Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Melancolia, Elegias, Melancolismos...


HOMEM 
 foi há tanto tempo 
foi há tanto tempo há tanto tanto tempo
 foi tudo há tanto tempo 
há tanto tanto tempo

 MULHER 
 é foi tudo há tanto tempo
 há tanto tanto tempo
 e aconteceram tantas coisas 

HOMEM
 aconteceu tudo
 e nada 

MULHER
 aconteceram tantas coisas 


  A linguagem repetitiva é um dos traços definidores desta peça de teatro, que se desenrola num cemitério: complexa, estranha, é uma construção diferente de um tema antigo: amor acaba e a vida passa...


Um livro triste, muito triste...


 "Um menino está prestes a nascer - chamar-se-á Johannes como o avô e será pescador como o pai. Uma vida boa, é esse o desejo de quem o traz ao mundo, embora este seja um mundo duro, ruim e cruel. Um homem, velho e sozinho, morre - chama-se Johannes e foi pescador. É o seu melhor amigo que o vem buscar rumo a esse destino onde não há corpos nem palavras, apenas tudo aquilo que se ama. Antes do regresso definitivo ao nada, Johannes revisita o museu da sua vida, longa, simples e quotidiana, confrontando-se paulatinamente com a morte num constante entrelaçamento de real e alucinação, passado e presente."



E nada disto tinha nome. Não eram irmãos, nem amantes. Existe outra coisa e eles sabiam isso vagamente. Existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno.

É esse o  sentido do amor e da amizade. A amizade deles era tão séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e culpa. Uma pessoa não  se pode apropriar impunemente de outra, separando-a das restantes.
 

 De duas em duas semanas confessavam-se, preparavam juntos a lista de pecados. Os desejos faziam-se sentir no sangue, nos nervos...Mas viviam uma vida pura, como se a amizade, cuja capa mágica cobria as suas vidas jovens, compensasse tudo aquilo que atormentava e arrepiava os outros, os curiosos e irrequietos e os perseguia para as regiões obscuras, infernais da existência. 

  Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.

Começar assim o dia deixa qualquer mulher melancólica...

Esta enfermidade é particularmente visível em mulheres de idade, e como tal são pobres, solitárias, vivem na mais básica estima e são pedintes, ou são bruxas.;








Something's gotta give We can't carry on like this One year on and more unsure Where do we go from here? Many nights and many days I've spent with you Talking about what we should do I can't say Nothing's clear to me no more One more sleepless night And another wasted day This song has no end Too many words fill my mind You gave so much too soon No longer sure where you want to be Turn around See what you have found Let's drink to absent friends How they cared, and all they shared We took our life to the edge They still try to understand Time is running out You're going down Come on, let's go wherever they may be Make a choice Stay behind or follow me



Elegia na sombra: Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia touca a desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medovNesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia; Lembramos névoas, sonhos a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o sentimos bem no coração? Que vitória maligna conseguimos — Em que guerras, com que armas, com que armada? — Que assim o seu castigo irreal sentimos Colado aos ossos desta carne errada? Terra tão linda com heróis tão grandes, Bom Sol universal localizado Pelo melhor calor que aqui expandes, Calor suave e azul só a nós dado.(...) Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente Nem paira mais no ar, que fora almo Se não fora a nossa alma erma e vazia, Que o nosso fado, vento frio e calmo E a tarde de nós mesmos, baça e fria Como longínquo sopro altivo e humano Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena.

Pequena elegia de setembro: Não sei como vieste... Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro. Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas...? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.

Texto de apresentação, escrito por Vinicius para a primeira edição:

Dessas cinco elegias, as quatro primeiras foram ideadas e em parte escritas - a primeira e a segunda integralmente - em 1937, em Itatiaia, no sítio de Octávio de Faria, ali a meio caminho entre Campo Belo e a Cachoeira de Marombas, lugar que amo e onde passei alguns dos meus melhores dias. Nesse tempo, a terceira, essa que aqui vai com o título de "Desesperada", era para ser na realidade a quarta; em substituição havia outra; que se deveria chamar "Intermédio elegíaco" e afinal se transformou num drama lírico, com que ainda hoje ando lidando. Iniciada nessa ocasião, só fui terminá-la em fins de 1938, em Oxford, quando, estudante, ali assisti. A atual quarta foi a única que me perseguiu, inacabada, ao longo de todos esses anos.Há coisa de um mês, de repente, resolveu-se.Quanto à última, escrevi-a de jato, naquele maio de 1939, em Londres, vendo, do meu apartamento, a manhã nascer sobre os telhados novos do bairro de Chelsea. A qualidade da experiência vivida e o lugar onde a vivi criaram-lhe espontaneamente a linguagem em que se formou, mistura de português e inglês, com vocábulos muitas vezes inventados e sem chave morfológica possível. Mas não houve sombra de vontade de parecer original. É uma fala de amor como a falei, virtualmente transposta para a poesia, na qual procurei traduzir,dentro de sonoridades estanques de duas línguas que me são tão caras e com arranjos gráficos e ordem puramente mnemônica, isso que foi a maior aventura lírica da minha vida.
V.M.Junho de 1943

Elegia ao primeiro amigo

Seguramente não sou eu Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história. É antes uma vontade indizível de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro. Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial. Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia. É apenas um prenúncio do mistério Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada... Vim para ser lembrado Para ser tocado de emoção, para chorar Vim para ouvir o mar contigo Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã. Nossos olhos enegreciam lentamente de dor Nossos corpos duros e insensíveis Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto Para aquele que, entre nós, ferido de beleza Aquele de rosto de pedra De mãos assassinas e corpo hermético de mártir Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar. Pouco importa que tenha passado, e agora Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva... Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar. Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia E abrigaste em ti todo o patético? Não sei o que tenho de te falar assim: sei Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer E eu nada diria de grave; decerto Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros... Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido: Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar. Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo) Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível (Vá lá por conta da necessária gentileza...) No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás... Existo também; de algum lugar Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes Escuto vozes ermas Que me chamam para o silêncio. Sofro O horror dos espaços O pânico do infinito O tédio das beatitudes. Sinto Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação. Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar. Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. Seguramente não sou eu: É a tarde, talvez, assim parada Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo Quisera poder dizer-te tudo; no entanto Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar Uma mulher me vê viver, que me chama; devo Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.




Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfémias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legítimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delícias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos húmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!

Isto só se podia observar pelos ombros, já que o resto do corpo estava coberto por uma manta comum, mas os corpos sentiam esse contacto amortecido pelas roupas de um modo tão suavemente indistinto como o que nos dá a ver as coisas numa noite de luar...A transmissão refinada do desejo do corpo para as roupas, do abraço para os obstáculos, numa palavra, do objectivo para o caminho, ia ao encontro da sua natureza. A sua sensualidade atraía-o para a mulher, mas as outras forças superiores afastavam-no sa pessoa estranha que não se lhe ajustava e que subitamente via à sua frente,de modo que estava sempre dividido, numa viva contradição entre atracção e repulsa.(...)lembrava-se com frequência da despedida aquando da sua primeira visita:segurara então na sua mão suave,uma mão sem peso,artificial e nobre na sua perfeição, e ambos se olharam nos olhos,sentiram certamente a mesma aversão, mas depois perceberam que se poderiam fundir até se extinguirem como um sopro. Algo dessa visão permacera entre eles. Deste modo, temos em cima duas cabeças que se olham com uma frieza extrema, enquanto em baixo os corpos se fundem sem resistência e chegam ao rubro.Há nisto qualquer coisa da força maléfica dos mitos...

Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria do contacto na qual o mistério e a dignidade de outrem consistiriam precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de ligação com um mundo desconhecido. A volúpia seria, nessa filosofia, a forma mais completa e mais especializada de aproximação com o Outro, uma técnica a mais colocada a serviço do conhecimento de uma individualidade estranha à nossa. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção nasce ou morre, tal como acontece com a mão um tanto repugnante da velha que me apresenta uma petição, a fronte húmida do meu pai em agonia, ou a chaga lavada de um ferido. As próprias relações mais intelectualizadas, ou as mais neutras, ocorrem através desse sistema de sinais materiais: o olhar subitamente iluminado do tribuno a quem explico determinada manobra numa manhã de batalha; a saudação impessoal do subalterno que a nossa passagem imobiliza em atitude de obediência; o olhar amistoso do escravo a quem agradeço por trazer-me uma bandeja; ou a expressão apreciadora de um velho amigo ante o camafeu grego com que acabamos de presenteá-lo. Com a maior parte das pessoas, os mais ligeiros ou mais superficiais desses contactos bastam a nosso desejo, ou até o excedem. Que esses mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.

Será que é isto estar apaixonado: "Um ser passar da periferia do nosso universo ao seu centro!?

Have you no idea that you're in deep? I've dreamt about you nearly every night this week How many secrets can you keep? 'Cause there's this tune I've found That makes me think of you somehow And I play it on repeat Until I fall asleep Spilling drinks on my settee...



Foi então que uma melancolia momentânea me apertou o coração: pensei que as palavras acabamento ,perfeição, contêm em si a palavra fim: talvez eu tivesse somente oferecido mais uma presa ao tempo devorador.

Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria. É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está: E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será.

O que diz o dicionário sobre nostalgia? Melancolia, tristeza causada pela saudade da sua terra ou da sua pátria; Saudade do passado, de um lugar. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que deixou de possuir. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados.Condição daquele que é triste sem motivos explícitos.

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia touca a desgraça.


Tantos poemas contemporâneos! Tantos poetas absolutamente de hoje — Interessante tudo, interessantes todos...Ah, mas é tudo quase...É tudo vestíbulo E tudo só para escrever. Nem arte, Nem ciência Nem verdadeira nostalgia...

O que é a melancolia?
Tristeza vaga e indefinida; estado de tristeza, traduzido pelo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras; enfraquecimento mental e/ou físico, cuja ocorrência ocasiona certas complicações psiquiátricas... Abatimento, desânimo, esmorecimento, languidez, misantropia, prostração e tristeza...
Etimologicamente, o vocábulo tem uma raiz bastante "negra": segundo hipócrates, melancolia é um dos quatro humores corporais que, por influência de saturno, é produzido, em excesso, pelo baço. Bem prosaica, na origem, enaltecida pelos românticos, a melancolia chega até nós, adulterada por psiquiatras e psicanalistas: síndrome mental que se caracteriza pela sensação de impotência, inutilidade, pensamentos negativos, dificuldade de concentração, falta de apetite, ansiedade, insónia e ideias constantes de morte; um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas sem que exista uma perda.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração.




Y en este titubeo de aliento y agonía, cargo lleno de penas lo que apenas soporto. ¿No oyes caer las gotas de mi melancolía?

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.



You want her, you need her And yet you don't believe her When she says her love is dead You think she needs you...I know what I have and want But I don't know what I need Well, he said, he said, he said, he said "Where we're going, I'm dead...

Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante:o meu amigo está longe e a saudade é bastante!


Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.



amor podes mandar se for sincero, saudades isso não pois não as quero/ Quando eu morrer... quero uma fita amarela gravada com o nome dela.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


Exegi monumentum aere perennius regalique situ pyramidum altius, quod non imber edax, non Aquilo inpotens possit diruere aut innumerabilis annorum series et fuga temporum. Este monumento é o texto perfeito, a obra imorredoura. Sem a grandiosidade, o que não implica necessariamente, extensão, mas sim uma organização intrínseca, não existe literatura de qualidade.
Recordo o dia seis de setembro de 2013. Que pena não ter feito,nesse dia, uma reflexão sobre perfeição estrutural... Agora, três anos depois, já não consigo reconstituir a emoção que senti...Só subsite a recordação melancólica desse momento...


Ressentimentos passam com o vento São coisas de momento São chuvas de verão Trazer uma aflição dentro do peito É dar vida a um defeito Que se extingue com a razão Estranha no meu peito Estranha na minha alma Agora eu tenho calma Não te desejo mais...

Podem as palavras morrer. Eu estou ainda próximo da noite.
Coleciono lutos,água de faianças,
animais do espírito,demasias.
Coleciono tudo os que as palavras não dizem:
uma feroz tranquilidade,um inventário de silêncios,
um catálogo de medos,
tudo o que não sei dizer sem as palavras.


O homem principia onde a morte o edifica.
A palavra, nunca será a exata habitação
do medo.


Na amena costa da Riviera francesa, mais ou menos a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, ergue-se um vasto e soberbo hotel pintado de cor-de-rosa.

Eu eduquei - te para o trabalho - não especialmente para o casamento.Agora vai em frente e aproveita essa experiência. Magoa-te ou magoa-o a ele - aconteça o que acontecer,não perdes nada,pois economicamente és um rapaz,não uma rapariga.
Encontravam-se ainda na fase feliz do amor.Estavam cheios de corajosas ilusões a respeito um do outro,ilusões tremendas,de tal modo que a sua comunhão mútua parecia dar-se numa esfera onde mais nenhuma relação humana importava.

Estar física e espiritualmente sozinho gera solidão,e a solidão gera mais solidão.



Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas! Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazuli das emoções descontínuas! Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim...


Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.




She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad." And she's making me feel like I've never been born I said, Who put all those things in your head? Things that make me feel that I'm mad. And you're making me feel like I've never been born."She said, "You don't understand what I said." I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right, Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "You don't understand what I said."I said, "No, no, no, you're wrong. When I was a boy everything was right,Everything was right." I said, "Even though you know what you know, I know that I'm ready to leave 'Cause you're making me feel like I've never been born." She said, "I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad. I know what it's like to be dead...


"Estás só. Ninguém o sabe.
Cala e finge. Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."

murmurou estas palavras em outro tempo escritas,e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-la,também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais dizer,porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram estar só, caro senhor, é muito mais conseguir dizê-lo e tê-lo dito.



Mas pra quê? Pra quê tanto céu? Pra quê tanto mar? Pra quê? De quê serve Esta onda Que quebra? E o vento De tarde? De que serve A tarde? Inútil paisagem...


Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.



Bravo, vejo que você se cansou de idealidades femininas incorpóreas, trocou a Lídia etérea por uma Lídia de encher as mãos e agora está aqui à espera doutra dama(...)Adeus, caro Reis, até um destes dias, deixo-o a namorar a pequena, você afinal desilude-me,amador de criadas,cortejador de donzelas,estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está.


Adéu, adéu amor meu i sort


Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim...



Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.



Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida...




Mi viejo refran, mi poema, la fe que perdi no camino mi carreta . Mi dulce placer, mi sueño de ayer...

Mi fuente, mi sed, mi barco, mi red y la arena. Donde te sentí donde te escribí mi poema.

Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todo o mundo, estéril de todas as almas. A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez. Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!
Esplende, ausência de sol, brilha, luar que cessas...Só tu, sol que brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as flores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.



Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o esperemos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.



A cada qual, como a estatura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.



Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa.Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas...

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Retratos...Fotografias...

A máquina apoderou-se, portanto, da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia. A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia. Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.

A conservação da identidade interior, apesar da mutação exterior, inerente ao conceito de metamorfose em ovídio e em kafka, é um reflexo da teoria da metempsicose, defendida por Pitágoras.

Já conheço os passos dessa estrada Sei que não vai dar em nada...


Gramsci deixou escrito o retrato fiel daquilo que eu sou: «Pessimista pela razão, optimista pela vontade». Isso diz tudo.José Saramago

Retrato Ardente: Entre os teus lábios é que a loucura acode desce à garganta, invade a água

Retrato de Sophia
Senhora dona águia água égua
inglesa num jardim de potros gregos
mordiscando beleza rega cega
do regador de inês em seus sossegos.

De muitos anos colhes o magro fruito
que depressa transformas em compota
receita tão bem feita que de há muito
nos açucara o travo da chacota.

Porém quando por vezes és de pedra
não mármore mas árvore mas dura
do fundo do teu mar levanta-se a cratera
da nossa lusitana sepultura


RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino




Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.



FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.


Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...Gostava de passear sozinho pelas alamedas e pelos grandes corredores e de comandar as árvores e desafiar os retratos das paredes... No grande corredor sombrio que há ao fundo do palácio passeei com a minha noiva muitas vezes... Eu nunca tive noiva real... Nunca soube como se amava... Apenas soube como se sonhava amar... Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos é que às vezes queria julgar que as minhas mãos eram de princesa e que eu era, pelo menos no gesto das minhas mãos, aquela que eu amava...
Um dia foram-me encontrar vestido de rainha... Eu estava sonhando que eu era a minha esposa régia... Gostava de ver a minha face reflectida porque podia sonhar que era a face de outra criatura — porque era de formas femininas, que era de minha amada que era a minha face reflectida... Quantas vezes a minha boca, tocou na minha boca nesse espelho!... Quantas vezes apertei uma das mãos com a outra, quantas adorei meus cabelos com a minha mão alheada para que parecesse dela ao tocar-me. Não sou eu que te estou dizendo isto... É o resto de mim que está falando.


Bem sei que é fácil formar uma teoria da fluidez das coisas e das almas, compreender que somos um decurso interior de vida, imaginar, que o que somos é uma quantidade grande, que passamos por nós, que fomos muitos... Mas aqui há outra coisa que não o mero decurso da personalidade entre as próprias margens: há o outro absoluto, um ser alheio que foi meu. Que perdesse, com o acréscimo da idade, a imaginação, a emoção, um tipo de inteligência, um modo de sentimento tudo isso, fazendo-me pena, me não faria pasmo. Mas a que assisto quando me leio como a um estranho? A que beira estou se me vejo no fundo?
Outras vezes encontro trechos que me não lembro de ter escrito — o que é pouco para pasmar —, mas que nem me lembro de poder ter escrito — o que me apavora. Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas — mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu.



Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista de mais para a pensar em fazer; pensar em faze-la seria pensar em dar de mim a idea de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
Muitos crêem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixa-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos, (…)



[Retrato de Frederick Wyatt]
Of dreamers no one was a greater dreamer than he. He was eternally incompetent to take stock of reality. His attitude before things was always a false and uneasy one, always oscillating from one extreme point of view or manner of action to the other extreme. This concerned just as much and as deeply his fundamental views - if we can speak of the fundamental views of one who had none - as his most trifling actions. It is as possible to consider him an idealist (I use the word in its metaphysical sense) as a materialist: he would be the first to wonder which he was. His political opinions were in a perpetual fluctuation between an excessive anarchism and the arrogance of a through aristocrat. In his life - his unreal life as he would have called it sometimes - he was sure to be either of a childish and morbid shyness or of an impetuous and clumsy boldness. The worst was that he was not even consistent in the line of action he chose: sometimes he would shrink into a sudden and incongruous shyness in the midest of a recklessly insane act, at others he would suddenly break out from shyness in the strangest and insanest manner.
My great and sincere friendship for him cannot hinder me from being still rather amused on recalling the way several Portuguese poor people - the washerwoman, for instance - used, with a curious and evidently spontaneous community of expression, to refer to him when speaking to me: O seu amigo, coitadinho! (Your friend, poor gentleman!). They would very possibly have been perplexed to explain what the coitadinho (so untranslatably Portuguese!) meant there. But they all felt, in their characteristic warm-heartedness, that there was some inexplicable thing to be pitied about him. Now that I remember this, I cannot omit a still cuter expression that a neighbouring barber once used and which was reported to him and to me and stung him greatly: It is a pity he is not mad; it would have been better like that. It is perhaps the best casual wordportrait of him, as I easily perceived, because it hit his character off so justly and yet showed how terrible evident even to a […] casual and (...) observers was suffering he thought he hid in himself from all eyes.




Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.


O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.




Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!(...)
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?


Se por um lado me causava prazer contemplar a bela cabeça do marido, com as suas feições de alemão antigo, os meus olhos gostavam gualmente de fitar a aparência dela,tão perfeitamente agradável, tão peculiarmente decidida, tão claramente proporcionada.(...) Tudo isto era agradávelde contemplar, mas o que havia nessa mulher de mais lindo era a voz,um meio-soprano de timbre cálido,e,quanto à dicção, a denotar um ligeiro acento turíngio, que ra extremamente simpático. Não digo " insinuante" , porque esse adjetivo implicaria algo de propositado ou de consciente. O encanto dessa voz tinha origem numa musicalidade intrínseca, que de resto permanecia latente, já que Elsbeth não se interessava pela música e, por assim dizer, não acreditava nela.(...)
Em todo o caso, nunca ouvi ninguém falar de modo mais encantador, embora aquilo que ela dizia fosse sempre sumamente singelo e prosaico; e, segundo a minha opinião, é significativo que esse som melodioso, puramente natural, determinado por um bom gosto instintivo, tenha alcançado maternalmente os ouvidos de Adrian desde a primeira hora da sua existência.


Kretzschmar, nessa altura ainda jovem, tinha, quando muito , entre vinte e cinco e trinta anos. (...) De aparência nada conspícua,atarracado,crânio redondo, bigode aparado e olhos castanhos, que gostavam de rir e cuja expressão oscilava entre o pensativo e o coruscante, Kretzschmar podiater sido uma verdadeira bênção intelectual e cultural de Kaisersaschern, se tal vida houvesse existido.

Beissel nunca recebera laivos de instrução.Mas o próprio iluminado aprendera,como autodidacta,a ler e a escrever, e como o seu espírito transbordava de místicos sentimentos e ideias, ocorria que desempenhava a sua função de chefia sobretudo como poeta e escritor, destinado a alimentar as almas dos seus fiéis.

Mais tarde, Adrian encontrou um companheiro muito mais a essas suas expansões, na pessoa do anglicista e escritor Rudiger Schild-Knapp, com o qual travou conhecimento em Leipzig; motivo por que sempre experimentei uma espécie de ciúmes em relação a esse homem.

Cumpre, porém, que eu evoque em poucas palavras ainda outro vulto de entre os nossos professores, que, por motivo da sua perturbadora ambiguidade, se me gravou mais profundamente na memória do que todos os demais. Trata-se do assistente Eberhard Schleppfuss,que, nessa época , leccionava dois semestres...

Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista.

Os jovens de hoje pensam que o dinheiro é tudo.
– É verdade – concordou lorde Henry, ajeitando a lapela do casaco. – E, quando envelhecem, passsam a ter a certeza.


