não parecemos. O nosso superior semelhante faz o que fazemos, porém melhor; o nosso superior diferente faz o que não poderíamos fazer nunca. Por isso um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro. Por isso Byron invejava Shakespeare, e só admirava Milton: o intuitivo menor doía-se do intuitivo maior; o grande racional não o ofendia. A primeira condição do prestígio é, pois, necessariamente a diferença — a diferença, porém, desacompanhada de inferioridade. Todos sentimos diferente um louco ou um imbecil; a nenhum damos prestígio. Não falemos ainda de superioridade; falemos só de diferença. A primeira condição do prestígio é a diferença que não é inferior. É que todo o raro, desde que não seja baixo, atrai e preocupa.Como, porém, a diferença tanto mais nos preocupará quanto menos pudermos definir em que consiste, segue que a segunda condição do prestígio é o mistério. Todos os grandes fascinadores se destacam por diferentes, e se insinuam por não se revelarem. Quando ouvirdes dizer que certo homem é «interessante» — é o primeiro adjectivo do prestígio — vereis que se deve entender que de certo modo se não compreende bem o que pensa, o que sente, que carácter tem. Os grandes sedutores usam conscientemente este processo de insinuação; muitas vezes não têm mais mistério que o saber o que o mistério vale.A terceira — mas só a terceira — condição do prestígio é, então, a superioridade. Quando é enorme e sensível envolve já a diferença, e por aí, que não por si, se prestigia. Quando é súbita, deslumbrante envolve já o mistério, e por ele, que não por si, adquire prestígio. De per si — isto é, como superioridade explicável, racional — não é nem o primeiro nem o segundo elemento da sujeição do espírito alheio.
São estas as três condições do prestígio. Quem queira analisar o conteúdo d'ele não encontrará mais que isto. O prestígio do homem de génio é d'esta ordem, porque o génio é diferente e misterioso.
Síntese por tópicos:
A vaidade é a confiança no efeito do valor próprio. O orgulho é só confiança no valor próprio, não no seu efeito.
A vaidade é a mestra do esforço, o sal da ação, o alimento da vida: todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies.
A inveja é a qualidade primária da comparação social: não nos podemos comparar com quem nos não parecemos. Um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro.
Três condições do prestígio: a diferença; o mistério; a superioridade.
Como me delicio com a elaboração de listas inúteis, a não ser para mim, vou começar a organizar os meus conhecidos com prestígio, de acordo com o critério de fernando pessoa: diferentes, misteriosos e superiores...
Meu orgulho, porém, nunca sofreu que eu me permitisse menos que o que a minha inteligência poderia fazer. Nunca pude conceder a mim mesmo a autorização para o meio termo, para qualquer coisa menos na obra que a minha personalidade inteira e o meu desejo todo (e a minha ambição toda). Se eu houvesse reconhecido na minha inteligência uma incapacidade para a obra sintética, teria sofreado o meu orgulho, reconhecendo-o por loucura. Mas a deficiência não esteve nunca na minha inteligência capaz sempre de grandes sínteses e de poderosas sistematizações. O meu mal estava na tibieza da vontade ante o esforço medonho que essas inteirezas envolviam.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Sísifos e avessos...
Ante scriptum: absurdos...
Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos.
A mania do absurdo e do paradoxo é o "animal spirits" dos tristes. Como o homem normal, diz disparates por vitalidade, e por sangue dá palmadas nas costas de outros, os incapazes de entusiasmo e de alegria dão cambalhotas na inteligência, a seu frio modo fazem os gestos quentes da vida.
Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas (...) — o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar do tédio àquele estado de alma em que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos — não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é (o) divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas — agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam — talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo. Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
Sísifo é o mais astuto dos mortais e também o menos escrupuloso. Era filho de Éolo\( ...)A lenda de Sísifo abrange vários episódios, sendo cada um deles a história de uma astúcia.Uma das versões do mito, a mais divulgada, diz que Zeus o precipitou nos infernos, onde lhe impôs como castigo que fizesse rolar eternamente um enorme rochedo na subida de uma vertente. Mal o rochedo atingia o cimo, voltava a cair, mercê do seu próprio peso e o trabalho tinha de recomeçar.
Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas, quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.
Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.
Sísifo
Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres,Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador, nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida, sem um amigo prudente a quem pedir conselho quando algo nos perturba mais do que o normal de todos os dias, Eu, triste, o que se chama propriamente triste, senhor, não creio que o seja, respondeu o Sr. José, talvez a minha natureza seja um pouco melancólica, mas isso não é defeito, e quanto às tentações, bom, há que dizer que nem a idade nem a situação me inclinam a elas, quer dizer, nem eu as procuro nem elas me procuram a mim, E os erros, Está a referir-se, senhor, aos erros do serviço, Estou a referir-me aos erros em geral, os erros do serviço, mais tarde ou mais cedo, o serviço os fez, o serviço os resolve…
(o homem sozinho)
Um escadote que é um labirinto.
Começamos a subir e sem saber como: acabamos a descer.
É o caminho do bem-estar,disseram-me ; e eu comecei a subir.
Ninguém para me tirar daqui.
Sinopses sisíficas...
A Trilogia do Sísifo é composta por Gnaisse, um romance sobre a paixão, Por Mão Própria, um romance sobre a perda, e por Sísifo, um romance sobre a iniciação.
Um professor está apaixonado por uma aluna que gosta de Nietzsche, de bonsais e de garrafas de gás. A aluna desaparece subitamente.(...) O professor tem saudades da aluna. As saudades são tantas que, transtornado, vê a aluna em todo o lado: na pastelaria do bairro, na tela do cinema, nas sombras da sua própria varanda. Duas mortes ensombram, a certa altura, o percurso e o destino do professor. Tudo se altera de repente, como se a realidade relatada não passasse, afinal, de um truque de prestidigitação. A chegada inesperada da irmã do protagonista parece ser a chave que tudo irá solucionar. No entanto, os arrestos de bens e as penhoras aproximam-se. Mas é o fogo que acabará por devorar tudo, no preciso dia em que a casa é penhorada. Resistindo às hostilidades do mundo, o professor encontrará a sua antiga aluna ao rodar a manivela de uma caixa de música. Sob o pano de fundo da crise, Gnaisse ,como acontece entre os estratos das rochas metamórficas, é uma metáfora da repetição e do efémero que dá a ver a vida em processo – ou em frenesim – e não atada (num embrulho literário) com um lacinho.
Confessa o protagonista do romance Por Mão Própria que atravessou o inferno de um lado ao outro. Perdeu a irmã, a namorada, os pais, a madrasta, o cão, o patrão, a livreira, a psiquiatra e a mulher do seu melhor amigo que apareceu, um dia, deitada na linha do caminho-de-ferro. Para agravar as coisas, escutava dentro dos ouvidos uma gritaria de crianças que parecia querer humilhá-lo. Talvez por ser designer, encontrou o sentido da vida, primeiro no umbigo de uma chinesa e, depois, no magnífico sinal de uma recepcionista (que era um jardim circular feito de melanina para onde apetecia saltar e ficar a viver para sempre). Enfim, um pesadelo devorado entre a solidão das ruas e o afã apocalíptico das multidões. Seja como for, um pesadelo sonhado num sótão onde a graça e a ingenuidade do mundo terão, de algum modo, excedido o terror e o abismo.
Sísifo, a publicar em outubro.
No seu avesso dorme um desejo, um sentimento em branco, abstrato: deseja o desejo, mas não a sua concretização material. Gostaria de a sentir fisicamente, mas sem que tivesse de entregar o seu corpo. A ideia de acariciar e percorrer o seu corpo esguio agrada- lhe, talvez até o atraia, mas não admite ,sequer,a possibilidade de ser a sua mão a fazê-lo. Gostaria de sentir o prazer, fisicamente, através de um outro corpo, mas que, psicologicamente, essa emoção fosse sua...Esta certeza tranquilizou-o, mas não acalma o tumulto interior que o invade sempre a que a imagem dela se insinua e o penetra,lentamente, como um veneno que não mata, mas debilita e excita, de um modo estranhamente novo.
