"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas."
Nos últimos dias de dezembro de 1959, Albert Camus escreveu quatro cartas de amor a quatro mulheres diferentes, depois de umas férias com a mulher e os filhos:
Dia 29 : “Esta terrível separação fez-nos pelo menos sentir como nunca a constante necessidade que temos um do outro.”
Dia 30 : “Só para dizer-te que chego Terça-Feira de carro. Faz-me tão feliz a ideia de ver-te outra vez que me rio enquanto escrevo.”
Dia 31 : “Vejo-te na Terça-Feira, meu amor, e já te beijo antecipadamente e te bendigo desde o fundo do meu coração.”
Uma outra carta estabelecia as datas de um encontro prometido em Nova York...
"Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas."
“o amor é seres para mim a faca com que remexo as minhas entranhas”
A ti, por sua causa e tua, uma pessoa pode dizer a verdade como a mais ninguém, mais até, pode saber a sua verdade directamente de ti.
"As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas."
«Meu querido Antoine.»
Sorrio: não, decerto. Anny, decerto, não escreveu «meu querido Antoine».
Há seis anos -acabávamos de nos separar de comum acordo - decidi partir para Tóquio. Escrevi-lhe algumas palavras. Já não podia chamar-lhe «meu querido amor»; comecei, muito inocentemente, por «minha querida Anny».
«Fiquei admirada com o teu à-vontade», respondeu-me ela; «nunca fui, nem sou, a tua querida Anny. E tu, peço-te que acredites que não és o meu querido Antoine. Se não sabes como me hás-de chamar, não me chames coisa nenhuma. Mais vale assim.»
Tiro a carta da carteira. Anny não escreveu «meu querido Antoine». No fim da carta também não há nenhuma despedida delicada: «Preciso de te ver.» Nada que possa fixar-me quanto aos seus sentimentos. Não posso queixar-me: reconheço nestes modos o seu amor pelo perfeito. Ela queria sempre realizar «momentos perfeitos».
"Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."
( Percebi, subitamente, que nunca foste meu amigo, unicamente me permitiste que eu o fosse...)
Minha querida,
Escrevo-te outra vez porque me sinto sozinho e porque me perturba ter um diálogo contigo na minha cabeça, sem que tu possas saber nada, ou ouvir, ou responder…
A ausência temporária faz bem, porque a presença constante torna as coisas demasiado parecidas para que possam ser distinguidas. A proximidade diminui até as torres, enquanto as ninharias e os lugares comuns, ao perto, se tornam grandes. Os pequenos hábitos, que podem irritar fisicamente e assumir uma forma emocional, desaparecem quando o objecto imediato é removido do campo de visão. As grandes paixões, que pela proximidade assumem a forma da rotina mesquinha, voltam à sua natural dimensão através da magia da distância. É assim com o meu amor. Basta que te roubem de mim num mero sonho para que eu saiba imediatamente que o tempo apenas serviu, como o sol e a chuva servem para as plantas, para crescer.
No momento em que tu desapareces, o meu amor mostra-se como aquilo que na verdade é: um gigante onde se concentra toda a energia do meu espírito e o carácter do meu coração. Faz-me sentir de novo um homem, porque sinto um grande amor. (…) Não o amor do homem Feuerhach, não o amor do metabolismo, não o amor pelo proletariado – mas o amor pelos que nos são queridos e especialmente por ti, faz um homem sentir-se de novo um homem.
Há muitas mulheres no mundo e algumas delas são belas. Mas onde é que eu podia encontrar um rosto em que cada traço, mesmo cada ruga, é uma lembrança das melhores e mais doces memórias da minha vida? Até as dores infinitas, as perdas irreparáveis… eu leio-as na tua doce fisionomia e a dor desaparece num beijo quando beijo a tua cara doce.
Adeus, minha querida, beijo-te mil vezes da cabeça aos pés,
Sempre teu,
Karl
Manchester, 21 de Junho de 1865
"Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas."
Meu anjo, meu tudo, meu próprio ser...
Esqueces-te tão facilmente que eu vivo por ti e por mim. Se estivéssemos completamente unidos, tu sentirias essa dor assim como eu a sinto. [...] Nós provavelmente devemo-nos ver em breve, entretanto, hoje eu não posso dividir contigo os pensamentos que tive nos últimos dias sobre minha própria vida – Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum… O meu coração está cheio de coisas que eu gostaria de te dizer – ah – há momentos em que sinto que esse discurso é tão vazio – Lembra-te da minha verdade, o meu único tesouro... Teu fiel, Ludwig
"A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas"
Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanhã pode ser que eu o não veja.
Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata.(...)
Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo. Escutarás com glória a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
A hora em que leres esta carta...
Ouve-me!, se é que ainda Me podes tolerar. Neste papel rasgado Das arestas da minh'alma, Ai!, as absurdas intrigas Que te quisera contar! Ai os enredos, Os medos, E as lutas em que medito, Quer dê, quer não dê por isso, Sem descansar Um momento...! Quem sofre - pensa; e o tormento Não é sofrer, é pensar.
"(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas)".
Meu querido Bébézinho:
Hoje não recebi carta tua, mas – é claro – não me admirei, porque já sabia pela tua carta de hontem (a que me entregaste no carro) que não terias naturalmente tempo de me escrever. Como esta carta te chega ás mãos amanhã de manhã, quero mandar ao meu Bébé muitos e muitos parabens, muitos beijinhos, e desejar que ella seja muito e muito feliz,que muitas vezes o anniversario se repita com o Bébé sempre contente. O engraçado era que no anno que vem eu já te pudesse dar estes parabens de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha?
Muitos beijos, muitissimos do teu, muito teu
Fernando, junho de 1920
Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais do que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o «Prince Charmant» vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!
Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projetos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.
I memorize every line. I kiss the name that you sign. And darling, then I read again Right from the start, Love letters straight from your heart...
As duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a última., disse petrarca, entendido nesta matéria.
Uma carta de amor(?)não ridícula...
Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco.Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor. Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma».(...) Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Coração, cabeça e estômago...
Amor e racionalidade, uma falsa questão? O nosso cérebro é um conjunto de estruturas que são chamadas a agir em função das diferentes situações que a vida nos oferece.
O primeiro cérebro tem funções ligadas aos instintos de sobrevivência física, como comer, economizar energia, esconder-se, fugir e também gerar o impulso sexual, pois dele depende a sobrevivência da espécie.O segundo, o sistema límbico, comanda os sentimentos e as emoções. Graças a ele somos capazes de amar, odiar, sentir medo, raiva, saudade, prazer, ambição, ciúmes. O terceiro, o córtex cerebral, concentra a maior quantidade de neurónios, sendo nessa camada que se realiza conjunto de reações químicas que chamamos pensamento, lógica, razão.
Então o amor é função exclusiva do sistema límbico, a camada intermediária, superior aos instintos, mas inferior ao pensamento? Não. O amor pode começar ali, mas ultrapassa esses limites e contamina todo o cérebro, pedindo a participação da nossa parte mais primitiva, animal, e da nossa função mais desenvolvida, racional. Sem isso, o amor não se sustenta, deixa de ser um prazer e passa a incomodar como um corpo estranho.
Caius Valerius Catullus
Infeliz Catulo, deixa-te de loucuras,
o que pereceu considera perdido.
Outrora brilharam-te dourados sóis
quando ias aonde te levava a amada
lá muitos deleites havia que bem
querias tu e ela não queria mal.
É certo, brilharam-te dourados sóis...
Agora ela não quer: tu, louco, não queiras
nem busques quem foge nem vivas aflito,
porém, duramente suporta, resiste.
Vai, minha amada, adeus, Catulo já resiste,
não te vai implorar nem à força exigir-te
mas, quando ninguém te quiser, vais sofrer.
Ai de ti, amaldiçoada, que vida te resta?
Quem TE vai ver? PAra quem te enfeitarás?
quem vais amar? A quem se dirá que pertences?
Quem hás de beijar? Que lábios vais morder?
Mas tu, Catulo, resoluto, resiste.
Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e desprezemos os rumores dos velhos mais severos,
Os dias podem morrer ou renascer, mas a nós
quando cessar a nossa breve luz,
só nos resta dormir uma perpétua noite.
Dá-me mil beijos, depois outros cem, dá-me
muitos mil, depois outros sem fim, dá-me
mais mil ainda e, por fim, mais cem – então,
quando dermos beijos aos milhares,
Misturá-los-emos para que ninguém
nos possa invejar, quando souber, de tantos beijos.
"Não há baliza racional para as belas, nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa." Camilo Castelo Branco
Hoje já não escrevo cartas a amigos imaginários, hoje só escrevo cartas imaginárias a amigos inexistentes...Imaginárias porque não chegam a ser escritas, mas existem...Inexistentes porque são imaginários...Um dia, passo a escrito as minhas cartas imaginárias...
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
" Uma das melhores novelas satíricas em língua portuguesa. Nela Camilo desvenda os mistérios duma sociedade que se compraz na vulgaridade e na hipocrisia , praticando todo o género de excessos e orientando toas as suas energias para a cupidez, a brutalidade e ânsia de ascensão social."
«A rapidez com que foi consumida a primeira edição deste romance, é um dos raros exemplos que, infelizmente para as letras de Portugal, podemos citar. Não se há-de atribuir ao esmero do trabalho, nem aos dotes de fantasia deste romance, a aceitação que o público lhe deu. Muitos outros livros do mesmo autor, reputados superiormente pela crítica, esperaram muito maior espaço de tempo o triunfo - verdadeiro triunfo entre nós - da republicação. Seria, pois, a diferença que vai deste aos outros em matéria de resguardo, moralização, honestidade e melindre? Decidam os leitores duns e doutros, que a nós é indiferente o parecer, logo que o supremo juiz de gosto decidiu, bem ou mal, a questão. [...]» (Camilo C. Branco, do préfácio à 2.ª edição)
Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo ótico. A imagem objetiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas diletas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.(Página 122, capítulo VI)
Viver segundo a razão, alvitre que os filósofos pregoam, é bom de dizer-se e desejar-se, mas enquanto os filósofos não derem uma razão a cada homem, e essa razão igual à de todos os homens, o apostolado é de todo inútil. Melhor avisados andam os moralistas religiosos, subordinando a humanidade aos ditames de uma mesma fé; todavia, e sem menoscabo dos preceitos evangélicos que altamente venero, parece-me que o homem, sincero crente, e devotado cristão, no meio destes mouros, que vivem à luz do século, e meneiam os negócios temporais a seu sabor, tal homem, se pedir a seu bom juízo religioso a norma dos deveres a respeitar, e dos direitos a reclamar, ganha créditos de parvo, e morre sequestrado dos prazeres da vida, se quiser poupar-se ao desgosto de ser apupado, procurando-os.
Como sabem, eu nunca andei em boas-avenças com a religião de meus pais; e por isso me abstenho de lhe imputar a responsabilidade das minhas quedas, seja dos pináculos aéreos onde o coração me alçou, seja do raso da razão, onde as quedas, bem que baixas, são mais igminiosas. Eu comparo o cair das alturas do coração à queda que se dá dum garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos. Ora, o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que damos dum ignóbil burro. O cavalo despenha-nos e, com as crinas eriçadas, resfolga e arqueia-se com gentis corcovos. O burro, depois que nos sacode pelas orelhas, não é raro escoicear-nos. É o mesmo, se a comparação vos quadra, nas quedas do amor e nas quedas do raciocínio. Das primeiras erguemo-nos sacudindo as folhas secas de umas ilusões, enquanto outros gomos vêm já desabrolhando na alma para mais tarde reflorirem. Das segundas não há senão lama a sacudir e muita pisadura a curar com o bálsamo do tempo e duma vida brutalmente desapegada de tudo que ultrapassa o momento da sensação.
Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
O poema tem mais pressa que o romance,
Asa de fogo para te levar:
Assim, pois, se houver lama que te lance
Ao corpo quente algum, hei-de chorar.
Deus fez o poeta por que não descanse
No golfo do destino e amores no mar:
Vem um, de onda, cobri-la — e ela que dance!
Vem outro — e faz menção de me enfeitar.
Os outros a conspurcam, mas é minha!
Chicoteá-la vou com a própria espinha,
Estreitam-me de amor seus braços mornos,
Transformo seus gemidos em meus uivos
E torno anéis dos seus cabelos ruivos
Na raspa canelada dos meus cornos.
Ele representava também a minha personalidade. Ele vivia a minha personalidade que ainda não pudera ser vivida, e por isso estrebuchava consigo própria. O que lutava com ele não era, talvez, senão a minha personalidade adquirida — as convenções que em mim já se haviam tornado natureza... Ai, eu já estava a pensar com demasiada facilidade para me não falsear! Ele e eu..., ele e eu
" Five o´clock tea"
Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia. A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
trouxe para este dia; A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―
Que é assim a vida…
domingo, 15 de abril de 2018
Lamentos e cruzes...
I don't know why nobody told you How to unfold your love I don't know how someone controlled you They bought and sold you...
À leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado. Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto.
Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas...
Darkness at the door to greet me...
Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato
Lamento por todos nós...
Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.
Lamento pela Síria
No século VIII antes de Cristo, a Síria tentou coligar-se com Israel para conseguir assim resistir ao poderio imperialista da Assíria. No entanto, no ano de 732 a.C. a cidade de Damasco foi conquistada e destruída pelo rei assírio. A população civil sofreu as piores crueldades e indignidades. Crianças foram mortas à frente das mães, que por sua vez foram violadas e levadas para a escravatura. A população masculina foi morta ou acorrentada e deportada.
Sobre isto que aconteceu em 732 a.C., o autor da primeira parte do livro de Isaías escreveu esta «profecia», já depois dos factos ocorridos:
«Eis que Damasco será removida dentre as cidades
E se tornará uma ruína» (Isaías 17:1 LXX; cito o Volume III da minha tradução da Bíblia).
Embora estas palavras do profeta não tenham rigorosamente nada a ver com o que se passa hoje na Síria - ao contrário do que alegam alguns evangélicos fundamentalistas que as têm citado para demonstrar que a Bíblia prevê o que está a acontecer hoje - a verdade é que se está novamente a passar na Síria um horror que não é só secular: é milenar.
O horror da guerra é milenar; as crueldades impostas a inocentes, vítimas dos imperialismos de machos drogados com a sua masculinidade tóxica: tudo isto é uma tragédia humana que se repete hoje. No século VIII a.C. o nome tóxico era o do rei assírio Tiglath-Pileser; hoje os nomes tóxicos são Assad, Trump, Putin, etc. Os sírios de hoje, como os de há 2800 anos, sofrem na pele o horror da «vã cobiça», da «glória de mandar».
A Síria já foi sucessivamente conquistada pelos impérios dos assírios, persas, gregos, romanos, novamente persas, árabes... hoje sofre nas mãos de um criminoso chamado Assad e como foco de embate entre os impérios russo e americano. Pobre, pobre Síria.
«Ao cair da noite haverá lamentação» (Isaías 17:14).
A premissa embala-nos na direção de um thriller, mas a estranha missão que é imposta ao protagonista desta história desvia-nos por outros caminhos. O autor dispõe poucas peças no tabuleiro do jogo logo no prólogo: esta é a história de Erik Gould, um jazzman que respira música por todos os poros, e talvez a tenha até por dentro, na própria alma. A CIA estuda-o e, ao fim de inúmeros relatórios, chega à conclusão de que ele é a pessoa ideal para uma missão com o nome de código Jazz Ambassadors, urdida para levar ao bloco de Leste comunista a influência libertadora ocidental através da música. Essa operação diplomática, expliquemos desde já, existiu mesmo, e foi prolongada para lá da Guerra Fria.
