Talvez nosso verdadeiro destino seja o de sermos eternamente andantes, olhando pesarosamente para trás e ansiosamente para frente, perpetuamente desejando repouso, e nunca capaz de achar descanso.- Zveig
A arte é a objectivação do sentimento.
as águas do mar agitam-se
mas o voo da ave
é sempre sereno
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
voando
subiu, subiu
para lá das nuvens
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
olhando céu
sigo o voo da ave
para chegar a mim
De todos os cantos do Mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
"a água está muito fria
e a gaivota
não consegue adormecer"
Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
espuma branca
fecho os olhos
posso repousar
o mar estava perto,
fremente de espumas.
vida simples
olhar a noite
e ouvir a canção do mar
ondas do mar salgado
se viste o meu amado
ay, deus, se verrá cedo
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
alma e brancura.
tempestade de flocos de espuma
o fotógrafo
é o primeiro a vê-la
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
para sentir esta beleza
tive de andar quilómetros
debaixo do céu
maré baixa
no palácio do dragão -
hoje tudo vai secar
o artista entristece
ao ver a espuma
perder-se no mar...
Tudo era claro,
jovem, alado.
cabelos tão feios
tão longos
ó desgrenhado mar
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
o vento abate-se sobre o mar
toda a noite o ouço
cair na minha alma
gritos das ondas
dentro da noite-
a tristeza
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
aroma intenso -
luz trémula sobre o mar
captada pelo vigilante noturno
assustando as ondas
a lua desta noite
não para de brilhar
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
ao meu ouvido
sobre uma almofada de espuma
chega o som do mar
as ondas do mar dourado
cheiram a saké -
esta noite vai estar lua cheia
O mar estava perto
puríssimo, doirado.
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
este mar agitado
é parecido
com o coração do poeta
durante a noite
a música do mar
lembra uma prece antiga
coberta de espuma
a onda absorta
é uma prece cristã
numa noite de maio
uma onda de neve
cobre as ondas do mar
As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim
Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.
a espuma do mar
evoca
a neve da vida
a espuma agita-se
e as ondas
cantam para mim
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
espuma branca -
o grande sonho
do mar em maio
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.
chega o vento frio
e adormece
numa onda abandonada
suave espuma
sobre ondas sem nome
a certeza de ser mar
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
em pose
a espuma
não olha para o mar
Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quarta-feira, 13 de maio de 2020
terça-feira, 12 de março de 2019
Beleza
A arquitectura deverá ser, entre outras coisas, uma ciência moral. Ciência moral, mas não moralista. Isto é: não uma ciência que tenha como objectivo aumentar a moral do espaço, não: defender a arquitectura como ciência moral é defender a arquitectura como uma ciência que se preocupa com a relação entre distâncias, tamanhos, cores, não apenas numa relação de verdade ou beleza, mas ainda, e, por último, numa relação de justiça.
A arquitectura procura o verdadeiro, o belo e o justo—tese clássica.
Isto é: ao número não basta ser exacto, terá de ser também belo e justo.Quantidades belas e quantidades morais. Atribuir adjectivos fortes
a -qualidades como são as quantidades: eis a dificuldade do arquitecto e de qualquer artista ou escritor.
Farei do sonhar-te o ser forte, e a minha pena quando fale a tua Beleza, terá melodias de forma, curvas de estrofes, esplendores súbitos como os dos versos imortais.
Creêmos, ó Apenas-Minha, tu por existires e eu por te ver existir, uma arte outra do que toda a arte. Do teu corpo de ânfora inútil saiba eu tirar a alma de novos versos e do teu ritmo lento de onda silenciosa saibam os meus dedos trémulos ir buscar as linhas pérfidas de uma prosa virgem de ser ouvida.
O teu sorriso melodioso indo-se seja para mim símbolo e emblema visível do soluço calado do inúmero mundo ao saber-se erro e imperfeição. As tuas mãos de tocadora de harpa me fechem os olhos, as pálpebras quando eu morra de ter dado a construir-te a minha vida. E tu, que não és ninguém, serás para sempre, ó Suprema, a arte querida dos deuses que nunca foram, e a mãe virgem e estéril dos deuses que nunca serão.
As coisas são, para as nossas sensações, belas. Portanto a beleza in‑se, beleza ideal é uma realidade. Se esta beleza ideal for real, pois que não é da mesma ordem das coisas, e é, quero dizer, uma ideia; ou ambas as ideias e coisas existem realmente, ou uma é mais real que a outra, existindo ambas, ou uma é real e outra irreal, uma verdadeira e a outra falsa.
Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo.(...)
Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a tomá-lo irrefragavelmente meu — de alterar, mentindo — o momento belo e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente — e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar com que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.
Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.
Não amava as crianças, mas queria-as bem tratadas, servidas, mantidas com luxo para não destoarem da casa e dela própria que parecia um quadro, como Ritinha dizia por gestos largos e espaventosos. De facto, a beleza de Ema tornara-se tão evidente que causava uma espécie de paralisia. Aquilo que não se critica desenvolve uma obediência capaz de, para encontrar saída, cair noutras reprovações. Ema passou de pasto de maledicência e ainda não tinha feito nada de condenável. Foi nessa altura que lhe inventaram o título de madame Bovary.
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
A arquitectura procura o verdadeiro, o belo e o justo—tese clássica.
Isto é: ao número não basta ser exacto, terá de ser também belo e justo.Quantidades belas e quantidades morais. Atribuir adjectivos fortes
a -qualidades como são as quantidades: eis a dificuldade do arquitecto e de qualquer artista ou escritor.
Farei do sonhar-te o ser forte, e a minha pena quando fale a tua Beleza, terá melodias de forma, curvas de estrofes, esplendores súbitos como os dos versos imortais.
Creêmos, ó Apenas-Minha, tu por existires e eu por te ver existir, uma arte outra do que toda a arte. Do teu corpo de ânfora inútil saiba eu tirar a alma de novos versos e do teu ritmo lento de onda silenciosa saibam os meus dedos trémulos ir buscar as linhas pérfidas de uma prosa virgem de ser ouvida.
O teu sorriso melodioso indo-se seja para mim símbolo e emblema visível do soluço calado do inúmero mundo ao saber-se erro e imperfeição. As tuas mãos de tocadora de harpa me fechem os olhos, as pálpebras quando eu morra de ter dado a construir-te a minha vida. E tu, que não és ninguém, serás para sempre, ó Suprema, a arte querida dos deuses que nunca foram, e a mãe virgem e estéril dos deuses que nunca serão.
As coisas são, para as nossas sensações, belas. Portanto a beleza in‑se, beleza ideal é uma realidade. Se esta beleza ideal for real, pois que não é da mesma ordem das coisas, e é, quero dizer, uma ideia; ou ambas as ideias e coisas existem realmente, ou uma é mais real que a outra, existindo ambas, ou uma é real e outra irreal, uma verdadeira e a outra falsa.
Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo.(...)
Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a tomá-lo irrefragavelmente meu — de alterar, mentindo — o momento belo e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente — e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar com que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.
Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.
Não amava as crianças, mas queria-as bem tratadas, servidas, mantidas com luxo para não destoarem da casa e dela própria que parecia um quadro, como Ritinha dizia por gestos largos e espaventosos. De facto, a beleza de Ema tornara-se tão evidente que causava uma espécie de paralisia. Aquilo que não se critica desenvolve uma obediência capaz de, para encontrar saída, cair noutras reprovações. Ema passou de pasto de maledicência e ainda não tinha feito nada de condenável. Foi nessa altura que lhe inventaram o título de madame Bovary.
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
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sexta-feira, 1 de março de 2019
Máscaras, Carnaval...
28 de fevereiro de 2025 -Há cinco anos que não escrevia nada neste dia. Penso sempre no que esta tarde de sexta de Carnaval já significou para mim. Agora já não existe, sequer Carnaval, há a solidão que é uma ideia negativa... Penso que talvez seja a última vez que por aqui passo...
21 de fevereiro de 2020- Mais uma sexta de carnaval, este ano a coincidir com o dia da língua materna.
Não fui hoje à escola- roubei esta fotografia no face-book - e sinto que nunca mais irei Mais um fim, entre tantos outros.
1 de março de 2019 - Dia de máscaras na escola: visita, por obrigação. Não senti a folia, mas também já não ouvi o silêncio da tua ausência.
9 de fevereiro de 2018 - Mais um dia de carnaval numa escola que já foi a minha. Não senti qualquer apelo para subir a rampa: ninguém me espera.
Carnaval de 2017 - A explicação surgiu com uma evidência invasiva que não me deixou dormir...Foi uma revelação, depois da cegueira em que andara envolvida...Na mancha branca, começam a surgir imagens, progressivamente mais nítidas, mais reveladoras...Depois foram-se delineando letras que formaram sílabas que foram constituindo palavras...Ao princípio era o Verbo: o verbum foi matéria e a verdade surgiu, luminosa, mas terrível...Insistente, surges,difuso, estando sem estar...Mas é, afinal, o teu duplo, aquele que eu esculpi, a partir de ti...
Porque te mostras, perturbando o meu sono? A tua transparência roça-me a pele e convida-me a carícias impossíveis. Ouço-te a voz: o mesmo timbre, os mesmos sons de sempre. Ouço o teu nome: a única parte de ti que nunca se dissolve e continua real, na pureza do seu significante. Abraço o ar em que me surges e, sofregamente, beijo o nada. Como és tão real, sendo tão ilusório? Será que sempre foste como uma aparição e a nossa história ,afinal, um mero enredo de um livro por escrever?
5 de fevereiro de 2016 - Dia de máscaras, mas não fui à escola... Escolho o dia para as últimas palavras... Shana ofmbio, mi vowaqu du blas mei, pl. Mi vowa onnu sckno is du vowa mt mi blas, is du hat samiss m… nvo puth du, shanaofmbio; m no knsci du puth...
13 de fevereiro de 2015- Dia de máscaras na escola. Não vi, não vivi nada da folia... Estive sozinha numa sala gelada, a recordar...Ao fim da tarde, fui à biblioteca e senti a tua ausência.
28 de fevereiro de 2014-Dia de máscaras na escola . Agora, dois anos depois, estou sozinha, na belabiblioteca, um espaço que já foi o meu reino.... Acabou a folia, desapareceram os mascarados...Detesto estados melancólicos, mas tive saudades do passado, do presente e do futuro. Ainda faço concorrência ao teixeira de pascoaes: o saudosismo até combina bem com o meu temperamento irremediavelmente emotivo.
