Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
segunda-feira, 15 de junho de 2026
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Livros diferentes...
É um hino à amizade, uma elegia à imaginação e, acima de tudo, um poderoso manifesto contra o esquecimento. Como um longo sonho de inverno, estas páginas belíssimas formam muito mais do que um romance - iluminam uma memória traumática, enterrada ao longo de décadas, que ainda hoje ecoa no peito de muitas famílias."
Toda a gente com quem falámos associou o início da decadência do nosso bairro aos suicídios das meninas Lisbon. Embora a princípio as culpassem de tudo, pouco a pouco, foi-se dando uma transformação e elas passaram a ser vistas não como bodes expiatórios, mas como videntes. Cada vez mais, as pessoas foram-se esquecendo das razões individuais dos suicídios, do stress e das perturbações dos neurotransmissores, e, em vez disso, atribuíram as mortes à capacidade que as raparigas tinham para prever a decadência. As pessoas viram a sua clarividência nos ulmeiros ceifados, na severidade da luz do sol, no declínio progressivo da nossa indústria automóvel.
«Foi uma combinação de vários fatores», afirmou o Dr. Hornicker«Na maioria das pessoas , o suicídio é como uma roleta russa. Só uma das câmaras é que tem uma bala. No caso das meninas Lisbon, a arma estava carregada...»
Elas tiveram o propósito de ficarem sozinhas para todo o sempre, sozinhas no suicídio, que é mais profundo do que a morte, e onde jamais encontraremos as peças para as reconstruir.
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
ReleituraS
sexta-feira, 29 de abril de 2022
Fins...
Meu querido Sá-Carneiro:
Acrescente-se-lhe o grande sofrimento que você — sem querer, é claro — me causou com a sua terrível crise. Não sei se você avalia bem até que ponto eu sou seu amigo, a que grau eu lhe sou dedicado e afeiçoado. O facto é que a sua grande crise foi uma grande crise minha, e eu sentia, como já lhe disse não só pelas suas cartas, como, já de antes, telegraficamente, pela «projecção astral» (como eles dizem) do seu sofrimento. Acrescente a estas duas graves razões para eu me apoquentar esta outra — que, à parte tudo aquilo, estou atravessando agora uma das minhas graves crises mentais. E imagine você que, para isto não ser tudo, essa crise mental é de várias espécies ao mesmo tempo, e por diversas razões.
Meu querido Amigo.
A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas «cartas de despedida»... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...]
O que é um fim?
1.O que termina;cessação;morte;desaparecimento;termo...
2.Objetivo para o qual se tende; intenção;finalidade...
O fim cessação conflitua com o fim objetivo; se existe fim objetivo, não há motivo para existir fim cessação. Não será? Tudo tem, afinal, um fim, mas que fim, qual deles?
Escravo do temperamento como das circunstâncias, insultado pela indiferença dos homens como pela sua afeição a quem supõem que sou — (…) os insultos humanos do Destino.
Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser ao mesmo tempo curtos e longos.Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros e perder o nome. As palavras ontem e amanhã eram as únicas que conservavam o sentido.
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã... Só depois de amanhã...Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã...
Depois de amanhã parece-me uma boa decisão. Depois de amanhã ... Depois de amanhã, posso adiar o fim para depois de amanhã e o desaparecimento será sempre só depois de amanhã; o fim de tudo eternamente adiado para depois de amanhã...Sempre depois de amanhã. Não gosto de ontem, não gosto de hoje, não gosto de amanhã, só depois de amanhã...
A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida. Antigamente, a perda dos meus manuscritos, de toda a obra fragmentária mas cuidada da minha vida, reduzir-me-ia à loucura; já agora a contemplava como um incidente casual do meu destino, não como um golpe mortal que aniquilasse, por lhe aniquilar as manifestações, a minha própria personalidade.
Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha».Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante de uma noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo , tão fraternar, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que se sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.
Time moves slow When you're all alone And the time moves slow When you're out on your own And the time moves slow When you're missing a friend And the time moves slow When you came to the end...
This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end I'll never look into your eyes... again...
Fim
Meteu o revólver na boca e estremeceu ao senti-lo frio contra o céu da boca. Mas lembrou-se, não sem prazer [...], que assim se tinha suicidado Antero de Quental. Tirou o revólver e manteve-o na mão, descaída esta sobre a colcha, ao longo da perna.
Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista.
Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da
morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio,
e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já.
Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto.
Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si.
Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida…
Tudo era indeciso e sem fim.
Fechou os olhos e puxou o gatilho…
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero, Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim
A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto. ...A nossa morte é um assunto que interessa mais aos vivos do que a nós próprios...Enquanto nós existimos, não há espaço para a morte, quando a morte chega, deixa de haver espaço para nós. Entre nós e a morte não há nenhuma relação real. A morte não teria nada a ver connosco...o que também explicaria a total serenidade e indiferença, irresponsabilidade e inocência egoísta com que todos os seres a encaram.
A desilusão é só mais um passo Há que saber perder Ceder o espaço Se a desilusão é tudo o que penso Há que saber lembrar O que mereço O que mereço ...A mentira não chega ao fim A mentira não chega ao fim Olha-me mas não de frente Olha-me e a toda a gente A mentira não chega ao fim Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência. Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista. Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já. Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto. Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si. Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida… Tudo era indeciso e sem fim.Fechou os olhos e puxou o gatilho Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade. Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica — Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio, A tua libertação constelada de Noite Infinita. Não tive talvez missão alguma na terra...
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida.
A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar
Amei-te e por te amar Só a ti eu não via... Eras o céu e o mar, Eras a noite e o dia... Só quando te perdi É que eu te conheci...(...)Meu sentir meu anseio Meu jeito de pensar... Eras minha alma, fora Do Lugar e da Hora... Hoje eu busco-te e choro Por te poder achar Não sequer te memoro Como te tive a amar...Nem foste um sonho meu... Porque te choro eu? Não sei... Perdi-te, e és hoje Real no [...] real... Como a hora que foge, Foges e tudo é igual A si-próprio e é tão triste O que vejo que existe. E hoje pergunto em mim Quem foi que amei, toquei Com quem perdi o fim Aos sonhos que sonhei… Procuro-te e nem vejo O meu próprio desejo… Que foi real em nós? Que houve em nós de sonho?[...] Tu e eu lado a lado... Isto... e isto acabado... Como houve em nós amor E deixou de o haver? Amámo-nos deveras? Amamo-nos ainda? [...] Hoje que te deixei É que sei que te amei...Somos a nossa bruma…[...]
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
Before I disappear Whisper in my ear Give me something to echo In my unknown futures ear My dear The end Comes near I'm here But not much longer My dear The end Comes near I'm here But not much longe...
Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometidos loucuras em vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante... Quincas, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sobre o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto nem botequim, de cachaça caseira e comedida.
Há leitores que consideram este retrato de quincas, antes de ser livre, um primor. É entediante: são palavras que não acrescentam nada à imagem que, de imediato , se constrói, assim que se lê nome e apelidos, precedidos de "antigo e respeitável"... As apreciadíssimas descrições minuciosamente realistas são exasperantes e só necessárias para leitores incapazes: palavras, sobre palavras...
Eis uma verdade sacrílega que, em público, não pode ser revelada: eça, jorge amado, garcia marquez e quejandos são escritores menores porque dizem, dizem, explorando o fácil, o imediato e o mais do que óbvio...Gastam palavras com minudências evidentes, estatelando nos seus romances uma pretensa realidade real...
Pátroclo é um herói sem vida própria: uma mera projeção de aquiles, uma eterna personagem secundária... Aquiles era filho de uma deusa e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era herói apenas pela sua virtude, pela pureza da sua aretê....Quem amou, além de aquiles? Que tipo de amor? Filial? Fraterno? Romântico? Sexual? Terá sido amado por aquiles? Pátrocolo só tem princípio e fim...
Aquiles amou-o também distraidamente — ama-se sempre o nosso duplo. Mas, só quando pátroclo morre, aquiles chora , dolorosa e convulsivamente. Lágrimas que pátroclo já não sentiria, lágrimas que lhe poderiam ter permitido morrer com a ilusão de ser amado, mas o destino não lhe concedeu, sequer, um fugaz momento de volúpia, antes da libertação definitiva da sua alma. Pátroclo foi morto porque heitor o confundiu com aquiles. Será que este equívoco o elogiou? O facto é que a trágica morte de pátroclo vai desencadear um impiedoso desfile de mortes...
Se aquiles e pátroclo repartiram, intimamente, o leito, nunca se saberá. Muitos, entre os quais Sócrates, acreditaram que não; tantos outros asseveraram que sim. É-Me, pessoalmente, indiferente a resposta. Uma certeza tenho como indesmentível: aquiles chora de raiva, aquiles não suporta a afronta de destruirem pátroclo; aquiles sentiu-se humilhado; aquiles não chorou por amor...
- Nobre filho de Peleu, é triste e desoladora a notícia que te trago! Pátroclo foi morto em combate...Ao ouvir tais palavras, Aquiles atirou-se ao chão e arrancou os cabelos em desespero. Abundantes lágrimas inundavam-lhe as faces e não cessava de suspirar e lamentar-se profundamente...
Por amor a aquiles, também a escrava briseida chora, embora silenciosamente, o fim de pátroclo: a dignidade obriga-a a ocultar o que sente... O sofrimento de quem não tem , sequer, o direito de chorar é , talvez, o mais intenso...
Antínoo estava morto... Se pensou proteger-me com aquele sacrifício, deve ter-se julgado bem pouco amado para não sentir que o pior dos males seria perdê-lo...Resisti ;lutei contra a dor como contra uma gangrena.A morte é horrenda, mas a vida também.
Contemplemos juntos, um instante ainda, as praias familiares, os objectos que certamente nunca mais veremos...Procuremos entrar na morte de olhos abertos...
Era em Adriano fria a chuva fora. Jaz morto o jovem No raso leito, e sobre o seu desnudo todo, Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo, A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa. Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme Da Natureza em acto de matá-lo. Memória de que el' foi não dava já deleite, Deleite no que el' foi era morto e indistinto. Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes, Cuja frieza agora as sente frias! Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo! Ó olhos algo inquietantemente ousados! Ó simples macho corpo feminino qual O aparentar-se um deus à humanidade! Os lábios cujo abrir vermelho titilava Os sítios da luxúria com tanta arte viva! Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito! Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!
A minha vida é um barco abandonado (...) Ah! falta quem o lance ao mar, e alado Torne seu vulto em velas; peregrino Frescor de afastamento, no divino Amplexo da manhã, puro e salgado. Morto corpo da ação sem vontade Que o viva, vulto estéril de viver, Boiando à tona inútil da saudade. Os limos esverdeiam tua quilha, O vento embala-te sem te mover, E é para além do mar a ansiada Ilha...
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Duas vezes, naquela minha adolescência... longínqua... gozei a dor da humilhação de amar. Do alto de hoje, olhando para trás, para esse passado, que já não sei designar nem como longínquo nem como recente, creio que foi bom que essa experiência da desilusão me acontecesse tão cedo. Não foi nada, salvo o que passei comigo.(...) Cedo de mais obtive, por uma experiência, simultânea e conjunta, da sensibilidade e da inteligência, a noção de que a vida da imaginação, por mórbida que pareça, é contudo aquela que calha aos temperamentos como é o meu. As ficções da minha imaginação podem cansar, mas não doem nem humilham. Às amantes impossíveis é também impossível o sorriso falso, o dolo do carinho, a astúcia das carícias. Nunca nos abandonam, nem de qualquer modo nos cessam.
Viu-a desaparecer com mágoa, com rancor, com humilhação, mas também com um grande alívio, um repouso fundo da respiração da alma, por fim restituída a si mesma. E sentiu, com todo o subtil da intuição, que ela deveria estar sentindo isso mesmo agora, mas deveria estar sorrindo um pouco mais...
Sentiu a grande humilhação de ter sido estimado ... A própria troça fora melhor, porque a troça fora da mulher, mas a estima era da natureza através dela.
Quando a canção chegou ao fim, Kraus deu um passo em frente, afastando-se do semicírculo que havíamos formado, e disse lentamente mas com uma solenidade tanto maior." Dorme, descansa tranquilamente, querida Fraulein.(...) E agora adeus, Instituto Benjamenta
As a free-fall advances I'm the moron who dances Ahhahhhahhhahhhahhahh I was teething on roses I was in guns and noses Ahhahhhahhhahhhahhahh Under the withering white sky's a humiliation...
No fim de tudo dormir. No fim de quê? No fim do que tudo parece ser..., Este pequeno universo provinciano entre os astros, Esta aldeola do espaço, E não só do espaço visível, mas até do espaço total.
O, du lieber Augustin, alles ist hin... Lembrou-se da professora de alemão, a cantar com um entusiasmo verdadeiramente contagiante, com o ponteiro a fazer de batuta... Recordou uma pessoa bonita e ensaiou um desenvolvimento não humilhante para estes fins...
Me and you and you and me No matter how they toss the dice It had to be The only one for me is you And you for me...
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim... Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. Com esforço, mas era para bom fim. Ao menos era para um fim. E assim como sou não tenho nem fim nem vida.
E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras.(...) Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. (...)Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!(...) Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.
Chamo-me Clarisse e vou morrer. Mas, entretanto conheci um tipo cínico que era médico e resolvera os seus problemas de consciência escolhendo uma especialidade cujos clientes não tinham uma migalha de esperança à sua frente.
