Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Releituras. Regresso ao passado...

«É um livro que, durante muitos anos, me tocou de perto como só o fizeram dois ou três seres humanos. Em qualquer momento e lugar em que o abri provocou-me sobressaltos de medo e absorveu-me inteiramente e de todas as vezes senti-me como um filho espiritual deste escritor, ainda que pobre e desajeitado.» Kafka dixit...

 

Assim termina um amor. Assim se recupera uma amizade ... 

  "Adeus, meu amigo, meu querido amigo! Não voltarei a vê-lo" … E beijou-o na fronte como uma mãe … Quando ela saiu , Frederico abriu a janela. A Srª Arnoux, no passeio, mandava parar um fiacre. Subiu. A viatura desapareceu. Foi tudo.

No princípio do inverno, Frederico e Deslauriers conversavam sentados ao pé do lume, reconciliados mais uma vez pela fatalidade das suas maneiras de ser, que os fazia voltarem sempre um para o outro e estimarem-se.


Sexta feira de carnaval é dia de regressar ao passado...

  Foi como uma visão: Ela estava sentada , no meio de um banco, sozinha; ou pelo menos ele não distinguia mais ninguém no meio da ofuscação que lhe envolvia os olhos. Ao mesmo tempo que ele passou , ela levantou a cabeça; ele fletiu involuntariamente os ombros; e quando se colocou, um pouco mais longe, do mesmo lado, olhou-a.

Esta sexta de carnaval foi dia de decidir o futuro...

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Metamorfoses...



"A doença mental e toda a sua envolvência não são estranhos à arte. Na música popular, encontram-se inúmeros exemplos de formulações e imagens que contribuem para incrementar o conhecimento sobre as vivências internas. A tradução dessas experiências subjectivas apresenta grande valor para o conhecimento psiquiátrico, cuja base assenta no movimento empático como meio de exploração de estados patológicos. Os Beatles, grupo inglês de grande expressão, apresentam nas suas letras particularidades psicopatológicas. A canção She Said She Said aparece como especialmente rica nesse aspecto.

Nas letras das canções dos Beatles, encontram-se passagens que podem ser observadas e tratadas como estados psicopatológicos. She Said She Said é um exemplo particularmente rico em noções psicopatológicas, nomeadamente a constelação depressiva ou os fenómenos psicóticos e de despersonalização."


".... por terras de Extremadura, Don Quijote y Saavedra, com o elmo de mambrino na mão direita com que o acaricia, entrevê, numa longínqua proximidade, mas não perto de Toboso, embora ao som de Brel, Dulcinea..."

A alma humana é vítima tão inevitável da dor que sofre a dor da surpresa dolorosa, mesmo com o que devia esperar. Tal homem, que toda a vida falou da inconstância e da volubilidade feminina como de coisas naturais e típicas, terá toda a angústia da surpresa triste quando se encontre traído em amor — tal qual, não outro, como se tivesse sempre tido por dogma ou esperança a fidelidade e a firmeza da mulher.

Tal outro, que tem tudo por oco e vazio, sentirá como um raio súbito a descoberta de que têm por nada o que escreve, ou que é estéril o seu esforço por ensinar ou que é falsa a comunicabilidade da sua emoção.

Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.


..."Ortega 'hablando' de 'El Quijote'..."


Eu creio que a missão mais importante da crítica não é classificar taxar as obras literárias, distribuindo-as em boas ou más. Cada dia me interessa menos sentenciar: no lugar de ser juiz das coisas, prefiro ser o seu amante».

«o ódio impede uma verdadeira apreciação. A crítica pode ser antagónica e polémica, mas nunca basear-se no ódio».

O tema, bastante recorrente no pensamento do filósofo, acerca da necessidade humana de construção de hierarquias, «sem as quais o cosmos volta ao caos», é também considerado uma das razões que legitimam a crítica, porque «louvar o que não é louvável é confundir a cultura».


"....el Quijote en tierras extremeñas......"

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.




Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.




Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.


— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas...




Num livro nunca escrito, numa folha em branco, ouço, dentro de mim, fonemas, sons que insignificam... No momento em que me procuro e me escrevo, experimento a emoção de encontrar a palavra-que nunca-foi-dita , a palavra que sempre existiu só para mim, a palavra indizível que exprime o que sinto por ti...



Como se consegue transformar um amor em amizade? Será possível? Não será demasiado doloroso? Será que o amor se metamorfoseia de amizade , mas continua a ser amor? Será que a amizade, que já foi amor, tem uma natureza diferente da amizade que nasceu amizade?

“O mito de Eros e Psique não é menos importante para o entendimento da atualidade” Dirigindo-se ao leitor, Inês Pedrosa afirma que este “compreenderá a ligação entre os factos e o mito, se dispuser de paciência para ler este romance e se pertencer a essa fina-flor de almas sábias que encontrou na hipérbole de ficção uma verdade mais cirúrgica do que a fornecida pela científica dieta dos documentos”

A conservação da identidade interior, apesar da mutação exterior, inerente ao conceito de metamorfose em ovídio e em kafka, é um reflexo da teoria da metempsicose, defendida por Pitágoras.

Pigmalião sempre vira a vida dissoluta destas mulheres. / Por isso, revoltado com os vícios sem conta que a natureza / conferira à índole feminina, vivia solteiro e sem esposa; / e por muitos anos não teve com quem partilhar o leito.Um dia, com arte espantosa e feliz, esculpiu uma peça / de marfim da cor da neve, com a beleza com que mulher / alguma consegue nascer; e enamorou-se da sua obra.A face era de uma jovem autêntica,a qual tu julgarias / estar viva e que queria, não obstante a timidez , mover-se (...) Pigmalião extasia-se / a olhá-la e sorve no peito chamas pelo corpo de imitação. / Muitas vezes toca com as mãos na sua obra para testar/ se é corpo ou marfim,e nem admite que ainda é marfim,/ d´-lhe beijos e julga que são devolvidos_; fala-lhe, abraça-a, / crê que,ao tocar-lhe, os dedos se afundam no corpo e teme / que, ao pressionar, marcas lívidas acedam aos membros./ Ora lhe faz carícias, ora lhe traz presentes que encantam/ as donzelas: conchas e pedrinhas polidas,/ e pequeninas aves e flores de mil cores, / e lírios, e bolinhas coloridas, e lágrimas que deslizam/ da árvore das Helíades. Enfeita ainda o corpo de vestidos,/nos dedos põe anéis com jóias,ao pescoço longos colares./ Pendem das orelhas leves pérolas,e fitas sobre o peito./ Tudo lhe fica tão bem! E nem nua pareceria menos bela./ Deita-a então sobre colchas tingidas da concha de Sídon,/ e chama-lhe companheira de leito, e recosta-lhe a cabeça/ em almofadas de macias penas, como se ela pudesse sentir./ Chegara o dia da festa de Vénus, aquela a que toda a Chipre / acorria a celebrar.(...) Findo o ritual, quedou-se junto ao altar / e timidamente disse: " Deuses,se tendes o poder de outorgar/ tudo, desejo que me concedais... esposa semelhante à de marfim"/ Presente à sua festa, a doirada Vénus percebeu o que queria/ dizer a prece; e por três vezes o fogo se avivou e a ponta / da chama se ergueu pelos ares, sinal favorável da deusa./ Ao voltar a casa, logo se abeira da estatueta da sua menina./ Debruçando-se sobre o leito, beijou-a: pareceu-lhe tépida! De novo aproxima os lábios e toca-lhe nos seios com as mãos./ Ao ser tacteado, o marfim torna-se mole ! A rigidez esvai-se, / e sob os dedos cede e molda-se, tal como a cera do Himeto/ sob o sol amolece e, moldada pelos dedos, cede a mudar-se / em formas sem conta, tornando-se útil pelo próprio uso./ Enquanto se pasma, e se alegra na dúvida e receia enganar-se, / uma e outra vez o amante toca com as mãos nos seus desejos. Era corpo humano! As veias tacteadas pelo polegar latejam! / Então, o herói de Pafo pronuncia palavras solenes / de gratidão a Vénus. Comprime, por fim, com os lábios / os lábios que já não eram falsos. A donzela sentiu os beijos / que ele dava e corou. E erguendo o olhar tímido para o dele, / vislumbra, ao mesmo tempo, o céu e quem a amava.