12 de Fevereiro de 2013- Charlot é ...o que simultaneamente está a ser visto de modo diverso por todas as lunetas. Esse – é inimitável e solitário...Tem o gosto de usar muitas máscaras a ver se esconde a sua verdadeira cara, ou antes: a ver se revela as muitas caras da sua cara..
Fevereiro de 2012 - Gosto da palavra encanto, mas os sons de desencanto arrastam-se, prolongam-se e , paradoxalmente, o encanto em desencanto é mais autêntico...Gosto de imaginar um recanto em que um encanto se encontre com o meu desencanto... Imagino esse encontro, sorrio, o meu desencanto desaparece, mas o encanto também...o encanto só existe dentro do meu desencanto.
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.
Enquanto nesta vida É possível, com subterfúgios mil, Esquecer-se (...) não pensar, Fechar-se em imaginações (...) Mas na morte — oh horror que mais eu temo! — O grande Facto iniludível jaz. Este perpétuo, dorido hesitar Do pensamento temo e (...) Não me horroriza tanto, como o ter De resolver na Morte esse problema.
O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma.
O primeiro pensamento do dia foi o reflexo de uma coincidência...que, por segundos, a perturbou, levando-a a imaginar o inimaginável...Olhou para o espelho e não foi a sua imagem que viu refletida... Era uma máscara ...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
(...)Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime...
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Máscaras:fingimento+ engano+ sonho + realidade+ ilusão+ felicidade+ frustração existencial+ incoerência + humilhação = mascarado + eu + poeta + jogador+ pierrot+ mefistófoles ...Eu sou o disfarçado, a máscara insuspeita.
Escuto-me… São cerimoniais em mim… Cortejos… Lantejoulas no meu tédio… Baile de máscaras…Assisto à minha alma com deslumbramento
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.E volto à personalidade como a um términus de linha...
Gosta de máscaras, gosta de fingimento, detesta ser confrontada com a realidade. Recusa a crueldade de uma verdade incómoda. A verdade é sempre impositiva, incómoda , revela demais, não dá possibilidade de escape, não permite ficcionar, não possibilita fingir que não se entende...Gosta de viver no engano, desde que ele a faça feliz. Gosta de jogar Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro...
Ése es mi mal. Soñar. La poesía es la camisa férrea de mil puntas cruentas que llevo sobre el alma. Las espinas sangrientas dejan caer las gotas de mi melancolía....
El mundo es una máscara: el rostro, el traje y la voz todo es fingido. La máscara no es lo que esconde el rostro humano, sino lo que desenmascara... todos quieren aparentar lo que no son, todos se engañan y nadie se conoce...
Há momentos em que se arranca a máscara...Não se suporta continuar a fingir. É , talvez, a nostalgia de um vestígio de realidade...De algo que exista mesmo, como na vida da outra gente.
Pierrot - Às vezes, de noite, certas noites, ponho-me a seguir os homens bem vestidos. Conheço-os até de longe, pelo andar: os que vivem nos meios que sonho, na elegância que me usurparam. Odeio-os! Desprezo-os! E tenho por eles uma curiosidade insaciável, sigo-os fascinado... Sei que não valem mais do que eu. Mas se um deles – qualquer! qualquer um! – me estendesse a mão e sorrisse, me dirigisse a palavra, sentiria faltar-me a voz, tremerem-me as pernas... Não, não consigo desprezá-los.
Mefistófoles – Uf!... És doente, Pierrot. Tenho de te mandar calar.
Pierrot (voltando-se brusco para Mefistófeles) – Tu... deves ser de eles. Odeio-te! desprezo-te! invejo-te! Com certeza já te segui de noite, como um rafeiro vadio...
Mefistófoles – Não exageres a doença, Pierrot. Pode tornar-se desgostante. Aliás já sabes que esses teus homens bem vestidos não passam de cabides.
Pierrot – Com certeza já te segui de noite! Tens bom ar, tens o tipo...
Mefistófoles – (erguendo-se) – De bom grado satisfarei um dos teus caprichos dessas noites. (Curva-se ligeiramente, estende-lhe a mão.)
Pierrot (de braços caídos, hirto) – Cobarde!
Mefistófoles – (olha um instante a própria mão estendida, baixa o braço) – eu devia saber que Mefistófeles não pode dar esmolas.
Pierrot – A não ser para humilhar.
Há mulheres que(...) não têm interior, são puras máscaras, (...) seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas capazes de despertar, da maneira mais intensa, o desejo de um homem: ele procura a sua alma - e continuará para sempre a procurar
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Aquela falsa e triste semelhança Entre quem julgo ser e quem eu sou...Despir a alma postiça como a um traje.Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar.
Nada existia naquele rosto que não fosse a mera superfície da beleza.Parecia que as íris fulguravam como sob o poder de um forte pensamento, mas,vendo bem,apenas espelhavam a claridade vinda do exterior...
Ah quantas máscaras e submáscaras, Usamos nós no rosto de alma, e quando, Por jogo apenas, ela tira a máscara, Sabe que a última tirou enfim? De máscaras não sabe a vera máscara, E lá de dentro fita mascarada. Que consciência seja que se afirme, O aceite uso de afirmar-se a ensona. Como criança que ante o espelho teme, As nossas almas, crianças, distraídas, Julgam ver outras nas caretas vistas E um mundo inteiro na esquecida causa; E, quando um pensamento desmascara, Desmascarar não vai desmascarado.
É Carnaval, e estão as ruas cheias De gente que conserva a sensação, Tenho intenções, pensamento, ideias, Mas não posso ter máscara nem pão. Esta gente é igual, eu sou diverso — Mesmo entre os poetas não me aceitariam. Às vezes nem sequer ponho isto em verso — E o que digo, eles nunca assim diriam. Que pouca gente a muita gente aqui! Estou cansado, com cérebro e cansaço. Vejo isto, e fico, extremamente aqui Sozinho com o tempo e com o espaço. Detrás de máscaras nosso ser espreita, Detrás de bocas um mistério acode Que meus versos anódinos enjeita. Sou maior ou menor? Com mãos e pés E boca falo e mexo-me no mundo. Hoje, que todos são máscaras, és Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Gostar de estar vivo dói. Gostar dói... Estar dói...Viver dói...Ser dói...
Olha, tenho as mãos em febre...Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso Porque se eu te tivesse como te quereria ter (Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico) Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder... Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá... Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto... Minha lantejoula, minha casa de bonecas, Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis! Ó meu regimento que passa com a banda à frente, Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...Ó minha (...)
Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena acção interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena acção externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.
Ódio da introspeção ativa. Explicações da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela razão; hoje estou assim e assado, por qualquer outra razão. Não é verdade, nem por esta razão nem por aquela razão, e por isso também nem assim nem assado. Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão.
Creio que, desde muito pequeno, a minha infelicidade e, ao mesmo tempo, a minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a estilhaçar-me...Em suma, desde pequeno,a minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia da minha relação com o mundo. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.
Nunca gostou de circo...Sempre detestou palhaços e palhaçadas, o circo sempre foi um espectáculo deprimente. Não quer ser um "palhaço sem riso"
Não há outro pecado além da estupidez, disse wilde.
A estupidez insiste sempre, disse camus.
A universidade desenvolve(...) inclusive a estupidez, disse tchekhov.
O homem é um castelo feito feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma., disse teixeira de pascoaes.
Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez.A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem.
No circo cheio de luz Há tanto que ver!...«Senhores!» — Grita o palhaço da entrada,Todo listrado de cores —«Entrai, que não custa nada!» «À saída é que se paga» (E eu sou aquele palhaço Com listras!, e estardalhaço, Chamando público...) Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio!...Ri, palhaço! Ri..., ri de ti para os outros, Ri dos outros para ti, Ri de ti para ti... ri!, Ri dos outros para os outros...,Ri, arre!, ri, irra!, ri! (E eu sou, também, esse ...Que à força de desejar Transformou em realidade O seu desejo. Na verdade..., Sim, na verdade, não vejo Porque me não enganar...
Os artistas de circo são superiores a mim Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo E dão os saltos só por os dar E eu se desse um salto havia de querer saber porque o dava E não os dando entristecia-me Eles não são capazes de dizer como é que os dão Mas saltam como só eles sabem saltar E nunca perguntaram a si-mesmos se realmente saltam Porque eu quando vejo alguma coisa Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam E se as visse também podia supor que elas sucedia...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído
Don’t lie to yourself. The man who lies to himself and listens to his own lie comes to a point that he cannot distinguish the truth within him, or around him, and so loses all respect for himself and for others.
Eu vejo-me como um ser humano sensível e inteligente, mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes.
O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga ao jogo da seriedade para melhor esconder a loucura.
Os deuses vão-se como forasteiros.Como uma feira acaba a tradição. Somos todos palhaços estrangeiros.A nossa vida é palco e confusão
Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!
Sexta de carnaval de 2012 ...Dia de máscaras na escola ...
Neste dia foi possuída por um deslumbramento... Que linda palavra...sente-a dentro de si... De repente o teu nome ficou enorme cresceu em letras gigantes dentro do meu espaço. Sinto prazer de olhar as letras enormes do teu nome. Gosto do teu nome, é bonito. Foi como uma inesperada aparição e ... ficou deslumbrada...
21 de fevereiro de 2020- Mais uma sexta de carnaval, este ano a coincidir com o dia da língua materna.
Não fui hoje à escola- roubei esta fotografia no face-book - e sinto que nunca mais irei Mais um fim, entre tantos outros.
1 de março de 2019 - Dia de máscaras na escola: visita, por obrigação. Não senti a folia, mas também já não ouvi o silêncio da tua ausência.
9 de fevereiro de 2018 - Mais um dia de carnaval numa escola que já foi a minha. Não senti qualquer apelo para subir a rampa: ninguém me espera.
Carnaval de 2017 - A explicação surgiu com uma evidência invasiva que não me deixou dormir...Foi uma revelação, depois da cegueira em que andara envolvida...Na mancha branca, começam a surgir imagens, progressivamente mais nítidas, mais reveladoras...Depois foram-se delineando letras que formaram sílabas que foram constituindo palavras...Ao princípio era o Verbo: o verbum foi matéria e a verdade surgiu, luminosa, mas terrível...Insistente, surges,difuso, estando sem estar...Mas é, afinal, o teu duplo, aquele que eu esculpi, a partir de ti...
Porque te mostras, perturbando o meu sono? A tua transparência roça-me a pele e convida-me a carícias impossíveis. Ouço-te a voz: o mesmo timbre, os mesmos sons de sempre. Ouço o teu nome: a única parte de ti que nunca se dissolve e continua real, na pureza do seu significante. Abraço o ar em que me surges e, sofregamente, beijo o nada. Como és tão real, sendo tão ilusório? Será que sempre foste como uma aparição e a nossa história ,afinal, um mero enredo de um livro por escrever?
