“O título é uma referência ao processo de transformação pelo qual se passa quando saímos de uma realidade e temos de nos recriar noutra. Esse para mim é o morrer, porque,a partir do momento em que desembarcas noutro sítio qualquer , esqueces quem eras, começa tudo do zero.”
Uma temática interessante, bons títulos síntese, mas ...
Um título sugestivo e enigmático, um conteúdo pertinente e muito atual, um modo cativante e , até, divertido, de abordar o drama dos emigrantes, seres " perdidos" numa terra estranha,em que a compra de uma mala assume uma importância enorme, e quase faz esquecer a hostitilidade vivida na misteriosa ilha...
No desenlace, quase que o leitor se esquece de outras " perdições", pelo facto de a mala , adquirida do capítulo I, se ter perdido no aeroporto. Apreciei este remate bem sarcástico...
Destaco, também, o caráter sugestivo dos titulos de alguns dos capítulos: " o decote que me queria saltar para as mãos"; " Deus baldava-se muito"; " As visões tinham a mania das grandezas"; " Era egoísta contra a minha vontade"; " Quarenta quilos de nós".
Mas... os elogios dos críticos à linguagem inovadora é exagerado e cria expectativas infundadas no leitor: nível de língua com recurso ao calão e reprodução de diálogos com marcas de oralidade não são inovação literária no século XXI, por muito que agradem a António Lobo Antunes...
"Apesar de muito pontos positivos (a ideia principal da ação, o início promissor, os títulos sugestivos e muitas reflexões que nos fazem pensar na nossa vida e na vida do Outro), de uma forma geral, os leitores esperavam mais de um autor que tem sido apontado como uma das novas grandes vozes da literatura em expressão portuguesa. Há momentos em que chegamos mesmo a considerar a narrativa aborrecida, tendo em conta o número de peripécias repetidas e de diálogos em modo oralizante, que são tudo menos uma novidade no meio literário." Vanda Balão
Sinopse de Despedidas Impossíveis "Numa manhã gelada de dezembro, Kyungha recebe uma mensagem da sua amiga Inseon -internada num hospital de Seul na sequência de um ferimento grave a cortar madeira - pedindo-lhe que a visite urgentemente. Quando Kyungha chega à enfermaria, Inseon conta-lhe que veio de avião da ilha de Jeju para ser tratada urgentemente e implora-lhe que vá a sua casa dar de comer e beber ao seu periquito, que de contrário morrerá.
Uma tempestade de neve fustiga a ilha à chegada de Kyungha e muitos dos autocarros foram cancelados ou sofreram atrasos. As rajadas de vento e o nevão constante não a deixam avançar e de repente a escuridão invade tudo. Kyungha não sabe se chegará a tempo de salvar a ave - nem mesmo se sobreviverá ao frio tremendo daquela noite; e não sabe também a vertigem que a aguarda em casa da amiga, onde a história há muito sepultada da família de Inseon acaba por revelar-se, em sonhos e memórias transmitidas de mãe para filha e num arquivo diligentemente organizado que documenta um terrível massacre ocorrido em Jeju.
É um hino à amizade, uma elegia à imaginação e, acima de tudo, um poderoso manifesto contra o esquecimento. Como um longo sonho de inverno, estas páginas belíssimas formam muito mais do que um romance - iluminam uma memória traumática, enterrada ao longo de décadas, que ainda hoje ecoa no peito de muitas famílias."
Foi assim que a morte me evitou. Como um asteroide que se pensa estar em rota de colisão e evita a Terra por um triz, passando a uma velocidade furiosa e sem lugar para arrependimentos nem hesitações.
Não me tinha reconciliado com a vida, mas tinha de recomeçar a viver.
Quase dois meses de isolamento e ter estado à beira de morrer à fome tinham-me deixado com uma perda considerável de massa muscular.
É um hino à amizade, uma elegia à imaginação e, acima de tudo, um poderoso manifesto contra o esquecimento. Como um longo sonho de inverno, estas páginas belíssimas formam muito mais do que um romance - iluminam uma memória traumática, enterrada ao longo de décadas, que ainda hoje ecoa no peito de muitas famílias."
Os nossos olhos encontram-se na quietude.
