Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 31 de dezembro de 2017
Crónica de um domingo idiota: o inverno do meu descontentamento.
O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. (...) toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas)... A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de um instinto reputado superior.
A humanidade divide‑se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio.
You're doing the same mistake twice Making the same mistake twice Come on over Don't be so caught up It's not about compromising I see problems down the line I know they're not mine I see darkness down the line I know it's not fine But don't wash the dirt off of your hands You're doing the same mistake twice Making the same mistake twice Come on over Don't be so caught up It's all about colonizing I see problems down the line I know they're not mine Don't let the darkness eat you up Don't let the darkness eat you up Don't let the darkness eat you up...
Mas nada se passara ainda, visto que ela ainda estava ali, visto que era ainda possível voltar a vê-la, convencê-la, levá-la comigo para sempre. Ainda não me sentia sozinho. Quis desviar o pensamento de Anny, porque, à força de lhe imaginar o corpo e rosto, tinha caído num extremo enervamento: as minhas mãos tremiam, e percorriam-me o corpo arrepios gelados. Pus-me a folhear os livros, nos mostruários dos revendedores, e especialmente os obscenos, porque, apesar de tudo, essas publicações ocupam o espírito.
Quando deram cinco horas no relógio da estação de Orsay, estava a olhar para as gravuras duma obra intitulada O Médico do Chicote. Eram pouco variadas: na maior parte delas, um matulão de barbas brandia uma chibata contra monstruosos traseiros nus. Mal me apercebi de que eram cinco horas, deitei o livro para o meio dos outros e saltei para um táxi, que me conduziu à estação de S. Lázaro.
Deambulei uns vinte minutos pelo passeio da via, depois avistei-os. Anny levava um espesso casaco de peles que lhe dava o ar duma senhora. E um véu. Ele vestia um sobretudo de pêlo de camelo. Era um tipo bronzeado, ainda novo, muito alto, bastante belo. Um estrangeiro, decerto, mas não um inglês; um egípcio, talvez. Subiram ambos para o comboio, sem me verem. Não se falavam. Em seguida, o fulano desceu e foi comprar jornais. Ela baixou o vidro do compartimento; viu-me. Olhou-me demoradamente, sem cólera, com uns olhos inexpressivos. Depois o tipo voltou a subir para a carruagem e o comboio partiu. Nesse momento vi distintamente o restaurante de Picaddilly, onde, antigamente, íamos os dois almoçar; depois tudo ruiu. Andei. Quando me senti cansado, entrei neste café e adormeci. Mesmo agora um criado me acordou, e estou a escrever estas linhas na penumbra do sono. Regressarei a Bouville amanhã, no comboio do meio-dia. Basta-me lá ficar dois dias: para fazer as malas e pôr as minhas coisas em ordem, no banco. Naturalmente, no Hotel Printania vão pedir que lhes pague quinze dias mais, por não os ter prevenido. Preciso também de ir à Biblioteca restituir os livros que me emprestaram. Em qualquer caso, estarei de volta a Paris antes do fim da semana.
E que ganharei eu com a mudança? Saio duma cidade para outra: esta é fendida por um rio, a outra é bordada pelo mar; à parte isso, são parecidas. Escolhe-se uma terra escalvada, estéril, e empurram-se para lá grandes pedras ocas. Nessas pedras ficam odores prisioneiros, odores mais pesados que o ar. Algumas vezes deitam-nos à rua, pela janela, e eles lá ficam, até os ventos os rasgarem. Com tempo claro, os ruídos entram por uma ponta da cidade e saem pela outra, depois de terem atravessado todas as paredes; outras vezes ficam a andar à roda. entre essas pedras que o sol coze, que o gelo fende.(...)
É isto a liberdade? Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver; todas as que experimentei cederam, e já não posso imaginar outras. Estou ainda novo, tenho ainda forças suficientes para recomeçar. Mas recomeçar o quê? Só agora percebo até que ponto, no auge dos meus terrores, das minhas náuseas, tinha contado com Anny para me salvar. O meu passado morreu, morreu o Sr. de Rollebon; Anny, se voltou, foi só para me tirar toda a esperança. Estou sozinho nesta rua branca, bordada por jardins. Só e livre.Mas esta liberdade parece-se um pouco com a morte. Hoje chega ao fim a minha vida.
A Náusea concede-me uma trégua curta. Mas sei que voltará: é o meu estado normal. Somente, hoje o meu corpo está cansado de mais para a suportar. Também os doentes têm fraquezas bem-vindas que lhes tiram, algumas horas, a consciência do seu mal. Aborreço-me, é tudo. De vez em quando bocejo com tanta força que as lágrimas me correm pelas faces. É um aborrecimento profundo, profundo, o coração profundo da existência, a própria matéria de que sou feito.
Terminei o ano a sentir-me completamente idiota... Uma boa motivação para a leitura...
O problema essencial da vida, que é o problema da realidade ou da verdade, não existe, nem pode existir em iguais termos para o homem de inteligência superior e para o homem vulgar. O homem de inteligência superior não tem, é certo, melhores elementos para descobrir a verdade do que o mais fechado dos idiotas.
Quando se mente, ou seja, se coloca com astúcia alguma coisa que acontece com excessiva raridade ou nunca acontece, a mentira torna-se muito mais verosímil.
É muito fácil viver fazendo-se de parvo. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui, agora, feito um imbecil.
Dizem que aqueles que estão em locais altos como que são atraídos por si mesmos para baixo, para o abismo. Creio que muitos suicídios e homicídios só foram levados a cabo porque o revólver já estava na mão. Aqui também há um abismo, aqui também há um declive de quarenta e cinco graus, do qual é impossível não escorregar, e algo incita irresistivelmente a puxar o gatilho.
Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu.
A ler o mais breve possível...
Nasci talvez espiritualmente, num dia curto de Inverno. Chegou cedo a noite ao meu ser. Só em frustração e abandono posso realizar a minha vida.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
"E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível."
Lembro-me de, em criança, rastejar entre livros de capas brilhantes, ou, amargurado por aquela vida meio fantástica que caracteriza a solidão, ter-me refugiado no sótão para me enrolar numa grande poltrona modelada à forma do meu corpo, numa luz azul de alfazema coada pelas janelas. (…) É um lugar acolhedor, maravilhoso, quando a chuva se abate sobre o telhado. E os livros inundados de luz, os livros de imagens que serviram a crianças há muito tempo mortas de velhice, colecções de romances baratos, pilhas de estampas mostrando as manifestações do poder divino: incêndios, inundações, maremotos e terramotos.(…)Quem confia os seus segredos ou uma história deve contar com a pessoa que o escuta ou lê, pois uma história tem tantas versões como leitores. Cada um toma dela o que quer ou o que pode, talhando-a assim à sua própria medida. Alguns aceitam uma parte e rejeitam o resto, outros passam-na à peneira dos seus conceitos, outros ainda transformam-na a seu bel-prazer. Uma história, para poder agradar, deve ter alguns pontos de contacto com o leitor. Só assim ele aceitará a parte maravilhosa.
"Quando as pessoas são felizes, não reparam se é Inverno ou Verão."
No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Meu cérebro fotográfico...Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...] Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura, Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord... Ó Chico, não te chegues para fora([...] oh!) podes cair! Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro — e dos contos que me contavam nas noites de inverno u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor... Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre. Quase que me esqueço de me poder lembrar dele came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver) u-u-u-u-u-u-u u u-u u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u u u-u-u u-u-u u-u u-fff-(uu uff) f.f.(fff)
sábado, 30 de dezembro de 2017
Náusea...Queda... Náusea
Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; pelo contrário, estou esmagado. Somente, atingi o meu fito: sei o que queria saber; compreendi finalmente tudo o que me vem sucedendo desde o mês de Janeiro. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a Náusea sou eu.
E pronto; o meu passado é apenas um buraco enorme. O meu presente, esta criada de corpete azul, aquele homenzinho que está a sonhar ao pé do balcão. Tenho a impressão de ter aprendido nos livros tudo o que sei da minha vida.
As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite.Cinco e meia,Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir.
A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
As cartas caem, rodopiando, no pano de lã. Depois umas mãos, com anéis nos dedos, vêm apanhá-las, arranhando o pano com as unhas. As mãos fazem manchas brancas no pano, têm um aspecto assoprado e poeirento. As cartas continuam a cair, as mãos vão e vêm. Que ocupação esta! Não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que eles fazem isto simplesmente para encher as suas horas vagas. Mas o tempo é largo de mais, não se deixa encher. Tudo quanto mergulha nele amolece e dá de si...
Some of these days You're gonna miss me, honey Some of these days You gone feel so lonely ...You may even miss me, honey When I'm away...
O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se. Bruscamente: era quase penoso tornar-se assim duro, rutilante. Ao mesmo tempo a duração da música dilatava-se, inchava como uma tromba marinha. Enchia a sala com a sua transparência metálica esborrachando contra a parede o nosso tempo miserável Agora estou dentro da música. Nos espelhos rolam bolas de fogo; cercam-nos anéis de fumo, que giram, encobrindo e descobrindo o sorriso duro da luz. O meu copo de cerveja encolheu, está acalcado contra a mesa: tem um ar de coisa densa, indispensável. Quero agarrá-lo,, tomar-lhe o peso, estendo o braço... Meu Deus! Eis o que mudou foram sobretudo os meus gestos. O movimento do meu braço desenvolveu-se como um tema...
Uma grande sombra magra surge bruscamente por trás de mim. Estremeço. «O senhor desculpe, eu não queria incomodá-lo. Vi seus lábios mexer. Estava com certeza a repetir frases do seu livro.» A pessoa ri. «Andava à procura de algum verso. Olho para o Autodidata, estupefacto. Mas ele parece surpreendido com a minha surpresa: «Sim... Não se deve evitar com cuidado que fiquem versos no meio da prosa?» Baixei ligeiramente na sua estima. Pergunto-lhe o que faz ele aqui, a estas horas. Responde que o patrão lhe deu folga e que veio logo para a Biblioteca; que não vai almoçar, ficará a ler até à hora de fechar. Deixei de lhe prestar atenção, mas com certeza que ele se afastou do assunto primitivo, porque ouço de súbito: «... ter a felicidade como o senhor de andar a escrever um livro.» Tenho de responder alguma coisa. «Felicidade...», digo eu num tom dubitativo. Ele engana-se quanto ao sentido da resposta e corrige rapidamente: «Talento, queria eu dizer, talento!» Subimos ambos a escada. Não tenho vontade de trabalhar. Alguém deixou uma Eugénie Grandet em cima da mesa; o livro está aberto na página vinte e sete. Agarro nele maquinalmente, começo a ler a página vinte e sete depois a página vinte e oito: não tenho coragem para começar pelo princípio. O Autodidacta dirigiu-se para as prateleiras da sala, a passos apressados; volta com dois volumes que larga em cima da mesa, com um ar de cão que encontrou um osso. «Que está o senhor a ler?» Parece que sente relutância em mo dizer: hesita um pouco, rebola os grandes olhos espantados, depois mostrou-me os livros com um ar de constrangimento. São A Turfa e a Turfeira, de Larbalétrier, e Hitopadèsa ou a Instruçõ Util, de Lastex. E então? Não vejo o que o perturba: são leituras que me parecem muito decentes. Por descargo de consciência, folheio a Hitopadèsa, e não encontro lá nada que não seja elevado.
«Tout est grand dans ce célèbre roman, sans que rien ne bouge. Eugénie est une sorte de sainte selon l'homme, toujours fidèle à une même pensée, mais toute naturelle. [...] Eugénie est le premier personnage de ce drame d'amour [...] En Grandet, ce rocheux Grandet, il y a une source de tendresse émouvante, quand il se cache pour voir sa fille à la toilette. [...] Au rebours on trouvera dans Eugénie tous les stratagèmes du cœur, et un vrai courage à affronter le terrible homme aux gants de cuir. On a tout dit sur Grandet. On a moins remarqué ce mot de reine, lorsque Eugénie se trouve maîtresse d'une immense fortune et assiégée d'intrigues. Elle répond : « Nous verrons cela» comme son père faisait. [...] Ainsi l'âme de Grandet finit par être sauvée. Balzac laboure la terre.»
«Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.»
O Autodidata, ao ver que estou a escrever, observa-me com uma concupiscência respeitosa. De vez em quando levanto um pouco a cabeça, vejo o imenso colarinho postiço, alto e sem pontas, donde lhe sai o pescoço de frango. Traz um fato coçado, mas nem uma sombra lhe polui a alvura da roupa. Acaba de tirar da mesma prateleira outro volume, e consigo ler-lhe o título, mesmo de pernas para o ar: O Campanário de Caudebec, crónica normanda, por Julie Lavergne. As leituras do Autodidata desconcertam-me sempre. De súbito, os nomes dos últimos autores cujas obras ele consultou vêm-me à memória: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; acabo de perceber qual é o método do Autodidata: vai-se instruindo por ordem alfabética.
Contemplo-o com uma espécie de admiração. Que vontade não lhe será precisa para realizar lenta, obstinadamente, um plano de tão vasta envergadura? Um dia, há sete anos (disse-me ele que já estudava havia sete anos), entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inumeráveis livros que cobrem as paredes e disse, provavelmente, mais ou menos como Rastignac: «Agora nós, Ciência humana.» Depois foi buscar o primeiro livro da primeira prateleira da extrema direita; abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e de terror, unido a uma decisão inabalável. Vai agora na letra L. Do J passara ao K, do K passou ao L. Saltou brutalmente do estudo dos coleópteros para o estudo da teoria dos quanta, duma obra sobre Tamerlão para um panfleto católico contra o darwinismo: nunca se atrapalhou. Leu tudo; armazenou na cabeça metade do que se sabe sobre a parteno-genese, metade dos argumentos contra a vivissecção. Atrás dele, adiante dele, há um universo. E aproxima-se o dia em que dirá para consigo, fechando o último volume da ultima prateleira da extrema esquerda: «E agora?»
Nunca tive tão nitidamente como hoje o sentimento de ser o meu corpo, sem dimensões secretas, de me reduzir aos pensamentos leves que sobem dele como bolhas. Construo as minhas recordações com o meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado lá. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir da minha prisão. Batem à porta. É o Autodidata. Tinha-me esquecido: prometi mostrar-lhe as fotografias das minhas viagens.
Se um dia eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu carácter... E à volta compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto, física e moralmente, que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.»
«Que espécie de aventuras?», pergunto-lhe surpreendido.
«De todas as espécies. Tomar um comboio que não é o nosso. Descer numa cidade desconhecida. Perder a carteira, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Acho que se podia definir a aventura assim: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser forçosamente extraordinário. Fala-se da magia das aventuras,»
Não tive aventuras. Sucederam-me histórias, acontecimentos, incidentes, tudo o que se quiser. Mas aventuras, não. Não é uma questão de palavras; começo a compreender. Há qualquer coisa que eu prezava mais que tudo o resto - sem dar bem por isso. Não era o amor, oh, não!, nem a glória, nem a riqueza. Era... Enfim, tinha imaginado que, em certos momentos, a minha vida podia ganhar uma qualidade rara e preciosa. Não eram precisas circunstâncias extraordinárias: tudo quanto eu pedia era um pouco de rigor. A minha vida presente não tem nada de brilhante: mas, de tempos a tempos, por exemplo, quando, nos cafés, se ouvia música, eu revia o passado e dizia para comigo: «Outrora, em Londres, em Mequinez, em Tóquio, conheci momentos admiráveis, tive aventuras.» É esta possibilidade que agora me é negada. Acabo de descobrir, lentamente, sem razão aparente, que andei dez anos a mentir a mim próprio. As aventuras estão nos livros. E, bem entendido, tudo o que se conta nos livros pode suceder realmente, mas não da mesma maneira. Ora, é precisamente esta maneira de suceder que eu prezava tanto.
SÁBADO, MEIO-DIA.
O Autodidata não me viu entrar na sala de leitura. Estava sentado à ponta da mesa do fundo; tinha um livro aberto diante dele, mas não lia. Estava a olhar, sorrindo, para o vizinho da direita, um colegial muito sujo que vem muitas vezes à Biblioteca. O outro deixou-se contemplar um momento, depois deitou-lhe a língua de fora, fazendo uma horrível careta. O Autodidata corou, voltou precipitadamente ao seu livro e ficou absorto na leitura.
Reconsiderei as minhas reflexões de ontem. Ontem estava seco de todo: era-me indiferente que não houvesse aventuras. O que eu queria saber era apenas se não podia haver.Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.
Decididamente, o sentimento de aventura não vem dos acontecimentos: a prova está tirada. É antes a maneira como os instantes se encadeiam. Eis, creio eu, o que se passa: bruscamente sente-se que o tempo corre, que cada instante conduz a outro instante, esse outro a um terceiro, e assim sucessivamente; que todos os instantes se aniquilam, que é inútil tentar reter algum, etc., etc. E então atribui-se essa propriedade aos acontecimentos que nos aparecem dentro dos instantes; o que pertence à forma é trasladado para o conteúdo. Em suma, esse famoso correr do tempo, fala-se muito dele, mas quase não se vê. Vê-se uma mulher, pensa-se que ela será velha um dia, somente não a vemos envelhecer. Mas em certos instantes parece que a vemos envelhecer e que nos sentimos envelhecer com ela: é o sentimento de aventura. Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo. O sentimento de aventura seria, muito simplesmente, o da irreversibilidade do tempo. Mas porque é que não o temos constantemente? O tempo não será constantemente irreversível?
Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata ia a sair. Precipitou-se sobre mim: «Tenho de lhe agradecer. As suas fotografias fizeram--me passar algumas horas inesquecíveis.» Ao vê-lo tive um momento de esperança: a dois, talvez fosse mais fácil atravessar aquele dia. Mas, com semelhante criatura, só aparentemente é que se vive a dois.
O Autodidata bateu num in-quarto. Era uma História das Religiões. «Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese. O senhor não acha?»
Tinha um ar cansado e tremiam-lhe as mãos.
«O senhor está com má cara», disse-lhe eu.
«Não admira! É que estou metido numa história abominável.»
O fiscal veio na nossa direcção: é um corso baixinho, irascível, com um bigode desmedido. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo com os calcanhares. No Inverno, cospe nos lenços e põe-nos a secar sobre o fogão de aquecimento.
O Autodidata aproximou-se tanto que senti na cara o sopro da sua respiração.
«Não quero dizer-lhe diante deste homem», preveniu num jeito de confidência. «Se o senhor quisesse...»
«O quê?» Corou e ondearam-lhe as ancas graciosamente: «É muito atrevimento da minha parte. Mas... o senhor aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?» «Com muito gosto.»
Tinha tanta vontade de ir almoçar com ele como de me enforcar. «Dá-me muito prazer em aceitar», disse o Autodidata. Acrescentou rapidamente: «Se não se importa, vou buscá-lo a casa», e desapareceu, com medo, certamente, de que, se me desse tempo, eu mudasse de opinião.
Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz. Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspeto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. (...) Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre,sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
A queda mais terrível, a mais humilhante que alguém pode experimentar, é sentir ciúmes. Sentir ciúmes é o reconhecimento da nossa inferioridade... Desejar a morte de alguém todos já desejámos, quanto mais não fosse matar a porteira para ser notícia de jornal...São desejos perversos que até dignificam: ter ciúmes é a inferioridade em estado bruto...Gosto, particularmente, do modo como bernardo soares não sente ciúmes...
Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco. Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor.
Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma». (...) Que seja o seu marido esse... Queria que eu descesse ao nível dele? Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.
Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos, se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida. Reina quem não está entre os vulgares. Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.
Cair subitamente em momentos do passado, uma queda diferente...
Quase nada.Como que uma picada de inseto que a princípio parece muito leve.
Sonhara muitas vezes, em tardes de solidão , que o telefone tocava e que uma voz doce lhe marcava um encontro... Mas a voz de há pouco não lhe inspirara confiança. Simultaneamente indolente e ameaçadora, essa voz.
Aqui, tudo se passara suavemente,uma agenda perdida, vozes ao telefone, um encontro num café...Sim, tudo tinha a leveza de um sonho. E as páginas do dossier também lhe tinham provocado uma sensação estranha: por causa de certos nomes...e de todas aquela palavras encavalitadas umas nas outras, sem duplo espaço entre linhas, encontrava-se bruscamente em presença de certos pormenores da sua vida, mas refletidos num espelho deformante, pormenores incongruentes que nos perseguem nas noites de insónia.
Cair nos braços de alguém é uma queda de uma mediania deprimente...Tal como ter queda para isto ou para aquilo...
I wanna write her, her name in the sky I wanna free fall out into nothin' Oh, I'm gonna leave this world for a while Now I'm free, free fallin', fallin' Free fallin', fallin...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica..
A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.
Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?
.. e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.
...e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue......um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito. A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas do esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros (...) tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor, (...) E, perante, a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza de meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais...
Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.
Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas caricias
Dos instantes volúveis.
Queda...Um "apontamento" inevitável: A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau. Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter...
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância, tinha um caderno.
é preciso fazer a queda como se faz uma casa-, é uma construção, não é um desastre um acidente uma distracção, a queda é um acontecimento para levar a sério... sem excitação ou desejo nem uma queda existiria no mundo,é o que me parece, ámen
o tempo do combate é o tempo da queda, aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
Never regret thy fall,
O Icarus of the fearless flight
For the greatest tragedy of them all
Is never to feel the burning light...
A vida ri-se das probabilidades e põe palavras onde imaginamos silêncios e súbitos regressos quando pensávamos que não nos voltaríamos a encontrar. O que significa definitivamente? É muito tempo?
E tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir...
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.(...)
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Life is a fear of falling Life is a fear of falling through All the cracks... You fall wonderfully If I question everything you say Another answer crumbles the birth of my day It's when you were hereYou, calling out a name You, swimming to me through a dream
Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
Para mim, nem sequer o dever de ir ao funeral...
Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
A Queda
E eu que sou o rei de toda esta incoerência, Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la E giro até partir... Mas tudo me resvala Em bruma e sonolência. Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro, Volve-se logo falso... ao longe o arremesso... Eu morro de desdém em frente dum tesouro, Morro á mingua, de excesso. Alteio-me na cor à força de quebranto, Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...Peneiro-me na sombra - em nada me condenso... Agonias de luz eu vibro ainda entanto. Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, - Vencer às vezes é o mesmo que tombar - E como inda sou luz, num grande retrocesso, Em raivas ideais, ascendo até ao fim: Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso... Tombei... E fico só esmagado sobre mim!...
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas,tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
O seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. A sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda. Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte do seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima da sua mãe. Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com a sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
And dissolve into the fall Of things new, of things gone To remind our restless souls Of the beauty of being here at all...
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido.
Uma "queda" de fernando pessoa que caiu no esquecimento, pois o orpheu 3 não chegou a ser publicado...
I ain't different from nobody and I just can't take no more I've got to leave where I'm going I don't know I've got to leave where I'm going I just don't know... And I've had so much trouble I'm out of reach I can't take no more...
Ah, mas já nem posso Amaldiçoar. O Bem e o Mal são Formas de erro. Nem amaldiçoar! Ah o horror, o horror sinto ao vazio À roda de mim. Eu já não posso Amaldiçoar, nem ora dirigir-me A potências ou forças, pois já sei Que a verdade está além do concebível... Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer, Nem rir, nem chorar, morte nem vidaDesejar. (Vê um frasco em cima da mesa) Ah dormir, talvez dormindo Esqueça tudo (Tira o frasco e deita com cuidado) Não haja eu, que em (horror) Dormir cuidando, fosse atingir O temido eterno sono! Só a ideia... Não mais. Basta. Está bem. Bebamos. (Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.
Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.
Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar..
Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura.Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. Que de vezes o próprio sonho fútil me deixa um horror à vida interior, uma náusea física dos misticismos e das contemplações. Com que pressa corro de casa, onde assim sonhe, ao escritório; e vejo a cara do Moreira como se chegasse finalmente a um porto. Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à verdade;(...) Sonho porque sonho, mas não sofro o insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem o meu teatro íntimo, como não dou ao vinho, de que todavia me não abstenho, o nome de alimento ou de necessidade da vida.
Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar... Náusea. Vontade de nada. Que náusea de vida...
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro, De fonte, de começo, de origem.
Que fiz eu da vida?
Que fiz eu do que queria fazer da vida?
Que fiz do que podia ter feito da vida?
Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco?
Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas
E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio.
Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivessemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Olha-se mas não se vê. (...) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, e esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça. Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada.(...) Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro. Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com.o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job «Minha alma está cansada de minha vida!»
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos Necrose da alma, Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. Custa-me a respirar para sustentar a alma.(...)
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Levanto-me de chofre: se pelo menos já pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito. E depois, dentro dos pensamentos, há as palavras, as palavras inacabadas, os esboços das frases que retornam constantemente: "Tenho que termi... Eu ex... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não estou... Eu ex..." Isso continua, continua e não termina nunca. É pior que o resto porque me sinto responsável e cúmplice. Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... Não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando a minha existência (...)
A palavra 'Absurdo' surge agora sob minha caneta; há pouco no jardim não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma ideia em minha cabeça, nem um sopro de voz, mas sim aquela longa serpente morta aos meus pés, aquela serpente de lenho. Serpente ou garra, ou raiz, ou gafa de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nada, compreendi que havia encontrado a chave da Existência, a chave de minhas Náuseas, de minha própria vida. De fato, tudo o que pude captar a seguir liga-se a esse absurdo fundamental. Absurdo: aind auma palavra; debato-me com as palavras; Já eu tocava a coisa. Mas desejaria fixar aqui o caráter absoluto desse absurdo. Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens sempre é apenas relativamente absurdo: em relação às circunstâncias qu o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que este se encontra, mas não em relação ao seu delírio. Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo."
O meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não me posso impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás da minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre os meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, enchendo-me por inteiro...
Tenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns. Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]
Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pícrico. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à terra. Outras, novinhas e, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, assentam no chão como cisnes, mas já a terra, por baixo, as vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a tatear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se estão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.
Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as botas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial, com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente de um caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sítios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas... Não pude.
Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado – O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero.
É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com uma pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão.
Mas lá chegaria o momento em que o livro estivesse escrito, ficasse atrás de mim, e acho que um pouco da sua claridade cairia sobre o meu passado. Talvez então eu pudesse, através dele, recordar a minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: «Foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou.» E assim chegaria a aceitar-me - no passado, apenas no passado.
E pronto; o meu passado é apenas um buraco enorme. O meu presente, esta criada de corpete azul, aquele homenzinho que está a sonhar ao pé do balcão. Tenho a impressão de ter aprendido nos livros tudo o que sei da minha vida.
As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite.Cinco e meia,Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir.
A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
As cartas caem, rodopiando, no pano de lã. Depois umas mãos, com anéis nos dedos, vêm apanhá-las, arranhando o pano com as unhas. As mãos fazem manchas brancas no pano, têm um aspecto assoprado e poeirento. As cartas continuam a cair, as mãos vão e vêm. Que ocupação esta! Não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que eles fazem isto simplesmente para encher as suas horas vagas. Mas o tempo é largo de mais, não se deixa encher. Tudo quanto mergulha nele amolece e dá de si...
Some of these days You're gonna miss me, honey Some of these days You gone feel so lonely ...You may even miss me, honey When I'm away...
O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se. Bruscamente: era quase penoso tornar-se assim duro, rutilante. Ao mesmo tempo a duração da música dilatava-se, inchava como uma tromba marinha. Enchia a sala com a sua transparência metálica esborrachando contra a parede o nosso tempo miserável Agora estou dentro da música. Nos espelhos rolam bolas de fogo; cercam-nos anéis de fumo, que giram, encobrindo e descobrindo o sorriso duro da luz. O meu copo de cerveja encolheu, está acalcado contra a mesa: tem um ar de coisa densa, indispensável. Quero agarrá-lo,, tomar-lhe o peso, estendo o braço... Meu Deus! Eis o que mudou foram sobretudo os meus gestos. O movimento do meu braço desenvolveu-se como um tema...
Uma grande sombra magra surge bruscamente por trás de mim. Estremeço. «O senhor desculpe, eu não queria incomodá-lo. Vi seus lábios mexer. Estava com certeza a repetir frases do seu livro.» A pessoa ri. «Andava à procura de algum verso. Olho para o Autodidata, estupefacto. Mas ele parece surpreendido com a minha surpresa: «Sim... Não se deve evitar com cuidado que fiquem versos no meio da prosa?» Baixei ligeiramente na sua estima. Pergunto-lhe o que faz ele aqui, a estas horas. Responde que o patrão lhe deu folga e que veio logo para a Biblioteca; que não vai almoçar, ficará a ler até à hora de fechar. Deixei de lhe prestar atenção, mas com certeza que ele se afastou do assunto primitivo, porque ouço de súbito: «... ter a felicidade como o senhor de andar a escrever um livro.» Tenho de responder alguma coisa. «Felicidade...», digo eu num tom dubitativo. Ele engana-se quanto ao sentido da resposta e corrige rapidamente: «Talento, queria eu dizer, talento!» Subimos ambos a escada. Não tenho vontade de trabalhar. Alguém deixou uma Eugénie Grandet em cima da mesa; o livro está aberto na página vinte e sete. Agarro nele maquinalmente, começo a ler a página vinte e sete depois a página vinte e oito: não tenho coragem para começar pelo princípio. O Autodidacta dirigiu-se para as prateleiras da sala, a passos apressados; volta com dois volumes que larga em cima da mesa, com um ar de cão que encontrou um osso. «Que está o senhor a ler?» Parece que sente relutância em mo dizer: hesita um pouco, rebola os grandes olhos espantados, depois mostrou-me os livros com um ar de constrangimento. São A Turfa e a Turfeira, de Larbalétrier, e Hitopadèsa ou a Instruçõ Util, de Lastex. E então? Não vejo o que o perturba: são leituras que me parecem muito decentes. Por descargo de consciência, folheio a Hitopadèsa, e não encontro lá nada que não seja elevado.
«Tout est grand dans ce célèbre roman, sans que rien ne bouge. Eugénie est une sorte de sainte selon l'homme, toujours fidèle à une même pensée, mais toute naturelle. [...] Eugénie est le premier personnage de ce drame d'amour [...] En Grandet, ce rocheux Grandet, il y a une source de tendresse émouvante, quand il se cache pour voir sa fille à la toilette. [...] Au rebours on trouvera dans Eugénie tous les stratagèmes du cœur, et un vrai courage à affronter le terrible homme aux gants de cuir. On a tout dit sur Grandet. On a moins remarqué ce mot de reine, lorsque Eugénie se trouve maîtresse d'une immense fortune et assiégée d'intrigues. Elle répond : « Nous verrons cela» comme son père faisait. [...] Ainsi l'âme de Grandet finit par être sauvée. Balzac laboure la terre.»
«Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.»
O Autodidata, ao ver que estou a escrever, observa-me com uma concupiscência respeitosa. De vez em quando levanto um pouco a cabeça, vejo o imenso colarinho postiço, alto e sem pontas, donde lhe sai o pescoço de frango. Traz um fato coçado, mas nem uma sombra lhe polui a alvura da roupa. Acaba de tirar da mesma prateleira outro volume, e consigo ler-lhe o título, mesmo de pernas para o ar: O Campanário de Caudebec, crónica normanda, por Julie Lavergne. As leituras do Autodidata desconcertam-me sempre. De súbito, os nomes dos últimos autores cujas obras ele consultou vêm-me à memória: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; acabo de perceber qual é o método do Autodidata: vai-se instruindo por ordem alfabética.
Contemplo-o com uma espécie de admiração. Que vontade não lhe será precisa para realizar lenta, obstinadamente, um plano de tão vasta envergadura? Um dia, há sete anos (disse-me ele que já estudava havia sete anos), entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inumeráveis livros que cobrem as paredes e disse, provavelmente, mais ou menos como Rastignac: «Agora nós, Ciência humana.» Depois foi buscar o primeiro livro da primeira prateleira da extrema direita; abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e de terror, unido a uma decisão inabalável. Vai agora na letra L. Do J passara ao K, do K passou ao L. Saltou brutalmente do estudo dos coleópteros para o estudo da teoria dos quanta, duma obra sobre Tamerlão para um panfleto católico contra o darwinismo: nunca se atrapalhou. Leu tudo; armazenou na cabeça metade do que se sabe sobre a parteno-genese, metade dos argumentos contra a vivissecção. Atrás dele, adiante dele, há um universo. E aproxima-se o dia em que dirá para consigo, fechando o último volume da ultima prateleira da extrema esquerda: «E agora?»
Nunca tive tão nitidamente como hoje o sentimento de ser o meu corpo, sem dimensões secretas, de me reduzir aos pensamentos leves que sobem dele como bolhas. Construo as minhas recordações com o meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado lá. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir da minha prisão. Batem à porta. É o Autodidata. Tinha-me esquecido: prometi mostrar-lhe as fotografias das minhas viagens.
Se um dia eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu carácter... E à volta compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto, física e moralmente, que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.»
«Que espécie de aventuras?», pergunto-lhe surpreendido.
«De todas as espécies. Tomar um comboio que não é o nosso. Descer numa cidade desconhecida. Perder a carteira, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Acho que se podia definir a aventura assim: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser forçosamente extraordinário. Fala-se da magia das aventuras,»
Não tive aventuras. Sucederam-me histórias, acontecimentos, incidentes, tudo o que se quiser. Mas aventuras, não. Não é uma questão de palavras; começo a compreender. Há qualquer coisa que eu prezava mais que tudo o resto - sem dar bem por isso. Não era o amor, oh, não!, nem a glória, nem a riqueza. Era... Enfim, tinha imaginado que, em certos momentos, a minha vida podia ganhar uma qualidade rara e preciosa. Não eram precisas circunstâncias extraordinárias: tudo quanto eu pedia era um pouco de rigor. A minha vida presente não tem nada de brilhante: mas, de tempos a tempos, por exemplo, quando, nos cafés, se ouvia música, eu revia o passado e dizia para comigo: «Outrora, em Londres, em Mequinez, em Tóquio, conheci momentos admiráveis, tive aventuras.» É esta possibilidade que agora me é negada. Acabo de descobrir, lentamente, sem razão aparente, que andei dez anos a mentir a mim próprio. As aventuras estão nos livros. E, bem entendido, tudo o que se conta nos livros pode suceder realmente, mas não da mesma maneira. Ora, é precisamente esta maneira de suceder que eu prezava tanto.
SÁBADO, MEIO-DIA.
O Autodidata não me viu entrar na sala de leitura. Estava sentado à ponta da mesa do fundo; tinha um livro aberto diante dele, mas não lia. Estava a olhar, sorrindo, para o vizinho da direita, um colegial muito sujo que vem muitas vezes à Biblioteca. O outro deixou-se contemplar um momento, depois deitou-lhe a língua de fora, fazendo uma horrível careta. O Autodidata corou, voltou precipitadamente ao seu livro e ficou absorto na leitura.
Reconsiderei as minhas reflexões de ontem. Ontem estava seco de todo: era-me indiferente que não houvesse aventuras. O que eu queria saber era apenas se não podia haver.Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.
