Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Melancolia, Elegias, Melancolismos...


HOMEM 
 foi há tanto tempo 
foi há tanto tempo há tanto tanto tempo
 foi tudo há tanto tempo 
há tanto tanto tempo

 MULHER 
 é foi tudo há tanto tempo
 há tanto tanto tempo
 e aconteceram tantas coisas 

HOMEM
 aconteceu tudo
 e nada 

MULHER
 aconteceram tantas coisas 


  A linguagem repetitiva é um dos traços definidores desta peça de teatro, que se desenrola num cemitério: complexa, estranha, é uma construção diferente de um tema antigo: amor acaba e a vida passa...


Um livro triste, muito triste...


 "Um menino está prestes a nascer - chamar-se-á Johannes como o avô e será pescador como o pai. Uma vida boa, é esse o desejo de quem o traz ao mundo, embora este seja um mundo duro, ruim e cruel. Um homem, velho e sozinho, morre - chama-se Johannes e foi pescador. É o seu melhor amigo que o vem buscar rumo a esse destino onde não há corpos nem palavras, apenas tudo aquilo que se ama. Antes do regresso definitivo ao nada, Johannes revisita o museu da sua vida, longa, simples e quotidiana, confrontando-se paulatinamente com a morte num constante entrelaçamento de real e alucinação, passado e presente."



E nada disto tinha nome. Não eram irmãos, nem amantes. Existe outra coisa e eles sabiam isso vagamente. Existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno.

É esse o  sentido do amor e da amizade. A amizade deles era tão séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e culpa. Uma pessoa não  se pode apropriar impunemente de outra, separando-a das restantes.
 

 De duas em duas semanas confessavam-se, preparavam juntos a lista de pecados. Os desejos faziam-se sentir no sangue, nos nervos...Mas viviam uma vida pura, como se a amizade, cuja capa mágica cobria as suas vidas jovens, compensasse tudo aquilo que atormentava e arrepiava os outros, os curiosos e irrequietos e os perseguia para as regiões obscuras, infernais da existência. 

  Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.

Começar assim o dia deixa qualquer mulher melancólica...

Esta enfermidade é particularmente visível em mulheres de idade, e como tal são pobres, solitárias, vivem na mais básica estima e são pedintes, ou são bruxas.;








Something's gotta give We can't carry on like this One year on and more unsure Where do we go from here? Many nights and many days I've spent with you Talking about what we should do I can't say Nothing's clear to me no more One more sleepless night And another wasted day This song has no end Too many words fill my mind You gave so much too soon No longer sure where you want to be Turn around See what you have found Let's drink to absent friends How they cared, and all they shared We took our life to the edge They still try to understand Time is running out You're going down Come on, let's go wherever they may be Make a choice Stay behind or follow me



Elegia na sombra: Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia touca a desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medovNesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia; Lembramos névoas, sonhos a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o sentimos bem no coração? Que vitória maligna conseguimos — Em que guerras, com que armas, com que armada? — Que assim o seu castigo irreal sentimos Colado aos ossos desta carne errada? Terra tão linda com heróis tão grandes, Bom Sol universal localizado Pelo melhor calor que aqui expandes, Calor suave e azul só a nós dado.(...) Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente Nem paira mais no ar, que fora almo Se não fora a nossa alma erma e vazia, Que o nosso fado, vento frio e calmo E a tarde de nós mesmos, baça e fria Como longínquo sopro altivo e humano Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena.

Pequena elegia de setembro: Não sei como vieste... Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro. Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas...? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.

Texto de apresentação, escrito por Vinicius para a primeira edição:

Dessas cinco elegias, as quatro primeiras foram ideadas e em parte escritas - a primeira e a segunda integralmente - em 1937, em Itatiaia, no sítio de Octávio de Faria, ali a meio caminho entre Campo Belo e a Cachoeira de Marombas, lugar que amo e onde passei alguns dos meus melhores dias. Nesse tempo, a terceira, essa que aqui vai com o título de "Desesperada", era para ser na realidade a quarta; em substituição havia outra; que se deveria chamar "Intermédio elegíaco" e afinal se transformou num drama lírico, com que ainda hoje ando lidando. Iniciada nessa ocasião, só fui terminá-la em fins de 1938, em Oxford, quando, estudante, ali assisti. A atual quarta foi a única que me perseguiu, inacabada, ao longo de todos esses anos.Há coisa de um mês, de repente, resolveu-se.Quanto à última, escrevi-a de jato, naquele maio de 1939, em Londres, vendo, do meu apartamento, a manhã nascer sobre os telhados novos do bairro de Chelsea. A qualidade da experiência vivida e o lugar onde a vivi criaram-lhe espontaneamente a linguagem em que se formou, mistura de português e inglês, com vocábulos muitas vezes inventados e sem chave morfológica possível. Mas não houve sombra de vontade de parecer original. É uma fala de amor como a falei, virtualmente transposta para a poesia, na qual procurei traduzir,dentro de sonoridades estanques de duas línguas que me são tão caras e com arranjos gráficos e ordem puramente mnemônica, isso que foi a maior aventura lírica da minha vida.
V.M.Junho de 1943

Elegia ao primeiro amigo

Seguramente não sou eu Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história. É antes uma vontade indizível de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro. Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial. Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia. É apenas um prenúncio do mistério Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada... Vim para ser lembrado Para ser tocado de emoção, para chorar Vim para ouvir o mar contigo Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã. Nossos olhos enegreciam lentamente de dor Nossos corpos duros e insensíveis Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto Para aquele que, entre nós, ferido de beleza Aquele de rosto de pedra De mãos assassinas e corpo hermético de mártir Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar. Pouco importa que tenha passado, e agora Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva... Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar. Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia E abrigaste em ti todo o patético? Não sei o que tenho de te falar assim: sei Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer E eu nada diria de grave; decerto Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros... Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido: Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar. Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo) Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível (Vá lá por conta da necessária gentileza...) No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás... Existo também; de algum lugar Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes Escuto vozes ermas Que me chamam para o silêncio. Sofro O horror dos espaços O pânico do infinito O tédio das beatitudes. Sinto Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação. Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar. Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. Seguramente não sou eu: É a tarde, talvez, assim parada Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo Quisera poder dizer-te tudo; no entanto Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar Uma mulher me vê viver, que me chama; devo Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.




Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfémias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legítimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delícias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos húmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!

Isto só se podia observar pelos ombros, já que o resto do corpo estava coberto por uma manta comum, mas os corpos sentiam esse contacto amortecido pelas roupas de um modo tão suavemente indistinto como o que nos dá a ver as coisas numa noite de luar...A transmissão refinada do desejo do corpo para as roupas, do abraço para os obstáculos, numa palavra, do objectivo para o caminho, ia ao encontro da sua natureza. A sua sensualidade atraía-o para a mulher, mas as outras forças superiores afastavam-no sa pessoa estranha que não se lhe ajustava e que subitamente via à sua frente,de modo que estava sempre dividido, numa viva contradição entre atracção e repulsa.(...)lembrava-se com frequência da despedida aquando da sua primeira visita:segurara então na sua mão suave,uma mão sem peso,artificial e nobre na sua perfeição, e ambos se olharam nos olhos,sentiram certamente a mesma aversão, mas depois perceberam que se poderiam fundir até se extinguirem como um sopro. Algo dessa visão permacera entre eles. Deste modo, temos em cima duas cabeças que se olham com uma frieza extrema, enquanto em baixo os corpos se fundem sem resistência e chegam ao rubro.Há nisto qualquer coisa da força maléfica dos mitos...

Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria do contacto na qual o mistério e a dignidade de outrem consistiriam precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de ligação com um mundo desconhecido. A volúpia seria, nessa filosofia, a forma mais completa e mais especializada de aproximação com o Outro, uma técnica a mais colocada a serviço do conhecimento de uma individualidade estranha à nossa. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção nasce ou morre, tal como acontece com a mão um tanto repugnante da velha que me apresenta uma petição, a fronte húmida do meu pai em agonia, ou a chaga lavada de um ferido. As próprias relações mais intelectualizadas, ou as mais neutras, ocorrem através desse sistema de sinais materiais: o olhar subitamente iluminado do tribuno a quem explico determinada manobra numa manhã de batalha; a saudação impessoal do subalterno que a nossa passagem imobiliza em atitude de obediência; o olhar amistoso do escravo a quem agradeço por trazer-me uma bandeja; ou a expressão apreciadora de um velho amigo ante o camafeu grego com que acabamos de presenteá-lo. Com a maior parte das pessoas, os mais ligeiros ou mais superficiais desses contactos bastam a nosso desejo, ou até o excedem. Que esses mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.

Será que é isto estar apaixonado: "Um ser passar da periferia do nosso universo ao seu centro!?

Have you no idea that you're in deep? I've dreamt about you nearly every night this week How many secrets can you keep? 'Cause there's this tune I've found That makes me think of you somehow And I play it on repeat Until I fall asleep Spilling drinks on my settee...



Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento ,perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador.

Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria. É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está: E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será.

O que diz o dicionário sobre nostalgia? Melancolia, tristeza causada pela saudade da sua terra ou da sua pátria; Saudade do passado, de um lugar. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que deixou de possuir. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados.Condição daquele que é triste sem motivos explícitos.

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia touca a desgraça.


Tantos poemas contemporâneos! Tantos poetas absolutamente de hoje — Interessante tudo, interessantes todos...Ah, mas é tudo quase...É tudo vestíbulo E tudo só para escrever. Nem arte, Nem ciência Nem verdadeira nostalgia...

O que é a melancolia?
Tristeza vaga e indefinida; estado de tristeza, traduzido pelo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras; enfraquecimento mental e/ou físico, cuja ocorrência ocasiona certas complicações psiquiátricas... Abatimento, desânimo, esmorecimento, languidez, misantropia, prostração e tristeza...
Etimologicamente, o vocábulo tem uma raiz bastante "negra": segundo hipócrates, melancolia é um dos quatro humores corporais que, por influência de saturno, é produzido, em excesso, pelo baço. Bem prosaica, na origem, enaltecida pelos românticos, a melancolia chega até nós, adulterada por psiquiatras e psicanalistas: síndrome mental que se caracteriza pela sensação de impotência, inutilidade, pensamentos negativos, dificuldade de concentração, falta de apetite, ansiedade, insónia e ideias constantes de morte; um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas sem que exista uma perda.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração.




Y en este titubeo de aliento y agonía, cargo lleno de penas lo que apenas soporto. ¿No oyes caer las gotas de mi melancolía?

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.



You want her, you need her And yet you don't believe her When she says her love is dead You think she needs you...I know what I have and want But I don't know what I need Well, he said, he said, he said, he said "Where we're going, I'm dead...

Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante:o meu amigo está longe e a saudade é bastante!


Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.



amor podes mandar se for sincero, saudades isso não pois não as quero/ Quando eu morrer... quero uma fita amarela gravada com o nome dela.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


Exegi monumentum aere perennius regalique situ pyramidum altius, quod non imber edax, non Aquilo inpotens possit diruere aut innumerabilis annorum series et fuga temporum. Este monumento é o texto perfeito, a obra imorredoura. Sem a grandiosidade, o que não implica necessariamente, extensão, mas sim uma organização intrínseca, não existe literatura de qualidade.
Recordo o dia seis de setembro de 2013. Que pena não ter feito,nesse dia, uma reflexão sobre perfeição estrutural... Agora, três anos depois, já não consigo reconstituir a emoção que senti...Só subsite a recordação melancólica desse momento...


Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...

Podem as palavras morrer. Eu estou ainda próximo da noite.
Coleciono lutos,água de faianças,
animais do espírito,demasias.
Coleciono tudo os que as palavras não dizem:
uma feroz tranquilidade,um inventário de silêncios,
um catálogo de medos,
tudo o que não sei dizer sem as palavras.


O homem principia onde a morte o edifica.
A palavra, nunca será a exata habitação
do medo.


Na amena costa da Riviera francesa, mais ou menos a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, ergue-se um vasto e soberbo hotel pintado de cor-de-rosa.

Eu eduquei - te para o trabalho - não especialmente para o casamento.Agora vai em frente e aproveita essa experiência. Magoa-te ou magoa-o a ele - aconteça o que acontecer,não perdes nada,pois economicamente és um rapaz,não uma rapariga.
Encontravam-se ainda na fase feliz do amor.Estavam cheios de corajosas ilusões a respeito um do outro,ilusões tremendas,de tal modo que a sua comunhão mútua parecia dar-se numa esfera onde mais nenhuma relação humana importava.

Estar física e espiritualmente sozinho gera solidão,e a solidão gera mais solidão.



Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas! Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazuli das emoções descontínuas! Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim...


Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.




She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad." And she's making me feel like I've never been born I said, Who put all those things in your head? Things that make me feel that I'm mad. And you're making me feel like I've never been born."She said, "You don't understand what I said." I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right, Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "You don't understand what I said."I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right,Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad. I know what it's like to be dead...


"Estás só. Ninguém o sabe.
Cala e finge. Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."

murmurou estas palavras em outro tempo escritas,e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-la,também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais dizer,porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram estar só, caro senhor, é muito mais conseguir dizê-lo e tê-lo dito.



Mas pra quê? Pra quê tanto céu? Pra quê tanto mar? Pra quê? De quê serve Esta onda Que quebra? E o vento De tarde? De que serve A tarde? Inútil paisagem...


Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.



Bravo, vejo que você se cansou de idealidades femininas incorpóreas, trocou a Lídia etérea por uma Lídia de encher as mãos e agora está aqui à espera doutra dama(...)Adeus, caro Reis, até um destes dias, deixo-o a namorar a pequena, você afinal desilude-me,amador de criadas,cortejador de donzelas,estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está.


Adéu, adéu amor meu i sort


Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim...



Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.



Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida...




Mi viejo refran, mi poema, la fe que perdi no camino mi carreta . Mi dulce placer, mi sueño de ayer...

Mi fuente, mi sed, mi barco, mi red y la arena. Donde te sentí donde te escribí mi poema.

Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todo o mundo, estéril de todas as almas. A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez. Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!
Esplende, ausência de sol, brilha, luar que cessas...Só tu, sol que brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as flores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.



Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o esperemos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.



A cada qual, como a estatura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.



Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa.Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas...

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

( Des) ilusões e utopias...

Eu estava recém-separada e com aquele discurso cafona de de não morar junto nunca mais. Mas aí você começou a jogar sujo, e fez coisas terríveis e imperdoáveis, como brincar com o meu filho e saber o número do meu pé. E eu fui estudando desesperadamente para descobrir os seus defeitos, porque não era possível alguém acordar bem-humorado e ainda por cima fazer cappuccino com aquela espuma profissional. E assim eu fui ficando… uma semana, um mês, sete anos. E assim estou, sem planos de ir embora.

Ser companheira dos meus medos e dar a mão a eles foi a coisa mais bonita que me aconteceu. Também decidi que não quero saber de gente bem resolvida. E que nunca mais vou planejar assassinar ninguém que tenha fechado um cruzamento no trânsito. O homem é projeto. E a informação a respeito de si é puro ouro.

E de repente, tudo mudou. Não, não foi de repente. Foi aos poucos. Foi indo, ficando longe, sendo de outro jeito. Talvez também não tenha sido tudo, mas só você, que foi deixando de ser você — você, no caso, eu — apesar do nome mantido e daquela amiga da vida toda. Mas não era esse o combinado, sair de si e começar de novo, e sempre, como uma boneca russa, uma dentro da outra? E por que eu não percebi logo? Como uma criança que se vê crescer todos os dias e não se percebe a enorme diferença que cada par de meses pode fazer no córtex de cérebro tão pequeno, eu também não vi a garota indo embora, e em seguida a filha. Eu só vi que tava estranho.
E não foram dois meses. Foram 40 anos. Atari, PUC, filho, separação, casamento, despedidas, 7 a 1. Vim vindo como em um videogame cujas fases se sucederam sem que eu me desse conta, e agora não dá pra voltar. Prazer, você virou outra pessoa. Maldito Freud.


«Entristecem-me as belezas que não atravessam o oceano. Entristece-me que a maioria dos brasileiros não conheça Sérgio Godinho, Ricardo Araújo Pereira, Adília Lopes, alheiras ou peixinhos da horta. Imagina que existência triste a de um sujeito que nunca comeu peixinhos da horta. Na mesma medida, entristece-me que Portugal ainda não conheça Maria Ribeiro. Maria faz o Brasil rir alto — semanalmente — daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve como quem conversa, e conversa como ninguém. Este livro que você tem em mãos foi um baita sucesso num país em que livros não costumam fazer um baita sucesso. Agora você não tem mais desculpas. Maria atravessou o oceano. Isto há de ser um baita sucesso.» — Gregorio Duvivier

The deconstruction has begun Time for me to fall apart And if you think that it was rough I tell you nothing changes Till you start to break it down And break apart... The reconstruction will begin Only when there's nothing left But little pieces on the floor That made of what I was Before I had to break it down


Talvez desilusão seja o medo de não pertencer...

"O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos." - Bernardo Soares
"Prefiro um enfarte do que a desilusão do Benfica perder" - Ricardo Araújo Pereira

Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...


Quando te der saudade de mim Quando tua garganta apertar Basta dar um suspiro Que eu vou ligeiro Te consolar

E quando o nosso tempo passar Quando eu não estiver mais aqui Lembra-te Desta cantiga Que fiz pra ti


Desilusão, desilusão Danço eu dança você Na dança da solidão...

Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia fria me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade — àquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.(...)
Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela (eu só) a ouvia.
Nova, fluida, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que eu ia a sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passavam a ter lugar e dor na minha desolação.


E uma desilusão. Mas desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto, se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.




Eu a obedecer e tu a mandar Os dois na mesma triste peça Os dois à espera do fim

O vocábulo utopia é usado, pela primeira vez, por thomas more, para designar uma ilha imaginária. Título de uma obra, escrita em latim, por volta de 1516, que preconiza o ideal de viver feliz em lugar-nenhum, numa cidade de sonhos e nuvens, com um castelo no ar, banhada por um rio sem água , habitada por cidadãos sem cidade, governada por aqueles que não têm povo, tendo como vizinhos homens sem país...

Podemos pensar num olhar utópico de uma forma um pouco distinta, como sendo um olhar que não se localiza nem no espaço, nem no tempo. Um olhar que não conseguimos identificar completamente: onde está quem observa isto? Observador utópico pode ser uma categoria relativa às condições do observador e não relativa àquilo que ele vê ou tenta criar.
É interessante pensar que há utopias que partem de um olhar para o passado e não para um futuro ideal. A ideia da época de ouro e a ideia de que nós seríamos o resultado da decadência de uma anterior espécie humana extraordinária são bons exemplos disso. Talvez estas utopias, indiferentes àquilo que aí vem, sejam as mais perigosas — as que só vêem o belo e forte naquilo que desapareceu e que nunca mais poderá ressuscitar. É aquilo a que se poderia chamar de utopistas-de-nuca: para trás está a solução.
500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu - A literatura cria espaços que não existem, mas também inventa e cria acontecimentos. A ficção talvez tenha por natureza um instinto utópico — é a definição de alternativas à realidade, mesmo que estas não sejam muito solares ou alegres. A ficção diz: poderia ter acontecido isto ou aquilo. São hipóteses, possibilidades, alternativas em relação a uma realidade que não satisfaz, que não é suficiente.
A imaginação, a capacidade de produzir imagens mentais de coisas que não estão imediatamente à frente dos olhos, é uma capacidade humana invulgar que, infelizmente, muitas vezes é desvalorizada, e quase atacada, no processo educativo. Aliás, as frases: "— está atento!, tens a cabeça na lua!, etc." são expressões repressivas que mostram como a escola está constantemente a dizer: não imagines, vê! Como se aquilo que é mostrado fosse sempre mais importante e relevante do que aquilo que é imaginado. Uma escola paralela, quase utópica também, seria aquela em que os professores por vezes diriam: hoje não estás suficientemente na lua!, ou: não estejas tão atento, colado, ao que te estou a mostrar! Ou, dizendo de uma forma não tão extrema, mais realista: a escola deveria dar a ver, dar a conhecer, apenas aquilo que potencie a imaginação. Vou mostrar-te algo que te permitirá mais tarde imaginares muitas outras coisas. Imagens que alimentem a imaginação e não que a diminuam. Substituir definições por imaginações — este podia ser um lema; contestável, claro, mas que permitiria, talvez, uma discussão e uma deslocação do espaço mental do ensino.

O progresso tecnológico e as utopias estão sempre muito ligados, quando se fala de ficção científica. As utopias políticas, por outro lado, muitas vezes estiveram associadas à ideia de uma mudança do homem, e não apenas a uma mudança da paisagem que rodeia o homem. Mudar de vida, mudar o que é característico do humano ou mudar de máquinas. São utopias bem diferentes, estas. Algumas utopias bem antigas, religiosas, por exemplo, estão nesse aspecto muito mais centradas na acção humana. A ideia de mudar a posição do coração, no sentido de alterar os instintos humanos, de transferir o homem da agressividade para a compaixão, é uma utopia antiquíssima que podemos ler, por exemplo, em textos cristãos e outros. Talvez um ponto de pobreza actual, neste início do século XXI, seja a fixação em utopias que apenas mudam de máquinas.
A tecnologia tem vindo a instalar novas utopias que passam muitas vezes pela questão de o homem querer viver cada vez mais tempo. Não é bem a imortalidade, o elixir da longa vida, que se perseguia e fantasiava noutros séculos, mas é algo próximo. E é interessante ver que o centro destas utopias é viver mais tempo, mais! — e não viver de forma diferente. O que me parece forte em algumas utopias sociais ou artísticas do século XX é que o centro da utopia não era viver mais tempo, era viver de forma diferente.

Quando o essencial das utopias humanas passa pela tecnologia talvez algo esteja em queda. É uma utopia desanimada, a que quer mudar a paisagem, natural ou técnica, e já desistiu de mudar o humano.