Pedia-me aqueles nadas que reanimam uma vida. Enfim: a torpe ilusão de que poderia haver um erro ou uma possibilidade. Mas nem só Clarisse necessitava dessa ilusão, embora fosse eu, que também dela necessitava, a última pessoa que a doença pudesse burlar. Não era apenas a magreza, o embaciado amarelento da face, os olhos que começavam a parecer desmedidos, isolados numa paisagem desabitada... No entanto, à medida que essa decadência se acentuava, menos eu a queria admitir. Pela primeira vez, por assim dizer, nessa revolta das vísceras, eu fazia a violenta descoberta da morte – através de uma pessoa viva. Durantes as minhas longas vigílias de cigarros trespassava-me o eco de longínquas vozes.
Esperava pela liberdade de começar, pelo momento de se tornar real, esperava a hora de esquecer quem ele era e se tornar a pessoa que estava a interpretar, mas em vez disso estava ali parado, completamente vazio, atuando do modo que se faz quando não se sabe o que se está a fazer. Não conseguia dar e não conseguia reter; não tinha fluidez e não tinha reserva. A atuação tornou-se uma tentativa, repetida noite após noite, de se conseguir livrar de um fardo ...Ele perdera a magia. O impulso esgotara-se. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia comunicar com a plateia. O seu talento havia morrido.
Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia, nenhuma das duas funciona mais. Houve um grande conflito a respeito do que é permissível — e uma grande revolução. Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas? Não é essa condição que outrora era simbolizada pelo cachimbo e pela cadeira de balanço. Talvez ainda seja uma espécie de afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta, por mais que a gente envelheça?
- Mas tenho de ir. Alguém tem de estar com ela.
- Pensa nisso. Pensa. Porque, se fores, estás liquidado.
Consuelo, sem cabelo e sem os seus inebriantes seios, já não era apenas um corpo, era muito mais do que um animal: o fim originou um novo início...
Consuelo agora conhece a ferida da idade. Envelhecer é inimaginável para todos, menos para os idosos...Consuelo já não mede o tempo como os jovens, assinalando para trás, para quando tudo começou. Para os jovens, o tempo é feito do que é passado, mas para Consuelo o tempo é agora a medida do futuro que lhe resta. Agora mede o tempo contando para a frente. Conta o tempo pela proximidade da morte. A ilusão quebrou-se, a ilusão metronómica, o pensamento reconfortante de que,ti-tac, tudo acontece no seu devido tempo. A sua noção de tempo é agora igual à minha, acelerada e mais desamparada , até, do que a minha...
Durante quarenta anos fez o que era necessário fazer. Andou atarefado, e a natureza, que é a besta, mudou-se para uma caixa. Agora essa caixa está aberta. Ser reitor, ser pai, ser marido, ser intelectual, professor, ler livros, dar lições, corrigir textos, dar notas, tudo isso acabou. Evidentemente que já não é a vigorosa besta lúbrica que foi. Mas o que resta da besta, o que resta dessa coisa natural, é com isso que ele está agora em contacto, com o que resta. E sente-se feliz por isso, sente-se grato por estar em contacto com o que resta. Sente-se mais do que feliz: sente-se emocionado, e já está ligado, profundamente ligado a ela, por causa dessa emoção. Não é de família que se trata, a biologia já não lhe serve para nada. Não é família, não é responsabilidade, não é dever, não é dinheiro, não é uma filosofia partilhada ou o amor à literatura, não são grandes discussões de ideias. Não, o que o liga a ela é a emoção. Amanhã descobrem-lhe um cancro e acabou-se. Mas hoje, agora, tem essa emoção.
A pancada atinge-o do lado direito,violenta,surpreendente e dolorosa, como uma faísca eléctrica, projectando-o da bicicleta.
Acorda num casulo de ar morto. Tenta soerguer-se mas não é capaz; é como se estivesse encerrado em cimento. Rodeia-o uma brancura ininterrupta: tecto branco, lençóis brancos, luz branca; e também uma brancura granulosa como pasta de dentes velha que parece revestir-lhe a mente...
As noites são intermináveis. Sente demasiado calor, demasiado frio; tem comichão na perma... De noite e de dia o tempo arrasta-se. O relógio está parado mas o tempo não.
Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment.
Deslizar pelo mundo: era assim, em tempos idos, que se costumava designar vidas como a sua: velando pelos seus interesses, prosperando calmamente,sem chamar a atenção... Uma oportunidade desperdiçada.
Uma vida circunscrita. ... Pode uma vida tornar-se e tal modo circunscrita que já não valha a pena ser vivida? Há homens que saem da prisão,depois de anos a olharem para a mesma parede nua,sem que o pessimismo se apodere da sua alma. O que te de tão especial perder um membro?
Todo o amor que ele pudesse ter tido alguma vez pelo seu corpo «desapareceu há muito. Não tem interesse em consertá-lo,em fazê-lo voltar a alguma eficiência ideal. O homem que ele era não passa de uma recordação, e uma recordação que se dissipa rapidamente. Ainda tem a sensação de ser uma alma com uma vida anímica não diminuída...
Não sabe se alguma vez gostou da paixão, ou a aprovou.Paixão: território estrangeiro; uma afecção cómica mas inevitável como a papeira, que a pessoa espera ter quando ainda é jovem, numa das suas formas mais brandas, menos ruinosas,para não a contrair com maior gravidade mais tarde. Cães avassalados pela paixão a acasalar,com sorrisos infelizes na cara,com a língua de fora.
A cabeça da escrevinhadora poisa,a descansar,na almofada...Ele parece estar a tornar-se o tipo de pessoa que adormece cedo e acorda quando ainda está escuro; ela parece ser o tipo de pessoa que fica acordada até tarde,inventando as suas fantasias pela noite fora. Como poderiam eles ir morar juntos?
- Não...Isto não é amor. É algo diferente. É algo menor.
- Mas que vou eu fazer sem si?
Ela parece estar a sorrir, mas os seus lábios tremem também.
- Isso é consigo... Mas ,quanto a mim, quanto ao presente: adeus.
E curva-se para diante e beija-a três vezes, da maneira formal que lhe ensinaram em criança - esquerda direita esquerda.
De acordo com uma lenda escandinava, o último homem a morrer, no último dia do ano, torna-se automaticamente, o cocheiro da morte....
Já viram com certeza gravuras representando a Morte, e viram-na sempre a andar a pé. Razão porque o cocheiro de que vos falo não é a Morte em pessoa, mas apenas o seu criado. Compreendem que uma personagem tão importante só se digna recolher a fina flor da colheita, e é ao seu cocheiro que confia a tarefa de juntar as pobres ervinhas que crescem à borda dos fossos.(...) Mas compreendem agora do que é que o meu camarada tinha medo. Era de morrer precisamente à meia noite, na véspera do Ano Novo, e de se tornar o cocheiro da Morte. Suponho que imaginava ouvir durante todo o dia o coche funerário a chiar e a baloiçar sobre as estradas. E, imaginem, parece que morreu no ano passado, precisamente na noite de S. Silvestre.
- E mesmo à meia-noite?
- Sei, apenas que morreu à noite, mas ignoro a hora. Poderia, aliás, ter-lhe predito que havia de morrer nesse dia, tal era o medo que tinha. Se uma ideia parecida se apoderasse de vocês, eram capazes de ir também.
A certeza — isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a «realidade» ou a «verdade» — é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente...
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Era uma vez...
Era uma vez uma eterna criança...
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Revelações...
Sempre guardou mágoas ocultas, num escaninho do coração. Cala-as, finge que as ignora, mas alimenta-as cuidadosamente e, por isso, elas agigantam-se, deixam o recanto em que estavam escondidas, propagando as suas metástases até ao cérebro. Muitas vezes, anos mais tarde , tem reações que ninguém compreende, aparentemente desarrazoadas, pois a sua justificação é uma mágoa antiga cujas metástases proliferaram e, traiçoeiramente, lhe penetraram a razão. Já tinha o seu depósito de mágoas suficientemente fornecido, bem escusava de estar sempre a acrescentaar mais uma...Uma tão inconfessada e inconfessável- as mais malignas de todas- que pode destruir as raras células que ainda não tinham sido contaminadas...
Moldes...
O mistério individual...permanece...Não sei encontrar o instrumento exato que
fez o meu molde, o rolo anónimo que imprimiu na minha vida uma certa filigrana
complicada e explícita cujo fim único se revela quando a lâmpada da arte
cintila sobre um papel onde se escreve a vida.
Qual terá
sido o seu molde?
Um pai que dizia que me adorava: um homem bom e bonito, excessivamente bom e bonito; simpático,
demasiado simpático; submisso e cumpridor; medianamente inteligente,
moderadamente culto e esclarecido; tolerante, perigosamente tolerante; incapaz
de me educar- dele recordo, sobretudo, a inesgotável capacidade de
desculpar, de perdoar, de compreender. Um pai que me tornou num ser impreparado
para ser contrariado, impreparado para sofrer...
Uma mãe
desafetiva: uma mulher fria e bonita , terrivelmente fria e bonita;
simpática,falsamente simpática; rebelde e irreverente; perigosamente
inteligente; informada e esclarecida; intolerante, mas permissiva por
desinteresse; incapaz de me educar-dela recorda a capacidade de atormentar, de
culpabilizar; de não entender que eu era apenas uma menina, sem culpa de não
ter nascido rapaz. Uma mãe que me tornou num ser impreparado para amar...
O pai era
era o passado, a mãe, o futuro. E eu? Construi-me e desconstrui-me num eterno
presente, sem passado e sem futuro,sempre dividida, sempre à procura de me encontrar.
( Que afirmação dolorosamente banal....)
Recordo o meu tio favorito, casado com uma irmã da mãe, um homem que merecia ser protagonista de uma queda de um novo Camus, e a sua frase predileta: " Tiveste sorte, real sobrinha, ficaste com a inteligência dela e a bondade dele...". "Real sobrinha"- ele sempre me tratou assim, com ironia, mas com um enorme orgulho, na minha delicadeza, nos meus bons modos de menina educada e,segundo ele, com uma postura aristocrática. Por extensão, passei a ser "real" para os primos que, ainda hoje, nos cada vez mais escassos jantares de família, se eu faço algum reparo à linguagem ou aos cotovelos em cima da mesa, replicam "Sim, real sobrinha..."
A última vez que te vi, querido " Tio Meco",foi ligado a uma máquina de oxigénio, com uns olhos que pediam o que sabias que só eu te daria: um cigarro." Porra, eu quero morrer a fumar um cigarro, será que ninguém entende isso??" Só no fim da vida, te ouvi dizer uma asneira, sempre este " Porra", desespero de um homem que queria um cigarro, nem que fosse o último... Tu ,que não me deste o sangue, deste-me o molde, preparaste-me para saber sofrer e para saber amar...
Inversão...
Na minha
próxima vida, quero viver de trás para frente. Começar morto, para despachar
logo o assunto.Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada
dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a
reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro
dia. Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o
suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante
promíscua. E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de
me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé
inocente até nascer. Por fim, passo nove meses flutuando num spa de luxo, com
aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por
cada dia que passa, e depois Voilà! desapareço num orgasmo.(Woody Allen)
Segredos...
O indivíduo, na sua angústia de não ser culpado mas de passar por sê-lo, torna-se culpado. Não há nada em que paire tanta sedução e maldição como num segredo. A vida decide por nós, compromete-nos a existência... Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História. (Nietzsche )
Construções...
Tudo existe
só dentro da sua cabeça, nunca nada se materializa: não há sonhos, não há
desejos, só um vazio preenchido por construções mentais, representações de
momentos de felicidade que nunca chegam ser concretizados. Nunca conseguiu, a
não ser por breves momentos, ter uma vida feita de acontecimentos que
aconteceram: personagem secundária de um romance que nunca foi escrito…se, ao
menos, fosse o protagonista.
Ponto de encontro
O ponto de encontro mais perfeito são os livros, pois podem criar um elo especial entre dois seres... A leitura, em simultâneo, aproxima todos os que leem e ,irremediavelmente, afasta todos os outros: pensa-se no outro eu que percorre os mesmos grafemas, a sentir idêntico prazer ou desprazer....
É a única forma de estabelecer com o mundo um entendimento...
Contabilidade
existencial
É tão fácil
o socialmente correto...é tão fácil gostar do que se deve gostar...É tão fácil
gostar porque se pensa que será conveniente gostar!! Como estas pessoas devem
se felizes: sabem bem fazer contas, calculam tudo o que é ou não
conveniente....ser feliz é, afinal, dominar a nobre arte da contabilidade...
Apesar de
ser mulher de letras, sempre fez muitas contas... Durante muito tempo, contou
alunos e contou com alunos, contou palavras (100, 200,300, consoante o tipo de
texto) e contou erros dos mais variados tipos. Nunca contou ser bibliotecária,
mas, subitamente, ei-la a contar livros, a contar histórias, a contar
utilizadores, a contar estantes, sofás, mesas, cadeiras, computadores, e a
fazer contas de deve e haver… Neste período, sentiu-se relativamente feliz:
contou com o apoio e carinho de seres excecionais.
Entretanto,
também sem contar, voltou a contar alunos, palavras e erros... No meio desta
conta-corrente existencial, contou com um amigo semivirtual e lá lhe foi
contando venturas e desventuras, sonhos e des-sonhos, a par com o conto e
reconto de leituras e releituras. Contou com as suas palavras e gostou de
contar com elas, embora sabendo que, mais dia menos dia, teria de deixar de
contar com ele.
Agora, entretém-se a contar estes estados de espírito, algumas memórias e, como ficou horrorizada com o resultado das contas, ao determinar a massa corporal, conta também calorias ... Conta calorias e faz contas à vida, para ver se percebe com o que pode contar...Se não gostar dos resultados, pode sempre fazer de conta que não percebe e tentar ser feliz como a outra gente...
Infância...
