Um livrinho encantador que concilia simplicidade, leveza, com profundidade...
Muitas perguntas , poucas certeza, como é característico das pessoas
inteligentes... Uma sintonia perfeita entre texto e imagem.
Este livro responde a perguntas que as crianças nos fazem ou que nunca
chegaram a sair da suas (e até das nossas) cabeças:
Como é que os nossos amigos ficam nossos amigos? O que nos faz aproximar
ou afastar uns dos outros?
Uma história sobre como nascem os amigos e os vários níveis de amizade; como
se explica que haja amigos mais próximos, amigos mais distantes, amigos que
só estão alguns dias na nossa vida e amigos que estarão durante toda a vida,
e que não o adivinhamos. Um texto sobre porque é que a nossa vida é bem
melhor com eles do que sem eles. O narrador compara o universo físico
(planetas, lua, estrelas) com o universo da amizade e dá pistas sobre como
reconhecer os grandes amigos.
O universo é feito de muitos (muitos mesmo, tipo infinitos) planetas,
estrelas, galáxias, eu sei lá... (muitos eu sei lás...)
A força que os atrai uns para os outros chama-se gravidade. Se se
aproximam muito, chocam uns com os outros; se se afastam muito, separam-se
para sempre.
E as pessoas? Qual é a força que as faz aproximar e afastar? Não há
nenhuma teoria?Uma Lei da Gravitação Universal das Pessoas? Que leis da Física ou da
Química - ou da Música - nos regulam?
Preparou tudo meticulosamente, não se esquecendo de nenhum pormenor. No momento da partida, sentiu uma estranha sensação de liberdade, mas... subitamente, o seu estado de espírito mudou, não lhe apetecia ir para lado nenhum. Foi invadida por um entorpecimento que progressivamente lhe retirou a vontade de qualquer movimento, de qualquer atuação. Ficaria a pairar. Estava cansada de si, dos nadas, dos medos… da loucura, de tudo.
Apeteceu-lhe desaparecer, desintegrar-se e subir numa nuvem...
A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
Pouca verdade! Pouca verdade! / Tenho razão enquanto não penso./Pouca verdade.../ Devagar.../ Pode alguém chegar à vidraça.../Nada de emoções!.../Cautela! / Sim, se mo dessem aceitaria.../ Não precisas insistir, aceitaria.../ Para quê?/ Que pergunta! Aceitaria...
Prazer, mas devagar,/Lídia, que a sorte àqueles não é grata / Que lhe das mãos arrancam.
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Everything is tragic It all just falls apart But when I look into your eyes It pieces up my heart If I only had an answer...
Um livro bonito...
Frei Luiz de Sousa, seguido de A Sobrinha do Marquês, uma comédia em que uma respeitável loja de comércio, situada na Rua Augusta, é local de tramas e associações políticas, de compadrios que determinam destinos individuais e sociais. Um comerciante de panos, membro da Junta do Comércio, influencia os destinos da nação e detém uma espantosa capacidade de mimetismo, ora junto dos Távoras e da Companhia, ora junto do Marquês. Será um Barão? Um D. Luís de Távora, orgulhoso elemento da aristocracia, que clandestinamente vive a existência de sobrinho de um burguês, sendo o seu principal caixeiro e guarda-livros. Um Padre Jesuíta, disfarçado na figura de um pastor de almas, esconde um político e a sua aparente candura esconde uma terrível maldade...
Saudade das saudades que não tenho...
Fim...
Mas eu sabia que esta ideia de continuidade, por muito poderosa que fosse naqueles breves momentos, era uma ilusão.Havia as horas e os dias que ela passava em casa com Raymond; havia a sua privacidade e a sua própria busca. E ela trazia cada vez menos notícias. Agora havia acontecimentos que não partilhavam e muitas das coisas que me dizia tinham de ser acompanhadas de explicações ou comentários. (...)Uma ideia como esta assemelha-se a um sonho em que tudo nos parece real, desencadeando um medo que não queremos reconhecer, tendo o efeito de uma revelação.
A frase: Eu podia dizer que estava em Londres, mas de facto não sabia onde estava, Não possuía os meios a capacidade, para entender aquela cidade.
Todos dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.
Quem ama é diferente de quem é
É a mesma pessoa sem ninguém.
One more time...
A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.(...)
Nestas horas matinais, em que a sombra já desapareceu, mas não ainda o seu peso leve, ao espírito que se deixe levar pelos incitamentos da hora apetece a chegada e o porto antigo ao sol. Alegraria, não que o instante se fixasse, como nos momentos solenes da paisagem, ou no luar calmo sobre o rio, mas que a vida tivesse sido outra, de modo que este momento pudesse ter um outro sabor que se lhe reconhece mais próprio.
Seria certo, por uma hora como estas, não chegar nunca à realidade humana para que a nossa vida se destina. Ficar suspenso, entre a névoa e a manhã, imponderavelmente, não em espírito, mas em corpo espiritualizado, em vida real alada, aprazia, mais do que outra coisa, ao nosso desejo de buscar um refúgio, mesmo sem razão para o buscar.
Sentir tudo subtilmente torna-nos indiferentes, salvo para o que se não pode obter — sensações por chegar a uma alma ainda em embrião para elas, actividades humanas congruentes com sentir profundamente, paixões e emoções perdidas entre conseguimentos de outras espécies.
Preto e branco? Corpo e alma?
Percorro a imagem com o olhar e vejo uma ausência sobre um corpo, ocultado por um vestido preto. Um corpo como todos os outros, apesar de elegante, só um corpo; linear, apesar de curvilíneo. Vejo linhas brancas, assimétricas, fragmentos de uma alma complexa para quem o corpo é uma prisão. Não vejo mulher, vejo um manequim estático, um corpo sem vida; não vejo colar, vejo angústias, conflitos, pedaços de quem quer ser mais do que objeto requintado.
