Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 10 de maio de 2026

Uma "bela portuguesa" e "as malditas" ...

" As novelas são duplamente importantes no percurso literário de Musil. Por um lado, prossegue-se nelas o diálogo com Nietzsche, na medida em que aí se apresentam, sob a forma de parábolas, destinos que se centram numa «naturalidade da vida» que a memória dos homens na Europa do século XX parecia já ter esquecido. Por outro, estas novelas, que revolucionam a própria forma, são escritas sob o signo de um novo modo de pensar ede construir narrativas poéticas guiadas pela recusa de um pensamento mecanicista e causal, insuficiente para explicar a vida humana, e em particular as pulsões de figuras de mulheres divididas entre a alma e o instinto, personagens dominadas pelo acaso e o imprevisto. Em todas as histórias transparece a grande estranheza que domina as relações entre os sexos, que a arte narrativa de Musil explora nas suas tensões mais profundas. É esta decisão, arriscada, de explorar as possibilidades literárias de novas formas de sentir, pensar e agir em personagens femininas complexas que confere a estas novelas, escritas em épocas diferentes, a sua unidade e a sua singularidade."

 


















Uma novela sobre seres "amaldiçoados", em que convergem as facetas mais perturbadoras do mundo "trans": a raiva/ revolta de ser "travesti"; a alegria / necessidade de o assumir. Uma narrativa de estórias "arrepiantes", por vezes cruel, mas muito , muito bem escrita.


    "Disseram que éramos mulheres trans, transexuais, trangénero, falaram mesmo em disforia de género e em dissidência sexual(...) Exibiram teorias a nosso respeito para tornar mais higiénica a nossa existência."

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Ai a estupidez...


    Musil , de modo irónico , mas muito avisado, orienta o leitor a não cair nas armadilhas da estupidez disfarçada de falsa sabedoria...

   

 Um manual essencial para distinguir a "estupidez honesta" e a " estupidez superior", a mais perigosa...

" Musil quis expressar nesta conferência, sobretudo, uma convicção: só se as pessoas tiverem uma visão crítica sobre o seu tempo será possível evitar acontecimentos históricos catastróficos. Desta maneira, o alcance daquela conferência sobre a estupidez não fica apenas pela situação austríaca, nem pela europeia; nem sequer, na verdade, pela política ou por um momento histórico


    Há indivíduos nos quais o instinto e o pensamento formam um todo harmónico; tais indivíduos são génios, seres que conseguem exprimir inteiramente as suas qualidades humanas; ora semelhante fenómeno só é possível se o homem não utilizar o pensamento para sufocar os instintos, mas, sim, para os exprimir com maior perfeição. 
    
As grandes descobertas devem-se à coordenação perfeita entre o instinto e a razão.



Tipos de estúpidos, segundo Musil, no homem sem qualidades: estúpido funcional; génio disfuncional;estúpido ocasional.

O estúpido funcional mantém toda a funcionalidade social, mas vai perdendo a sua individualidade, sendo vítima de um tipo de estupidez presente em qualquer extremismo ideológico.

O  estúpido ocasional, a pessoa comum,  deseja retirar da vida — e que acaba por consegui-lo — um único bem: não o poder, nem o dinheiro, nem o conhecimento, mas essa felicidade que é afinal a motivação de toda a reflexão ética e moral

 "Se a estupidez não fosse tão parecida, a ponto de confundir-se, com o progresso, com o talento, a esperança ou a melhora, ninguém desejaria ser estúpido" 

  "[…] a falta de sentido artístico de um povo não se exprime apenas nas más épocas e sob forma grosseira, mas também nas boas e sob todas as formas, de tal modo que entre a repressão ou a proibição e os doutorados honoris causa, a atribuição de cátedras universitárias e as distribuições de prémios, há apenas uma diferença de grau. 
Desconfiei sempre que esta resistência multiforme de um povo, que tem pretensões a amar a arte, à criação e a toda a delicadeza de espírito era apenas estupidez, talvez uma variedade particular de estupidez, uma estupidez estética e talvez também afetiva; manifestando-se de tal modo, em todo o caso, que aquilo a que nós chamamos “bel esprit” poderia também ser qualificado de “bela estupidez”; hoje, ainda, não vejo muitas razões para mudar de opinião. "

 "qualquer coisa pode ser estúpida sem o ser necessariamente, que o significado da palavra muda com o contexto, e que a estupidez está estreitamente relacionada com outra coisa sem por isso ultrapassar de nenhum modo o fio que permitiria, se se puxasse por ele, desfazer de uma só vez todo o tecido." 

Através desta metáfora, concebemos a estupidez como um elemento externo ao indivíduo, que invade um determinado corpo, vivo ou concetual. O que se deve notar neste excerto é o uso do advérbio necessariamente: afirmar-se que qualquer coisa pode ser estúpida sem o ser necessariamente significa que a estupidez pode ser considerada um estado temporário, acidental, em que algo ou alguém se encontra em face das corcunstâncias exteriores. São estas circunstâncias que atuam frequentemente numa uniformização social dos indivíduos. A estupidez funcional está relacionada com este estado de um certo apagamento da consciência e do pensamento crítico, a que os sujeitos ou as ideias de certas épocas são expostos.

"Estupidez e orgulho crescem no mesmo galho." 

"As pessoas assemelhavam-se a um pé de trigo numa seara […] — tudo estava claramente definido e as responsabilidades assumidas. Hoje, pelo contrário, a responsabilidade deixou de ter o seu centro no indivíduo, e passou a tê-lo nas circunstâncias." // "[…] as condições de vida atual são tais, formam um conjunto tão vasto, tão complexo, tão caótico, que as estupidezes ocasionais dos indivíduos podem facilmente causar uma estupidez constitucional da comunidade." 

 "Não há nenhum pensamento importante que a estupidez não saiba aplicar, ela move-se em todas as direções e pode vestir todas as roupagens da verdade. A verdade, ao contrário, tem apenas uma roupa em qualquer ocasião, um só caminho, e sempre está em desvantagem." 

 "Mas, se tivéssemos que acrescentar alguma coisa, seria o seguinte: com tudo o que foi dito não existe ainda nenhum sinal seguro de reconhecimento e diferenciação do significativo e não poderia existir nem de leve um sinal totalmente suficiente. Mas justamente isso nos leva ao último e mais importante meio contra a estupidez: a modéstia."


Ela é dirigida, sobretudo, às pessoas que têm a possibilidade de mudar o rumo histórico dos acontecimentos. É dirigida, portanto, à pessoa comum. É também este o motivo que torna «Über die Dummheit» um texto tão actual. 

 Esta «pessoa comum» difere tanto do estúpido funcional como do génio disfuncional. É porém com o estúpido funcional que mantém uma relação mais estreita. Tal deve-se ao facto de o estúpido funcional ser, na verdade, nada mais do que uma pessoa comum que se deixou dominar pelas circunstâncias históricas. A pessoa comum, então, difere de uma pessoa realmente estúpida porque não está totalmente dominada por uma concepção histórica. Para Nietzsche, esta é a pessoa que detém o verdadeiro poder de plasticidade. Este indivíduo não deve ser menosprezado, porque é também ele que reúne as condições para a felicidade: ele é o estúpido ocasional.

Como já foi referido, Musil opõe-se veementemente a chamar «estúpido» a alguém que não seja eficiente no agir. As pessoas têm, universalmente, a capacidade de pensar racionalmente; mas por alguma razão, as pessoas também agem inobjectivamente. Devemos então admitir que o humano tem uma aptidão natural para a inobjectividade e, possivelmente, para a ineficácia."

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Melancolia, Elegias, Melancolismos...