Os avessos do trágico em Samuel Beckett: "Eu, de quem nada sei, sei que tenho olhos abertos devido às lágrimas que caem sem cessar." Tudo termina e recomeça novamente. Podemos identificar uma estrutura dramatúrgica circular e ininterrupta, na qual não encontramos um início e um fim precisos, mas uma ação em constante andamento. Tal aspecto lega à cena beckettiana um universo específico onde os personagens não empreendem uma ação efetiva no tempo e no espaço, pois eles apenas estão esperando algo. Em uma visão desencantada de mundo, os personagens são retratados fi sicamente destroçados, como uma metáfora da própria consciência humana, que também apresenta-se desintegrada. Uma estética do precário, das lacunas, das ausências e, principalmente, dos silêncios afasta a possibilidade do homem se reconciliar com o mundo, em âmbito social, moral, econômico ou político. O conflito surge entre a realidade empírica e a realidade metafísica, e, nesta luta, o homem não se choca com o mundo, mas com a sua consciência.
Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo «infelizmente» porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição.
Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar.
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!
As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia.
Os preconceitos que alimento sobre arte, a despeito de mim mesmo, impediram-me, durante muito tempo, de pensar na sua reedição.
Sei que a minha fonte está, em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo o artista: o ressentimento e a satisfação.(...) Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar o seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: em África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice. (...) Mas, depois de me questionar, pude constatar que, entre as minhas inúmeras fraquezas, jamais figurou o defeito mais difundido entre nós, quer dizer, a inveja, verdadeiro cancro das sociedades e das doutrinas.
Há mais amor verdadeiro nestas páginas do que em todas as que se seguiram.
A vida é curta e é pecado perder o seu tempo. Sou activo, diz-se. Mas ser activo é ainda perder o seu tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estreia, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como as gotas do mercúrio. Deixai, pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. (...) Posso dizer, e direi daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então, tudo aí se inclui, a humanidade e a simplicidade. E quando posso eu ser mais verdadeiro do que quando sou eu o mundo? Sou satisfeito antes de ter desejado. A eternidade está ali e eu esperava-a. Já não é ser feliz o que eu desejo agora, mas apenas ser consciente.
Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irónico. Eles dizem: «Isso mostra que não és bom.» Não vejo a relação. Decerto oiço dizer a uma delas que é imoralista, traduzo que ela tem necessidade de atribuir-se uma moral; a outra que despreza a inteligência, compreendo que ela não pode suportar as suas dúvidas. Mas porque eu não gosto que se faça batota. A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos para a luz como para a morte. Além disso, como explicar a ligação que leva deste amor devorador à vida a este desespero oculto? Se escuto a ironia escondida no fundo das coisas, ela descobre-se lentamente. Piscando o olho pequeno e claro: «Vive como se...», diz ela. Apesar de muitas pesquisas, aqui está toda a minha ciência.
Não há amor de viver sem desespero de viver. Afinal, o sol aquece - nos os ossos, apesar de tudo...
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas porque eu não sou braço nem sou perna. Se eu tivesse a memória das pedras que logo entram em queda assim que se largam no espaço sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair; se eu tivesse a memória da luz que mal começa, na sua origem, logo se propaga, sem que nenhuma se esquecesse de propagar; os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram continentes, a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a Terra. Mas não esqueci tudo. Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; guardei a memória do infinito, daquele tempo sem tempo,origem de todos os tempos, em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. Tudo se passou defronte de partes de mim. E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam. Estão. E estarão.
Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos.
A mania do absurdo e do paradoxo é o "animal spirits" dos tristes. Como o homem normal, diz disparates por vitalidade, e por sangue dá palmadas nas costas de outros, os incapazes de entusiasmo e de alegria dão cambalhotas na inteligência, a seu frio modo fazem os gestos quentes da vida.
Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas (...) — o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar do tédio àquele estado de alma em que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos — não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é (o) divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas — agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam — talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo. Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
Sísifo é o mais astuto dos mortais e também o menos escrupuloso. Era filho de Éolo\( ...)A lenda de Sísifo abrange vários episódios, sendo cada um deles a história de uma astúcia.Uma das versões do mito, a mais divulgada, diz que Zeus o precipitou nos infernos, onde lhe impôs como castigo que fizesse rolar eternamente um enorme rochedo na subida de uma vertente. Mal o rochedo atingia o cimo, voltava a cair, mercê do seu próprio peso e o trabalho tinha de recomeçar.
Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas, quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.
Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.
Sísifo
Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres,Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador, nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida, sem um amigo prudente a quem pedir conselho quando algo nos perturba mais do que o normal de todos os dias, Eu, triste, o que se chama propriamente triste, senhor, não creio que o seja, respondeu o Sr. José, talvez a minha natureza seja um pouco melancólica, mas isso não é defeito, e quanto às tentações, bom, há que dizer que nem a idade nem a situação me inclinam a elas, quer dizer, nem eu as procuro nem elas me procuram a mim, E os erros, Está a referir-se, senhor, aos erros do serviço, Estou a referir-me aos erros em geral, os erros do serviço, mais tarde ou mais cedo, o serviço os fez, o serviço os resolve…
(o homem sozinho)
Um escadote que é um labirinto.
Começamos a subir e sem saber como: acabamos a descer.
É o caminho do bem-estar,disseram-me ; e eu comecei a subir.
Ninguém para me tirar daqui.
Sinopses sisíficas...
A Trilogia do Sísifo é composta por Gnaisse, um romance sobre a paixão, Por Mão Própria, um romance sobre a perda, e por Sísifo, um romance sobre a iniciação.
Um professor está apaixonado por uma aluna que gosta de Nietzsche, de bonsais e de garrafas de gás. A aluna desaparece subitamente.(...) O professor tem saudades da aluna. As saudades são tantas que, transtornado, vê a aluna em todo o lado: na pastelaria do bairro, na tela do cinema, nas sombras da sua própria varanda. Duas mortes ensombram, a certa altura, o percurso e o destino do professor. Tudo se altera de repente, como se a realidade relatada não passasse, afinal, de um truque de prestidigitação. A chegada inesperada da irmã do protagonista parece ser a chave que tudo irá solucionar. No entanto, os arrestos de bens e as penhoras aproximam-se. Mas é o fogo que acabará por devorar tudo, no preciso dia em que a casa é penhorada. Resistindo às hostilidades do mundo, o professor encontrará a sua antiga aluna ao rodar a manivela de uma caixa de música. Sob o pano de fundo da crise, Gnaisse ,como acontece entre os estratos das rochas metamórficas, é uma metáfora da repetição e do efémero que dá a ver a vida em processo – ou em frenesim – e não atada (num embrulho literário) com um lacinho.
Confessa o protagonista do romance Por Mão Própria que atravessou o inferno de um lado ao outro. Perdeu a irmã, a namorada, os pais, a madrasta, o cão, o patrão, a livreira, a psiquiatra e a mulher do seu melhor amigo que apareceu, um dia, deitada na linha do caminho-de-ferro. Para agravar as coisas, escutava dentro dos ouvidos uma gritaria de crianças que parecia querer humilhá-lo. Talvez por ser designer, encontrou o sentido da vida, primeiro no umbigo de uma chinesa e, depois, no magnífico sinal de uma recepcionista (que era um jardim circular feito de melanina para onde apetecia saltar e ficar a viver para sempre). Enfim, um pesadelo devorado entre a solidão das ruas e o afã apocalíptico das multidões. Seja como for, um pesadelo sonhado num sótão onde a graça e a ingenuidade do mundo terão, de algum modo, excedido o terror e o abismo.
Sísifo, a publicar em outubro.