5 de fevereiro de 2016 - Dia de máscaras, mas não fui à escola... Escolho o dia para as últimas palavras... Shana ofmbio, mi vowaqu du blas mei, pl. Mi vowa onnu sckno is du vowa mt mi blas, is du hat samiss m… nvo puth du, shanaofmbio; m no knsci du puth...
13 de fevereiro de 2015- Dia de máscaras na escola. Não vi, não vivi nada da folia... Estive sozinha numa sala gelada, a recordar...Ao fim da tarde, fui à biblioteca e senti a tua ausência.
28 de fevereiro de 2014-Dia de máscaras na escola . Agora, dois anos depois, estou sozinha, na belabiblioteca, um espaço que já foi o meu reino.... Acabou a folia, desapareceram os mascarados...Detesto estados melancólicos, mas tive saudades do passado, do presente e do futuro. Ainda faço concorrência ao teixeira de pascoaes: o saudosismo até combina bem com o meu temperamento irremediavelmente emotivo.
12 de Fevereiro de 2013- Charlot é ...o que simultaneamente está a ser visto de modo diverso por todas as lunetas. Esse – é inimitável e solitário...Tem o gosto de usar muitas máscaras a ver se esconde a sua verdadeira cara, ou antes: a ver se revela as muitas caras da sua cara..
Fevereiro de 2012 - Gosto da palavra encanto, mas os sons de desencanto arrastam-se, prolongam-se e , paradoxalmente, o encanto em desencanto é mais autêntico...Gosto de imaginar um recanto em que um encanto se encontre com o meu desencanto... Imagino esse encontro, sorrio, o meu desencanto desaparece, mas o encanto também...o encanto só existe dentro do meu desencanto.
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.
Enquanto nesta vida É possível, com subterfúgios mil, Esquecer-se (...) não pensar, Fechar-se em imaginações (...) Mas na morte — oh horror que mais eu temo! — O grande Facto iniludível jaz. Este perpétuo, dorido hesitar Do pensamento temo e (...) Não me horroriza tanto, como o ter De resolver na Morte esse problema.
O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma.
O primeiro pensamento do dia foi o reflexo de uma coincidência...que, por segundos, a perturbou, levando-a a imaginar o inimaginável...Olhou para o espelho e não foi a sua imagem que viu refletida... Era uma máscara ...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
(...)Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime...
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Máscaras:fingimento+ engano+ sonho + realidade+ ilusão+ felicidade+ frustração existencial+ incoerência + humilhação = mascarado + eu + poeta + jogador+ pierrot+ mefistófoles ...Eu sou o disfarçado, a máscara insuspeita.
Escuto-me… São cerimoniais em mim… Cortejos… Lantejoulas no meu tédio… Baile de máscaras…Assisto à minha alma com deslumbramento
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara.E volto à personalidade como a um términus de linha...
Gosta de máscaras, gosta de fingimento, detesta ser confrontada com a realidade. Recusa a crueldade de uma verdade incómoda. A verdade é sempre impositiva, incómoda , revela demais, não dá possibilidade de escape, não permite ficcionar, não possibilita fingir que não se entende...Gosta de viver no engano, desde que ele a faça feliz. Gosta de jogar Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro...
Ése es mi mal. Soñar. La poesía es la camisa férrea de mil puntas cruentas que llevo sobre el alma. Las espinas sangrientas dejan caer las gotas de mi melancolía....
El mundo es una máscara: el rostro, el traje y la voz todo es fingido. La máscara no es lo que esconde el rostro humano, sino lo que desenmascara... todos quieren aparentar lo que no son, todos se engañan y nadie se conoce...
Há momentos em que se arranca a máscara...Não se suporta continuar a fingir. É , talvez, a nostalgia de um vestígio de realidade...De algo que exista mesmo, como na vida da outra gente.
Pierrot - Às vezes, de noite, certas noites, ponho-me a seguir os homens bem vestidos. Conheço-os até de longe, pelo andar: os que vivem nos meios que sonho, na elegância que me usurparam. Odeio-os! Desprezo-os! E tenho por eles uma curiosidade insaciável, sigo-os fascinado... Sei que não valem mais do que eu. Mas se um deles – qualquer! qualquer um! – me estendesse a mão e sorrisse, me dirigisse a palavra, sentiria faltar-me a voz, tremerem-me as pernas... Não, não consigo desprezá-los.
Mefistófoles – Uf!... És doente, Pierrot. Tenho de te mandar calar.
Pierrot (voltando-se brusco para Mefistófeles) – Tu... deves ser de eles. Odeio-te! desprezo-te! invejo-te! Com certeza já te segui de noite, como um rafeiro vadio...
Mefistófoles – Não exageres a doença, Pierrot. Pode tornar-se desgostante. Aliás já sabes que esses teus homens bem vestidos não passam de cabides.
Pierrot – Com certeza já te segui de noite! Tens bom ar, tens o tipo...
Mefistófoles – (erguendo-se) – De bom grado satisfarei um dos teus caprichos dessas noites. (Curva-se ligeiramente, estende-lhe a mão.)
Pierrot (de braços caídos, hirto) – Cobarde!
Mefistófoles – (olha um instante a própria mão estendida, baixa o braço) – eu devia saber que Mefistófeles não pode dar esmolas.
Pierrot – A não ser para humilhar.
Há mulheres que(...) não têm interior, são puras máscaras, (...) seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas capazes de despertar, da maneira mais intensa, o desejo de um homem: ele procura a sua alma - e continuará para sempre a procurar
A máscara da palavra revela-esconde o rosto vago de um sentido do mundo /Com a máscara da palavra reinventamos o som da voz amada que nos inunda com o seu luar de espuma...
Aquela falsa e triste semelhança Entre quem julgo ser e quem eu sou...Despir a alma postiça como a um traje.Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar.
Nada existia naquele rosto que não fosse a mera superfície da beleza.Parecia que as íris fulguravam como sob o poder de um forte pensamento, mas,vendo bem,apenas espelhavam a claridade vinda do exterior...
Ah quantas máscaras e submáscaras, Usamos nós no rosto de alma, e quando, Por jogo apenas, ela tira a máscara, Sabe que a última tirou enfim? De máscaras não sabe a vera máscara, E lá de dentro fita mascarada. Que consciência seja que se afirme, O aceite uso de afirmar-se a ensona. Como criança que ante o espelho teme, As nossas almas, crianças, distraídas, Julgam ver outras nas caretas vistas E um mundo inteiro na esquecida causa; E, quando um pensamento desmascara, Desmascarar não vai desmascarado.
É Carnaval, e estão as ruas cheias De gente que conserva a sensação, Tenho intenções, pensamento, ideias, Mas não posso ter máscara nem pão. Esta gente é igual, eu sou diverso — Mesmo entre os poetas não me aceitariam. Às vezes nem sequer ponho isto em verso — E o que digo, eles nunca assim diriam. Que pouca gente a muita gente aqui! Estou cansado, com cérebro e cansaço. Vejo isto, e fico, extremamente aqui Sozinho com o tempo e com o espaço. Detrás de máscaras nosso ser espreita, Detrás de bocas um mistério acode Que meus versos anódinos enjeita. Sou maior ou menor? Com mãos e pés E boca falo e mexo-me no mundo. Hoje, que todos são máscaras, és Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Gostar de estar vivo dói. Gostar dói... Estar dói...Viver dói...Ser dói...
Olha, tenho as mãos em febre...Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso Porque se eu te tivesse como te quereria ter (Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico) Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder... Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá... Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto... Minha lantejoula, minha casa de bonecas, Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis! Ó meu regimento que passa com a banda à frente, Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...Ó minha (...)
Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena acção interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena acção externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.
Ódio da introspeção ativa. Explicações da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela razão; hoje estou assim e assado, por qualquer outra razão. Não é verdade, nem por esta razão nem por aquela razão, e por isso também nem assim nem assado. Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão.
Creio que, desde muito pequeno, a minha infelicidade e, ao mesmo tempo, a minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a estilhaçar-me...Em suma, desde pequeno,a minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia da minha relação com o mundo. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.
Nunca gostou de circo...Sempre detestou palhaços e palhaçadas, o circo sempre foi um espectáculo deprimente. Não quer ser um "palhaço sem riso"
Não há outro pecado além da estupidez, disse wilde.
A estupidez insiste sempre, disse camus.
A universidade desenvolve(...) inclusive a estupidez, disse tchekhov.
O homem é um castelo feito feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá a existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá a vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma., disse teixeira de pascoaes.
Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez.A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem que razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem.
No circo cheio de luz Há tanto que ver!...«Senhores!» — Grita o palhaço da entrada,Todo listrado de cores —«Entrai, que não custa nada!» «À saída é que se paga» (E eu sou aquele palhaço Com listras!, e estardalhaço, Chamando público...) Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio!...Ri, palhaço! Ri..., ri de ti para os outros, Ri dos outros para ti, Ri de ti para ti... ri!, Ri dos outros para os outros...,Ri, arre!, ri, irra!, ri! (E eu sou, também, esse ...Que à força de desejar Transformou em realidade O seu desejo. Na verdade..., Sim, na verdade, não vejo Porque me não enganar...
Os artistas de circo são superiores a mim Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo E dão os saltos só por os dar E eu se desse um salto havia de querer saber porque o dava E não os dando entristecia-me Eles não são capazes de dizer como é que os dão Mas saltam como só eles sabem saltar E nunca perguntaram a si-mesmos se realmente saltam Porque eu quando vejo alguma coisa Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam E se as visse também podia supor que elas sucedia...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído
Don’t lie to yourself. The man who lies to himself and listens to his own lie comes to a point that he cannot distinguish the truth within him, or around him, and so loses all respect for himself and for others.
Eu vejo-me como um ser humano sensível e inteligente, mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes.
O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga ao jogo da seriedade para melhor esconder a loucura.
Os deuses vão-se como forasteiros.Como uma feira acaba a tradição. Somos todos palhaços estrangeiros.A nossa vida é palco e confusão
Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!
Sexta de carnaval de 2012 ...Dia de máscaras na escola ...
Neste dia foi possuída por um deslumbramento... Que linda palavra...sente-a dentro de si... De repente o teu nome ficou enorme cresceu em letras gigantes dentro do meu espaço. Sinto prazer de olhar as letras enormes do teu nome. Gosto do teu nome, é bonito. Foi como uma inesperada aparição e ... ficou deslumbrada...