Os que amam só uma vez na vida é que são superficiais. O que eles consideram lealdade e fidelidade é, a meu ver, letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade está para a vida emotiva como a coerência está para a vida intelectual: uma mera confissão de insucessos. (...) O apaixonado começa por se iludir a si próprio e acaba a enganar os outros. Eis aquilo a que o mundo chama um romance.

Os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. O simpleS facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem absolutamente irresistível.


Foi muita bondade de Fleming perguntar. Ele quis chorar. Apoiou os cotovelos na mesa e fechou e abriu a concha das orelhas. Ouvia o barulho do refeitório toda vez que abria as conchas das orelhas. Era um rugido como o de um combóio noturno. E quando fechava as conchas o rugido era abafado como um combóio ao entrar no túnel. Naquela noite em Dalkey o combóio tinha rugido da mesma forma e então, quando entrou no túnel, o rugido cessou. Stephen fechou os olhos e o combóio continuou a avançar , rugindo e depois parou; rugindo outra vez, parou. Era bom ouvi-lo rugir e parar e depois rugir outra vez na saída do túnel e depois parar.

Vou dizer -te o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e subtileza.

Fechou os olhos, abandonando-se a ela, de corpo e alma, sem consciência de outra coisa que não fosse a pressão tenebrosa dos seus lábios que se entreabriam suavemente. A sua pressão exercia-se tanto sobre o seu cérebro como sobre os seus lábios, como se fossem o veículo de um vago discurso; e, entre eles, sentiu uma pressão desconhecida e tímida, mais tenebrosa que o enlanguescimento do pecado, mais suave do que um som ou um perfume.

Nunca dylan thomas, que tanto amou as palavras, imaginou que iria dar o nome e inspirar um nobel da literatura ... é " chato" que tantos saibam aquilo que o próprio não tem direito de saber....

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart


...O meu processo criativo consiste numa ininterrupta construção e destruição de imagens que saem do núcleo central que é, ao mesmo tempo, destruidor e construtivo...(...) Para mim, o "impulso" poético ou a "inspiração" é apenas a súbita, e geralmente física, chegada da energia para a perícia e o senso estrutural do artesão.(...) Poesia é aquilo que me faz rir, chorar ou uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada. (...) Tudo o que importa é o eterno movimento que há por trás da poesia, a vasta corrente subterrânea da dor, da loucura, da pretensão, da exaltação ou da ignorância humanas, por mais sublime que seja a intenção do poeta.

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade - que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a - é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo? Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam? Eu mesmo, que anseio alto pelo sol puro e os campos livres, pelo mar visível e o horizonte inteiro, quem me diz que não estranharia a cama, ou a comida, ou não ter que descer os oito lanços de escada até à rua, ou não entrar na tabacaria da esquina, ou não trocar os bons-dias com o barbeiro ocioso?


Tenho, felizmente, o último retrato, que é o espiri­tualmente verdadeiro, do Autor. É um retrato pequeno, tipo bilhete de identidade, mas susceptível de ser am­pliado e reproduzido depois de acordo com essa amplia­ção. O retrato, de que falo, e de que digo que é o espi­ritualmente verdadeiro, não dá o Sá-Carneiro como usualmente era, mas um Sá-Carneiro torturado (o pró­prio olhar o diz), um Sá-Carneiro emagrecido e final, que tem mais verdade que os retratos mais vulgares que ele tinha tirado nas fotografias do grande costume. E é isso mesmo que dá a essa fotografia casual o valor que casual muitas vezes usurpa ao autêntico – a fixação, por uma imposição súbita do Destino, do aspecto em que qualquer alma se revela...

(O conceito de "retrato espiritualmente verdadeiro" é, talvez, a resposta para o facto de alguém , ao olhar uma fotografia sua, se conseguir reconhecer,sem uma estranha sensação de que aquele objeto não tem nada de si ...Apetece-lhe reorganizar as fotografias afetivamente importantes e fazer um álbum dos "retratos espiritualmente verdadeiros": mais um arquivo, mais uma arrumação... Decididamente, ser catalogadora é a sua essência... )

" Outros retratos..."

Pois é, pois é...

A realidade verdadeira dum objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço. Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, ver a vida imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máquina do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm acção, dando negro na chapa espiritual. Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enquistou, faz-me ver sempre da realidade a parte que é sonho. A minha visão das coisas suprime sempre nelas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou para um poente no Exterior é para mim a mesma coisa, porque vejo da mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.

E o que é que eu posso contra o encanto, Desse amor que eu nego tanto Evito tanto e que, no entanto, Volta sempre a enfeitiçar Com seus mesmos tristes, velhos fatos, Que num álbum de retratos Eu teimo em colecionar...



Tive um sonho como uma fotografia... No fundo a Fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa.

No fundo - ou no limite - para ver bem uma foto mais vale erguer a cabeça ou fechar os olhos. "A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouche a Kafka e Kafka sorria e respondia: "Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. As minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos". A Fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida num estado, num esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio). A fotografia toca -me se a retiro do seu blábláblá costumeiro: "Tecnica", "Realidade", "Reportagem", "Arte": nada a dizer, fechar os olhos, deixar o detalhe remontar sozinho à consciência afetiva.

A fotografia é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que me vêm atingir, a mim, que estou aqui; pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem-me tocar como os raios retardados de uma estrela. Uma espécie de vínculo umbilical liga ao meu olhar o corpo da coisa fotografada: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.

Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência. Um álbum de fotografias é um álbum de ausências. Muitas vezes, de ausências que nunca foram presenças...

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório (…) encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. (…) A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que atirou para o lixo.


The photobooth's a liar...


Assim vai ser melhor...

A fotografia trocada...

Sofrer a verdade de me ver nas fotografias é uma das minhas causas de desassossego que talvez só bernardo soares entenda... Quis o destino poupá-lo a estes tempos em que não se dá um passo sem que o mais elementar direito à imagem seja violado... Nunca gostei de fotografias, nem mesmo quando era bonita ... a fotografia rouba a alma, anula o ser. Aquela mancha que surge no papel é um estranho, alguém irreconhecível... Uma vez, numa queima das fitas em coimbra, na época em que o evento era fotografado por profissionais que publicitavam as provas, numa espécie de catálogo numerado, aconteceu-me encomendar uma fotografia de outra rapariga... Só quando, mais tarde, verifiquei que não conhecia nenhuma das pessoas que a rodeavam me apercebi do engano..."como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei" Esta afirmação faz-nme sorrir. É exatamente isto que acontece: ao observarmos uma qualquer fotografia de um grupo mais ou menos numeroso, os olhos avidamente se dirigem para o rosto que julgamos ser o nosso. Podem estar cem pessoas que só vimos uma... É este olhar seletivo que justifica que eu não me tenha apercebido de que estava rodeada de estranhos: vi quem julgava ser e não reparei em mais ninguém...

Se a vida fosse um álbum de fotografias, tudo seria mais fácil...Surgiu-me,subitamente,mais um título para um romance que nunca escreverei álbum de fotografias, recortes fotográficos ou vida em recortes... Lá estou eu a fazer concorrência à margarida rebelo pinto...No entanto, o título pode desmerecer o que seria a obra. Tivesse eu engenho e arte...

sábado, 10 de novembro de 2018

(In)Decisões...

Ser lúcido é estar indisposto consigo próprio. O legítimo estado de espírito com respeito a olhar para dentro de si próprio é o estado (...) de quem olha nervos e indecisões.


E, ó vento vago
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.

Ergue-a em ondas
De iras ou de ais,
Vento que rondas
Os pinheirais
!


Overwhelmed, you chose to run Apathetic to the stunt



No one plans to take the path That brings you lower And here you stand before us all And say it's over, it's over

"Pensei neste livro enquanto escrevia o final de 'Os Memoráveis', queria escrever a história de uma família que resistia à adversidade, tentando cada um esconder a sua vida privada aos outros". "Seriam vidas paralelas de resistência, e todas elas tinham em comum o facto de serem figuras prometaicas anónimas. Quis que este Estuário fosse o símile do local por onde corre o rio das histórias, que se retêm por uns instantes na brancura das páginas, antes de desaparecerem no esquecimento."


A perda de três dedos, e um troço da palma da mão direita,colocara-o no centro de um universo até então desconhecido. Valeria a pena a troca? Ninguém além dele mesmo tinha acesso ao dilema, mas o próprio por vezes, possuindo agora o que antes não tinha, achava que sim, que valia.
Valia a pena


Alguém teria de escrever esse livro, um livro que fosse, ao mesmo tempo, o último do passado e o primeiro do futuro. Teve a certeza disso mesmo, no dia em que o médico finlandês, o Dr. Häkkinen, um folgazão subitamente assaltado por mau humor, se sentou na cama ao seu lado e começou a discorrer sobre a contradição do universo humanitário. Para quê todo aquele sacrifício? Para quê, se o caminho sempre seria o martírio da vida de uns pela sobrevivência de outros? E para quê poupar uns em nome de outros, se a catástrofe era certa, e sobre alguém sempre acabaria por recair?


A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer.
Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.
As casas eram grandes jazigos impossíveis. As árvores, no seu alinhamento ao longo da avenida, vagas atitudes despidas de nos poderem dar qualquer ideia de vegetais. Tive de repente uma sensação ampla e absurda — a de que eu era um mar, ou o traço de um mar, que a vaga proa de não sei que navio vinha erguidamente abrindo.Pareceu-me que me dividia e que através do meu dividir, me passavam sensações de outras coisas e que essas sensações por me dividirem no passar, não eram sentidas por mim.Acabou tudo como uma rua quando viramos a esquina. Tive uma dificuldade física em me crer existente. Para além da linha dos cimos dos prédios olhava a […]


As palavras pugnavam por abrir caminho, continha-as num acto de prudência, de vontade de secretismo ou, pelo menos, de discrição, como se a matéria fosse delicada e não devesse transcender, talvez nem expressar-se , porquanto o que é expresso instala-se no ar e torna-se difícil fazê-lo retroceder.

Não é exequível não entender aquilo que noutra época não se entendia, uma vez que se entendeu.; a ignorância não regressa nem sequer para relatar o período em que se gozou ou se foi vítima dela, falseia quem conta algo dando-se ares de inocência e ostenta a dos tempos de infância, adolescência ou juventude(...) está encerrada a conta e jamais alguém a vai reabrir...

"Deve ter-me escolhido por isso, pela minha insignificância", pensei, " Contá-lo a mim é o mais parecido com o não contar a ninguém. " ... A mim pode despedir e perder de vista, pode quase cancelar-me, serei um vazio antes e depois. Por outro lado, também posso indagar, aprofundar ou sondar. Não tenho ressonância, nem dou azo a consequências.

A verdade é uma categoria que se suspende enquanto se vive...Sim, é ilusório ir atrás dela,uma perda de tempo e uma fonte de conflitos, uma estupidez. E, no entanto, não podemos deixar de o fazer... porque temos a certeza de que existe, embora se encontra num lugar e num tempo aos quais não podemos aceder.