Parafraseando saramago, gostaria de meter esta metamorfose de galateia em cima de um palco...Se tivesse sido atriz, teria sido o papel da minha vida...
Segundo fernando pessoa,o mito de Pigmalião e Galateia mostra que o grego compreendeu a dor de a arte nunca poder chegar à vida, por não poder criar a vida verdadeiramente.

Outras metamorfoses...
Mal finda a prece, invade-lhe um torpor os membros, os seus seios tenros são por fina casca envoltos, dos cachos crescem folhas e ramos dos braços; pés tão velozes fixam-se em lentas raízes, no seu rosto coberto, um brilho apenas resta. Entanto, Febo continua a amar, e pondo a dextra no tronco, sente o peito tremer sob a casca e, os ramos abraçando, qual membros, recobre-o de beijos, mas o tronco se esquiva aos seus beijos. Diz-lhe o deus: “Já que não podes ser a minha esposa, serás a minha árvore..."

De lá, pela imensidão do éter, coberto com um véu dourado, o Himeneu se afasta e se dirige para as regiões da Trácia e é chamado inutilmente pela voz de Orfeu. Aquele, na verdade, se aproximou, contudo não levou palavras sagradas, nem feições alegres, nem presságio favorável. A tocha aguda que ele conservou esteve sempre com funesta fumaça e, até mesmo com movimentos, não obteve nenhuma chama. O desfecho é mais grave do que o auspício: com efeito, enquanto a esposa anda por entre as plantas, acompanhada de uma nova turba de ninfas, morre com a picada de uma serpente recebida no tornozelo. O poeta da Trácia lamentou para os céus superiores a fim de que descesse às sombras, ousou entrar nos infernos e, por entre populações inconstantes e espectros já sepultados, aproximou-se de Perséfone e do senhor das sombras, que detém os reinos infernais. Tocadas as cordas, assim diz os versos: “Ó deuses do mundo posto sob a terra, no qual descemos todos nós, criaturas mortais; cessados os rodeios da palavra enganadora, se é lícito que vós permitis falar coisas verdadeiras, não desci para ver o tenebroso Tártaro, nem para vencer as três goelas cobertas de serpentes do monstro de Medusa: a causa da viagem é a minha esposa, tendo pisado numa víbora, o veneno nela se espalhou e tirou-lhe os anos crescentes. Desejei poder suportar, não negarei que eu tenha tentado: o Amor venceu. Este é um deus bem conhecido na região superior, se aqui o é, não sei, contudo penso que seja. Se a fama do antigo rapto não mentiu, o Amor também vos uniu. Por entre estes lugares plenos de terror, por entre este enorme caos e a sombra de vasto reino, suplico, refazei a vida prematura de Eurídice. Devemos todas as coisas a vós, e tendo vivido um pouco, mais lentamente ou mais rapidamente, nos impelimos para uma única sede. Para aqui nos dirigimos todos, esta é a última casa, e vós tendes vastíssimo domínio sobre o género humano. Ela também, quando já madura tiver percorrido anos suficientes, estará ao vosso poder: pedimos, por favor, aquilo que é necessário; porque se os fados me negam a graça em favor da esposa, estou decidido a não querer regressar, comprazei vós com a morte dos dois”. As almas exangues choravam por aquele que,tocando as cordas, dizia tais palavras. Nem Tântalo cobiçou a água fugidia, e a roda de Íxion ficou imóvel, nem as aves comeram o fígado, e as Danaides ficaram desocupadas quanto às urnas, e tu, ó Sísifo, tomaste assento em teu rochedo. Então, diz-se que, pela primeira vez, os olhos das Euménides, vencidas pelo canto, encheram-se de lágrimas. Nem a esposa real ousa negar àquele que suplica, nem quem governa as profundezas. Chamam Eurídice. Ela estava entre as sombras recentes e caminhou com o passo lento por causa da ferida. O herói de Ródope a recebe com a condição de que não volte seus olhos para trás até que tenha atravessado os vales do Averno. Do contrário, as oferendas haverão de ser inúteis. O caminho escarpado, árduo, obscuro, coberto de negra fumaça, é trilhado por entre a silenciosa escuridão. Não longe, aproximaram-se da entrada do solo elevado: neste momento, temendo que ela o abandonasse e ávido de vê-la, o amante voltou os olhos, e imediatamente ela foi reconduzida, e estendendo os braços para ser agarrada e esforçando-se para agarrar, a infeliz nada toma senão os ares que se dissipam. E agora ,morta pela segunda vez, nada murmura contra seu esposo (o que, de facto, haveria de se queixar, senão o facto de ser amada?). E ela disse um último “adeus”, que desde então com dificuldade ele compreendeu, e foi conduzida de novo para o mesmo lugar. Orfeu ficou perplexo com a dupla morte da esposa, não de modo diferente de quem, medroso, viu os três pescoços do cão, carregando no meio correntes, a quem o pavor não abandonou antes de sua natureza primeira, erguendo-se a rocha por entre o corpo. Tal como Óleno que arrastou contra si um crime e desejou ser visto como um culpado, e como tu, ó infeliz Letéia, confiaste na tua aparência, os corações muito unidos de outrora, agora são pedras, as quais sustenta o húmido Ida. O barqueiro contivera Orfeu que, em vão, suplicava e desejava atravessar pela segunda vez: contudo, ele permaneceu de luto e sem o dom de Ceres por sete dias na costa. O cuidado e a dor do coração e as lágrimas foram o seu sustento. Lamentou que os deuses do Érebo eram cruéis, refugia-se no alto Ródope e no monte Hemo batido pelos ventos do norte. O terceiro Titan determinara o ano encerrado com os Peixes marinhos e Orfeu recusara todo encanto feminino, ou porque tristemente lhe sucedera ou porque concedera fidelidade, contudo o desejo de unir-se ao vate se apossava de muitas; muitas, repelidas, sofreram. Ele ainda foi, para os povos da Trácia, conselheiro em levar o amor aos jovens rapazes e em colher, antes da juventude, as primeiras flores e a breve primavera da vida.

Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se na sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Não era um sonho. O seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas.
Mas Gregor estava agora muito mais calmo. As palavras que pronunciava já não eram inteligíveis, aparentemente, embora a ele lhe parecessem distintas, mais distintas mesmo que antes, talvez porque o ouvido se tivesse acostumado ao som ...
Morto? — perguntou a Senhora Samsa, olhando inquisidoramente para a criada, embora pudesse ter verificado por si própria e o facto fosse de tal modo evidente que dispensava qualquer investigação(...) — Muito bem — disse o Senhor Samsa —, louvado seja Deus.


Aderga de agastura atabafada,
aterma barafusta e por betado
compeça batocante de chapado(...)

Forfante de incha e de maninconia,
gualdido parafusa testaçudo.
Mas trefo e sengo nos vindima tudo
focinho rechaçando e galasia.
Anadiómena Afrodite? Não:
Apenas Duarte Nunes de Leão



É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.



In the jostling crowd, you're not allowed to tell the truth and the photobooth's a liar...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Cartas de amor...

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas."


Nos últimos dias de dezembro de 1959, Albert Camus escreveu quatro cartas de amor a quatro mulheres diferentes, depois de umas férias com a mulher e os filhos:
Dia 29 : “Esta terrível separação fez-nos pelo menos sentir como nunca a constante necessidade que temos um do outro.”
Dia 30 : “Só para dizer-te que chego Terça-Feira de carro. Faz-me tão feliz a ideia de ver-te outra vez que me rio enquanto escrevo.”
Dia 31 : “Vejo-te na Terça-Feira, meu amor, e já te beijo antecipadamente e te bendigo desde o fundo do meu coração.”
Uma outra carta estabelecia as datas de um encontro prometido em Nova York...

"Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas."


“o amor é seres para mim a faca com que remexo as minhas entranhas”

A ti, por sua causa e tua, uma pessoa pode dizer a verdade como a mais ninguém, mais até, pode saber a sua verdade directamente de ti.











"As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas."