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Retratos...Fotografias...
A máquina apoderou-se, portanto, da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia.
A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia.
Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira.
O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros.
Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.
A conservação da identidade interior, apesar da mutação exterior, inerente ao conceito de metamorfose em ovídio e em kafka, é um reflexo da teoria da metempsicose, defendida por Pitágoras.
Já conheço os passos dessa estrada Sei que não vai dar em nada...
Gramsci deixou escrito o retrato fiel daquilo que eu sou: «Pessimista pela razão, optimista pela vontade». Isso diz tudo.José Saramago
Retrato Ardente: Entre os teus lábios é que a loucura acode desce à garganta, invade a água
Retrato de Sophia
Senhora dona águia água égua
inglesa num jardim de potros gregos
mordiscando beleza rega cega
do regador de inês em seus sossegos.
De muitos anos colhes o magro fruito
que depressa transformas em compota
receita tão bem feita que de há muito
nos açucara o travo da chacota.
Porém quando por vezes és de pedra
não mármore mas árvore mas dura
do fundo do teu mar levanta-se a cratera
da nossa lusitana sepultura
RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Retrato de Mulher Triste
Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...Gostava de passear sozinho pelas alamedas e pelos grandes corredores e de comandar as árvores e desafiar os retratos das paredes... No grande corredor sombrio que há ao fundo do palácio passeei com a minha noiva muitas vezes... Eu nunca tive noiva real... Nunca soube como se amava... Apenas soube como se sonhava amar... Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos é que às vezes queria julgar que as minhas mãos eram de princesa e que eu era, pelo menos no gesto das minhas mãos, aquela que eu amava...
Um dia foram-me encontrar vestido de rainha... Eu estava sonhando que eu era a minha esposa régia... Gostava de ver a minha face reflectida porque podia sonhar que era a face de outra criatura — porque era de formas femininas, que era de minha amada que era a minha face reflectida... Quantas vezes a minha boca, tocou na minha boca nesse espelho!... Quantas vezes apertei uma das mãos com a outra, quantas adorei meus cabelos com a minha mão alheada para que parecesse dela ao tocar-me. Não sou eu que te estou dizendo isto... É o resto de mim que está falando.
Bem sei que é fácil formar uma teoria da fluidez das coisas e das almas, compreender que somos um decurso interior de vida, imaginar, que o que somos é uma quantidade grande, que passamos por nós, que fomos muitos... Mas aqui há outra coisa que não o mero decurso da personalidade entre as próprias margens: há o outro absoluto, um ser alheio que foi meu. Que perdesse, com o acréscimo da idade, a imaginação, a emoção, um tipo de inteligência, um modo de sentimento tudo isso, fazendo-me pena, me não faria pasmo. Mas a que assisto quando me leio como a um estranho? A que beira estou se me vejo no fundo?
Outras vezes encontro trechos que me não lembro de ter escrito — o que é pouco para pasmar —, mas que nem me lembro de poder ter escrito — o que me apavora. Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas — mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu.
Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista de mais para a pensar em fazer; pensar em faze-la seria pensar em dar de mim a idea de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
Muitos crêem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixa-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos, (…)
[Retrato de Frederick Wyatt]
Of dreamers no one was a greater dreamer than he. He was eternally incompetent to take stock of reality. His attitude before things was always a false and uneasy one, always oscillating from one extreme point of view or manner of action to the other extreme. This concerned just as much and as deeply his fundamental views - if we can speak of the fundamental views of one who had none - as his most trifling actions. It is as possible to consider him an idealist (I use the word in its metaphysical sense) as a materialist: he would be the first to wonder which he was. His political opinions were in a perpetual fluctuation between an excessive anarchism and the arrogance of a through aristocrat. In his life - his unreal life as he would have called it sometimes - he was sure to be either of a childish and morbid shyness or of an impetuous and clumsy boldness. The worst was that he was not even consistent in the line of action he chose: sometimes he would shrink into a sudden and incongruous shyness in the midest of a recklessly insane act, at others he would suddenly break out from shyness in the strangest and insanest manner.
My great and sincere friendship for him cannot hinder me from being still rather amused on recalling the way several Portuguese poor people - the washerwoman, for instance - used, with a curious and evidently spontaneous community of expression, to refer to him when speaking to me: O seu amigo, coitadinho! (Your friend, poor gentleman!). They would very possibly have been perplexed to explain what the coitadinho (so untranslatably Portuguese!) meant there. But they all felt, in their characteristic warm-heartedness, that there was some inexplicable thing to be pitied about him. Now that I remember this, I cannot omit a still cuter expression that a neighbouring barber once used and which was reported to him and to me and stung him greatly: It is a pity he is not mad; it would have been better like that. It is perhaps the best casual wordportrait of him, as I easily perceived, because it hit his character off so justly and yet showed how terrible evident even to a […] casual and (...) observers was suffering he thought he hid in himself from all eyes.
Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.
O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!(...)
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Se por um lado me causava prazer contemplar a bela cabeça do marido, com as suas feições de alemão antigo, os meus olhos gostavam gualmente de fitar a aparência dela,tão perfeitamente agradável, tão peculiarmente decidida, tão claramente proporcionada.(...) Tudo isto era agradávelde contemplar, mas o que havia nessa mulher de mais lindo era a voz,um meio-soprano de timbre cálido,e,quanto à dicção, a denotar um ligeiro acento turíngio, que ra extremamente simpático. Não digo " insinuante" , porque esse adjetivo implicaria algo de propositado ou de consciente. O encanto dessa voz tinha origem numa musicalidade intrínseca, que de resto permanecia latente, já que Elsbeth não se interessava pela música e, por assim dizer, não acreditava nela.(...)
Em todo o caso, nunca ouvi ninguém falar de modo mais encantador, embora aquilo que ela dizia fosse sempre sumamente singelo e prosaico; e, segundo a minha opinião, é significativo que esse som melodioso, puramente natural, determinado por um bom gosto instintivo, tenha alcançado maternalmente os ouvidos de Adrian desde a primeira hora da sua existência.
Kretzschmar, nessa altura ainda jovem, tinha, quando muito , entre vinte e cinco e trinta anos. (...) De aparência nada conspícua,atarracado,crânio redondo, bigode aparado e olhos castanhos, que gostavam de rir e cuja expressão oscilava entre o pensativo e o coruscante, Kretzschmar podiater sido uma verdadeira bênção intelectual e cultural de Kaisersaschern, se tal vida houvesse existido.
Beissel nunca recebera laivos de instrução.Mas o próprio iluminado aprendera,como autodidacta,a ler e a escrever, e como o seu espírito transbordava de místicos sentimentos e ideias, ocorria que desempenhava a sua função de chefia sobretudo como poeta e escritor, destinado a alimentar as almas dos seus fiéis.
Mais tarde, Adrian encontrou um companheiro muito mais a essas suas expansões, na pessoa do anglicista e escritor Rudiger Schild-Knapp, com o qual travou conhecimento em Leipzig; motivo por que sempre experimentei uma espécie de ciúmes em relação a esse homem.
Cumpre, porém, que eu evoque em poucas palavras ainda outro vulto de entre os nossos professores, que, por motivo da sua perturbadora ambiguidade, se me gravou mais profundamente na memória do que todos os demais. Trata-se do assistente Eberhard Schleppfuss,que, nessa época , leccionava dois semestres...
Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista.
Os jovens de hoje pensam que o dinheiro é tudo.
– É verdade – concordou lorde Henry, ajeitando a lapela do casaco. – E, quando envelhecem, passsam a ter a certeza.
Os que amam só uma vez na vida é que são superficiais. O que eles consideram lealdade e fidelidade é, a meu ver, letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade está para a vida emotiva como a coerência está para a vida intelectual: uma mera confissão de insucessos. (...) O apaixonado começa por se iludir a si próprio e acaba a enganar os outros. Eis aquilo a que o mundo chama um romance.
Os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. O simpleS facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem absolutamente irresistível.
Foi muita bondade de Fleming perguntar. Ele quis chorar. Apoiou os cotovelos na mesa e fechou e abriu a concha das orelhas. Ouvia o barulho do refeitório toda vez que abria as conchas das orelhas. Era um rugido como o de um combóio noturno. E quando fechava as conchas o rugido era abafado como um combóio ao entrar no túnel. Naquela noite em Dalkey o combóio tinha rugido da mesma forma e então, quando entrou no túnel, o rugido cessou. Stephen fechou os olhos e o combóio continuou a avançar , rugindo e depois parou; rugindo outra vez, parou. Era bom ouvi-lo rugir e parar e depois rugir outra vez na saída do túnel e depois parar.
Vou dizer -te o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e subtileza.
Fechou os olhos, abandonando-se a ela, de corpo e alma, sem consciência de outra coisa que não fosse a pressão tenebrosa dos seus lábios que se entreabriam suavemente. A sua pressão exercia-se tanto sobre o seu cérebro como sobre os seus lábios, como se fossem o veículo de um vago discurso; e, entre eles, sentiu uma pressão desconhecida e tímida, mais tenebrosa que o enlanguescimento do pecado, mais suave do que um som ou um perfume.
Nunca dylan thomas, que tanto amou as palavras, imaginou que iria dar o nome e inspirar um nobel da literatura ... é " chato" que tantos saibam aquilo que o próprio não tem direito de saber....
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart
...O meu processo criativo consiste numa ininterrupta construção e destruição de imagens que saem do núcleo central que é, ao mesmo tempo, destruidor e construtivo...(...) Para mim, o "impulso" poético ou a "inspiração" é apenas a súbita, e geralmente física, chegada da energia para a perícia e o senso estrutural do artesão.(...) Poesia é aquilo que me faz rir, chorar ou uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada. (...) Tudo o que importa é o eterno movimento que há por trás da poesia, a vasta corrente subterrânea da dor, da loucura, da pretensão, da exaltação ou da ignorância humanas, por mais sublime que seja a intenção do poeta.
Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade - que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a - é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo? Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam? Eu mesmo, que anseio alto pelo sol puro e os campos livres, pelo mar visível e o horizonte inteiro, quem me diz que não estranharia a cama, ou a comida, ou não ter que descer os oito lanços de escada até à rua, ou não entrar na tabacaria da esquina, ou não trocar os bons-dias com o barbeiro ocioso?