No seu avesso dorme um desejo, um sentimento em branco, abstrato: deseja o desejo, mas não a sua concretização material. Gostaria de a sentir fisicamente, mas sem que tivesse de entregar o seu corpo. A ideia de acariciar e percorrer o seu corpo esguio agrada- lhe, talvez até o atraia, mas não admite ,sequer,a possibilidade de ser a sua mão a fazê-lo. Gostaria de sentir o prazer, fisicamente, através de um outro corpo, mas que, psicologicamente, essa emoção fosse sua...Esta certeza tranquilizou-o, mas não acalma o tumulto interior que o invade sempre a que a imagem dela se insinua e o penetra,lentamente, como um veneno que não mata, mas debilita e excita, de um modo estranhamente novo.
Os avessos do trágico em Samuel Beckett: "Eu, de quem nada sei, sei que tenho olhos abertos devido às lágrimas que caem sem cessar." Tudo termina e recomeça novamente. Podemos identificar uma estrutura dramatúrgica circular e ininterrupta, na qual não encontramos um início e um fim precisos, mas uma ação em constante andamento. Tal aspecto lega à cena beckettiana um universo específico onde os personagens não empreendem uma ação efetiva no tempo e no espaço, pois eles apenas estão esperando algo. Em uma visão desencantada de mundo, os personagens são retratados fi sicamente destroçados, como uma metáfora da própria consciência humana, que também apresenta-se desintegrada. Uma estética do precário, das lacunas, das ausências e, principalmente, dos silêncios afasta a possibilidade do homem se reconciliar com o mundo, em âmbito social, moral, econômico ou político. O conflito surge entre a realidade empírica e a realidade metafísica, e, nesta luta, o homem não se choca com o mundo, mas com a sua consciência.
Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo «infelizmente» porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição.
Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar.
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!
As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia.
Os preconceitos que alimento sobre arte, a despeito de mim mesmo, impediram-me, durante muito tempo, de pensar na sua reedição.
Sei que a minha fonte está, em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo o artista: o ressentimento e a satisfação.(...) Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar o seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: em África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice. (...) Mas, depois de me questionar, pude constatar que, entre as minhas inúmeras fraquezas, jamais figurou o defeito mais difundido entre nós, quer dizer, a inveja, verdadeiro cancro das sociedades e das doutrinas.
Há mais amor verdadeiro nestas páginas do que em todas as que se seguiram.
A vida é curta e é pecado perder o seu tempo. Sou activo, diz-se. Mas ser activo é ainda perder o seu tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estreia, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como as gotas do mercúrio. Deixai, pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. (...) Posso dizer, e direi daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então, tudo aí se inclui, a humanidade e a simplicidade. E quando posso eu ser mais verdadeiro do que quando sou eu o mundo? Sou satisfeito antes de ter desejado. A eternidade está ali e eu esperava-a. Já não é ser feliz o que eu desejo agora, mas apenas ser consciente.
Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irónico. Eles dizem: «Isso mostra que não és bom.» Não vejo a relação. Decerto oiço dizer a uma delas que é imoralista, traduzo que ela tem necessidade de atribuir-se uma moral; a outra que despreza a inteligência, compreendo que ela não pode suportar as suas dúvidas. Mas porque eu não gosto que se faça batota. A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos para a luz como para a morte. Além disso, como explicar a ligação que leva deste amor devorador à vida a este desespero oculto? Se escuto a ironia escondida no fundo das coisas, ela descobre-se lentamente. Piscando o olho pequeno e claro: «Vive como se...», diz ela. Apesar de muitas pesquisas, aqui está toda a minha ciência.
Não há amor de viver sem desespero de viver. Afinal, o sol aquece - nos os ossos, apesar de tudo...
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas porque eu não sou braço nem sou perna. Se eu tivesse a memória das pedras que logo entram em queda assim que se largam no espaço sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair; se eu tivesse a memória da luz que mal começa, na sua origem, logo se propaga, sem que nenhuma se esquecesse de propagar; os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram continentes, a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a Terra. Mas não esqueci tudo. Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; guardei a memória do infinito, daquele tempo sem tempo,origem de todos os tempos, em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. Tudo se passou defronte de partes de mim. E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam. Estão. E estarão.
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