HOMEM 
 foi há tanto tempo 
foi há tanto tempo há tanto tanto tempo
 foi tudo há tanto tempo 
há tanto tanto tempo

 MULHER 
 é foi tudo há tanto tempo
 há tanto tanto tempo
 e aconteceram tantas coisas 

HOMEM
 aconteceu tudo
 e nada 

MULHER
 aconteceram tantas coisas 


  A linguagem repetitiva é um dos traços definidores desta peça de teatro, que se desenrola num cemitério: complexa, estranha, é uma construção diferente de um tema antigo: amor acaba e a vida passa...


Um livro triste, muito triste...


 "Um menino está prestes a nascer - chamar-se-á Johannes como o avô e será pescador como o pai. Uma vida boa, é esse o desejo de quem o traz ao mundo, embora este seja um mundo duro, ruim e cruel. Um homem, velho e sozinho, morre - chama-se Johannes e foi pescador. É o seu melhor amigo que o vem buscar rumo a esse destino onde não há corpos nem palavras, apenas tudo aquilo que se ama. Antes do regresso definitivo ao nada, Johannes revisita o museu da sua vida, longa, simples e quotidiana, confrontando-se paulatinamente com a morte num constante entrelaçamento de real e alucinação, passado e presente."



E nada disto tinha nome. Não eram irmãos, nem amantes. Existe outra coisa e eles sabiam isso vagamente. Existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno.

É esse o  sentido do amor e da amizade. A amizade deles era tão séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e culpa. Uma pessoa não  se pode apropriar impunemente de outra, separando-a das restantes.
 

 De duas em duas semanas confessavam-se, preparavam juntos a lista de pecados. Os desejos faziam-se sentir no sangue, nos nervos...Mas viviam uma vida pura, como se a amizade, cuja capa mágica cobria as suas vidas jovens, compensasse tudo aquilo que atormentava e arrepiava os outros, os curiosos e irrequietos e os perseguia para as regiões obscuras, infernais da existência. 

  Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.

Começar assim o dia deixa qualquer mulher melancólica...

Esta enfermidade é particularmente visível em mulheres de idade, e como tal são pobres, solitárias, vivem na mais básica estima e são pedintes, ou são bruxas.;








Something's gotta give We can't carry on like this One year on and more unsure Where do we go from here? Many nights and many days I've spent with you Talking about what we should do I can't say Nothing's clear to me no more One more sleepless night And another wasted day This song has no end Too many words fill my mind You gave so much too soon No longer sure where you want to be Turn around See what you have found Let's drink to absent friends How they cared, and all they shared We took our life to the edge They still try to understand Time is running out You're going down Come on, let's go wherever they may be Make a choice Stay behind or follow me



Elegia na sombra: Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia touca a desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medovNesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia; Lembramos névoas, sonhos a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o sentimos bem no coração? Que vitória maligna conseguimos — Em que guerras, com que armas, com que armada? — Que assim o seu castigo irreal sentimos Colado aos ossos desta carne errada? Terra tão linda com heróis tão grandes, Bom Sol universal localizado Pelo melhor calor que aqui expandes, Calor suave e azul só a nós dado.(...) Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente Nem paira mais no ar, que fora almo Se não fora a nossa alma erma e vazia, Que o nosso fado, vento frio e calmo E a tarde de nós mesmos, baça e fria Como longínquo sopro altivo e humano Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena.

Pequena elegia de setembro: Não sei como vieste... Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro. Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas...? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.

Texto de apresentação, escrito por Vinicius para a primeira edição:

Dessas cinco elegias, as quatro primeiras foram ideadas e em parte escritas - a primeira e a segunda integralmente - em 1937, em Itatiaia, no sítio de Octávio de Faria, ali a meio caminho entre Campo Belo e a Cachoeira de Marombas, lugar que amo e onde passei alguns dos meus melhores dias. Nesse tempo, a terceira, essa que aqui vai com o título de "Desesperada", era para ser na realidade a quarta; em substituição havia outra; que se deveria chamar "Intermédio elegíaco" e afinal se transformou num drama lírico, com que ainda hoje ando lidando. Iniciada nessa ocasião, só fui terminá-la em fins de 1938, em Oxford, quando, estudante, ali assisti. A atual quarta foi a única que me perseguiu, inacabada, ao longo de todos esses anos.Há coisa de um mês, de repente, resolveu-se.Quanto à última, escrevi-a de jato, naquele maio de 1939, em Londres, vendo, do meu apartamento, a manhã nascer sobre os telhados novos do bairro de Chelsea. A qualidade da experiência vivida e o lugar onde a vivi criaram-lhe espontaneamente a linguagem em que se formou, mistura de português e inglês, com vocábulos muitas vezes inventados e sem chave morfológica possível. Mas não houve sombra de vontade de parecer original. É uma fala de amor como a falei, virtualmente transposta para a poesia, na qual procurei traduzir,dentro de sonoridades estanques de duas línguas que me são tão caras e com arranjos gráficos e ordem puramente mnemônica, isso que foi a maior aventura lírica da minha vida.
V.M.Junho de 1943

Elegia ao primeiro amigo

Seguramente não sou eu Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história. É antes uma vontade indizível de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro. Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial. Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia. É apenas um prenúncio do mistério Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada... Vim para ser lembrado Para ser tocado de emoção, para chorar Vim para ouvir o mar contigo Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã. Nossos olhos enegreciam lentamente de dor Nossos corpos duros e insensíveis Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto Para aquele que, entre nós, ferido de beleza Aquele de rosto de pedra De mãos assassinas e corpo hermético de mártir Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar. Pouco importa que tenha passado, e agora Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva... Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar. Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia E abrigaste em ti todo o patético? Não sei o que tenho de te falar assim: sei Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer E eu nada diria de grave; decerto Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros... Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido: Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar. Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo) Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível (Vá lá por conta da necessária gentileza...) No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás... Existo também; de algum lugar Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes Escuto vozes ermas Que me chamam para o silêncio. Sofro O horror dos espaços O pânico do infinito O tédio das beatitudes. Sinto Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação. Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar. Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. Seguramente não sou eu: É a tarde, talvez, assim parada Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo Quisera poder dizer-te tudo; no entanto Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar Uma mulher me vê viver, que me chama; devo Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.




Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfémias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legítimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delícias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos húmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!

Isto só se podia observar pelos ombros, já que o resto do corpo estava coberto por uma manta comum, mas os corpos sentiam esse contacto amortecido pelas roupas de um modo tão suavemente indistinto como o que nos dá a ver as coisas numa noite de luar...A transmissão refinada do desejo do corpo para as roupas, do abraço para os obstáculos, numa palavra, do objectivo para o caminho, ia ao encontro da sua natureza. A sua sensualidade atraía-o para a mulher, mas as outras forças superiores afastavam-no sa pessoa estranha que não se lhe ajustava e que subitamente via à sua frente,de modo que estava sempre dividido, numa viva contradição entre atracção e repulsa.(...)lembrava-se com frequência da despedida aquando da sua primeira visita:segurara então na sua mão suave,uma mão sem peso,artificial e nobre na sua perfeição, e ambos se olharam nos olhos,sentiram certamente a mesma aversão, mas depois perceberam que se poderiam fundir até se extinguirem como um sopro. Algo dessa visão permacera entre eles. Deste modo, temos em cima duas cabeças que se olham com uma frieza extrema, enquanto em baixo os corpos se fundem sem resistência e chegam ao rubro.Há nisto qualquer coisa da força maléfica dos mitos...

Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria do contacto na qual o mistério e a dignidade de outrem consistiriam precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de ligação com um mundo desconhecido. A volúpia seria, nessa filosofia, a forma mais completa e mais especializada de aproximação com o Outro, uma técnica a mais colocada a serviço do conhecimento de uma individualidade estranha à nossa. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção nasce ou morre, tal como acontece com a mão um tanto repugnante da velha que me apresenta uma petição, a fronte húmida do meu pai em agonia, ou a chaga lavada de um ferido. As próprias relações mais intelectualizadas, ou as mais neutras, ocorrem através desse sistema de sinais materiais: o olhar subitamente iluminado do tribuno a quem explico determinada manobra numa manhã de batalha; a saudação impessoal do subalterno que a nossa passagem imobiliza em atitude de obediência; o olhar amistoso do escravo a quem agradeço por trazer-me uma bandeja; ou a expressão apreciadora de um velho amigo ante o camafeu grego com que acabamos de presenteá-lo. Com a maior parte das pessoas, os mais ligeiros ou mais superficiais desses contactos bastam a nosso desejo, ou até o excedem. Que esses mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.