«Meu querido Antoine.»
Sorrio: não, decerto. Anny, decerto, não escreveu «meu querido Antoine».
Há seis anos -acabávamos de nos separar de comum acordo - decidi partir para Tóquio. Escrevi-lhe algumas palavras. Já não podia chamar-lhe «meu querido amor»; comecei, muito inocentemente, por «minha querida Anny».
«Fiquei admirada com o teu à-vontade», respondeu-me ela; «nunca fui, nem sou, a tua querida Anny. E tu, peço-te que acredites que não és o meu querido Antoine. Se não sabes como me hás-de chamar, não me chames coisa nenhuma. Mais vale assim.»
Tiro a carta da carteira. Anny não escreveu «meu querido Antoine». No fim da carta também não há nenhuma despedida delicada: «Preciso de te ver.» Nada que possa fixar-me quanto aos seus sentimentos. Não posso queixar-me: reconheço nestes modos o seu amor pelo perfeito. Ela queria sempre realizar «momentos perfeitos».


"Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."


( Percebi, subitamente, que nunca foste meu amigo, unicamente me permitiste que eu o fosse...)

Minha querida,
Escrevo-te outra vez porque me sinto sozinho e porque me perturba ter um diálogo contigo na minha cabeça, sem que tu possas saber nada, ou ouvir, ou responder…
A ausência temporária faz bem, porque a presença constante torna as coisas demasiado parecidas para que possam ser distinguidas. A proximidade diminui até as torres, enquanto as ninharias e os lugares comuns, ao perto, se tornam grandes. Os pequenos hábitos, que podem irritar fisicamente e assumir uma forma emocional, desaparecem quando o objecto imediato é removido do campo de visão. As grandes paixões, que pela proximidade assumem a forma da rotina mesquinha, voltam à sua natural dimensão através da magia da distância. É assim com o meu amor. Basta que te roubem de mim num mero sonho para que eu saiba imediatamente que o tempo apenas serviu, como o sol e a chuva servem para as plantas, para crescer.
No momento em que tu desapareces, o meu amor mostra-se como aquilo que na verdade é: um gigante onde se concentra toda a energia do meu espírito e o carácter do meu coração. Faz-me sentir de novo um homem, porque sinto um grande amor. (…) Não o amor do homem Feuerhach, não o amor do metabolismo, não o amor pelo proletariado – mas o amor pelos que nos são queridos e especialmente por ti, faz um homem sentir-se de novo um homem.
Há muitas mulheres no mundo e algumas delas são belas. Mas onde é que eu podia encontrar um rosto em que cada traço, mesmo cada ruga, é uma lembrança das melhores e mais doces memórias da minha vida? Até as dores infinitas, as perdas irreparáveis… eu leio-as na tua doce fisionomia e a dor desaparece num beijo quando beijo a tua cara doce.

Adeus, minha querida, beijo-te mil vezes da cabeça aos pés,
Sempre teu,
Karl
Manchester, 21 de Junho de 1865


"Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas."



Meu anjo, meu tudo, meu próprio ser...
Esqueces-te tão facilmente que eu vivo por ti e por mim. Se estivéssemos completamente unidos, tu sentirias essa dor assim como eu a sinto. [...] Nós provavelmente devemo-nos ver em breve, entretanto, hoje eu não posso dividir contigo os pensamentos que tive nos últimos dias sobre minha própria vida – Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum… O meu coração está cheio de coisas que eu gostaria de te dizer – ah – há momentos em que sinto que esse discurso é tão vazio – Lembra-te da minha verdade, o meu único tesouro... Teu fiel, Ludwig


"A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas"


Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanhã pode ser que eu o não veja.
Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata.(...)
Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo. Escutarás com glória a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
A hora em que leres esta carta...



Ouve-me!, se é que ainda Me podes tolerar. Neste papel rasgado Das arestas da minh'alma, Ai!, as absurdas intrigas Que te quisera contar! Ai os enredos, Os medos, E as lutas em que medito, Quer dê, quer não dê por isso, Sem descansar Um momento...! Quem sofre - pensa; e o tormento Não é sofrer, é pensar.

"(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas)".


Meu querido Bébézinho:
Hoje não recebi carta tua, mas – é claro – não me admirei, porque já sabia pela tua carta de hontem (a que me entregaste no carro) que não terias naturalmente tempo de me escrever. Como esta carta te chega ás mãos amanhã de manhã, quero mandar ao meu Bébé muitos e muitos parabens, muitos beijinhos, e desejar que ella seja muito e muito feliz,que muitas vezes o anniversario se repita com o Bébé sempre contente. O engraçado era que no anno que vem eu já te pudesse dar estes parabens de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha?
Muitos beijos, muitissimos do teu, muito teu
Fernando
, junho de 1920



Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais do que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o «Prince Charmant» vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!


Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projetos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.


I memorize every line. I kiss the name that you sign. And darling, then I read again Right from the start, Love letters straight from your heart...

As duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a última., disse petrarca, entendido nesta matéria.

Uma carta de amor(?)não ridícula...

Há um vago número de muitos meses que me vê olhá-la constantemente, sempre com o mesmo olhar incerto e solícito. Eu sei que tem reparado nisso. E como tem reparado, deve ter achado estranho que esse olhar, não sendo propriamente tímido, nunca esboçasse uma significação. Sempre atento, vago e o mesmo, como que contente de ser só a tristeza disso... Mais nada... E dentro do seu pensar nisso — seja o sentimento qual seja com que tem pensado em mim — deve ter perscrutado as minhas possíveis intenções. Deve ter explicado a si própria, sem se satisfazer, que eu sou ou um tímido especial e original, ou uma qualquer espécie de qualquer coisa aparentado com o ser louco.Eu não sou, minha Senhora, perante o facto de olhá-la, nem estritamente um tímido, nem assentemente um louco. Sou outra coisa primeira e diversa, como, sem esperança de que me creia, lhe vou expor. Quantas vezes eu segredava ao seu ser sonhado: faça o seu dever de ânfora inútil, cumpra o seu mister de mera taça.
Com que saudade da ideia que quis forjar-me de si eu percebi um dia que era casada! O dia em que percebi isso foi trágico na minha vida. Não tive ciúmes do seu marido. Nunca pensei se acaso o tinha. Tive simplesmente saudades da minha ideia de si. Se eu um dia soubesse este absurdo — que uma mulher num quadro — sim essa — era casada, a mesma seria a minha dor. Possuí-la? Eu não sei como isso se faz. E mesmo que tivesse sobre mim a mancha humana de sabê-lo, que infame eu não seria para mim próprio, que insultador agente de minha própria grandeza, ao pensar sequer em nivelar-me com o seu marido!
Possuí-la? Um dia que acaso passe sozinha numa rua escura, um assaltante pode subjugá-la e possuí-la, pode fecundá-la até e deixar atrás de si esse rasto uterino. Se possuí-la é possuir-lhe o corpo que valor há nisso? Que não lhe possui a alma?... Como é que se possui uma alma? E pode haver um hábil e amoroso que consiga possuir-lhe essa «alma».(...) Quantas horas tenho passado em convívio secreto com a ideia de si! Temo-nos amado tanto, dentro dos meus sonhos? Mas mesmo aí, eu lhe juro, nunca me sonhei possuindo-a. Sou um delicado e um casto mesmo nos meus sonhos. Respeito até a ideia de uma mulher bela.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

( Des) ilusões e utopias...

Eu estava recém-separada e com aquele discurso cafona de de não morar junto nunca mais. Mas aí você começou a jogar sujo, e fez coisas terríveis e imperdoáveis, como brincar com o meu filho e saber o número do meu pé. E eu fui estudando desesperadamente para descobrir os seus defeitos, porque não era possível alguém acordar bem-humorado e ainda por cima fazer cappuccino com aquela espuma profissional. E assim eu fui ficando… uma semana, um mês, sete anos. E assim estou, sem planos de ir embora.

Ser companheira dos meus medos e dar a mão a eles foi a coisa mais bonita que me aconteceu. Também decidi que não quero saber de gente bem resolvida. E que nunca mais vou planejar assassinar ninguém que tenha fechado um cruzamento no trânsito. O homem é projeto. E a informação a respeito de si é puro ouro.

E de repente, tudo mudou. Não, não foi de repente. Foi aos poucos. Foi indo, ficando longe, sendo de outro jeito. Talvez também não tenha sido tudo, mas só você, que foi deixando de ser você — você, no caso, eu — apesar do nome mantido e daquela amiga da vida toda. Mas não era esse o combinado, sair de si e começar de novo, e sempre, como uma boneca russa, uma dentro da outra? E por que eu não percebi logo? Como uma criança que se vê crescer todos os dias e não se percebe a enorme diferença que cada par de meses pode fazer no córtex de cérebro tão pequeno, eu também não vi a garota indo embora, e em seguida a filha. Eu só vi que tava estranho.
E não foram dois meses. Foram 40 anos. Atari, PUC, filho, separação, casamento, despedidas, 7 a 1. Vim vindo como em um videogame cujas fases se sucederam sem que eu me desse conta, e agora não dá pra voltar. Prazer, você virou outra pessoa. Maldito Freud.