Na verdade, Afonso Cruz engana-nos com esta missão e, em Nem Todas as Baleias Voam, acaba por nos guiar para temas como o amor e a morte, a arte ou a solidão. Gould partilha com o filho, Tristan, um dom insólito: a sinestesia. A ele dá-lhe para ver música por todo o lado e senti-la com outros sentidos, atribuindo cores às notas. O filho vê os sentimentos, os seus e os dos que o rodeiam, na forma de pessoas. Outras intrigas se cruzam numa teia de considerável imaginação. Erik lamenta o desaparecimento súbito do amor da sua vida, a russa Natasha, mãe de Tristan. Na verdade, Natasha será o móbil de um grande complô que vai acompanhar a missão do músico ao Leste...
Neste ponto é preciso fazer uma travagem e parar com os spoilers. O melhor é ficar com um pequeno exemplo da narrativa, quando os agentes da CIA que analisam as potencialidades de Gould para vir a ser um “embaixador do jazz” se deparam com uma das muitas surpresas que o protagonista tem para lhes dar. O músico tinha por hábito cortar-se para se infligir dor. Um dos agentes fala do seu corpo coberto de cicatrizes: “A meu ver”, diz ele ao superior, “completamente escusadas”. Fazia-o, continua o espião, “para se libertar da música”. O outro, perplexo, quis saber mais. A resposta, bem ao estilo de Afonso Cruz, é insólita: “Achava que estava a abarrotar de música, que ela já não lhe cabia no corpo, e cortava-se como quem faz uma sangria, para se libertar.” - in Visão
A realidade é apenas uma fantasia bem penteada...
Há metades que funcionam. Por exemplo, as meias doses nos restaurantes. Mas há outras metades que são o maior desastre, como um cirurgião que interrompe a operação a meio. E eu, sem a Natasha.
Se Tristan soubesse verbalizar as suas emoções, seria assim: Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mães e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. Mas Tristan não saberia verbalizar as suas emoções, portanto: ia comer primeiro.
«Cruz faz a apologia da escrita labiríntica, em que realidade e ficção se confundem; mas também nos diz que a visão do mundo é uma acumulação de visões parciais sobrepostas. E algumas delas imaginadas.»
Público
Eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente.
Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade.”
Sabe, sargento, a loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea. Quando dá a uma pessoa só, interna-se essa pessoa.
A sabedoria vem com a idade, com a velhice, e suspeito que nos come os órgãos, pois quando mais sabemos das coisas, mais o fígado se queixa, mais os rins têm insuficiência, mais o coração pára. A sabedoria come tudo.”
Uma criança recém-nascida, julga-se infinita. Não sabe onde é que acaba, onde é que tem os seus limites. Depois, descobre os pés e fica fascinada. É um bebé que se depara com os seus limites: Ah, é então aqui que finda o meu corpo. E, aos poucos, o mundo vai-se tornando maior, porque a criança se vai tornando mais pequena: antes era tudo e agora não vá além dos pés. Vai-se contraindo. O ego vai-se arrepiando num pontinho e deixando espaço para que as coisas possam existir à sua volta. Surge o Eu e o Tu. A criança cria essa distância, e o melhor que se pode esperar é que essa distância mantenha alguma proximidade. Mas tudo isto faz parte do crescimento, tal como faz parte do encolhimento e da expansão do universo.”
Numa sociedade, se houver espaço, nunca há conflito.
Rosa nunca se sente única. Isso nunca lhe acontece na vida. Todos os seus momentos são minimizados com um "isso também já me aconteceu". A vida de Rosa é partilhada por todos e não tem nada de único. Todos os seres humanos são únicos, menos Rosa. Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade.
Diz o judaísmo que o inefável nome de Deus é composto por quatro letras. Que esse nome é um tabu, que impronunciável. Digo-vos que eles têm razão, e que isto é ciência da mais profunda. As letras que compõe o nome de Deus são quatro: A, T, C, G. Adenina, timina, citosina e guanina. É isso que faz o nosso código, um código gigante, uma palavra tão grande que é impronunciável.”
Uma relação de duas pessoas converteu-se numa de três, numa coisa mais triangular. Só uma relação que consegue formar um polígono consegue sobreviver, pensava Borja. Quando assenta em dois pontos, não resiste ao tempo, é um segmento de recta muito frágil. É um pontinho a olhar para outro pontinho, não tem a solidez do triângulo e, muito menos, da circunferência. Parte-se como um palito.”
Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas.
― Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja
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“A vida das pessoas acaba assim e Matilde nem sequer tem consciência de que morreu uma das suas mortes. De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.”
O tempo, nas relações, não anda necessariamente de trás para a frente, do passado para o futuro. É fácil verificar que uma mulher nova pode ser muito mais velhas do que um velho, e que um homem de idade impressionante pode ser uma criança. Nas relações, o tempo comporta-se de maneira diferente. O único relógio que mede o passar destes tempos são os sentimentos.”
As memórias são as cinzas das palavras, são mais pesadas do que os pensamentos e acabam por se deixar cair pelo corpo adentro, cinzeiro abaixo. As memórias devem ser procuradas, não na cabeça encanecida, mas no corpo. As memórias enraízam-se nos ossos, na pele, nas rugas.
- Ari, quando o vejo, lá no escuro (abro sempre uma fresta nos cortinados para espreitar), é uma luz na minha vida.
- É da lanterna...
- A sua lanterna ilumina-me a vida.
- É muito simpática. Eu nem mereço, só aponto a lanterna para o lugar...
- Só aponta a lanterna? Quem dera que na nossa vida houvesse um arrumador como o Ari, a apontar a lanterna para o lugar a que nos deveríamos dirigir, a iluminar o nosso caminho. Mas não, não temos ninguém. A minha mãe, que Deus a tenha, esperava isso do Senhor Jesus, mas nunca lhe vi a lanterna nem o vi arrumar coisa nenhuma.”
Margarida atingira os seus cinco anos. Uma idade fácil para as crianças, é aquela idade em que basta mostrar a mão aberta para dizer há quanto tempo calcorreia este mundo inabitado por Deus.
Melhoramos uma religião se o altar voltar a ser a mesa da refeição, tal como aconteceu na sua génese. Partilhar o pão para que, podendo todos ver a suas necessidades básicas cumpridas, se possam dedicar a encontrar Deus. Há dois tipos de Deus: o que nasce de barriga vazia, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir. É feito de argumentos. Nasce de barrigas cheias. No primeiro acreditamos com o corpo, com o fígado, com o estômago, com os rins e com o sangue. No segundo acreditamos com a cabeça.
“Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir. É feito de argumentos. Nasce de barrigas cheias. No primeiro, acreditamos com o corpo, com o fígado, com o estômago, com os rins e com o sangue. No segundo acreditamos com a cabeça. O primeiro tem mãos, unhas encardidas, barbas e relâmpagos no voz. O segundo não tem forma, nem corpo, nem nome.
Depois da suas preces, o milagre havia acontecido: a Virgem, para não ir contra o livre-arbítrio, tão fundamental para a teologia da Igreja, decidira que, na impossibilidade de mudar o carácter de uma pessoa, apenas restaria a solução de a substituir, mas com as mesmas características que essa mesma pessoa deveria ter.”
Miss Whittemore sentia, em criança, que aquelas florinhas do campo eram capazes de atar as pessoas umas às outras, como as letras compões palavras, e imaginou fazer isso pelo mundo todo. Depois foi percebendo que o mundo não acabava nos muros da feitoria, como sempre achara. Então, entrou numa igreja e deixou uma flor no altar: Deus que distribuísse pelos homens.”
A natureza enche chouriços, não há espaços vazios nas suas tripas. (...) Há muita incompetência na forma como a natureza preenche os espaços, falta-lhe capacidade para se alojar nos espaços metafísicos.
Não confundas a vida com o teatro, dissera-me Rosa; e eu ouvia as mesmas palavras na boca da historiadora ao dizer-me que não devia confundir o que nasce da investigação histórica com o que realmente se passou, numa determinada época. A história do passado, somos nós que a fazemos, e não os seus protagonistas; e eu pensava nisto como se fosse uma aberração, pondo em causa todos os livros que lemos e por onde estudámos a evolução do mundo e das sociedades. Seria tudo uma pura ficção? Então, disse-lhe, a verdadeira história está nos romances, porque aí é onde o homem projecta a sua realidade, entre o que viveu e o que sonhou, sem qualquer preocupação de construir uma cena dominada pela verosimilhança que os acontecimentos conferem ao que se escreve.