Enquanto personagem de ficção, Ricardo Reis é mais do que um heterónimo (…). Ele está no centro de uma ação narrativa em que lida com outras personagens, vive situações amorosas, conhece factos históricos e circula por espaços que identificamos sem dificuldade. Nesse sentido, O Ano da Morte de Ricardo Reis deve ser considerado uma obra que “fala” ao nosso tempo; para isso, importa estabelecermos ligações entre aqueles factos, aqueles espaços e o nosso mundo, que é o de quem vive já no século XXI. Por exemplo: o tempo político de Salazar e os anos anteriores à segunda guerra mundial (Saramago situa a ação do seu romance em 1935 e 1936) tiveram consequências que se prolongaram ao longo do século XX; essas consequências fazem parte das nossas vidas. Para a história da Europa e do mundo, aqueles anos foram decisivos. Embora eles não se encontrem representados na ficção de Saramago como o são num manual de História, a verdade é que, através da ficção, adquirimos um outro conhecimento, como que “reinventado”, de figuras e de episódios históricos. De certa forma, é isso que se passa noutros romances de Saramago, por exemplo, no Memorial do Convento e na História do Cerco de Lisboa. A estes e também a O Ano da Morte de Ricardo Reis pode bem aplicar-se aquilo que o seu autor um dia escreveu, quando falou numa certa alternativa ao trabalho do historiador : “Restará sempre, contudo, uma grande zona de obscuridade, e é aí, segundo entendo, que o romancista tem o seu campo de trabalho.
(Carlos Reis, Coleção "Educação Literária. Leituras Orientadas")

“Se houver Deus, ele é um mau romancista”- A linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo. É o ponto de partida deste romance de Laurent Binet. A linguística e os teóricos franceses da segunda metade do século XX são personagens. Ficção ou realidade?
“Tenho grande admiração pela maior parte destas pessoas, mas ao mesmo tempo acho-as cómicas”, “Por exemplo, muita gente ficou chocada com o modo como escrevo sobre Foucault, mas as cenas sobre Foucault no meu livro são na maioria verdadeiras, foram contadas por velhos amigos, estão nas biografias; como ele se comportava em grandes festas, o consumo de drogas, como ficava bêbado e deixava de conseguir falar inglês.” “Quis mostrar que saber usar a linguagem é muito útil, partindo de estudos abstractos, como a Semiótica ou a Retórica. A Semiótica é útil para entender o mundo e a Retórica é útil para lidar com ele, para conquistar poder, por exemplo, uma arma poderosa.”


- Esse Chaussure(1), ele conhece Barthes?
— Ele não, já morreu, é o inventor da Semiologia.
— Hum, estou a perceber. No entanto Bayard não está a perceber coisa alguma. Os dois homens atravessam a cafetaria. É uma espécie de hangar devastado que tresanda a merguez, a crepes e a erva. Um tipo grande e desengonçado com botas de pele de lagarto, lilases, está de pé sobre uma mesa. A prisca nos beiços, uma cerveja na mão, arenga uns jovens que o escutam, de olhos brilhantes. Como Simon Herzog não tem gabinete, convida Bayard a sentar-se e, maquinalmente, oferece-lhe um cigarro. Bayard recusa, saca de um Gitane e recomeça: — Concretamente, isso serve para quê, essa... ciência?
— Ora bem... para compreender o real?
Bayard esboça uma careta. — Isso quer dizer?
O jovem doutorando leva alguns segundos para pensar. Avalia a capacidade de abstração do interlocutor, manifestamente limitada, adaptando a sua resposta em função disso, ou eles não irão sair dali durante horas.
— De facto, é simples, há uma quantidade de coisas à nossa volta que têm, enfim, uma função de uso. Está a perceber?
Silêncio hostil do interlocutor. No outro extremo da sala, o tipo das botas de pele de lagarto, lilases, conta aos seus jovens discípulos a grande façanha de 68 que, na boca dele, parece uma mistura de Mad Max e de Woodstock. Simon Herzog tenta simplificar ao máximo:
— Uma cadeira serve para nos sentarmos, uma mesa para comermos, uma secretária para trabalharmos, a roupa para nos mantermos quentes, etc. Certo?
— Silêncio glacial. Prossegue: — Só que além da sua função de uso… da sua utilidade, esses objetos são igualmente dotados de um valor simbólico... como se fossem dotados de palavra, se prefere: eles dizem-nos coisas. Essa cadeira, por exemplo, em que está sentado, com o seu nenhum design, essa fraca madeira envernizada, essa armação ferrugenta, diz-nos que estamos numa coletividade que nada quer saber de conforto nem de estética, e que não tem dinheiro. Além do mais, estes cheiros indefinidos a cantina de má qualidade e a cannabis confirmam-nos que estamos num local universitário. Do mesmo modo, a sua maneira de vestir assinala a sua profissão: usa fato, o que denuncia um emprego de funcionário, mas a sua roupa é modesta, o que implica um salário modesto e/ou uma ausência de interesse pela sua aparência, exerce assim uma profissão onde a apresentação não conta, ou conta pouco. Os seus sapatos estão muito coçados, embora tenha vindo de carro, isso significa que não passa o seu tempo numa secretária, mas no terreno. Um funcionário que sai do seu gabinete tem todas as probabilidades de ser destacado para um trabalho de inspeção.
— Hum, estou a ver — diz Bayard.

(1 ) Trocadilho, de gosto duvidoso, entre o nome do famoso linguista Saussure e «chaussure», sapato.

I want you more than I need you I need you so bad Are you coming back? Are you coming back? I’m waiting...



Cross over and turn Feel the spot don't let it burn We all want we all yearn Be soft don't be stern Lullaby Was not supposed to make you cry I sang the words I meant I sang...

Lullaby - Acordei a pensar nesta palavra inglesa, que me cativa, sobretudo pelo significante, e descubro o tema em pessoa... Regresso, momentaneamente, à minha infância , sem "lullabies"...

Nurse, I known now
That love is vain.
When I was small
You used to sing
And soothe my brow
Till calm lost pain.
That song recall
And to me bring.


God knows. And an He knew not
And were not, what of it?
No matter that we do not
Our life with living fit.
Glad to have sleep and tears,
Lullaby to our fears!


Mother, my cheeks are wet.
Let down my hair and kiss
My brow. I seem to forget
Even if I think of this.


Lullaby to me, mother,
Lullaby to me.
I loved and was not loved, mother.
Kiss me and let me be.


e tudo é uma doença incurável. A ociosidade de sentir o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir.(...)

Não sei viver! nem fui para viver Destinado; porquê então a vaga Aspiração que tenho? Regresso sempre...You know i need solitude just as much as i need you by my side.




Alea iacta est... Palavras atribuídas por Suetónio a Júlio César, quando passou o Rio Rubicão, contrariando as ordens do Senado Romano, Esta frase emprega-se quando se toma uma decisão enérgica e grave, geralmente irreversível, depois de se ter hesitado muito.

You know I can't sleep, I can't stop my brain You know it's three weeks, I'm going insane You know I'd give you everything I've got For a little peace of mind I'd give you everything I've got for a little peace of mind I'd give you everything I've got for a little peace of mind...



Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.(...) Tive de repente uma sensação ampla e absurda — a de que eu era um mar, ou o traço de um mar, que a vaga proa de não sei que navio vinha erguidamente abrindo. Pareceu-me que me dividia e que através do meu dividir, me passavam sensações de outras coisas e que essas sensações por me dividirem no passar, não eram sentidas por mim. Acabou tudo como uma rua quando viramos a esquina. Tive uma dificuldade física em me crer existente.[…]



Yo sé que no sé tomar una decisión. Ando como perro en cancha de bochas Quiero algo pero digo no Y en vez de irme siempre me quedo. Tengo que librarme de toda opinión Dudo de lo que hago aunque me guste Y si alguien viene y dice: mmm! Largo todo y pienso en cómo, dónde y cuando hacerlo ¿Qué le voya a hacer? ¡No hay caso, no aprendo! Sólo sé que al final lo lamento Cambio ideas que me llaman, llaman, llamando Y van cambiando, yo voy cambiando Y voy dudando, lo hago dudando Y voy pensando, lo hago pensando ¿Para qué sembraron la duda? Oigo voces dentro Me abruman

domingo, 26 de agosto de 2018

Encontros...Desencontros... Reencontros

“Ninguém imagina Miguel Ângelo a fazer uma pincelada, depois a responder a um email e voltar outra vez à pintura. Os artistas passavam semanas fechados num compartimento, sem falar com ninguém, só saíam para comprar comida, sem largar o seu objecto. Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cinco horas em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E este tempo prolongado com o mesmo objecto, concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias e o mundo contemporâneo estão a perturbar.” … “se um artesão está a fazer um objecto e de dois em dois minutos levanta a cabeça há uma dispersão.”

A propósito de Heidegger, Steiner escreve. "Precisamos de dar mais assistência ao pensamento." (1) Esta assistência, esta atenção cuidadosa pode ser interpretada como a atenção que se tem em relação a um ferido e, sendo assim, é quase comovente: não tires os olhos do pensamento; ele precisa de ti. Eis o que cada um de nós poderia dizer. E neste pensamento há uma marca que permite o avanço; a "fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar"(2), escreve Steiner. Questionar "é a tradução do espanto em acção". Não basta, pois, o espanto imóvel, o espanto contemplativo, precisamos de um espanto agressivo, que ameace, que questione. Um espanto que sabe para onde vai. Como diz uma das personagens de Musil: é "tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção!"(3)
Para Heidegger, segundo a interpretação de Steiner, as "técnicas metafísicas de argumentação e sistematização impedem-nos [...] de exprimir os nossos pensamentos no registo vital da interrogação"(4). Mas a interrogação é essencial. Impor afirmações que põem questões...


"O que ele encontrou não era o que os outros procuravam. E estamos aqui perante uma definição de indivíduo e do seu isolamento no meio do grupo: eu encontro o que os outros não procuram, eu procuro o que os outros nunca encontrarão."


MARIA:
Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...

Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.

Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales

Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.

Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (...)
Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas, buscas

E encontras cinzas.
Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,

E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.
Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?

MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu'rer sentir?

A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim. A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.
Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distracção, me encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha […] ao sonho. Não tive sequer reles castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não poderia jogar nunca; nem caíram, foi preciso destruí-los, com um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria recompor sobre a mesa inteira a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac dos arredores, apressado pelo peso entre os postscriptos do perdido.


Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixei de ser
E inutilmente, [...] choro
O que sou e não pude ter.


Sinto-me, estupidamente, romântica. Aliás, o advérbio é redundante: não há outro modo de o ser ...

O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...
O único olhar sem interesse recebido no acaso...
Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim.
.



Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.



( Se fernando pessoa descobre que é local de encontro intertextual com lencinhos populares, bane-me como leitora...Divertiu-me associar a solenidade de um dos poemas mais solenes da Mensagem a um sentir pueril e ingénuo, em indigna ortografia. )

Se me aproximar devagar será que vais fugir? ou se vou conseguir mais um tempo ao teu lado? para te entreter mais um pouco ou te fazer sorrir para ti ou pelo sonho vamos juntos viajar. Medo é desculpa em leve chuva e querer morrer de amor não é historia de outro tempo.



Os génios não têm, não precisam de ter biografia.