Tenho, felizmente, o último retrato, que é o espiritualmente verdadeiro, do Autor. É um retrato pequeno, tipo bilhete de identidade, mas susceptível de ser ampliado e reproduzido depois de acordo com essa ampliação. O retrato, de que falo, e de que digo que é o espiritualmente verdadeiro, não dá o Sá-Carneiro como usualmente era, mas um Sá-Carneiro torturado (o próprio olhar o diz), um Sá-Carneiro emagrecido e final, que tem mais verdade que os retratos mais vulgares que ele tinha tirado nas fotografias do grande costume. E é isso mesmo que dá a essa fotografia casual o valor que casual muitas vezes usurpa ao autêntico – a fixação, por uma imposição súbita do Destino, do aspecto em que qualquer alma se revela...
(O conceito de "retrato espiritualmente verdadeiro" é, talvez, a resposta para o facto de alguém , ao olhar uma fotografia sua, se conseguir reconhecer,sem uma estranha sensação de que aquele objeto não tem nada de si ...Apetece-lhe reorganizar as fotografias afetivamente importantes e fazer um álbum dos "retratos espiritualmente verdadeiros": mais um arquivo, mais uma arrumação... Decididamente, ser catalogadora é a sua essência... )
" Outros retratos..."
Pois é, pois é...
A realidade verdadeira dum objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço. Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, ver a vida imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máquina do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm acção, dando negro na chapa espiritual. Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enquistou, faz-me ver sempre da realidade a parte que é sonho. A minha visão das coisas suprime sempre nelas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou para um poente no Exterior é para mim a mesma coisa, porque vejo da mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.
E o que é que eu posso contra o encanto, Desse amor que eu nego tanto Evito tanto e que, no entanto, Volta sempre a enfeitiçar Com seus mesmos tristes, velhos fatos, Que num álbum de retratos Eu teimo em colecionar...
Tive um sonho como uma fotografia... No fundo a Fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa.
No fundo - ou no limite - para ver bem uma foto mais vale erguer a cabeça ou fechar os olhos. "A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouche a Kafka e Kafka sorria e respondia: "Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. As minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos". A Fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida num estado, num esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio). A fotografia toca -me se a retiro do seu blábláblá costumeiro: "Tecnica", "Realidade", "Reportagem", "Arte": nada a dizer, fechar os olhos, deixar o detalhe remontar sozinho à consciência afetiva.
A fotografia é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que me vêm atingir, a mim, que estou aqui; pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem-me tocar como os raios retardados de uma estrela. Uma espécie de vínculo umbilical liga ao meu olhar o corpo da coisa fotografada: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.
Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência. Um álbum de fotografias é um álbum de ausências. Muitas vezes, de ausências que nunca foram presenças...
O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório (…) encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. (…) A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que atirou para o lixo.
The photobooth's a liar...
Assim vai ser melhor...
A fotografia trocada...
Sofrer a verdade de me ver nas fotografias é uma das minhas causas de desassossego que talvez só bernardo soares entenda... Quis o destino poupá-lo a estes tempos em que não se dá um passo sem que o mais elementar direito à imagem seja violado... Nunca gostei de fotografias, nem mesmo quando era bonita ... a fotografia rouba a alma, anula o ser. Aquela mancha que surge no papel é um estranho, alguém irreconhecível... Uma vez, numa queima das fitas em coimbra, na época em que o evento era fotografado por profissionais que publicitavam as provas, numa espécie de catálogo numerado, aconteceu-me encomendar uma fotografia de outra rapariga... Só quando, mais tarde, verifiquei que não conhecia nenhuma das pessoas que a rodeavam me apercebi do engano..."como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei" Esta afirmação faz-nme sorrir. É exatamente isto que acontece: ao observarmos uma qualquer fotografia de um grupo mais ou menos numeroso, os olhos avidamente se dirigem para o rosto que julgamos ser o nosso. Podem estar cem pessoas que só vimos uma... É este olhar seletivo que justifica que eu não me tenha apercebido de que estava rodeada de estranhos: vi quem julgava ser e não reparei em mais ninguém...
Se a vida fosse um álbum de fotografias, tudo seria mais fácil...Surgiu-me,subitamente,mais um título para um romance que nunca escreverei álbum de fotografias, recortes fotográficos ou vida em recortes... Lá estou eu a fazer concorrência à margarida rebelo pinto...No entanto, o título pode desmerecer o que seria a obra. Tivesse eu engenho e arte...
A conservação da identidade interior, apesar da mutação exterior, inerente ao conceito de metamorfose em ovídio e em kafka, é um reflexo da teoria da metempsicose, defendida por Pitágoras.
Já conheço os passos dessa estrada Sei que não vai dar em nada...
Gramsci deixou escrito o retrato fiel daquilo que eu sou: «Pessimista pela razão, optimista pela vontade». Isso diz tudo.José Saramago
Retrato Ardente: Entre os teus lábios é que a loucura acode desce à garganta, invade a água
Retrato de Sophia
Senhora dona águia água égua
inglesa num jardim de potros gregos
mordiscando beleza rega cega
do regador de inês em seus sossegos.
De muitos anos colhes o magro fruito
que depressa transformas em compota
receita tão bem feita que de há muito
nos açucara o travo da chacota.
Porém quando por vezes és de pedra
não mármore mas árvore mas dura
do fundo do teu mar levanta-se a cratera
da nossa lusitana sepultura
RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Retrato de Mulher Triste
Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...Gostava de passear sozinho pelas alamedas e pelos grandes corredores e de comandar as árvores e desafiar os retratos das paredes... No grande corredor sombrio que há ao fundo do palácio passeei com a minha noiva muitas vezes... Eu nunca tive noiva real... Nunca soube como se amava... Apenas soube como se sonhava amar... Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos é que às vezes queria julgar que as minhas mãos eram de princesa e que eu era, pelo menos no gesto das minhas mãos, aquela que eu amava...
Um dia foram-me encontrar vestido de rainha... Eu estava sonhando que eu era a minha esposa régia... Gostava de ver a minha face reflectida porque podia sonhar que era a face de outra criatura — porque era de formas femininas, que era de minha amada que era a minha face reflectida... Quantas vezes a minha boca, tocou na minha boca nesse espelho!... Quantas vezes apertei uma das mãos com a outra, quantas adorei meus cabelos com a minha mão alheada para que parecesse dela ao tocar-me. Não sou eu que te estou dizendo isto... É o resto de mim que está falando.
Bem sei que é fácil formar uma teoria da fluidez das coisas e das almas, compreender que somos um decurso interior de vida, imaginar, que o que somos é uma quantidade grande, que passamos por nós, que fomos muitos... Mas aqui há outra coisa que não o mero decurso da personalidade entre as próprias margens: há o outro absoluto, um ser alheio que foi meu. Que perdesse, com o acréscimo da idade, a imaginação, a emoção, um tipo de inteligência, um modo de sentimento tudo isso, fazendo-me pena, me não faria pasmo. Mas a que assisto quando me leio como a um estranho? A que beira estou se me vejo no fundo?
Outras vezes encontro trechos que me não lembro de ter escrito — o que é pouco para pasmar —, mas que nem me lembro de poder ter escrito — o que me apavora. Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas — mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu.
Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista de mais para a pensar em fazer; pensar em faze-la seria pensar em dar de mim a idea de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
Muitos crêem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixa-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos, (…)
[Retrato de Frederick Wyatt]
Of dreamers no one was a greater dreamer than he. He was eternally incompetent to take stock of reality. His attitude before things was always a false and uneasy one, always oscillating from one extreme point of view or manner of action to the other extreme. This concerned just as much and as deeply his fundamental views - if we can speak of the fundamental views of one who had none - as his most trifling actions. It is as possible to consider him an idealist (I use the word in its metaphysical sense) as a materialist: he would be the first to wonder which he was. His political opinions were in a perpetual fluctuation between an excessive anarchism and the arrogance of a through aristocrat. In his life - his unreal life as he would have called it sometimes - he was sure to be either of a childish and morbid shyness or of an impetuous and clumsy boldness. The worst was that he was not even consistent in the line of action he chose: sometimes he would shrink into a sudden and incongruous shyness in the midest of a recklessly insane act, at others he would suddenly break out from shyness in the strangest and insanest manner.
My great and sincere friendship for him cannot hinder me from being still rather amused on recalling the way several Portuguese poor people - the washerwoman, for instance - used, with a curious and evidently spontaneous community of expression, to refer to him when speaking to me: O seu amigo, coitadinho! (Your friend, poor gentleman!). They would very possibly have been perplexed to explain what the coitadinho (so untranslatably Portuguese!) meant there. But they all felt, in their characteristic warm-heartedness, that there was some inexplicable thing to be pitied about him. Now that I remember this, I cannot omit a still cuter expression that a neighbouring barber once used and which was reported to him and to me and stung him greatly: It is a pity he is not mad; it would have been better like that. It is perhaps the best casual wordportrait of him, as I easily perceived, because it hit his character off so justly and yet showed how terrible evident even to a […] casual and (...) observers was suffering he thought he hid in himself from all eyes.
Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.
O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!(...)
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Se por um lado me causava prazer contemplar a bela cabeça do marido, com as suas feições de alemão antigo, os meus olhos gostavam gualmente de fitar a aparência dela,tão perfeitamente agradável, tão peculiarmente decidida, tão claramente proporcionada.(...) Tudo isto era agradávelde contemplar, mas o que havia nessa mulher de mais lindo era a voz,um meio-soprano de timbre cálido,e,quanto à dicção, a denotar um ligeiro acento turíngio, que ra extremamente simpático. Não digo " insinuante" , porque esse adjetivo implicaria algo de propositado ou de consciente. O encanto dessa voz tinha origem numa musicalidade intrínseca, que de resto permanecia latente, já que Elsbeth não se interessava pela música e, por assim dizer, não acreditava nela.(...)
Em todo o caso, nunca ouvi ninguém falar de modo mais encantador, embora aquilo que ela dizia fosse sempre sumamente singelo e prosaico; e, segundo a minha opinião, é significativo que esse som melodioso, puramente natural, determinado por um bom gosto instintivo, tenha alcançado maternalmente os ouvidos de Adrian desde a primeira hora da sua existência.
Kretzschmar, nessa altura ainda jovem, tinha, quando muito , entre vinte e cinco e trinta anos. (...) De aparência nada conspícua,atarracado,crânio redondo, bigode aparado e olhos castanhos, que gostavam de rir e cuja expressão oscilava entre o pensativo e o coruscante, Kretzschmar podiater sido uma verdadeira bênção intelectual e cultural de Kaisersaschern, se tal vida houvesse existido.