Tenho
pensado muito em mim quando era criança. Gostava-me nesse tempo...Tive uma
infância infeliz, mas hoje , com a distância afetiva necessária, considero que
fui uma criança diferente, interessante: tive a rara felicidade de ter conseguido
ser eu e não um adulto em miniatura nem uma boneca manipulada por pais e
professores. Criava amigos imaginários, pensava muito, tinha um mundo só meu,
construía vidas e situações. Nunca ninguém mandou em mim, mas não era rebelde,
fechava-me num silêncio autista, chegando a afirmar, com tom assertivo:"
não faço nem que me matem" . E não fazia....Quando, aos 18 anos, conheci
Fernando Pessoa, senti uma atração imediata por aquele ser múltiplo,
introspetivo, carente, vazio de afetos, tal como eu...( só com um pouco mais de
talento!!)
O que
significará este súbito fascínio por esse outro eu tão distante e
irrecuperável, na sua beleza e autenticidade...
Nesse tempo, o meu pai era um ser presente na minha vida...Presente? Não terei, imaginativa como era, idealizado um papá como as meninas dos filmes e os livros da Condessa de Ségur? Talvez. Mas recordo a nossa cumplicidade... Nesse tempo, tal como agora, o silêncio era o meu refúgio, a minha arma secreta, um motivo de orgulho porque dominava, em absoluto, o mundo dos meus pensamentos, uma fortaleza inexpugnável. Nesse tempo, escrevia ao William Smith, um amigo imaginário que conduziu o meu pai aos interrogatórios da PIDE; hoje, escrevo por aqui o que me apetece.
Um dia...
Todo o problema estava em matar o tempo. Por último, acabei por já não me angustiar, a partir do instante em que aprendi a recordar. Quanto mais pensava mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi então que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem. (Camus)
Uma aula...
Recordo uma afirmação de Maria Helena Rocha Pereira, proferida com a emoção possível, no ser mais seráfico e afetivamente distante que conheci: “A ciência do século IV aC é igual a Aristóteles.“.Como tivesse reparado que eu estava a registar a afirmação, calou-se, fechou os olhos e, depois de me fitar, com uma ternura inexpressiva, mas, de qualquer modo, ternura, disse” Aristóteles é a ciência do século IV aC.”. A partir daí, a aula passou a ser só para mim. Imaginação, decerto, mas, nessa hora, pensei-me como o ser mais feliz num mundo feliz… Um único homem, o seu pensamento, era a ciência, era a explicação. O mundo era tão limitado que era fácil pensar em linha reta.
Um nome, alcunhas e companhia...
Por causa do
milagre da multiplicação das rosas, perpetrado pela santinha padroeira da sua
terra, e porque nasci no mês dela, estive para me chamar isabel. Como sou azarada, ainda me poderia ter sujeitado ao vexame de me apelidarem
"bela", "belinha" ou "belita". Quando penso nisso, fica horrorizada: isabel é até simpático , mas o meu nome, pelo menos,
evitou-me a humilhação dos pedaços de ternura de inevitáveis diminutivos...
Não sei explicar porquê, mas sempre ame apelidaram através das designações mais diversas: galinha, preta caxumba, menina, poisona, real sobrinha, especinha, comadrinha, rica, riquita, cláudia ( Rica ou riquita foram epítetos que o meu pai costumava usar para se referir à sua menina. Estes nunca saíram do seio familiar e tiveram origem numa miss portugal que seria parecida comigo. A partir dos 15 / 16 anos, começou a circular a ideia de que eu era parecida com a cláudia cardinale: nunca a achei nada de especial, como atriz, e ser comparada com aquela "boazona" foi uma condenação, sem ter cometido qualquer crime.) miss chiclet, claúdia, jersey,( Foi o encenador da peça O Livro de Cristóvão Colombo, de paul claudel que me imortalizou como Jersey...Quando se proferia o meu nome, ele nunca sabia quem eu era... Para ele, fui e permanecru, a Jersey... Jersey era o tecido de que era confecionado o vestido da minha personagem- uma secundaríssima dama da corte, essencialmente decorativa . Por ser a mais alta das meninas e muito magra, para me valorizar a figura, ele escolheu um tecido que se colava ao corpo, azul escuro, debruado a veludo preto. Com uns sapatos tipo alto coturno, com 15 centímetros, completamente tapados pelo vestido, eu ficava, de facto, uma grande dama...Uma touca , de jersey, igual ao vestido, cobria-me o cabelo, "jersey da cabeça aos pés"... Talvez tenha gostado, sinceramente, desta imagem, até porque a minha entrada em palco implicava um silêncio que me agradava bastante, ainda hoje o escuto...Além de uma breve fala que olvidei, iniciava a concluía a minha atuação, a dizer, com tom irónico, olhando com desprezo para o cristóvao colombo, que, apesar de ser relativamente alto, não se me equiparava:" Para quê falar da América, se ainda não há América?" Lamenta não ter nenhuma fotografia da minha versão "jersey"... ) miss direito, viril, ildecas, ginginha, penélope, trancinhas, branquinha, dona prudência, excelsa senhora, querida e bela madrinha, chinha, kika, dona francisca, anaïs, princesa, escolha acertada, mãe linda, menina maria, guarda livros, mariana 2 , ilda ,pneumónica velez... ( Este epíteto bem recente, Ilda, a pneumónica Velez, fruto do sentido de humor do meu filho e da sua capacidade, embora tímida, de criação linguística: Ilda Velez, a pneumónica, não tinha qualquer inovação...Agradou-me a preocupação que ele teve em desdramatizar a minha condição de doente...)
Não bastando o infortúnio do nome que me calhou, ainda tive de carregar sucessivos substitutos alternativos ... Será que com a outra gente acontece o mesmo?
Contar as
histórias destas alcunhas e afins implicaria, afinal, revelar a história de uma
vida: alcunhas e companhia. Talvez um dia a conte, mas é tarefa demasiado
morosa e com requebros intimistas não consentâneos com este suporte textual...
Decidi classificar as minhas profícuas e numerosas designações, procurando
destrinçar conceitos sinónimos, mas com minudências distintivas...
Alcunhas -
miss chiclet, miss direito, viril, claúdia, jersey, anaïs, penélope, escolha
acertada, branquinha, dona prudência, trancinhas...
Antonomásias
- querida e bela madrinha, mãe linda, excelsa senhora, guarda -livros
Apodos -
galinha, preta caxumba, poisona...
Diminutivo -
ildecas...
Cognome -
palerma oficial...
Epítetos -
menina, real sobrinha, princesa, menina maria, guarda-livros, mariana 2, ilda
,pneumónica velez...
Hipocorísticos
- especinha, comadrinha, ginginha,
chinha, kika...
A proveniência de dona francisca é de tal modo bizarra que me é impossível de
classificar. A filha de uns amigos, em pequenina, não conseguindo articular o
meu nome, chamava-me kika. Assim, em vieira do minho, ainda hoje sou a kika.
Uma empregada desses amigos, rapariga nada dotada, exemplo perfeito de
estultícia e concretização do aforismo "teimosa como uma burra",
achou que kika era diminutivo de francisca , daí o tratamento de dona
francisca. Até aqui a lógica impera e a moça raciocinou, revelando consciência
linguística... Advertida de que eu não me chamava assim, não acreditou. Foi-lhe
explicado que as crianças , por vezes, blá, blá... Abslolutamente ineficaz:
"Para mim continua a ser dona francisca..." Eu, para não a
contrariar, passei a dar pelo nome e não se falou mais no assunto... Entretanto,
ela emigra para a suíça e ,uns anos depois, encontramo-nos num agosto qualquer
e sou saudada com imensa efusividade: " Olha a dona francisca que não é
francisca !!"
Como os
linguistas são sedentos de taxonomias, talvez exista classificação para estes
casos insólitos, mas de momento, o meu palavrário revela-se inoperante...
Recordar estes quasesemiheterónimos levou-me à
infância, à juventude, a um tempo em que ainda havia tempo. É como se me tivesse
sentado no sofá a assistir ao filme da sua vida: os diferentes eus, tal como a
memória os cristalizou, adquiriram uma autonomia peculiar pelo facto de
possuirem uma individualidade identificadora. O que existe em comum entre a
preta caxumba e a miss direito? Os parvalhões que me apodaram não terão sido os
mesmos que, anos mais tarde, me elegeram miss? Será que alguém acreditaria que a
poisona e a excelsa senhora são a mesma pessoa? E a menina do papá onde se
perdeu? Não me recorda de me ter despedido dela... Sínto-me senhor josé e a minha vida é a conservatória... Tal como ele, eu tenho à disposição todos os nomes, só que
são meus, não precisando de calcorrear de porta em porta a reconstruir vidas
alheias
Eu não sou
católica, mas sinto-me autorizada, em nome da dignidade pessoal e do respeito
pela palavra dada, a exigir que cumpram o que juraram...
Estou
saturada de tanta indignação , de tanta conversa sem qualquer fundamento, a
explorar, até à caricatura, a castidade forçada a que um bispo quer condenar os
recasados pela igreja, mas ninguém contesta o andar a jurar várias vezes"
até que a morte nos separe..."
Nem deus nem
o diabo têm nada a ver com a vida amorosa cada um...Casar pela igreja uma vez,
ainda se perdoa, agora parar o país para solucionar o drama existencial de quem
quer recasar ... não tem piada e, mais do que aborrecer, exaspera-me.
Sabe bem sentir certas esculturas: imaginar-te num daqueles rostos, isolar -te, ilusoriamente, da banalidade a que vais sucumbindo...Optei por um sofrimento sublime...Encaro, hoje, a felicidade barata com um misto de inveja e comiseração. Será que a felicidade barata teria valido a pena? Ler é uma doença? Ler é a cura? Ler é tudo? Ler é nada? Uma derrota. Só mais uma...Lê e relê a lição, mas não aprende. Talvez, agora... Quem sabe? (Tenho de confessar que cheguei a idealizar um harry com quem fugisse para uma ilha deserta, mas nunca "calhou"...Continuei sempre à procura...) A ansiedade transmigrou e só restou a desilusão: um sentimento de frustração iniludível, uma dorida sensação de inutilidade...Ler e reler, este retrato de um homem que, estranhamente, amo...Plegau sensin releg kai releg du, andho stres shanam. Ai as cedências...Ai as fugas ...Não terei a Lua. Oh! como é amargo ter razão e ter de ir até ao fim...Não consigo acreditar na felicidade: ser feliz é uma quimera
de quem tem uma conceção de vida linear, simplista.
Atrai-me, no entanto, a ideia de ser feliz clandestinamente. A clandestinidade
tem uma magia qualquer: é segredo, é perigo, é cumplicidade...Viver na
clandestinidade, por motivos políticos, nunca
me seduziu nem me apaixonam as vidas dos que optaram por esse caminho.
Adoro, todavia, a ideia de sentir uma qualquer forma de felicidade clandestina.
Essa ideia é -me tão intensa, tão regeneradora que me torna numa fénix a
renascer das minhas próprias cinzas...Por vezes experiencio uma estranha
felicidade, que me assusta, mas me faz esquecer todos os problemas do mundo...Desconfio
do que se passa, não quero ter a
certeza: fantasias que excedem todos os limites da razoabilidade. Fico
prozáquica, com uma felicidade parva, incompreensível.
Pareço uma criança, completamente dependente.... O que inebria
é viver algo impossivelmente impossível... E a impossibilidade total, absoluta,
inultrapassável desencadeia sensações inefáveis.
Muito pior do que um cansaço intrínseco é fazerem - nos sentir que somos cansativos, que se cansaram de nós, do nosso sentir, da nossa presença: esta sensação desencadeia um sentimento de humilhação mais devastador do que qualquer cansaço...por muito "-íssimo" que o seja…Começou por ser um grito, de raiva , de revolta, de incompreensão; progressivamente, esse grito inútil perde intensidade e desmaia num breve sussurro, num lamento para sempre sufocado...
Para sempre. Mais um domingo longo e absurdo: exatamente como o dia 25 de outubro de 2015. Ano com muitos domingos, com demasiados domingos...Como este domingo se prevê grande.. Domingo é dia de tédio, não tem nada que subverter as regras dominicais com sentimentos inesperados...Domingo já foi dia de ir à missa, já foi dia de ir à praia,já foi dia de ir ao cinema, já foi dia de conversar... Agora, domingo é só domingo, um dia bom para ler, reler, escrever e pensar...Será que deixar de ler elimina o absurdo do quotidiano? Eu sou o único absurdo...
A vida é
absurda, uma absurda comédia que nem romântica chega a ser... Mais do que uma
impossibilidade, os meus devaneios são uma possibilidade absolutamente improvável.
Entendidas todas as subtis e indiretas advertências, resolvi assumir,
exteriormente, uma postura que demonstre respeito por si mesma... Quando a
ideia de ti me começa a impedir o sono, não vale a pena tentar dormir... Há
momentos em que me sinto "não eu", o que é diferente de não sentir nada.
O sentimento de negatividade é muito mais doloroso do que o vazio afetivo.
Tu estás, tu és... Ser e estar identificam-se? Até que ponto o acidental do estar penetra a essência do ser? Estar frequentemente incorpora-se de tal modo que o ser se identifica com o estar. É isso que me angustia, recear que uma fase , um estar episódico , compreensível e circunstanciado, se revele, afinal, uma característica essencial que se encontrava adormecida e despertou, passando a ser um traço permanente...O estar deixou de coincidir com o ser? O ser passou a identificar-se com o estar? O estar social invadiu o reino mágico do ser individual , destruindo-o... Para sempre?? O eu outrou-se no ser plasmado em meia dúzia de retratos esteriotipados?? Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar...Preciso de aprender a calar. Não sentir nada, sentir o vazio, é um estado que lhe é familiar...não se sentir eu está a ser mais complexo. Sentir que tu não és tu, que foste um engano, que nã és como eras, mas sim como estás, é mais do que complexo, é estranho…
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Pestes: diálogos intemporais...