Volto a olhar e a ausência domina a imagem: deixo de ver a mancha negra; deixo de ver os pedaços brancos, só vejo o que não vejo…
Branco e preto? Alma e corpo?
Uma ausência …
Preto ou branco? Corpo ou alma?
Imagem no olhar e sobe a ausência no corpo sob o tecido negro. Elegante, mas só um corpo. Linhas brancas, assimétricas, assindéticas, fragmentos indistintos da alma complexa. Corpo como prisão. Que mulher omissa? Que manequim estático? Cadáver lento? Sem adereços, expande-se o lugar onde mora a angústia. Deambula-se sobre o requinte decomposto nos estilhaços da infâmia. Não olho negro. Não olho branco. Que outra coisa senão vazio? Branco ou preto? Alma ou corpo?
Só. Ausência.
A MÁSCARA QUE ME DEFINE
Será que sou mais autêntica despida de todos os meus adereços? Será que sou mais eu mesma por debaixo da minha roupa? Será que a minha nudez me torna mais real?
Depois de instintivamente achar que sim, acabo a pensar que não.
Sem roupa não escolho nada em mim. Não escolho a altura das minhas pernas nem a largura dos ombros, o tamanho da copa do sutiã ou a cor da pele que tenho. Se não escolho o meu corpo, então o meu corpo não me define.
O que me define é o que faço dele e com ele. Que uso lhe dou, se cuido dele ou o maltrato, se o sento a um piano ou o levo ao ginásio ou o deixo estendido no sofá da sala. Se o visto de uma maneira discreta ou ousada.
O que me define verdadeiramente não são as características com que nasci, são as escolhas que faço. Essa é a minha verdade.
Hoje escolho o meu vestido preto e ponho o colar que me deste e eu gosto. Hoje sou.
Uno debió perder la vergüenza hace tanto...cómo me hizo perder, la vergüenza, mis años cuando llegaba a mi el amor de mi vida, enardecida, me congelaba y me iba acorralada estaba en mis pensamientos. el amor, la pasión, se quedaban adentro años pasaron y me animé a la victoria. pude salir, al fin, y llegar a la gloria la gloria es verte volver, saber que un beso llega...
A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.
"Can we start it all over again this morning?"
"These are the words we use to say goodbye..."
Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim
Fernando
"Stendhal é com certeza o romancista menos lido, mais admirado e mais negado" ... Zola
" Quantos jovens não sentirão uma súbita paixão pelas primeiras páginas de A Cartuxa de Parma, convencendo-se, de imediato, que é, sem dúvida, o mais belo romance do mundo, reconhecendo nele o romance que sempre quiseram ler e que lhes servirá de pedra de toque para todos os que vão ler depois! (Refiro-me sobretudo aos primeiros capítulos; à medida que se avança na leitura deparamos com um romance diferente, com vários romances entre si distintos, que vão exigir algumas alterações no modo de participar no que aí se passa; mas o impulso inicial continuará a fazer sentir o seu efeito.) "Italo Calvino
Escrito em 53 dias, no inverno de 1830, o romance narra as desventuras de Fabrice Del Dongo, um jovem idealista e imaturo que decide alistar-se o exército de Napoleão Bonaparte.
A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor. Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses ainda não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.
Fabrício, poupa a tua vida! Que ficaria à tua mãe e a mim , se nos faltasses? Quanto a Napoleão, o seu sucesso é impossível, meu pobre amigo; os seus amigos hã de arranjar maneira de dar cabo dele... Permitindo-te ires ter com ele, sacrifico-lhe o que tenho de mais querido no mundo.
a la mañana estoy duermiendo no veo el sol pa...pasan las horas lo veo va llegando al oeste está el sol al oeste está el sol al oeste está el sol
¿Cuándo va a venir el día? ¿Cuándo va a llegar? ¡Ah, qué miedo, todavía! Pero el día ya va a llegar Veo que esto se termina Y que un día me voy de acá...
Se me deixasses ser O sítio onde podes voltar Depois do dia entardecer Ou quando a noite te agarrar O corpo forte de chegar A casa de permanecer A casa para regressar Se me deixasses ser...
All that you touch And all that you see All that you taste All you feel...
Devolva o Neruda que você me tomou E nunca leu Eu bato o portão sem fazer alarde Eu levo a carteira de identidade Uma saideira, muita saudade E a leve impressão de que já vou tarde.
Podemos ser amigos simplesmente Coisas do amor nunca mais Amores do passado, no presente Repetem velhos temas tão banais Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...
Cause it's a bittersweet symphony, this life... You know I can change, I can change I can change, I can change But I'm here in my mold I am here in my mold And I'm a million different people from one day to the next I can't change my mold No, no, no, no...
Maldições: horrores e traições...
Ó vestidas razões! Dor que é vergonha
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo(...)
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Está o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Mas eu não ouso. Ó horror e tortura! O transcendente horror de um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser, O mistério encarnado em nu e sólido. A nudez(...) Há entre alma e alma um abismo.Saber Que me está vendo uma alma em (...), nudez E acto de amor!Não a nudez da estátua, Mas a nudez viva, cheia de olhar-me Até que me apavoro de pensá-lo. Nem tenho gestos para saber amar...
A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro acto se representou. Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva. O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, um halo de gelo que repele os outros. Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia. Nunca dei crédito à amizade que me mostraram, como o não teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que, aliás, seria impossível. Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles — tão complexo e subtil é o meu destino de sofrer. Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim.
Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim...Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético — e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia.