«Entristecem-me as belezas que não atravessam o oceano. Entristece-me que a maioria dos brasileiros não conheça Sérgio Godinho, Ricardo Araújo Pereira, Adília Lopes, alheiras ou peixinhos da horta. Imagina que existência triste a de um sujeito que nunca comeu peixinhos da horta. Na mesma medida, entristece-me que Portugal ainda não conheça Maria Ribeiro. Maria faz o Brasil rir alto — semanalmente — daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve como quem conversa, e conversa como ninguém. Este livro que você tem em mãos foi um baita sucesso num país em que livros não costumam fazer um baita sucesso. Agora você não tem mais desculpas. Maria atravessou o oceano. Isto há de ser um baita sucesso.» — Gregorio Duvivier

The deconstruction has begun Time for me to fall apart And if you think that it was rough I tell you nothing changes Till you start to break it down And break apart... The reconstruction will begin Only when there's nothing left But little pieces on the floor That made of what I was Before I had to break it down


Talvez desilusão seja o medo de não pertencer...

"O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos." - Bernardo Soares
"Prefiro um enfarte do que a desilusão do Benfica perder" - Ricardo Araújo Pereira

Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...


Quando te der saudade de mim Quando tua garganta apertar Basta dar um suspiro Que eu vou ligeiro Te consolar

E quando o nosso tempo passar Quando eu não estiver mais aqui Lembra-te Desta cantiga Que fiz pra ti


Desilusão, desilusão Danço eu dança você Na dança da solidão...

Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia fria me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade — àquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.(...)
Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela (eu só) a ouvia.
Nova, fluida, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que eu ia a sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passavam a ter lugar e dor na minha desolação.


E uma desilusão. Mas desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto, se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.




Eu a obedecer e tu a mandar Os dois na mesma triste peça Os dois à espera do fim

O vocábulo utopia é usado, pela primeira vez, por thomas more, para designar uma ilha imaginária. Título de uma obra, escrita em latim, por volta de 1516, que preconiza o ideal de viver feliz em lugar-nenhum, numa cidade de sonhos e nuvens, com um castelo no ar, banhada por um rio sem água , habitada por cidadãos sem cidade, governada por aqueles que não têm povo, tendo como vizinhos homens sem país...

Podemos pensar num olhar utópico de uma forma um pouco distinta, como sendo um olhar que não se localiza nem no espaço, nem no tempo. Um olhar que não conseguimos identificar completamente: onde está quem observa isto? Observador utópico pode ser uma categoria relativa às condições do observador e não relativa àquilo que ele vê ou tenta criar.
É interessante pensar que há utopias que partem de um olhar para o passado e não para um futuro ideal. A ideia da época de ouro e a ideia de que nós seríamos o resultado da decadência de uma anterior espécie humana extraordinária são bons exemplos disso. Talvez estas utopias, indiferentes àquilo que aí vem, sejam as mais perigosas — as que só vêem o belo e forte naquilo que desapareceu e que nunca mais poderá ressuscitar. É aquilo a que se poderia chamar de utopistas-de-nuca: para trás está a solução.
500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu - A literatura cria espaços que não existem, mas também inventa e cria acontecimentos. A ficção talvez tenha por natureza um instinto utópico — é a definição de alternativas à realidade, mesmo que estas não sejam muito solares ou alegres. A ficção diz: poderia ter acontecido isto ou aquilo. São hipóteses, possibilidades, alternativas em relação a uma realidade que não satisfaz, que não é suficiente.
A imaginação, a capacidade de produzir imagens mentais de coisas que não estão imediatamente à frente dos olhos, é uma capacidade humana invulgar que, infelizmente, muitas vezes é desvalorizada, e quase atacada, no processo educativo. Aliás, as frases: "— está atento!, tens a cabeça na lua!, etc." são expressões repressivas que mostram como a escola está constantemente a dizer: não imagines, vê! Como se aquilo que é mostrado fosse sempre mais importante e relevante do que aquilo que é imaginado. Uma escola paralela, quase utópica também, seria aquela em que os professores por vezes diriam: hoje não estás suficientemente na lua!, ou: não estejas tão atento, colado, ao que te estou a mostrar! Ou, dizendo de uma forma não tão extrema, mais realista: a escola deveria dar a ver, dar a conhecer, apenas aquilo que potencie a imaginação. Vou mostrar-te algo que te permitirá mais tarde imaginares muitas outras coisas. Imagens que alimentem a imaginação e não que a diminuam. Substituir definições por imaginações — este podia ser um lema; contestável, claro, mas que permitiria, talvez, uma discussão e uma deslocação do espaço mental do ensino.

O progresso tecnológico e as utopias estão sempre muito ligados, quando se fala de ficção científica. As utopias políticas, por outro lado, muitas vezes estiveram associadas à ideia de uma mudança do homem, e não apenas a uma mudança da paisagem que rodeia o homem. Mudar de vida, mudar o que é característico do humano ou mudar de máquinas. São utopias bem diferentes, estas. Algumas utopias bem antigas, religiosas, por exemplo, estão nesse aspecto muito mais centradas na acção humana. A ideia de mudar a posição do coração, no sentido de alterar os instintos humanos, de transferir o homem da agressividade para a compaixão, é uma utopia antiquíssima que podemos ler, por exemplo, em textos cristãos e outros. Talvez um ponto de pobreza actual, neste início do século XXI, seja a fixação em utopias que apenas mudam de máquinas.
A tecnologia tem vindo a instalar novas utopias que passam muitas vezes pela questão de o homem querer viver cada vez mais tempo. Não é bem a imortalidade, o elixir da longa vida, que se perseguia e fantasiava noutros séculos, mas é algo próximo. E é interessante ver que o centro destas utopias é viver mais tempo, mais! — e não viver de forma diferente. O que me parece forte em algumas utopias sociais ou artísticas do século XX é que o centro da utopia não era viver mais tempo, era viver de forma diferente.

Quando o essencial das utopias humanas passa pela tecnologia talvez algo esteja em queda. É uma utopia desanimada, a que quer mudar a paisagem, natural ou técnica, e já desistiu de mudar o humano.


O reino que idealizei foi um utópico ponto de encontro... Tenho saudades desse espaço sem espaço: lá tinha reaprendido a sorrir e a ser... Toda a utopia é uma desimpossibilidade...A palavra foi criada a partir dos radicais gregos οὐ, "não", e τόπος, "lugar", portanto, etimologicamente, a utopia é o "não-lugar" ou " o lugar que não existe". Pensar um ser que não existe em nenhum espaço é uma forma de utopia...
O meu sebastianismo, sendo falso, dentro do fingimento fantasioso em que a minha mente é exímia, é profundamente autêntico. Gosto do mito, gosta de acreditar em d.sebastião, "quer ele venha quer não", gosta de utopiar. Quando olho o longe da varanda da sala, um ritual que cumpro religiosamente sempre que me levanta, e vislumbra o nada, fico fascinada com essa mancha compacta de ... Não faço ideia nem me interessa saber o que é o nevoeiro, basta-me saber que é, que existe...Sou egocêntrica e só escreve sobre mim... Mesmo quando falo de um tu, esse tu é uma projeção do meu eu ou eu sou uma projeção desse tu. Quando lleio certos textos , quando olho a beleza , quando me sinto existir só espiritualmente, quando su invadida por uma emoção particularmente intensa,"Desejava ser dois para me poder comunicar, transmitir esse deleite." Quando a solidão interior se agudiza, gostaria de ter um outro eu capaz de me ser...Outrar-se, ser o eu que fala e o eu que escuta...Quando me surpreendo como um ser interiormente bonito,lamento que ninguém o anseie conhecer...Ao contrário de tertuliano, gostaria de ser duplicada..
( Utopias privativas: organizar tudo de modo perfeito; ler tudo o que merece ser lido; recordar tudo o que li; pensar tudo o que é pensável; conciliar castidade com sensualidade; beber e nunca ultrapassar a fase em que o álcool me transporta para um paraíso, mesmo que artificial; comer o que me apetece e não engordar; nunca sentir dor...Os meus refúgios são, afinal,remédio para a desimpossibilidade das utopias...)