O momento de propor uma relação aberta era antes do casamento, e não trinta e cinco anos mais tarde. / Pensou nela... Talvez fosse apenas isso, uma obsessão venenosa, um vício que o afastava de casa, enlouquecendo-o, consumindo tudo o que eles tinham de passado e de futuro, e também de presente. / Se ele ficasse, humilhação, se partisse, o abismo. / Mas começou a sentir repugnância por corpos, a mal ser capaz de olhar para o seu ou para o dele sem sentir repulsa./ Ser alvo da compaixão geral era também uma forma de morte social.
Um contacto fugaz...Não durou mais do que dois segundos, talvez três. Tempo suficiente para sentir a suavidade que revestia a elasticidade dos lábios dele, todos os anos, toda a vida, que a separavam dele. / Não podia haver nenhum ímpeto súbito que conduzisse à intimidade. Mantiveram-se afastados do assunto que podia tê-los destruído.
Em nome das crianças, o tribunal tinha de escolher entre religião total e qualquer coisa um pouco menos radical.
Cirurgiões de máscara a oporem-se à crença sobrenatural.(...) o objetivo da cirurgia não era matar Matthew, mas salvar Mark.
Mas na Idade do Ferro, (...) as transfusões de sangue não existiam. Como podiam elas ser proibidas?
Aquele assunto não era clínico , mas sim jurídico e moral. Dizia respeito aos direitos inalienáveis de um jovem.
Continuar com o bolo na mão, embora se tenha acabado de comer.
A anorexia é um pouco como a religião.
Referências antigas
"As referências a doenças mais ou menos contagiosas são quase tão antigas quanto a invenção da escrita: já nas grandes obras da literatura indiana a tuberculose surge referida como yaksma no RigVeda (ऋग्वेद) e como balasa no AtharvaVeda, livro onde também surge mencionada a lepra. Na China, o Huangdi Neijing tornou-se um clássico incontornável da medicina do país, contendo igualmente referências a doenças ainda hoje conhecidas. O mesmo se pode dizer dos Papiros Medicinais da antiga civilização egípcia. Já no Antigo Testamento, o Levítico expõe todo um conjunto de regras sobre como tratar os leprosos e as “impurezas” em geral. Os Sumérios temiam Namtar, o deus responsável pelas pestilências, lugar ocupado por Chalchiutotolin entre os Astecas. Os Yorubas da Nigéria contam como uma partida do orixá Exu, que acabou por deixar Obatala encurralado na prisão de Shango, teve como consequência o irromper de uma peste na região. Os Japoneses temiam os Oni, demónios a quem atribuíam a causa de muitas doenças; na antiga China, Xi Wang Mu era a deusa feroz que enviava doenças infecciosas aos mortais, isto antes de começar a ser reverenciada como portadora de boa fortuna; na região da Malásia, Bajang era um espírito demoníaco cuja presença fazia muitas vezes prever a chegada de uma doença. No mundo ocidental dos últimos séculos, a devoção a São Roque de Montpellier (tal como são Sebastião, invocado em tempos de peste) em alturas de ameaça epidémica não deixa dúvidas quanto ao impacto da denominada “Peste Negra”. No mundo árabe são conhecidas as Hadith que versam a peste, e já se tem questionado a possibilidade de a sura 105 do Alcorão ,conhecida como “ O Elefante” (Surat Al-Fil, ة سو ل ف ,( ser uma descrição de como o “povo do Elefante” foi dizimado por uma doença contagiosa (descrita metaforicamente como pássaros a atirarem ininterruptamente pedras que ferem mortalmente" - Carlos Manuel Martins
Autores "clássicos"
Sófocles ( 497 a.C- 406 a.C.)
Tucídides (460 a.C - 400 a.C.)
Ovídio ( 43 a C - 17 ou 18 dC)
Bocaccio ( 1313 -1375 )
Fernão Lopes(Entre 1380 1390 - 1460 )
Daniel Defoe ( 1660 - 1731)
Mary Shelley( 1797 - 1851)
Edgar Allan Poe -(1809 —1849)
Herman Melville ( 1819-1891)
Thomas Mann (1875 —1955)
Albert Camus ( 1913-1960)
José Saramago( 1922 - 2010)
Ohran Pamuk ( 1952 -)
José Eduardo Agualusa
Gonçalo M. Tavares
Uma peste origina sempre, devido ao Pathos que semeia, um predomínio do Mythos( o irracional) sobre o Logos(o racional).
Édipo - Meus filhos, nova geração do antigo Cadmo nascida(1), que quereis sentados neste lugar, com ramos suplicantes adornados? A cidade está, a um tempo repleta de incenso, de peanes (2) e de gemidos.(...)
Sacerdote - (...) A cidade , como também tu próprio verificas, já se agita em estertor e não é capaz de erguer a cabeça deste abismo de ensanguentado desespero(...); entretanto o deus portador do fogo, a peste odiosa, vai perseguindo com violência esta cidade e por ela vem ficando vazia a casa de Cadmo; e o negro Hades de gemidos e lamentos se enriquece.
Morrem os frutos da terra ainda encerrados nos rebentos, adoecem as manadas de bois, não vêm à luz os germes concebidos no ventre das mulheres. A Peste, a mais odiosa de todas as deusas, brandiu o seu facho.
Guerra do Peloponeso: jamais, num mesmo período de tempo, os homens foram vítimas de tantas desgraças: terramotos, secas, eclipses e a peste...Tendo começado em 431 a C, só viria a terminar em 404 a C, mas Tucídides apenas a descreve até 411. O livro II trata dos três primeiros anos do conflito e da peste de Atenas (431-428 a C)."Para melhor se compreender o texto de Tucídides, convém ter em conta o contexto em que este se insere. Antes dele, nenhuma obra descrevera tão pormenorizadamente os efeitos de uma peste, mas a referência a acontecimentos semelhantes não deixa de ser feita nos versos iniciais da Ilíada (Ιλιάδα), em Heródoto (livro 7, onde é referido o deflagrar de uma epidemia em Creta aquando da chegada dos guerreiros vindos de Tróia)em Sófocles na peça Édipo Rei " - Carlos Manuel Martins
Dizem que ela ( a peste) apareceu anteriormente em vários lugares..., mas em parte alguma se tinha lembrança de nada comparável como calamidade ou em termos de destruição de vidas. Nem os médicos eram capazes de enfrentar a doença, já que de início tinham de tratá-la sem lhe conhecer a natureza e que a mortalidade entre eles era maior, por estarem mais expostos a ela, nem qualquer outro recurso humano era da menor valia. As preces feitas nos santuários, ou os apelos aos oráculos e atitudes semelhantes foram todas inúteis, e afinal a população desistiu delas, vencida pelo flagelo.
Dizem que a doença começou na Etiópia, além do Egito, e depois desceu para o Egito e para a Líbia, alastrando-se pelos outros territórios do Rei.
Subitamente ela caiu sobre a cidade de Atenas, atacando primeiro os habitantes do Pireu, de tal forma que a população local chegou a acusar os peloponésios de haverem posto veneno nas suas cisternas (não havia ainda fontes públicas ). Depois atingiu também a cidade alta e a partir daí a mortandade tornou -se muito maior. Médicos e leigos, cada um de acordo com a sua opinião pessoal, todos falavam sobre a sua origem provável e apontavam causas que, segundo pensavam, teriam podido produzir um desvio tão grande nas condições normais de vida; descreverei a maneira de ocorrência da doença, detalhando-lhe os sintomas, de tal modo que, estudando-os, alguém mais habilitado pelo seu conhecimento prévio não deixe de
a reconhecer se algum dia ela se voltar a manifestar, pois eu mesmo contraí o mal e vi outros a sofrer dele.
Aquele ano, na opinião de todos, havia sido excepcionalmente saudável quanto a outras doenças, mas se alguém já sofria de qualquer outro mal, todos se transformavam nela. Noutros casos, sem causa aparente mas de súbito e enquanto gozavam de boa saúde, as pessoas eram atacadas
primeiro por intenso calor na cabeça e vermelhidão e inflamação nos olhos, e as partes internas da boca (tanto a garganta quanto a língua) ficavam imediatamente da cor de sangue e passavam a exalar um hálito anormal e fétido. No estágio seguinte apareciam espirros e rouquidão, e pouco tempo depois o mal descia para o peito, seguindo-se tosse forte. Quando o mal se fixava no estômago, este ficava perturbado e ocorriam vómitos de bilis de todos os tipos mencionados pelos médicos, seguidos também de terrível mal-estar, em muitos casos sobrevinham ânsias de vómito produzindo convulsões violentas, que às vezes cessavam rapidamente, às vezes muito tempo depois. Externamente o corpo não parecia muito quente ao toque; não ficava pálido, mas de um vermelho forte e lívido, e cheio de pequenas bolhas e úlceras; internamente, todavia, a temperatura era tão alta que os doentes não podiam suportar sobre o corpo sequer as roupas mais leves ou lençóis de linho, mas queriam ficar inteiramente descobertos e ansiavam por mergulhar em água fria - na realidade, muitos deles que estavam entregues a si mesmos atiravam-se nas cisternas - de tão atormentados que estavam pela sede insaciável; e era igualmente inútil beber muita ou pouca água. Os doentes eram vítimas também de uma inquietação e insónia invencíveis. O corpo não definhava enquanto a doença não atingia o auge, e sendo assim, quando os doentes morriam, como aconteceu a tantos entre o sétimo e o nono dia de febre interna, ainda lhes restava algum vigor, ou, se sobreviviam à crise, a doença descia para os intestinos, produzindo ali uma violenta ulceração, ao mesmo tempo que começava uma diarreia aguda, que nesse estágio final levava a maioria dos doentes à morte por astenia. A doença, portanto, começando pela cabeça, onde primeiro se manifestava, descia até alastrar-se por todo o corpo; se alguém sobrevivia a esta fase, ela chegava às extremidades e deixava as suas marcas nelas, pois atacava os órgãos sexuais, dedos e
artelhos, e muitos escapavam perdendo-os, enquanto outros perdiam também os olhos. Nalguns casos o paciente era vítima de amnésia total imediatamente após o restabelecimento; não sabia quem era e não reconhecia sequer os seus próximos.
Era este, então, o caráter geral da doença, pondo de lado muitos outros sintomas menos frequentes, que afetavam cada pessoa de maneira diferente. Enquanto durou a peste, ninguém se queixava de outras doenças, pois se alguma se manifestava, logo evoluía para aquela. Às vezes a morte decorria de negligência, mas de um modo geral ela sobrevinha apesar de todos os cuidados. Não se encontrou remédio algum, pode-se dizer, que contribuísse para o alívio de quem o tomasse - o que beneficiava um doente prejudicava outro - e nenhuma compleição foi por si mesma capaz de resistir ao mal, fosse ela forte ou fraca; ele atingiu a todos sem distinção, mesmo àqueles cercados de todos os cuidados médicos. Mas o aspeto mais terrível da doença era a apatia das pessoas atingidas por ela, pois o seu espírito rendia -se imediatamente ao desespero e consideravam-se perdidas,incapazes de reagir. Havia também o problema do contágio, que ocorria através dos cuidados de uns doentes para com os outros, e os matava como a um rebanho; esta foi a causa da maior mortandade, pois se de um lado os doentes se abstinham por medo de visitar-se uns aos outros, acabavam todos perecendo por falta de cuidados, de tal forma que muitas casas ficaram vazias por falta de alguém que cuidasse deles; ou se, de outro lado, eles se visitavam, também pereciam, sobretudo os altruístas, que por respeito humano entravam nas casas dos amigos sem se preocupar com as suas próprias vidas, numa ocasião em que mesmo os parentes dos moribundos, esmagados pela magnitude da calamidade, já não tinham forças sequer para chorar por eles. Eram os sobreviventes que com mais frequência se apiedavam dos moribundos e doentes, pois conheciam a doença por experiência própria e a essa altura estavam confiantes na imunidade, pois o mal nunca atacava a mesma pessoa duas vezes, pelo menos com efeitos fatais. Eles não somente eram felicitados por todas as pessoas como, no entusiasmo de sua alegria naquelas circunstâncias, alimentavam a esperança frívola de que pelo resto de suas vidas não seriam atingidos por quaisquer outras doenças.(...)
Os corpos dos moribundos amontoavam-se e e pessoas semimortas rolavam nas ruas e perto de todas as fontes na sua ânsia por água. Os templos nos quais se haviam alojado estavam repletos dos cadáveres daqueles que morriam dentro deles, pois a desgraça que os atingia era tão avassaladora que as pessoas, não sabendo o que as esperava, tornavam-se indiferentes a todas as leis, quer sagradas, quer profanas. Os costumes até então observados em relação aos funerais passaram a ser ignorados na confusão reinante, e cada um enterrava os seus mortos como podia. Muitos recorreram a modos escabrosos de sepultamento, porque já haviam morrido tantos membros das suas famílias que já não dispunham de material funerário adequado. Valendo-se das piras dos outros, algumas pessoas, antecipando-se às que as haviam preparado, jogavam nelas seus próprios mortos e lhes ateavam fogo; outros lançavam os cadáveres que carregavam em alguma já acesa e iam embora.