Será que é isto estar apaixonado: "Um ser passar da periferia do nosso universo ao seu centro!?

Have you no idea that you're in deep? I've dreamt about you nearly every night this week How many secrets can you keep? 'Cause there's this tune I've found That makes me think of you somehow And I play it on repeat Until I fall asleep Spilling drinks on my settee...



Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento ,perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador.

Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria. É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está: E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será.

O que diz o dicionário sobre nostalgia? Melancolia, tristeza causada pela saudade da sua terra ou da sua pátria; Saudade do passado, de um lugar. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que deixou de possuir. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados.Condição daquele que é triste sem motivos explícitos.

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia touca a desgraça.


Tantos poemas contemporâneos! Tantos poetas absolutamente de hoje — Interessante tudo, interessantes todos...Ah, mas é tudo quase...É tudo vestíbulo E tudo só para escrever. Nem arte, Nem ciência Nem verdadeira nostalgia...

O que é a melancolia?
Tristeza vaga e indefinida; estado de tristeza, traduzido pelo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras; enfraquecimento mental e/ou físico, cuja ocorrência ocasiona certas complicações psiquiátricas... Abatimento, desânimo, esmorecimento, languidez, misantropia, prostração e tristeza...
Etimologicamente, o vocábulo tem uma raiz bastante "negra": segundo hipócrates, melancolia é um dos quatro humores corporais que, por influência de saturno, é produzido, em excesso, pelo baço. Bem prosaica, na origem, enaltecida pelos românticos, a melancolia chega até nós, adulterada por psiquiatras e psicanalistas: síndrome mental que se caracteriza pela sensação de impotência, inutilidade, pensamentos negativos, dificuldade de concentração, falta de apetite, ansiedade, insónia e ideias constantes de morte; um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas sem que exista uma perda.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração.




Y en este titubeo de aliento y agonía, cargo lleno de penas lo que apenas soporto. ¿No oyes caer las gotas de mi melancolía?

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.



You want her, you need her And yet you don't believe her When she says her love is dead You think she needs you...I know what I have and want But I don't know what I need Well, he said, he said, he said, he said "Where we're going, I'm dead...

Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante:o meu amigo está longe e a saudade é bastante!


Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.



amor podes mandar se for sincero, saudades isso não pois não as quero/ Quando eu morrer... quero uma fita amarela gravada com o nome dela.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


Exegi monumentum aere perennius regalique situ pyramidum altius, quod non imber edax, non Aquilo inpotens possit diruere aut innumerabilis annorum series et fuga temporum. Este monumento é o texto perfeito, a obra imorredoura. Sem a grandiosidade, o que não implica necessariamente, extensão, mas sim uma organização intrínseca, não existe literatura de qualidade.
Recordo o dia seis de setembro de 2013. Que pena não ter feito,nesse dia, uma reflexão sobre perfeição estrutural... Agora, três anos depois, já não consigo reconstituir a emoção que senti...Só subsite a recordação melancólica desse momento...


Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...

Podem as palavras morrer. Eu estou ainda próximo da noite.
Coleciono lutos,água de faianças,
animais do espírito,demasias.
Coleciono tudo os que as palavras não dizem:
uma feroz tranquilidade,um inventário de silêncios,
um catálogo de medos,
tudo o que não sei dizer sem as palavras.


O homem principia onde a morte o edifica.
A palavra, nunca será a exata habitação
do medo.


Na amena costa da Riviera francesa, mais ou menos a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, ergue-se um vasto e soberbo hotel pintado de cor-de-rosa.

Eu eduquei - te para o trabalho - não especialmente para o casamento.Agora vai em frente e aproveita essa experiência. Magoa-te ou magoa-o a ele - aconteça o que acontecer,não perdes nada,pois economicamente és um rapaz,não uma rapariga.
Encontravam-se ainda na fase feliz do amor.Estavam cheios de corajosas ilusões a respeito um do outro,ilusões tremendas,de tal modo que a sua comunhão mútua parecia dar-se numa esfera onde mais nenhuma relação humana importava.

Estar física e espiritualmente sozinho gera solidão,e a solidão gera mais solidão.



Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas! Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazuli das emoções descontínuas! Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim...


Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.




She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad." And she's making me feel like I've never been born I said, Who put all those things in your head? Things that make me feel that I'm mad. And you're making me feel like I've never been born."She said, "You don't understand what I said." I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right, Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "You don't understand what I said."I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right,Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad. I know what it's like to be dead...


"Estás só. Ninguém o sabe.
Cala e finge. Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."

murmurou estas palavras em outro tempo escritas,e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-la,também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais dizer,porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram estar só, caro senhor, é muito mais conseguir dizê-lo e tê-lo dito.



Mas pra quê? Pra quê tanto céu? Pra quê tanto mar? Pra quê? De quê serve Esta onda Que quebra? E o vento De tarde? De que serve A tarde? Inútil paisagem...


Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.



Bravo, vejo que você se cansou de idealidades femininas incorpóreas, trocou a Lídia etérea por uma Lídia de encher as mãos e agora está aqui à espera doutra dama(...)Adeus, caro Reis, até um destes dias, deixo-o a namorar a pequena, você afinal desilude-me,amador de criadas,cortejador de donzelas,estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está.


Adéu, adéu amor meu i sort


Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim...



Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.



Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida...




Mi viejo refran, mi poema, la fe que perdi no camino mi carreta . Mi dulce placer, mi sueño de ayer...

Mi fuente, mi sed, mi barco, mi red y la arena. Donde te sentí donde te escribí mi poema.

Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todo o mundo, estéril de todas as almas. A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez. Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!
Esplende, ausência de sol, brilha, luar que cessas...Só tu, sol que brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as flores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.



Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o esperemos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.



A cada qual, como a estatura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.



Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa.Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas...

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terça-feira, 19 de março de 2019

Mitos...Delírios


    Menino altivo é menino rebaixado....O tempo da juventude estudiosa e modesta tinha passado...Agora era o tempo da aventura desapegada de todo o embargo e mesura...Fora uma criança segura da sua qualidade, com um certo jeito de altivez que não se aprende nem se confessa. ...Porque era dotado de superiores qualidades, quis provar que não desiludia os fados, e assim se perdeu. Os que nascem perfeitos têm que andar medianos, senão todos acabam por lhes abrir a cova e preparar o laço.











"Maria Gabriela Llansol há de ser, depois de Pessoa, o grande mito da literatura portuguesa" - Eduardo Lourenço

"Numa história, há (ou não há) um momento de desvendamento a que se chama sublime. (...) quase só esse momento interessa à escrita" – Neste romance(?) existem duas figuras essenciais na obra de Llansol, Aossê (Fernando Pessoa) e Témia (a rapariga que temia a impostura da língua).
A morte da tia Assafora traz a narradora de volta à casa de sua infância, onde irá rever a serva e o pai e refletir sobre a aprendizagem da língua, a leitura e a escrita. Neste beijo desafiam-se todas as fronteiras do que se considera ficção, diário, poesia, ensaio, memórias...

"A impostura da língua é pretender que se diz o que não se está a dizer; a pessoa quer dizer o que não está a dizer porque não está a tratar o texto como tal; é querer aproximar-se de outro de quem não se está a aproximar, é querer ter um acesso que não está a ter. A impostura da língua é desviar o texto de seu curso próprio, que é uma intimidade profunda e indestrutível entre si próprio e o que se diz."