O reino que idealizei foi um utópico ponto de encontro... Tenho saudades desse espaço sem espaço: lá tinha reaprendido a sorrir e a ser... Toda a utopia é uma desimpossibilidade...A palavra foi criada a partir dos radicais gregos οὐ, "não", e τόπος, "lugar", portanto, etimologicamente, a utopia é o "não-lugar" ou " o lugar que não existe". Pensar um ser que não existe em nenhum espaço é uma forma de utopia...
O meu sebastianismo, sendo falso, dentro do fingimento fantasioso em que a minha mente é exímia, é profundamente autêntico. Gosto do mito, gosta de acreditar em d.sebastião, "quer ele venha quer não", gosta de utopiar. Quando olho o longe da varanda da sala, um ritual que cumpro religiosamente sempre que me levanta, e vislumbra o nada, fico fascinada com essa mancha compacta de ... Não faço ideia nem me interessa saber o que é o nevoeiro, basta-me saber que é, que existe...Sou egocêntrica e só escreve sobre mim... Mesmo quando falo de um tu, esse tu é uma projeção do meu eu ou eu sou uma projeção desse tu. Quando lleio certos textos , quando olho a beleza , quando me sinto existir só espiritualmente, quando su invadida por uma emoção particularmente intensa,"Desejava ser dois para me poder comunicar, transmitir esse deleite." Quando a solidão interior se agudiza, gostaria de ter um outro eu capaz de me ser...Outrar-se, ser o eu que fala e o eu que escuta...Quando me surpreendo como um ser interiormente bonito,lamento que ninguém o anseie conhecer...Ao contrário de tertuliano, gostaria de ser duplicada..
( Utopias privativas: organizar tudo de modo perfeito; ler tudo o que merece ser lido; recordar tudo o que li; pensar tudo o que é pensável; conciliar castidade com sensualidade; beber e nunca ultrapassar a fase em que o álcool me transporta para um paraíso, mesmo que artificial; comer o que me apetece e não engordar; nunca sentir dor...Os meus refúgios são, afinal,remédio para a desimpossibilidade das utopias...)

O não sentir desejo é um subterfúgio do desejo que se sente, mas que não se quer sentir porque, sentindo-o, sem nunca o concretizar, ele passa a ser não um subterfúgio, mas uma utopia que desencadeia uma frustração inaceitável.

De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia

Está ilha forma naturalmente uma península que foi conquistada pelo rei Utopos, que acabou dando nome à ilha, que anteriormente era conhecida como Abraxa, e que hoje […] talvez seja a nação mais civilizada do mundo.

Cada casa tem uma porta principal que dá para a rua, e uma porta dos fundos que dá para o jardim. Nenhuma dessas portas é fechada a chave, abrindo-se a um simples toque e fechando automaticamente após a saída de alguém. Assim, todos podem entrar e sair, pois ali inexiste a propriedade privada (Que falta de privacidade...)

É fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa.


Eu chamo-me Teodoro — e fui amanuense do Ministério do Reino. Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do Bairro Central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa. A minha existência era bem equilibrada e suave.

«No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Uma influência sobrenatural apoderandose de mim, arrebatava-me devagar para fora da realidade, do raciocínio: e no meu espírito foram-se formando duas visões — de um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, num quiosque chinês, a um ti-li-tim de campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus pés! Isto era tão nítido, que eu via os olhos oblíquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos de uma ténue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicionário francês — a campainha prevista, citada no mirífico in-fólio...

Pouco a pouco fui esquecendo o meu episódio fantasmagórico: e ao mesmo tempo, como gradualmente o meu espírito resserenava, voltaram de novo a mover-se as antigas ambições que lá habitavam — um ordenado de diretor-geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: «Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!»
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!


Jurou não se deixar deter, por nenhuma dificuldade do caminho ou pela preocupação com a volta, na continuação da caminhada: afinal, para poder ser arrastado em frente, as suas energias sem dúvida bastariam. Pois o caminho podia não ter fim? Durante o dia o castelo apresentava -se diante dele como um alvo fácil, e o mensageiro certamente conhecia a rota mais curta.

O castelo, cujos contornos já principiavam a desvanecer -se, permanecia silencioso como sempre, nunca ainda K. tinha visto o menor sinal de vida nele, talvez não fosse possível reconhecer alguma coisa daquela distância e no entanto os olhos exigiam isso e não queriam suportar a quietude. Quando K. fitava o castelo, às vezes era como se observasse alguém que estivesse calmamente sentado ali e dirigisse o olhar para a frente, não porventura perdido nos próprios pensamentos e com isso fechado a tudo, mas sim livre e despreocupado: como se estivesse sozinho e ninguém o observasse. Tinha no entanto de notar que era observado, sem que isso afetasse o mínimo que fosse a sua tranqüilidade; na realidade – não se sabia se era a causa ou a consequência, os olhares do observador não se podiam fixar e desviavam -se. Essa impressão estava hoje mais reforçada pela escuridão prematura: quanto mais ele fitava tanto menos reconhecia, tanto mais fundo tudo mergulhava no crepúsculo.

Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele é-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida valeram -lhe esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que
recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.


Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

A utopia: imaginar Sísifo feliz...


Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenómeno composto a que chamamos vida.


E no dia seguinte lá fui, depois das aulas, ter com a minha avó. Ela disse-me para me sentar, fez um gesto com a mão engelhada em direção ao sofá das riscas. Sento-me sempre nessas riscas, sempre que a visito. Ela também se sentou com a sua lentidão e um vestido florido. Passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a voz e os óculos. Por vezes a voz dela fica um pouco amarrotada, quando se senta, quando acaba de fazer um esforço. Explicou-me – enquanto eu mastigava um bolo – que eu já era um homenzinho e que começava a ter responsabilidades. Estava na altura de saber a verdade. As palavras dela vinham cheias de cabelos brancos, podia sentir que havia nelas muita vida vivida. (…)

Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust [A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não me posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso-me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.
O meu corpo, uma topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gasta, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. O meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através das suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. O meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.
Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se deve o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal na sua potência, infinito na sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos génios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos aleijarmos, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado...
Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias? São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.
Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo é barro... A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma! É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão. E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra.
Mas o meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem os seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda do que a alma, do que a tumba, do que o encanto dos magos. Tem as suas adegas e os seus celeiros, os seus lugares obscuros e praias luminosas. A minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar. Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos génios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele. Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver. O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.
Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.
É um dispate dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, quer era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia. O meu corpo, de faCto, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.
As crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Heitor e os seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então descobre -se que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.
Talvez seria preciso dizer também que fazer amor é sentir o seu corpo fechar-se sobre si, é finalmente existir fora de toda a utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo começam a existir, contra os lábios do outro, os teus tornam -se sensíveis, diante dos seus olhos semi-abertos, o teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver as tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, cala -a, acalma -a, fecha -a como numa caixa, fecha-a e sela-a. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer amor é porque, no amor, o corpo está aqui...

domingo, 14 de janeiro de 2018

Peregrinações e viagens...


Um forma diferente de peregrinação...


Nunca mais ler a Peregrinação causava-me uma angústia indizível. O acaso, o destino ou a sorte colocam esta obra no meu caminho e aí vou eu, "por este rio acima", a reler excertos, a recordar o português do século XVI, uma língua que me sabe a passado, a presente e a futuro... O reencontro com estes textos é assaz comovente, como o são todos os reencontros... Talvez seja um dos meus traços mais definidores: gosto de reencontrar ( talvez , por isso, até nem me importe de perder ...)

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram...acho que com muita razão me posso queixar da ventura,que parece que tomou por particular tenção a empresa sua de perseguir-me e maltratar-me,como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória...

E vendo eu quão pouco me fundiam tanto os trabalhos e serviços passados como o requerimento presente, determinei de me recolher com essa miséria que trouxera comigo, adquirida por meio de muitos trabalhos e infortúnios, e que era o resto do que tinha gasto em serviço deste reino, e deixar o feito à justiça divina, o que logo pus em obra, pesando-me ainda por que o não fizera mais cedo, porque se assim o fizesse, quiçá me pouparia nisso um bom pedaço de fazenda.

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado Lembra-me um céu aberto, outro fechado Estala-me a veia em sangue, estrangulada Estoira no peito um grito, à desfilada...



Namban significa, em japonês, "bárbaros do sul", termo com que os nipónicos apelidaram os europeus, devido aos seus hábitos pouco requintados: Comem com os seus dedos, em vez de usarem os pauzinhos... Manifestam os seus sentimentos, sem qualquer autocontrole. São incapazes de entender a nossa escrita.

Esta capa de um ebook da Peregrinação é retirada de um biombo japonês, que, à semelhança das tiras de banda desenhada, conta uma história, através de imagens...Com a chegada dos portugueses, em 1543, iniciam-se os contactos com o japão, ficando este encontro de civilizações e de trocas culturais registado em biombos namban.



Os biombos Namban contam A história alegre das navegações Pasmo de povos de repente Frente a frente Alvoroço de quem vê O tão longe tão de pé Laca e leque Kimono camélia Perfeição esmero E o sabor de tempero Cerimónias mesuras Nipónicas finuras Malícia perante Narigudas figuras Inchados calções Enquanto no alto Das mastreações Fazem pinos dão saltos Os ágeis acrobatas das navegações Dançam de alegria Porque o mundo encontrado É muito mais belo Do que o imaginado



Peregrinatio Egeriae - A ida de Egéria à Terra Santa, nos anos 381 a 384, é o segundo documento escrito de uma peregrinação ao Oriente e o primeiro que se conhece redigido por uma mulher. É o texto latino mais antigo que se pode atribuir a território ocidental, um testemunho essencial da evolução do latim para as línguas românicas.

Outra peregrinação ao passado, mas esta de má memória, apesar de adorar o texto e de não ter embirrado com a santidade de egéria...

A quem me abriu portas e mostrou caminhos — e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Tome o leitor as páginas seguintes como desafio e convite. Viaje segundo um seu projeto próprio...

O mal do viajante nasce de duas opostas vontades: a de ficar em todos os lugares, a de chegar a todos os lugares ...

Há uma palavra para designar cada objeto, e o viajante descobre, estupefacto, que a história dos homens é afinal a história desses objetos e das palavras que os nomeiam, e dos nexos existentes entre eles e elas, mais os usos e desusos, o como, para quê, onde e quem produziu. A história assim contada não se atravanca de nomes, é a história dos atos materiais, do pensamento que os determina, dos atos que determinam o pensamento

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa [...];O fim de uma viagem é apenas o começo doutra [...]. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.

" Meu Caro José:
A última carta que o seu Ricardo Reis escreve não é carta, nem vai assinada. É um sobrescrito endereçado a Marcenda Sampaio, para a posta restante de Coimbra. Dentro leva, sozinhos, estes versos, de que o José apenas transcreve os dois primeiros:

Saudoso já deste verão que vejo, / Lágrimas para as flores dele emprego/ Na lembrança invertida / De quando hei-de perdê-las./ Transpostos os portais irreparáveis / De cada ano,me antecipo a sombra / Em que hei de errar, sem flores,/ No abismo rumoroso./E colho a rosa porque a sorte manda./ Marcenda, guardo-a; murche-se comigo / Antes que com a curva /Diurna da ampla terra.