Super Flumina Babylonis
A ascensão da estreita escada escura, e tão a pino, com os degraus muito altos e cambaios, era, sempre que voltava a casa, uma tortura. À força de equilíbrios, meio encostado à parede, cuja cal já se esvaíra havia muito e até nas suas costas, e apoiando em viés uma das muletas no extremo oposto do degrau de cima, ia subindo cuidadosamente, num resfolegar de raiva pela lentidão. Toda a unção adquirida na conversa com os frades de S. Domingos, a cujas prelecções regularmente assistia, ficando depois a discretear com eles, se perdia naquele regresso a casa, ao fim da tarde, e mal se recompunha no repouso à janela, sentado no banquinho baixo, comido o caldo, e ruminando memórias e tristezas, enquanto a velha mãe prosseguia intermináveis arrumos pontuados de começos de conversa, a que respondia com sorrisos e distraídos monossílabos ou com frases secas em que ripostava mais a si próprio que a ela mesma. Às vezes, ela insistia, repetindo um comentário, por uma resposta sua. Mas mesmo essa insistência não significava comunicação efectiva: ela apenas pretendia tranquilizar a própria consciência e o seu dó do filho envelhecido e doente, que a vida destruíra, com algumas palavras que lhe dirigisse, simulando uma conversa que não o deixasse entregue, perigosamente, aos solitários pensamentos, onde é sabido que o Inimigo especialmente se insinua. E não era dos pensamentos que ele tinha medo, mas dos vazios cada vez maiores que, entre os pensamentos, se faziam. Quando ela lhe falava, e sobretudo quando ela insistia, precisava não se deixar distrair pelas palavras que ouvia: ou logo, no fio interrompido das ideias que continuamente deslizavam como um rio revolto, se abria um vácuo tenebroso, um vórtice sombrio em que flutuavam farrapos de versos e de coisas vistas, e, mais no fundo, como que uma pequenina porta iluminada, ou um vidro posto sobre estranhas águas em que nadavam esquisitos seres, e que parecia um olho fito nele, pestanejando ou palpitando, não sabia bem, talvez que, sim, nem mesmo um olho, mas uma transparência marinha como os reflexos das ondas ao luar. A pequenina porta, que lhe fazia vertigens, nem sempre se mostrava. Na maior parte das vezes não havia mais que o poço em que se debruçava, ansioso de que a portinha se abrisse e tremente até ao arrepio pela frialdade que dela vinha. Fechando os olhos, cerrando-os com bastante força, conseguia então afugentar aquelas visões» ou aquela visão, sempre a mesma, que sonhava acordado. Porque dos sonhos tinha ódio. Pensar, devanear, lembrar, imaginar, mesmo supor como tudo poderia ter sido numa vida triunfante e num outro mundo, não era sonho, mas a certeza de que existia, de que as coisas se arrumavam por sua vontade, que a ordem delas e do Mundo era um desconcerto que ele organizava mentalmente. Quando dormia, não sonhava nunca. Não eram sonhos as coisas que então via, mas a continuação do mesmo poder e da mesma certeza, ou então tentações do demónio, como diziam os padres. Mas as tentações ele conhecia bem.. Não eram tentações da sua alma que Deus não deixaria que se perdesse nunca, a não ser naquele vórtice estranho onde parecia que Ele não penetrava. Como tentações? Que tentação era ter nos braços uma mulher que lhe escapara? Que tentação era matar, dormindo, um inimigo poderoso e inacessível? Que tentação era ver-se feliz num palácio, rico, respeitado, rodeado de servos e de admiradores, com uma mesa farta de bons petiscos e de bons vinhos, e com saúde e vigor para uns jogos de armas ou para uma bela amante pescada na rua, todos os dias uma diferente? Que tentação ver-se na Corte, com bom gibão de veludo e a gola de finas rendas, ouvindo os elogios dos seus pares, e recitando ou lendo o último poema escrito? Não eram tentações estas coisas, não, mas consolações piedosas da sua alma, a satisfação do que lhe fugira, a plenitude do que não tivera, a saciedade do que não bastara, a conquista do que jamais pudera ter sido seu. Pecado é sonhar com o futuro: desejar a mulher que se viu neste instante, querer com fúria o que é dado a outros, invejar furiosamente, como coisa que nos foi roubada, a felicidade alheia que está dançando, sem vergonha e sem respeito pela nossa miséria, diante dos nossos olhos que param a vê-la. Mas imaginar-se feliz no passado, com aquilo que fugidiamente o perpassara, e não fora nunca do tamanho da sua fome, não era tentação, não era um pecado, era, sim, a sua única riqueza, a sua única razão de esperar a morte, seco de amor, exangue de entusiasmos, descrente da pátria, destituído até da alegria de fazer versos. Os seus versos, agora, haviam-no abandonado. Haviam-se desfeito, como açúcar, no rio ininterrupto do pensamento, aonde antigamente flutuavam de súbito, como pedaços de ardente gelo, que um a um se atrelavam para dar um poema. E não tinha deles saudade alguma. Não fora nunca para si próprio que os escrevera. Para os outros, sim. Para que o ouvissem, para que o admirassem, para que o entendessem, para que vissem como tudo, na vida, tinha um sentido exacto que só ele era capaz de achar, uma arquitectura que não teria tido sem ele, uma beleza que não existe senão como a ideia que primeiro é pensada por quem é digno dela.
Empurrou a porta, e entrou. Contra o costume, a mãe não lhe apareceu, nem ele sentiu na casa ruído algum. Fechou a porta, foi até à mesa, e sentou-se na cadeira, encostando as muletas. Sentar-se era um alívio do cansaço, e uma nova tortura também. Mas a ausência da mãe, tão inabitual, tornou menos tortura a tortura de sentar-se ajeitando as partes inchadas e doloridas, acto que, com uma vergonha infinita, era obrigado a fazer diante dela, e que por isso não ajeitava bem, sentindo os olhos da velhinha fitos nele, horrorizados com a monstruosidade dos castigos reservados a quem se entrega aos pecados da carne, sem se manter puro como veio ao mundo. Ela, que, quando o marido voltava de uma viagem, só deixava que ele a beijasse depois de ter a certeza que não havia desembarcado em porto algum, desde muitos meses… Suspirando, sorriu para si mesmo. Na primeira viagem que fizera, ao embarcar-se para a Índia, ainda derrancado das orgias de noites consecutivas, destinadas a prevenir-se para tanto tempo de céu e mar e de conversa de homens, ele… Benzeu-se. Estas memórias eram tentações da carne. E nisso estava a diferença da poesia que escrevera na vida. Umas vezes escrevera na verdade para saber o que pensava. Mas outras vezes escrevera para possuir efectivamente, como, quando era moço, repetia de seguida o acto do amor, não porque desejasse, mas para sentir melhor que possuía, para ter a certeza de que possuía mesmo a marafona de que se esquecera durante a primeira vez. Agora, assim alquebrado e impotente, tudo o que pensava, se o escrevesse, lhe parecia que era só desta poesia que pecava contra o Santo Espírito, e que não era uma dádiva, uma oferta do seu corpo ao corpo em que entrava, mas uma rapina, uma avareza, uma maneira de devorar o próximo. E mesmo de tudo o que escrevera lhe parecia incerto que o tivesse sido abnegadamente, já que sempre ansiara pelo reconhecimento alheio, pelo triunfo, pela glória, pelos prémios, a ponto de contentar-se com o sorriso constrangido dos ignorantes a quem lia os poemas.
Levantou o olhar para a janela. No prédio fronteiro, viu o calafate sentado à mesa, que o observava amigavelmente por cima da escudela fumegante. Acenou-lhe de cabeça, e o outro fez com a mão um gesto largo, que terminou apontando o caldo numa oferta gentil. Correspondeu com um gesto como que de adeus, e desviou a vista. À varanda vieram encostar-se as duas crianças; não precisava de fitar Para saber. Nunca gostara de crianças, nunca pensara em tomar estado para tê-las suas. Talvez por isso mesmo é que tanto ou tudo da sua poesia ficara como aqueles filhos que não quisemos ter, e que depois se despegam de nós adivinhando um desapego de que nos arrependemos, mas que não deixa de ser um desapego mesmo arrependido. O amor para ele fora carne e espírito, tão carne, que nenhum espírito podia estar presente, e tão espírito, que nem toda a carne do mundo, usada dia e noite, chegava para contentá-lo. Até o fastio, que às vezes o afastava longamente de contactos carnais, era uma ardência insatisfeita, que se continha, suspensa e ameaçadora, à espera de esquecer que a carne era sempre igual, e os gestos do amor tão poucos que os sabia já de cor. Mas depois, ao fazê-los, era sempre, como na primeira vez, uma surpresa, uma ignorância curiosa, um receio tímido, uma insegurança doce, um pasmo juvenil, uma alegria nova, um encantamento frenético; era como na primeira iniciação, mas sem a perplexidade e a decepção de o amor não ser mais do que isso, quando a virtude do amor não está em ser mais do que é, mas em ser o prazer de não ser isso mesmo.
Novamente ergueu os olhos para a varanda fronteira. As crianças não estavam lá, e o homem, curvado para a escudela, comia o seu caldo. Aquele mistério da Encarnação, o frade hoje falara muito bem, explicando com eloquência o seu sentido. Mas o sentido da Encarnação não precisava ele que lho explicassem. Quem amara com a carne e com o pensamento como ele, quem escrevera do Amor como ele escrevera, e quem não gostara nunca de crianças, como ele, tinha da Encarnação uma experiência que o frade não tinha. Precisamente porque tudo se encarnara nele sem encarnar-se, e lhe devorara a própria carne, deixando-o aquele farrapo imundo que era agora, quem melhor sabia o que era a Encarnação? Ou, pelo menos, tanto quanto um homem pode sabê-lo? Sentir-se grávido de um poema, sentir-se fecundado por um relâmpago entrevisto, e ser um homem — é o mais que pode saber-se. Não o sabe a mulher que dá à luz, porque é delas dar à luz, às vezes sem ter amado. Não o sabe o homem que quer ter filhos, porque os pode fazer sem amor. Mas o poeta que praticou o amor até à destruição da carne, e escreveu poemas até que o espírito acha pouco a poesia, esse, sim, esse sabe o que Encarnação seja. Apenas, porém, o sabe. Mas não viveu a Encarnação, foi a Encarnação quem o viveu a ele. E é este o grande mistério, não o outro. E é a grande diferença entre um deus que se encarna, e o homem em quem a Encarnação se representa. Uma diferença que é, afinal, uma comédia, ou pode ser vista como uma comédia, porque todo o homem a quem isso aconteça é Anfitrião, um marido enga¬nado pelo Júpiter que há nele.
Ficou vendo diante de si o palco iluminado, e as figuras declamando os versos. A porta rangeu, e os passinhos leves soaram atrás dele. A voz fininha e aguda começou a sua declamação desafinada.
— Esteve hoje cá o Padre Manuel à tua procura, e eu disse-lhe que hoje era dia de ires a São Domingos, e ele disse-me que não se tinha lembrado, e eu perguntei-lhe quando voltava, e ele respondeu que precisava perguntar-te do teu livro, mas não era pressa, voltava noutro dia, ou tu fosses procurá-lo amanhã ou depois. Que é que ele anda a fazer com o teu livro, sempre a perguntar-te coisas? Então um livro desses, que não é de coisas de Deus Nosso Senhor e da nossa santa religião, precisa que tu estejas sempre a explicar o que é isto e o que é aquilo, e a contar a tua vida, nem que ele fosse o teu evangelista? A Virgem Santíssima me perdoe, mas parece-me um grande pecado. E contar a vida às outras pessoas é um grande pecado da vaidade. A vida conta-se ao padre confessor, e faz-se a penitência que ele manda pelas nossas más palavras e obras, e pronto. E, à hora da morte, a gente conta o que ainda lembra ou fez entretanto, e o padre dá a absolvição, se fomos virtuosos e piedosos, e nunca faltámos aos nossos deveres para com Deus e a sua Igreja. Ah, veio também o criado do Senhor Rui Dias, do mando deste senhor, que tão teu amigo é, perguntar pela encomenda que te fez daquelas poesias del-rei David que Deus haja. E eu disse que tu ainda não acabaste e que logo acabas, e que tens trabalhado muito e até tens estudado com o Padre Manuel para que as palavras santas fiquem todas certas e nos seus lugares. E ele disse que o amo estava muito arreliado contigo, que havia mais que muitos meses que tinha feito a encomenda, e que tu não fazias nada, e que já tinha pago adiantado uma parte do trabalho. E eu disse que era verdade, que ele já tinha pago, mas que nestas coisas pagar adiantado alguma coisa é como dar o pano ao alfaiate, porque o alfaiate não pode fazer o gibão sem o pano, e tu não podias escrever sem comer. E disse-lhe que a tua tença estava atrasada e que não a pagavam, e que eu esperava muito da bondade do seu amo e do grande poder que lá tem no Paço que a tença fosse paga em dia, que bem a tinhas merecido de Sua Alteza pelos muitos serviços de teu pai que Deus tenha em descanso, e também pelos teus serviços, que se tinhas sido um rapaz sem juízo, e não tiveste sorte na vida, também eras um homem que escrevia livros, e sabias muitas coisas divinas e humanas, como o Senhor Padre Manuel me disse, e Frei Bartolomeu escreveu na licença que te deu…