De um modo geral a peste introduziu na cidade pela primeira vez a anarquia total. Ousava-se com a maior naturalidade e abertamente aquilo que antes só se fazia ocultamente, vendo-se quão rapidamente mudava a sorte, tanto a dos homens ricos subitamente mortos quanto a daqueles que antes nada tinham e num momento se tornavam donos dos bens alheios. Todos resolveram gozar o mais depressa possível todos os prazeres que a existência ainda pudesse proporcionar, e assim satisfaziam os seus caprichos, vendo que as suas vidas e riquezas eram efémeras. Ninguém queria lutar pelo que antes considerava honroso, pois todos duvidavam de que viveriam o bastante para o obter; o prazer do momento, como tudo que levasse a ele,
tornou-se digno e conveniente; o temor dos deuses e as leis dos homens já não detinham ninguém, pois vendo que todos estavam a morrer da mesma forma, as pessoas passaram a pensar que impiedade e piedade eram a mesma coisa; além disto, ninguém esperava estar vivo para ser chamado a prestar contas e responder pelos seus atos; ao contrário, todos acreditavam que o castigo já decretado contra cada um deles e pendente sobre as suas cabeças, era pesado demais, e que seria justo, portanto, gozar os prazeres da vida antes de sua consumação.
Num passagem do sétimo livro, é narrada a deflagração de uma epidemia. A narração é colocada na boca de Éaco, filho de Zeus e primeiro rei dos Mirmidões, o povo de quem Aquiles haveria de ser chefe.
Abatera-se sobre o povo uma epidemia terrível devido à ira da iníqua Juno: ela execrava a terra que tem o nome da rival. Enquanto o mal pareceu humano e se nos escapava a causa nociva de tamanha mortandade, lutámos com a medicina; as mortes superaram os meios que sucumbiram, vencidos. (...) Causando maior mortandade, aos pobres habitantes alastra a epidemia, e ela grassa dentros dos muros da grande cidade. Primeiro, os intestinos inflamam-se: sintoma das chamas ocultas no corpo são a vermelhidão e a respiração ofegante. A língua fica rugosa e incha, a boca, seca pelo vento quente fica aberta e, assim, escancarada, inspira o ar pesado. Não conseguem suportar o leito, suportar nenhuma roupa, E estendem os peitos nus sobre a terra, o corpo não arrefece, Com o chão, mas a terra é que arrefece com o contacto do corpo. Não há quem a domine: a feroz peste até sobre os médicos estoira , e a própria ciência é nociva aos que a praticam. Quanto mais próximo alguém está de um doente, e mais
devotamente cuida dele, mais depressa a morte o atinge. Livro VII
Por todo o lado, olvidando decência, agarram-se às fontes e rios e poços enormes.Nem a beber matam a sede antes de a vida se extinguir.
Tal como em Tucídides refere-se a desorganização social, reflectida na forma desorganizada como tratam os cadáveres. As semelhanças com Virgílio saltam também aos olhos: descrevem-se as mortes dos mais diferentes animais e o próprio Éaco lembra como um animal que estava prestes a sacrificar morre antes de lhe tocar, e como as suas entranhas se mostravam de tal modo afectadas que era impossível ler-se o futuro nelas. A obra de Ovídio ganha, contudo, originalidade, quando, depois de uma descrição do que se passa entre o povo, ouvimos a voz do próprio Éaco a perguntar-se:
Qual era então o meu estado de espírito? Qual deveria ser, senão odiar a vida e ansiar por partilhar a sorte dos meus? Para onde quer que voltasse os olhos, aí havia uma multidão por terra, tal como maçãs podres que caem quando os ramos são sacudidos, ou as bolotas quando a azinheira é abanada.(...) Vi cadáveres atirados ao chão diante das portas do templo, diante até dos altares, para a sua morte ser ainda mais odiosa.(...) E já por nada há respeito: alguns lutam pelas piras, e são cremados em fogo alheio... Já não há espaço para túmulos, nem chega a lenha para os fogos.
É a primeira vez que uma narrativa da peste ganha um carácter individual, em que temos oportunidade de conhecer o que vai na mente de uma personagem que assiste impotente à desgraça do seu povo (em Tucídides ninguém é verdadeiramente destacado, o autor apenas afirma ter contraído a doença, mas nunca se auto-destaca aquando da descrição das calamidades de Atenas). Lembrando o Pathos da peste, é de crer que este saia reforçado ao destacar-se uma personagem da multidão, tornando-se assim mais fácil o processo de identificação e lamentação pretendido. As diferenças entre Ovídio e os restantes autores vão mais longe. Ao invés de ser uma angustiante descrição de calamidades sem solução, neste texto a narrativa da peste conclui com um final recompensador para Éaco. Através de um sonho, com o qual comunica com o seu pai Júpiter, este implora pelo fim da peste e vê o deus transformar uma grande quantidade de formigas em seres humanos suficientes para substituírem os que morreram: forma-se assim o povo dos Mirmidões, do qual Éaco passará a ser o rei. Nesta narração a peste, para além da sua função enquanto Pathos, tem também uma função no desenvolvimento da narrativa cujo final é positivo. Carlos Manuel Martins
O século XIV conheceu uma das maiores tragédias já vividas pela humanidade:a Peste Negra, que assola a Europa a partir de 1348, com uma intensidade jamais vista, deixando profundas marcas que influenciaram os séculos posteriores. Esse acontecimento é narrado por Giovanni Boccaccio na sua obra Decameron( (do grego: dez dias), que escreveu entre 1348 e 1353, no auge da Peste Negra em Florença .
Já tinha chegado o ano de 1348 da fecunda encarnação do filho de Deus, quando a cidade de Florença, nobre entre as mais famosas da Itália, foi vítima da mortal epidemia. Fosse a peste obra de influências astrais ou a consequência das nossas iniquidades e que Deus, na sua justa cólera, a tivesse precipitado sobre os homens, como punição dos seus crimes, a verdade é que ela se havia declarado alguns anos antes nos países do Oriente, onde arrastara para a perda inúmeras vidas humanas. Depois, prosseguindo a sua marcha sem se deter, propagou-se, para nosso mal, na direcção do Ocidente. Todas as medidas sanitárias foram sem efeito. Por mais que os guardas especialmente encarregados disso limpassem a cidade dos montes de imundície, por mais que se proibisse a entrada a todos os doentes e se multiplicassem as prescrições de higiene, por mais que se recorresse às súplicas e às orações que se usam nas procissões e àquelas, de outro género, de que os fiéis se desobrigam para com Deus, nada
deu resultado. Logo nos primeiros dias primaveris do ano a que me referi, o terrível flagelo começou, de maneira surpreendente, a manifestar as suas dolorosas devastações.
Mas não foi como no Oriente, em que o facto de sangrar pelo nariz era o sinal evidente de uma morte inelutável. Na nossa terra, no início da epidemia, quer se tratasse de homens ou de mulheres, produziam-se certos inchaços nas virilhas ou nas axilas: alguns desses inchaços tornavam-se do tamanho de uma maçã vulgar, outros como um ovo, outros um pouco maiores ou mais pequenos. Chamava-se-lhes usualmente bubões. E, no duplo domínio onde tinham aparecido de início, os bubões não tardaram, a fim de semear a morte, a crescer indiferentemente em qualquer parte do corpo. Mais tarde, os sintomas mudaram e transformaram-se em manchas negras ou lívidas que apareciam nos braços, nas coxas ou em qualquer outra parte do corpo, de umas vezes grandes e separadas, de outras muito juntas e pequenas. Tal como o bubão que fora de início, e continuava a sê-lo, o indício de uma morte certa, também as manchas o eram para aqueles em quem apareciam. Quanto ao tratamento da doença,não havia receita médica ou remédio eficaz que parecesse bom ou desse qualquer alívio. A natureza do mal opunha-se-lhe? Era culpa dos médicos? Sem falar de todos os práticos diplomados, tinha crescido em proporções incríveis o número dos homens e das mulheres que exerciam medicina sem o menor conhecimento prévio. A sua ignorância, digo, seria incapaz de descobrir a origem do mal e, consequentemente, de lhe encontrar o remédio próprio? A verdade é que as curas eram raras; e, nos três dias que se seguiam ao aparecimento dos sintomas já referidos (mais ou menos depressa segundo os casos,
mas geralmente sem febre nem qualquer perturbação aparente), quase todas as pessoas atacadas morriam. A intensidade da epidemia aumentou pelo facto de os doentes contagiarem, no seu contacto diário, os indivíduos ainda sãos, tal como o fogo quando se aproxima de uma porção de matérias secas ou gordas. E o que ainda propagou mais o desastre foi não só o facto de a prática com os doentes comunicar o mal e dar a morte às pessoas sãs, mas o simples contacto com roupas ou o quer que fosse que os pestíferos tivessem tocado ou manejado, pois através de tais objectos logo a peste se transmitia a quem deles se servisse. Escutem o prodígio que tenho de contar. Não o houvesse eu visto, como a muitas outras coisas, com
os meus próprios olhos, dificilmente ousaria acreditar em tal e mais ainda escrevê-lo, mesmo que o tivesse ouvido da boca de pessoas dignas de todo o crédito. O flagelo de que falo transmitia-se de uns para os outros com tanta força e tão naturalmente que a infecção não só passava de homem para homem, mas produzia-se um fenómeno muito mais surpreendente e muitas vezes verificado. Um objecto que pertencia a um doente ou a uma vítima da peste era tocado por um ser sem relação com a espécie humana? Não só essa criatura era contagiada, mas morria num curto lapso de tempo. Eis, entre outros factos, o que os meus olhos — acabo de vo-lo dizer — observaram um dia. Tinham sido deitados na via pública os trapos de um desgraçado, morto pela epidemia.(...)
Alguns pensavam que uma vida sóbria e a abstenção de tudo o que fosse supérfluo se impunham para combater ataque tão terrível. Formavam pois a sua brigada e viviam afastados dos outros. Agrupados e reclusos em casas onde não havia doentes e onde a vida era mais agradável, usando com a maior moderação comidas delicadas e vinhos requintados, fugindo a todo e qualquer deboche, não deixando ninguém falar-lhes, recusando-se a ouvir qualquer notícia vinda do exterior a respeito de mortes ou doenças, passavam o tempo a ouvir música ou entretidos com outros prazeres castos.
Gente havia, porém, que se conduzia de modo bem diverso. Achavam esses que entregarem-se por completo às bebidas e à licenciosidade, andarem galhofando pela cidade, de canções nos lábios, satisfazerem as paixões na medida do possível, rindo e troçando dos mais tristes acontecimentos, era o mais seguro remédio contra um mal tão atroz. Para passarem deste princípio à prática o melhor que podiam, andavam dia e noite de taberna em taberna, bebendo sem conta nem medida. Mas era ainda pior nas casas particulares se julgavam lá encontrar matéria para prazer ou distracção. De resto, nada era mais fácil. Todos perdiam a esperança de viver e deixavam ao abandono tanto os seus bens como a sua própria pessoa. A maior parte das casas caía no domínio público; os estranhos que lá se haviam instalado reinavam como donos, e é escusado dizer que juntavam à brutalidade da sua conduta o desejo de fugir sempre e a todo o preço dos pestíferos. E assim, infelizmente, no excesso de aflição e de miséria em que a cidade mergulhava, o prestígio e a autoridade das leis divinas e humanas esboroava-se e abatia inteiramente. Os guardas e os ministros da lei estavam todos eles mortos, doentes, ou tão desprovidos de auxiliares que qualquer actividade lhes era interdita. Toda a gente podia, pois, agir segundo os próprios caprichos.
Ao lado dos indivíduos que praticavam os dois tipos de vida a que me referi, muitos havia que adoptavam um meio termo. Menos preocupados do que
os primeiros em se restringirem a comer pouco, nem por isso se abandonavam aos excessos de bebida e ao deboche dos segundos. Utilizavam tudo com conta, peso e medida e segundo as suas necessidades. Em vez de se fecharem dentro de casa, circulavam pelos arredores, tendo nas mãos umas vezes flores, outras ervas aromáticas, outras várias especiarias. Levavam-nas por vezes às narinas e consideravam excelente preservar o cérebro aspirando perfumes, porque a atmosfera parecia corrompida e envenenada pelo cheiro horrível dos cadáveres, dos doentes e dos medicamentos. Alguns manifestavam mais crueldade, mas talvez mais prudência. Diziam que a garantia mais segura contra os germes do mal era a fuga. Nessa convicção, não se preocupavam a não ser consigo próprios, e muitos homens ou mulheres abandonavam a cidade, os parentes, os bens móveis e imóveis que possuíam, partindo para as províncias vizinhas ou, pelo menos, para os arredores de Florença. Julgariam que a cólera de Deus, armada desse flagelo, não iria, onde quer que eles estivessem, atacar as iniquidades dos homens e, uma vez desencadeada, se limitaria a abater aqueles que tinham ficado dentro dos muros da cidade? Talvez pensassem que ninguém lá ficava e que a última hora de Florença tinha chegado. Se seguir um ou outro método não fazia as pessoas morrerem por força, a verdade é que ninguém escapava ao seu destino. Quaisquer que fossem os princípios seguidos, muitos eram atingidos, e em qualquer parte. Eles próprios, antes de caírem doentes, tinham dado o exemplo aos que continuavam sãos.