Marcenda é murchante, flor que murcha. É essa menina doente de si mesma, de braço pendente e mão inerte. Descrente da esperança, trava a seiva de um amor nascente e, deste, o viço para sempre se quedará secreta memória. O José foi atrás do gosto classicista de Reis, que assim cria a forma verbal "marcenda" ( de "marceo,-es,-ere,-ui = murchar) , e dali fez um nome de mulher e o deu como contraponto de Lídia. Se, como escreve João Gaspar Simões, "com efeito, é através de Ricardo Reis que Fernando Pessoa se aproxima de si mesmo, de si mesmo como Fernando Pessoa. E Ricardo Reis, no fim de contas, quem descobre Fernando Pessoa a si próprio", a Marcenda de José Saramago descobre-nos o namoro de Fernando e Ofélia... Mas tudo isso é mera conjetura, Marcenda é criação sua, José, tal como a Lídia que se deita com Ricardo Reis não é a musa das odes,a menos que o poeta afinal a ela também diga "Temo, Lídia,o destino. Nada é certo... / ...Fora do conhecido é estranho o passo / Que próprio damos." E em mais odes repetirá "Sofro, Lídia, do medo do destino. / Qualquer pequena cousa de onde pode / Brotar uma ordem nova em minha vida, / Lídia, me aterra." Mas esta Lídia, criada de profissão e solteira, anuncia ao homem, que é médico e pessoa de outra condição, a esperança - também chamada embaraço - que ele lhe fez. E logo lhe corta a ilusão de poder ou querer fugir do que - a ela,mais do que a ele, pois é desamparada e de humilde condição - lhe mudará o destino e a vida: " Lídia mete-se adiante e responde,Vou deixar vir o menino. Então, pela primeira vez, Ricardo Reis sente um dedo tocar-lhe o coração... ...Que é um embrião de dez dias, pergunta mentalmente Ricardo Reis a si mesmo, e não tem resposta para dar, em toda a sua vida de médico nunca aconteceu ter diante dos olhos esse minúsculo processo de multiplicação celular, do que os livros ao acaso lhe mostraram não conservou memória, e aqui não pode ver mais do que esta mulher calada e séria... ... Puxou-a para si, e ela veio como quem enfim se protege do mundo, de repente corada, de repente feliz, perguntando como uma noiva tímida, ainda é tempo delas, Não ficou zangado comigo, Que ideia a tua,por que motivo iria eu zangar-me, e estas palavras não são sinceras,justamente nesta altura se está formando uma grande cólera dentro de Ricardo Reis, Meti-me em grande sarilho, pensa ele, se ela não faz o aborto fico para aqui com um filho às costas, terei de o perfilhar, é minha obrigação moral, que chatice, nunca esperei que viesse a acontecer-me uma destas. Lídia aconchegou-se melhor, quer que ele a abrace com força, por nada, só pelo bem que sabe, e diz as incríveis palavras, simplesmente, sem nenhuma ênfase particular, Se não quiser perfilhar o menino não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito,como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade, distinga-as quem puder, num impulso, enfim, sincero, abraçou-a, e beijou-a, imagine-se, beijou-a muito, na boca, aliviado daquele grande peso, na vida há momentos assim,julgamos que está uma paixão a expandir-se e é só o desafogo da gratidão." Conjeturando ainda, pergunto-me --- pergunto-lhe, a si, talvez o José, desde esse assento etéreo, me responda - que mais teria feito Ricardo Reis, se Fernando não o tivesse vindo buscar para donde não se regressa tão cedo... Sei, posto que o afirma, que o médico-poeta assentiu que devia ter ficado à espera de Lídia, ali no Alto de Santa Catarina, para a consolar da perda do irmão marinheiro, o próprio Pessoa lho diz. Mas acha, afinal, que não poderia valer-lhe, a ela que dele tantas vezes cuidou. Mais sei que, ao ouvir o som dos canhões que atiravam contra o navio Afonso de Albuquerque, ele vai correndo por Lisboa, na ânsia de poder ser de algum préstimo no eventual salvamento do irmão de Lídia. E que a procura no Hotel Bragança, onde ela é serviçal, a ver se poderá oferecer-lhe apoio e conforto. Não a encontra, mas algo terá já mudado nesse monárquico, antigo aluno dos jesuítas, hoje cético dos deuses todos, que o seu neopaganismo situa num olimpo distante dos homens e onde "há só noite lá fora". O Ricardo que pensa que "sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo", e assim se considera, sairá afinal ao encontro do outro, desse desconhecido irmão da mulher humilde que quiçá o converteu à misteriosa capacidade do amor. Que pena tenho, José Saramago, de que não esteja agora aqui para me contar que caminhos imaginou para esse homem novo. " Camilo Martins de Oliveira

O bagageiro levanta o boné e agradece, o táxi arranca, o motorista quer que lhe digam, Para onde, e esta pergunta, tão simples, tão natural, tão adequada à circunstância e ao lugar, apanha desprevenido o viajante, como se ter comprado a passagem no Rio de Janeiro tivesse sido e pudesse continuar a ser resposta para todas as questões, mesmo aquelas, passadas, que em seu tempo não encontraram mais que o silêncio, agora mal desembarcou logo vê que não, talvez porque lhe fizeram uma das duas perguntas fatais, Para onde, a outra, e pior, seria, Para quê. O motorista olhou pelo retrovisor, julgou que o passageiro não ouvira, já abria a boca para repetir, Para onde, mas a resposta chegou primeiro, ainda irresoluta, suspensiva, Para um hotel, Qual, Não sei, e tendo dito, Não sei, soube o viajante o que queria, com tão firme convicção como se tivesse levado toda a viagem a ponderar a escolha, Um que fique perto do rio, cá para baixo, Perto do rio só se for o Bragança, ao princípio da Rua do Alecrim, não sei se conhece, Do hotel não me lembro, mas a rua sei onde é, vivi em Lisboa, sou português, Ah, é português, pelo sotaque pensei que fosse brasileiro, Percebe-se assim tanto, Bom, percebe-se alguma coisa, Há dezasseis anos que não vinha a Portugal...

Já lá vai a caminho do segundo andar, É o duzentos e um, ó Pimenta, desta vez o Pimenta está com sorte, não tem de ir aos andares altos, e enquanto ele sobe tornou o hóspede a entrar na recepção, um pouco ofegante do esforço, pega na caneta, e escreve no livro das entradas, a respeito de si mesmo, o que é necessário para que fique a saber-se quem diz ser, na quadrícula do riscado e pautado da página, nome Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, Brasil, donde procede, viajou pelo Highland Brigade, parece o princípio duma confissão, duma autobiografia íntima, tudo o que é oculto se contém nesta linha manuscrita, agora o problema é descobrir o resto, apenas. E o gerente, que estivera de pescoço torcido para seguir o encadeamento das letras e decifrar-lhes, acto contínuo, o sentido, pensa que ficou a saber isto e aquilo, e diz, Senhor doutor, não chega a ser vénia, é um selo, o reconhecimento de um direito, de um mérito, de uma qualidade, o que requer uma imediata retribuição, mesmo não escrita, O meu nome é Salvador, sou o responsável do hotel, o gerente, precisando o senhor doutor de qualquer coisa, só tem que me dizer...

os livros numa prateleira, estes poucos que trouxera consigo, alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular, uns manuseados poetas ingleses, três ou quatro autores brasileiros, de portugueses não chegava a uma dezena, e no meio deles encontrava agora um que pertencia à biblioteca do Highland Brigade, esquecera-se de o entregar antes do desembarque. A estas horas, se o bibliotecário irlandês deu pela falta, grossas e gravosas acusações hão-de ter sido feitas à lusitana pátria, terra de escravos e ladrões, como disse Byron e dirá O'Brien, destas mínimas causas, locais, é que costumam gerar-se grandes e mundiais efeitos, mas eu estou inocente, juro-o, foi deslembrança, só, e nada mais. Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo...

Há grandes receios na Golegã, não me lembro onde fica, ah Ribatejo, se as cheias destruírem o dique dos Vinte, nome muito curioso, donde lhe virá, veremos repetida a catástrofe de mil oitocentos e noventa e cinco, noventa e cinco, tinha eu oito anos, é natural não me lembrar,

Quando Ricardo Reis chegou ao cemitério, estava a sineta do portão tocando, badalava aos ares um som de bronze rachado, como de quinta rústica, na dormência da sesta. Já a esconder-se, uma carreta levada a braço bambeava lutuosas sanefas, um grupo de gente escura seguia a carroça mortuária, vultos tapados de xales pretos e fatos masculinos de casamento, alguns lívidos crisântemos nos braços, outros ramos deles enfeitando os varandins superiores do esquife, nem mesmo as flores têm um destino igual. Sumiu-se a carreta lá para as profundas, e Ricardo Reis foi à administração; ao registo dos defuntos, perguntar onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia trinta do mês passado, enterrado no dia dois do que corre, recolhido neste cemitério até ao fim dos tempos, quando Deus mandar acordar os poetas da sua provisória morte.(...) A rua desce suavemente, como em passeio, ao menos não foram esforçados os últimos ossos, a derradeira caminhada, o final acompanhamento, que a Fernando Pessoa ninguém tornará a acompanhar, se em vida realmente o fizeram aqueles que em morto o seguiram

Pisa o lixo das ruas, ladeia os caixotes virados, debaixo dos pés rangem vidros partidos, só faltou que tivessem atirado os velhos pelas janelas com o manequim, não é assim tão grande a diferença, a partir de certa idade nem nos governa a cabeça nem as pernas sabem aonde hão de levar-nos, no fim somos como as criancinhas, inermes, mas a mãe está morta, não podemos voltar a ela, ao princípio, àquele nada que esteve antes do princípio, o nada é verdade que existe, é o antes, não é depois de mortos que entramos no nada, do nada, sim, viemos, foi pelo não ser que começamos, e mortos, quando o estivermos, seremos dispersos, sem consciência mas existindo. Todos tivemos pai e mãe, mas somos filhos do acaso e da necessidade, seja o que for que esta frase signifique, pensou-a Ricardo Reis, ele que a explique...

"Por mim penso, e com gratidão, que em Antero de Quental, me foi dado conhecer, neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus, que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua vasta alma em curtos versos – era um Génio e era um Santo." Eça

De 1864 a 1874, Antero de Quental é niilista como filósofo, anarquista como político; é tudo o que for negativo, é tudo o que for excessivo; e é-o de um modo tão determinante, tão dogmático e tão afirmativo, que por isso mesmo hesitamos em crer na consciência com que o é. Da sinceridade não é lícito duvidar, mas contra a segurança depõe a própria violência. A nevrose contemporânea, que produzira nele a terceira época, dá de si ainda a quarta; mas se pôde galgar a saltos por entre a floresta incendiada que devorou e consumiu os satânicos, não poderá também sair da estepe lúgubre onde apodrecem os pessimistas, embriagados na negação universal, sem se lembrarem de que são contraditórios no próprio facto de pregarem o que quer que seja? Ora a isto responde esta própria série, porque, ao lado dos sonetos crepuscularmente desolados, levantam-se como auroras os sonetos estoicos. Para curar o poeta da vertigem satânica serviu-lhe a metafísica pessimista; para o curar mais tarde dessa metafísica, servir-lhe-á a reação do sentimento moral sobre a razão especulativa.

Lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço aonde se há-de receber esse misterioso filho do tempo - o futuro.

Acabo de ler um escripto e v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso. Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos. (...) Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarempor suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. (...) nnovar é dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!..


"Properly speaking there has been no Portuguese literature before Antero de Quental; before that there has been either a preparation for a future literature, or foreign literature written in the Portuguese language." Pessoa

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...


N'um céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino
.

Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


Viagem aos infernos, realizada por Eneias, guiado por Sibila de Cumas:

Daqui parte um caminho que leva às ondas do Tartáreo Aqueronte.
Aqui um redemoinho de espesso lodo e vasta voragem
referve e vomita no Cocito toda a sua areia.
Um barqueiro arrepiante guarda as águas destes rios,
Caronte, esquálido e terrível, no queixo, uma espessa,
desgrenhada, barba branca, olhos fixos, em chamas;
um sórdido manto atado com um nó pende-lhe dos ombros.
Ele mesmo com a vara faz andar a jangada, iça a vela
e transporta na barca da cor da ferrugem os corpos;
já avançado em anos, mas a velhice dos deuses é fresca e viçosa.
Para aqui corria, para as margens, toda a turba dispersa,
mães e varões, corpos sem vida
de valentes heróis, rapazes e donzelas inuptas,
jovens colocados na pira à vista dos pais:
tal como nas florestas, aos primeiros frios outonais,
as folhas caem numerosas; tal como, dos fundos redemoinhos,
vêm juntar-se em terra multidões de aves, quando a gelada estação
as faz atravessar o pélago e as leva para terras soalheiras.
de pé, imploravam que os deixassem fazer a travessia primeiro,
e estendiam as mãos, no anseio de passar à outra margem.
Porém o nauta sombrio recebe, ora uns, ora outros,
mas a alguns, afasta-os para longe da areia da praia.
Surpreso, de verdade, e abalado por este tumulto,
Eneias pergunta: «Diz-me, ó virgem, que corrida é esta para o rio?
Que procuram as almas? Ou que distinção leva
a que estas deixem a margem, e aquelas varram com os remos o lívido elemento?»
Respondeu-lhe em poucas palavras a longeva sacerdotiza:
«Filho de Anquises, descendente inegável dos deuses,
o que vês são do Cocito os pântanos profundos e os Estígios paúis,
por quem os deuses temem jurar e quebrar o juramento.
Toda esta turba que avistas são desgraçados sem sepultura.
Aquele barqueiro é Caronte; estes, que as ondas levam, foram sepultados.
Não é dado fazê-los transpor as horrendas margens
e as roucas correntes, antes de os seus ossos repousarem na tumba.
Durante cem anos vagueiam, volitando em torno destas praias;
só depois são admitidos, enfim, a tornar a ver o almejado pântano.


- 1438 - Ainda que Deus por sua grande , absoluta, infinda e segreda vontade algumas vezes escolha e chame alguns de estados viciosos e culpados...tão grande sandice é um atrevimento da boa vontade de Deus desprezar o estado das virtudes, e escolher o dos pecados, como seria se algum quisesse passar algum rio perigoso e tormentoso, e achasse duas barcas: uma forte e segura e mui bem aparelhada , e em que raramente algum se perde e por a maior parte todos com ela se salvam, e outra velha, fraca, podre, rota, em que todos se perdem, e alguns poucos se salvam. A barca firme e segura e forte e bem aparelhada, o estado das virtudes é, e de bom e santo viver honesto, e sem querela de Deus e do próximo(...)A barca fraca, pobre, rota, o estado dos pecados é, e da má e corrupta e dissoluta vida, em tal estado assim como em barca podre não pode com segurança e sem prigo as tormentas da presente vida passar, nem a porto de folgança e desejado aportar(...) Deste ensinamento...podeis entender que cousa perigosa é dar-se o homem a destemperança, e cousa segura à temperança salva muitos, e destroi poucos, e a destemperança corrompe e destroi muitos, e salva mui poucos.

Auto da Barca do Inferno - 1516 - A didascália, no texto princeps, é a seguinte:

Auto de Moralidade, composto per Gil Vicente, por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dona Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Manuel, primeiro de Portugal deste nome.
Começa a declaração e argumento da obra: Primeiramente, no presente auto, se figura que, no ponto que acabamos d'espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet , um deles passa pera o Paraíso, e o outro pera o Inferno; os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do Paraíso um Anjo; e o do Inferno, um arrais infernal e um Companheiro.


1847 - O acesso habitual a Arnheim fazia-se através do rio. O visitante deixava a cidade ao amanhecer. Ao longo da manhã passava por entre margens de uma beleza tranquila e familiar onde pastavam inúmeros carneiros, o seu velo branco pintalgando o verde fulgurante dos prados ondulantes [ ...] . Conforme a tarde se aproximava, o canal ia-se tornando mais estreito; as margens cada vez mais alcantiladas; e estas vestidas de folhagem mais rica, mais profusa e mais sombria. A água ganhava transparência. O curso do rio tornava-se de tal forma sinuoso que a sua superfície cintilante não se podia avistar a uma distância superior a alguns metros. Em todo o momento a embarcação parecia prisioneira no interior de um círculo encantado ladeado por paredes de vegetação indomável e impenetrável, encimado por uma cobertura de cetim azul ultramarino e desprovido de fundo - a quilha balançando por si só com admirável simetria, sobre a de um barco fantasma que, por qualquer acidente, tivesse sido invertido, conduzido por uma tripulação permanente e essencial com o único propósito de o suster. O canal tornava-se então um desfiladeiro - embora o termo não seja o mais adequado e eu o empregue unicamente devido a não existir qualquer palavra que represente o mais impressionante - não o mais distintivo - traço fundamental do cenário. O aspecto de desfiladeiro dizia apenas respeito à altura e paralelismo das margens; tinham-se perdido totalmente as outras características. As paredes da ravina (por entre as quais deslizava tranquilamente a água límpida) erguiam-se a uma altura de cem e por vezes de cento e cinquenta pés, e aproximavam-se tanto entre si como para expulsar a luz do dia; enquanto os longos líquenes semelhantes a plumas que pendiam densamente dos matagais que se entrelaçavam em cima impregnavam todo o abismo de uma lúgubre obscuridade. As curvas sinuosas do rio tornavam-se mais frequentes e intrincadas parecendo, por vezes, desenhar-se sobre si próprias de tal forma que o viajante há muito havia perdido todo o sentido de orientação. Além disso, este tinha sido envolvido por um sentimento de aguda estranheza. A noção de natureza mantinha-se ainda mas as suas qualidades pareciam ter-se alterado, reinava uma misteriosa simetria, uma inquietante uniformidade, uma perfeição mágica nestes novos atributos. Não se avistava um ramo caído - uma folha ressequida - um seixo perdido - um pedaço de terra queimado pelo sol. A água cristalina irrompia contra o granito imaculado, ou sobre o musgo irrepreensível, com uma exactidão de contornos que simultaneamente deleitava e confundia o olhar. Tendo transposto ameaçadoramente os labirintos deste canal durante algumas horas, com a obscuridade aprofundando-se a cada momento, uma curva acentuada e inesperada da embarcação conduziu-a repentinamente, como se caída do céu, ao interior de uma lagoa circular de considerável extensão comparada à largura do desfiladeiro.


O excerto, que, em 1962, inspirou este quadro de magritte, relata um percurso por um rio que, à medida que o viajante vai avançando, não só em termos espaciais como temporais, se vai estreitando e aprofundando, «Conforme a tarde se aproximava, o canal ia-se tornando mais estreito; as margens cada vez mais alcantiladas», carregando-se de sombras e de tal maneira se torna tortuoso que provoca a desorientação: «As curvas sinuosas do rio tornavam-se mais frequentes e intrincadas parecendo por vezes desenhar-se sobre si próprias, de tal forma que o viajante há muito havia perdido todo o sentido de orientação». A personagem realiza um percurso ao abismo labiríntico e espiralar que a amedronta e confunde mas que a transporta a uma outra dimensão da realidade que a vai deslumbrar. O que impressiona neste texto são os sentimentos contraditórios que sugere - a melancolia e o temor evocados pela obscuridade do abismo mas simultaneamente deslumbramento pela limpidez das águas e pela geometria e perfeição da natureza. É interessante a comparação «a embarcação parecia prisioneira no interior de um círculo encantado [ ...] a quilha balançando por si só com admirável simetria, sobre a de um barco fantasma» para sugerir a imagem do barco reflectida nas águas, reflexo que, como Bachelard diz, duplica não só o mundo mas também o sonhador/viajante, metamorfose que provoca estranheza, inquietação: «l’eau, par ses reflets, double le monde, double les choses. Elle double aussi le rêveur, non pas simplement comme une vaine image, mais en l’engageant dans une nouvelle expérience onirique». A idealização da natureza que «simultaneamente deleitava e confundia o olhar» é fruto do convite à libertação da realidade sensível que constitui esta viagem. Não esqueçamos que para Platão a alma era espelho e em todo o texto «l’eau donne au monde ainsi créé une solennité platonicienne».

- 1912 - O livro inicia com a descrição do Inferno, onde “Satã consome o fogo dos seus dias cuidando, com amor, do martírio das almas” que ali lhe chegam. Da fronte do Diabo sobressai o símbolo do seu Império, a serpente que seduziu Eva ao enroscar-se na árvore do Paraíso, transformando-a, e a Adão, nos dirigentes das nocturnas legiões de Satã. Quando Satã, ouvindo a serpente que prevê o fim da humanidade, envia Adão e Eva para o mundo “à frente dos demónios aguerridos”, não esperava que, através das recordações do Paraíso, estes revivessem o amor original, sentindo piedade dos seus filhos. Trava-se, assim, uma batalha entre Anjos e Demónios em que, se Adão vencer o demónio que nele se entranhou, poderá regressar ao Paraíso. O homem vive uma tragédia onde as personagens principais são Deus e Satã.

A figura de Caronte é substituída, devido à influência do catolicismo, por Satã , mas mantém ainda alguns traços da personagem na Eneida:Satã consome o fogo dos seus dias,/ Cuidando, com amor,/ do martírio das almas, que aos Infernos/ Chegam da Terra, em ondas e tumultos.// Junto à porta infernal, que tem escrita a trágica lenda do Poeta,/ Já comida das chamas e do fumo,/ Satã espera as almas, que se espantam/ E dizem, a tremer os seus pecados:/ Seus ódios, seus amores.../ E depois ajoelham e murmuram/ Súplicas de perdão,/ E sussurram palavras sem sentido;/ Lembram débeis arbustos, sob as patas/ dos ventos a galope.