Decididamente, o sentimento de aventura não vem dos acontecimentos: a prova está tirada. É antes a maneira como os instantes se encadeiam. Eis, creio eu, o que se passa: bruscamente sente-se que o tempo corre, que cada instante conduz a outro instante, esse outro a um terceiro, e assim sucessivamente; que todos os instantes se aniquilam, que é inútil tentar reter algum, etc., etc. E então atribui-se essa propriedade aos acontecimentos que nos aparecem dentro dos instantes; o que pertence à forma é trasladado para o conteúdo. Em suma, esse famoso correr do tempo, fala-se muito dele, mas quase não se vê. Vê-se uma mulher, pensa-se que ela será velha um dia, somente não a vemos envelhecer. Mas em certos instantes parece que a vemos envelhecer e que nos sentimos envelhecer com ela: é o sentimento de aventura. Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo. O sentimento de aventura seria, muito simplesmente, o da irreversibilidade do tempo. Mas porque é que não o temos constantemente? O tempo não será constantemente irreversível?
Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata ia a sair. Precipitou-se sobre mim: «Tenho de lhe agradecer. As suas fotografias fizeram--me passar algumas horas inesquecíveis.» Ao vê-lo tive um momento de esperança: a dois, talvez fosse mais fácil atravessar aquele dia. Mas, com semelhante criatura, só aparentemente é que se vive a dois.
O Autodidata bateu num in-quarto. Era uma História das Religiões. «Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese. O senhor não acha?»
Tinha um ar cansado e tremiam-lhe as mãos.
«O senhor está com má cara», disse-lhe eu.
«Não admira! É que estou metido numa história abominável.»
O fiscal veio na nossa direcção: é um corso baixinho, irascível, com um bigode desmedido. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo com os calcanhares. No Inverno, cospe nos lenços e põe-nos a secar sobre o fogão de aquecimento.
O Autodidata aproximou-se tanto que senti na cara o sopro da sua respiração.
«Não quero dizer-lhe diante deste homem», preveniu num jeito de confidência. «Se o senhor quisesse...»
«O quê?» Corou e ondearam-lhe as ancas graciosamente: «É muito atrevimento da minha parte. Mas... o senhor aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?» «Com muito gosto.»
Tinha tanta vontade de ir almoçar com ele como de me enforcar. «Dá-me muito prazer em aceitar», disse o Autodidata. Acrescentou rapidamente: «Se não se importa, vou buscá-lo a casa», e desapareceu, com medo, certamente, de que, se me desse tempo, eu mudasse de opinião.
Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz. Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspeto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. (...) Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre,sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
A queda mais terrível, a mais humilhante que alguém pode experimentar, é sentir ciúmes. Sentir ciúmes é o reconhecimento da nossa inferioridade... Desejar a morte de alguém todos já desejámos, quanto mais não fosse matar a porteira para ser notícia de jornal...São desejos perversos que até dignificam: ter ciúmes é a inferioridade em estado bruto...Gosto, particularmente, do modo como bernardo soares não sente ciúmes...
Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco. Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor.
Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma». (...) Que seja o seu marido esse... Queria que eu descesse ao nível dele? Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.
Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos, se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida. Reina quem não está entre os vulgares. Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.
Cair subitamente em momentos do passado, uma queda diferente...
Quase nada.Como que uma picada de inseto que a princípio parece muito leve.
Sonhara muitas vezes, em tardes de solidão , que o telefone tocava e que uma voz doce lhe marcava um encontro... Mas a voz de há pouco não lhe inspirara confiança. Simultaneamente indolente e ameaçadora, essa voz.
Aqui, tudo se passara suavemente,uma agenda perdida, vozes ao telefone, um encontro num café...Sim, tudo tinha a leveza de um sonho. E as páginas do dossier também lhe tinham provocado uma sensação estranha: por causa de certos nomes...e de todas aquela palavras encavalitadas umas nas outras, sem duplo espaço entre linhas, encontrava-se bruscamente em presença de certos pormenores da sua vida, mas refletidos num espelho deformante, pormenores incongruentes que nos perseguem nas noites de insónia.
Cair nos braços de alguém é uma queda de uma mediania deprimente...Tal como ter queda para isto ou para aquilo...
I wanna write her, her name in the sky I wanna free fall out into nothin' Oh, I'm gonna leave this world for a while Now I'm free, free fallin', fallin' Free fallin', fallin...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica..
A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.
Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?
.. e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.
...e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue......um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito. A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas do esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros (...) tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor, (...) E, perante, a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza de meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais...
Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ámen.
Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas caricias
Dos instantes volúveis.
Queda...Um "apontamento" inevitável: A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau. Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter...
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância, tinha um caderno.
é preciso fazer a queda como se faz uma casa-, é uma construção, não é um desastre um acidente uma distracção, a queda é um acontecimento para levar a sério... sem excitação ou desejo nem uma queda existiria no mundo,é o que me parece, ámen
o tempo do combate é o tempo da queda, aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir, não percebo o que fiz, estou metade irritado, estou a planear uma acção paranóica...
Never regret thy fall,
O Icarus of the fearless flight
For the greatest tragedy of them all
Is never to feel the burning light...
A vida ri-se das probabilidades e põe palavras onde imaginamos silêncios e súbitos regressos quando pensávamos que não nos voltaríamos a encontrar. O que significa definitivamente? É muito tempo?
E tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir...
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.(...)
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Life is a fear of falling Life is a fear of falling through All the cracks... You fall wonderfully If I question everything you say Another answer crumbles the birth of my day It's when you were hereYou, calling out a name You, swimming to me through a dream
Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
Para mim, nem sequer o dever de ir ao funeral...
Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
A Queda
E eu que sou o rei de toda esta incoerência, Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la E giro até partir... Mas tudo me resvala Em bruma e sonolência. Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro, Volve-se logo falso... ao longe o arremesso... Eu morro de desdém em frente dum tesouro, Morro á mingua, de excesso. Alteio-me na cor à força de quebranto, Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...Peneiro-me na sombra - em nada me condenso... Agonias de luz eu vibro ainda entanto. Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, - Vencer às vezes é o mesmo que tombar - E como inda sou luz, num grande retrocesso, Em raivas ideais, ascendo até ao fim: Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso... Tombei... E fico só esmagado sobre mim!...
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas,tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
O seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. A sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda. Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte do seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima da sua mãe. Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com a sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
And dissolve into the fall Of things new, of things gone To remind our restless souls Of the beauty of being here at all...
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser. .
Escada absoluta sem degraus..
Visão que se não pode ver
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido.
Uma "queda" de fernando pessoa que caiu no esquecimento, pois o orpheu 3 não chegou a ser publicado...
I ain't different from nobody and I just can't take no more I've got to leave where I'm going I don't know I've got to leave where I'm going I just don't know... And I've had so much trouble I'm out of reach I can't take no more...
Ah, mas já nem posso Amaldiçoar. O Bem e o Mal são Formas de erro. Nem amaldiçoar! Ah o horror, o horror sinto ao vazio À roda de mim. Eu já não posso Amaldiçoar, nem ora dirigir-me A potências ou forças, pois já sei Que a verdade está além do concebível... Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer, Nem rir, nem chorar, morte nem vidaDesejar. (Vê um frasco em cima da mesa) Ah dormir, talvez dormindo Esqueça tudo (Tira o frasco e deita com cuidado) Não haja eu, que em (horror) Dormir cuidando, fosse atingir O temido eterno sono! Só a ideia... Não mais. Basta. Está bem. Bebamos. (Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.
Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.
Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar..
Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura.Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada. Que de vezes o próprio sonho fútil me deixa um horror à vida interior, uma náusea física dos misticismos e das contemplações. Com que pressa corro de casa, onde assim sonhe, ao escritório; e vejo a cara do Moreira como se chegasse finalmente a um porto. Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à verdade;(...) Sonho porque sonho, mas não sofro o insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem o meu teatro íntimo, como não dou ao vinho, de que todavia me não abstenho, o nome de alimento ou de necessidade da vida.
Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar... Náusea. Vontade de nada. Que náusea de vida...
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro, De fonte, de começo, de origem.
Que fiz eu da vida?
Que fiz eu do que queria fazer da vida?
Que fiz do que podia ter feito da vida?
Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco?
Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas
E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio.
Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivessemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Olha-se mas não se vê. (...) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, e esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça. Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada.(...) Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro. Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com.o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job «Minha alma está cansada de minha vida!»
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos Necrose da alma, Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. Custa-me a respirar para sustentar a alma.(...)
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Levanto-me de chofre: se pelo menos já pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito. E depois, dentro dos pensamentos, há as palavras, as palavras inacabadas, os esboços das frases que retornam constantemente: "Tenho que termi... Eu ex... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não estou... Eu ex..." Isso continua, continua e não termina nunca. É pior que o resto porque me sinto responsável e cúmplice. Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tento, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça... e eis que tudo recomeça: "Fumaça... Não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento." Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando a minha existência (...)
A palavra 'Absurdo' surge agora sob minha caneta; há pouco no jardim não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma ideia em minha cabeça, nem um sopro de voz, mas sim aquela longa serpente morta aos meus pés, aquela serpente de lenho. Serpente ou garra, ou raiz, ou gafa de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nada, compreendi que havia encontrado a chave da Existência, a chave de minhas Náuseas, de minha própria vida. De fato, tudo o que pude captar a seguir liga-se a esse absurdo fundamental. Absurdo: aind auma palavra; debato-me com as palavras; Já eu tocava a coisa. Mas desejaria fixar aqui o caráter absoluto desse absurdo. Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens sempre é apenas relativamente absurdo: em relação às circunstâncias qu o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que este se encontra, mas não em relação ao seu delírio. Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo."
O meu pensamento sou eu: eis por que não posso parar. Existo porque penso... e não me posso impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás da minha cabeça... se cedo, virão para a frente, aqui entre os meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, enchendo-me por inteiro...
Tenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns. Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]
Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pícrico. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à terra. Outras, novinhas e, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, assentam no chão como cisnes, mas já a terra, por baixo, as vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a tatear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se estão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.
Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as botas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial, com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente de um caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sítios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas... Não pude.
Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado – O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero.
É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com uma pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão.
Mas lá chegaria o momento em que o livro estivesse escrito, ficasse atrás de mim, e acho que um pouco da sua claridade cairia sobre o meu passado. Talvez então eu pudesse, através dele, recordar a minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: «Foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou.» E assim chegaria a aceitar-me - no passado, apenas no passado.
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Sonhos e sonhadores...
He llegado a soñar con las palabras.
Las palabras no me dejan dormir.
Me golpean desde atrás del decorado,
personajes subversivos
que hasta llegan a rasgar el telón
para cambiar siempre la obra.
Las palabras no esperan.
¿Hasta cuándo durarán?
Son como gotas de sangre
que van cayendo sobre el texto
y también a veces en el margen.
Pero no les bastan las figuras del día,
la vigilia ilustrada entre la vida y la muerte.
El texto es infinito
y también lo es el margen.
Quizá el texto debiera estar en el margen.
El sueño es una región abandonada
o por lo menos disponible
para la entrada necesaria del verbo.
Contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais. Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade. Não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos nem o meu carácter.Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos por mim próprio. Cada pessoa é apenas o sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Nunca ler um livro até ao fim, nem lê-lo a seguir e sem saltar. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus.
(...). Posso amar sem me recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida: depende apenas do meu poder em tornar o sono vívido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.
Há várias maneiras de sonhar. Uma é abandonar-se aos sonhos, sem procurar torná-los nítidos, deixar-se ir no vago e no crepúsculo das suas sensações. É inferior e cansa, porque esse modo de sonhar é monótono, sempre o mesmo. Há o sonho nítido e dirigido, mas aí o esforço em dirigir o sonho trai o artifício demasiadamente. O artista supera, o sonhador como eu o sou, tem só o esforço de querer que o sonho seja tal, que tome tais caprichos... e ele desenrola-se diante dele assim como ele o desejaria, mas não poderia conceber se fatigaria de fazê-lo. Quero sonhar-me rei... Num acto brusco quero-o. E eis-me súbito rei dum país qualquer. Qual, de que espécie, o sonho mo dirá...Porque eu cheguei a esta vitória sobre o sonho — que os meus sonhos trazem-me sempre inesperadamente o que eu quero. Muitas vezes aperfeiçoo, ao trazê-la nítida, a vida cuja vaga ordem apenas resolveram.