Estavam pois abandonados e definhavam por todo o lado. Devo acrescentar que os cidadãos fugiam uns dos outros e que ninguém se preocupava com os vizinhos? As visitas entre parentes, quando aconteciam, eram raras e feitas de longe. O desastre pusera tanto horror no coração dos homens e das mulheres que o irmão abandonava o irmão, o tio o sobrinho, a irmã o irmão, muitas vezes mesmo a mulher o marido. E até — o que é ainda mais forte e quase inacreditável — os pais e as mães evitavam ir ver e auxiliar os filhos, como se já não lhes pertencessem. Os doentes dos dois sexos — e o seu número era incalculável — não tinham outro apoio que não fosse a caridade dos amigos (mas bem poucos foram privilegiados nesse ponto!) ou a avareza dos criados. Seduzidos pelos ordenados enormes com que lhes alugavam os serviços, ainda se encontravam criados. Porém, apesar dos convidativos salários, o número de serviçais não aumentara e todos eles, homens ou mulheres, tinham maneiras rudes e não possuíam, na sua maior parte, nenhuma prática doméstica. As suas funções limitavam-se a dar aos doentes o que eles pediam ou a assisti-los na hora da morte. Mesmo assim, pelo preço que um serviço lhes valia, corriam frequentemente para a própria perda. Como os vizinhos, parentes e amigos abandonavam os doentes, e como os criados se tornavam raros, estabeleceu-se uma prática até então desconhecida. Qualquer que fosse a elegância, a beleza e a categoria social de uma dama atingida pela doença, esta não tinha o menor escrúpulo em ser tratada por um homem, fosse ele quem fosse, novo ou velho, e de lhe mostrar, sem a menor vergonha, todas as partes do seu corpo, tal como o teria feito a uma mulher. É provável que isso desse depois origem, naquelas que se curavam, a costumes mais dissolutos.
Esses abandonos causavam a morte de muitas pessoas que, socorridas a tempo, talvez pudessem ter sido salvas. Em consequência de os doentes não receberem os cuidados apropriados e de a epidemia não deixar de se desenvolver, o número de cidadãos que morriam noite e dia era tão elevado que se ficava espantado ao ouvi-lo e, mais ainda, ao ser sua testemunha. Finalmente, e sob o efeito da necessidade, estabeleceram-se, entre os que sobreviviam, costumes completamente diferentes dos antigos. Era uso — uso este que ainda persiste em nossos dias — que as senhoras, primas ou vizinhas de um morto, se reunissem em casa dele, a fim de juntar as suas lágrimas às dos parentes mais próximos. Por outro lado, os vizinhos e muitos outros burgueses agrupavam-se com a família em frente da casa mortuária. Os padres apareciam também, conforme a categoria social que o defunto tivera. Depois, as pessoas da mesma condição carregavam o homem aos ombros e transportavam-no para a igreja que ele escolhera antes de morrer. Mas quando a epidemia começou a manifestar a sua violência, tais práticas cessaram totalmente ou em grande parte. Em seu lugar, estabeleceram-se outras. Muitas pessoas morriam sem ter à sua volta numerosa assistência feminina. Muitas morriam mesmo sem testemunha. Bem raras eram aquelas a quem não faltavam as dolorosas lamentações e as lágrimas amargas dos seus. Em troca, instalavam-se o riso e as brincadeiras de um grupo a quem a festa estonteia. As mulheres, esquecidas da sua piedade natural e ciosas da própria saúde, curvavam-se em geral de bom grado aos novos usos. E bem raros foram sendo aqueles cujos corpos eram acompanhados à igreja por dez ou doze vizinhos, aproximadamente. Não se tratava, porém, de pessoas distintas nem de burgueses cotados, mas não sei de que espécie de coveiros vindos da ralé, que se tinham arvorado gatos pingados e cujos serviços eram pagos. Pegavam no caixão e transportavam-no rapidamente, não à igreja que o defunto designara antes da morte, mas geralmente à que ficava mais perto. Quatro ou seis padres seguiam à frente, brandindo um magro luminar, que às vezes faltava por completo. Com o auxílio dos gatos-pingados, e sem se dar ao trabalho de um ofício demasiado longo ou solene, punham o mais depressa possível o caixão na primeira sepultura vazia que encontravam. A gente humilde, e talvez uma grande parte da classe média, oferecia, de resto, o espectáculo de uma miséria infinitamente mais dolorosa. A pobreza (ou então qualquer vaga esperança de assim se salvarem) retinha em suas casas a maioria dessas pessoas. Não se afastavam do bairro e todos os dias caíam doentes aos milhares. Como não tinham quem as socorresse nem as servisse, morriam, está claro, sem redenção. Algumas delas expiravam de dia ou de noite na via pública; e muitas outras, se bem que mortas em casa, transmitiam aos vizinhos o anúncio da morte pelo cheiro infecto da sua carne corrompida. Tudo regurgitava desses cadáveres e dos cadáveres dos outros homens que por toda a parte morriam. ( Introdução)
Da pestelença que andava entre os Castelhanos e de alguns capitães que por ela morreram
E depois que el Rei( de Castela) entrou pelo reino e se veio chegando contra Lixboa , pousando per essas aldeias, a duas e três léguas, começaram a morrer de pestellença alguns do arreal das gentes de pequena condiçom.(...)
Começou de se atear a pestelença tão bravamente em eles, assim per mar como per terra, que dia havia hi que morriam cento, e cento e cinquenta, e duzentos ; e assim mais e menos como se acertava, de guisa que a maior parte do dia , eram os do arraial ocupados em enterrar os seus mortos, assim que era espanto de ver aos que padeciam, e estranho de ouvir aos que estavam cercados(...) E era gram maravilha, per juízo a nós não conhecido, que em fervor de tamanha pestelença nenhum dos fidalgos portugueses que hi andavam, ou prisioneiros ou de outra qualquer guisa, que nenhum não morrese de trama nem era tocado de tal dor.E os castelhanos por vingança e menencoria que lhe nom prestava, lançavam os Portugueses prisioneiros que traziam, com os que estavam doentes de tramas, para que morressem com a pestelenciados; e morriam os Castelhanos doentes, e dos Portugueses nenhum perecia, nem dentro da cidade que era tão perto do arreal, nem fora nem no termo.
Parte I, Capítulo CXLIX
Neste relato da peste em Londres, no ano de 1665, em forma de reportagem, Daniel Defoe combina boletins semanais de óbitos e outros dados exatos com excertos sobre situações que diz ter ouvido contar. Este "Diário", escrito e publicado em 1722, embora tenha uma base real, relata factos que já estariam muito adulterados pelo passar do tempo…
"À volta de 1720, aquando de uma epidemia de peste em Marselha, epidemia essa que causou para cima de 100 mil vítimas, Defoe lembrou-se de explorar o clímax pestífero de Londres, onde se manifestava o receio de uma recidiva da peste que em 1665 vitimou para cima de duzentas mil pessoas, pondo-se a reunir elementos para a composição de uma obra que fosse ao mesmo tempo uma advertência à população londrina e um rendoso negócio."- João Gaspar Simões
Foi por volta do início de setembro de 1664 que eu, entre os demais vizinhos, ouvi num discurso comum que a praga havia voltado novamente (…) Nesse tempo, não tínhamos jornais impressos para espalhar boatos e relatos de coisas, e melhorá-los com a invenção dos homens, como vivi para ver praticado desde então. Mas as coisas foram recolhidas das cartas de comerciantes e outros que correspondiam ao exterior, e delas foram transmitidas apenas de boca em boca para que as coisas não se espalhassem instantaneamente por toda a nação, como agora. Mas parece que o governo teve um relato verdadeiro disso, e vários conselhos foram realizados sobre maneiras de impedir a sua vinda; mas tudo foi mantido em sigilo.
Naquele tempo cada um estava tão preocupado com a sua própria segurança que raramente se via piedade pela desgraça alheia. Cada um via, por assim dizer, a morte à sua porta, por vezes mesmo na sua própria família, e ninguém sabia o que fazer ou onde refugiar-se. Isto, repito, suprimia toda a espécie de compaixão; a conservação de cada um parecia, com efeito, a regra primordial: as crianças fugiam dos pais, ao vê-los na maior miséria; em certos sítios, embora com menos frequência, os pais fizeram o mesmo aos filhos - sim houve exemplos pavorosos. [...]Falo, claro está, da generalidade, pois em muitos casos viu-se exemplos múltiplos de inquebrantável afecto, de piedade e de respeito pelo dever.
Gostaria de poder registar aqui o próprio som dos gemidos e das exclamações que ouvi da boca dos pobres moribundos no momento mais profundo da sua angústia e da sua desgraça; muito desejaria que os leitores pudessem ouvir, como eu próprio imagino estar a ouvi-los, pois ainda lhes ouço o eco nos ouvidos.
" No texto profético de Shelley, a peste bubônica causa o fim da humanidade. Como no século XIX ainda não se sabia exatamente que a doença era transmitida por pulgas entre animais de pequeno porte, e, em séculos anteriores a praga dizimara um terço da Europa, a autora achou conveniente que a morte ceifasse a Humanidade em forma de peste. Este, aliás, talvez tenha sido o componente de inverosimilhança da trama: Shelley não tratou de evoluir a Ciência em seu livro. Ela escreveu atalhos, remendou ideias requentadas (como o uso de máquinas variadas), mas não se ateve a detalhes sobre o funcionamento delas no futuro. A evolução é mais narrativa que científica. A autora potencializa o romance com um estilo rico, um certo culto à natureza, exaltação de sentimentos, destino não mais fixo, espectros, donzelas que se passam por soldados, intrigas amorosas etc. Ou seja, é uma obra com componentes de ficção especulativa científica, mas não apresenta foco total em definir ideias sobre o novo gênero. O que a autora faz é alterar alguns componentes narrativos dos cânones do Romantismo e impingir mudanças, sutilezas estruturais, em conjunto com uma imaginação não-totalmente renovada sobre o futuro." José Fontenele
No ano 2073, o último dos seus reis, o antigo amigo de meu pai, havia abdicado de acordo com as gentis forças das objeções aos seus atos e uma
república foi instituída.
Oh, que a morte e a doença sejam banidas de nossa casa terrena! Que o ódio, a opressão e o medo não possam mais existir no coração humano! Que cada homem possa encontrar um irmão no próximo e um conforto para o repouso entre as amplas planícies da sua herança! Que a fonte de lágrimas seque e que os lábios não mais possam apresentar expressões de mágoas. (…) A escolha está connosco; deixe-nos desejar e a nossa habitação tornar – se –á um paraíso. Pois a vontade do homem é omnipotente, atenuando as setas da morte, aliviando a cama da enfermidade e enxugando as lágrimas de agonia. E o que vale cada ser humano, se ele não utiliza a sua força para auxiliar seus semelhantes? A minha alma é uma fagulha que se esvai, a minha natureza delicada como uma onda passada; mas eu dedico todo o intelecto e a força que ainda permanece em mim a este trabalho e me ofereço para a tarefa, o máximo possível, de investir bênçãos nos meus semelhantes!
“The 'Red Death' had long devastated the country. No pestilence had ever been so fatal, or so hideous. Blood was its Avatar and its seal --the redness and the horror of blood. There were sharp pains, and sudden dizziness, and then profuse bleeding at the pores, with dissolution. The scarlet stains upon the body and especially upon the face of the victim, were the pest ban which shut him out from the aid and from the sympathy of his fellow-men. And the whole seizure, progress and termination of the disease, were the incidents of half an hour.”
Havia muito tempo que a Morte Vermelha despovoava o país. Nunca se vira uma peste tão fatal! tão horrorosa! A sua encarnação era o sangue, a vermelhidão e a hediondez do sangue! Os seus sintomas dores agudas, uma vertigem súbita, depois um gotejamento abundante pelos poros e a dissolução do corpo. As manchas vermelhas que cobriam a vítima, principalmente no rosto, proscreviam-na da humanidade, privando-a de todos os socorros e de todas as simpatias. Invasão, progresso e resultado da doença, tudo isso era questão de meia hora.
Mas o príncipe Próspero era feliz, intrépido e sagaz. Quando viu os seus domínios meio despovoados, convocou uma turba de amigos vigorosos e alegre, escolhidos entre os cavalheiros e damas da corte e retirou-se com eles a uma das suas abadias fortificadas. Esta abadia era um palácio magnífico, edificado pelo príncipe, um gosto excêntrico e grandioso, rodeado por um muro espesso e alto, com portas de ferro.
Uma vez lá dentro, os cortesãos soldaram solidamente as fechaduras a fim de se protegerem contra as violências do desespero exterior. A abadia foi abundantemente abastecida. Graças a estas precauções, os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo exterior que se arranjasse como pudesse. Entretanto, não valia apenas pensar nisso. O príncipe providenciara todos os divertimentos passíveis. Havia jograis, improvisadores, dançarinos, músicos, o bom e o belo sob todas as formas; e havia vinho. Lá dentro todas essas belas vantagens e a segurança ainda por cima, lá fora a Morte Vermelha.
No fim de cinco ou seis metes de retiro, enquanto o flagelo assolava o reino com maior raiva, o príncipe Próspero presenteou os seus mil amigos com um baile de máscaras de rara ostentação. Que quadro voluptuoso o daquela mascarada! Mas primeiro deixai-me descrever-vos o recinto do baile; sete salas consecutivas, uma série imperial! Em muitos palácios estas sequência de salões formam longas perspectivas em linha reta, quando as portas estão abertas de par em par; de sorte que a vista mergulha sem obstáculo desde a primeira até á ultima. Aqui o caso era diferente como se devia esperar da paixão do duque pelo extraordinário e pelo bizarro. As salas eram dispostas tão irregularmente que o olhar não podia abranger senão uma de cada vez. De espaço a espaço, havia um desvio brusco e cada esquina apresentava um aspecto novo. No meio de cada parede, tanto do lado direito como do esquerdo, abria-se uma janela gótica, alta e estreita, para um corredor fechado, que seguia as sinuosidades dos aposentos. Estas janelas eram feitas de vidros coloridos, em harmonia com o tom dominante das decorações da sala a que pertenciam. A que ocupava a extremidade oriental, por exemplo, sendo guarnecida de azul, tinha as janelas de azul profundo. A segunda era adornada de púrpura e as janelas igualmente purpúreas. A terceira, inteiramente verde, tinha as janelas verdes. A quarta, ornada cor de laranja, recebia a luz por uma janela alaranjada. A quinta era branca. A sexta de violeta.