Satã faz despertar nas almas recém-chegadas ao Inferno os mesmos sentimentos de terror e vulnerabilidade perante o caráter inexorável dos seus atos que os gestos do «nauta sombrio» provocam nas almas implorantes que volitavam nas margens do rio. A fragilidade do destino humano é também associada por Pascoaes à natureza pela evocação da debilidade dos arbustos perante a violência do vento sugerindo a impotência do homem face à implacabilidade das forças que governam a sua existência.

Outras viagens...
Viagens...

Ave atque vale, ó assombroso universo!

Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.


A ideia de viajar seduz-me por translação, como se fosse a ideia própria para seduzir alguém que eu não fosse. Toda a vasta visibilidade do mundo me percorre, num movimento de tédio colorido, a imaginação acordada; esboço um desejo como quem já não quer fazer gestos, e o cansaço antecipado das paisagens possíveis aflige-me, como um vento torpe, a flor do coração que estagnou. E como as viagens as leituras, e como as leituras tudo... Do mesmo modo se me estiola a ideia de viajar se acaso me aproximo de onde possa haver embarque...



Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.



Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela,os meus olhos fechavam -se tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: "Vou dormir". E, meia hora depois, a ideia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspeto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V. Essa crença sobrevivia por alguns segundos ao meu despertar; não ofendia a razão, mas pesava como escamas sobre os olhos, impedindo-os de perceber que a vela já não estava acesa. Depois, principiava a parecer-me ininteligível, como, após a metempsicose, as ideias de uma existência anterior; o assunto do livro desligava -se de mim, eu ficava livre para me adaptar ou não a ele; logo recobrava a vista e surpreendia -me bastante por estar rodeado de uma obscuridade, suave e repousante para os olhos, porém ainda mais talvez para o espírito, ao qual surgia como uma coisa sem causa, incompreensível, como algo verdadeiramente obscuro. Perguntava-me que horas poderiam ser; ouvia o silvo dos comboios que, mais ou menos afastado, como um canto de pássaro na floresta, assinalando as distâncias, me informava sobre a extensão da campina deserta onde o viajante se apressa em direção à próxima parada: o caminho que ele segue vai-lhe ficar gravado na lembrança pela excitação de conhecer novos lugares, praticar atos inusitados, pela conversação recente e as despedidas sob a lâmpada estranha que o seguem ainda no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso.

Mas de há pouco tempo para cá recomeço, se lhes dou ouvidos, a distinguir muito bem os soluços que tive forças para conter... Na realidade esses soluços nunca cessaram: e só porque a vida está agora mais calada à minha volta é que os ouço outra vez, como os sinos dos conventos que são tão bem cobertos pelos ruídos das cidades durante o dia que parecem ter parado, mas que recomeçam a tocar no silêncio da noite.

A minha tristeza já não era considerada como uma falta punível,mas como um mal involuntário que acabavam de reconhecer oficialmente como um estado nervoso pelo qual não era responsável; tinha o alívio de já não ter que misturar escrúpulos com a amargura das minhas lágrimas, podia chorar sem pecado.

É trabalho baldado procurarmos evocar o passado,todos os esforços da nossa inteligência são inúteis.Ele está escondido,fora do seu domínio e do seu alcance,em algum objecto material de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objecto antes de morrermos, ou não o encontramos.

Durante a minha leitura,executava incessantes movimentos de dentro para fora,para a descoberta da verdade,vinham as emoções que me eram dadas pela acção em que tomava parte,porque todas aquelas tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira.(...) Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar.

Nunca me deixo influenciar pelas perturbações da atmosfera nem pelas divisões convencionais do tempo. De bom grado reabilitaria o uso do cachimbo do ópio e do kriss malaio, mas ignoro esses instrumentos infinitamente mais perniciosos e aliás chatamente burgueses, que são o relógio e o guarda -chuva.



Um balde,sim guarda a chuva. Pelo menos, uma parte dela.O guarda-chuva, esse, não guarda propriamente a chuva. Pelo contrário: deixa cair a chuva ao chão. O guarda-chuva é na verdade um afasta - chuva. Um mãos_de_manteiga.

Demoramos muito tempo a reconhecer na fisionomia própria de um novo escritor o modelo que tem o nome de " grande talento"no nosso museu de ideias gerais. Justamente por se tratar de uma fisionomia nova, não achamos que se assemelhe inteiramente àquilo a que chamamos talento.



Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que ele pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele wagon que para sempre a levava.


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!



E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam — o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível. Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos? De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia? Como sabeis que, viajando assim, não me segui ... mesmo obscuramente?
Infantil de absurdo, revivo a minha meninice...



Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.



Mas nenhuma voz lhe respondeu, pois no grande silêncio nítido e sonoro só se ouvia o rolar das pedras. Ela estava sozinha, vestida de terror, agarrada ao chão em frente do vazio.
- Responde! - gritou debruçada sobre o abismo. Longe, o eco da sua voz repetiu:
- Responde.Estava estendida na terra, com as mãos enterradas na terra, e começou a gritar como quem está perdido no meio dum sonho. Depois parou de gritar e murmurou:
- Tenho de o ir procurar.
Seguiu de rasto pelo carreiro, tateando o chão com as mãos à busca duma passagem por onde pudesse descer para procurar o homem. Mas não havia passagem. Então tentou descer pela própria vertente do abismo. Agarrando-se a ervas e raízes deixou-se escorregar ao longo do precipício. Mas os seus pés não encontravam nenhum apoio onde pudessem firmar-se. Pois a vertente descia a pique, era uma parede lisa de pedra nua.
- Tenho de voltar para o carreiro - pensou a mulher - e tenho de procurar mais adiante uma passagem.
E, agarrada a ervas e raízes, içou-se para o carreiro. Mas o carreiro tinha desaparecido. Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia, onde nem os seus pés cabiam. Um rebordo sem saída. Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. Sentia que as erva se as raízes a que se segurava cediam lentamente com o peso do seu corpo. Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder. Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos. Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:
- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.


Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstrata e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida —
"E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?" —
Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...



Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não tenho fé em nada, esperança de nada, caridade para nada. Abomino com náusea e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos ou, antes e melhor, as sinceridades de todos os sinceros e os misticismos de todos os místicos. Essa náusea é quase física quando esses misticismos são activos, quando pretendem convencer a inteligência alheia, ou mover a vontade alheia, encontrar a verdade ou reformar o mundo. Nunca amei ninguém. O mais que tenho amado são sensações minhas...É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu; transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.

Foi-se a última nau, ao sol aziago Erma, e entre choros de ânsia e de pressago Mistério. Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta Que teve? (...) Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna. Não sei a hora, mas sei que há a hora,(...)

O mar! O infinito! O meu amor pelo mar, cuja gigantesca simplicidade sempre preferi à sofisticada pluralidade das montanhas, é tão antigo quanto o meu amor ao sono, e sei muito bem qual a raiz que essas duas simpatias têm em comum. Trago dentro de mim muito da sabedoria dos hindus, um desejo pesado e indolente por aquela forma ou não forma da perfeição chamada “nirvana” ou o “nada”, e, embora seja artista, cultivo uma inclinação muito pouco artística à eternidade, que se exterioriza em uma repulsa contra a estrutura e a medida. O argumento contrário, acredita-me, é a correção e a decência, e, para utilizar a palavra mais séria, a moral… O que é a moral? O que é a moral do artista?
A moral do artista é a força da concentração egoísta, a determinação rumo à forma,à configuração, à delimitação, à corporalidade, rumo à renúncia à liberdade, ao infinito, ao dormitar e tecer no espaço ilimitado da percepção – resumindo numa palavra, é a vontade para a obra. Mas quão pouco nobre e ética, exangue e asquerosa é a obra nascida da uniformidade fria, sábia e virtuosa de um artista! A moral do artista é devoção, engano e autorrenúncia, é luta e necessidade, vivência, conhecimento e paixão.



19 de maio de 1934

Estou diante de minha primeira viagem pelo Atlântico, do meu primeiro encontro e convívio com o oceano, e ao fim e ao cabo, do outro lado da curvatura terrestre, do outro lado destas águas imensas, está à nossa espera Nova Amsterdão, a metrópole. Como essa, não há mais que quatro ou cinco, espécie singular e monstruosa de cidade, desmesurada no estilo e diversa da classe das cidades grandes, assim como, no âmbito da natureza e da paisagem, a categoria do primevo e do elementar se destaca monstruosamente do resto, na forma de desertos, cordilheiras e mares.

Leitura de viagem – um género cheio de conotações de pouco valor. A opinião geral pretende que o que se lê em viagem deve ser o mais fácil e leve possível,algum disparate para se “passar o tempo”. Nunca entendi por quê. Pois, deixando de lado que a dita literatura de entretenimento é sem dúvida a coisa mais aborrecida que há na Terra, não consigo aceitar que, justamente numa ocasião séria e solene como uma viagem, devamos abdicar de nossos hábitos espirituais, entregando -nos à palermice. O ambiente relaxado e descontraído da viagem criaria talvez uma disposição dos nervos e do espírito em que a palermice causasse menos repulsa que de costume? Falava ainda há pouco sobre respeito. Como tenho estima pela nossa empreitada, parece-me certo e apropriado que também tenha estima pela leitura que há de acompanhá-la. O Dom Quixote é um livro mundial – o livro justo para uma viagem pelo mundo. Escrevê-lo foi uma aventura ousada, e a aventura recetiva que se cumpre ao lê-lo está à altura dascircunstâncias. É estranho, mas jamais levei sua leitura sistematicamente até ao fim. Quero fazê-lo a bordo e chegar à outra margem deste mar de histórias, assim como, dentro de dez dias, chegaremos à outra margem do oceano Atlântico.

Não deveria fazer o que faço, isto é, sentar-me curvado e escrever. Não contribui para o bem-estar pois, como dizem os nossos companheiros de mesa norte-americanos, o mar está “a little rough”, e as oscilações do navio – tranquilas e comedidas, deve-se reconhecer – são naturalmente mais sensíveis num pavimento superior como este, onde fica a sala de leitura, do que lá em baixo. Olhar pela janela não é boa ideia, pois o sobe e desce do horizonte leva a cabeça a um estado que conhecemos de outra época da vida e que deixámos para trás; mas olhar para baixo, para o papel e para a escrita, tampouco surte melhores efeitos. Estranha obstinação em manter um hábito de toda a vida e, depois da movimentação matinal, do café da manhã, exercer alguma atividade estilística, mesmo na contramão de circunstâncias tão adversas!