O não sentir desejo é um subterfúgio do desejo que se sente, mas que não se quer sentir porque, sentindo-o, sem nunca o concretizar, ele passa a ser não um subterfúgio, mas uma utopia que desencadeia uma frustração inaceitável.

De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia

Está ilha forma naturalmente uma península que foi conquistada pelo rei Utopos, que acabou dando nome à ilha, que anteriormente era conhecida como Abraxa, e que hoje […] talvez seja a nação mais civilizada do mundo.

Cada casa tem uma porta principal que dá para a rua, e uma porta dos fundos que dá para o jardim. Nenhuma dessas portas é fechada a chave, abrindo-se a um simples toque e fechando automaticamente após a saída de alguém. Assim, todos podem entrar e sair, pois ali inexiste a propriedade privada (Que falta de privacidade...)

É fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa.


Eu chamo-me Teodoro — e fui amanuense do Ministério do Reino. Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do Bairro Central, esguio e amarelo como uma tocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola francesa. A minha existência era bem equilibrada e suave.

«No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

Uma influência sobrenatural apoderandose de mim, arrebatava-me devagar para fora da realidade, do raciocínio: e no meu espírito foram-se formando duas visões — de um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, num quiosque chinês, a um ti-li-tim de campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus pés! Isto era tão nítido, que eu via os olhos oblíquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos de uma ténue camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E imóvel, arrepiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicionário francês — a campainha prevista, citada no mirífico in-fólio...

Pouco a pouco fui esquecendo o meu episódio fantasmagórico: e ao mesmo tempo, como gradualmente o meu espírito resserenava, voltaram de novo a mover-se as antigas ambições que lá habitavam — um ordenado de diretor-geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: «Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!»
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!


Jurou não se deixar deter, por nenhuma dificuldade do caminho ou pela preocupação com a volta, na continuação da caminhada: afinal, para poder ser arrastado em frente, as suas energias sem dúvida bastariam. Pois o caminho podia não ter fim? Durante o dia o castelo apresentava -se diante dele como um alvo fácil, e o mensageiro certamente conhecia a rota mais curta.

O castelo, cujos contornos já principiavam a desvanecer -se, permanecia silencioso como sempre, nunca ainda K. tinha visto o menor sinal de vida nele, talvez não fosse possível reconhecer alguma coisa daquela distância e no entanto os olhos exigiam isso e não queriam suportar a quietude. Quando K. fitava o castelo, às vezes era como se observasse alguém que estivesse calmamente sentado ali e dirigisse o olhar para a frente, não porventura perdido nos próprios pensamentos e com isso fechado a tudo, mas sim livre e despreocupado: como se estivesse sozinho e ninguém o observasse. Tinha no entanto de notar que era observado, sem que isso afetasse o mínimo que fosse a sua tranqüilidade; na realidade – não se sabia se era a causa ou a consequência, os olhares do observador não se podiam fixar e desviavam -se. Essa impressão estava hoje mais reforçada pela escuridão prematura: quanto mais ele fitava tanto menos reconhecia, tanto mais fundo tudo mergulhava no crepúsculo.

Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele é-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida valeram -lhe esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que
recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.


Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

A utopia: imaginar Sísifo feliz...


Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenómeno composto a que chamamos vida.


E no dia seguinte lá fui, depois das aulas, ter com a minha avó. Ela disse-me para me sentar, fez um gesto com a mão engelhada em direção ao sofá das riscas. Sento-me sempre nessas riscas, sempre que a visito. Ela também se sentou com a sua lentidão e um vestido florido. Passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a voz e os óculos. Por vezes a voz dela fica um pouco amarrotada, quando se senta, quando acaba de fazer um esforço. Explicou-me – enquanto eu mastigava um bolo – que eu já era um homenzinho e que começava a ter responsabilidades. Estava na altura de saber a verdade. As palavras dela vinham cheias de cabelos brancos, podia sentir que havia nelas muita vida vivida. (…)

Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust [A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não me posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso-me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.
O meu corpo, uma topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gasta, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. O meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através das suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. O meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.
Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se deve o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal na sua potência, infinito na sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos génios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos aleijarmos, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado...
Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias? São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.
Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo é barro... A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma! É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão. E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra.
Mas o meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem os seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda do que a alma, do que a tumba, do que o encanto dos magos. Tem as suas adegas e os seus celeiros, os seus lugares obscuros e praias luminosas. A minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar. Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos génios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele. Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver. O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.
Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.
É um dispate dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, quer era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia. O meu corpo, de faCto, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.
As crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Heitor e os seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então descobre -se que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.
Talvez seria preciso dizer também que fazer amor é sentir o seu corpo fechar-se sobre si, é finalmente existir fora de toda a utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo começam a existir, contra os lábios do outro, os teus tornam -se sensíveis, diante dos seus olhos semi-abertos, o teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver as tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, cala -a, acalma -a, fecha -a como numa caixa, fecha-a e sela-a. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer amor é porque, no amor, o corpo está aqui...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Dádivas...

Franz Kafka: uma dádiva: “Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós.”

A dádiva de ter acesso à informação...
O título da novela de Kafka tem vindo a ser traduzido, de forma sistemática, por La Métamorphose / (The) Metamorphosis nas línguas francesa e inglesa, tendo as primeiras versões portuguesas adotado esta variante, quer por terem sido traduzidas a partir destas línguas, quer por influência das mesmas. " Na edição que se apresenta aqui, porém, optei pelo título A Transformação por três razões: a variante «transformação» corresponde rigorosamente ao original alemão «Verwandlung»; a variante portuguesa «metamorfose» possui, por sua vez, correspondência em alemão que é «Metamorphose» (...)"
"A expressão «metamorfose», como se sabe, é uma expressão técnica que designa a transformação que certos animais sofrem — na forma e na estrutura — durante o seu desenvolvimento, desde o nascimento até à idade adulta. É uma «metamorfose» lenta, faseada e previsível, ao contrário do que acontece com Gregor Samsa, que, segundo o narrador, após ter acordado de «sonhos inquietos», se viu na sua cama transformado de uma forma radical e completamente imprevisível «num monstruoso inseto». É de salientar ainda que a «transformação» de Gregor Samsa pouco ou nada tem a ver quer com as «metamorfoses» mitológicas, quer com as dos contos de fadas. A descrição quase naturalista do ambiente que rodeia Gregor Samsa não indicia nenhuma possibilidade de uma transformação tão radical quanto aquela de que é acometido o protagonista. Pelo contrário, constitui uma espécie de «contrafação do esquema das metamorfoses ovidianas e dos contos de fadas», pois, ao contrário destas, na novela de Kafka não é dada a Gregor nenhuma hipótese de redenção, isto é de uma
«transformação regressiva». O seu fim acaba por ser a morte, deixando «o corpo completamente raso e seco», portanto um escaravelho ressequido do qual a mulher da limpeza se desembaraça facilmente." Álvaro Gonçalves



Certa manhã,ao acordar após sonos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu? - pensou. Não era um sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares.


Mais tarde, quando se acostumou um pouco mais à situação - é claro que nunca poderia acostumar-se inteiramente -, fazia por vezes uma observação que revelava uma certa simpatia, ou que como tal podia ser interpretada. - Bom, hoje ele gostou do jantar - disse enquanto Gregor tinha consumido boa parte da comida; quando ele não comia, o que ia acontecendo com frequência cada vez maior, dizia, quase com tristeza: - Hoje tornou a deixar tudo.

Como ninguém se aventurava a retirá-la, a maçã manteve-se cravada no corpo de Gregor como recordação visível da agressão, que lhe causara um grave ferimento, afetando-o havia mais de um mês. A ferida parecia ter feito que o próprio pai se lembrasse de que Gregor era um membro da família, apesar do seu desgraçado e repelente aspeto atual, não devendo ser tratado como inimigo;pelo contrário, o dever familiar impunha que esquecessem o desgosto e tudo suportassem com paciência.