Beissel nunca recebera laivos de instrução.Mas o próprio iluminado aprendera,como autodidacta,a ler e a escrever, e como o seu espírito transbordava de místicos sentimentos e ideias, ocorria que desempenhava a sua função de chefia sobretudo como poeta e escritor, destinado a alimentar as almas dos seus fiéis.
Mais tarde, Adrian encontrou um companheiro muito mais a essas suas expansões, na pessoa do anglicista e escritor Rudiger Schild-Knapp, com o qual travou conhecimento em Leipzig; motivo por que sempre experimentei uma espécie de ciúmes em relação a esse homem.
Cumpre, porém, que eu evoque em poucas palavras ainda outro vulto de entre os nossos professores, que, por motivo da sua perturbadora ambiguidade, se me gravou mais profundamente na memória do que todos os demais. Trata-se do assistente Eberhard Schleppfuss,que, nessa época , leccionava dois semestres...
Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista.
Os jovens de hoje pensam que o dinheiro é tudo.
– É verdade – concordou lorde Henry, ajeitando a lapela do casaco. – E, quando envelhecem, passsam a ter a certeza.
Os que amam só uma vez na vida é que são superficiais. O que eles consideram lealdade e fidelidade é, a meu ver, letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade está para a vida emotiva como a coerência está para a vida intelectual: uma mera confissão de insucessos. (...) O apaixonado começa por se iludir a si próprio e acaba a enganar os outros. Eis aquilo a que o mundo chama um romance.
Os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. O simpleS facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem absolutamente irresistível.
Foi muita bondade de Fleming perguntar. Ele quis chorar. Apoiou os cotovelos na mesa e fechou e abriu a concha das orelhas. Ouvia o barulho do refeitório toda vez que abria as conchas das orelhas. Era um rugido como o de um combóio noturno. E quando fechava as conchas o rugido era abafado como um combóio ao entrar no túnel. Naquela noite em Dalkey o combóio tinha rugido da mesma forma e então, quando entrou no túnel, o rugido cessou. Stephen fechou os olhos e o combóio continuou a avançar , rugindo e depois parou; rugindo outra vez, parou. Era bom ouvi-lo rugir e parar e depois rugir outra vez na saída do túnel e depois parar.
Vou dizer -te o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e subtileza.
Fechou os olhos, abandonando-se a ela, de corpo e alma, sem consciência de outra coisa que não fosse a pressão tenebrosa dos seus lábios que se entreabriam suavemente. A sua pressão exercia-se tanto sobre o seu cérebro como sobre os seus lábios, como se fossem o veículo de um vago discurso; e, entre eles, sentiu uma pressão desconhecida e tímida, mais tenebrosa que o enlanguescimento do pecado, mais suave do que um som ou um perfume.
Nunca dylan thomas, que tanto amou as palavras, imaginou que iria dar o nome e inspirar um nobel da literatura ... é " chato" que tantos saibam aquilo que o próprio não tem direito de saber....
In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart
...O meu processo criativo consiste numa ininterrupta construção e destruição de imagens que saem do núcleo central que é, ao mesmo tempo, destruidor e construtivo...(...) Para mim, o "impulso" poético ou a "inspiração" é apenas a súbita, e geralmente física, chegada da energia para a perícia e o senso estrutural do artesão.(...) Poesia é aquilo que me faz rir, chorar ou uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada. (...) Tudo o que importa é o eterno movimento que há por trás da poesia, a vasta corrente subterrânea da dor, da loucura, da pretensão, da exaltação ou da ignorância humanas, por mais sublime que seja a intenção do poeta.
Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade - que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a - é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo? Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam? Eu mesmo, que anseio alto pelo sol puro e os campos livres, pelo mar visível e o horizonte inteiro, quem me diz que não estranharia a cama, ou a comida, ou não ter que descer os oito lanços de escada até à rua, ou não entrar na tabacaria da esquina, ou não trocar os bons-dias com o barbeiro ocioso?
Tenho, felizmente, o último retrato, que é o espiritualmente verdadeiro, do Autor. É um retrato pequeno, tipo bilhete de identidade, mas susceptível de ser ampliado e reproduzido depois de acordo com essa ampliação. O retrato, de que falo, e de que digo que é o espiritualmente verdadeiro, não dá o Sá-Carneiro como usualmente era, mas um Sá-Carneiro torturado (o próprio olhar o diz), um Sá-Carneiro emagrecido e final, que tem mais verdade que os retratos mais vulgares que ele tinha tirado nas fotografias do grande costume. E é isso mesmo que dá a essa fotografia casual o valor que casual muitas vezes usurpa ao autêntico – a fixação, por uma imposição súbita do Destino, do aspecto em que qualquer alma se revela...
(O conceito de "retrato espiritualmente verdadeiro" é, talvez, a resposta para o facto de alguém , ao olhar uma fotografia sua, se conseguir reconhecer,sem uma estranha sensação de que aquele objeto não tem nada de si ...Apetece-lhe reorganizar as fotografias afetivamente importantes e fazer um álbum dos "retratos espiritualmente verdadeiros": mais um arquivo, mais uma arrumação... Decididamente, ser catalogadora é a sua essência... )
" Outros retratos..."
Pois é, pois é...
A realidade verdadeira dum objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço. Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, ver a vida imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máquina do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm acção, dando negro na chapa espiritual. Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enquistou, faz-me ver sempre da realidade a parte que é sonho. A minha visão das coisas suprime sempre nelas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou para um poente no Exterior é para mim a mesma coisa, porque vejo da mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.
E o que é que eu posso contra o encanto, Desse amor que eu nego tanto Evito tanto e que, no entanto, Volta sempre a enfeitiçar Com seus mesmos tristes, velhos fatos, Que num álbum de retratos Eu teimo em colecionar...
Tive um sonho como uma fotografia... No fundo a Fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa.
No fundo - ou no limite - para ver bem uma foto mais vale erguer a cabeça ou fechar os olhos. "A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouche a Kafka e Kafka sorria e respondia: "Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. As minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos". A Fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida num estado, num esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio). A fotografia toca -me se a retiro do seu blábláblá costumeiro: "Tecnica", "Realidade", "Reportagem", "Arte": nada a dizer, fechar os olhos, deixar o detalhe remontar sozinho à consciência afetiva.
A fotografia é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que me vêm atingir, a mim, que estou aqui; pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem-me tocar como os raios retardados de uma estrela. Uma espécie de vínculo umbilical liga ao meu olhar o corpo da coisa fotografada: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.
Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência. Um álbum de fotografias é um álbum de ausências. Muitas vezes, de ausências que nunca foram presenças...
O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório (…) encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. (…) A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que atirou para o lixo.
The photobooth's a liar...
Assim vai ser melhor...
A fotografia trocada...
Sofrer a verdade de me ver nas fotografias é uma das minhas causas de desassossego que talvez só bernardo soares entenda... Quis o destino poupá-lo a estes tempos em que não se dá um passo sem que o mais elementar direito à imagem seja violado... Nunca gostei de fotografias, nem mesmo quando era bonita ... a fotografia rouba a alma, anula o ser. Aquela mancha que surge no papel é um estranho, alguém irreconhecível... Uma vez, numa queima das fitas em coimbra, na época em que o evento era fotografado por profissionais que publicitavam as provas, numa espécie de catálogo numerado, aconteceu-me encomendar uma fotografia de outra rapariga... Só quando, mais tarde, verifiquei que não conhecia nenhuma das pessoas que a rodeavam me apercebi do engano..."como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei" Esta afirmação faz-nme sorrir. É exatamente isto que acontece: ao observarmos uma qualquer fotografia de um grupo mais ou menos numeroso, os olhos avidamente se dirigem para o rosto que julgamos ser o nosso. Podem estar cem pessoas que só vimos uma... É este olhar seletivo que justifica que eu não me tenha apercebido de que estava rodeada de estranhos: vi quem julgava ser e não reparei em mais ninguém...
Se a vida fosse um álbum de fotografias, tudo seria mais fácil...Surgiu-me,subitamente,mais um título para um romance que nunca escreverei álbum de fotografias, recortes fotográficos ou vida em recortes... Lá estou eu a fazer concorrência à margarida rebelo pinto...No entanto, o título pode desmerecer o que seria a obra. Tivesse eu engenho e arte...
domingo, 2 de dezembro de 2018
Conexões
Dezembro de 2018
« Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa »
Um rosto e uma mão conduzem-me o olhar para uma qualquer transcendência, para uma imaterialidade que, na sua inexistência, parece revelar-se, embora envolta numa escuridão silenciosa.
No rosto não jovem, surpreendo o pasmo de uma criança, perante a contemplação de um invisível que acredita existir…
(Revejo-me, subitamente, num passado remoto, em êxtase, perante a estrela que sempre existia no topo da árvore de Natal. Recordo que, desde muito cedo, me comecei a interrogar sobre o que estaria para além da estrela…)
Ligeiramente acima do rosto, ergue-se uma mão que suplica… Uma mão ansiosa… Uma mão insciente que tenta, desesperadamente, agarrar o silêncio que a rodeia, à procura de uma resposta…
(Regresso novamente à minha infância e observo a mão ansiosa com que tocava os embrulhos coloridos que me estavam destinados. Ao abri-los, sempre a mesma procura da prenda que lá não estava …)
De repente, a figura retratada esvai-se … Permanece, tão só, a lembrança e a saudade de mim, no tempo em que acreditava que o Pai Natal poderia estar escondido na estrela da minha árvore… No tempo em que, a cada ano, se renovava a esperança de poder tocar o presente idealizado…
« […] “A Poesia Ensina a Cair” colige, na grande maioria dos casos, críticas ou crónicas sobre livros de poesia portuguesa, mas também algumas sobre obras ensaísticas a propósito de poesia […] São 46 os textos reunidos, havendo a final um índice remissivo de autores e as “referências bibliográficas”. Os textos têm a marca da qualidade, cultura e inteligência de EPC, desaparecido prematuramente com apenas 63 anos.» jornal das Letras
" El hombre ha sido tercamente burlado y partido. Su capacidad de imaginar, su poder de visión, su fuerza de contemplación, quedaron en el margen de lo ornamental y o inútil. La poesía y la filosofía se separaron en algún pasaje catastrófico de la historia no narrable del pensamiento. El destino del poeta moderno es volver a unir el pensar, el sentir, el imaginar, el amar, el crear"
Texto lido na Academia Argentina de Letras( 1986)
"O homem tem sido teimosamente enganado e dividido. A sua capacidade de imaginar, o seu poder de visionário, a sua força contemplativa, foram deixados na margem do ornamental e do inútil. A poesia e a filosofia separaram-se em algum momento catastrófico da história desconhecida do pensamento. O destino do poeta moderno é voltar a unir o pensar, o sentir, o imaginar, amar,o criar. "
Todo pozo es una entrada al abismo.