A sétima era tenebrosamente amortalhada em tapeçarias de velado negro, que revestiam os tetos e as paredes, caindo em pregas pesadas sobre um tapete do mesmo estofo e da mesma cor. Mas neste aposento, a cor das janelas não correspondia à decoração: os vidros eram um vermelho intenso cor de sangue.
Não havia lustres nem candelabros, nem lâmpadas, nem velas, nem luz de qualidade algum naquele longe séquito de salas, Mas nos corredores que as circundavam, justamente defronte de cada janela, erguia-se um tripé enorme com um braseiro resplandecente, cujos raios, passando através dos vidros coloridos, iam projetar-se sobre os ornamentos de ouro espelhados com profusão par aqui e por acolá, iluminando as salas de um modo maravilhoso e produzindo uma multidão de aspectos cintilantes e fantásticos. Mas no aposento negro, a luz do braseiro refletindo sobre os cortinados sombrios, através dos vidros sanguinolentos, era espantosamente sinistra e dava à fisionomia dos imprudentes que ali entravam um aspecto de tal modo estranho, que poucos pares se sentiam com coragem de pôr os pés no seu mágico recinto.
Era também naquela sala que se via, encostado à parede ocidental, um gigantesco relógio de ébano. O seu pendido balançava-se com um tic-tac surdo, carregado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos acabava o circuito do mostrador, ao soar das horas, sabia do interior da máquina um som claro, estrepitoso, profundo e excessivamente musical; mas com nota tão particular e uma energia tamanha, que de hora a hora os músicos calavam insensivelmente os instrumentos para ouvir a música da hora. Então os valsistas cessavam forçosamente as suas atividades; uma comoção singular perturbava momentaneamente a alegria da sociedade. Enquanto vibrava o carrilhão, notava-se que os mais loucos empalideciam e os mais serenos passavam a mão pela fronte, como que imersos numa meditação ou num sonho delirante. Contudo, apenas se esvaecia o eco da última badalada, circulava a hilaridade por toda a assembleia; os músicos olhavam uns para os outros, sorrindo dos seus nervos e da sua loucura e prometiam-se mutuamente, em voz baixa, de não fazer caso do toque seguinte; mas passados os sessenta minutos, que compreendiam os três mil e seiscentos segundos da hora passada, vinha um novo repique do relógio fatal e com ele a mesma perturbação, o mesmo tremor, os mesmos devaneios.
Apesar disso, a orgia estiva alegre e magnífica. O duque tinha um gosto particular e era entendido como ninguém em cores e em efeitos, desprezando completamente o decoro da moda: os seus planos eram temerários, selvagens, e as suas concepções brilhavam com bárbaro esplendor. Muita gente tê-lo-ia julgado louco. Os cortesãos sentiam que ele não o era; mas era preciso ouvi-lo, vê-lo, para ter a certeza disso.
Ele próprio havia presidido à ornamentação dos sete salões para aquela grande festa; e o estilo dos costumes fora prescrito pelo seu gosto pessoal. As concepções eram por certo grotescas, deslumbrantes, magníficas, sobretudo picantes e fantásticas; muito semelhantes às que se viram mais tarde no Hernani. Figuras verdadeiramente arabescas, absurdamente equipadas, desproporcionalmente arranjadas. Fantasias monstruosas, como a loucura. Havia de tudo; o belo, o licencioso, o bizarro em grande quantidade, um pouco de terrível e repugnante em profusão. Em suma, era uma multidão de sonhos, pavoneando-se em todos os sentidos e tomando as edites dos aposentos. Ter-se-ia dito que eram eles que executavam a música com os pés e que as árias estranhas da orquestra eram o eco dos seus passos.
De vez em quando ouvia-se soar relógio da casa de veludo. Então, durante um momento todos estacavam, calava-se tudo, exceto a voz do carrilhão. Os sonhos ficavam inertes, paralisados nas suas posições. Mas os suas desvaneciam-se num instante… Apenas se perdiam os últimos ecos, circulava por toda a parte uma hilaridade ligeira e mal contida. E a música recomeçava, e os sonhos reviviam e giravam de um para outro lado mais alegremente que nunca, refletindo a luz das janelas, através das guies jorrava a irradiação dos tripés. Contudo, já nenhum mascarado ousava aventurar-se no aposento negro do ocidente, porque a noite avançava e através das vidraças cor de sangue afluía uma luz mais vermelha; e a escuridão dos cortinados fúnebres era cada vez mais horrorosa; e para o temerário que punha os pés sobre o tapete o relógio de ébano tinha um Carrilhão ainda mais pesado, mais solene e mais enérgico, para os mascarados que redemoinhavam nas salas longínquas.
Quanto às outras salas essas regurgitavam de gente, exuberante de vida e de entusiasmo. E a festa redemoinhava sempre, quando o relógio de ébano começou enfim a soar a meia noite. Então, como das outras vezes, a música cessou; suspenderam-se as danças e produziu-se por todas as partes uma imobilidade ansiosa. Mas o timbre do relógio tinha agora de soar doze badaladas; por isso, maior número de pensamentos ocorreu às meditações dos que pensavam entre aquela turba animada. Foi talvez também por isso que, antes de se afogar no silêncio o eco da última hora, muitas pessoas tiveram tempo de notar a presença de um mascarado, que ali não havia sido percebido. E a nova daquele intruso tendo-se espalhado, elevou-se de todos os lados na assembleia um murmúrio significativo, primeiro de espanto e de desaprovação, depois de medo, de horror e de repugnância!
Era necessário que a aparição fosse deveras extraordinária, para causar semelhante sensação numa assembleia de fantasmas tais como a que acabei de descrever. A liberdade carnavalesca daquela noite era na verdade quase ilimitada; mas o personagem em questão havia ultrapassado a extravagância de um Herodes e passando além dos limites (contudo benévolos) do decoro imposto pelo príncipe.
O coração, mesmo o dos mais levianos, tem certas fibras que não se deixam tocar insensivelmente; mesmo para os mais depravados, para aqueles que consideram igualmente a vida e a morte como mera brincadeira, há coisas com as quais não se pode brincar. Toda a sociedade pereceu sentir profundamente o mau gosto e a inconveniência da conduta e do costume do estrangeiro. A máscara, que lhe escondia o rosto, assemelhava tão perfeitamente a fisionomia de um cadáver rígido que a análise mais minuciosa não teria podido descobrir o artifício. Contudo, os loucos alegres que compunham a assembleia, teriam talvez suportado ou mesmo aprovado aquela brincadeira medonha, se o mascarado não tivesse ido adotar o tipo da Morte Vermelha. Trazia os fatos todos salpicados de sangue e a sua fronte espaçosa, assim como todas as feições da sua fisionomia estavam manchadas do espantoso escarlate.
Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre o espectro (que passeava de um para o outro lado no meio dos valsistas, com um movimento moroso, solene e enfático, como que para representar melhor o seu papel) viram-no primeiro estremecer convulsivamente de terror ou de repugnância; mas um segundo depois, a sua fisionomia ruborizou-se de cólera: — Quem ousa —perguntou com uma voz enrouquecida, voltando-se pira os cortesãos que o rodeavam — quem ousa insultar-nos com esta ironia blasfema? Prendam-no já e tirem-lhe a máscara, a fim de sabermos quem havemos de enfocar no alto da torre, ao nascer do sol!
O príncipe Próspero achava-se no aposento do oriente azul, quando pronunciou aquelas palavras, que retumbaram fortes e claras através dos sete salões. Primeiro, quando ele falou, houve no grupo dos cortesãos pálidos, que o cercavam, um ligeiro movimento para a frente, na direção do intruso, esteve durante um instante quase ao seu alcance e que agora se aproximava cada vez mais do príncipe, com um passo firme e majestoso. Mas a audácia insensata do mascarado tinha inspirado a toda sociedade um terror indefinível; e no meio de tanta gente, não houve ninguém que ousasse deitar-lhe a mão; do sorte que, não achando o mínimo obstáculo, o espectro passou a dois passos do príncipe, enquanto toda a assembleia, como que obedecendo a um só movimento, recuava do centro da sala para as paredes, permitindo-o continuar o seu caminho sem interrupção, com o mesmo passo solene e cadencioso que o tinha ligo caracterizado, do quarto azul para o quarto purpúreo; do quarto purpúreo p para o verde; do verde para o laranja; deste para o violeta, sem que ninguém fizesse um movimenta para o deter.
Então o príncipe Próspero, desesperado e vergonhoso da sua covardia de um minuto, atravessou precipitadamente as seis salas (sem que ninguém o seguisse, porque um terror mortal se havia apoderado de todo o mundo) brandindo um punhal nu, e aproximou-se a três ou quatro pés do fantasma; este, tendo chegado à extremidade da sala de veludo, voltou-se bruscamente para aquele que o perseguia. Ouviu-se um grito agudo; o punhal relampeijou escorregando sobre o tapete fúnebre, onde o príncipe Próspero caiu morto um minuto depois.
Invocando a coragem do desespero, os mascarados precipitaram-se em chusma no aposento; e agarrando o desconhecido, que se conservava reto e imóvel como uma grande estátua, na sombra do relógio de ébano, sentiram-se tomados de um terror inominável, só veem que sob a mortalha e sob a máscara cadavérica que tinham agarrado com tanto furor, não havia nenhuma forma palpável.
Reconheceram então a presença da Morte Vermelha, que penetrara na guarda como um ladrão noturno. Todos os convivas caíram uns após outros nas salas da orgia, inundadas agora de sangue; e cada um morreu no local em que caíra.
E a vida do relógio de ébano extinguiu-se como e do último daqueles seres alegres; apagaram-se as chamas dos tripés, e as trevas, a ruína e a Morte Vermelha estabeleceram ali o domínio ilimitado.
Seria mais natural até que de manhã saltasse do beliche sem nariz do que sem cachimbo.(...) com efeito ,ao despertar, a primeira coisa que Stubb fazia, mesmo antes de enfiar as calças, era acender o cachimbo.
Creio que este contínuo fumar devia ser uma das causas da sua disposição peculiar; porque toda a gente sabe que o ar que respiramos - quer em terra quer no mar- se encontra terrivelmente infectado...; e tal como durante as epidemias de cólera certas pessoas comprimem a boca com um lenço embebido em cânfora , assim o fumo do tabaco de Stubb servia de desinfectante contra todas as tribulações mortais.
Tentou obter informações sobre o cheiro fatal junto ao dono de uma loja…” Este tempo é perigoso, o scirocco não é bom para a saúde, o senhor compreende.” ( …) E assim, nas ruelas sujas de Veneza, Aschenbach sentia uma negra satisfação pelos fenómenos que as autoridades ocultavam- este segredo grave de Estado que se fundia com o seu próprio segredo e que também ele estava empenhado em salvaguardar.
Eis Veneza, a beleza bajuladora e suspeita- uma cidade que é conto de fadas e armadilha para os estranhos, no seu ar infecto a arte florescera em tempos com opulência, inspirando aos músicos sons que embalam languidamente… a cidade estava doente e, por ganância, ocultava o seu estado
Decidido a encontrar informações novas e fiáveis sobre o estado e evolução do mal, ia de café em café para consultar os jornais alemães que há já vários dias tinham desaparecido da mesa de leitura do átrio do hotel. Opiniões alternavam com desmentidos. O número de baixas, de casos fatais, era já de vinte, ou quarenta, ou cem, ou mais, e qualquer menção a uma epidemia, se não fosse prontamente negada, era reconduzida a casos isolados ou chegados de fora.
Mas em meados de Maio deste ano, foram encontrados em Veneza cadáveres negros e carcomidos de um barqueiro e de uma vendedora de legumes. Passado uma semana eram já dez, eram já vinte, trinta , e em vários bairros.(...) A epidemia parecia ganhar forças, a bactéria era cada vez mais tenaz e activa. Raros eram os casos de cura(...) Passados poucos segundos, o doente secava e asfixiava, entre espasmos e gritos roucos, com o sangue que se tornara espesso como o pez.
O medo de prejuízos, a inauguração recente de uma exposição de pintura nos jardins públicos, os danos elevados que em caso de pânico e má fama ameaçavam os hotéis, as lojas, todas as atividades dependentes da presença de turistas, eram mais fortes do que o amor à verdade e que o cumprimento dos acordos internacionais; permitiam aos serviços locais manter obstinadamente a sua atividade política de silêncios e desmentidos. A mais alta autoridade em medicina de Veneza, um homem valoroso, pedira indignado a demissão e fora substituído por um mais maleável.
« Eu calarei !» A consciência da sua cumplicidade, da sua culpa partilhada, embriagava-o, como também uma pequena quantidade de vinho é quanto basta para embriagar um cérebro cansado.( ...) Que valor tinha a fortuna tépida com que por um momento sonhara quando comparada com estas esperanças? Que valor tinham a arte e a virtude quando comparadas com as vantagens do caos? Calou e ficou.
A palavra «peste» acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa que deixa Rieux atrás da sua janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, visto que, com cambiantes, a sua reacção foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, com efeito, são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido como o estavam os seus concidadãos , e por isso é necessário compreender as suas hesitações . É por isso que é preciso compreender também que ele se dividisse entre a dúvida e a confiança. Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: «Não pode durar muito, seria estúpido.» E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre , e compreendê-la-íamos se se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa e, de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste , que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos.
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lençóis e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.