Eu sou totalmente incapaz de idear convenientemente as Idades Médias de diversas épocas e de diversas Terras que tenho vivido em sonhos. Deslumbra-me o excesso de imaginação que desconhecia em mim e vou vendo. Deixo os sonhos ir... Tenho-os tão preciosos que eles excedem sempre o que eu espero deles São sempre mais belos do que eu quero. Mas isto só o sonhador aperfeiçoado pode esperar obter. Tenho levado anos a buscar sonhadoramente isto. Hoje consigo-o sem esforço...
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance e eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso.
É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei. É curioso mas os romances policiais, os (...) é que por uma (...) intuição eu lia... Nunca pude ler romances amorosos detidamente. Mas isso é uma questão pessoal, por não ter feitio de amoroso nem mesmo em sonhos. Cada qual cultive, porém, o feitio que tiver. Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurarmo-nos. O sensual deverá, para suas leituras, escolher as opostas às que foram as minhas.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, porque com sucesso sonhar combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... O primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele [...] ter uma ejaculação qualquer com muitos desses [...].
Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação no caso do sonho (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser senti-la sem se ter dado. O cansaço será ainda maior, mas o prazer é correspondentemente mais intenso.
No terceiro grau passa toda a sensação a ser mental. Aumenta o prazer e aumenta o cansaço, mas o corpo já nada sente, e em vez dos sonhos lassos, a inteligência a vida e o amor é que ficam umbrosos e frouxos...Chegando aqui é tempo de passar para o grau supremo do sonho.
O quarto grau é o construir romances para si próprio. Só deve tentar-se isto quando está perfeitamente mentalizado o sonho, como antes disse. Se não, o esforço individual em criar os romances, perturbaria a perfeita mentalização do gozo.
Terceiro grau.
Já entendida a imaginação, basta querer, e ela se encarregará de construir os sonhos por si.
Já aqui o cansaço é quase nulo mesmo mental. Há uma dissolução absoluta da personalidade. Somos mera cinza dotada de alma, sem forma — nem mesmo a da água que é a da vasilha que a contém.
Bem apontada esta (...) deixemos poder aparecer em nós, verso a verso desenrolando-se alheios e perfeitos. Talvez já não haja a força de os escrevermos... nem isso será preciso. Poderemos criar em segunda mão — imaginar em nós um poeta a escrever, e ele escrevendo de uma maneira, outro poeta entretanto escreveria de outra...
Eu posso escrever de inúmeras maneiras diversas, [...] todas.
O mais alto grau do sonho é quando criado um quadro com personagens — vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjuntas e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encorajamento do espírito a que isto leva e é difícil confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo...
Este é o único [...] final. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.
Nem no orgulho tenho consolação. De quê orgulhar-me se não sou o criador de mim-próprio.E mesmo que haja em mim de que envaidecer-me, quanto para me não envaidecer. Jazo a minha vida. E nem sei fazer com o sonho o gesto de me erguer, tão até à alma estou despido de saber ter um esforço. (...) Pessimista — eu não o sou. Ditosos os que conseguem traduzir para universal o seu sofrimento. Eu não sei se o mundo é triste ou mau nem isso me importa, porque o que os outros sofrem me é aborrecido e indiferente. Logo que não chorem ou gemam, o que me irrita e incomoda, nem um encolher de ombros tenho — tão fundo me pesa o meu desdém por eles — para o seu sofrimento.
Eu não sou pessimista. Não me queixo do horror da vida. Queixo-me do horror da minha. O único facto importante para mim é o facto de eu existir e de eu sofrer e de não poder sequer sonhar-me de todo por fora de me sentir sofrendo. Sonhadores felizes são os pessimistas. Formam o mundo à sua imagem e assim sempre conseguem estar em casa. A mim o que me dói mais é a diferença entre o ruído e a alegria do mundo e a minha tristeza e o meu silêncio aborrecido.
A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como uma viagem em velha diligência para quem vai acompanhado... Nem ao menos posso sentir o meu sofrimento como sinal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu sofro com coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais, que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter génio. A glória de um poente belo, com a sua beleza entristece-me. Ante eles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!
E este livro é um gemido. Escrito ele já o Só não é o livro mais triste que há em Portugal. Ao pé da minha dor todas as outras dores me parecem falsas ou mínimas. São dores de gente feliz ou dores de gente que vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte...Entre mim e a vida...
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção.Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz junta aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.
(...)Os sonhos também serão talvez ou ainda outra dimensão em que vivemos, ou um cruzamento de duas dimensões; como um corpo vive na altura, na largura e no comprimento, os nossos sonhos, quem sabe, viverão no ideal, no eu e no espaço. No espaço pela sua representação visível; no ideal pela sua apresentação de outro género que a da matéria; no eu pela sua íntima dimensão de nossos. O próprio Eu, o de cada um de nós, é talvez uma dimensão divina. Tudo isto é complexo e a seu tempo, sem dúvida, será determinado. Os sonhadores actuais são talvez os grandes precursores da ciência final do futuro. Não creio, é claro, numa ciência final do futuro. Mas isso nada tem para o caso.
Fechei o livro. Devo ter sonhado aquilo há muito tempo, em criança. A informação ficou guardada em alguma gaveta abandonada do meu cérebro,anos a fio, até regressar sob a forma fantasiosa de um sonho.
Os sonhos são artefactos delicados. A maioria esfarela-se à luz como a pele dos vampiros, e depois nem cinzas. Poucas pessoas sabem sonhar.
Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida.
Um gato não conta como companhia. Não se tem a companhia de um gato. Partilhar a casa com um gato é uma forma elegante de solidão. Fechei a porta da casa de banho , girei a chave , sentei-me na banheira e chorei.
—Sonhei com ele. Sonhei com ele, como acontecia antigamente, em Havana.
—Não pode ser.
—Há muita coisa que não pode ser. Em todo o caso, sonhei com o Hossi. Disse-me que você tem de encontrar o diário dele.
Eu sabia que Hossi escrevia um diário. Uma tarde conversámos sobre isso. Achei curioso que ambos escrevêssemos diários. Não é algo muito frequente. O hoteleiro discordou: disse-me que talvez não fosse um hábito em Luanda, até porque os luandenses são mandriões e desorganizados, mas que no tempo da guerrilha muita gente escrevia diários.
Quevedo é um poeta estranho, uma alma violenta em "claroescuro", um homem demoníaco com brilho angélico, um ser espantoso e torturado...A sua vida é um contínuo estertor, uma intensa agonia...Pícaro e estóico, de alma dorida, sempre desafiante. Crítico mordaz da mediocridade da vida cortesã , quevedo é, sem dúvida, o grande génio do barroco espanhol. Quevedo , um daqueles escritores de quem muitos falam, mas poucos leem...
Os sonhos , diz Homero, pertencem a Júpiter que os envia, e num outro lugar hão de crescer.É assim quando tocam em coisas importantes e piedosas ou as sonham reis e grandes senhores, como se depreende do que diz o doutíssimo e admirável Propércio , nestes versos: Nec tu sperne piis venientia somnia portis: cum pia veneruntsomnia, pondus habent. Digo isto a propósito de um sonho que considero ter caído do céu, nas noites anteriores, tendo fechado os olhos com o livro do santo Hipólito...
Há três géneros de homens no mundo: o que , por se acharem ignorantes, não escrevem, e estes merecem perdão por se terem calado e louvor por se conhecerem; outros que não comunicam o que sabem: a estes há que lamentar a condição e invejar o engenho, pedindo a Deus que lhes perdoe o passado e os emende no futuro; os últimos não escrevem por medo das más línguas: estes merecem repreensão...
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.Vivemos pela acção, isto é, pela vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos — irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fizerem ali?
Febre! Febre! Estou trémulo de febre E de delírio, e ainda assim é grato Tudo isto a não sei que se passa Sem propósito de passar e... não, não, não... Fiquei fingindo que fujo... Fugirei... Onde estou? O que foi? que faço aqui? Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.(...) Não tornarei, eu sinto-o, a sentir O que sentia antigamente. Foi-se Não sei como, o interior do meu ser Com suas intuições, mas não se foi A memória terrível do horror Da minha vida antiga, perto e longe Já do que eu sou, nem o que o uso fez Ao sentimento e ao pensamento antigos;Ainda os tenho comigo.
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. Os meus próprios raros entusiasmos, se me lembro deles, logo se me esvaem - pois, ao medi-los, encontro os tão mesquinhos, tão de pacotilha… Quer saber? Outrora, à noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos, entressonhando a glória, o amor, os êxtases… Mas hoje já não sei com que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores… eles próprios me fartaram: são sempre os mesmos - e é impossível achar outros… Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo - aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio.
Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras... Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. Os teus seios não são dos que se pudesse pensar em beijar-se. O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade (És a mulher anterior à Queda) […] O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. As da terra, que para serem têm de suportar o peso movediço de um homem — quem as pode amar, que não se lhe desfolhe o amor na antevisão do prazer que serve o sexo […]? Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula... Quem não se enoja de ter mãe por ter sido tão vulvar na sua origem, tão nojentamente parido? Que nojo de nós não punge a ideia da origem carnal da nossa alma — daquele inquieto corpóreo de onde a nossa carne nasce e, por bela que seja, se desfeia de origem e se nos enoja de nata. (...)
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás minha ali, num outro e puro mundo onde sem corpo táctil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse(s)? Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo? Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente,se o meu amar-te não foi o pensar-em-ti, se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava, e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?
Não sei mesmo já [se] não te amei já, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância, fêmea talvez por outras razões que não as de sê-lo. Posso pensar-te virgem e também mãe porque não és deste mundo. A criança que tens nos braços nunca foi mais nova para que houvesses de a sujar de a ter no ventre. Nunca foste outra do que és e como não seres virgem portanto? Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.(...) Realizadora dos absurdos, seguidora de frases sem nexo.
Por um lado, era a causa do seu idealismo excessivo e empolado, de uma personalidade oficiosa e orientada para o exterior cuja capacidade de amar, cuja nostalgia espiritual abarcavam tudo o que era grande e nobre à sua volta e se lhe entregavam e aliavam de forma tão íntima que Diotima despertava aquela impressão que tanto confundia os homens, de um sol de amor ardente, mas platónico, cuja descrição suscitara a curiosidade de Ulrich em a conhecer. Por outro lado, porém, o ritmo espaçado das relações conjugais tinha desenvolvido nela um hábito puramente fisiológico, com uma órbita própria, independente das partes mais elevadas do seu ser, como a fome de um trabalhador do campo cujas refeições são raras, mas substanciais.(...)Amava o marido, mas juntava-se a esse amor uma dose crescente de repulsa, e mesmo uma terrível afranta de alma só comparável aos sentimentos de Arquimedes, mergulhado nos seus grandes projetos, experimentaria se o soldado inimigo o não tivesse matado, mas lhe fizesse propostas sexuais obscenas.(...) Talvez isso tivesse provocado em Diotima apenas uma melancolia ou um acentuar do seu idealismo, se, infelizmente, não tivesse acontecido precisamente na altura em que o seu salão começou a criar-lhealgumas dificuldades de ordem espiritual.
Mas eu não conseguia dormir. Estava em mim uma suspeita, um assombro latente, uma subtil incompreensão. Porquê? Na adolescência sonhei muitas vezes que caminhava, com as mãos frias e vermelhas de sangue, através de uma aldeia onde havia casas de pedra sem portas nem janelas. A aldeia nunca mais acabava.Haveria algures uma casa iluminada.Uma casa com portas e janelas, iluminada por dentro. Nunca a encontrei.Acordava a tremer. O sonho repetiu-se ao longo de meses. Penso que nada significava ,ou significava tanto que nunca o entendi ,nem uma vida inteira bastaria para verdadeiramente entender. Não dormia.Impossível.(...) Não sei nada. Atrevo-me a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida.