Naquela família assoberbada de trabalho e exausta, havia lá alguém que tivesse tempo para se preocupar com Gregor mais do que o estritamente necessário! As despesas da casa eram cada vez mais reduzidas. A criada fora despedida; uma grande empregada ossuda vinha de manhã e à tarde para os trabalhos mais pesados, encarregando-se a mãe de Gregor de tudo o resto,incluindo a dura tarefa de bordar. Tinham-se visto até na obrigação de vender as jóias da família, que a mãe e a irmã costumavam orgulhosamente pôr para as festas e cerimónias, conforme Gregor descobriu uma noite, ouvindo-os discutir o preço por que haviam conseguido vendê-las. Mas o que mais lamentava era o facto de não poderem deixar a casa, que era demasiado grande para as necessidades atuais, pois não conseguiam imaginar meio algum de deslocar Gregor.

Ultimamente, Gregor quase não comia. Só quando passava por acaso junto da comida que lhe tinham posto abocanhava um pedaço, à guisa de distração, conservando-o na boca durante coisa de uma hora, após o que normalmente acabava por cuspi-lo.Inicialmente pensara que era o desagrado pelo estado do quarto que lhe tirara o apetite. Depressa se habituou às diversas mudanças que se haviam registado no quarto. A família adquirira o hábito de atirar para o seu quarto tudo o que não cabia noutro sítio e presentemente havia lá uma série delas, pois um dos quartos tinha sido alugado a três hóspedes.

- Temos que nos ver livres dele - repetiu Grete, explicitamente, ao pai, já que a mãe tossia tanto que não podia ouvi uma palavra. - Ele ainda será a causa da sua morte, estou mesmo a ver. Quando se tem de trabalhar tanto como todos nós, não se pode suportar,ainda por cima, este tormento constante em casa. Pelo menos, eu já não aguento mais. - E pôs-se a soluçar tão dolorosamente que as lágrimas caíam no rosto da mãe, a qual as enxugava mecanicamente.

- E agora?, perguntou Gregor a si mesmo, relanceando os olhos pela escuridão. Não tardou em descobrir que não podia mexer as pernas. Isto não o surpreendeu, pois o que achava pouco natural era que alguma vez tivesse sido capaz de se aguentar-se em cima daquelas frágeis perninhas. Tirando isso, sentia-se relativamente bem. É certo que lhe doía o corpo todo, mas parecia-lhe que a dor estava a diminuir e que em breve desapareceria. A maçã podre e a zona inflamada do dorso em torno dela quase não o incomodavam.Pensou na família com ternura e amor. A sua decisão de partir era, se possível, ainda mais firme do que a da irmã. Deixou-se ficar naquele estado de vaga e calma meditação até o relógio da torre bater as três da manhã. Uma vez mais, os primeiros alvores do mundo que havia para além da janela penetraram-lhe a consciência. Depois, a cabeça pendeu-lhe inevitavelmente para o chão e de suas narinas saiu um último e débil suspiro.

Venham só ver isto: ele morreu! Está para ali estendido, morto! (...)- Muito bem - disse o Senhor Samsa -, louvado seja Deus.

- Bem - replicou a criada, rindo de tal maneira que não conseguiu prosseguir imediatamente -, era só isto: não é preciso preocuparem-se com a maneira de se verem livres daquilo aqui no quarto ao lado. Eu já tratei de tudo. -O Senhor Samsa e Grete curvaram-se novamente sobre as cartas, parecendo preocupados. Percebendo que ela estava ansiosa por começar a delatar todos os pormenores, o Senhor Samsa interrompeu-a com um gesto decisivo. Não lhe sendo permitido contar a história, a mulher lembrou-se da pressa que tinha e, obviamente ressentida, atirou-lhes um - Bom dia a todos - disse e girou desabridamente nos calcanhares, afastando-se no meio de um assustador bater de portas.

. Enquanto conversavam sobre estes assuntos, o Senhor e a Senhora Samsa notaram, de súbito, quase ao mesmo tempo, a crescente vivacidade de Grete, de que, apesar de todos os desgostos dos últimos tempos, que a haviam tornado pálida, se tinha transformado
numa bonita e esbelta menina.O reconhecimento desta transformação tranquilizou-os e, quase inconscientemente, trocaram olhares de aprovação total, concluindo que se aproximava a altura de lhe arranjar um bom marido. E quando, terminado o passeio, a filha se pôs de pé antes deles, distendendo o corpo jovem, sentiram, com isso, que aqueles novos sonhos e suas esperançosas intenções haviam de ser realizados.


A morte de gregor foi uma dádiva...Todos gostamos de ver desaparecer quem nos recorda que podemos acordar metamorfoseados...

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?


Breve o inverno virá com sua branca
Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
Como um rio passemos.



Eu dei à humanidade o livro mais profundo que ela possui, o meu Zaratustra...


A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.

A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.


Aquele era frio nas suas relações e exigente nas suas escolhas. Mas de um só golpe e para sempre estragou a sua companhia. A isso se chama casamento.

sábado, 8 de julho de 2017

Cemitérios ...



Hoje já não faço anos. Duro.



Je pense que ma vie est d'une grande importance, mais je pense aussi qu'elle est dénuée de sens.

O que significa ser contemporâneos?. (…) Em 1874,Friedrich Nietzsche, um jovem filólogo que havia trabalhado até então em textos gregos e, dois anos antes, havia alcançado uma celebridade imprevista com “A origem da tragédia”, publica as“Considerações Intempestivas”, com as quais quer acertar contas com o seu tempo, tomar posição em relação ao presente. “Intempestiva é essa consideração”, lê-se no começo da segunda Consideração, “porque tenta entender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se sente orgulhosa, ou seja, a sua cultura histórica, porque penso que todos somos devorados pela febre da história e deveríamos, pelo menos, dar-nos conta disso”. Pertence realmente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com aquele, nem se adequa às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual. Mas, justamente por isso, a partir desse afastamento e desse anacronismo, é mais capaz do que os outros de perceber e de apreender o seu tempo.Essa não-coincidência não significa, naturalmente, que seja contemporâneo quem vive numa outra era, um nostálgico que se sente mais cómodo na Atenas de Péricles, ou na Paris de Robespierre e do Marquês de Sade do que na cidade e no tempo em que lhe coube viver. Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe que irrevogavelmente lhe pertence, sabe que não pode fugir do seu tempo. A contemporaneidade é, pois, uma relação singular com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, se distancia dele. Mais exatamente, é “essa relação com o tempo que adere a este, por meio de um desfasamento e de um anacronismo”. Os que coincidem de um modo excessivamente absoluto com a época, que concordam perfeitamente com ela, não são contemporâneos, porque, justamente por essa razão, não conseguem vê-la, não podem manter o seu olhar fixo nela.

O relógio que está para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jaz na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho. Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.

Desperto de sonhar-te Quando inda a noite é funda, E um céu estelar faz parte Do silêncio que inunda. Perdi poder amar-te E a treva me circunda. Talvez que relembrasse, Sonhando-te, outro ser, E aquilo que sonhasse Fosse tornar a ter. Mas despertei, e faz-se Claro em meu quarto a ver. Insónia de perder-te! Quem foste já não sei. Pela janela verte Cada astro a sua lei. Como, sem sonhar ter-te?... Porque não dormirei?

Dorme, criança, dorme,
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei


Ah, não poder dormir (eu não sei como, Não na verdade o quero) eternamente, Acabar não comigo, nem com isto, Mas com tudo, causa, efeito, ser... Ideias vãs que a imaginação Vazia dum momento em quietude Gera sem ilusão, como criança Embriagando-se indolentemente Do cheiro transitório duma flor.

Estou cansado, tenho de tentar descansar e dormir, senão estou perdido em todos os aspetos. Que esforço manter-se uma pessoa viva. Erguer um monumento não exige que se gaste tanta força.


Doctor Strange is always changing siz And it's high time Cymbaline It's high time Cymbaline Please wake me...
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo — desde a nascença e a consciência —, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural. Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que foi. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.


Como a noite é longa! Toda a noite é assim... Senta-te, ama, perto Do leito onde esperto. Vem pr'ao pé de mim... Amei tanta coisa... Hoje nada existe... Era uma princesa Que amou... Já não sei... Como estou esquecido Que é feito de tudo? Que fiz eu de mim? Deixa-me dormir, Dormir a sorrir E seja isto o fim.

Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me a vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez...