Mas os passeios estavam todos ocupados por automóveis, não encontraram espaço para arrumar o carro, por isso foram obrigados a ir procurar sítio numa das ruas transversais. Ali, como por causa da estreiteza do passeio a porta do assento ao lado do condutor ia ficar a pouco mais de um palmo da parede. O cego, para não passar pela angústia de arrastar-se de um assento ao outro, com a alavanca da caixa de velocidades e o volante a atrapalhá-lo, teve de sair primeiro. Desamparado, no meio da rua, sentindo que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tentou conter a aflição que lhe subia pela garganta. Agitava as mãos à frente da cara, nervosamente, como se nadasse naquilo a que chamara um mar de leite, mas a boca já se lhe abria para lançar um grito de socorro, foi no último momento que a mão do outro lhe tocou de leve no braço, Acalme-se, eu levo-o.
Agora estamos livres, eles sabem o que os espera se quiserem outra vez servir-se de nós, Vai haver luta, guerra, Os cegos estão sempre em guerra, sempre estiveram em guerra, Tornarás a matar, Se tiver de ser. dessa cegueira já não me livrarei, E a comida, Viremos nós buscá-la, duvido que eles se atrevam a vir até aqui, pelo menos nestes próximos dias terão medo de que lhes suceda o mesmo, que uma tesoura lhes atravesse o pescoço, Não soubemos resistir como deveríamos quando eles apareceram com as primeiras exigências, Pois não, tivemos nós medo, e o medo nem sempre é bom conselheiro, e agora vamo-nos, será conveniente, para maior segurança, que barriquemos a porta das camaratas pondo camas sobre camas, como eles fazem, se alguns de nós tivermos de dormir no chão. Paciência, antes isso do que morrer de fome.
A mulher do médico perguntou, E eles, e o médico disse, Este, provavelmente, estará curado quando acordar, com os outros não será diferente, o mais certo é que estejam agora mesmo a recuperar a vista, quem vai apanhar um susto, coitado, é o nosso homem da venda preta, Porquê, Por causa da catarata, depois de todo o tempo que passou desde que o examinei, deve estar como uma nuvem opaca, Vai ficar cego, Não, logo que a vida estiver normalizada, que tudo comece a funcionar, opero-o, ser uma questão de semanas, Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.
Ohran Pamuk, Expresso, maio de 2020
As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali
Pedro levou meia hora a vestir-se e a equipar-se para sair de casa. Ajustou ao rosto a sofisticada máscara que um amigo lhe trouxera de Singapura, com a garantia de o proteger de qualquer tipo de vírus, além da poluição (poderia continuar a usá-la, explicou-lhe o amigo, quando o vírus desaparecesse e a bendita poluição retornasse). Colocou o capuz e os óculos escuros. Finalmente, calçou as luvas. Estudou a sua figura no amplo espelho do corredor. Parecia um viajante vindo de um futuro apocalíptico, pensou, e no mesmo instante lhe ocorreu que esse futuro já chegara.
As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali. A máscara dela fora confecionada a partir de um tecido florido. Era como se tivesse o rosto afundado num ramalhete de flores. Cumprimentaram-se com um aceno alegre. Nunca haviam trocado mais do que duas palavras de circunstância. Porém, Pedro simpatizava com a mulher e ela parecia retribuir tal sentimento. Naquela manhã isso ficou evidente quando, saindo da padaria, ao cruzar-se com o homem, a desconhecida lhe passou para as mãos um papelinho rabiscado à pressa. Era um número de telefone. Mal chegou a casa, Pedro ligou para o número:
– Olá! Sou o tipo da fila da padaria. Chamo-me…
– Não preciso de saber o teu nome…
– E o teu, posso saber?
– Não. Tu também não precisas de saber o meu. Podes chamar-me, eu sei lá, Alfonsina. Tu vais ser Mário…
Pedro teve uma sensação de reconhecimento, como quando um perfume súbito a pastéis de massa tenra, a terra molhada, a goiabas maduras nos faz regressar aos lugares da nossa infância. Aquela voz acordava nele sentimentos atordoados e contraditórios.
– Posso saber o que fazes, quero dizer, profissionalmente? – perguntou, tropeçando nas palavras.
A mulher riu-se:
– Não. Prefiro inventar. O jogo é esse. A partir de agora só vale a ficção.
Disse-lhe que era cantora. Costumava cantar numa casa de fados. Cantou para ele. Cantava bem. Pedro, ou Mário, contou que era arquiteto. Tinha um atelier em Berlim. Fazia muitos projetos para países do Médio Oriente. Quando se despediram, três horas mais tarde, já se desconheciam muitíssimo bem. As conversas continuaram nos dias seguintes. Pedro foi-se tornando mais Mário a cada conversa. Nos intervalos sentia a falta de Alfonsina. Sozinho em casa, irritava-se com a presença de Pedro, que passava quase todo o tempo ocupado com as suas traduções. Sim, Pedro era tradutor. Sempre trabalhara em casa. O confinamento pouco alterara uma rotina invariável, acordar, lavar os dentes, comer um iogurte e uma fruta, e sentar-se depois a traduzir até à uma da tarde. Almoçava sempre na mesma tasca, na esquina, fazia uma sesta breve e voltava ao trabalho por volta das duas e meia.
Pela primeira vez em muitos anos, custava-lhe sentar-se para trabalhar. A cada frase se distraía. Deixava de ser Pedro, o tradutor, para ser Mário, o arquiteto. Deu por si a desenhar projetos de grandes edifícios de apartamentos enquanto pensava em Alfonsina. Ela não lhe dissera em que casa de fados costumava cantar. Procurou no Google, mas não encontrou uma única referência a uma fadista chamada Alfonsina. Lembrou-se então de que Alfonsina não era real, e isso doeu-lhe, como o fim de um grande amor. Logo a seguir, porém, ela ligou, e cantou para ele, e contou-lhe episódios divertidos da sua vida nas noites alfacinhas, e voltou a ser mais verdadeira do que qualquer mulher que ele alguma vez conhecera.
Pedro só costumava ir à padaria duas vezes por semana. Dois pães grandes davam-lhe para a semana toda. Depois que se começou a transformar em Mário, passou a ir todas as manhãs, na secreta esperança de encontrar Alfonsina. Como ela não aparecia à hora habitual, tentou outras. Chegava a ir à padaria três vezes no mesmo dia. O pão multiplicava-se. Guardou o excedente no congelador. Quando o congelador ficou cheio, passou a armazená-lo em caixas de sapatos, na despensa, na cozinha e até debaixo da cama.
– Preciso ver-te – implorou Mário, numa noite em que haviam conversado mais tempo do que o habitual, e ele terminara a última garrafa de bom vinho que guardava em casa. – Só quero ver o teu rosto.
Surpreendentemente, Alfonsina concordou. Prometeu que faria uma selfie, ao acordar, com a luz generosa do amanhecer, e que a enviaria para ele. Mário dormiu mal. Sonhou com uma mulher cujo rosto mudava ao longo do dia: de manhã era jovem e resplandecente; contudo, ia perdendo o brilho e a frescura à medida que o sol percorria o céu e depois declinava, até se transformar, finalmente, num ser opaco e murcho. Acordou por volta das sete da manhã, com o tilintar do telefone. Alfonsina cumprira a promessa: ali estava ela, desmascarada, posando diante de um vaso branco com orquídeas.
Pedro deixou cair o telefone. Sentou-se no soalho, encostado à parede, com o coração aos saltos: era Helena, a namorada de quem fugira, quinze anos antes, após vinte meses de uma relação tumultuosa. Vira-a pela última vez no casamento de uma irmã dela. A mulher quebrara-lhe uma jarra com orquídeas contra a cabeça, e ele tivera de ser levado para o hospital, coberto de sangue e de vergonha. Estava então no terceiro ano de arquitetura. Abandonara a faculdade, trocara de telefone e de cidade e recomeçara a vida como tradutor.
Olhou de novo o telefone. Era Helena, sem dúvida. E sorria.
(Crónica publicada na VISÃO, de 30 de abril)
Diário da Peste
Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
- FIM -
Outros romances( sinopses) - https://www.revistabula.com/29666-10-livros-sobre-pandemias-em-tempos-de-coronavirus/
O Enigma de Andrômeda, de Michael Crichton
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro” é uma reflexão profunda sobre a natureza humana e a futilidade da guerra. Reúne três novelas essenciais na obra de Katherine Anne Porter: “Velha Mortalidade”, “O Vinho do Meio-Dia” e o conto que dá nome ao livro, considerado a obra-prima da autora. Um estudo sobre o mal, “O Vinho do Meio-Dia” é uma história de ganância e crime no Sul do Texas, inspirada na infância da autora. Em “Velha Mortalidade” enredam-se os primeiros anos e a vida adulta da heroína Miranda, alter ego de Porter. Num brilhante exercício de escrita, “Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro” revela a mente febril e os delírios de Miranda, que está à beira da morte após ter contraído gripe espanhola.
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, de Katherine Anne Porter
“Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro é uma reflexão profunda sobre a natureza humana e a futilidade da guerra. Reúne três novelas essenciais na obra de Katherine Anne Porter: “Velha Mortalidade”, “O Vinho do Meio-Dia” e o conto que dá nome ao livro, considerado a obra-prima da autora. Um estudo sobre o mal, “O Vinho do Meio-Dia” é uma história de ganância e crime no Sul do Texas, inspirada na infância da autora. Em “Velha Mortalidade” enredam-se os primeiros anos e a vida adulta da heroína Miranda, alter ego de Porter. Num brilhante exercício de escrita, Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro revela a mente febril e os delírios de Miranda, que está à beira da morte após ter contraído gripe espanhola."
A Dança da Morte ,de Stephen King
"A Dança da Morte, um dos clássicos da literatura contemporânea, King cria uma história épica sobre o fim da civilização e a eterna batalha entre o bem e o mal. Após um erro de computação no Departamento de Defesa, um vírus é liberado, e um milhão de contatos casuais formam uma cadeia de morte: é assim que o mundo acaba. O que surge em seu lugar é um ambiente árido, sem instituições e esvaziado de 99% da população. É um lugar onde sobreviventes em pânico escolhem seus lados — ou são escolhidos. Os bons se apoiam nos ombros frágeis de Mãe Abigail, com seus 180 anos de idade, enquanto todo o mal é incorporado por um indivíduo de poderes indizíveis: Randall Flagg, o homem escuro."
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel García Márquez
“O Amor nos Tempos do Cólera narra a paixão do telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Ainda muito jovem, Florentino se apaixona por Fermina, mas o romance enfrenta a oposição do pai da moça, que tenta impedir o casamento enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Tudo isso ocorre enquanto a Colômbia enfrenta uma epidemia devastadora de cólera. Fermina acaba por se casar com Juvenal Urbino, médico conceituado por erradicar a doença. Inesperadamente, após 53 anos da separação, ela reencontra Fermino. A trama é inspirada na história real de amor vivida por Gabriel Elígio García e Luiza Márquez, pais do autor."
Salão de Beleza, de Mario Bellatin
Em uma grande cidade, um cabeleireiro que se traveste à noite para fazer programas, monta um sofisticado salão de beleza e cuida de aquários com diferentes espécies de peixes. Quando a cidade é assolada por uma peste implacável ainda desconhecida, ele começa a abrigar dentro de sua loja as pessoas doentes. Em nenhum momento aparece a designação da doença, mas é visível que se trata da AIDS. Ao mesmo tempo que se compadece dos que vão morrer, o cabeleireiro tenta manter uma certa distância e indiferença. “Salão de Beleza” foi escolhido por um júri de escritores e críticos latino-americanos como um dos 20 melhores relatos escritos em língua espanhola a partir de 1980.
ão funcionam e depressa o mundo se torna cego, com exceção de uma mulher misteriosa, que enxerga sozinha os horrores causados pela pandemia.
Oryx e Crake de Margaret Atwood
" O livro acompanha o último sobrevivente da raça humana após uma catástrofe que dizima a Terra. Ele se autodenomina “homem das neves” e vive em um amargo isolamento, vivendo como um pária em seu próprio habitat. Quando não precisa sair em busca de comida em um deserto infestado de insetos, seu único prazer está em assistir a filmes antigos em DVD que o fazem lembrar do mundo de outrora. Como tudo veio abaixo tão depressa? Enquanto o Homem das Neves reconstitui suas lembranças, sua mente é povoada pelas vozes de seus amigos da juventude, o enigmático Crake e a sedutora Oryx, personagens-chave por trás do Projeto Paradiso, o grande responsável pela derrocada da espécie humana."
Estação Onze, de Emily St. John Mandel
"Certa noite, o famoso ator Arthur Leander tem um ataque cardíaco no palco, durante a apresentação de “Rei Lear”. Jeevan Chaudhary, um paparazzo com treinamento em primeiros socorros, vai em seu auxílio. A atriz mirim Kirsten Raymonde observa horrorizada a tentativa de ressuscitação cardiopulmonar enquanto as cortinas se fecham. Nessa mesma noite, uma terrível pandemia de gripe começa a se espalhar e destrói, quase por completo, toda a humanidade. Quase 20 anos depois, Kirsten é uma atriz na Sinfonia Itinerante. Com a pequena trupe de artistas, ela viaja pelos assentamentos do mundo pós-calamidade, apresentando peças de Shakespeare e números musicais para as comunidades de sobreviventes."
"A Deep answer to the question about why hype about epidemics doesn’t line up with the scale of damage has to do with fear. We humans dread death. It is only natural that the mass mortality brought by a great plague makes us afraid. And besides our dread of death, we are frightened by the prospect of social disruption. To live in civilized society is to bear a dread that goes beyond the fear of death."

