Não tive consciência de que a terra tremeu. José Saramago sim, e descreve-o na “Jangada de Pedra”. Eu não. Senti tudo isso com uma enorme naturalidade. Saí do encontro com ele e disse: “Vai acontecer qualquer coisa!” Cheguei a Espanha, e a primeira coisa que fiz foi telefonar à pessoa com quem namorava na altura para lhe dizer que não íamos continuar. Passou junho, julho, agosto. Em setembro recebi uma carta: “Se as circunstâncias da vida mo permitirem, gostaria de te ir ver.” Já me tinha dado recomendações de leitura, a nossa correspondência nesse sentido era quase ditatorial. Eu tinha de ler “Uma Família Inglesa”, de Júlio Dinis, o “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís, a Lídia Jorge..
Ie knsci womu muchan in dadi mey ocey du vidol od wamod di, shanaofmbio. Nenu lile du emvmi m...
E quem é esta mulher? Alguém que não quer morrer numa “decadência ostensiva”. Que não corresponde, nunca correspondeu, a estereótipos ou normas sociais. Que acorda todos os dias para viver “da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido. Uma “maldição” que ainda hoje, sete anos passados sobre a morte de José Saramago, a afasta de refazer a vida, porque, simplesmente, não lhe apareceu à frente outro igual a ele.
Dedico-me à vida, aos meus irmãos, e se na vida está o meu marido dedico-me a ele; se está a fundação, dedico-me a ela. Ou seja, sou uma mulher dedicada. Mas, sim, dediquei-me a ele de corpo e alma, sabendo que era uma pessoa inesgotável. Começava uma conversa que nunca dava por terminada, porque tinha sempre pontos de vista diferentes, tal como a sua literatura. Era uma pessoa com uma formação infinitamente superior à minha. Foi uma maldição. Maldição? Sim, depois de o ter conhecido já não consegui gostar de mais ninguém.
Deem-me outro. Só teria reconstruído a minha vida se tivesse aparecido alguém assim por quem me apaixonasse.
De que servem as flores que nascem pelo caminho? Essas flores são um bem um um mal?
Sempre me perguntei como é que as pessoas se atreviam a contrair casamento- e têm-se atrevido ao longo dos séculos - quando este possuía um carácter definitivo; em especial as mulheres, a quem era mais difícil encontrar consolos, ou deviam esmerar-se o dobro ou o triplo a ocultá-los...
O chão é o lugar mais estável, firme e modesto que existe, com a melhor perspectiva do céu e do tecto, e onde melhor se pensa.(...) daqui ninguém pode cair nem cair mais baixo o que é uma vantagem quando se trata de tomar decisões; deveríamos tomá-las sempre a partir da pior das hipóteses, para não dizer partindo do desespero e da sua acompanhante habitual, a vileza, assim não amoleceríamos nem seríamos levados ao engano.
Neste sentido, o livro é uma "escola do cavalheiro", considerando-se esse conceito de modo mais intelectual e radical do que tem sido até agora. É necessário ter coragem no corpo, ainda que simplesmente para aceitar esta interpretação, é preciso desconhecer o medo. Todas as coisas de que se ufana a nossa época são consideradas como contrárias a este tipo, quase "modos nocivos", por exemplo, o famoso "objetivismo", a "compaixão pelos sofredores", o "sentido histórico" com a sua submissão ao gosto exótico, com sua banalidade diante dos petits laits, o "espírita científico."
Supondo-se que a verdade seja feminina — e não é fundada a suspeita de que todos os filósofos, enquanto dogmáticos, entendem pouco de mulheres? Que a espantosa seriedade, a indiscrição delicada com que até agora estavam acostumados a afrontar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar uma mulher? O que há de certo é que essa não se deixou cativar — e os dogmáticos de toda a espécie se voltaram tristemente frente a nós e se desencorajaram.
A falsidade de um juízo não pode constituir, na nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmações mais surpreendentes da nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez coloca -se , apenas por este facto, além do bem e do mal.
O amor, que vem procurado como sensação necessária à felicidade da vida, perde dois terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem todas as delícias puras que não correm perigos de empestarem-se em contacto com as da terra.
Ainda que o contrário se afigure a pessoas que têm a boa sorte de não escrever romances, a conclusão de um livro desta espécie é dolorosa de fazer-se, quer as personagens tenham existido, quer vivessem, como quimeras queridas, na fantasia do escritor. É doloroso digo. porque há aí um facto formidável e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte.
Ocorre desta história...que o coração do homem, formado na ciência e nos costumes antigos, encerra a urna dos bálsamos para as chagas dos corações formados à moderna.
I don't have to think I only have to do it The results are always perfect And that's old news...
A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produz se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente. Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei um amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for.
Aquela malícia incerta e quase imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos, acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro, quando não tem direito de o fazer.
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Não se ouve o instinto, por timidez ou por convenção? É a convenção que origina a timidez ou é a timidez que conduz à submissão a convenções?
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
A tua presença Paralisa meu momento em que tudo começa...
Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me todos os laços. Em breve ficarei sozinho. O meu pior mal é que não consigo nunca esquecer a minha presença metafísica na vida. De aí a timidez transcendental que me atemoriza todos os gestos, que tira a todas as minhas frases o sangue da simplicidade, da emoção directa.
Aquela divina e ilustre timidez que é o guarda dos tesouros e das regalias da alma.Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?
Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.
E eu tenho do alto orgulho a timidez E sinto horror a abrir o ser a alguém, A confiar n'alguém. Horror eu sinto A que prescrute alguém, ou levemente Ou não, quaisquer recantos do meu ser. Abandonar-me em braços nus e belos (Inda que deles o amor viesse) No conceber de tudo me horroriza; Seria violar meu ser profundo, Aproximar-me muito doutros homens; Uma nudez qualquer — espírito ou corpo ( Confrange-me: acostumei-me cedo Aos despimentos do meu ser, A fixar olhos púdicos, conscientes Demais. Pensar em dizer «amo-te» E «amo-te» só — só isto me angustia...Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja) Exponho uma íntima parte de mim, Para poder amar eu precisava Esquecer que sou Fausto o pensador. Eu queria era dormir, dormi, dormir, Longo dormir, meio sentindo em sono, E dormir sempre, sem consciência ter Do tempo, só do sono sonolento E da vacuidade do meu ser...
Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida. Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver. Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Poema da Eterna Presença
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas porque eu não sou braço nem sou perna.(...) Mas não esqueci tudo. Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; guardei a memória do infinito, daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos, em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. Tudo se passou defronte de partes de mim. E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim. Já cá estavam. Estão. E estarão.
Em cada instante que possa decorrer uma eternidade, visto que cada instante, infinitamente divisível, é infinito idealmente, isto é, eterno. A divisão do tempo é uma convenção. Realmente cada divisão dessas (seja qual for) é uma eternidade. O célebre argumento de éternité énubée é falso no que quer provar, por ser inconcebível uma éternité énubée. Se avançamos para o infinito não avançamos realmente, mas estamos essencialmente estacionários.
Depois - reparou - a própria inteligência, que ela sem dúvida tinha, produz um espírito de justiça e de lealdade... E trair aquele homem simples, sem interesse mas digno de amizade, seria para ela uma coisa quase criminal, uma coisa indigna não da pessoa dela, mas da sua inteligência. Era coisa possível só com a imaginação, mas ficando na imaginação. As mesmas qualidades de clareza de inteligência, que a levavam a devanear para longe daquele marido real, a levavam a respeitar, não a ele, mas a sua relação com ele. O homem banal vencia porque era banal. Poderia, sim, acontecer que um amor violento arrastasse aquela mulher, de repente, para fora dos eixos lentos da vida quotidiana e seria; mas esse amor ou teria que ter vindo mais cedo, ou que vir muito mais tarde, e mais cedo seria cedo, e mais tarde seria tarde; ou haveria de o causar alguém não inteiramente diferente daquele marido ocupador - alguém fogoso ou estranho, mas banal também, para que o passo do dever para a aventura se desse facilmente, e não fosse o trânsito da vida para o sonho ou de uma vida para outra vida, coisa que a própria dificuldade convertia em nada, nascendo a inércia da inércia.
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo? A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
E mesmo nesta hora de perder-te Sabendo que a magia se desfez Terá valido a pena conhecer-te E deslumbrar-me ao menos uma vez!
Procuro-me dentro de mim e não me encontro...A imagem perdida, é afinal, a minha...
Sabe bem sentir certas esculturas...Optei por um sofrimento sublime...Encaro, hoje, a felicidade barata com um misto de inveja e comiseração. Será que a felicidade barata teria valido a pena?
Na verdade,tinha muitíssimas saudades dele,tal como tenho hoje.Perguntava-me se éramos realmente realmente parecidos como nas minhas recordações,ou se isso não passava de uma ilusão.Chegava a pensar que ao longo daqueles onze anos nunca observara o seu rosto,nem um sódia, ao passo que o fizera tantas vezes.(...) Tomei uma decisão: para me lbertar, tinha de me persuadir de que aquela semelhança não era mais do que uma ilusão da minha memória, um erro desagradável que precisava de esquecer quanto antes. Tinha de me habituar a essa realidade.
Passado algum tempo, veio ter comigo para me anunciar que era do próprio pensamento que devíamos tratar: da mesma forma que um homem podia observar a sua imagem quando se via ao espelho, assim podia alcançar a quididade examinando a fundo o seu pensamento.(...) ordenou-me que escrevesse o que desejava, quando nem ele mesmo sabia o que queria. Não tinha mais nada em mente senão aquela analogia: tal como o homem pode ver ao espelho a sua aparência exterior,deve poder observar, pela reflexão, o interior do seu espírito.
Queria que ele compreendesse ,tinha vontade de lhe gritar na cara que, sem mim, nunca poderia refletir sobre nada, mas não tive coragem. Aconselhei-o, com ar indiferente, que se visse ao espelho... Ele zangou-se e saiu da sala batendo com a porta. E gritou-me que eu era um idiota.
Aqui estão as esferas translúcidas,suspensas nos ares onde giram estrelas,e Vénus está ali...e essa coisa enorme que ali se encontra é a Lua...e à medida que fazia girar os astros,as sinetas presas ao modelo tocavam com som agradável; (...) Hoje, ao trabalhar na invenção de um passado para mim,penso que aquela é a imagem da felicidade adequada aos contos de fadas da minha infância e aos pintores que os ilustravam.
Anos mais tarde,pensei muitas vezes que a cobardia daquele homem mudara toda a minha vida.(...) Muitos crêem que a vida não está previamente determinada e que todas as histórias são uma cadeia de coincidências.No entanto, mesmo aqueles que partilham dessa convicção, quando se põem a contemplar o passado, pensam que todos os acontecimentos que viveram eram inevitáveis.
Anda me acontece rever em sonhos a imagem do homem que fui. Esse homem...tinha vinte e três anos de idade e era um rapaz cheio de jactância; havia ingurgitado a maior parte de tudo o que fora feito antes dele e considerava essa totalidade com certo desdém; estava persuadido de que podia fazer melhor,convencido de que era mais inteligente e imaginativo que todos os outros.Cada vez que preciso de inventar o meu passado - o que sucede com frequência -, custa-me acreditar que esse jovem...era eu. Mas consola-me pensar que os raros leitores que, um dia, terão paciência de ler até ao fim aquilo que escrevo compreenderão que esse jovem não sou eu de maneira nenhuma. Esses leitores pacientes também pensarão talvez que a história do jovem, cuja vida foi interrompida enquanto folheava os seus livros mais queridos, recomeçou um dia no ponto onde parara.
A jarra preciosa está partida E nada valem os fragmentos seus; A imagem do templo está caída; Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes, perdeu-os. Juntos os fragmentos da jarra divina E a jarra não fazem; Volta ao altar a imagem Já não é o que foi.