Li um bom trecho do Dom Quixote ontem à tarde e à noite, ao som da música no salão azul, e quero continuar daqui a pouco numa poltrona do deque, transposição da confortável espreguiçadeira de Hans Castorp para o polo oposto. Que singular monumento! Submisso ao gosto de sua época, mais até do que a sátira dirigida a esse mesmo gosto deixaria adivinhar, submisso a ela também pelo seu espírito às vezes francamente servil e leal – ao mesmo tempo em que dela se destaca crítica e humanamente quando ingressa na esfera da poesia e da sensibilidade. Mal consigo dizer a que ponto me encanta a tradução de Tieck, esse alemão luminoso e ricamente articulado da era clássico-romântica – a nossa língua no seu momento mais feliz. Ela se presta de modo muito belo ao estilo cómico e solene da obra, que me seduz de novo a pensar que o elemento fundamental do épico é, de facto, o humor, que o humorístico e o épico são uma e a mesma coisa, por menos que essa equação se sustente objetivamente. De caráter romântico e humorístico é já o truque de estilo por meio do qual se apresenta toda a “grande e memorável história”(...)
“Da discreta e graciosa conversação que houve entre Sancho Pança e sua mulher Teresa Pança, e outros sucessos dignos de feliz recordação”. Ou, em tom paródico e zombeteiro: “Das coisas que, diz Benengeli, há de saber quem as ler, se as ler com atenção”. Humorística ainda, no sentido mais profundo, é a densidade humana, a viva ambivalência das duas personagens principais, da qual o autor tem consciência e orgulho, sobretudo diante da continuação de Avellaneda, tão odiada e tão medíocre. Essa obra de um espertalhão desajeitado que se deixou seduzir pelo sucesso mundial do livro via em dom Quixote um louco merecedor das tareias que leva e em Sancho simplesmente um comilão. O protesto ciumento e desdenhoso contra essa simplificação manifesta-se em mais de uma passagem da segunda parte de Dom Quixote e toma forma polémica no prólogo, cujo tom, de resto, é digno e comedido – ainda que apenas em aparência. Cervantes vale-se do recurso retórico de atribuir ao leitor o desejo de vingança e de zombaria, ao passo que ele mesmo se contém com uma compostura digna do cavaleiro de la Mancha. “Bem quiseras que o tratasse de asno, mentecapto e atrevido, mas coisa tal não me passa pelo pensamento: que o seu pecado o castigue, que ele coma o seu pão e com ele se avenha.” Muito cristão, muito bonito; o que o ofende mesmo é que “aquele senhor” o chame de velho e aleijado – como se estivesse ao alcance do poeta “deter o curso do tempo, como se sua ferida fosse fruto de um entrevero de taberna e não do mais glorioso dos dias” – assim ele se refere à batalha de Lepanto. “Além disso”, ele retruca engenhosamente, “há que se ter em conta que não se escreve com os cabelos grisalhos, mas com o entendimento, que soi melhorar com os anos.” Mais uma vez, encantador; mas a serenidade amena de sua cabeça grisalha não se mantém nas histórias crassas e maliciosas que ele encarrega o leitor de recontar “àquele senhor” e que devem mostrar ao espertalhão que “uma das maiores tentações do demónio consiste em pôr na cabeça de um homem que também ele é capaz de compor e mandar imprimir um livro que lhe valha fama e dinheiro”. Essas histórias dão mostra do desejo de vingança, da ira tremenda, do ódio robusto, do sofrimento ainda não apaziguado de um artista diante da confusão entre o que faz sucesso apesar de ser bom e o que faz sucesso porque é mau.


Cervantes teve que ver uma obra espúria, que se passava por continuação de seu próprio livro, “ganhar o mundo” e ser lida com igual fervor. A continuação copiava as qualidades mais grosseiras do original de sucesso – a comédia da loucura punida e da gula camponesa – e ficava nisso; faltavam-lhe a profundidade, o estilo, a melancolia e a perspicácia humana, sem que ninguém, espantosamente, desse por sua falta: a multidão não pareceu notar nenhuma diferença. É a humilhação mais terrível para um escritor: quando Cervantes fala do “dissabor e repulsa” que causou o outro Dom Quixote, ele refere -se à sua experiência pessoal, por mais que a atribua ao público, e o facto é que teve de escrever a verdadeira segunda parte de sua obra não por causa do público, mas para livrar-se do dissabor, do asco que não apenas a obra espúria mas também o sucesso de sua própria obra lhe causavam agora. É bem verdade que a segunda parte de Dom Quixote – diante da qual o leitor há de recordar que “foi talhada pelo mesmo artesão e no mesmo pano que a primeira” – foi feita para reabilitar o sucesso da primeira, para resgatar a honra literária desse sucesso estropiado. Mas é também verdade que essa segunda parte já não tem o frescor inaugural, a desenvoltura feliz da primeira, a qual mostra como, a partir de uma concepção modesta, de uma sátira vivaz e divertida, escrita inicialmente sem maiores ambições, veio a tomar forma, par hasard et par génie, um livro popular e universal. Essa segunda parte teria sido menos carregada de humanismo, de erudição e de momentos de certa frieza literária se o anseio por distinção não tivesse desempenhado um papel tão significativo na sua composição. Em especial, a segunda parte trabalha aquela densidade das personagens principais com mais nitidez e consciência; nisso, sobretudo, ela mostra ser “talhada pelo mesmo artesão e no mesmo pano que a primeira”. Dom Quixote é certamente um louco, por conta e obra da mania cavaleiresca, mas o capricho anacrónico é também a fonte de tanta e tão verdadeira nobreza, pureza, grandeza de alma, de uma compostura tão cativante e digna de respeito em todas as suas maneiras (nas
espirituais como nas físicas), que o riso por conta de sua “triste” e grotesca figura sempre se mistura a certo respeito; e não há quem dê com ele e, mesmo abanando a cabeça, não se sinta atraído por esse nobre risível e magnânimo, maníaco e irrepreensível. É o espírito, na figura de um spleen, que o move e o enobrece, que permite que sua dignidade ética saia incólume de todas as humilhações por que passa. E que Sancho Pança, o comilão, com os seus provérbios, o seu humor natural e seu bom senso campónio (mais afeito ao farnel que à “ideia”, que só rende pancadas), atine para esse espírito, tenha afeto pelo seu mestre tão bondoso quanto absurdo, permaneça a seu lado apesar das tribulações que o serviço lhe traz, não o abandone e, muito pelo contrário, continue a ser o escudeiro fiel, por mais que volta e meia tenha que contar uma mentira, é belíssimo, torna-o adorável, confere à sua figura humanidade e eleva -a da esfera da mera comicidade à esfera do humorístico e do profundo. Sancho é genuinamente popular na medida em que representa a relação do povo espanhol com a nobre loucura que ele é chamado a servir, quer queira,
quer não. Desde ontem ando com isso na cabeça. Eis aí uma nação que toma uma imagem melancólica, travestida e absurda das suas qualidades mais clássicas – a saber, a grandeza, o idealismo, a altivez fora de lugar, o cavalheirismo tão pouco lucrativo –, transforma-a no seu livro de honra, no seu livro modelar, e reconhece -se nela com uma espécie de nostalgia orgulhosa e serena. Não é notável? A grandeza histórica de Espanha é coisa de séculos distantes; por agora, o país luta por se adaptar ao nosso século. Mas o que me interessa é justamente a
diferença entre aquilo que se chama pomposamente de “história” e aquilo que é do âmbito da alma e do homem. A auto- ironia, a liberdade e a desenvoltura artística consigo mesmo talvez não tornem um povo mais apto para a história; mas essas são qualidades cativantes, e afinal de contas o cativante e o repulsivo têm lá seu papel na história. Digam o que disserem os que veem a história com pessimismo, o facto é que a humanidade é dona de uma consciência, ainda que talvez apenas estética, uma consciência derivada do gosto. Ela pode bem curvar-se diante do sucesso, do fait accompli do poder, pouco importa como ele se tenha feito valer. Mas, no fundo, ela não esquece o que se praticou de humanamente feio, violento, injusto e brutal no seu seio; e sem a sua simpatia não há, feitas as contas, nenhum poder ou sucesso que se mantenha. A história é aquela realidade comum para a qual nascemos, para a qual devemos estar aptos e contra a qual fracassa a nobreza desajustada de dom Quixote. Isso é cativante e ridículo. Mas o que seria então um dom Quixote anti-idealista, um dom Quixote sombrio, pessimista e violento, um dom Quixote da brutalidade que continuasse a ser um dom Quixote? Tão longe não foram o humor e a melancolia de Cervantes.


21 de maio de 1934

Divirto-me o dia inteiro com o engenho épico de Cervantes, que faz com que as aventuras ou pelo menos algumas aventuras da segunda parte derivem da fama literária de dom Quixote, da popularidade de que ele e Sancho Pança gozam graças ao “seu” romance, ao grande relato em que tomam corpo – isto é, graças à primeira parte. Não teriam acesso à corte dos duques se estes não tivessem antes lido sobre a formidável dupla e não quisessem agora conhecê-los “na realidade” e acolhê-los como passatempo principesco. Isso é novo e único: não conheço outro herói romanesco da literatura universal que viva, por assim dizer, da fama de sua fama, da sua condição de personagem – pois o mero retorno de figuras conhecidas em ciclos romanescos como o de Balzac é coisa bem diferente. Neste último caso, a realidade das personagens é de certo modo legitimada, fortalecida e aprofundada pela nossa velha familiaridade com eles: já andavam por aí, e agora voltam a aparecer. Mas com isso não se troca de nível, a ordem de ilusão a que pertencem continua a ser a mesma. Em Cervantes há muito mais espelhismo romântico, há muito mais magia irónica em jogo. Na segunda parte, dom Quixote e o seu escudeiro saem da esfera de realidade a que pertenciam, do livro romanesco em que viviam, para vagar em carne e osso como realidades potenciadas, alegremente saudados pelos leitores da sua história, por um mundo que, também ele, representa um grau mais alto de realidade em relação ao mundo impresso – mas que por sua vez também é um mundo criado pela narrativa, uma evocação ilusionista de um passado fictício, de modo que Sancho se pode permitir um gracejo e dizer à duquesa: “… e o seu escudeiro, que também anda pela história e que vai pelo nome de Sancho Pança, sou eu mesmo, se é que não me trocaram no berço, quer dizer, se é que não me trocaram no prelo”. E, a certa altura, Cervantes chega ao ponto de introduzir uma personagem da tão falsa e odiada continuação de Avellaneda para o convencer, à luz da realidade, de que o cavaleiro com o qual ele conviveu no âmbito do relato não tem como ser o verdadeiro e autêntico dom Quixote. São piruetas bem à maneira de E.T.A. Hoffmann, e por aí percebe-se onde os românticos as foram aprender. Talvez não fossem os maiores artistas, mas foram eles que refletiram com mais inteligência sobre as profundezas do engenho, os abismos espelhados da arte e da ilusão – e justamente porque eram artistas tanto na criação como na reflexão, estiveram perigosamente perto da dissolução irónica da forma. É sempre bom ter em mente que esse perigo ronda toda a técnica artística e humorística da evocação da realidade. Não há mais que um passo a separar a graça de certas técnicas de evocação épica e o mero truque engenhoso, o malabarismo sem forma nem fé na forma. É assim que eu mesmo ofereço ao leitor a inesperada ocasião de ver com os próprios olhos José, o filho de Jacó, sentado junto ao poço, à luz da lua, bem como a oportunidade de comparar a sua presença corpórea, atraente mas humanamente imperfeita, com a fama ideal que milénios teceram à volta de sua figura. Quero crer que o humor de um tal artifício evocativo ainda se mantenha no âmbito do que é honradamente artístico.