— Frei Bartolomeu só disse que eu sabia muito de coisas humanas.
— Pois é. Porque saber de coisas divinas tu podias ter aprendido se tivesses estudado a valer, e tido juízo, que podias hoje até ser bispo e mais do que eles dois. Mas meteste-te com más mulheres e más companhias, e hoje é isso que se vê, e, em vez de seres tu a dar as licenças, és tu quem as vai pedir a eles. Se não fossem teus amigos e tu não lhes moesses a paciência, e não mostrasses como és um homem arrependido da má vida que teve, não ta davam, que isto de frades, Nossa Senhora me perdoe, se alguém me ouve. O teu pai é que se ria deles, e dizia que eram todos uns vadios, que só queriam comer e ter as mulheres dos outros. Abrenúncio, e por isso Deus o castigou com aquela desgraçada morte, que nem teve sepultura cristã. Mas tu podias ir procurar o Senhor Duque ou o Senhor D. Manuel, e lembrar-lhes que a tua tença está atrasada, e eles não há que não consigam, de tão grandes senhores que são, primos del-rei. Eu tive de sair para visitar a nossa comadre Joaquina que está outra vez com a sua dor e não tem ninguém que cuide dela, mas logo lhe disse que não podia demorar-me, porque hoje era dia de ires a São Domingos santificar a alma, que bem precisas, e logo voltavas com fome e querias a tua ceia, e ficavas aborrecido se eu não estivesse em casa quando chegasses, para te dar o caldo, e ela respondeu que não eras nenhuma criança que chorasse pelo peito da mãe, e eu disse-lhe que tu nunca tinhas chorado pelo peito da tua mãe, e é verdade também porque eu te dava logo de mamar mal tu abrias a boca para gritar. Mas que nunca choraste para mamar é a verdade, e só choravas depois, porque o meu leite era fraco e foi preciso trazer uma ama, e o teu pai queria que tu fosses criado com ama, porque não era da nossa condição que tu fosses criado ao peito de uma senhora como eu, esposa de um homem como ele, tudo gente de condição. Mas a condição que nós tínhamos era só o que ele ganhava, e Deus sabe como eu vivi depois que teu pai faltou e tu andavas lá por essas terras de gentios e de infiéis, por tanto tempo e eu sem saber se eras vivo ou morto, e só sabia quando chegavam as armadas e vinha alguém conhecido que me dava notícias tuas, e me dizia que tu tinhas ido para aqui e para ali, ou estavas não sei onde, que para mim todas aquelas Índias são o mesmo, e os nomes das terras são mesmo coisa do demónio, cruzes, de arrenegados para se entenderem. Muitas vezes eu pensava que me escrevias, mas tu nunca escrevias, e muitas pessoas me diziam que tu lá escrevias as cartas dos outros, que escrever bem tu sempre escreveste desde muito pequeno] mas punhas as coisas bonitas no papel para eles, e para mim nada. E eu ficava rezando a Sant’Ana e a Nossa Senhora e às vezes até mudava de santo para que nenhum se cansasse de me ouvir, sempre temendo que morresses nas guerras e nos naufrágios, ou dessas doenças que há lá, e a pensar que às vezes eu podia estar a rezar pela tua boa sorte e as rezas afinal servirem para te descontar os dias de Purgatório pelos teus pecados e leviandades, e o corpo que eu dei à luz estar comido dos peixes ou do gentio, sem sepultura cristã, como teu pobre pai que Deus haja e eu só soube tanto tempo depois. E a comadre Joaquina deu-me este pastel que aqui trago e que é de uma galinha que lhe deu a vizinha, ou uma meia galinha só, de que ela fez este pastel, e me disse que tinha outro e que te mandava este, mas queria que tu lhes escrevesses uma oração em verso a S. Crispim de que é muito devota, e eu disse que tu havias de escrever depois de comeres o pastel.
— Eu como o pastel, mas versos aos santos não faço.
— Deus meu, se alguém te ouve e pensa que tu não acreditas nos santos. A Santa Inquisição que nos livrou da maldade e da malícia dos inimigos da nossa Fé manda que se acredite nos santos, e eu bem sei que tu não acreditas, nunca te encomendas a eles, e é por pecado de orgulho, ao que me disse o Padre Manuel, quando eu lhe falei da minha aflição por tu não acreditares nos santos, e ele me respondeu que tu achas os santos pequenos de mais para ti, e não te contentas senão com Deus Nosso Senhor. Eu até fiquei arrepiada de pensar no perigo que é não ter um santo que nos proteja. Se não fossem o Senhor Duque e o Senhor D. Manuel e o Senhor Rui Dias e outros senhores assim, eu queria ver de que é que tu vivias, que el-rei nem saberia da tua existência. Deus me perdoe, mas não é que Deus não saiba de ti, porque ele sabe de todos nós e é um pai aman¬tíssimo que não tira os olhos de nós. Mas está na sua divina majestade, ocupado em reger o Mundo, e nunca ninguém ganhou causas sem advogado. A mim a Senhora Sant’Ana nunca me desampara, eu nem sei o que seria de mim e de ti sem ela. Que este pastel é um milagre dela. Quando eu saí para visitar a comadre Joaquina, ia dizendo comigo que a Senhora Sant’Ana fizesse que eu não voltasse para casa com as mãos vazias e trouxesse algum petisco para o meu filho, e pedi mesmo um pastel de galinha, que era o mais certo, porque a comadre Joaquina sempre tem pastéis de galinha. E eu não prometi à Senhora Sant’Ana que tu farias o que a comadre pedisse, porque já te conheço, e não há contar contigo para coisa nenhuma que não seja comer o pastel. E por isso não faz mal que não faças os versos a S. Crispim, porque não foi promessa minha. A comadre é que disse que tu, se quisesses, podias fazer, que toda a gente dizia que eras muito bom dizedor, e que fazias logo os versos que te pediam. E eu respondi que isso seria dantes, porque agora tinhas uma encomenda muito boa, de grande rendimento, do Senhor Rui Dias, que nos fazia a honra de ser teu amigo, de pôr em verso os Salmos del-rei David que Deus haja, e que tu não escrevias nada, e até hoje o criado dele cá estivera a reclamar por causa do pagamento adiantado. Tu estás a dormir, tu não ouves o que eu digo? Come o teu caldo enquanto está quente e depois o pastel que é bem gostoso se for igual ao outro que a comadre tinha. Eu já ceei em casa dela, e estou sem apetite só de ver-te nesse estado, um rapaz tão forte e tão bonito como tu eras, que não havia moça que não se voltasse para te ver, nem homem que não se mordesse de inveja. E, quando o sol dava no teu cabelo, eu dizia comigo que o meu filho era como um rei com a coroa na cabeça, ou, Deus me perdoe, como um grande santo de resplendor dourado em dia de procissão. E ficava a ver-te ir pela rua abaixo, tão vaidoso que nem olhavas para trás, com a mão no punho da espada, e os passos tão firmes, Deus meu, que parecia que a terra era toda tua. Por essas e por outras é que as tuas desgraças começaram, com as arruaças e as brigas, e o mau feito, desgraça maior que todas, de acutilares o homem em Dia de Corpus Christi, aquele patife sem vergonha que te desgraçou e fez ir para a Índia e que merecia morrer em pecado, Deus me perdoe se sou eu quem peca. Está tão escuro já que vou acender a candeia. Mas o lume apagou-se e vou descer à vizinha a pedir-lhe lume. Deus Nosso Senhor tenha piedade de mim, velha e cansada, e com um filho homem, e sou eu quem tem de descer a escada para buscar o fogo que não há na minha casa. Abriu o olhar às trevas e ao silêncio. Conhecia tão bem os cantos da quadra, que era como se estivesse vendo a arca e o oratório com o raminho entalado, os quadrinhos de santos pendurados, a prateleira com os pratos em pé, a enxerga ao canto, onde ele dormia, a porta da alcova de sua mãe e a porta da cozinha. Via tudo com a mesma cer¬teza e a mesma minúcia com que vira as naus do Gama nave¬gando no mar, lá em baixo, vistas do Empíreo, com que vira Vénus abraçada a Júpiter e chorando, com que vira o Ada¬mastor sair da nuvem grossa, com que vira o Veloso correndo pelo monte abaixo. Mas ele acutilara o Borges, porquê? Para que a vida lhe mudasse de rumo, para que ela tomasse um rumo de fatalidade, para que as índias lhe fossem impostas pela sua estrela, para que a sua estrela existisse. Erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se conjuraram, os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava amor somente. Perdição. Amor somente. Como a poesia é falsa e verdadeira. Como ela diz não dizendo, e é não dizendo que diz. Como da nossa alma não sabemos nada antes de escrevê-la, e como não é dela que sabemos depois de ter escrito. A perdição procura-se, como um homem se despe para banhar–se no mar, a modos que Leandro atravessando o Helesponto. E o amor somente bastaria, como o momento em que tudo se esquece, tudo desaparece, tudo se evapora, ao calor que abrasa e que só dura um instante mas um instante em que o tempo se suspende, se petrifica num espaço e numa forma, e todo o verdadeiro espaço foge velozmente, correndo pelos tempos fora até que é ele o tempo que se suspendeu. Apenas como isso, porque é uma imagem do supremo amor, aquele que existe além do tempo e do espaço, além das esferas, além daquele poço terrível. Além ou aquém? E se esse amor não fosse mais do que uma imagem, uma essência última da sua própria vida?
Estranhamente, no silêncio e no fluxo dos pensamentos, o poço abriu-se insólito e translúcido na sua profundeza negra, com as pequeninas formas flutuantes, e uma subia, subia, tomando cor e feições de uma medusa terrífica. Mas a porta rangeu, e uma vaga claridade fez emergirem os objectos, como formas planas, sem sombras na luz fraca. Os passinhos soaram leves.
— A vizinha diz que, no intervalo antes de tu chegares, quando eu já tinha saído, veio cá também aquele doutor que te pediu as poesias para aquele senhor que não tem nome cristão, o Senhor D. Leonis. Hoje veio cá todo o mundo, até parece o Dia de Juízo. E ele que vai de viagem ficou com muita pena de não te ver, e disse-lhe que te deixava muitas lembranças e que queria muito que tu melhorasses de saúde, e ela respondeu que tu estavas mesmo muito acabado, e ele disse que tu não acabavas nunca, porque tu eras um grande poeta, um dos maiores que já tinha havido no mundo, assim uma coisa como nem sei quem ele disse. E ela riu-se muito, e disse-lhe que o Senhor Padre Manuel também dizia o mesmo, e que era tudo bondade deles, porque isso de poesias nunca davam nada a ninguém. Só que a ti deram a tença, mas foi por causa do livro impresso e pelos muitos serviços a el-rei que o teu pai prestou em sua pobre vida, e tu também. E ele respondeu que era sempre assim que as coisas aconteciam, que a glória só vinha muito tarde, e que os prémios, quando eram dados, nunca vinham pelo que a gente merecia mais. Eu acho que isto é descrer da infinita bondade de Deus Nosso Senhor, e não é muito respeitoso para com Sua Alteza que te deu a tença. O que é preciso é que tu vás ao Paço reclamar que não te pagam a tempo e horas, que estou cansada de me arrastar até lá, e sempre me perguntam porque tu não vais, e o outro dia o tesoureiro até me disse que era tudo história, que não ias porque tinhas morrido, e eu, se queria receber, tinha de pedir a el-rei a tença em meu nome. E tu não vais porque tens esse pecado de orgulho, e não queres que te vejam de muletas, a pedir que te paguem o que te devem. Eu é que estou cansada, e vou-me deitar que não posso mais comigo. Tem cuidado com a candeia, não gastes muito azeite, que está pela hora da morte, e bem sabes que tenho medo dos fogos e podes adormecer aí na mesa, não era a primeira vez, e a candeia pegar fogo à tua papelada, e à casa, Deus nos acuda e Santa Bárbara nos proteja. Se voltar cá o criado do Senhor Rui Dias, o que é que lhe digo? Nem me respondes, estás a cair de sono em cima da mesa. Tem cuidado com a candeia… Ficou olhando as chispinhas delicadas que a candeia fazia, como uma auréola à volta de um centro ardente. Se o criado de Rui Dias lhe aparecesse, ou ele mesmo, diria que, noutro tempo, era mancebo, farto e namorado, querido e estimado, e cheio de muitos favores e mercês de amigos e damas, com que o calor poético se aumentava, e que agora não tinha espírito nem contentamento para nada… Seriam 365 versos, tantos quantos os dias do ano, como uma via sacra da vida, 73 quintilhas como…
Levantou-se impelido por uma ânsia que lhe cortava a respiração, uma tontura que multiplicava a pequenina luz da candeia. Apoiado à mesa, arrastou-se até à outra ponta, e daí deixou-se cair até à enxerga. Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inú¬teis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tre¬mura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos de alma penetrantes que viam o fundo das coisas. O poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas, com a mão muito firme, começou a escrever… Sobre os rios que vão de Babilónia a Sião assentado me achei… Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei…
E ficou escrevendo pela noite adiante.