_______________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego, mas uma segunda língua,com parte no céu-da-boca, principiou a nascer-lhe, e foi ela a voz.
O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua. [...]Da intersecção das duas línguas – a que se ouvia balindo, e a que nasceu do sangue – voou o Falcão, ou Aossê feito ave.


o silêncio não é constituído pela sua ausência, mas pela memória do seu ruído

[…]porque o que me parece como real é feito de cenas, e porque surgem com um caráter irrecusável de evidência. O que tenho referido raramente é que essas cenas fulgor se verificam sempre na proximidade doque chamo ponto-voraz, e que é simultaneamente a fonte de luz intensa que ilumina a cena fulgor, e o lugar onde ela se anula. Se, por inépcia, a cena é levada demasiado próximo desse ponto, com a intenção de a tornar mais brilhante e viva___a cena desaparece, e o olhar cega.



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem falar,
Fica só, inteiramente!




Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar




"Em Cinco Meninos, Cinco Ratos, o segundo volume das mitologias de Gonçalo M. Tavares, encontramos alguns momentos em que imaginamos compreender uma alusão histórica escondida por detrás do universo mitológico que, à parte desses breves instantes, parece estar a ser construído de raiz. Achamos que encontramos uma alusão a Israel na história do Povo-Inteiro ou à Alemanha Nazi no massacre dos Homens-Com-a-Cabeça-Perto-do-Chão às mãos dos Combatentes. Mais tarde, suspeitamos que na peculiaridade do nome de Ber-lim se esconda uma referência ao muro e à Guerra Fria e, já em desespero, desejamos que ao menos os cinco meninos que dão título ao livro possam ser iluminados pela história dos filhos homónimos dos Romanov. No entanto, Gonçalo M. Tavares rapidamente nos retira o conforto da familiaridade e abandona-nos ao mais absoluto espanto (em certo sentido, esperar alguma coisa minimamente parecida com um romance histórico vindo de Gonçalo M. Tavares é tão peculiar como desejar ter Teixeira de Pascoaes a comentar a actualidade na televisão).

Na citação de Walter Benjamin que encerra o primeiro volume das mitologias, lê-se que “todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece na superfície da Terra. E no entanto somos cada vez mais pobres de histórias de espanto. Isso deve-se ao facto de nenhum acontecimento chegar até nós sem estar já impregnado de uma série de explicações.” O objectivo de Gonçalo M. Tavares ao longo de Cinco Meninos, Cinco Ratos não parece ser outro que não o de eliminar essas mesmas explicações que normalmente nos cegam, para nos devolver o espanto perdido.

O trabalho do escritor surge assim, nas mitologias, não como um esforço de criação mas de remoção. Desaparecem as explicações habituais para os comportamentos das personagens, desaparecem as delimitações que estabelecemos entre o que pode ou não constituir uma personagem, desaparecem as consequências das acções, desaparecem os inícios e desaparece o fim da história.

Repetidas vezes ao longo das vinte histórias que constituem o livro, somos informados acerca da violência com que a Velocidade é utilizada para enlouquecer e torturar as personagens. Esta violência é tão extrema que, em alguns casos, loucos, “após serem submetidos à Velocidade do Comboio, chegam a um ponto tal de consciência que perdem a noção de fome, como se ter fome fosse algo semelhante a perder memória — mas é bem mais grave. Esse corpo não esquece apenas datas e nomes, esquece o início, a origem primeira, o que esteve na base de tudo, até do Comboio, esquece o organismo, este animal que sabe bem o que é importante” (p.149). Gonçalo M. Tavares parece, portanto, apostado em obter, com a sua escrita, os mesmos resultados que o Comboio obtém com a Velocidade: fazer-nos esquecer o início, a origem primeira, a base de tudo.

A violência extrema deste universo mitológico é, no entanto, absolutamente impotente. A primeira frase da história introdutória de Cinco Meninos, Cinco Ratos (“Ber-lim leva atrás de si a Avestruz que acabou de comer parte do cérebro da Mulher-Ruiva” (p.10) aponta desde logo para uma violência que se repetirá inúmeras vezes ao longo das restantes histórias. No entanto, desta violência nenhuma consequência advém. Vemos personagens levarem tiros com a arma encostada à sua cabeça a surgirem, sem qualquer informação adicional, pouco depois numa consulta de oftalmologia; vemos personagens que escapam incólumes à alegadamente aterradora Zona-de-Morte; vemos baleados que sobrevivem apenas para serem enforcados algumas páginas mais à frente e que ainda assim não morrem; vemos homens que escapam ilesos ao atropelo da sua própria cabeça pelo temível Comboio; vemos personagens cujo cérebro serve de repasto à Avestruz sem que nenhuma consequência neurológica ou vital daí advenha. Como é dito em A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, “todos tremem, todos são mortos. Pelo menos, é isso que parece” (p.51).

Esta impotência generalizada não acontece, todavia, apenas em relação à morte. O Homem-do-Mau-Olhado é descrito como uma personagem tão temível que, ao olhar de frente o Caçador, sabe “que o tempo, a forma e a intensidade com que já olhou, mesmo só com um olho, é suficiente para que o Caçador tenha já, desde aquele momento, a vida partida em dois. Tudo mudará, aquele olhar não deixa nada atrás: amaldiçoa, faz adoecer, tortura, mata; tudo de mau irá acontecer àquele homem que agora tem uma arma na mão, uma espingarda de caça” (p.25). No entanto, deste olhar, pelo menos neste volume, nada resulta, tal como nada resulta do olhar que o Homem-do-Mau-Olhado lança a Olga e ao Povo-Inteiro, por meio dessa acção rebaptizado de Povo-Já-Amaldiçoado.

Talvez (diante da mitologia de Gonçalo M. Tavares é um erro livrarmo-nos destas marcas de incerteza) a chave de leitura certa para Cinco Meninos, Cinco Ratos esteja na personagem de Anastácia. A mais nova dos cinco meninos está constantemente a desaparecer de ao pé dos irmãos. No entanto, este desaparecimento nunca justificado não deixa em pânico, ao contrário do que seria de supor, os quatro Romanov, já de si também perdidos. Todos estes desaparecimentos são concluídos com o abrupto regresso de Anastácia apenas para que Anastácia (cujo nome talvez não por coincidência significa Ressurreição em grego) se volte novamente a perder.

A dificuldade de analisar um livro de Gonçalo M. Tavares talvez possa ser melhor compreendida se olharmos para “Uma Gota”, o conto de Buzzati onde se narra a história de uma gota que, em vez de descer as escadas obedecendo à gravidade, sobe. Buzzati conclui o conto com dois parágrafos que permitem descrever Cinco Meninos, Cinco Ratos de uma forma muito mais acertada do que foi feito no artigo acima. Escreve Buzzati:

“# então, insistem, será por acaso uma alegoria? Querer-se-á, por assim dizer, simbolizar a morte? Ou algum perigo? Ou os anos que passam? Nada a fazer, senhores: é simplesmente uma gota, só que sobe pelas escadas.

Ou, mais subtilmente, pretende-se figurar os sonhos e as quimeras? As terras imprecisas e longínquas onde se presume a felicidade? Algo poético, em suma? Não, absolutamente não. Ou os lugares mais longínquos ainda, no fim do mundo, aonde nunca chegaremos? Mas não, digo-vos, não é uma brincadeira, não há duplos sentidos, trata-se, felizmente, apenas duma gota de água, tanto quanto é dado entender, que de noite vem pelas escadas acima. Tic, tic, misteriosamente, de degrau em degrau. E é por isso que temos medo.”

Outra crítica

"A amoralidade é o fio condutor do mais recente livro de Gonçalo M. Tavares. Segundo volume da série "Mitologias", Cinco Meninos, Cinco Ratos sucede a A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado.