Tenho principalmente não ter nada, Dormir seria sono se o tivesse... Meu ser vive na Noite e no Desejo. Minha alma é uma lembrança que há em mim...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


I was doing fine without ya, 'til I saw your face, now I can't erase it Giving in to all this bullshit...

Feels like I only go backwards baby Every part of me says: Go ahead I got my hopes up again, oh no... not again...

Em Negra espalda del tiempo , javier marías constrói um mundo fantástico, alicerçado nos princípios da criação literária, desde a função do narrador e das suas categorías, passando pelos limites imprecisos da noção de género, até ao conceito de ficcionalidade, numa espécie de jogo sem limites que pode criar desconcerto e até desconforto ao leitor. É também uma novela que problematiza vida, no seu sentido mais amplo e universal: desde o nascimento até à morte, evidenciando o papel do destino e do tempo, por vezes jocoso, por vezes trágico, num jogo filosófico com raízes tanto literárias como reais. É uma novela difícil de classificar.

la palabra-incluso la hablada, incluso la más tosca-es en sí misma metafórica y por ello imprecisa [ ... ] Basta con que alguien introduzca un «como si» en su relato; aún más, basta con que haga un símil o una comparación o hable figuradamente [ ... ] para que la ficción se deslice en la narración de lo sucedido y lo altere o falsee. En realidad la vieja aspiración de cualquier cronista o superviviente, relatar lo ocurrido, dar cuenta de lo acaecido, dejar constancia de los hechos y delitos y hazañas, es una mera ilusión o quimera, o mejor dicho, la propia frase, ese propio concepto, son ya metafóricos y forman parte de la ficción. Relatar lo ocurrido» es inconcebible y vano, o bien es sólo posible como invención...


As características dos vícios são inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio.

Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Não é uma questão de morrer cedo ou tarde, mas de morrer bem ou mal. Morrer bem significa escapar vivo do risco de morrer doente.


Encontro entre dido e eneias, nos Infernos:

Logo que Eneias a reconheceu entre as sombras, como no início do mês se vê a Lua entre as nuvens, deixou correr as lágrimas e disse-lhe com doce amor: " ... juro pelas constelações, pelos deuses e por tudo o que há de mais sagrado nestas profundezas da terra: "foi contrariado, minha querida rainha, que abandonei as praias do teu reino. Não fiz mais que obedecer aos deuses(...)E não pude crer que a minha partida te causasse uma tão grande dor.
Pára ,não te furtes ao encontro do nosso olhar(...) É a última vez que o destino me permite que te fale."


O homem que não é sensível à música, que não se comove com a harmonia de doces sons, nasceu para as traições, os ardis, os roubos; Os movimentos do seu espírito são surdos como a noite, as suas afeições, tenebrosas como o Érebro: não se confie num homem assim. Ouçamos a música.

Se fazer fosse tão fácil quanto saber o que é preferível, as capelas seriam igrejas e as cabanas dos pobres, palácios de príncipes. O bom pregador é aquele que segue os seus próprios preceitos; para mim, acharia mais fácil ensinar a vinte pessoas o caminho do bem, do que ser uma dessas vinte pessoas e obedecer às minhas próprias recomendações.

É muito melhor viver sem felicidade do que sem amor. É preferível suportar os males que temos do que voar para aqueles que não conhecemos. O verdadeiro nome do amor é cativeiro. A mágoa altera as estações e as horas de repouso, fazendo da noite dia e do dia noite.

Baste a quem baste o que lhe basta O bastante de lhe bastar!


Tradução livre da carta de despedida de kurt cobain:

Falo como um homem simplório com experiência que obviamente preferia ser uma criança castrada e refilona. Este bilhete deve ser bastante fácil de entender. Todas as advertências das aulas de Introdução ao Punk Rock, ao longo dos anos, desde a minha apresentação à, digamos, ética envolvida na independência e o acolhimento da sua comunidade, se provaram verdadeiras. Eu não tenho sentido a excitação de ouvir, bem como de criar música, juntamente com a leitura e a escrita, há muitos anos. Sinto -me culpado por essas coisas além do que posso expressar em palavras.

Por exemplo, quando estamos atrás do palco e as luzes se apagam, e o ruído ensandecido da multidão começa, isso não me afeta do modo que afetava Freddie Mercury, que parecia gostar, deliciar -se com o amor e adoração da multidão, que é algo que, sinceramente, eu admiro e invejo. A verdade é que não vos consigo enganar , a nenhum de vocês. Simplesmente não é justo nem com vocês nem comigo. O pior crime que posso imaginar seria enganar as pessoas , sendo falso e fingindo como se eu me estivesse a divertir a 100%. Às vezes eu sinto como se tivesse de picar o ponto antes de subir ao palco. Eu tentei tudo ao meu alcance para gostar disso (e eu tento, por Deus, acreditem em mim, eu tento, mas não é o suficiente). Eu gosto do facto que eu e nós atingimos e divertimos um monte de gente. Devo ser um daqueles narcisistas que só dão valor as coisas quando elas se vão. Sou muito sensível. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança. Nas nossas últimas três digressões, eu tive um apreço muito maior por todas as pessoas que conheci pessoalmente e pelos fãs da nossa música, mas eu ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que eu tenho por todos. Existem coisas boas dentro de todos nós. Eu acho que simplesmente amo demais as pessoas e isso me deixa muito triste. O pequeno, sensível, insatisfeito, pisciano, Jesus triste. “E porque simplesmente não aproveita o momento ?” Eu não sei. Eu tenho uma deusa como esposa que transpira ambição e empatia e uma filha que me lembra demais como eu costumava ser, cheia de amor e alegria, beijando todas pessoas que ela encontra porque todos são bons e ninguém lhe fará mal nenhum. E isso apavora-me ao ponto de eu mal conseguir funcionar. Eu não posso suportar a idia de Frances se tornar um triste, autodestrutivo, e mortal roqueiro, como eu me tornei. Eu tive muito, muito mesmo, e sinto-me grato por isso, mas, desde os sete anos, passei a ter ódio de todos os homens em geral. Apenas porque parece tão fácil para as pessoas que sentem empatia darem -se bem. Apenas porque eu amo e lamento demais pelas pessoas, eu acho.

Obrigado do fundo do meu ardente e nauseado estômago pelas suas cartas e pela preocupação nestes últimos anos. Eu sou um bebé errático e triste! Eu não tenho mais a paixão, e por isso lembre-se, é melhor queimar de vez do que se apagar aos poucos.

Paz, amor, empatia.
Kurt Cobain


Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


Às 9:50, do dia 30 de novembro de 1900, oscar fingal o'flahertie wills wilde( sebastian melmoth) morre em paris...

Não tenho tempo para ser feliz, Sibyl.Gosto sempre da última pessoa que me foi apresentada; mas normalmente,assim que conheço as pessoas, farto-me delas.

Quando entraram, viram pendurado na parede um esplêndido retrato do seu amo, tal qual ultimamente ele era, com toda a maravilha da sua juventude e requintada beleza. No soalho,jazia um homem morto, em fato de noite,com uma navalha espetada no coração. Tinha um rosto macilento, enrugado, repugnante. Só depois deterem examinado os anéis que trazia é que descobriram quem era.

No dia 30 de novembro de 1935, já quase sem voz, pediu os óculos e escreveu a última frase: "I know not what tomorrow will bring"...

Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou. Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio...


so worry not all things are well we’ll be alright we have our looks and perfume on...


I see your face in all my dreams, But I guess I never understood exactly what it means. I wake up feeling sorry, never know what for, Moping up the stairs and slowly walking out the door on my own...