My dear,
In the midst of hate, I found there was, within me, an invincible love. In the midst of tears, I found there was, within me, an invincible smile. In the midst of chaos, I found there was, within me, an invincible calm. I realized, through it all, that… In the midst of winter, I found there was, within me, an invincible summer. And that makes me happy. For it says that no matter how hard the world pushes against me, within me, there’s something stronger – something better, pushing right back.
Truly yours,
Albert Camus


É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo — apesar de, em sensações, ser magnífico. 0 amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.
0 amor não se vê como
se fosse uma presença.
É demasiado completo
para ter uma forma. E como jamais
se conseguiram obter juros de uma coisa
que não ocupa espaço, é preferível não, parece-me.

Mas o que nunca conseguira era ser exterior à indiferença; ser exterior a si ,nos momentos, inúmeros, em que se encontrava neutro face às coisas, inerte e em estado de espera perante a possibilidade de um acto ou do seu contrário.

Mas o que era concretamente este lá, este outro sítio que por vezes parecia ser o seu centro outras vezes o seu oposto? Sobre a localização geral desse lá, Walser não tinha dúvidas: era o cérebro. Era ali que tudo se passava ou que tudo o que se passava era observado. Ali fazia, e ali via-se a fazer. Como qualquer louco normal, pensou Walser, e sorriu da fórmula.

Vendi-me de graça aos casuais do encontro.
Amei onde achei, um pouco por esquecimento.
Fui saltando de intervalo em intervalo
E assim cheguei a onde cheguei na vida.
Hoje, recordando o passado
Não encontro nele senão quem não Fui.
.

Now that mountains of meaningless words and oceans divide us And we each have our own set of stars to comfort and guide us Come into my sleep...




Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela ver -te
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?


Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo.

If this was our last song, what would we do then? (If)this was our last song, what would we say then? If this was our last time, what would we do, what would we say then?


A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida.(...) Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha». Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera.

Esperar pelo melhor é preparar‑se para o perder: eis a regra. O pessimismo é bem grande, é fonte de energia.

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena... A repressão do amor ilumina os fenómenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a ideia atinge, sem se estragar, o conhecimento da realidade.

Conheci o joão de melo com quem almocei duas vezes. Embora o contacto pessoal fosse fugaz, teve algo de interessante : temos em comum a leitura da obra de ferreira de castro e o lamento pelo esquecimento total a que este escritor foi votado, neste deserto de margaridas, matildes, pedros, tonis e teresas...

Pacifica-me a certeza de que , em agosto, vou reencontrar a minha T. ( Só gosto de encontros programados; os inesperados perturbam-me sempre: não sei como reagir, não imagino que reação vou desencadear, o que me deixa insegura, absolutamente indefesa...) Será sempre um mistério a perfeita racionalidade que ela aparenta, nunca se revoltou contra nada, nunca se lhe surpreendem atitudes de contrariedade, nunca é excessiva. Será sempre um mistério o que sente, o que pensa sobre a vida, para além da literatura e da filosofia e, acima de tudo, que papel desempenham, na sua rotina existencial, os nossos encontros.

É determinante o subcontexto espacial em que se circula: ninguém se encontra, naturalmente, se se enquadrar em diferentes microespaços: quem vai ao pingo doce, nunca encontrará quem só compra no continente...Julgo que será só por este motivo que as pessoas casam e coabitam: evitar desencontros...(Paradoxalmente, esta prudente medida, provoca que se encontre sem procurar, sem nunca ser surpreendido, e dá no que dá...)
É essencial idêntica envolvência cultural: quem gosta só de cinema nunca se encontra com quem gosta só de concertos nem , muito menos, com quem se delicia a pasmar em centros comerciais, exibindo a sua existência acéfala...
Há encontros que, intrinsecamente, são desencontros, pois não implicam , nem matematicamente, a possibilidade de encontro...Para existir um encontro não desencontrado é essencial que duas realidades coexistam no mesmo espaço (físico, sociocultural, linguístico e afetivo...) e no mesmo tempo (cronológico e psicológico)... Há encontros que, inexoravelmente, se revelam desencontros, pois não implicam , nem hipoteticamente, um encontro... Para existir um encontro não desencontrado é essencial que gestos e olhares coexistam no mesmo universo afetivo...
A relação entre Fernando e Ofélia foi um encontro/desencontro entre dois seres predestinados para nunca se encontrarem...

Saltito de livro em livro, estabelecendo associações que só devem existir na minha mente: idealizo o senhor josé de saramago a ler o silêncio de steiner e a perceber o porquê do seu comportamento; sinto o fascínio de bernardo soares; imagino todos os leitores do mundo a ler o mesmo livro, ao mesmo tempo, e ouço um coro ensurdecedor, entoado por jograis desesperados, para quem a vida não tem outro sentido a não ser ler, escrever e pensar, a invadir , progressivamente , todo o planeta.
Sem o mesmo universo de discurso, não há qualquer possibilidade de encontro: uma analfabeta e um escritor podem cruzar-se, chocar frontalmente, dormir juntos, conectarem-se das formas mais palpáveis às mais subtis, mas o seu encontro será ,verdadeiramente, um perpétuo e improfícuo desencontro... Acredito no mito de pigmalião, creio que o amor pode converter o mármore numa carnação ebúrnea, mas sou muito cética relativamente à versão de bernard shaw: há escassas hipótese de , na vida real, existir uma my fair lady; as elizas doolittle permanecem sempre com alma de floristas, mesmo que retoquem a dicção...As diferenças sociais corrigem-se e superam-se, as linguísticas e culturais dificilmente. Um amor que nasce desigual, desigual permanecerá, as elizas reais podem sobreviver, apenas como esposas decorativas e dedicadas, mas...só isso.

‎ Não sou indiferente às repetições, suporto melhor o tédio que certas aventuras desnecessárias. Não estou, pois, obcecado por novidades. Porém não suporto que, em mim, a não surpresa já não me surpreenda. Sou, de uma forma geral, magnífico.E...apesar de culto... Sei estrelar ovos e fazer um arroz vago. E tenho uma força que, quando correctamente aplicada, se transforma em simpatia. Sei sorrir para duas pessoas ao mesmo tempo, e tal facto não é descoordenação da face, mas técnica, aprendizagem, boas famílias e esforço.EU dividiria ( o guarda-chuva) consigo, como a mãe divide o pão com o próprio filho. Porque até os meus músculos mais ferozes têm tendência para o sentimento.

Nesses tempos,andava demasiado ocupado com o " penso,logo existo" e fazia glória daquela solidão metafísica, onde tudo o que era importante se passava dentro de si; os outros não tinham ali entrada nem para saber deles nem para interferirem consigo. Foi um tempo ...em que ele se conhecia e descobria, acariciando a sua própria angústia: uma espécie de masoquismo de quem quer sentir o braço pela dor que tem... Achava que o corpo era um tropeço do espírito porque, enquanto jovens, somos inacessíveis à harmonia das ambivalências.

Naquela tarde, Gonçalo estava ...com grandes dificuldades em estabelecer uma corrente entre a história do seu amor por Maria Egipcíaca e as palavras para a contar. De certo modo teve pena de não ter escrito este livro há vinte anos, na força da sua paixão, porque hoje lhe faltava a frescura dos sentimentos espontâneos... Impressionava-o a inexistência de textos sobre outro amor que não fosse a irrupção dos desejos do corpo e perguntava-se se haveria textos que provassem que um homem e uma mulher podiam conhecer juntos o afecto harmonioso que pode surgir do seu encontro...
O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?