À noite tive um sonho incómodo onde se representavam umas escadas de pedra; no cimo delas, eu fazia um sinal imperceptível de despedida a alguém que se afastava em baixo. Atravessei portas que se abriam e fechavam à minha passagem sem eu lhes tocar... Durante o sonho, a mão direita agarrava um punhado de brasas.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
Em sonhos tornas-te real: só quando te sonho, te encontro, te sinto. Afinal, a tua perfeição está em mim , não em ti...Serás da matéria de que os sonhos são feitos? À medida que vou perdendo a capacidade de sonhar, desprendo-me de ti e nem sequer o lamento. Como sonho permanecerás...
Ai como eu te quero...
Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si a sua dose de ópio natural, incessantemente segregada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que o meu espírito pintou, nesse quadro que se parece contigo? Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. És tu, ainda, esses grandes rios, esses canais serenos. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma, e, quando fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda os meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.
Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne, que eu sonho visitar. País singular, nascido nas brumas do nosso Norte e que se poderia chamar o Oriente do Ocidente… Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranquilo, honesto; onde a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo... Conheces… esta nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranquilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É para lá que se deve ir viver, é para lá que se deve ir morrer. Sim, é para lá que se deve ir para respirar, sonhar e alongar as horas para o infinito...Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites da sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Eu encontrei a minha tulipa negra e a minha dália azul!Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é? Nesse belo país tão calmo e tão sonhador…Sonhos! Sempre sonhos!
Con cada vez que te veo nueva admiración me das, y cuando te miro más, aun más mirarte deseo... ¿Qué os admira? ¿Qué os espanta, si fue mi maestro un sueño, y estoy temiendo, en mis ansias, que he de despertar y hallarme otra vez en mi cerrada prisión? Y cuando no sea, el soñarlo sólo basta; pues así llegué a saber que toda la dicha humana, en fin, pasa como sueño, y quiero hoy aprovecharla el tiempo que me durare, pidiendo de nuestras faltas perdón, pues de pechos nobles es tan propio el perdonarlas.
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta de uma figura nacional, no sentido dum mito.No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico - como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica - mas em que não é absurdo confiar.
D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade. O cavalo branco tem mais difícil interpretação. Pode ser Sagitário, signo do zodíaco, e conviria, em tal caso, perceber o que a referência indica, perguntando, por exemplo, se há referência à Espanha , ou se há referência a qualquer trânsito de planeta no signo de Sagitário. O Apocalipse porém, fornece outra hipótese sobre este assunto. De difícil interpretação, também, é a Ilha.
O sebastianismo tem sido incompreendido. Tomado por uns como sendo uma mera superstição popular, por outros como um devaneio imperialista da decadência, o facto é que ele tem sido, em geral, tido por assunto desprezível e obscuro. Obscuro com certeza que é, para aqueles que não têm o fio condutor que os leve seguramente através do labirinto das profecias sebásticas. Desprezível está longe de ser — tanto pela razão, estritamente exotérica e sociológica, de que o sebastianismo é o único movimento profundamente nacional que tem havido entre nós…
O que seja propriamente o sebastianismo — hoje mais vigoroso do que nunca, na assombrosa sociedade secreta que o transmite cada vez mais ocultamente de geração em geração, guardado religiosamente o segredo do seu alto sentido simbólico e português, que pouco tem que ver com o D. Sebastião que se diz ter morrido em África, e muito com o D. Sebastião que tem o número cabalístico da Pátria Portuguesa —, eis o que não é talvez permitido desvendar. Mas, para interesse dos leitores, não é talvez mal cabido explicar qual a data marcada para o Grande Regresso, em que a Alma da Pátria se reanimará, se reconstituirá a íntima unidade da Ibéria, através de Portugal, se derrotará finalmente o catolicismo (outro dos elementos estrangeiros entre nós existentes e inimigo radical da Pátria) e se começará a realizar aquela antemanhã ao Quinto Império…
Mas que quer dizer esse Grande Regresso? O que é que regressa? O que significa, ao certo, essa Vinda de D. Sebastião? O próprio D. Sebastião o que significa? Perguntas são estas a que se não pode responder senão com o texto velado do Tertuliano: Aquelas coisas que estão veladas, descobertas, ficam destruídas…
É esse lugar de sonho, esse lugar ao abrigo do sonho, esse passado- presente que a “alma portuguesa” não quer abandonar... Portugal, imerso com doçura no mundo, natural e sobrenaturalmente maravilhoso, converteu-se em ilha-saudade.
Abandonemos Fátima por Trancoso. Esse humilde sapateiro de Trancoso é um dos mestres da nossa alma nacional, uma das razões de ser da nossa independência, um dos impulsionadores do nosso sentimento imperial… Que Portugal tome consciência de si mesmo… Quebremos com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas inteligências e sobre as nossas decisões. Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja. Deixemo-nos de importar Deus, porque Deus [...] esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha. Não queremos estrangeiros. No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja nosso. Expulsemos pois o elemento romano. Se há que haver religião no nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o sebastianismo.
A manhã de nevoeiro. Por manhã entende-se o princípio de qualquer coisa nova — época, fase, ou coisa semelhante. Por nevoeiro entende-se que o Desejado virá “encoberto”; que, chegando, ou chegado, se não perceberá que chegou. A primeira vinda, 1640, mostra isto bem: a data marca o princípio de uma dinastia, e a vinda de D. Sebastião foi “encoberta”, foi através de nevoeiro, pois julgando todos — em virtude de sua simbologia primitiva — que o Encoberto era D. João IV, em verdade o Encoberto era o facto abstracto da Independência, como aqui se viu. Na Segunda Vinda, em 1888, por pouco que possamos compreender, compreendemos contudo que a profecia tradicional se cumpre: sabemos que 1888 é “manhã”, porque é o princípio do Reino do Sol — por onde se notará que melhor não pode haver para que se simbolize por “manhã”—, e, estando nós já a 37 anos dessa data, sem que ainda possamos compreender o que nela se deu, não pode haver dúvida do carácter encoberto, nevoento, da Vinda Segunda de D. Sebastião.
O defeito, a fraqueza, do sebastianismo tradicional reside, não em ele, senão em a deficiência e a fraqueza de seus intérpretes. Ignorantes, decadentes, ensinados a crer pelo espírito católico, esperavam de fora o Encoberto, aguardavam inertes a salvação externa. O Encoberto, porém, é um conceito nosso; para que venha, é preciso que o façamos aparecer, que o criemos em nós através de nós. É com ânsia quotidiana, com uma vontade de hora a hora, que em nossa alma o devemos erguer, de ali o projectando para o mundo chamado externo... Não há homens salvadores. Não há Messias. O máximo que um grande homem pode ser é um estimulador de almas, um despertador de energias alheias...
Ao que nós chegámos. Uma coisa é esperar o aparecimento de um rei falecido há séculos, outra é contar com um heleno para nos conseguir melhores condições de vida. Que é feito das fantasias tradicionais portuguesas? Onde estão as ilusões nacionais de antanho? É certo que a probabilidade de Portugal beneficiar da acção de Alexis Tsipras acaba por ser maior do que a do regresso de D. Sebastião, mas quão fracos têm de ser os nossos mitos para que um grego de 40 anos os substitua tão facilmente?
Flui, indeciso na bruma, / Mais do que a bruma indeciso,/ Um ser que é coisa a achar / E a quem nada é preciso. Tenho em mim como uma bruma / Que nada é nem contém / A saudade de coisa nenhuma...
Adoro interpretar. É tão mais real que a vida.
Ninguém sabe que coisa quer, Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro... Nunca será a hora...
Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.
O que nós não somos – porque nada o é – como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e, através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa...
Esperai! Caí no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são Deus. Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que eu me sonhei que eterno duraÉ Esse que regressarei
Haverá rasgões no espaço Que dêem para outro lado, E que, um deles encontrado, Aqui, onde há só sargaço, Surja uma ilha velada, O país afortunado Que guarda o Rei desterrado Em sua vida encantada?
Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura. Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora?
There's a rhythm in rush these days Where the lights don't move And the colors don't fade Leaves you empty with nothing but dreams In a world gone shallow...
Diálogo na Sombra
A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes.
E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais!
A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira.
E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ...
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu jardim ... Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins.
... na aventura de um livro levado a bom termo, ou na vida feliz de um escritor, deve haver, por vezes, um pouco de sombra, alguém que não deixa passar a frase inexacta ...;alguém que volte a ler vinte vezes connosco...;alguém que tire por nós das estantes das bibliotecas os grossos tomos...;alguém que nos ampara, nos aprova, por vezes, nos combate...;alguém que não é a nossa sombra,nem o nosso reflexo,nem mesmo o nosso complemento,mas ela própria; alguém que nos deixa divinamente livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos. Hospes Comesque.
No seu aspecto mais profundo,o meu conhecimento de mim próprio é obscuro,interior, inexpresso,secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca dos números:emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida,que se torna então a vida de outro. A minha vida tem contornos menos firmes...é talvez o que eu não fui que a define com maior clareza...a vida fez-me sempre deslizar.A passagem dos meus dias parece compor-se de materiais diversos acumulados desordenadamente ...Animula Vagula...
E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer.A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais (...) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.
Mesmo só em certo ponto do jogo perdia a sensação de que estava mentindo – e tinha medo de não estar presente em todos os seus pensamentos. Ela morreu assim que pôde.
Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.
Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas inquietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito – imagino já sem lucidez – minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrei a vida, pois? Mas, mesmo assim na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. (...) Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer. Ela nada esperava. Ela era em si, o próprio fim.
Um dia, depois de viver sem tédio muitos iguais, viu-se diferente de si mesma. Estava cansada. Andou de um lado para outro. Ela própria não sabia o que queria. Pôs-se a cantar baixinho, com a boca fechada. Depois cansou-se e passou a pensar em coisas. Mas não o conseguia inteiramente. Dentro de si algo tentava parar. Ficou esperando e nada vinha para ela. Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste. Continuou a andar por vários dias e seus passos soavam como o cair de folhas mortas no chão. (...) Na verdade ela sempre fora duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente.
E foi tão corpo que foi puro espírito. Atravessou os acontecimentos e as horas imaterial, esgueirando-se entre eles com a leveza de um instante.
As coisas principais assaltavam-na em quaisquer momentos, também nos vazios, enchendo-os de significados.
A noite densa e escura foi cortada ao meio, separada em dois blocos negros de sono. Onde estava? Entre os dois pedaços, vendo-os – o que já dormira e o que ainda iria dormir – isolada no sem-tempo e no sem-espaço, num intervalo vazio. Esse trecho seria descontado de seus anos de vida.
O silêncio se prolongava à espera do que pudessem dizer. Mas nenhum dos dois descobria no outro o começo de uma palavra. Fundiam-se ambos na quietude.
Now, as the air grows cold The trees unfold And I am lost and not found...
Las palabras no me dejan dormir.
Me golpean desde atrás del decorado,
personajes subversivos
que hasta llegan a rasgar el telón
para cambiar siempre la obra.
Las palabras no esperan.
¿Hasta cuándo durarán?
Son como gotas de sangre
que van cayendo sobre el texto
y también a veces en el margen.
Pero no les bastan las figuras del día,
la vigilia ilustrada entre la vida y la muerte.
El texto es infinito
y también lo es el margen.
Quizá el texto debiera estar en el margen.
El sueño es una región abandonada
o por lo menos disponible
para la entrada necesaria del verbo.
Contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais. Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade. Não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos nem o meu carácter.Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos por mim próprio. Cada pessoa é apenas o sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Nunca ler um livro até ao fim, nem lê-lo a seguir e sem saltar. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus.