Tal como, através do cristal, o olhar não encontra obstáculos para atingir o centro da própria transparência do objecto, e parece que passa para o outro lado numa ilusão óptica de transcendência, também os corpos ganham essa imateralidade onde é mais importante a sua função do que a sua essência.
Passos da Cruz- Fernando pessoa- é uma obra simbolista - mesmo que lhe chamem paúlica, sensacionista ou outra coisa qualquer.
Não sou eu quem descrevo.Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu sem fim.
Que importa o tédio que dentro de mim gela,
E o leve outono,e as galas,e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Como os sonhados pálidos de cetim?
Disperso...E a hora como um leque fecha-se....
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio?A mágoa?A vida?O sonho?Deixa-se...
E,abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado....
João da Cruz, o pai de Mariana, é uma personagem sensata e equilibrada, a única que possui traços realistas. Ferreiro de profissão e transformado em assassino numa briga, João da Cruz consegue de Domingos Botelho, pai de Simão, a liberdade. Em nome dessa dívida de gratidão, torna-se protetor do herói com palavras sempre oportunas, lúcidas, estratégicas, e com atos corajosos e violentos, quando necessário. A sua linguagem cheia de provérbios e ditados populares, a simplicidade de sua vida, somadas ao amor que dedica á filha, por quem vive, desfazem aos olhos do leitor os crimes que comete e os substituem por uma honradez, uma bondade inata. forte e viril, que nos parecem representativas da visão do autor a respeito das coroas rurais em Portugal.
sábado, 30 de dezembro de 2017
Náusea...Queda... Náusea
Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; pelo contrário, estou esmagado. Somente, atingi o meu fito: sei o que queria saber; compreendi finalmente tudo o que me vem sucedendo desde o mês de Janeiro. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a Náusea sou eu.
E pronto; o meu passado é apenas um buraco enorme. O meu presente, esta criada de corpete azul, aquele homenzinho que está a sonhar ao pé do balcão. Tenho a impressão de ter aprendido nos livros tudo o que sei da minha vida.
As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite.Cinco e meia,Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir.
A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
As cartas caem, rodopiando, no pano de lã. Depois umas mãos, com anéis nos dedos, vêm apanhá-las, arranhando o pano com as unhas. As mãos fazem manchas brancas no pano, têm um aspecto assoprado e poeirento. As cartas continuam a cair, as mãos vão e vêm. Que ocupação esta! Não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que eles fazem isto simplesmente para encher as suas horas vagas. Mas o tempo é largo de mais, não se deixa encher. Tudo quanto mergulha nele amolece e dá de si...
Some of these days You're gonna miss me, honey Some of these days You gone feel so lonely ...You may even miss me, honey When I'm away...
O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se. Bruscamente: era quase penoso tornar-se assim duro, rutilante. Ao mesmo tempo a duração da música dilatava-se, inchava como uma tromba marinha. Enchia a sala com a sua transparência metálica esborrachando contra a parede o nosso tempo miserável Agora estou dentro da música. Nos espelhos rolam bolas de fogo; cercam-nos anéis de fumo, que giram, encobrindo e descobrindo o sorriso duro da luz. O meu copo de cerveja encolheu, está acalcado contra a mesa: tem um ar de coisa densa, indispensável. Quero agarrá-lo,, tomar-lhe o peso, estendo o braço... Meu Deus! Eis o que mudou foram sobretudo os meus gestos. O movimento do meu braço desenvolveu-se como um tema...
Uma grande sombra magra surge bruscamente por trás de mim. Estremeço. «O senhor desculpe, eu não queria incomodá-lo. Vi seus lábios mexer. Estava com certeza a repetir frases do seu livro.» A pessoa ri. «Andava à procura de algum verso. Olho para o Autodidata, estupefacto. Mas ele parece surpreendido com a minha surpresa: «Sim... Não se deve evitar com cuidado que fiquem versos no meio da prosa?» Baixei ligeiramente na sua estima. Pergunto-lhe o que faz ele aqui, a estas horas. Responde que o patrão lhe deu folga e que veio logo para a Biblioteca; que não vai almoçar, ficará a ler até à hora de fechar. Deixei de lhe prestar atenção, mas com certeza que ele se afastou do assunto primitivo, porque ouço de súbito: «... ter a felicidade como o senhor de andar a escrever um livro.» Tenho de responder alguma coisa. «Felicidade...», digo eu num tom dubitativo. Ele engana-se quanto ao sentido da resposta e corrige rapidamente: «Talento, queria eu dizer, talento!» Subimos ambos a escada. Não tenho vontade de trabalhar. Alguém deixou uma Eugénie Grandet em cima da mesa; o livro está aberto na página vinte e sete. Agarro nele maquinalmente, começo a ler a página vinte e sete depois a página vinte e oito: não tenho coragem para começar pelo princípio. O Autodidacta dirigiu-se para as prateleiras da sala, a passos apressados; volta com dois volumes que larga em cima da mesa, com um ar de cão que encontrou um osso. «Que está o senhor a ler?» Parece que sente relutância em mo dizer: hesita um pouco, rebola os grandes olhos espantados, depois mostrou-me os livros com um ar de constrangimento. São A Turfa e a Turfeira, de Larbalétrier, e Hitopadèsa ou a Instruçõ Util, de Lastex. E então? Não vejo o que o perturba: são leituras que me parecem muito decentes. Por descargo de consciência, folheio a Hitopadèsa, e não encontro lá nada que não seja elevado.
«Tout est grand dans ce célèbre roman, sans que rien ne bouge. Eugénie est une sorte de sainte selon l'homme, toujours fidèle à une même pensée, mais toute naturelle. [...] Eugénie est le premier personnage de ce drame d'amour [...] En Grandet, ce rocheux Grandet, il y a une source de tendresse émouvante, quand il se cache pour voir sa fille à la toilette. [...] Au rebours on trouvera dans Eugénie tous les stratagèmes du cœur, et un vrai courage à affronter le terrible homme aux gants de cuir. On a tout dit sur Grandet. On a moins remarqué ce mot de reine, lorsque Eugénie se trouve maîtresse d'une immense fortune et assiégée d'intrigues. Elle répond : « Nous verrons cela» comme son père faisait. [...] Ainsi l'âme de Grandet finit par être sauvée. Balzac laboure la terre.»
«Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.»
O Autodidata, ao ver que estou a escrever, observa-me com uma concupiscência respeitosa. De vez em quando levanto um pouco a cabeça, vejo o imenso colarinho postiço, alto e sem pontas, donde lhe sai o pescoço de frango. Traz um fato coçado, mas nem uma sombra lhe polui a alvura da roupa. Acaba de tirar da mesma prateleira outro volume, e consigo ler-lhe o título, mesmo de pernas para o ar: O Campanário de Caudebec, crónica normanda, por Julie Lavergne. As leituras do Autodidata desconcertam-me sempre. De súbito, os nomes dos últimos autores cujas obras ele consultou vêm-me à memória: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; acabo de perceber qual é o método do Autodidata: vai-se instruindo por ordem alfabética.
Contemplo-o com uma espécie de admiração. Que vontade não lhe será precisa para realizar lenta, obstinadamente, um plano de tão vasta envergadura? Um dia, há sete anos (disse-me ele que já estudava havia sete anos), entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inumeráveis livros que cobrem as paredes e disse, provavelmente, mais ou menos como Rastignac: «Agora nós, Ciência humana.» Depois foi buscar o primeiro livro da primeira prateleira da extrema direita; abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e de terror, unido a uma decisão inabalável. Vai agora na letra L. Do J passara ao K, do K passou ao L. Saltou brutalmente do estudo dos coleópteros para o estudo da teoria dos quanta, duma obra sobre Tamerlão para um panfleto católico contra o darwinismo: nunca se atrapalhou. Leu tudo; armazenou na cabeça metade do que se sabe sobre a parteno-genese, metade dos argumentos contra a vivissecção. Atrás dele, adiante dele, há um universo. E aproxima-se o dia em que dirá para consigo, fechando o último volume da ultima prateleira da extrema esquerda: «E agora?»