22 de maio de 1934

Dom Quixote é realmente uma criação singular, ingénua, de magnífica espontaneidade, soberana nas suas contradições. Não tenho como não balançar a cabeça diante das novelas intercaladas, de teor aventureiro e sentimental, bem ao estilo e ao gosto dos mesmos produtos de que o autor queria escarnecer, de tal modo que o público leitor podia reencontrar no livro exatamente aquilo de que se devia afastar – curioso regime de abstinência! Cervantes abandona o seu figurino quando entra pelas histórias pastoris, como se quisesse mostrar que também sabe fazer as coisas que a época pedia, mais ainda, que sabe as fazer como um mestre. Mas não sei ao certo se ele também abandona o seu modelo por ocasião dos discursos humanistas que põe na boca do seu herói, se com isso ele rompe a sua caracterização, leva-o além de seu nível e, em atitude contrária à arte, toma para si mesmo a palavra. São excelentes, por exemplo, o discurso sobre a educação ou aquele outro sobre a poesia que o viajante da capa verde tem a ocasião de ouvir; são repletos de razão, sentido de justiça, humanidade e nobreza formal, a tal ponto que deixam pasmo o sujeito da capa verde, “a tal ponto que foi abandonando a ideia de que fosse ele apenas um louco”. É justo que assim seja, e também o leitor deve abandonar essa opinião. Dom Quixote é louco, decerto, mas não tem nada de tolo, como talvez o próprio autor pensasse de início. Seu respeito pela criatura da sua invenção cómica vai crescendo ao longo da narrativa; esse processo é talvez o que há de mais empolgante em todo o romance; mais: ele constitui por si só um romance e coincide com o respeito crescente diante da própria obra, concebida primeiramente em termos modestos,
como brincadeira pícara e satírica, sem nenhuma antecipação da posição simbólica e humana que a figura do herói estava destinada a ocupar. Essa
mudança de perspectiva permite e aciona uma ampla solidaridade do autor com o seu herói, a tendência de elevá-lo a seu próprio nível, de torná-lo porta-voz das suas próprias ideias e opiniões e de rematar assim, com dignidade espiritual e cultura elevada, a graça cavaleiresca que a loucura confere a dom Quixote, a despeito de todas as suas manifestações lamentáveis. É precisamente ao espírito e à veemência do seu mestre que Sancho Pança muitas vezes dedica uma admiração sem fim, e outras personagens se sentem igualmente atraídos.


23 de maio de 1934

...Vou lendo meu volumezinho cor de laranja e admiro-me perante a crueldade desenfreada de Cervantes. A despeito daquela ampla solidariedade do autor com o herói, sobre a qual escrevi ontem, a despeito da estima que tem por dom Quixote, Cervantes não se cansa de inventar as humilhações mais ridículas e lamentáveis para ele e para os seus sumos desígnios, na forma de fantasias de degradação cómica. É o que acontece no episódio dos queijos que Sancho Pança, criatura de “senso comum”, levava dentro do elmo do mestre e que, num momento patético, começam a derreter sobre a cabeça do cavaleiro; o creme escorre pelos olhos e pela barba de dom Quixote, que julga que seu cérebro se está a derreter ou que ele mesmo esteja a transpirar algum humor maligno – mas não de medo, como ele declara com veemência! Há algo de sardónico, de humor selvagem nessas invenções, por exemplo, no episódio francamente execrável em que o cavaleiro é “enjaulado” e levado numa gaiola de pau – a degradação derradeira. Dom Quixote é espancado a torto e a direito, quase tanto quanto Lucius no Asno de ouro. E, todavia, o autor ama e estima o herói. Essa crueldade solta não terá algo de expiação, de troça e punição infligidas a si mesmo? Chego a pensar que o autor age como quem submete ao riso as próprias crenças nas ideias, nos homens e na perfectibilidade humana – e esse esforço amargo de se pôr em sintonia com a realidade comum talvez seja a
melhor definição de humor. Insuperável é a crítica à tradução que Cervantes põe na boca de dom Quixote: traduzir de uma língua para outra seria como ver um tapete flamengo pelo verso– “Ainda que se vejam as figuras, estão elas cheias de fios que as deformam e não têm o liso e a tez da face … . Mas não quero com isso dizer que não seja digno de louvor esse exercício de traduzir.” A caracterização é certeira. E dom Quixote só abre exceção para dois tradutores espanhóis, Figueroa e Xauregui. Com esses, não há meio de distinguir o que é tradução e o que é original. Devem
ter sido sujeitos formidáveis. Mas, em nome de Cervantes, quero abrir exceção para mais um: Ludwig Tieck, que deu ao Dom Quixote um segundo anverso, desta vez em alemão.


29 de de maio de 1934

Estou de ânimo sonhador, por ter despertado tão cedo, por conta do teor singular deste momento. Também sonhei à noite, em meio ao insólito silêncio sem máquinas, e tento recuperar o sonho nascido de minha leitura de viagem. Sonhei com dom Quixote em pessoa e sonhei que falava com ele. Assim como a realidade com que nos deparamos se distingue da concepção prévia que fazíamos dela, assim também ele tinha aspecto diferente do que se vê nas ilustrações: usava um bigode espesso e farto, tinha a testa alta e recuada, os olhos eram cinzentos, quase cegos, de sobrancelhas igualmente fartas. Não se chamava Cavaleiro dos Leões, mas Zaratustra. Agora que o tinha bem à minha frente, ele mostrava-se tão suave e tão cortês que recordei com emoção indescritível as palavras que tinha lido ontem: “Fosse apenas como dom Alonso Quixano, o Bom, fosse ainda como dom
Quixote de la Mancha, foi ele sempre de índole suave e trato agradável, pelo que era querido não só dos de casa, mas de todos os seus conhecidos.” Fui tomado de pena, amor, compaixão e admiração sem limite, à medida que aquela caracterização se confirmava diante de mim – e, como em sonho, tudo isso continua a vibrar em mim neste momento de chegada. Ideias e sentimentos demasiadamente europeus, voltados para trás! Bem à frente, no meio do nevoeiro matinal, vão-se desprendendo lentamente os altos edifícios de Manhattan, uma fantástica paisagem colonial, uma vertiginosa cidade de gigantes.


Durmo. Regresso ou espero?
Não sei. Um outro flui
Entre o que sou e o que quero
Entre o que sou e o que fui.


Sonho uma vida erudita, entre o convívio mudo dos antigos e dos modernos, renovando as emoções pelas emoções alheias, enchendo-me de pensamentos contraditórios na contradição dos meditadores e dos que quase pensaram que são a maioria dos que escreveram. Mas só a ideia de ler se me desvanece se tomo de cima da mesa um livro qualquer, o facto físico de ter que ler anula-me a leitura... Do mesmo modo se me estiola a ideia de viajar se acaso me aproximo de onde possa haver embarque. E regresso às duas coisas nulas em que estou certo, de nulo também que sou — a minha vida quotidiana de transeunte incógnito, e aos meus sonhos como insónias de acordado. E como as leituras tudo... Desde que qualquer coisa se possa sonhar como interrompendo deveras o decurso mudo dos meus dias, ergo olhos de protesto pesado para a sílfide que me é própria, aquela coitada que seria talvez sereia se tivesse aprendido a cantar.

Adormecer em casablanca e acordar em paris ou o contrário. Não interessa, nunca houve paris nem casablanca... Há um projeto que não quer adiar mais: regressar ao casablanca em madrid, mesmo sabendo que corre o risco de não encontrar nada similar ao que imagina, mas gostava de iniciar lá uma história, a beber gim, tipo intelectual de botequim...

Às vezes, em sonhos distraídos, que me surgem das esquinas do pensamento e da emoção, visiono amores.(...) Ah, que enredos complexos, em conveses de navios, em ilhas distantes, em hotéis universais, em viagens passageiras, me não encantam a distracção como vestidos expostos. Mas, de repente, e com um regresso de pesadelo estatelado, desperto do meu romantismo sexual, e coro a sós comigo de fazer com a mente de dentro a mesma coisa que fazem todos os homens. E tenho, como timbre de fidalguia fraseada, a vantagem ridícula de contra. Sim, às vezes, sonho deste modo. Às vezes sou costureira masculina, e tenho príncipes, que são princesas, e muitas vezes são outra coisa, na imaginação inevitável. E então acordado de todo, rio, quase alto, de me ver assim, como se me visse nu por baixo da nudez, como se me conhecesse esqueleto da alma, e uma alegria ponteaguda valsa nos meus devaneios. Que tristeza!

E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeira da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante inefável, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele transformar-te-ia e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir!



A criança é criativa porque é crescimento e se cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-elaborado, e constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe são estranhas. A criança é sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se não for perturbada pela violência, não aceita nada que não possa verdadeiramente assimilar; todo o objecto em que toca vive, a criança é cosmos, mundo, vê as últimas coisas, o absoluto, ainda que não saiba dar-lhes expressão: mas mata-se a criança ensinando-a a ater-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade.

Pensemos, por exemplo, nos grandes escritores. Podemos orientar a nossa vida por eles, mas não podemos extrair das suas obras o elixir da vida. Eles deram uma forma tão rígida àquilo que os moveu que tudo isso está ali, mesmo nas entrelinhas, como metal laminado. Mas, que disseram eles na verdade? Ninguém sabe. Eles próprios nunca o souberam explicar cabalmente. São como um campo sobre o qual voam as abelhas; e ao mesmo tempo, eles são esse próprio voo. Os seus pensamentos e sentimentos assumem toda a escala da transição entre verdades ou erros que, se necessário, podem ser demonstrados, e seres mutáveis que se aproximam ou afastam de nós quando os queremos observar.
É impossível destacar o pensamento de um livro da página que o encerra. Acena-nos como o rosto de alguém que passa rapidamente por nós, numa fila com outros rostos, e por um instante surge carregado de sentido. Estou outra vez a exagerar um pouco. Mas agora queria perguntar-lhe: que coisa acontece na nossa vida que não seja aquilo que acabo de descrever? Não falo das impressões mais exactas, mensuráveis e definíveis; todos os outros conceitos em que baseamos a nossa vida não passam de metáforas que ficaram cristalizadas. Entre quantas ideias não oscila e paira um conceito tão simples como o da virilidade? E como um sopro que muda de forma a cada respiração, e nada é estável, nenhuma impressão, nenhuma ordem. Se, como eu disse, pomos de lado na literatura aquilo que não nos convém, tudo o que fazemos é reconstituir o estado original da vida.




Nunca voltes ao lugar Onde já foste feliz Por muito que o coração diga Não faças o que ele diz ...Nada do que por lá vires Será como no passado Não queiras reacender Um lume já apagado São as regras da sensatez Vais sair a dizer que desta é de vez Por grande a tentação Que te crie a saudade Não mates a recordação Que lembra a felicidade Nunca voltes ao lugar Onde o arco-íris se pôs Só encontrarás a cinza Que dá na garganta nós São as regras da sensatez Vais sair a dizer que desta é de vez...

( Junho de 2016: viagem sem retorno...)