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Nm baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido.
(Tuas mãos esguias, um pouco pálidas(...)Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço. Recordo para ter em que pensar, sem pensar. De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo. Olhaste conscientemente para mim, e disseste: "Tenho pena que todos os dias não sejam assim" — Assim, como aquele dia que não fora nada ... Ah, não sabias, Felizmente não sabias, Que a pena é todos os dias serem assim, assim: Que o mal é que, feliz ou infeliz, A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo, Consciente ou inconscientemente, Pensando ou por pensar Que a pena é essa ... Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas, Molemente estendidas.) Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti. Que será feito de ti? Sei que, no formidável algures da vida (...)Deves ser feliz. Por que o não haverias de ser? (...) A vida... Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar.
Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus. O esforço é inútil, mas entretém. O raciocínio é estéril, mas é engraçado. Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. (O sonho, porém, substitui tudo). Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter morto ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade, a que nunca chegue; sem querer resolver um problema, que nunca resolvo; sem que (...). Posso amar sem me recusarem nem me trairem, nem me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fosse da vida; depende apenas do meu poder em tornar o sonho vivido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior...
Como essas coisas que não valem nada E parecem guardadas sem motivo Alguma folha seca... uma taça quebrada Eu só tenho un valor estimativo... Nos olhos que me querem é que eu vivo Esta existência efémera e encantada... Um dia hão de extinguir-se, então, mais nada Mais nada Refletirá meu vulto vago e esquivo...Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...E, no entretanto, em meio desta longa viagem, Muitas vezes parei... e, nos espelhos, Procuro, em vão, minha perdida imagem! Procuro, em vão, minha perdida imagem!
Imagens que passais pela retina dos meus olhos, porque não vos fixais? Que passais como a água cristalina por uma fonte para nunca mais!... Porque ides sem mim, não me levais? Sem vós o que são os meus olhos abertos? O espelho inútil, meus olhos pagãos! Aridez de sucessivos desertos... Fica sequer, sombra das minhas mãos...
Deito fora as imagens. Sem ti, para que me servem as imagens? Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento, que está em qualquer parte e cuja direcção é igualmente passageira e verídica. Serei feliz sem as imagens. As imagens não dão felicidade a ninguém. Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te. Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei. Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti. E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.
Quereres atirar-te contra a imagem que tens na cabeça, e esse é o mais belo suicídio - caíres de vinte andares é fácil, mas magoares-te porque deixas cair o teu corpo sobre uma imagem que existe naquilo que pensas, eis o que é bem difícil e só o acertado desespero consegue...
Já foi húmus, mera matéria orgânica resultante da decomposição de tudo o que projeta...Já se sentiu lixo...Hoje paira num grau zero, no meio de imagens perdidas. Sente-se ninguém: teria, não originalidade, mas algum sentido, se a sua existência fosse autotélica ou narcísica, mas nem isso... é um ser que se constroi de nada, irremediavelmente, condenado a ser nada.
Tal como a escrita, também a sua revolta não tem destinatário, por isso retorna sempre, cada vez mais destruidora, mais incompreensível, mais incontrolável. E o nada agiganta-se na sua própria imaterialidade.
Entender sem compreender: estado intermédio entre a lucidez e a insciência...
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
SALOMÉ – A minha beleza faz os homens sonâmbulos, e o som (encanto) da minha voz distrai-os de sonhar. As suas preferidas odeiam-me sem saber se existo, porque entre as palavras vagas dos seus discursos amorosos, a minha imagem embarga as frases e elas sentem-me passar, como um canto de sereia, nos esquecimentos da voz, e nos abrandamentos dos braços e das mãos, que cingem ou que apertam.Sou o perfume que, uma vez sonhado, lhes faz aura à imaginação, e não poderão ter esposa, nem noiva, nem até irmã a que acarinhem, porque se lembram de que eu sou a princesa que um dia lhes foi toda a vida.Os meus passos vão leves sobre as relvas, como se fossem memórias.
Nos gestos que faço com os braços há um sorriso da minha boca triste. Os meus olhos não conhecem uma promessa certa, e quando são baixos e só os cílios vivem, os corações anseiam com uma grande tortura. Dizem que sou a maravilha, mas eu não sei quem sou. Habita em mim um fluido de desastres que cai sobre as épocas futuras como uma chuva que é nevoeiro. Morreriam milhares só por beijar minhas mãos. Milhares deixariam seus lares só por ouvir a própria voz chamar-me a mim princesa. Pelo meu desprezo visível trocariam muitos todos os amores que lhes foram dados, e até aqueles que desejariam. Sou fatal como as noites e os outonos, e no meu coração há já uma saudade de todos quantos matarei. Os escravos rastejam com os olhos quando mal me podem olhar. Passo entre as alas dos soldados e sinto-os que tremem como folhas ao vento. Levarão saudades desse momento como de uma grande maldição, e acordarão nas grandes noites de estio, quando o suor entra na alma, pávidos da memória sinistra que vive do meu perfil entrevisto, dos meus olhos desviados, do recorte das minhas sobrancelhas...As escravas invejam-me com amor, e cada uma sonha, a sós com o leito sem outro peito, em como haveriam seus olhos de fazer amar os cães, e seus gestos de fazer relinchar os cavalos, nas grandes noites em que a virgindade se sente nas entranhas. Os gatos roçam-se contra as minhas pernas e sentem-se tigres até ao sexo. As aves cantantes calam-se quando passo, e as rosas altas roçam pela minha face porque eu tenho o privilégio dos caminhos. Eu, filha de Herode, não tenho dia em que não queira a noite nem noite que não anseie pelo dia. (...) A minha vida é uma planície a que se segue outra planície. Não raia sol que me traga a alegria do outro, nem lua que me lembre mais os sonhos que não sei sonhar.