Nunca tive tão nitidamente como hoje o sentimento de ser o meu corpo, sem dimensões secretas, de me reduzir aos pensamentos leves que sobem dele como bolhas. Construo as minhas recordações com o meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado lá. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir da minha prisão. Batem à porta. É o Autodidata. Tinha-me esquecido: prometi mostrar-lhe as fotografias das minhas viagens.
Se um dia eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu carácter... E à volta compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto, física e moralmente, que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.»
«Que espécie de aventuras?», pergunto-lhe surpreendido.
«De todas as espécies. Tomar um comboio que não é o nosso. Descer numa cidade desconhecida. Perder a carteira, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Acho que se podia definir a aventura assim: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser forçosamente extraordinário. Fala-se da magia das aventuras,»
Não tive aventuras. Sucederam-me histórias, acontecimentos, incidentes, tudo o que se quiser. Mas aventuras, não. Não é uma questão de palavras; começo a compreender. Há qualquer coisa que eu prezava mais que tudo o resto - sem dar bem por isso. Não era o amor, oh, não!, nem a glória, nem a riqueza. Era... Enfim, tinha imaginado que, em certos momentos, a minha vida podia ganhar uma qualidade rara e preciosa. Não eram precisas circunstâncias extraordinárias: tudo quanto eu pedia era um pouco de rigor. A minha vida presente não tem nada de brilhante: mas, de tempos a tempos, por exemplo, quando, nos cafés, se ouvia música, eu revia o passado e dizia para comigo: «Outrora, em Londres, em Mequinez, em Tóquio, conheci momentos admiráveis, tive aventuras.» É esta possibilidade que agora me é negada. Acabo de descobrir, lentamente, sem razão aparente, que andei dez anos a mentir a mim próprio. As aventuras estão nos livros. E, bem entendido, tudo o que se conta nos livros pode suceder realmente, mas não da mesma maneira. Ora, é precisamente esta maneira de suceder que eu prezava tanto.
SÁBADO, MEIO-DIA.
O Autodidata não me viu entrar na sala de leitura. Estava sentado à ponta da mesa do fundo; tinha um livro aberto diante dele, mas não lia. Estava a olhar, sorrindo, para o vizinho da direita, um colegial muito sujo que vem muitas vezes à Biblioteca. O outro deixou-se contemplar um momento, depois deitou-lhe a língua de fora, fazendo uma horrível careta. O Autodidata corou, voltou precipitadamente ao seu livro e ficou absorto na leitura.
Reconsiderei as minhas reflexões de ontem. Ontem estava seco de todo: era-me indiferente que não houvesse aventuras. O que eu queria saber era apenas se não podia haver.Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.
Decididamente, o sentimento de aventura não vem dos acontecimentos: a prova está tirada. É antes a maneira como os instantes se encadeiam. Eis, creio eu, o que se passa: bruscamente sente-se que o tempo corre, que cada instante conduz a outro instante, esse outro a um terceiro, e assim sucessivamente; que todos os instantes se aniquilam, que é inútil tentar reter algum, etc., etc. E então atribui-se essa propriedade aos acontecimentos que nos aparecem dentro dos instantes; o que pertence à forma é trasladado para o conteúdo. Em suma, esse famoso correr do tempo, fala-se muito dele, mas quase não se vê. Vê-se uma mulher, pensa-se que ela será velha um dia, somente não a vemos envelhecer. Mas em certos instantes parece que a vemos envelhecer e que nos sentimos envelhecer com ela: é o sentimento de aventura. Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo. O sentimento de aventura seria, muito simplesmente, o da irreversibilidade do tempo. Mas porque é que não o temos constantemente? O tempo não será constantemente irreversível?
Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata ia a sair. Precipitou-se sobre mim: «Tenho de lhe agradecer. As suas fotografias fizeram--me passar algumas horas inesquecíveis.» Ao vê-lo tive um momento de esperança: a dois, talvez fosse mais fácil atravessar aquele dia. Mas, com semelhante criatura, só aparentemente é que se vive a dois.
O Autodidata bateu num in-quarto. Era uma História das Religiões. «Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese. O senhor não acha?»
Tinha um ar cansado e tremiam-lhe as mãos.
«O senhor está com má cara», disse-lhe eu.
«Não admira! É que estou metido numa história abominável.»
O fiscal veio na nossa direcção: é um corso baixinho, irascível, com um bigode desmedido. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo com os calcanhares. No Inverno, cospe nos lenços e põe-nos a secar sobre o fogão de aquecimento.
O Autodidata aproximou-se tanto que senti na cara o sopro da sua respiração.
«Não quero dizer-lhe diante deste homem», preveniu num jeito de confidência. «Se o senhor quisesse...»
«O quê?» Corou e ondearam-lhe as ancas graciosamente: «É muito atrevimento da minha parte. Mas... o senhor aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?» «Com muito gosto.»
Tinha tanta vontade de ir almoçar com ele como de me enforcar. «Dá-me muito prazer em aceitar», disse o Autodidata. Acrescentou rapidamente: «Se não se importa, vou buscá-lo a casa», e desapareceu, com medo, certamente, de que, se me desse tempo, eu mudasse de opinião.
Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz. Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspeto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. (...) Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre,sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
A queda mais terrível, a mais humilhante que alguém pode experimentar, é sentir ciúmes. Sentir ciúmes é o reconhecimento da nossa inferioridade... Desejar a morte de alguém todos já desejámos, quanto mais não fosse matar a porteira para ser notícia de jornal...São desejos perversos que até dignificam: ter ciúmes é a inferioridade em estado bruto...Gosto, particularmente, do modo como bernardo soares não sente ciúmes...
Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco. Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor.
Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma». (...) Que seja o seu marido esse... Queria que eu descesse ao nível dele? Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.
Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos, se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida. Reina quem não está entre os vulgares. Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.
Cair subitamente em momentos do passado, uma queda diferente...
Quase nada.Como que uma picada de inseto que a princípio parece muito leve.
Sonhara muitas vezes, em tardes de solidão , que o telefone tocava e que uma voz doce lhe marcava um encontro... Mas a voz de há pouco não lhe inspirara confiança. Simultaneamente indolente e ameaçadora, essa voz.
Aqui, tudo se passara suavemente,uma agenda perdida, vozes ao telefone, um encontro num café...Sim, tudo tinha a leveza de um sonho. E as páginas do dossier também lhe tinham provocado uma sensação estranha: por causa de certos nomes...e de todas aquela palavras encavalitadas umas nas outras, sem duplo espaço entre linhas, encontrava-se bruscamente em presença de certos pormenores da sua vida, mas refletidos num espelho deformante, pormenores incongruentes que nos perseguem nas noites de insónia.
Cair nos braços de alguém é uma queda de uma mediania deprimente...Tal como ter queda para isto ou para aquilo...
I wanna write her, her name in the sky I wanna free fall out into nothin' Oh, I'm gonna leave this world for a while Now I'm free, free fallin', fallin' Free fallin', fallin...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica..
A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.
Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?
.. e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.
...e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue......um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito. A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas do esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros (...) tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor, (...) E, perante, a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza de meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais...
Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.
Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas caricias
Dos instantes volúveis.
Queda...Um "apontamento" inevitável: A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau. Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter...
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância, tinha um caderno.
é preciso fazer a queda como se faz uma casa-, é uma construção, não é um desastre um acidente uma distracção, a queda é um acontecimento para levar a sério... sem excitação ou desejo nem uma queda existiria no mundo,é o que me parece, ámen
o tempo do combate é o tempo da queda, aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
Never regret thy fall,
O Icarus of the fearless flight
For the greatest tragedy of them all
Is never to feel the burning light...
A vida ri-se das probabilidades e põe palavras onde imaginamos silêncios e súbitos regressos quando pensávamos que não nos voltaríamos a encontrar. O que significa definitivamente? É muito tempo?
E tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir...
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.(...)
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Life is a fear of falling Life is a fear of falling through All the cracks... You fall wonderfully If I question everything you say Another answer crumbles the birth of my day It's when you were hereYou, calling out a name You, swimming to me through a dream
Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
Para mim, nem sequer o dever de ir ao funeral...
Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
A Queda
E eu que sou o rei de toda esta incoerência, Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la E giro até partir... Mas tudo me resvala Em bruma e sonolência. Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro, Volve-se logo falso... ao longe o arremesso... Eu morro de desdém em frente dum tesouro, Morro á mingua, de excesso. Alteio-me na cor à força de quebranto, Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...Peneiro-me na sombra - em nada me condenso... Agonias de luz eu vibro ainda entanto. Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, - Vencer às vezes é o mesmo que tombar - E como inda sou luz, num grande retrocesso, Em raivas ideais, ascendo até ao fim: Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso... Tombei... E fico só esmagado sobre mim!...
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas,tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
O seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. A sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda. Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte do seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima da sua mãe. Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com a sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
And dissolve into the fall Of things new, of things gone To remind our restless souls Of the beauty of being here at all...
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido.
Uma "queda" de fernando pessoa que caiu no esquecimento, pois o orpheu 3 não chegou a ser publicado...
I ain't different from nobody and I just can't take no more I've got to leave where I'm going I don't know I've got to leave where I'm going I just don't know... And I've had so much trouble I'm out of reach I can't take no more...
Ah, mas já nem posso Amaldiçoar. O Bem e o Mal são Formas de erro. Nem amaldiçoar! Ah o horror, o horror sinto ao vazio À roda de mim. Eu já não posso Amaldiçoar, nem ora dirigir-me A potências ou forças, pois já sei Que a verdade está além do concebível... Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer, Nem rir, nem chorar, morte nem vidaDesejar. (Vê um frasco em cima da mesa) Ah dormir, talvez dormindo Esqueça tudo (Tira o frasco e deita com cuidado) Não haja eu, que em (horror) Dormir cuidando, fosse atingir O temido eterno sono! Só a ideia... Não mais. Basta. Está bem. Bebamos. (Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.
Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.
Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar..
Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura.Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. Que de vezes o próprio sonho fútil me deixa um horror à vida interior, uma náusea física dos misticismos e das contemplações. Com que pressa corro de casa, onde assim sonhe, ao escritório; e vejo a cara do Moreira como se chegasse finalmente a um porto. Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à verdade;(...) Sonho porque sonho, mas não sofro o insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem o meu teatro íntimo, como não dou ao vinho, de que todavia me não abstenho, o nome de alimento ou de necessidade da vida.
Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar... Náusea. Vontade de nada. Que náusea de vida...
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro, De fonte, de começo, de origem.
Que fiz eu da vida?
Que fiz eu do que queria fazer da vida?
Que fiz do que podia ter feito da vida?
Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco?
Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas
E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio.
Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivessemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Olha-se mas não se vê. (...) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, e esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça. Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada.(...) Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro. Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com.o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job «Minha alma está cansada de minha vida!»
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos Necrose da alma, Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. Custa-me a respirar para sustentar a alma.(...)
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Levanto-me de chofre: se pelo menos já pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito. E depois, dentro dos pensamentos, há as palavras, as palavras inacabadas, os esboços das frases que retornam constantemente: "Tenho que termi... Eu ex... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não estou... Eu ex..." Isso continua, continua e não termina nunca. É pior que o resto porque me sinto responsável e cúmplice. Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... Não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando a minha existência (...)
A palavra 'Absurdo' surge agora sob minha caneta; há pouco no jardim não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma ideia em minha cabeça, nem um sopro de voz, mas sim aquela longa serpente morta aos meus pés, aquela serpente de lenho. Serpente ou garra, ou raiz, ou gafa de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nada, compreendi que havia encontrado a chave da Existência, a chave de minhas Náuseas, de minha própria vida. De fato, tudo o que pude captar a seguir liga-se a esse absurdo fundamental. Absurdo: aind auma palavra; debato-me com as palavras; Já eu tocava a coisa. Mas desejaria fixar aqui o caráter absoluto desse absurdo. Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens sempre é apenas relativamente absurdo: em relação às circunstâncias qu o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que este se encontra, mas não em relação ao seu delírio. Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo."
O meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não me posso impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás da minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre os meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, enchendo-me por inteiro...
Tenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns. Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]
Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pícrico. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à terra. Outras, novinhas e, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, assentam no chão como cisnes, mas já a terra, por baixo, as vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a tatear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se estão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.
Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as botas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial, com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente de um caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sítios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas... Não pude.
Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado – O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero.
É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com uma pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão.
Mas lá chegaria o momento em que o livro estivesse escrito, ficasse atrás de mim, e acho que um pouco da sua claridade cairia sobre o meu passado. Talvez então eu pudesse, através dele, recordar a minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: «Foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou.» E assim chegaria a aceitar-me - no passado, apenas no passado.
E pronto; o meu passado é apenas um buraco enorme. O meu presente, esta criada de corpete azul, aquele homenzinho que está a sonhar ao pé do balcão. Tenho a impressão de ter aprendido nos livros tudo o que sei da minha vida.
As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite.Cinco e meia,Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir.
A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
As cartas caem, rodopiando, no pano de lã. Depois umas mãos, com anéis nos dedos, vêm apanhá-las, arranhando o pano com as unhas. As mãos fazem manchas brancas no pano, têm um aspecto assoprado e poeirento. As cartas continuam a cair, as mãos vão e vêm. Que ocupação esta! Não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que eles fazem isto simplesmente para encher as suas horas vagas. Mas o tempo é largo de mais, não se deixa encher. Tudo quanto mergulha nele amolece e dá de si...
Some of these days You're gonna miss me, honey Some of these days You gone feel so lonely ...You may even miss me, honey When I'm away...
O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se. Bruscamente: era quase penoso tornar-se assim duro, rutilante. Ao mesmo tempo a duração da música dilatava-se, inchava como uma tromba marinha. Enchia a sala com a sua transparência metálica esborrachando contra a parede o nosso tempo miserável Agora estou dentro da música. Nos espelhos rolam bolas de fogo; cercam-nos anéis de fumo, que giram, encobrindo e descobrindo o sorriso duro da luz. O meu copo de cerveja encolheu, está acalcado contra a mesa: tem um ar de coisa densa, indispensável. Quero agarrá-lo,, tomar-lhe o peso, estendo o braço... Meu Deus! Eis o que mudou foram sobretudo os meus gestos. O movimento do meu braço desenvolveu-se como um tema...
Uma grande sombra magra surge bruscamente por trás de mim. Estremeço. «O senhor desculpe, eu não queria incomodá-lo. Vi seus lábios mexer. Estava com certeza a repetir frases do seu livro.» A pessoa ri. «Andava à procura de algum verso. Olho para o Autodidata, estupefacto. Mas ele parece surpreendido com a minha surpresa: «Sim... Não se deve evitar com cuidado que fiquem versos no meio da prosa?» Baixei ligeiramente na sua estima. Pergunto-lhe o que faz ele aqui, a estas horas. Responde que o patrão lhe deu folga e que veio logo para a Biblioteca; que não vai almoçar, ficará a ler até à hora de fechar. Deixei de lhe prestar atenção, mas com certeza que ele se afastou do assunto primitivo, porque ouço de súbito: «... ter a felicidade como o senhor de andar a escrever um livro.» Tenho de responder alguma coisa. «Felicidade...», digo eu num tom dubitativo. Ele engana-se quanto ao sentido da resposta e corrige rapidamente: «Talento, queria eu dizer, talento!» Subimos ambos a escada. Não tenho vontade de trabalhar. Alguém deixou uma Eugénie Grandet em cima da mesa; o livro está aberto na página vinte e sete. Agarro nele maquinalmente, começo a ler a página vinte e sete depois a página vinte e oito: não tenho coragem para começar pelo princípio. O Autodidacta dirigiu-se para as prateleiras da sala, a passos apressados; volta com dois volumes que larga em cima da mesa, com um ar de cão que encontrou um osso. «Que está o senhor a ler?» Parece que sente relutância em mo dizer: hesita um pouco, rebola os grandes olhos espantados, depois mostrou-me os livros com um ar de constrangimento. São A Turfa e a Turfeira, de Larbalétrier, e Hitopadèsa ou a Instruçõ Util, de Lastex. E então? Não vejo o que o perturba: são leituras que me parecem muito decentes. Por descargo de consciência, folheio a Hitopadèsa, e não encontro lá nada que não seja elevado.