(...). Posso amar sem me recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida: depende apenas do meu poder em tornar o sono vívido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.
Há várias maneiras de sonhar. Uma é abandonar-se aos sonhos, sem procurar torná-los nítidos, deixar-se ir no vago e no crepúsculo das suas sensações. É inferior e cansa, porque esse modo de sonhar é monótono, sempre o mesmo. Há o sonho nítido e dirigido, mas aí o esforço em dirigir o sonho trai o artifício demasiadamente. O artista supera, o sonhador como eu o sou, tem só o esforço de querer que o sonho seja tal, que tome tais caprichos... e ele desenrola-se diante dele assim como ele o desejaria, mas não poderia conceber se fatigaria de fazê-lo. Quero sonhar-me rei... Num acto brusco quero-o. E eis-me súbito rei dum país qualquer. Qual, de que espécie, o sonho mo dirá...Porque eu cheguei a esta vitória sobre o sonho — que os meus sonhos trazem-me sempre inesperadamente o que eu quero. Muitas vezes aperfeiçoo, ao trazê-la nítida, a vida cuja vaga ordem apenas resolveram.
Eu sou totalmente incapaz de idear convenientemente as Idades Médias de diversas épocas e de diversas Terras que tenho vivido em sonhos. Deslumbra-me o excesso de imaginação que desconhecia em mim e vou vendo. Deixo os sonhos ir... Tenho-os tão preciosos que eles excedem sempre o que eu espero deles São sempre mais belos do que eu quero. Mas isto só o sonhador aperfeiçoado pode esperar obter. Tenho levado anos a buscar sonhadoramente isto. Hoje consigo-o sem esforço...
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance e eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso.
É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei. É curioso mas os romances policiais, os (...) é que por uma (...) intuição eu lia... Nunca pude ler romances amorosos detidamente. Mas isso é uma questão pessoal, por não ter feitio de amoroso nem mesmo em sonhos. Cada qual cultive, porém, o feitio que tiver. Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurarmo-nos. O sensual deverá, para suas leituras, escolher as opostas às que foram as minhas.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, porque com sucesso sonhar combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... O primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele [...] ter uma ejaculação qualquer com muitos desses [...].
Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação no caso do sonho (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser senti-la sem se ter dado. O cansaço será ainda maior, mas o prazer é correspondentemente mais intenso.
No terceiro grau passa toda a sensação a ser mental. Aumenta o prazer e aumenta o cansaço, mas o corpo já nada sente, e em vez dos sonhos lassos, a inteligência a vida e o amor é que ficam umbrosos e frouxos...Chegando aqui é tempo de passar para o grau supremo do sonho.
O quarto grau é o construir romances para si próprio. Só deve tentar-se isto quando está perfeitamente mentalizado o sonho, como antes disse. Se não, o esforço individual em criar os romances, perturbaria a perfeita mentalização do gozo.
Terceiro grau.
Já entendida a imaginação, basta querer, e ela se encarregará de construir os sonhos por si.
Já aqui o cansaço é quase nulo mesmo mental. Há uma dissolução absoluta da personalidade. Somos mera cinza dotada de alma, sem forma — nem mesmo a da água que é a da vasilha que a contém.
Bem apontada esta (...) deixemos poder aparecer em nós, verso a verso desenrolando-se alheios e perfeitos. Talvez já não haja a força de os escrevermos... nem isso será preciso. Poderemos criar em segunda mão — imaginar em nós um poeta a escrever, e ele escrevendo de uma maneira, outro poeta entretanto escreveria de outra...
Eu posso escrever de inúmeras maneiras diversas, [...] todas.
O mais alto grau do sonho é quando criado um quadro com personagens — vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjuntas e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encorajamento do espírito a que isto leva e é difícil confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo...
Este é o único [...] final. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.
Nem no orgulho tenho consolação. De quê orgulhar-me se não sou o criador de mim-próprio.E mesmo que haja em mim de que envaidecer-me, quanto para me não envaidecer. Jazo a minha vida. E nem sei fazer com o sonho o gesto de me erguer, tão até à alma estou despido de saber ter um esforço. (...) Pessimista — eu não o sou. Ditosos os que conseguem traduzir para universal o seu sofrimento. Eu não sei se o mundo é triste ou mau nem isso me importa, porque o que os outros sofrem me é aborrecido e indiferente. Logo que não chorem ou gemam, o que me irrita e incomoda, nem um encolher de ombros tenho — tão fundo me pesa o meu desdém por eles — para o seu sofrimento.
Eu não sou pessimista. Não me queixo do horror da vida. Queixo-me do horror da minha. O único facto importante para mim é o facto de eu existir e de eu sofrer e de não poder sequer sonhar-me de todo por fora de me sentir sofrendo. Sonhadores felizes são os pessimistas. Formam o mundo à sua imagem e assim sempre conseguem estar em casa. A mim o que me dói mais é a diferença entre o ruído e a alegria do mundo e a minha tristeza e o meu silêncio aborrecido.
A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como uma viagem em velha diligência para quem vai acompanhado... Nem ao menos posso sentir o meu sofrimento como sinal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu sofro com coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais, que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter génio. A glória de um poente belo, com a sua beleza entristece-me. Ante eles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!
E este livro é um gemido. Escrito ele já o Só não é o livro mais triste que há em Portugal. Ao pé da minha dor todas as outras dores me parecem falsas ou mínimas. São dores de gente feliz ou dores de gente que vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte...Entre mim e a vida...
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção.Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz junta aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.
(...)Os sonhos também serão talvez ou ainda outra dimensão em que vivemos, ou um cruzamento de duas dimensões; como um corpo vive na altura, na largura e no comprimento, os nossos sonhos, quem sabe, viverão no ideal, no eu e no espaço. No espaço pela sua representação visível; no ideal pela sua apresentação de outro género que a da matéria; no eu pela sua íntima dimensão de nossos. O próprio Eu, o de cada um de nós, é talvez uma dimensão divina. Tudo isto é complexo e a seu tempo, sem dúvida, será determinado. Os sonhadores actuais são talvez os grandes precursores da ciência final do futuro. Não creio, é claro, numa ciência final do futuro. Mas isso nada tem para o caso.
Fechei o livro. Devo ter sonhado aquilo há muito tempo, em criança. A informação ficou guardada em alguma gaveta abandonada do meu cérebro,anos a fio, até regressar sob a forma fantasiosa de um sonho.
Os sonhos são artefactos delicados. A maioria esfarela-se à luz como a pele dos vampiros, e depois nem cinzas. Poucas pessoas sabem sonhar.
Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida.
Um gato não conta como companhia. Não se tem a companhia de um gato. Partilhar a casa com um gato é uma forma elegante de solidão. Fechei a porta da casa de banho , girei a chave , sentei-me na banheira e chorei.
—Sonhei com ele. Sonhei com ele, como acontecia antigamente, em Havana.
—Não pode ser.
—Há muita coisa que não pode ser. Em todo o caso, sonhei com o Hossi. Disse-me que você tem de encontrar o diário dele.
Eu sabia que Hossi escrevia um diário. Uma tarde conversámos sobre isso. Achei curioso que ambos escrevêssemos diários. Não é algo muito frequente. O hoteleiro discordou: disse-me que talvez não fosse um hábito em Luanda, até porque os luandenses são mandriões e desorganizados, mas que no tempo da guerrilha muita gente escrevia diários.
Quevedo é um poeta estranho, uma alma violenta em "claroescuro", um homem demoníaco com brilho angélico, um ser espantoso e torturado...A sua vida é um contínuo estertor, uma intensa agonia...Pícaro e estóico, de alma dorida, sempre desafiante. Crítico mordaz da mediocridade da vida cortesã , quevedo é, sem dúvida, o grande génio do barroco espanhol. Quevedo , um daqueles escritores de quem muitos falam, mas poucos leem...
Os sonhos , diz Homero, pertencem a Júpiter que os envia, e num outro lugar hão de crescer.É assim quando tocam em coisas importantes e piedosas ou as sonham reis e grandes senhores, como se depreende do que diz o doutíssimo e admirável Propércio , nestes versos: Nec tu sperne piis venientia somnia portis: cum pia veneruntsomnia, pondus habent. Digo isto a propósito de um sonho que considero ter caído do céu, nas noites anteriores, tendo fechado os olhos com o livro do santo Hipólito...
Há três géneros de homens no mundo: o que , por se acharem ignorantes, não escrevem, e estes merecem perdão por se terem calado e louvor por se conhecerem; outros que não comunicam o que sabem: a estes há que lamentar a condição e invejar o engenho, pedindo a Deus que lhes perdoe o passado e os emende no futuro; os últimos não escrevem por medo das más línguas: estes merecem repreensão...
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.Vivemos pela acção, isto é, pela vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos — irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fizerem ali?
Febre! Febre! Estou trémulo de febre E de delírio, e ainda assim é grato Tudo isto a não sei que se passa Sem propósito de passar e... não, não, não... Fiquei fingindo que fujo... Fugirei... Onde estou? O que foi? que faço aqui? Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.(...) Não tornarei, eu sinto-o, a sentir O que sentia antigamente. Foi-se Não sei como, o interior do meu ser Com suas intuições, mas não se foi A memória terrível do horror Da minha vida antiga, perto e longe Já do que eu sou, nem o que o uso fez Ao sentimento e ao pensamento antigos;Ainda os tenho comigo.
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. Os meus próprios raros entusiasmos, se me lembro deles, logo se me esvaem - pois, ao medi-los, encontro os tão mesquinhos, tão de pacotilha… Quer saber? Outrora, à noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos, entressonhando a glória, o amor, os êxtases… Mas hoje já não sei com que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores… eles próprios me fartaram: são sempre os mesmos - e é impossível achar outros… Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo - aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio.
Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras... Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. Os teus seios não são dos que se pudesse pensar em beijar-se. O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade (És a mulher anterior à Queda) […] O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. As da terra, que para serem têm de suportar o peso movediço de um homem — quem as pode amar, que não se lhe desfolhe o amor na antevisão do prazer que serve o sexo […]? Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula... Quem não se enoja de ter mãe por ter sido tão vulvar na sua origem, tão nojentamente parido? Que nojo de nós não punge a ideia da origem carnal da nossa alma — daquele inquieto corpóreo de onde a nossa carne nasce e, por bela que seja, se desfeia de origem e se nos enoja de nata. (...)
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás minha ali, num outro e puro mundo onde sem corpo táctil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse(s)? Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo? Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente,se o meu amar-te não foi o pensar-em-ti, se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava, e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?
Não sei mesmo já [se] não te amei já, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância, fêmea talvez por outras razões que não as de sê-lo. Posso pensar-te virgem e também mãe porque não és deste mundo. A criança que tens nos braços nunca foi mais nova para que houvesses de a sujar de a ter no ventre. Nunca foste outra do que és e como não seres virgem portanto? Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.(...) Realizadora dos absurdos, seguidora de frases sem nexo.
Por um lado, era a causa do seu idealismo excessivo e empolado, de uma personalidade oficiosa e orientada para o exterior cuja capacidade de amar, cuja nostalgia espiritual abarcavam tudo o que era grande e nobre à sua volta e se lhe entregavam e aliavam de forma tão íntima que Diotima despertava aquela impressão que tanto confundia os homens, de um sol de amor ardente, mas platónico, cuja descrição suscitara a curiosidade de Ulrich em a conhecer. Por outro lado, porém, o ritmo espaçado das relações conjugais tinha desenvolvido nela um hábito puramente fisiológico, com uma órbita própria, independente das partes mais elevadas do seu ser, como a fome de um trabalhador do campo cujas refeições são raras, mas substanciais.(...)Amava o marido, mas juntava-se a esse amor uma dose crescente de repulsa, e mesmo uma terrível afranta de alma só comparável aos sentimentos de Arquimedes, mergulhado nos seus grandes projetos, experimentaria se o soldado inimigo o não tivesse matado, mas lhe fizesse propostas sexuais obscenas.(...) Talvez isso tivesse provocado em Diotima apenas uma melancolia ou um acentuar do seu idealismo, se, infelizmente, não tivesse acontecido precisamente na altura em que o seu salão começou a criar-lhealgumas dificuldades de ordem espiritual.