Sinto-me menos imortal que as cousas que sonho. Quando o sol nasce ou morre, a minha sombra é infinita. (...) Projecto-me quando sonho sobre todas as épocas. Quando sonho sinto que não morro. É quando acordo, e escuto com o meu sangue, que eu ouço passar a vida.
Minha vida tem um cansaço de mais cousas do que a minha vida. Não sei mais que sonhar, mas hoje, que me pesa tanto o não saber mais que sonhar, e tenho sem querer a necessidade do sonho, quero que sonheis comigo. Quero que sonhemos juntas. Se uns vivem juntos, porque não sonharão juntos outros? Há alguma diferença entre o sonho e a vida?
Quero ser a rainha do futuro que nunca haja, a irmã dos deuses que sejam amaldiçoados, a mãe virgem e estéril dos deuses que nunca serão.
A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridículo que tudo quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira, sobre os trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me serve para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a gente.
Ainda, pela frescura aberta da minha janela única, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do Castelo os caminhos legítimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E, quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente...
Nós não somos um todo materialmente construído, idêntico para toda a gente e de quem cada um apenas tenha de tomar conhecimento, como de um caderno de encargos ou de um testamento. A nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros. Mesmo o acto tão simples de "ver uma pessoa conhecida" é em parte um acto intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos sobre ele e, na figura total que imaginamos, essas noções possuem certamente um importante papel.
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
É o mistério profundo, é o queira ou não queira...
Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.
Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspondência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na verdade, mais nobre que esse entorpecimento. Em mim, o tédio é frequente, mas, que eu saiba, porque reparasse, não obedece a regras de aparecimento. Posso passar sem tédio um domingo inerte; posso sofrê-lo repentinamente, como uma nuvem externa, em pleno trabalho atento. Não consigo relacioná-lo com um estado da saúde ou da falta dela; não alcanço conhecê-lo como produto de causas que estejam na parte evidente de mim.Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida - dizer isto, ou o que seja irmão disto, pode colorir o tédio, como uma criança ao desenho cujos contornos transborde e apague, mas não me traz mais que um som de palavras a fazer eco nas caves do pensamento
O tédio... Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer - tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. E, na sensação directa, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isolamento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento.
O tédio... Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio... É como a possessão por um demónio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma.(...) Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu. O tédio... É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir... O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.
Pode ser Que não venhas mais Que não venhas Nunca mais...
Para mim a humanidade é um vasto motivo de decoração, que vive pelos olhos e pelos ouvidos, e, ainda, pela emoção psicológica. Nada mais quero da vida senão o assistir a ela. Nada mais quero de mim senão o assistir à vida. Sou como um ser de outra existência que passa indefinidamente interessado através desta. Em tudo sou alheio a ela. Há entre mim e ela como um vidro. Quero esse vidro sempre muito claro, para a poder examinar sem falha de meio intermédio; mas quero sempre o vidro.
Everytime we say goodbye, I die a little, Everytime we say goodbye, I wonder why a little, Why the gods above me, who must be in the know. Think so little of me, they allow you to go.
Levanto-me de repelão: se ao menos pudesse parar de pensar, já não seria mau. Os pensamentos são o que há de mais enjoativo. Mais enjoativos ainda que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito. E depois há as palavras no interior dos pensamentos, as palavras incompletas, os embriões de frase que reaparecem constantemente: «Tenho de acab... Eu exis... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não sou... Exis...» É algo que anda, anda, e nunca acaba. É pior que o resto, porque disso sinto-me responsável e cúmplice. Por exemplo, esta espécie de ruminação dolorosa: eu existo, sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento sou eu que o continuo, que o desenrolo. Existo. Penso que existo. Oh, que comprida serpentina, este sentimento de existir - e eu, muito devagarinho, a desenrolá-la... Se pudesse fazer com que não pensasse! Tento, consigo: tenho a impressão de que a cabeça se me enche de fumo... mas eis que tudo recomeça: «Fumo... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar. Não posso pensar que não quero pensar. Porque isso mesmo é um pensamento.» Então isto nunca mais acaba?
O meu pensamento sou eu: por isso é que não posso deter-me. Existo porque penso... e não posso deixar de pensar. Neste momento preciso - é odioso -, se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer por trás da minha cabeça... se ceder, virão pôr-se à minha frente, entre os olhos - e cedo sempre, o pensamento avoluma-se, avoluma, e fica enorme, a encher-me todo, a renovar-me a existência. A minha saliva tem um sabor açucarado, o meu corpo está morno; sinto-me desenxabido. O meu canivete está em cima da mesa. Abro-o. Porque não? De toda a maneira, sempre seria uma mudança. Assento a mão esquerda no caderno, e mando-lhe uma boa facada à palma. Gesto muito nervoso; a lâmina escorrega, o ferimento é superficial. Está a deitar sangue. E afinal? Alguma coisa mudou? Ainda assim, olho com satisfação para aquele charcozinho de sangue no papel branco, por entre as linhas que tracei há bocado...
Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro, Imitemos os persas desta história...
Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo. Poder saber pensar! Poder saber sentir!
Inelutável tendência para surpreender afinidades afetivas entre as notas de camus a O primeiro homem e os senhores de GMT. É o despensamento do dia...Tudo o que é exagerado é insignificante, mas Monsieur...era insignificante antes de o ser. Insistiu em acumular. Quem escreveu?
Uma galinha, finalmente, descobriu a maneira de resolver os principais problemas da cidade dos homens. Apresentou a sua teoria aos maiores sábios e não havia dúvidas: ela tinha descoberto o segredo para todas as pessoas poderem viver tranquilamente e bem. Depois de a ouvirem com atenção, os sete sábios da cidade pediram uma hora para reflectir sobre as consequências da descoberta da galinha, enquanto esta esperava numa sala à parte, ansiosa por ouvir a opinião destes homens ilustres. Na reunião, os sete sábios por unanimidade, e antes que fosse tarde demais, decidiram comer a galinha.