All alone though you're right here...

Por ti deixei meu reino meu segredo...

Gosto dos que não sabem viver, dos que se esquecem de comer a sopa(...) e embarcam na primeira nuvem para um reino sem pressa e sem dever. Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe, transborda e escorre, já rio no chão, e gosto de quem lhes segue o sonho e lhes margina o rio com árvores de papel... Apesar de estar sempre a decidir e a redecidir que vou ser dos que sabem viver, acho que vou gostar sempre,sempre dos que se esquecem de comer a sopa, alheados na leitura , absortos num pensamento ou numa quimera...

Saber viver é vender a alma ao diabo, a um diabo humanal, sem qualquer transcendência, a um diabo que não espreita a alma, mas o furo, a um satanazim que se dá por contente de te levar a ti, de escarnecer de mim...

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece. Este é o reino que buscamos (...)Semelhante ao corpo de Orpheu, dilacerado pelas fúrias , este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa. É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.
O Reino ...coincide com uma certa vida livre e despojada que teremos de reencontrar, para podermos enfim renascer. O Exílio, de certo modo, mostra-nos as vias de acesso a essa outra vida, desde que saibamos nele recusar ao mesmo tempo a servidão e a posse.
A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida. (...) E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

Everything must start again a new Everything just goes that way my friend Every king knows it to be true That every kingdom must one day come to an end

Só quem procura sabe como há dias de imensa paz deserta; pelas ruas a luz perpassa dividida em duas: a luz que pousa nas paredes frias, outra que oscila desenhando estrias nos corpos ascendentes como luas suspensas, vagas, deslizantes, nuas, alheias, recortadas e sombrias.


lost in translation= o amor é um lugar estranho = encontros e desencontros...

Busco-me e não me encontro.
Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa. Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.

Andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos.

E como era natural atravessar a rua, subir as escadas que dão para a ponte, entrar na sua cintura estreita e aproximar-me da Maga, que sorria sem surpresa, convencida como eu de que um encontro casual era a menor casualidade das nossas vidas e que as pessoas que marcam encontros a horas precisas são as mesmas que necessitam de papel pautado para se escreverem ou que apertam o tubo da pasta de dentes desde o fundo...

Por vezes os encontros eram tão incríveis que...se deparava uma vez mais com o problema das probabilidades... O que para ele tinha sido análise de probabilidades...para ela era simples fatalidade. Sentia-me antagonicamente próximo de ...gostávamos um do outro através de uma dialéctica de íman e limalha, de ataques e defesa,de bola e parede...

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, de perto olhas-me, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio.

Toda a gente passou horas em que andou desencontrado, como à espera do comboio, na paragem do autocarro. Estou saturada de ir para a estação de caminho de ferro à espero de um autocarro para lado nenhum...( Ninguém imagina o que me incomoda, o que me irrita, o que me desorganiza sentir-se deslocada, desencontrada...)

Uma das grandes tragédias da minha vida — porém daquelas tragédias que se passam na sombra e no subterfúgio — é a de não poder sentir qualquer coisa naturalmente. Sou capaz de amar e odiar, como todos, de, como todos, recear e entusiasmar-me; mas nem meu amor, nem meu ódio, nem meu receio, nem meu entusiasmo, são exactamente aquelas mesmas coisas que são. Ou lhes falta qualquer elemento ou se lhes acrescenta algum. O certo é que são qualquer outra coisa, e o que sinto não está certo com a vida.(...)Em mim nota-se igual perturbação da certeza do sentimento, mas nem sou calculista nem sou escrupuloso. Não tenho desculpa para sentir mal. Por instinto desnaturo os instintos. Sem querer, quero erradamente.


O erudito,o verdadeiro leitor, o verdadeiro fazedor de livros, vive saturado pela intensidade terrível da ficção...As torres que nos isolam são mais sólidas do que o marfim. Não conheço resposta satisfatória para este problema...

A vida é,por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam,se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo.
Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico). Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade...



A saliva que eu gastei para te mudar, mas esse teu mundo era mais forte do que eu e nem com a força da música ele se moveu!
Contigo aprendi uma grande lição: não se ama alguém que não ouve a mesma canção!




Encontro...
Encontro,empatia...
Empatia,encanto...
Encanto,deslumbramento...
Deslumbramento,cumplicidade...
Cumplicidade,confiança...
Confiança,intimidade...




Intimidade..
Intimidade,desilusão...
Intimidade,desilusão,desencanto...
Intimidade,desilusão,desencanto,desagrado...
Intimidade,desilusão,desencanto,desagrado,irritação...
Intimidade,desilusão,desencanto,desagrado,irritação,raiva...
Intimidade,desilusão,desencanto,desagrado,irritação,raiva,desprezo...


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco ...


sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco




Everything must start again anew Everything just goes that way my friend Every king knows it to be true That every kingdom must one day come to an end...


Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ia esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado na sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se, Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos, não importa averiguar, considerando a insignificância da frase. Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu, arrumou cuidadosamente a guarda-chuva no lavatório, se ainda pingasse lá estaria o oleado do chão, mesmo assim certificou-se primeiro, apalpou a seda húmida, já não escorre, durante todo o caminho de regresso não chovera. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante, reparou que Fernando Pessoa estava em corpo bem feito, que é a maneira portuguesa de dizer que o dito corpo não veste sobretudo nem gabardina nem qualquer outra protecção contra o mau tempo, nem sequer um chapéu para a cabeça, este tem só o fato preto, jaquetão, colete e calça, camisa branca, preta também a gravata, e o sapato, e a meia, como se apresentaria quem estivesse de luto ou tivesse por ofício enterrar os outros. Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência...


que o mais fácil é perder que o difícil é pensar em acordar...



Estou saturada de patetas, de crentes, de declarações de amor e de amizade, de frases feitas e desfeitas, de banalidades solenes, de solenidades banais... Sinto-me a asfixiar: "O real dá-me asma." We are so lonely in life that we must ask ourselves if the loneliness of dying is not a symbol of our human existence.



Never feel too good in crowds With folks around, when they're playing The anthems of rape culture loud Crude and proud creatures baying All I've ever done is hide From our times when you're near me...


A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.


Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.




Leve sonho, vais no chão
A andares sem teres ser.
És como o meu coração
Que sente sem nada ter.



Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e activos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade.
Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingénuos, e eu era ingénuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E, se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas vezes, os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entrevêem.
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção.Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.




Maybe I listen more than you think I can tell that somebody sold you We said we've never let anyone in We said we'd only die of lonely secrets The system only dreams in total darkness Why are you hiding from me? We're in a different kind of thing now...

Há reencontros que são problemas sem solução...

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de reencontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida. Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver. Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.

A minha memória, até a minha memória involuntária, perdera o amor de Albertine. Mas parece existir uma memória involuntária dos membros, uma pálida e estéril imitação da outra, e que vive mais tempo, assim como certos animais não inteligentes vivem mais tempo do que o homem.

Só um momento do passado? Talvez muito mais ; algo que , simultaneamente, comum ao passado e ao presente, é muito mais essencial que os dois. Demasiadas vezes a realidade me decepcionara ao longo da minha vida, porque no momento em que a aprendia a minha imaginação, que era o meu único órgão para desfrutar a beleza, ela se não lhe podia aplicar, por virtude da lei inevitável segundo a qual não podemos imaginar senão o que está ausente.(...) Mas esta ilusão de óptica que colocava junto de mim um momento do passado incompatível com o presente era uma ilusão que não durava muito.(...) De sorte que o que o ser por três ou quatro vezes ressuscitado em mim acabava de saborear eram porventura fragmentos de existência subtraídos ao tempo , mas essa contemplação , se bem que de eternidade era fugida.

Não me parecia que viesse ainda a ter forças para manter por muito tempo agarrado a mim aquele passado que descia já até tão longe. Mas,ao menos, se tais forças me fossem concedidas pelo tempo suficiente para realizar a minha obra não deixaria de acima de tudo de descrever nela os homens... visto que, como gigantes imersos nos anos, eles atingem siultaneamente épocas tão distantes, entre as quais tantos dias ocuparam o seu lugar: no Tempo.

FIM

Reencontro inesperado com Gonçalo M.Tavares...

Perdem-se os pensamentos que guardamos para nós.

Lilith atravessou um caixão aberto, correu de um lado ao outro do caixão. Apenas dois metros de comprimento: duas sensações estranhas: correr em espaço tão curto e esse movimento intenso dentro de uma caixa para guardar a imobilidade. Um exercício filosófico: correr dentro de um caixão.(...) Queres ser louco sobre mim?
Eis a permissão mais generosa: Lilith aceitava que cada um pousasse sobre ela a sua loucura individual.
Podes ser louco à vontade, não contarei a ninguém.
Só as grandes amizades permitem a loucura. A loucura como teste.
Ainda não sei se és meu amigo pois ainda não fiquei louco.



Provadores - Pensar em provadores de música semelhantes aos provadores de vinho. Provam com a orelha: trinta segundos de som e rapidamente percebem o essencial. Sete orquestras em sete salas diferentes, salas fechadas. O provador de sons abre, uma após outra, cada uma das portas e inclina o seu sistema auditivo na direcção do som durante trinta segundos. Durante trinta segundos de vida nada existe senão trinta segundos de música. Ou seja, não são trinta segundos de vida, são trinta segundos de música. Já está. O provador segue para a sala seguinte. No fim, diz: escolho aquela sala, aquela música.

Um homem que gostava de ouvir música às escuras mas com uma lanterna na mão. Quando ligava a lanterna, não a apontava para o aparelho técnico de onde saíam os sons, mas sim para o espaço por onde a música se espalhava. Queria localizar os sons como se localiza um objecto.Eis o ouvido atento: é, além de tudo o mais, um ouvido‑geómetra. Um ouvido que tenta organizar os sons em formas. (Passar de uma modalidade do tempo para uma modalidade do espaço.) O ruído é, então, aquilo para o qual o ouvinte‑geómetra ainda não encontrou o lápis capaz de fazer traços decisivos. Traços que definem interior e exterior, lado direito e esquerdo, baixo e alto. Traços que organizam. Porque o ouvinte‑geómetra faz isto: desenha por cima dos sons; desenha com o ouvido, acto tão estranho; desenha com a sua atenção, com a sua audição meticulosa, desenha separando, organizando — aproximando um som louco de outros sons que o podem ajudar a compreender

Como é que um som deixa de ser louco, como é que um som deixa de ser delirante? Exatamente como uma pessoa deixa de ser louca. Quando algo ou alguém a compreende, a escuta e diz, de forma clara e sincera: entendo-a. Entender o louco é já curá-lo, é já deixar de o considerar louco.

Uma forma de não estares sozinho: cantas, outra forma antiga é esta: pensas. Em vez de optares pela companhia dispensável...eis que optas por não estar sozinho porque pensas ou cantas.

O tempo não se vê nem se ouve, nem se toca. O tempo é portanto coisa invisível e muda, sem cheiro ou sabor, é o nada sem volume nem forma, esse nada que nos esmaga e domina.