A crueldade que povoa o segundo volume da série "Mitologias", Cinco Meninos, Cinco Ratos, impressiona qualquer leitor. Não necessariamente pelo requinte de perversidade (embora esteja bem presente) com que vamos sendo confrontados, mas pela abolição do espanto que tais atos provocam.

Um rapaz com os olhos vendados dispara indiscriminadamente sobre um grupo de convidados na sua festa de aniversário sem que essa conduta seja condenada. Um padre que tenta por todos os meios converter os estranhos à sua religião é condenado à forca perante a complacência geral. Os exemplos sucedem-se, acentuando o caráter concentracionário de um universo situado para lá das normas que nos habituámos a associar ao Bem ou ao Mal.

À semelhança do anterior A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, mas de um modo ainda mais intenso, encontramo-nos num cenário pós-apocalíptico em que a lei do mais forte se sobrepõe a qualquer outra. Criaturas errantes (como o Gigante, o Homem-com-a-Boca-Aberta) semeiam um medo ao qual todos os outros procuram resistir como podem. Sem a consciência dos seus atos, limitam-se a seguir os seus intentos, expressando a sua animalidade mais básica através da violência sobre os outros.

Em contraponto com o caos dominante, cinco jovens irmãos surgem-nos como aparentes vítimas indefesas de um mundo distópico. Não sabem para onde vão. Apenas sabemos que estão em fuga permanente. Nessa jornada contra o medo cruzam-se a toda a hora com figuras tocadas pelo Mal, conseguindo subverter a sua perversidade através da sua candura.

Igual sorte não têm muitos habitantes neste pouco admirável mundo novo. Na maioria dos casos, são vítimas da ferocidade das regras. Ou enlouquecem quando são expostos levemente aos seus efeitos, como acontece a todos os que embarcam num comboio veloz.

Toda esta indústria do Mal, em que cada ser (homem ou animal) é uma máquina de guerra impiedosa, não produz consequências. O homem decapitado numa linha de comboio aparece umas páginas adiante noutra situação não menos terrível.
Esta eliminação da morte não tem um efeito redentor. Antes surge como a perpetuação de um pesadelo a que todos tentam escapar em vão.
A única exceção neste macabro jogo da cabra cega é Tatiana, a mais jovem dos cinco irmãos, que está constantemente a aparecer e a desaparecer ao longo do livro. Se todos os outros fogem em nome da sobrevivência, para escapar ao horror que os rodeia, ela fá-lo em nome da pura diversão. Protegida pelos muros altos da infância, não sucumbe ao medo como os restantes. Bem pelo contrário. É capaz de desarmar uma figura hedionda com a sua graciosidade, uma espécie de detonador pacífico do Mal.

A sua força maior é o espanto, exceção à regra num mundo onde ninguém tem esse sobressalto interior que nos separa da barbárie


Uma gota
"Uma gota d’água sobe os degraus da escada. Você está ouvindo? Estirado na cama, em meio à escuridão, ouço seu estranho percurso. Como ela faz? Saltita? Tec, tec, ouve-se intermitentemente. Em seguida, a gota detém-se e, talvez, pelo resto da noite, não dê mais sinal de vida. Mas ela sobe. De degrau em degrau, ela vem escada acima, diferentemente das outras gotas que, em cumprimento à lei da gravidade, caem verticalmente e, por fim, produzem um pequeno estalido, bastante conhecido no mundo
todo. Esta, não: devagar, bem devagar, ela ascende pela escadaria até chegar ao patamar letra E do enorme, interminável edifício.
Não fomos nós, adultos, refinados, excepcionalmente sensíveis, quem a percebeu, mas sim, uma simples empregada do primeiro andar, esquálida pequenina ignorante criatura. Deu pela gota à noite, altas horas, quando todos já haviam se recolhido. Mas não
conseguiu se segurar por muito tempo, pulou da cama e correu para acordar a patroa. "Senhora", sussurrou. "Senhora!" "O que houve?”, perguntou a patroa atônita. "O que está acontecendo?" "Tem uma gota, senhora, uma gota que está subindo pelas escadas!” “O quê?” perguntou a outra a sobressalto. “Uma gota que está subindo os degraus!”, repetiu a empregada já quase aos prantos. "Que besteira" vociferou a patroa. "Você ficou louca? Vá, vá, vá! Volte para a cama! Você bebeu, é esse o problema, sua sem vergonha. É por isso que, de um tempo para cá, a garrafa de vinho tem aparecido vazia pela manhã! Sua imunda! Se você pensa que...” Mas a essa altura, a pobre moça já se refugiara debaixo das cobertas. “Vai saber o que se passou pela cabeça daquela idiota”, pensava então a patroa em silêncio, depois de ter já perdido o sono. E, involuntariamente com os ouvidos na noite que dominava o mundo, também ela escutou o curioso ruído. Uma gota que subia pelas escadas, com toda a certeza.
Zelando pela tranquilidade, por um instante a senhora pensou em ir lá fora certificar-se. Mas o que poderia ter constatado à miserável luz das lâmpadas turvas sobre o corrimão? Como ir ao encalço de uma gota em plena noite, com aquele frio, ao longo dos lances tenebrosos da escadaria? Nos dias que se seguiram, de família em família, o boato espalhou-se lentamente e agora, ainda que, em cada casa, todos tenham tomado conhecimento do fato, preferem não tecer comentários, como se fosse algo tolo de que talvez tenham vergonha. Agora muitos ouvidos estão alerta, na escuridão, quando a noite já fechada vem oprimir o
gênero humano. E cada um pensa uma coisa diferente. Em determinadas noites, a gota silencia. Em outras, porém, por longas horas ela ininterruptamente desloca-se para cima como se não fosse mais parar. Aceleram os corações no momento em que o suave passo parece tocar a soleira. Dos males o menor; não parou. Vejo que se distancia, tec, tec, dirigindo-se ao andar de cima.
Pela manhã, saindo de casa, olham atentamente a escada para verificar a existência de algum vestígio. Nada, como esperado. Nem a menor pista. Pela manhã, porém, quem ainda leva a sério esta história? Ao sol da manhã o homem é forte, é um leão, mesmo
que poucas horas antes se sentisse intimidado. Ou será que os moradores da sobreloja têm razão? Nós, da outra parte do edifício, que antes não escutávamos nada e nos mantínhamos isentos, há algumas noites também temos ouvido algo. A gota está ainda distante, é verdade. A nós chega apenas um levíssimo teque-teque, lastimoso eco que atravessa as paredes. No entanto, é sinal de que ela está subindo e se aproximando cada vez mais. Nem mesmo dormir num cômodo mais reservado, longe da escadaria, faria diferença. Melhor ouvir o ruído do que passar a noite na incerteza de ela estar lá. Os que vivem nos cômodos mais afastados às vezes não conseguem resistir, avançam furtivos e em silêncio pelos corredores e detém-se na entrada gélida da casa, atrás da porta, respiração suspensa, ouvidos alerta. Se a ouvem, não mais ousam distanciar-se, escravos de medos
indecifráveis. Tanto pior, porém, quando tudo se acalma: nesse caso, como garantir que, logo após se recolherem, o ruído não comece de novo? Que estranha vida, pois. E não poder protestar, nem tentar soluções, nem encontrar uma explicação para acalmar os ânimos. E nem mesmo ser capaz de persuadir os outros, das outras casas, os quais não sabem. Mas o que seria essa gota, então? — perguntam com exasperadora boa-fé. — Um rato, talvez? Um sapinho saído das tabernas? — Não, de forma alguma. Bem, então — insistem — seria, por acaso, uma alegoria? Haveria a intenção, por assim dizer, de simbolizar a morte? Ou algum perigo? Ou os anos que passam? — Nada mesmo, senhores: é simplesmente uma gota; a única diferença é que ela vem escada
acima. Ou pretende-se, de forma mais sutil, representar os sonhos e as quimeras? As terras distantes, com as quais sonhamos, onde imaginamos encontrar a felicidade? Algo poético, enfim? Não, absolutamente. Ou os lugares ainda mais distantes, nos confins do mundo, aos quais nunca chegaremos? Mas, não, eu lhes digo, não é brincadeira, não há duplos sentidos; trata-se
simplesmente, ai de mim, até o que se sabe, de uma gota d'água, que à noite vem escada acima. Tec, tec, misteriosamente, de degrau em degrau. E é por isso que se tem medo."
Dino Buzzati (1906-1972) Tradução: Ricardo Vagnotti

Entre a dor e o nada, escolho a dor.