Gosto de quem gosta de absinto, gosto de quem gosta de enciclopédias e gosto de quem gosta de pensar, portanto, gosto do Sr. Henri... O senhor Henri sabe tanto que nem sempre sabe o que fazer com tanta sabedoria porque não interage com ninguém. É o exemplo perfeito do solipsista, do homem egocêntrico, arrogante e misógino. "Máquina de raciocínio", "animal do pensamento", produtor de "indústria filosófica", o senhor Henri é "cerebral em todas as direcções" e tem " quilómetros e quilómetros de inteligência dentro da cabeça".
E com a venda nos olhos, o algodão nos ouvidos, e a mola no nariz o senhor Juarroz, tendo o cuidado de manter as mãos no ar para não tocar em nada, tinha então momentos de pura felicidade de pensamento.Uma causa vale menos do que o efeito e um efeito vale menos do que um acontecimento.
Dar demasiada importância ao sonho seria dar demasiada importância, afinal, a uma coisa que se separou de nós próprios, que se ergueu, conforme pôde, em realidade, e que, por isso, perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela. As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais. O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que pena! Tenho saudades deles, porque, como os outros, passam... A realidade despensada é,afinal, mais suportável.
Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho...Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Nesse terreno do é-se, sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és.
Veio-me a consciência da futilidade muito cedo...Pensava, teorizava e sofria. Hoje passei além. O pensamento tornou-se-me alma. Sentimentalizou-se, dispersou-se por mim, perdendo o seu ser de pensamento e lógica. Hoje já não penso; sinto a reflexão. Penso com o sentimento. Raciocino-me.
Não há uma coisa que se faça por um ser (que se faça verdadeiramente) que não negue um outro.De certo modo, amar um ser é matar todos os outros... Esta é a verdade, a única verdade: sou quotidianamente negada, assassinada...
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Perfeito auto-retrato de um despensado...
Se o quadradismo dos meus versos Vai de encontro ao intelecto Que não usa o coração como expressão...
Juntando o antes, o agora e o depois...
Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Há casos em que a felicidade consiste não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar...
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.
A tua voz fala amorosa...Tão meiga fala que me esquece Que é falsa a sua branda prosa. Meu coração desentristece. Sim, como a música sugere O que na música não está, Meu coração nada mais quer Que a melodia que em ti há... Amar-me? Quem o crera? Fala Na mesma voz que nada diz Se és uma música que embala. Eu ouço, ignoro, e sou feliz. Nem há felicidade falsa, Enquanto dura é verdadeira. Que importa o que a verdade exalça Se sou feliz desta maneira?
Em certo sentido, tanto o Misticismo como a Magia são confissões de impotência.(…) Um caso simples de Misticismo é o tipo comum de intuição a que se chama «palpite» em linguagem vulgar. Uma pessoa tem um palpite de que em certo número terá o primeiro prémio da lotaria. De vez em quando o palpite sai certo, mas todos sabemos que, por cada vez que sai certo, há milhares de vezes em que sai errado. Se assim não fosse, um clube de apostas não seria o grande negócio que sempre é.
"Quem tudo quer tudo perde". Diz-se a alguém que não sabe parar e que quer mais e mais e sempre mais. Quando não se saber parar, chega-se a uma situação de rutura, em que se deita a perder tudo o que fora alcançado. O exemplo perfeito da aplicação deste provérbio são os jogos de casino: uma pessoa começa a jogar e ganha, mas, com a perspetiva de ganhar mais ainda, torna a jogar e pode ser que torne a ganhar. Se parar por aqui, tem a sua recompensa. Se não souber parar e voltar a jogar, se perder, perde tudo o que ganhou com a aposta.É isto que costuma acontecer a quem tem o vício do jogo: porque não souberam parar, enchem-se de dívidas para pagar apostas milionárias.( wikipédia)
Sempre gostou de apostar e passou a vida a fazê-lo. Sentiu-se tentada apostar no "não", mas experimentava um pavor enorme, perante a hipótese de ganhar o "sim". Resolveu aguardar serenamente. Entretanto, pensou se não estaria a ser uma vítima do seu próprio jogo: sentiu-se cobaia. Durante muitos anos não jogou, até que recomeçou, mas o parceiro, apesar de tão inexistente como a sua vida inútil, derrota- a sempre...
O jogo existe como simulacro de uma batalha...Mas o jogo é também um conjunto de símbolos e alegorias ,Cada partida é uma demonstração de qualquer coisa, mesmo da impossibilidade do jogo.... Há mais sentido no impasse do que na conclusão.
A existência, caro Walser, começa a deixar de existir...Aparentemente o que tinha acontecido deixara de acontecer Uma aposta perdida...
Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade! E nesse momento, a caminhar em plena rua, desarmado, observando de cima os seus sapatos castanhos, velhos, sapatos irresponsáveis como troçava Klober, nesse momento Walser sentia-se tão seguro — e, ao mesmo tempo ameaçador — como se avançasse dentro de um tanque pela rua.
Well he feels like an elephant Shaking his big grey trunk for the hell of it He knows that you dreaming about being loved by him Too bad your chances are slim...
O Gato e o Rato Duas crianças ficam de fora de uma roda de seis jogadores: uma é o rato e a outra é o gato. Das crianças da roda, uma é a porta e outra o relógio. O gato dirige-se à "porta":
-“Truz, truz, truz- Quem é?- É o gato.- O que queres?- Quero apanhar o rato.- O rato não está. Foi comer queijo.- A que horas volta?- Não sei. Vai perguntar ao relógio.”