Mas eu não conseguia dormir. Estava em mim uma suspeita, um assombro latente, uma subtil incompreensão. Porquê? Na adolescência sonhei muitas vezes que caminhava, com as mãos frias e vermelhas de sangue, através de uma aldeia onde havia casas de pedra sem portas nem janelas. A aldeia nunca mais acabava.Haveria algures uma casa iluminada.Uma casa com portas e janelas, iluminada por dentro. Nunca a encontrei.Acordava a tremer. O sonho repetiu-se ao longo de meses. Penso que nada significava ,ou significava tanto que nunca o entendi ,nem uma vida inteira bastaria para verdadeiramente entender. Não dormia.Impossível.(...) Não sei nada. Atrevo-me a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida.
À noite tive um sonho incómodo onde se representavam umas escadas de pedra; no cimo delas, eu fazia um sinal imperceptível de despedida a alguém que se afastava em baixo. Atravessei portas que se abriam e fechavam à minha passagem sem eu lhes tocar... Durante o sonho, a mão direita agarrava um punhado de brasas.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
Em sonhos tornas-te real: só quando te sonho, te encontro, te sinto. Afinal, a tua perfeição está em mim , não em ti...Serás da matéria de que os sonhos são feitos? À medida que vou perdendo a capacidade de sonhar, desprendo-me de ti e nem sequer o lamento. Como sonho permanecerás...
Ai como eu te quero...
Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si a sua dose de ópio natural, incessantemente segregada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que o meu espírito pintou, nesse quadro que se parece contigo? Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. És tu, ainda, esses grandes rios, esses canais serenos. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma, e, quando fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda os meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.
Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne, que eu sonho visitar. País singular, nascido nas brumas do nosso Norte e que se poderia chamar o Oriente do Ocidente… Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranquilo, honesto; onde a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo... Conheces… esta nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranquilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É para lá que se deve ir viver, é para lá que se deve ir morrer. Sim, é para lá que se deve ir para respirar, sonhar e alongar as horas para o infinito...Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites da sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Eu encontrei a minha tulipa negra e a minha dália azul!Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é? Nesse belo país tão calmo e tão sonhador…Sonhos! Sempre sonhos!
Con cada vez que te veo nueva admiración me das, y cuando te miro más, aun más mirarte deseo... ¿Qué os admira? ¿Qué os espanta, si fue mi maestro un sueño, y estoy temiendo, en mis ansias, que he de despertar y hallarme otra vez en mi cerrada prisión? Y cuando no sea, el soñarlo sólo basta; pues así llegué a saber que toda la dicha humana, en fin, pasa como sueño, y quiero hoy aprovecharla el tiempo que me durare, pidiendo de nuestras faltas perdón, pues de pechos nobles es tan propio el perdonarlas.
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta de uma figura nacional, no sentido dum mito.No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico - como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica - mas em que não é absurdo confiar.
D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade. O cavalo branco tem mais difícil interpretação. Pode ser Sagitário, signo do zodíaco, e conviria, em tal caso, perceber o que a referência indica, perguntando, por exemplo, se há referência à Espanha , ou se há referência a qualquer trânsito de planeta no signo de Sagitário. O Apocalipse porém, fornece outra hipótese sobre este assunto. De difícil interpretação, também, é a Ilha.
O sebastianismo tem sido incompreendido. Tomado por uns como sendo uma mera superstição popular, por outros como um devaneio imperialista da decadência, o facto é que ele tem sido, em geral, tido por assunto desprezível e obscuro. Obscuro com certeza que é, para aqueles que não têm o fio condutor que os leve seguramente através do labirinto das profecias sebásticas. Desprezível está longe de ser — tanto pela razão, estritamente exotérica e sociológica, de que o sebastianismo é o único movimento profundamente nacional que tem havido entre nós…
O que seja propriamente o sebastianismo — hoje mais vigoroso do que nunca, na assombrosa sociedade secreta que o transmite cada vez mais ocultamente de geração em geração, guardado religiosamente o segredo do seu alto sentido simbólico e português, que pouco tem que ver com o D. Sebastião que se diz ter morrido em África, e muito com o D. Sebastião que tem o número cabalístico da Pátria Portuguesa —, eis o que não é talvez permitido desvendar. Mas, para interesse dos leitores, não é talvez mal cabido explicar qual a data marcada para o Grande Regresso, em que a Alma da Pátria se reanimará, se reconstituirá a íntima unidade da Ibéria, através de Portugal, se derrotará finalmente o catolicismo (outro dos elementos estrangeiros entre nós existentes e inimigo radical da Pátria) e se começará a realizar aquela antemanhã ao Quinto Império…
Mas que quer dizer esse Grande Regresso? O que é que regressa? O que significa, ao certo, essa Vinda de D. Sebastião? O próprio D. Sebastião o que significa? Perguntas são estas a que se não pode responder senão com o texto velado do Tertuliano: Aquelas coisas que estão veladas, descobertas, ficam destruídas…
É esse lugar de sonho, esse lugar ao abrigo do sonho, esse passado- presente que a “alma portuguesa” não quer abandonar... Portugal, imerso com doçura no mundo, natural e sobrenaturalmente maravilhoso, converteu-se em ilha-saudade.
Abandonemos Fátima por Trancoso. Esse humilde sapateiro de Trancoso é um dos mestres da nossa alma nacional, uma das razões de ser da nossa independência, um dos impulsionadores do nosso sentimento imperial… Que Portugal tome consciência de si mesmo… Quebremos com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas inteligências e sobre as nossas decisões. Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja. Deixemo-nos de importar Deus, porque Deus [...] esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha. Não queremos estrangeiros. No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja nosso. Expulsemos pois o elemento romano. Se há que haver religião no nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o sebastianismo.
A manhã de nevoeiro. Por manhã entende-se o princípio de qualquer coisa nova — época, fase, ou coisa semelhante. Por nevoeiro entende-se que o Desejado virá “encoberto”; que, chegando, ou chegado, se não perceberá que chegou. A primeira vinda, 1640, mostra isto bem: a data marca o princípio de uma dinastia, e a vinda de D. Sebastião foi “encoberta”, foi através de nevoeiro, pois julgando todos — em virtude de sua simbologia primitiva — que o Encoberto era D. João IV, em verdade o Encoberto era o facto abstracto da Independência, como aqui se viu. Na Segunda Vinda, em 1888, por pouco que possamos compreender, compreendemos contudo que a profecia tradicional se cumpre: sabemos que 1888 é “manhã”, porque é o princípio do Reino do Sol — por onde se notará que melhor não pode haver para que se simbolize por “manhã”—, e, estando nós já a 37 anos dessa data, sem que ainda possamos compreender o que nela se deu, não pode haver dúvida do carácter encoberto, nevoento, da Vinda Segunda de D. Sebastião.
O defeito, a fraqueza, do sebastianismo tradicional reside, não em ele, senão em a deficiência e a fraqueza de seus intérpretes. Ignorantes, decadentes, ensinados a crer pelo espírito católico, esperavam de fora o Encoberto, aguardavam inertes a salvação externa. O Encoberto, porém, é um conceito nosso; para que venha, é preciso que o façamos aparecer, que o criemos em nós através de nós. É com ânsia quotidiana, com uma vontade de hora a hora, que em nossa alma o devemos erguer, de ali o projectando para o mundo chamado externo... Não há homens salvadores. Não há Messias. O máximo que um grande homem pode ser é um estimulador de almas, um despertador de energias alheias...
Ao que nós chegámos. Uma coisa é esperar o aparecimento de um rei falecido há séculos, outra é contar com um heleno para nos conseguir melhores condições de vida. Que é feito das fantasias tradicionais portuguesas? Onde estão as ilusões nacionais de antanho? É certo que a probabilidade de Portugal beneficiar da acção de Alexis Tsipras acaba por ser maior do que a do regresso de D. Sebastião, mas quão fracos têm de ser os nossos mitos para que um grego de 40 anos os substitua tão facilmente?
Flui, indeciso na bruma, / Mais do que a bruma indeciso,/ Um ser que é coisa a achar / E a quem nada é preciso. Tenho em mim como uma bruma / Que nada é nem contém / A saudade de coisa nenhuma...
Adoro interpretar. É tão mais real que a vida.
Ninguém sabe que coisa quer, Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro... Nunca será a hora...
Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.
O que nós não somos – porque nada o é – como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e, através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa...
Esperai! Caí no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são Deus. Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que eu me sonhei que eterno duraÉ Esse que regressarei
Haverá rasgões no espaço Que dêem para outro lado, E que, um deles encontrado, Aqui, onde há só sargaço, Surja uma ilha velada, O país afortunado Que guarda o Rei desterrado Em sua vida encantada?
Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura. Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora?
There's a rhythm in rush these days Where the lights don't move And the colors don't fade Leaves you empty with nothing but dreams In a world gone shallow...
Diálogo na Sombra
A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes.
E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais!
A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira.
E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ...
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu jardim ... Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins.
... na aventura de um livro levado a bom termo, ou na vida feliz de um escritor, deve haver, por vezes, um pouco de sombra, alguém que não deixa passar a frase inexacta ...;alguém que volte a ler vinte vezes connosco...;alguém que tire por nós das estantes das bibliotecas os grossos tomos...;alguém que nos ampara, nos aprova, por vezes, nos combate...;alguém que não é a nossa sombra,nem o nosso reflexo,nem mesmo o nosso complemento,mas ela própria; alguém que nos deixa divinamente livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos. Hospes Comesque.
No seu aspecto mais profundo,o meu conhecimento de mim próprio é obscuro,interior, inexpresso,secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca dos números:emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida,que se torna então a vida de outro. A minha vida tem contornos menos firmes...é talvez o que eu não fui que a define com maior clareza...a vida fez-me sempre deslizar.A passagem dos meus dias parece compor-se de materiais diversos acumulados desordenadamente ...Animula Vagula...
E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer.A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais (...) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.
Mesmo só em certo ponto do jogo perdia a sensação de que estava mentindo – e tinha medo de não estar presente em todos os seus pensamentos. Ela morreu assim que pôde.
Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.
Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas inquietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito – imagino já sem lucidez – minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrei a vida, pois? Mas, mesmo assim na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. (...) Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer. Ela nada esperava. Ela era em si, o próprio fim.
Um dia, depois de viver sem tédio muitos iguais, viu-se diferente de si mesma. Estava cansada. Andou de um lado para outro. Ela própria não sabia o que queria. Pôs-se a cantar baixinho, com a boca fechada. Depois cansou-se e passou a pensar em coisas. Mas não o conseguia inteiramente. Dentro de si algo tentava parar. Ficou esperando e nada vinha para ela. Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste. Continuou a andar por vários dias e seus passos soavam como o cair de folhas mortas no chão. (...) Na verdade ela sempre fora duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente.
E foi tão corpo que foi puro espírito. Atravessou os acontecimentos e as horas imaterial, esgueirando-se entre eles com a leveza de um instante.
As coisas principais assaltavam-na em quaisquer momentos, também nos vazios, enchendo-os de significados.
A noite densa e escura foi cortada ao meio, separada em dois blocos negros de sono. Onde estava? Entre os dois pedaços, vendo-os – o que já dormira e o que ainda iria dormir – isolada no sem-tempo e no sem-espaço, num intervalo vazio. Esse trecho seria descontado de seus anos de vida.
O silêncio se prolongava à espera do que pudessem dizer. Mas nenhum dos dois descobria no outro o começo de uma palavra. Fundiam-se ambos na quietude.
Now, as the air grows cold The trees unfold And I am lost and not found...
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