Dormir e sonhar, é tão bom dormir e sonhar..../ O que é a vida, o que é a realidade, quando os sonhos dos homens são maiores?




A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum



...sentira crescer em si um sentimento indefinido e excitante de felicidade e expectativa, e agora o seu espírito parecia um balão infantil, pequeno e colorido, que se tivesse soltado e pairasse lá no alto, cintilante, contra o Sol. E no momento seguinte rebentaria.
Rebentou...

Ave atque vale, ó assombroso universo! Ave atque vale, de que diversa maneira É que eu te verei, e será definitivamente, Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer, Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —Seja como for, ave atque vale, ó Mundo! (...) Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele E dispersar o meu ser pelo universo exterior,Seja com alegria que eu reconheça que a Morte...(...) Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo Viagem em diagonal às dimensões dos objectos Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão, Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá Como um comboio sobre os rails directamente...

Vou atrás de ti, mas tu foges num balão...


As cidades nasciam ali, brilhavam e depois desapareciam; os homens passavam por lá, amavam-se ou atiravam-se às gargantas uns dos outros, e depois morriam. Nesse deserto, ninguém, nem ele nem o seu hóspede, era nada. E, no entanto, fora desse deserto, Daru bem o sabia, nem um nem outro teriam conseguido realmente viver.

Daru contemplou o céu, o planalto, e, para além, as terras quase invisíveis que se estendiam até ao mar. Nesse vasto país, que ele tanto amara, estava agora só, completamente só.


O florir do encontro casual / Dos que hão sempre de ficar estranhos...
Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...




Não poder Tarde
Adivinhar (...) o teu segredo
E o teu mistério ilúcido ignorar
E o que tens que (...) esta emoção
Encontrar (...) e o sentido,
Vaga desesperança quase amarga,
Da sensação que dás. Dás-me um aumento
Da muda comoção indefinida
Que sonha dentro em mim, uma ânsia como
Que um esquecer de mal lembradas cousas,
Ou de esquecidas vago relembrar,
Intensas, rumorosas, torturadas,
Mágoas de quem (a) existir se sente,
Inconsolável desesperação,
Vazia plenitude do sofrer.




Sonhei. Desperto. Um tédio doloroso
De ter sonhado, ou então de despertar,
Me ocupa o espírito indeciso e ocioso.
Sou como o movimento do alto mar,
Que parece existir sem avançar.


De suave e aérea a hora era uma ara onde orar. Por certo que no horóscopo do nosso encontro benéficos conjuntos culminavam. Tal, tão sedosa e tão subtil, a matéria incerta de sonho visto que se intrometia na nossa consciência de sentir. Cessara por completo, como um verão qualquer, a nossa noção ácida de que não vale a pena viver. Renascia aquela primavera que, embora por erro, podíamos pensar que houvéssemos tido. No desprestígio das nossas semelhanças os tanques lamentavam-se da mesma maneira, entre árvores, e as rosas nos canteiros descobertos, e a melodia indefinida de viver — tudo irresponsavelmente.

Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...


Não vale a pena pressentir nem conhecer. Todo o futuro é uma névoa que nos cerca e amanhã sabe a hoje quando se entrevê. Meus destinos os palhaços que a caravana abandonou, e isto sem melhor luar que o luar nas estradas, nem outros estremecimentos nas folhas que a brisa, e a incerteza da hora e o nosso julgar ali estremecimentos. Púrpuras distantes, sombras fugidias, o sonho sempre incompleto e não crendo que a morte o complete, raios de sol mortiço, a lâmpada da casa na encosta, a noite angustiosa, o perfume a morte entre livros só, com a vida lá fora, árvores cheirando a verdes na imensa noite mais estrelada do outro lado do monte. Assim, as tuas agruras tiveram o seu consórcio benigno; as tuas poucas palavras sagraram de régio o embarque, não voltaram nunca naus nenhumas, nem as verdadeiras, e o fumo de viver despiu os contornos de tudo deixando só as sombras, e os engastes, mágoas das águas nos lagos aziagos entre buxos por portões (a vista de longe) Watteau, a angústia, e nunca mais. Milénios, só os de vires, mas a estrada não tem curva, e por isso nunca poderás chegar. Taças só para as cicutas inevitáveis — não as tuas, mas a vida de todos, e mesmo os lampiões, os recessos, as asas vagas, ouvidas só, e com o pensamento, na noite inquieta, sufocada, que minuto a minuto se ergue de si e avança pela sua angústia fora. Amarelo, verde-negro, azul-amor — tudo morto, minha alma, tudo morto, e todos os navios aquele navio sem partir! Reza por mim, e Deus talvez exista por ser por mim que rezas. Baixinho, a fonte longe, a vida incerta, o fumo acabando no casal onde anoitece, a memória turva, o rio afastado... Dá-me que eu durma, dá-me que eu me esqueça, senhora dos Desígnios Incertos, Mãe das Carícias e das Bênçãos inconciliáveis com existirem...


No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do Outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...


Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.(...)
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus.
Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, unia divindade fluida e ouvida.


Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.


O poema que eu gostaria que me tivessem dedicado:

Me inquieta al dormirme
la posibilidad de no encontrarme al despertar.
Pero me inquieta más todavía
la posibilidad de no encontrarte.
Me inquieta al dormirme
la posibilidad de que nos sustituyan
mientras duermo.
Pero me inquieta más aún la posibilidad
de no reconocernos cuando despierte.
Me inquieta al dormirme
la posibilidad de que al despertar
nada corresponda con nada,
ni siquiera tú conmigo.
Pero me inquieta más todavía
la posibilidad de que a ambos nos borren el pasado
y tú y yo no hayamos existido nunca.


" Deleuze assinala que o delírio é a invenção possível para nos aproximarmos de certa captura desse sonho que nos sonha. Sabemos que, muitas vezes, para extrair a voz que se inscreve no texto, é preciso destacar a palavra do discurso e parti-la em quantos pedaços o desejo permitir. Sublinhemos assim a palavra “delírio”. Delirar, para esse filósofo, é uma espécie de método de leitura na tangência da representação – desvio
da lira; é testemunhar aquilo que a linguagem nunca conseguirá abranger; é sensibilizar-se com a voz que se inscreve não só por entre as letras que compõem as palavras, mas, também, por sobre os riscos, os traço, as pausas; é inventar outra forma de ler sobre o texto e escrever com um acontecimento que não deixa memória; é, enfim, se permitir riscar o papel em um sulco distraído que possa vir a marcar uma presença de algo que se ausentou."
É o delírio que as inventa, como processo que arrasta as palavras de um extremo a outro do universo. São acontecimentos na fronteira da
linguagem. Porém, quando o delírio recai no estado clínico, as palavras em nada mais desembocam, já não se ouve nem se vê coisa alguma através
delas, exceto uma noite que perdeu sua história, suas cores e seus cantos. A literatura é uma saúde.


"Aquele que escreve a partir da experiência com o irrepresentável goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto
e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota
, daquilo que viu e ouviu, o escritor regressa com olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados. O limite da linguagem, para Deleuze, não está no fora da linguagem, o limite é o próprio Fora. Para aquele que atravessou outro mundo e regressou com os olhos vermelhos e os tímpanos perfurados, só resta, como “saída-delírio”, a invenção de uma língua, uma língua estrangeira, escavada no interior da língua materna mediante a criação de uma outra sintaxe."