O gato dirige-se ao relógio e pergunta-lhe:
- “Relógio, a que horas chega o rato?- ” O rato chega às cinco horas”. As crianças contam, em voz alta, até cinco. Então, levantam os braços e o rato começa a fugir, entrando e saindo da roda, por baixo dos braços levantados das crianças. O gato, ao ouvir o número cinco, dirige-se para a "porta" e entra na roda, perseguindo o rato a fim de o apanhar. O gato só pode entrar e sair da roda pelos lugares por onde passou o rato. O jogo termina quando o gato apanha o rato ou desiste, escolhendo-se um novo gato, um rato, uma porta e um relógio. Ah,ah...o jogo está preparado para o gato ganhar... Os ratos perdem sempre, sempre... Nem dá para ter palpites e apostar.
Durante toda a vida ,senti-me atraído por pessoas monomaníacas, fixadas numa única ideia, pois quanto mais uma pessoa se restringe, tanto mais próxima fica do infinito...construindo uma abreviatura do mundo curiosa e verdadeira.
As estações do ano são quatro:primavera,outono,inverno e verão...
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas! Que verão agradável o dos outros! Dêem-me de beber, que não tenho sede!
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.
Olha, é como o verão Quente o coração Salta de repente para ver A menina que vem...
Podemos ser amigos simplesmente Coisas do amor nunca mais Amores do passado, no presente Repetem velhos temas tão banais São coisas de momento São chuvas de verão...
De verão No campo; eu acho nele a musa que me anima:
A claridade, a robustez, a acção.
Esta manhã, saí com minha prima,
Em quem eu noto a mais sincera estima
E a mais completa e séria educação.
Cinco atos de enredados feitiços, amores e desamores entre figuras mitológicas, com um desenlace noveleco: todos acasalam e serão, certamente, felizes para sempre...
Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
No entardecer dos dias de Verão, às vezes, Ainda que não haja brisa nenhuma, parece Que passa, um momento, uma leve brisa... Mas as árvores permanecem imóveis Em todas as folhas das suas folhas E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! Fôssemos nós como devíamos ser E não haveria em nós necessidade de ilusão ... Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida E nem repararmos para que há sentidos ... Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo Porque a imperfeição é uma cousa, E haver gente que erra é original, E haver gente doente torna o Mundo engraçado. Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, E deve haver muita cousa Para termos muito que ver e ouvir .
Saudoso já deste verão que veio, Lágrimas para as flores dele emprego Na lembrança invertida De quando hei de perdê-las. Transpostos os portais irreparáveis De cada ano, me antecipo a sombra Em que hei de errar, sem flores, No abismo rumoroso. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva Diurna da ampla terra...
"E colho a rosa porque a sorte manda..."
Os dias de verão vastos como um reino Cintilantes de areia e maré lisa Os quartos apuram seu fresco de penumbra Irmão do lírio e da concha é nosso corpo Tempo é de repouso e festa O instante é completo como um fruto Irmão do universo é nosso corpo O destino torna-se próximo e legível Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem Como se em tudo aflorasse eternidade Justa é a forma do nosso corpo
"O instante é completo como um fruto..."
Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. (...) Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. (...) Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituirem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Quando as pessoas são felizes, não reparam se é Inverno ou Verão...No meio do inverno, aprendi que existia em mim um invencível verão... Nem tchekhov nem camus...
As you've always done before Giving substance to shadows...
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.
Não estou pensando em nada, e que bom!
Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.
O amor não vê com os olhos, vê com a mente; por isso é alado, é cego e tão potente.
Quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta ela é cheia de amor e carinho...Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranquilo curso o verdadeiro amor
O meu país sabe as amoras bravas no verão.Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos,reparo que também no meu país o céu é azul.
No entardecer dos dias de Verão, às vezes, Ainda que não haja brisa nenhuma, parece Que passa, um momento, uma leve brisa Mas as árvores permanecem imóveis Em todas as folhas das suas folhas E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! Fôssemos nós como devíamos ser E não haveria em nós necessidade de ilusão Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida E nem repararmos para que há sentidos ...
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa E espreita para o calor dos campos com a cara toda, Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa Na cara dos meus sentidos, E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber Não sei bem como nem o quê... Mas quem me mandou a mim querer perceber? Quem me disse que havia que perceber? Quando o Verão me passa pela cara A mão leve e quente da sua brisa, Só tenho que sentir agrado porque é brisa Ou que sentir desagrado porque é quente, E de qualquer maneira que eu o sinta, Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...
Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas — uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério. Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituirem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
O céu de todos os Invernos Cobre em meu ser todo o Verão... Vai para as profundas dos infernos E deixa em paz meu coração! Por ti meu pensamento é triste, Meu sentimento anda estrangeiro; A tua ideia em mim insiste Como uma falta de dinheiro. Não posso dominar meu sonho.Não te posso obrigar a amar. Que hei-de fazer? Fico tristonho. Mas a tristeza há-de acabar. Bem sei, bem sei... A dor de corno... Mas não fui eu que lho chamei. Amar-te causa-me transtorno, Lá que transtorno é que não sei...
Saudoso já deste Verão que vejo.Lágrimas para as flores dele emprego Na lembrança invertida De quando hei-de perdê-las. Transpostos os portais irreparáveis De cada ano, me antecipo a sombra Em que hei-de errar, sem flores, No abismo rumoroso. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva Diurna da ampla terra.
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã… Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,E assim será possível; mas hoje não…Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado,O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico… Esta espécie de alma… Só depois de amanhã… Hoje quero preparar-me, Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte… Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos… Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã… Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro… Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã… Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância… Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático Serão convocadas por um edital… Mas por um edital de amanhã… Hoje quero dormir, redigirei amanhã… Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã… Tenho sono como o frio de um cão vadio.Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã… Sim, talvez só depois de amanhã…
And when you fell you're near the end And there's a stranger where once was a friend And you are left without a word Only the whispers that you've overheard...