«Tout est grand dans ce célèbre roman, sans que rien ne bouge. Eugénie est une sorte de sainte selon l'homme, toujours fidèle à une même pensée, mais toute naturelle. [...] Eugénie est le premier personnage de ce drame d'amour [...] En Grandet, ce rocheux Grandet, il y a une source de tendresse émouvante, quand il se cache pour voir sa fille à la toilette. [...] Au rebours on trouvera dans Eugénie tous les stratagèmes du cœur, et un vrai courage à affronter le terrible homme aux gants de cuir. On a tout dit sur Grandet. On a moins remarqué ce mot de reine, lorsque Eugénie se trouve maîtresse d'une immense fortune et assiégée d'intrigues. Elle répond : « Nous verrons cela» comme son père faisait. [...] Ainsi l'âme de Grandet finit par être sauvée. Balzac laboure la terre.»
«Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.»
O Autodidata, ao ver que estou a escrever, observa-me com uma concupiscência respeitosa. De vez em quando levanto um pouco a cabeça, vejo o imenso colarinho postiço, alto e sem pontas, donde lhe sai o pescoço de frango. Traz um fato coçado, mas nem uma sombra lhe polui a alvura da roupa. Acaba de tirar da mesma prateleira outro volume, e consigo ler-lhe o título, mesmo de pernas para o ar: O Campanário de Caudebec, crónica normanda, por Julie Lavergne. As leituras do Autodidata desconcertam-me sempre. De súbito, os nomes dos últimos autores cujas obras ele consultou vêm-me à memória: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; acabo de perceber qual é o método do Autodidata: vai-se instruindo por ordem alfabética.
Contemplo-o com uma espécie de admiração. Que vontade não lhe será precisa para realizar lenta, obstinadamente, um plano de tão vasta envergadura? Um dia, há sete anos (disse-me ele que já estudava havia sete anos), entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inumeráveis livros que cobrem as paredes e disse, provavelmente, mais ou menos como Rastignac: «Agora nós, Ciência humana.» Depois foi buscar o primeiro livro da primeira prateleira da extrema direita; abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e de terror, unido a uma decisão inabalável. Vai agora na letra L. Do J passara ao K, do K passou ao L. Saltou brutalmente do estudo dos coleópteros para o estudo da teoria dos quanta, duma obra sobre Tamerlão para um panfleto católico contra o darwinismo: nunca se atrapalhou. Leu tudo; armazenou na cabeça metade do que se sabe sobre a parteno-genese, metade dos argumentos contra a vivissecção. Atrás dele, adiante dele, há um universo. E aproxima-se o dia em que dirá para consigo, fechando o último volume da ultima prateleira da extrema esquerda: «E agora?»
Nunca tive tão nitidamente como hoje o sentimento de ser o meu corpo, sem dimensões secretas, de me reduzir aos pensamentos leves que sobem dele como bolhas. Construo as minhas recordações com o meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado lá. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir da minha prisão. Batem à porta. É o Autodidata. Tinha-me esquecido: prometi mostrar-lhe as fotografias das minhas viagens.
Se um dia eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu carácter... E à volta compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto, física e moralmente, que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.»
«Que espécie de aventuras?», pergunto-lhe surpreendido.
«De todas as espécies. Tomar um comboio que não é o nosso. Descer numa cidade desconhecida. Perder a carteira, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Acho que se podia definir a aventura assim: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser forçosamente extraordinário. Fala-se da magia das aventuras,»
Não tive aventuras. Sucederam-me histórias, acontecimentos, incidentes, tudo o que se quiser. Mas aventuras, não. Não é uma questão de palavras; começo a compreender. Há qualquer coisa que eu prezava mais que tudo o resto - sem dar bem por isso. Não era o amor, oh, não!, nem a glória, nem a riqueza. Era... Enfim, tinha imaginado que, em certos momentos, a minha vida podia ganhar uma qualidade rara e preciosa. Não eram precisas circunstâncias extraordinárias: tudo quanto eu pedia era um pouco de rigor. A minha vida presente não tem nada de brilhante: mas, de tempos a tempos, por exemplo, quando, nos cafés, se ouvia música, eu revia o passado e dizia para comigo: «Outrora, em Londres, em Mequinez, em Tóquio, conheci momentos admiráveis, tive aventuras.» É esta possibilidade que agora me é negada. Acabo de descobrir, lentamente, sem razão aparente, que andei dez anos a mentir a mim próprio. As aventuras estão nos livros. E, bem entendido, tudo o que se conta nos livros pode suceder realmente, mas não da mesma maneira. Ora, é precisamente esta maneira de suceder que eu prezava tanto.
SÁBADO, MEIO-DIA.
O Autodidata não me viu entrar na sala de leitura. Estava sentado à ponta da mesa do fundo; tinha um livro aberto diante dele, mas não lia. Estava a olhar, sorrindo, para o vizinho da direita, um colegial muito sujo que vem muitas vezes à Biblioteca. O outro deixou-se contemplar um momento, depois deitou-lhe a língua de fora, fazendo uma horrível careta. O Autodidata corou, voltou precipitadamente ao seu livro e ficou absorto na leitura.
Reconsiderei as minhas reflexões de ontem. Ontem estava seco de todo: era-me indiferente que não houvesse aventuras. O que eu queria saber era apenas se não podia haver.Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.
Decididamente, o sentimento de aventura não vem dos acontecimentos: a prova está tirada. É antes a maneira como os instantes se encadeiam. Eis, creio eu, o que se passa: bruscamente sente-se que o tempo corre, que cada instante conduz a outro instante, esse outro a um terceiro, e assim sucessivamente; que todos os instantes se aniquilam, que é inútil tentar reter algum, etc., etc. E então atribui-se essa propriedade aos acontecimentos que nos aparecem dentro dos instantes; o que pertence à forma é trasladado para o conteúdo. Em suma, esse famoso correr do tempo, fala-se muito dele, mas quase não se vê. Vê-se uma mulher, pensa-se que ela será velha um dia, somente não a vemos envelhecer. Mas em certos instantes parece que a vemos envelhecer e que nos sentimos envelhecer com ela: é o sentimento de aventura. Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo. O sentimento de aventura seria, muito simplesmente, o da irreversibilidade do tempo. Mas porque é que não o temos constantemente? O tempo não será constantemente irreversível?
Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata ia a sair. Precipitou-se sobre mim: «Tenho de lhe agradecer. As suas fotografias fizeram--me passar algumas horas inesquecíveis.» Ao vê-lo tive um momento de esperança: a dois, talvez fosse mais fácil atravessar aquele dia. Mas, com semelhante criatura, só aparentemente é que se vive a dois.
O Autodidata bateu num in-quarto. Era uma História das Religiões. «Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese. O senhor não acha?»
Tinha um ar cansado e tremiam-lhe as mãos.
«O senhor está com má cara», disse-lhe eu.
«Não admira! É que estou metido numa história abominável.»
O fiscal veio na nossa direcção: é um corso baixinho, irascível, com um bigode desmedido. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo com os calcanhares. No Inverno, cospe nos lenços e põe-nos a secar sobre o fogão de aquecimento.
O Autodidata aproximou-se tanto que senti na cara o sopro da sua respiração.
«Não quero dizer-lhe diante deste homem», preveniu num jeito de confidência. «Se o senhor quisesse...»
«O quê?» Corou e ondearam-lhe as ancas graciosamente: «É muito atrevimento da minha parte. Mas... o senhor aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?» «Com muito gosto.»