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Refúgios? Gaiolas?

2018- 2019 - Clube de leitores da imprensa Nacional

Sessão 1 – José Cardoso Pires – O Delfim, Tema: O cinema
Sessão 2 – Sophia de Mello Breyner – Poesia , Tema: A clareza
Sessão 3 – Ana Hatherly - 351 Tisanas,Tema: O fragmento
Sessão 4 – Carlos de Oliveira – Finisterra, Tema: A precisão e a ambiguidade
Sessão 5 – Vitorino Nemésio - Mau tempo no Canal , Tema: O isolamento
Sessão 6 – Herberto Helder - Photomaton & vox ,Tema: A imaginação
Sessão 7 – Maria Gabriela Llansol - Um beijo dado mais tarde , Tema: A narrativa
Sessão 8 – Vergílio Ferreira – Aparição, Tema: A reflexão e o espelho
Sessão 9 – Eduardo Prado Coelho - A poesia ensina a cair, Tema: O pensamento
Sessão 10 – José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira, Tema: A cidade



2018 - ECON


Sessão 1 - Montanha mágica
Sessão 2 - Viagem ao fim da noite
Sessão 3 - Grande Sertão: Veredas
Sessão 4 - Cartas a Lucílio

Certamente há grande prazer não somente na posse de uma antiga amizade, mas também no início e na aquisição da nova. A diferença que há entre o agricultor que faz a colheita e semeia, há entre aquele que obteve um amigo e aquele que o obtém. O filósofo Attalus costumava dizer ser mais agradável fazer um amigo do que conservá-lo, do mesmo modo que é mais agradável para o artista pintar do que ter pintado. Aquele cuidado dispensado à sua obra traz em si grande distração na própria ocupação. Não igualmente se deleita quem remove a mão da obra acabada. Já usufrui o fruto da própria arte; a mesma arte usufruiu quando tenha pintado. Mais frutuosa é a adolescência dos filhos, mas a infância é mais doce..
O sábio, mesmo que se baste a si mesmo, todavia deseja ter amigos, se por nenhuma outra razão, para que cultive a amizade e não esteja ociosa tão grande virtude, não para isto que dizia Epicuro naquela mesma carta: “Para que tenha quem esteja ao seu lado quando doente, para que o socorra quando lançado à prisão ou quando sem recursos”, mas para que tenha alguém de quem ele esteja ao lado quando enfermo, para que tenha alguém a quem liberte quando prisioneiro, quando oprimido pelo inimigo.Quem só vê a si mesmo e, em razão disso, caminha para a amizade, nutre más intenções. Do mesmo modo que começa , assim deixa . Alguém obteve um amigo tendo em vista um auxílio para escapar à prisão; quando primeiramente a corrente crepitar, afastar-se-á. Essas são as amizades que o povo chama de “temporárias”; quem foi tomado como amigo por causa da utilidade, agradará por quanto tempo seja útil. Por isso, uma turba de amigos senta-se à volta dos prósperos; ao redor do arruinado há solidão...
Não duvides que o amor possui algo similar à amizade: que se possa dizer aquele afeto uma amizade enlouquecida. Acaso alguém ama por causa do lucro? Acaso alguém ama por causa da ambição ou da glória? O próprio amor, por si mesmo indiferente a todas as outras coisas, inflama os espíritos para o desejo da Beleza, não sem esperança de ternura mútua. E então? A causa do que é digno forma aliança com um afeto torpe?


2017-2018: Clube de leitores da imprensa Nacional

Sessão 1 – Sobre a morte

Sessão 2 – Sobre o amor e o desejo
Sessão 3 – Sobre a linguagem
Sessão 4 – Sobre as utopias
Sessão 5 – Sobre a técnica e a cidade
Sessão 6 – Sobre a arte
Sessão 7 – Sobre a loucura e a racionalidade
Sessão 8 – Sobre a doença e a beleza
Sessão 9 – Sobre o poder e a imaginação


Sessão 10 – Sobre a identidade

...sentira crescer em si um sentimento indefinido e excitante de felicidade e expectativa,e agora o seu espírito parecia um balão infantil,pequeno e colorido,que se tivesse soltado e pairasse lá no alto,cintilante, contra o Sol. E no momento seguinte rebentaria.

Na maior parte dos casos, a condição primordial para a felicidade não consiste em resolver contradições, mas em fazê-las desaparecer, do mesmo modo que numa alameda comprida se fecham as lacunas. E tal como por toda a parte as relações visíveis se deslocam diante dos nossos olhos para que surja uma imagem que eles possam abarcar, onde o que é premente e próximo parece grande e ao longe até as coisas enormes parecem pequenas, onde as lacunas se fecham e o todo se mostra como algo de acabado e ordenado, assim também acontece com as relações invisíveis, que a razão e o sentimento afastam tanto que daí resulta inconscientemente uma situação em que sentimos que a dominamos completamente.


Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.



O que são os clássicos?

1.Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou a reler ... " e nunca "Estou a ler ... ".Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram "grandes leitores"; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro. O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranquilizá-Ias, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras "de formação" de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.
2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para os apreciar.
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
4.Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5.Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. A definição 4 pode ser considerada corolário desta:
6.Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:
7.Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós e trazem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe.
9.Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de facto mais se revelam
novos, inesperados, inéditos.
10. Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para o definir a si próprio em relação e talvez em contraste com ele.
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos;mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece
logo o seu lugar na genealogia.
13.É clássico aquilo que tende a relegar a atualidade à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor, mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.


E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido em Itália): "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava a aprender uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer' ".

Eu e os outros...

Os instantes Superiores da Alma
Acontecem-lhe - na solidão -
Quando o amigo - e a ocasião Terrena
Se retiram para muito longe -


Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar(1978)- O tema desta densa e quase alucinada novela é o embate que se trava entre um casal de amantes, suscitado por uma razão banal. Sob esse plano simples, porém, jaz uma condensação quase infinita de significados, que, enfeixados por uma prosa extremamente apurada, tornam a obra uma leitura muito interessante.

Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa.(...)


O Que os Cegos Estão Sonhando?,Noemi Jaffe (2016)-Em abril de 1945, cerca de um ano após ser presa pelos nazis e enviada como prisioneira para Auschwitz, Lili Jaffe (cujo nome de solteira era Lili Stern) foi salva pela Cruz Vermelha e levada à Suécia. Lá, ela anotou num diário os principais acontecimentos por que havia passado: a captura pelos alemães, o quotidiano no campo, as transferências para outros locais de trabalho, mas também a experiência da libertação, a saudade dos pais e a redescoberta da feminilidade.
Esse diário — hoje depositado no Museu do Holocausto em Jerusalém e que, traduzido diretamente do sérvio, tem aqui a sua primeira publicação mundial — foi o ponto de partida para este livro absolutamente incomum, escrito e organizado por Noemi Jaffe. Em O Que os Cegos Estão Sonhando?, há três gerações de mulheres da mesma família que se debruçam sobre o horror de Auschwitz, no impulso — tão imprescindível quanto vão — de, como observa Jeanne Marie Gagnebin, tecer um agasalho “contra a brutalidade do real”.

Só!–Não o é quem na dor, quem nos cansaços,
Tem um laço que o prenda a este fadário.
Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdém, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitário,
Isto é ser só, é ser abandonado!