Descendo e afundando-se ainda mais.
Para lá da zona onde a pressão oprime como um trovão e os seres vivos já não emitem luz.
Depois disso, o arquivo é interrompido. Durante trinta e quatro anos, não há mais recortes.
Quanto mais podem descer estas profundezas? Será este o silêncio que jaz sob o mar no meu sonho?
“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois.” Albert Camus
Cinco irmãs suicidam -se, uma a uma, no espaço de um ano: Therese, a intelectual; Mary, a fútil; Bonnie, a asceta; Lux, a libertina; Cecília, a mística...
Os jovens rapazes da vizinhança, obsecados pelas misteriosas irmãs, vinte anos mais tarde, tentam reconstituir os acontecimentos...
Porque se suicidaram as irmãs?
Toda a gente com quem falámos associou o início da decadência do nosso bairro aos suicídios das meninas Lisbon. Embora a princípio as culpassem de tudo, pouco a pouco, foi-se dando uma transformação e elas passaram a ser vistas não como bodes expiatórios, mas como videntes. Cada vez mais, as pessoas foram-se esquecendo das razões individuais dos suicídios, do stress e das perturbações dos neurotransmissores, e, em vez disso, atribuíram as mortes à capacidade que as raparigas tinham para prever a decadência. As pessoas viram a sua clarividência nos ulmeiros ceifados, na severidade da luz do sol, no declínio progressivo da nossa indústria automóvel.
Toda a gente com quem falámos associou o início da decadência do nosso bairro aos suicídios das meninas Lisbon. Embora a princípio as culpassem de tudo, pouco a pouco, foi-se dando uma transformação e elas passaram a ser vistas não como bodes expiatórios, mas como videntes. Cada vez mais, as pessoas foram-se esquecendo das razões individuais dos suicídios, do stress e das perturbações dos neurotransmissores, e, em vez disso, atribuíram as mortes à capacidade que as raparigas tinham para prever a decadência. As pessoas viram a sua clarividência nos ulmeiros ceifados, na severidade da luz do sol, no declínio progressivo da nossa indústria automóvel.
Bonnie terá morrido enquanto estávamos sentados na sala de estar, a sonhar com autoestradas. Mary terá colocado a cabeça no forno pouco depois, ao ouvir o pontapé que Bonnie deu ao baú em que se apoiava. Estavam prontas para se ajudar uma à outra, se fosse caso disso. É possível que Mary ainda estivesse a respirar quando passámos por ela a caminho do andar de baixo, não a vendo por causa de uns sessenta centímetros de escuridão, ou menos, medidos por nós mais tarde. Therese, encharcada em soporíferos empurrados com gin, estaria já morta quando lá entrámos. Lux terá sido a última a ir, cerca de vinte ou trinta minutos depois de termos partido. Fugindo, gritando sem qualquer som, esquecemo-nos de parar na garagem, de onde ainda se ouvia música. Encontraram-na no assento da frente.
Mary fez os mesmos testes que Cecilia, mas o Dr. Hornicker não encontrou quaisquer vestígios de doença psiquiátrica como esquizofrenia ou depressão maníaca.
E, no final, a dor que dilacerava as Lisbon apontava para a simples e racional recusa de aceitarem o mundo que lhes tinha sido transmitido, com tantos defeitos.
«Foi uma combinação de vários fatores», afirmou o Dr. Hornicker«Na maioria das pessoas , o suicídio é como uma roleta russa. Só uma das câmaras é que tem uma bala. No caso das meninas Lisbon, a arma estava carregada...»
Elas tiveram o propósito de ficarem sozinhas para todo o sempre, sozinhas no suicídio, que é mais profundo do que a morte, e onde jamais encontraremos as peças para as reconstruir.
«Foi uma combinação de vários fatores», afirmou o Dr. Hornicker«Na maioria das pessoas , o suicídio é como uma roleta russa. Só uma das câmaras é que tem uma bala. No caso das meninas Lisbon, a arma estava carregada...»
Elas tiveram o propósito de ficarem sozinhas para todo o sempre, sozinhas no suicídio, que é mais profundo do que a morte, e onde jamais encontraremos as peças para as reconstruir.



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