No importa que tenga fondo
o aparente tenerlo:
un pozo es siempre la apertura a lo sin fondo.
Espacio para caer o para hundir,
textura diferente del espacio,
tiene el pozo una connivencia
secreta con el hombre.
Y aunque se lo rellene,
aunque se plante en él un árbol
o se afirme un cimiento,
todo pozo resulta irrevocable:
su corregido espacio
no será nunca el mismo.
¿No será acaso un pozo
el fundamento de todo?
¿No será todo un pozo?
Yeah, if you give me just one night
You’re gonna see me in a new light
Yeah, if you give me just one night
To meet you underneath the moonlight
The System Only Dreams In Total Darkness Maybe I listen more than you think I can tell that somebody sold you We said we've never let anyone in We said we'd only die of lonely secrets The system only dreams in total darkness Why are you hiding from me? We're in a different kind of thing now All night you're talking to God I thought that this would all work out after a while Now you're saying that I'm asking for too much attention Loss of no other faith is light enough for this place We said we'd only die of lonely secrets
I cannot explain it
Any other, any other way
I cannot explain it
Any other, any other way
Solo lo incompleto es soportable,
Por lo menos transitoriamente,
Porque al final todo resulta insoportable,
Poner junto a la alegría por la hoja que está
la alegría por la hoja que no está
y con ambas construir la alegría
por la hoja que ni está ni no está.
Aunque apenas alcance
para ocupar el espacio
de la hoja que falta en el pensamiento.
Pero hay un saludo que no puede doblar,
un saludo que en el bolsillo no le cabe.
Y lo pierde, eso sí que lo pierde,
más que la vida y otras cosas,
por ejemplo, el cumpleaños de su muerte.
"Antologizar: casi como optar entre qué poema perderá la vida para que otro la conserve, si es que el poema vive cuando alguien lo lee. Casi como intentar ofrecer mundos de lectura posibles poblados por lo que se considera más cercano al núcleo creativo de una poética. Y desaparecer totalmente tras algo que emerge: éste ha sido el criterio adoptado para la construcción de la breve cartografía que aquí presentamos de la obra de Roberto Juarroz."Laura Crespo e Sandra Susana Mora
Hay palabras que no decimos
y que ponemos sin decirlas en las cosas.
Y las cosas las guardan,
y un día nos contestan con ellas
y nos salvan el mundo,
como un amor secreto
en cuyos dos extremos
hay una sola entrada.
¿No habrá alguna palabra
de esas que no decimos
que hayamos colocado
sin querer en la nada?
Pienso que en este momento
tal vez nadie en el universo piensa en mí,
que sólo yo me pienso,
y si ahora muriese,
nadie, ni yo, me pensaría.
Y aquí empieza el abismo,
como cuando me duermo.
Soy mi propio sostén y me lo quito.
Contribuyo a tapizar de ausencia todo.
Tal vez sea por esto
que pensar en un hombre
se parece a salvarlo.
Tú no tienes nombre.
Tal vez nada lo tenga.
Pero hay tanto humo repartido en el mundo,
tanta lluvia inmóvil,
tanto hombre que no puede nacer,
tanto llanto horizontal,
tanto cementerio arrinconado,
tanta ropa muerta
y la soledad ocupa tanta gente,
que el nombre que no tienes me acompaña
y el nombre que nada tiene crea un sitio
en donde está de más la soledad
Sí, hay un fondo.
Pero hay también un más allá del fondo,
un lugar hecho con caras al revés.
Y allí hay pisadas,
pisadas o por lo menos su anticipo,
lectura de ciego que ya no necesita puntos
y lee en lo liso
o tal vez la lectura de sordo
en los labios de un muerto.
Sí, hay un fondo.
Pero es el lugar donde empieza el otro lado,
simétrico de éste,
tal vez éste repetido,
tal vez éste y su doble,
tal vez éste.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
una voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
la propia voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin despertar
en el momento justo en que el sueño se encuentra
con esos ojos abiertos
que ya no necesitan dormir más.
El centro no es un punto.
Si lo fuera, resultaría fácil acertarlo.
No es ni siquiera la reducción de un punto a su infinito.
El centro es una ausencia,
de punto, de infinito y aun de ausencia
y sólo se acierta con ausencia.
Mírame después que te hayas ido,
aunque yo esté recién cuando me vaya.
Ahora el centro me ha enseñado a no estar,
pero más tarde el centro estará aquí.
La mentira de la mentira es darla vuelta.
Toda nuestra verdad es no tenerla.
La incongruencia de estar solos
toma el tren más puntual
hacia las emergencias del olvido.
Una hebra más delgada que el pensamiento,
un hilo con calibre de nada,
une nuestros ojos cuando no nos miramos.
Cuando nos miramos
nos unen todos los hilos del mundo,
pero falta éste,
que sólo da sombra
a la luz más secreta del amor.
Después que nos vayamos,
quizás quede este hilo
uniendo nuestros sitios vacíos.
El otro que lleva mi nombre
ha comenzado a desconocerme.
Se despierta donde yo me duermo,
me duplica la persuasión de estar ausente,
ocupa mi lugar como si el otro fuera yo,
me copia en las vidrieras que no amo,
me agudiza las cuencas desistidas,
descoloca los signos que nos unen
y visita sin mí las otras versiones de la noche.
Imitando su ejemplo,
ahora empiezo yo a desconocerme.
Tal vez no exista otra manera
de comenzar a conocernos.
Si conociéramos el punto
donde va a romperse algo,
donde se cortará el hilo de los besos,
donde una mirada dejará de encontrarse con otra mirada,
donde el corazón saltará hacia otro sitio,
podríamos poner otro punto sobre ese punto
o por lo menos acompañarlo al romperse.
Si conociéramos el punto
donde algo va a fundirse con algo,
donde el desierto se encontrará con la lluvia,
donde el abrazo se tocará con la vida,
donde mi muerte se aproximará a la tuya,
podríamos desenvolver ese punto como una serpentina
o por lo menos cantarlo hasta morirnos.
Si conociéramos el punto
donde algo será siempre ese algo,
donde el hueso no olvidará a la carne,
donde la fuente es madre de otra fuente,
donde el pasado nunca será pasado,
podríamos dejar sólo ese punto y borrar todos los otros
o guardarlo por lo menos en un lugar más seguro.
Los rostros que has ido abandonando
se han quedado debajo de tu rostro
y a veces te sobresalen
como si tu piel no alcanzara para todos.
Las manos que has ido abandonando
te abultan a veces en la mano
y te absorben las cosas o las sueltan
como esponjas crecientes.
Las vidas que has ido abandonando
te sobreviven en tu propia sombra
y algún día te asaltarán como una vida,
tal vez para morir una vez sola.
¿Cómo amar lo imperfecto,
si escuchamos a través de las cosas
cómo nos llama lo perfecto?
¿Cómo alcanzar a seguir
en la caída o el fracaso de las cosas
la huella de lo que no cae ni fracasa?
Quizá debamos aprender que lo imperfecto
es otra forma de la perfección:
la forma que la perfección asume
para poder ser amada.
Debemos conseguir que el texto que leemos
nos lea.
Debemos conseguir que la música que escuchamos
nos oiga.
Debemos conseguir que aquello que amamos
parezca por lo menos amarnos.
Es preciso demoler la ilusión
de una realidad con un solo sentido.
Es necesario por ahora
que cada cosa tenga por lo menos dos,
aunque en el fondo sepamos
que si algo no tiene todos los sentidos
no tiene ninguno.
Debemos conseguir que la rosa
que acabamos de crear al mirarla
nos cree a su vez.
Y lograr que luego
engendre de nuevo al infinito.
Las respuestas se han acabado.
Quizá nunca existieron
y sólo eran espejos
enfrentados al vacío.
Pero ahora también las preguntas se han acabado.
Los espejos se han roto,
hasta los que no reflejaban nada.
Y no hay modo de rehacerlos.
Sin embargo,
tal vez quede en alguna parte una pregunta.
El silencio es también una pregunta.
Resta un espejo que no puede romperse
Porque no se enfrenta a nada,
porque está adentro de todo.
Hemos encontrado una pregunta.
¿Será el silencio también una respuesta?
Quizá a determinada altura
las preguntas y las respuestas son exactamente iguales.
La sensación de que debiera estar en otra parte
no me abandona nunca,
ni siquiera cuando no estoy en ninguna parte.
Y sé que esa sensación tampoco me abandonaría
aunque estuviera en esa otra parte,
que nadie sabe dónde está
como nadie sabe dónde está
ninguna parte.
Quizá mi sensación proceda justamente
de querer estar en una parte,
nada más que en una sola,
pero sabiendo dónde está.
O talvez mi sensación proceda
de querer estar aquí.
"O senhor Juarroz é um homem que teoriza tudo, mas é completamente desastrado na vida prática. A mulher do senhor Juarroz lá vai evitando maiores desastres."
O senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha. Depois de muito meditar sobre esta hipótese o senhor Juaroz decidiu desligar o quadro da electricidade.
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida, ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:
- quando falavam com ele muito alto
- quando o insultavam
- quando o empurravam
- quando tinha de utilizar qualquer objecto útil à sua volta.
O princípio do fim ...
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
« Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa »
Um rosto e uma mão conduzem-me o olhar para uma qualquer transcendência, para uma imaterialidade que, na sua inexistência, parece revelar-se, embora envolta numa escuridão silenciosa.