Tinha tanta vontade de ir almoçar com ele como de me enforcar. «Dá-me muito prazer em aceitar», disse o Autodidata. Acrescentou rapidamente: «Se não se importa, vou buscá-lo a casa», e desapareceu, com medo, certamente, de que, se me desse tempo, eu mudasse de opinião.
Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz. Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspeto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. (...) Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre,sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
A queda mais terrível, a mais humilhante que alguém pode experimentar, é sentir ciúmes. Sentir ciúmes é o reconhecimento da nossa inferioridade... Desejar a morte de alguém todos já desejámos, quanto mais não fosse matar a porteira para ser notícia de jornal...São desejos perversos que até dignificam: ter ciúmes é a inferioridade em estado bruto...Gosto, particularmente, do modo como bernardo soares não sente ciúmes...
Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco. Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor.
Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma». (...) Que seja o seu marido esse... Queria que eu descesse ao nível dele? Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.
Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos, se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida. Reina quem não está entre os vulgares. Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.
Cair subitamente em momentos do passado, uma queda diferente...
Quase nada.Como que uma picada de inseto que a princípio parece muito leve.
Sonhara muitas vezes, em tardes de solidão , que o telefone tocava e que uma voz doce lhe marcava um encontro... Mas a voz de há pouco não lhe inspirara confiança. Simultaneamente indolente e ameaçadora, essa voz.
Aqui, tudo se passara suavemente,uma agenda perdida, vozes ao telefone, um encontro num café...Sim, tudo tinha a leveza de um sonho. E as páginas do dossier também lhe tinham provocado uma sensação estranha: por causa de certos nomes...e de todas aquela palavras encavalitadas umas nas outras, sem duplo espaço entre linhas, encontrava-se bruscamente em presença de certos pormenores da sua vida, mas refletidos num espelho deformante, pormenores incongruentes que nos perseguem nas noites de insónia.
Cair nos braços de alguém é uma queda de uma mediania deprimente...Tal como ter queda para isto ou para aquilo...
I wanna write her, her name in the sky I wanna free fall out into nothin' Oh, I'm gonna leave this world for a while Now I'm free, free fallin', fallin' Free fallin', fallin...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica..
A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.
Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?
.. e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.
...e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue......um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito. A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas do esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros (...) tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor, (...) E, perante, a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza de meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais...
Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.
Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas caricias
Dos instantes volúveis.
Queda...Um "apontamento" inevitável: A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau. Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter...
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância, tinha um caderno.
é preciso fazer a queda como se faz uma casa-, é uma construção, não é um desastre um acidente uma distracção, a queda é um acontecimento para levar a sério... sem excitação ou desejo nem uma queda existiria no mundo,é o que me parece, ámen
o tempo do combate é o tempo da queda, aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
Never regret thy fall,
O Icarus of the fearless flight
For the greatest tragedy of them all
Is never to feel the burning light...
A vida ri-se das probabilidades e põe palavras onde imaginamos silêncios e súbitos regressos quando pensávamos que não nos voltaríamos a encontrar. O que significa definitivamente? É muito tempo?
E tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir...
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.(...)
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Life is a fear of falling Life is a fear of falling through All the cracks... You fall wonderfully If I question everything you say Another answer crumbles the birth of my day It's when you were hereYou, calling out a name You, swimming to me through a dream
Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
Para mim, nem sequer o dever de ir ao funeral...
Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
A Queda
E eu que sou o rei de toda esta incoerência, Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la E giro até partir... Mas tudo me resvala Em bruma e sonolência. Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro, Volve-se logo falso... ao longe o arremesso... Eu morro de desdém em frente dum tesouro, Morro á mingua, de excesso. Alteio-me na cor à força de quebranto, Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...Peneiro-me na sombra - em nada me condenso... Agonias de luz eu vibro ainda entanto. Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, - Vencer às vezes é o mesmo que tombar - E como inda sou luz, num grande retrocesso, Em raivas ideais, ascendo até ao fim: Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso... Tombei... E fico só esmagado sobre mim!...
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas,tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
O seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. A sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda. Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte do seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima da sua mãe. Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com a sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
And dissolve into the fall Of things new, of things gone To remind our restless souls Of the beauty of being here at all...
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido.
Uma "queda" de fernando pessoa que caiu no esquecimento, pois o orpheu 3 não chegou a ser publicado...
I ain't different from nobody and I just can't take no more I've got to leave where I'm going I don't know I've got to leave where I'm going I just don't know... And I've had so much trouble I'm out of reach I can't take no more...
Ah, mas já nem posso Amaldiçoar. O Bem e o Mal são Formas de erro. Nem amaldiçoar! Ah o horror, o horror sinto ao vazio À roda de mim. Eu já não posso Amaldiçoar, nem ora dirigir-me A potências ou forças, pois já sei Que a verdade está além do concebível... Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer, Nem rir, nem chorar, morte nem vidaDesejar. (Vê um frasco em cima da mesa) Ah dormir, talvez dormindo Esqueça tudo (Tira o frasco e deita com cuidado) Não haja eu, que em (horror) Dormir cuidando, fosse atingir O temido eterno sono! Só a ideia... Não mais. Basta. Está bem. Bebamos. (Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.
Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.
Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar..
Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura.Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. Que de vezes o próprio sonho fútil me deixa um horror à vida interior, uma náusea física dos misticismos e das contemplações. Com que pressa corro de casa, onde assim sonhe, ao escritório; e vejo a cara do Moreira como se chegasse finalmente a um porto. Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à verdade;(...) Sonho porque sonho, mas não sofro o insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem o meu teatro íntimo, como não dou ao vinho, de que todavia me não abstenho, o nome de alimento ou de necessidade da vida.
Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar... Náusea. Vontade de nada. Que náusea de vida...
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro, De fonte, de começo, de origem.
Que fiz eu da vida?
Que fiz eu do que queria fazer da vida?
Que fiz do que podia ter feito da vida?
Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco?
Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas
E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio.
Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivessemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Olha-se mas não se vê. (...) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, e esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça. Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada.(...) Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro. Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com.o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job «Minha alma está cansada de minha vida!»
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos Necrose da alma, Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. Custa-me a respirar para sustentar a alma.(...)
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Levanto-me de chofre: se pelo menos já pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito. E depois, dentro dos pensamentos, há as palavras, as palavras inacabadas, os esboços das frases que retornam constantemente: "Tenho que termi... Eu ex... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não estou... Eu ex..." Isso continua, continua e não termina nunca. É pior que o resto porque me sinto responsável e cúmplice. Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... Não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando a minha existência (...)
A palavra 'Absurdo' surge agora sob minha caneta; há pouco no jardim não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma ideia em minha cabeça, nem um sopro de voz, mas sim aquela longa serpente morta aos meus pés, aquela serpente de lenho. Serpente ou garra, ou raiz, ou gafa de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nada, compreendi que havia encontrado a chave da Existência, a chave de minhas Náuseas, de minha própria vida. De fato, tudo o que pude captar a seguir liga-se a esse absurdo fundamental. Absurdo: aind auma palavra; debato-me com as palavras; Já eu tocava a coisa. Mas desejaria fixar aqui o caráter absoluto desse absurdo. Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens sempre é apenas relativamente absurdo: em relação às circunstâncias qu o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que este se encontra, mas não em relação ao seu delírio. Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo."
O meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não me posso impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás da minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre os meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, enchendo-me por inteiro...
Tenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns. Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]
Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pícrico. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à terra. Outras, novinhas e, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, assentam no chão como cisnes, mas já a terra, por baixo, as vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a tatear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se estão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.
Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as botas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial, com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente de um caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sítios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas... Não pude.
Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado – O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero.
É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com uma pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão.
Mas lá chegaria o momento em que o livro estivesse escrito, ficasse atrás de mim, e acho que um pouco da sua claridade cairia sobre o meu passado. Talvez então eu pudesse, através dele, recordar a minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: «Foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou.» E assim chegaria a aceitar-me - no passado, apenas no passado.
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