Gente Independente, de Halldór Laxness( 2017)- Este romance de Laxness, prémio Nobel de literatura, tem lugar na Islândia, no início do século XX, numa sociedade de servidão e num país com uma natureza inclemente. É a saga de Bjartur, um homem obstinado, inquebrável e inesquecível. Bjartur vive no limiar da auto-suficiência contando apenas com a sua obstinação e força interior, rejeitando qualquer caridade em nome da independência, valor levado ao extremo das suas consequências. Vive num vale com reputação de assombrado, só confia no seu rebanho, no seu cão e no seu cavalo. Se alguém toca o seu coração é Ásta, a sua filha, mas tudo muda quando ela o desilude e magoa os seus enraizados princípios de honra...
A determinação de Bjartur e a luta pela independência são genuinamente heróicas. A sua história é épica e ao mesmo tempo trágica e bela, um romance que continua a comover gerações de leitores.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.


Tempo de Espalhar Pedras, de Estêvão Azevedo( 2017)- Num lugar indeterminado, um grupo de homens cava e peneira a terra em busca de diamantes que não existem mais. Suspensos entre a penúria extrema e as artes da sobrevivência, estes homens apercebem-se fatalmente de que as únicas superfícies ainda intocadas são aquelas em que as suas próprias casas estão erguidas.
Silvério, que procura refúgio na fé, acredita que vai encontrar a grande pedra. Rodrigo sente um desejo irresistível por Ximena, a filha do maior inimigo do seu pai, o velho Diogo. Sancho vive amancebado com a índia que dorme no seu terreno e só emite palavras incompreensíveis.
Estas histórias de amor, violentas e desesperadas, desenham-se num cenário de extinção: o do lugar paulatinamente destruído pelos seus habitantes que, tomados pelo desespero e pela cobiça, buscam as suas últimas esperanças de sobrevivência e fortuna, lutando contra a aridez da terra e das relações humanas.


Outros refúgios...

Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, a olhar. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse.

A Incapacidade de aceitar a realidade é uma gaiola ou um refúgio?

Clarissa tinha então uma teoria – tinham ambos montões de teorias, sempre teorias, como todos os jovens as têm. Era para explicar aquele sentimento de insatisfação por não conhecerem as outras pessoas, por não serem conhecidos. Pois como poderiam conhecer-se? Encontravam-se um dia, outro dia; depois não se avistavam durante meses, anos. Era lamentável, convinham, o pouco que as pessoas se conheciam umas às outras. Mas Clarissa dizia, no autocarro da Shaftesbury Avenue, que se sentia em toda parte; não “aqui, aqui, aqui”; e batia nas costas do banco; mas em toda parte. Estendia a mão, enquanto corriam pela Shaftesbury Avenue. Ela era tudo aquilo. De modo que para conhecê-la ou a qualquer outra pessoa, era só procurar a gente que fosse o seu complemento; a gente, e também os lugares. Tinha estranhas afinidades com gente a quem nunca falara, esta mulher na rua, aquele homem atrás de um balcão – até mesmo com árvores, ou galpões. O que tudo redundava numa transcendental teoria que, combinada com seu terror à morte, a induzira a acreditar, ou a dizer que acreditava (pois era toda ceticismo), que, sendo tão momentâneas as nossas aparições, a nossa parte invisível, em comparação com a outra, a que não se mostrava, mas que era tão extensa, talvez esse invisível “eu” sobrevivesse, se refizesse de algum modo, ligado a esta ou aquela pessoa, ou mesmo frequentando certos lugares, após a morte. Talvez...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto... A chuva miúda é vazia... a Hora sabe a ter sido...Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há, Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro, E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...(...)

O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como te medito,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque —
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...


Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
Suave. como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir uma flor murcha a meu peito...
Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema — Vitória!
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...


Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com clareza. Sobrenado. E é-me agradável receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos jardins. Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização — uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas-ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.

Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...
O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte... E o contrário disto tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.


O limite que temos é a nossa própria personalidade; é o sermos nós e não a vida inteira. É isso o limite dentro do qual temos que trabalhar, porque não podemos trabalhar fora dele. E, para limite, basta esse.

A crueldade da dor — gozar e sofrer, por gozar a própria personalidade consubstanciada com a dor. O último refúgio sincero da ânsia de viver e da sede de gozar...Meu espírito está [...] como os clássicos fazem, e com o que os decadentes dizem.

It's just that I can't speak...


O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.

Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor. Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque da quinta, com um docel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar. Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço e quem é triste não pode esforçar-se. Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o da alma com que esforçar-me.Quantas vezes me punge o não ser o accionante [?] daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me posticia [?] de alheia! Eu não teria o horror à vida como a uma Cousa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento. Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio. Por mais que por mim me embrenhe todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia. Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-1as durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.A (minha) vida é como se me batessem com ela.

Os livros são um refúgio, em que sentido? Será por nos podermos esconder atrás de uma estante? Será porque as bibliotecas têm recantos inesperados? Será que podemos ocultar o que somos, atrás do eu de cada personagem? Será? Sou demasiado desinspirada para estas reflexões. São um refúgio e não se fala mais nisso...Somos assim: sonhamos o vôo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas… A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam…

O destino encarregou-se de fazer com que ele jamais a esquecesse; mas também por causa dela própria, o que nunca a viu tão-pouco a olvidou; e o nome da mulher - o nome que ele lhe dera por ocasião do primeiro encontro- paira sobre a obra de Adrian, como uma ruína perceptível a mais ninguém, a não ser a mim. Ainda que me tachem de vaidoso, não posso abster-me de mencionar, desde já, a descoberta que ele um dia me confirmou tacitamente.

Provavelmente não sabiam como interpretar a sua personalidade,pelo menos na medida em que pretendessem encontrar ingenuidade, expansão camaradagem cordial. Num ou noutro lugar,talvez alguns se mostrassem sensíveis à timidez de Adrian, à solidão que o envolvia, à extrema dificuldade da sua existência...

Adrian...desejava afastar-se de Munique, mas para um lugar distante...O trabalho não avançava ...Adrian sentia-se dominado pela inquietude. Estava farto do seu quarto na casa da família Rambergstrasse, o qual apenas lhe oferecia uma solidão pouco segura e onde subitamente poderia entrar alguém a fim de o convidar para uma reunião." Ando em busca de qualquer coisa" , escrevia -me ele." No meu íntimo ,dirijo perguntas ao mundo que me cerca, e escutando, aguardo que se me indique um sítio que me permita enterrar-me longe de todos e, sem que ninguém me perturbe, dialogar com a minha vida e o meu destino..." Palavras estranhas, ominosas... Finalmente optou por Itália.

As duas irmãs Rodde, tanto Clarissa como Inês, ...não eram raras as ocasiões em que deixavam perceber que o ambiente quase boémio,metade familiar, metade lascivo, do seu salão,e a sua existência sem raízes...repugnavam a ambas.Procuravam então afastar-se daquele estado híbrido,embora em direcções diferentes: a orgulhosa Clarissa, rumo a uma profissão artística, para a qual...não tinha verdadeira vocação inata; a delicadamente melancólica,intrinsecamente angustiada Inês ansiava,por sua vez, por retornar a um refúgio, à segurança psicológica de uma protegida situação burguesa, que só um casamento respeitável, fundado, se possível, no amor, mas eventualmente também sem ele, lhe poderia proporcionar.

Repito, mais uma vez, ...que a minha vida pessoal sempre se me afigurou apenas secundária,e sem que propriamente me descuidasse dela, vivia-a ,distraído só com a mão esquerda, por assim dizer, ao passo que as minhas verdadeiras diligências, tensões e preocupações se dedicavam ao bem-estar do amigo de infância. Nunca perder Adrian de vista, velar pela sua vida extraordinária, misteriosa, parecia sempre ser a real, a mais urgente incumbência da minha própria; formava o seu conteúdo essencial, e por isso mencionei o esvaziamento de que sofro nos dias presentes.

Lugar considerado seguro para alguém se refugiar e evitar um perigo...
Quem foge, tal como quem se refugia, sente-se inseguro, sente-se em perigo..
Indoeuropeu- *bheug
Grego - φυγή
Latim - fugere
Português -fugir


As arrumações são um refúgio: quando me sinto desorientada, arrumo, arrumo compulsivamente...