No rosto não jovem, surpreendo o pasmo de uma criança, perante a contemplação de um invisível que acredita existir…
(Revejo-me, subitamente, num passado remoto, em êxtase, perante a estrela que sempre existia no topo da árvore de Natal. Recordo que, desde muito cedo, me comecei a interrogar sobre o que estaria para além da estrela…)
Ligeiramente acima do rosto, ergue-se uma mão que suplica… Uma mão ansiosa… Uma mão insciente que tenta, desesperadamente, agarrar o silêncio que a rodeia, à procura de uma resposta…
(Regresso novamente à minha infância e observo a mão ansiosa com que tocava os embrulhos coloridos que me estavam destinados. Ao abri-los, sempre a mesma procura da prenda que lá não estava …)
De repente, a figura retratada esvai-se … Permanece, tão só, a lembrança e a saudade de mim, no tempo em que acreditava que o Pai Natal poderia estar escondido na estrela da minha árvore… No tempo em que, a cada ano, se renovava a esperança de poder tocar o presente idealizado…
« […] “A Poesia Ensina a Cair” colige, na grande maioria dos casos, críticas ou crónicas sobre livros de poesia portuguesa, mas também algumas sobre obras ensaísticas a propósito de poesia […] São 46 os textos reunidos, havendo a final um índice remissivo de autores e as “referências bibliográficas”. Os textos têm a marca da qualidade, cultura e inteligência de EPC, desaparecido prematuramente com apenas 63 anos.» jornal das Letras
" El hombre ha sido tercamente burlado y partido. Su capacidad de imaginar, su poder de visión, su fuerza de contemplación, quedaron en el margen de lo ornamental y o inútil. La poesía y la filosofía se separaron en algún pasaje catastrófico de la historia no narrable del pensamiento. El destino del poeta moderno es volver a unir el pensar, el sentir, el imaginar, el amar, el crear"
Texto lido na Academia Argentina de Letras( 1986)
"O homem tem sido teimosamente enganado e dividido. A sua capacidade de imaginar, o seu poder de visionário, a sua força contemplativa, foram deixados na margem do ornamental e do inútil. A poesia e a filosofia separaram-se em algum momento catastrófico da história desconhecida do pensamento. O destino do poeta moderno é voltar a unir o pensar, o sentir, o imaginar, amar,o criar. "
Todo pozo es una entrada al abismo.
No importa que tenga fondo
o aparente tenerlo:
un pozo es siempre la apertura a lo sin fondo.
Espacio para caer o para hundir,
textura diferente del espacio,
tiene el pozo una connivencia
secreta con el hombre.
Y aunque se lo rellene,
aunque se plante en él un árbol
o se afirme un cimiento,
todo pozo resulta irrevocable:
su corregido espacio
no será nunca el mismo.
¿No será acaso un pozo
el fundamento de todo?
¿No será todo un pozo?
Yeah, if you give me just one night
You’re gonna see me in a new light
Yeah, if you give me just one night
To meet you underneath the moonlight
The System Only Dreams In Total Darkness Maybe I listen more than you think I can tell that somebody sold you We said we've never let anyone in We said we'd only die of lonely secrets The system only dreams in total darkness Why are you hiding from me? We're in a different kind of thing now All night you're talking to God I thought that this would all work out after a while Now you're saying that I'm asking for too much attention Loss of no other faith is light enough for this place We said we'd only die of lonely secrets
I cannot explain it
Any other, any other way
I cannot explain it
Any other, any other way
Solo lo incompleto es soportable,
Por lo menos transitoriamente,
Porque al final todo resulta insoportable,
Poner junto a la alegría por la hoja que está
la alegría por la hoja que no está
y con ambas construir la alegría
por la hoja que ni está ni no está.
Aunque apenas alcance
para ocupar el espacio
de la hoja que falta en el pensamiento.
Pero hay un saludo que no puede doblar,
un saludo que en el bolsillo no le cabe.
Y lo pierde, eso sí que lo pierde,
más que la vida y otras cosas,
por ejemplo, el cumpleaños de su muerte.
"Antologizar: casi como optar entre qué poema perderá la vida para que otro la conserve, si es que el poema vive cuando alguien lo lee. Casi como intentar ofrecer mundos de lectura posibles poblados por lo que se considera más cercano al núcleo creativo de una poética. Y desaparecer totalmente tras algo que emerge: éste ha sido el criterio adoptado para la construcción de la breve cartografía que aquí presentamos de la obra de Roberto Juarroz."Laura Crespo e Sandra Susana Mora
Hay palabras que no decimos
y que ponemos sin decirlas en las cosas.
Y las cosas las guardan,
y un día nos contestan con ellas
y nos salvan el mundo,
como un amor secreto
en cuyos dos extremos
hay una sola entrada.
¿No habrá alguna palabra
de esas que no decimos
que hayamos colocado
sin querer en la nada?
Pienso que en este momento
tal vez nadie en el universo piensa en mí,
que sólo yo me pienso,
y si ahora muriese,
nadie, ni yo, me pensaría.
Y aquí empieza el abismo,
como cuando me duermo.
Soy mi propio sostén y me lo quito.
Contribuyo a tapizar de ausencia todo.
Tal vez sea por esto
que pensar en un hombre
se parece a salvarlo.
Tú no tienes nombre.
Tal vez nada lo tenga.
Pero hay tanto humo repartido en el mundo,
tanta lluvia inmóvil,
tanto hombre que no puede nacer,
tanto llanto horizontal,
tanto cementerio arrinconado,
tanta ropa muerta
y la soledad ocupa tanta gente,
que el nombre que no tienes me acompaña
y el nombre que nada tiene crea un sitio
en donde está de más la soledad
Sí, hay un fondo.
Pero hay también un más allá del fondo,
un lugar hecho con caras al revés.
Y allí hay pisadas,
pisadas o por lo menos su anticipo,
lectura de ciego que ya no necesita puntos
y lee en lo liso
o tal vez la lectura de sordo
en los labios de un muerto.
Sí, hay un fondo.
Pero es el lugar donde empieza el otro lado,
simétrico de éste,
tal vez éste repetido,
tal vez éste y su doble,
tal vez éste.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
una voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
la propia voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin despertar
en el momento justo en que el sueño se encuentra
con esos ojos abiertos
que ya no necesitan dormir más.
El centro no es un punto.
Si lo fuera, resultaría fácil acertarlo.
No es ni siquiera la reducción de un punto a su infinito.
El centro es una ausencia,
de punto, de infinito y aun de ausencia
y sólo se acierta con ausencia.
Mírame después que te hayas ido,
aunque yo esté recién cuando me vaya.
Ahora el centro me ha enseñado a no estar,
pero más tarde el centro estará aquí.
La mentira de la mentira es darla vuelta.
Toda nuestra verdad es no tenerla.
La incongruencia de estar solos
toma el tren más puntual
hacia las emergencias del olvido.
Una hebra más delgada que el pensamiento,
un hilo con calibre de nada,
une nuestros ojos cuando no nos miramos.
Cuando nos miramos
nos unen todos los hilos del mundo,
pero falta éste,
que sólo da sombra
a la luz más secreta del amor.
Después que nos vayamos,
quizás quede este hilo
uniendo nuestros sitios vacíos.
El otro que lleva mi nombre
ha comenzado a desconocerme.
Se despierta donde yo me duermo,
me duplica la persuasión de estar ausente,
ocupa mi lugar como si el otro fuera yo,
me copia en las vidrieras que no amo,
me agudiza las cuencas desistidas,
descoloca los signos que nos unen
y visita sin mí las otras versiones de la noche.
Imitando su ejemplo,
ahora empiezo yo a desconocerme.
Tal vez no exista otra manera
de comenzar a conocernos.
Si conociéramos el punto
donde va a romperse algo,
donde se cortará el hilo de los besos,
donde una mirada dejará de encontrarse con otra mirada,
donde el corazón saltará hacia otro sitio,
podríamos poner otro punto sobre ese punto
o por lo menos acompañarlo al romperse.
Si conociéramos el punto
donde algo va a fundirse con algo,
donde el desierto se encontrará con la lluvia,
donde el abrazo se tocará con la vida,
donde mi muerte se aproximará a la tuya,
podríamos desenvolver ese punto como una serpentina
o por lo menos cantarlo hasta morirnos.
Si conociéramos el punto
donde algo será siempre ese algo,
donde el hueso no olvidará a la carne,
donde la fuente es madre de otra fuente,
donde el pasado nunca será pasado,
podríamos dejar sólo ese punto y borrar todos los otros
o guardarlo por lo menos en un lugar más seguro.
Los rostros que has ido abandonando
se han quedado debajo de tu rostro
y a veces te sobresalen
como si tu piel no alcanzara para todos.
Las manos que has ido abandonando
te abultan a veces en la mano
y te absorben las cosas o las sueltan
como esponjas crecientes.
Las vidas que has ido abandonando
te sobreviven en tu propia sombra
y algún día te asaltarán como una vida,
tal vez para morir una vez sola.
¿Cómo amar lo imperfecto,
si escuchamos a través de las cosas
cómo nos llama lo perfecto?
¿Cómo alcanzar a seguir
en la caída o el fracaso de las cosas
la huella de lo que no cae ni fracasa?
Quizá debamos aprender que lo imperfecto
es otra forma de la perfección:
la forma que la perfección asume
para poder ser amada.
Debemos conseguir que el texto que leemos
nos lea.
Debemos conseguir que la música que escuchamos
nos oiga.
Debemos conseguir que aquello que amamos
parezca por lo menos amarnos.
Es preciso demoler la ilusión
de una realidad con un solo sentido.
Es necesario por ahora
que cada cosa tenga por lo menos dos,
aunque en el fondo sepamos
que si algo no tiene todos los sentidos
no tiene ninguno.
Debemos conseguir que la rosa
que acabamos de crear al mirarla
nos cree a su vez.
Y lograr que luego
engendre de nuevo al infinito.
Las respuestas se han acabado.
Quizá nunca existieron
y sólo eran espejos
enfrentados al vacío.
Pero ahora también las preguntas se han acabado.
Los espejos se han roto,
hasta los que no reflejaban nada.
Y no hay modo de rehacerlos.
Sin embargo,
tal vez quede en alguna parte una pregunta.
El silencio es también una pregunta.
Resta un espejo que no puede romperse
Porque no se enfrenta a nada,
porque está adentro de todo.
Hemos encontrado una pregunta.
¿Será el silencio también una respuesta?
Quizá a determinada altura
las preguntas y las respuestas son exactamente iguales.
La sensación de que debiera estar en otra parte
no me abandona nunca,
ni siquiera cuando no estoy en ninguna parte.
Y sé que esa sensación tampoco me abandonaría
aunque estuviera en esa otra parte,
que nadie sabe dónde está
como nadie sabe dónde está
ninguna parte.
Quizá mi sensación proceda justamente
de querer estar en una parte,
nada más que en una sola,
pero sabiendo dónde está.
O talvez mi sensación proceda
de querer estar aquí.
"O senhor Juarroz é um homem que teoriza tudo, mas é completamente desastrado na vida prática. A mulher do senhor Juarroz lá vai evitando maiores desastres."
O senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha. Depois de muito meditar sobre esta hipótese o senhor Juaroz decidiu desligar o quadro da electricidade.
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida, ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:
- quando falavam com ele muito alto
- quando o insultavam
- quando o empurravam
- quando tinha de utilizar qualquer objecto útil à sua volta.
O princípio do fim ...
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
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