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu , Anatole France , Epicuro de farmacopeia homeopática, tenia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em loiça do século dezassete, falsificada! Fora tu, Maurice Barrès, feminista da Acção, Châteaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio ! Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja! Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade ! Fora ! Fora ! Fora tu, George Bernard Shaw, vegeteriano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish Melody calvinista com letra da Origem das Espécies! Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade ! Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios ! Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês! Fora ! Fora ! Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Patmos» (solo de trombone)! E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado! E tu, Loti, sopa salgada, fria! E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand! Fora! Fora! Fora! E se houver outros que faltem, procurem-nos aí para um canto! Tirem isso tudo da minha frente! Fora com isso tudo! Fora! Aí ! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume ?!Quem és tu, tu da juba socialista, David Lloyd George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?!
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato-Boselli da incompetência ante os factos, todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados pra baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Se não querem sair, fiquem e lavem-se !
Falência geral de tudo por causa de todos !
Falência geral de todos por causa de tudo !
Falência dos povos e dos destinos — falência total !
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu organização britânica, com Kitchener no fundo do mar desde o princípio da guerra!
(It's a long, long way to Tipperary, and a jolly sight longer way to Berlin !)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristianismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordeamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, «imperialimo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos !
Tu, Estados Unidos da America, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da aÁorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto de Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de .tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosophia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-franceza dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus !
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas !
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
Nenhuma ideia grande, ou noção completa ou ambição imperial de imperador-nato!
Nenhuma ideia de uma estrutura, nenhum senso do Edifício, nenhuma ânsia do Orgânico-Criado!
Nem um pequeno Pitt, nem um Goethe de cartão, nem um Napoleão de Nürnberg!
Nem uma corrente literária que seja sequer a sombra do romantismo ao meio-dia!
Nem um impulso militar que tenha sequer o vago cheiro de um Austerlitz!
Nem uma corrente política que soe a uma ideia-grão, chocalhando-a, ó Caios Grachos de tamborilar na vidraça!
Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações de lacaios a reis-lacaios!
Lacaios que não sabeis ter a Aspiração, burgueses do Desejo, transviados do balcão instintivo! Sim, todos vós que representais a Europa, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, que sois literatos meneurs de correntes europeias, que sois qualquer coisa a qualquer coisa neste maelström de chá-morno!
Homens-altos de Lilliput-Europa, passai por baixo do meu Desprezo ! Passai vós, ambiciosos do luxo quotidiano, anseios de costureiras dos dois sexos, vós cujo tipo é o plebeu Annunzio, aristocrata de tanga de ouro!
Passai vós, que sois autores de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar!
Passai, frouxos que tendes a necessidade de serdes os istas de qualquer ismo!
Passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia, que tendes a impotência por esteio das neo-teorias!
Passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na dispensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos!
Passai, mistos; passai, débeis que só cantais a debilidade; passai, ultra-débeis que cantais só a força, burgueses pasmados ante o atleta de feira que quereis criar na vossa indecisão febril !
Passai, esterco epileptóide sem grandezas, histerialixo dos espectáculos, senilidade social do conceito individual de juventude!
Passai, bolor do Novo, mercadoria em mau estado desde o cérebro de origem!
Passai à esquerda do meu Desdém virado à direita, criadores de «sistemas filosóficos», Boutroux, Bergsons, Euckens, hospitais para religiosos incuráveis, pragmatistas do jornalismo metafísico, lazzaroni da construção meditada!
Passai e não volteis, burgueses da Europa-Total, párias da ambição do parecer-grandes, provincianos de Paris!
Passai, decigramas da Ambição, grandes só numa época que conta a grandeza por centimiligramas!
Passai, provisórios, quotidianos, artistas e políticos estilo lightning-lunch, servos empoleirados da Hora, trintanários da Ocasião!
Passai, «finas sensibilidades» pela falta de espinha dorsal; passai, construtores de café e conferência, monte de tijolos com pretensões a casa!
Passai, cerebrais dos arrabaldes, intensos de esquina-de-rua!
Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomonia triunfante do aldeão de Europa-aldeia!
Vós que confundis o humano com o popular, e o aristocrático com o fidalgo! Vós que confundis tudo, que, quando não pensais nada, dizeis sempre outra coisa! Chocalhos, incompletos, maravalhas, passai!
Passai, pretendentes a reis parciais, lords de serradura, senhores feudais do Castelo de Papelão!
Passai, romantismo póstumo dos liberalões de toda a parte, classicismo em álcool dos fetos de Racine, dinamismo dos Whitmans de degrau de porta, dos pedintes da inspiração forçada, cabeças ocas que fazem barulho porque vão bater com elas nas paredes!
Passai, cultores do hipnotismo em casa, dominadores da vizinha do lado, caserneiros da Disciplina que não custa nem cria !
Passai, tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Rotineiros da revolução, passai!
Passai eugenistas, organizadores de uma vida de lata, prussianos da biologia aplicada, neo-mendelianos da incompreensão sociológica!
Passai, vegeterianos, teetotalers, calvinistas dos outros, kill-joys do imperialismo de sobejo!
Passai, amanuenses do «vivre sa vie» de botequim extremamente de esquina, ibsenóides Bernstein-Bataille do homem forte de sala de palco!
Tango de pretos, fosses tu ao menos minuete!
Passai, absolutamente, passai!
Vem tu finalmente ao meu Asco, roça-se tu finalmente contra as solas do meu Desdém, grand finale dos parvos, conflagração-escárneo, fogo em pequeno monte de estrume, síntese dinâmica do estatismo ingénito da Época!
Roça-te tu e rojate, impotência a fazer barulho!
Roça-te, canhões declamando a incapacidade de mais ambição que balas, de mais inteligência que bombas!
Que esta é a equação-lama da infâmia do cosmopolitismo de tiros:
JONNART
BÉLGICA
VON BISSING
GRÉCIA
Proclamem bem alto que ninguém combate pela liberdade ou pelo Direito!Todos combatem por medo dos outros ! Não tem mais metros que estes milímetros a estatura das suas direcções!
Lixo guerreiro-palavroso! Esterco Joffre-Hindenburguesco! Sentina europeia de Os Mesmos em excisão balofa!
Quem acredita neles?
Quem acredita nos outros?
Façam a barba aos poilus!
Descasquetem o rebanho inteiro!
Mandem isso tudo pra casa descascar batatas simbólicas!
Lavem essa celha de mixórdia inconsciente!
Atrelem uma locomotiva a essa guerra!
Ponham uma coleira a isso e vão exibi-lo para a Austrália!
Homens, nações, intuitos, está tudo nulo!
Falência de tudo por causa de todos! Falência de todos por causa de tudo! De um modo completo, de um modo total, de um modo integral:
MERDA!
A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro !
A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais !
Quer o Político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo !
Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos!
Quer o General que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
A Europa quer muito destes Políticos, muitos destes Poetas, muitos destes Generais!
A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes — a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Mateira caótica!
Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
Quer a sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
A Europa está farta de não existir ainda ! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria ! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
Dai Homeros À Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à época das Coisas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria!
Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes Completos, Harmónicos Subtis!
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada !
O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
O que aí está não pode durar, porque não é nada!
Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir?
Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível!
Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
Ergo-me ante, o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!
Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!
Vou indicar o caminho!
ATENÇÃO!
Proclamo, em primeiro lugar,
A Lei de Malthus da Sensibilidade
Os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmética.
Compreende-se a importância desta lei. A sensibilidade — tomada aqui no mais amplo dos seus sentidos possíveis — é a fonte de toda a criação civilizada. Mas essa criação só pode dar-se completamente quando essa sensibilidade esteja adaptada ao meio em que funciona; na proporção da adaptação da sensibilidade ao meio está a grandeza e a força da obra resultante.
Ora a sensibilidade, embora varie um pouco pela influência insistente do meio actual, é, nas suas linhas gerais, constante, e determinada no mesmo indivíduo desde a sua nascença, função do temperamento que a hereditariedade lhe infixou. A sensibilidade, portanto, progride por gerações.
As criações da civilização, que constituem o «meio» da sensibilidade, são a cultura, o progresso científico, a alteração nas condições políticas (dando à expressão um sentido completo); ora estes ó e sobretudo o progresso cultural e científico, uma vez começado — progridem não por obra de gerações, mas pela interacção e sobreposição da obra de indivíduos, e, embora lentamente a princípio, breve progridem ao ponto de tomarem proporções em que, de geração a geração, centenas de alterações se dão nestes novos estímulos da sensibilidade, ao passo que a sensibilidade deu; ao mesmo tempo, só um avanço, que é o de uma geração, porque o pai não transmite ao filho senão uma pequena parte das qualidades adquiridas.
Temos, pois, que a uma certa altura da civilização há de haver uma desadaptação da sensibilidade ao meio, que consiste dos seus estímulos — uma falência portanto. Dá-se isso na nossa época, cuja incapacidade de criar grandes valores deriva dessa desadaptação.
A desadaptação não foi grande no primeiro período da nossa civilização, da Renascença ao século XVIII, em que os estímulos da sensibilidade eram sobretudo de ordem cultural, porque esses estímulos, por sua própria natureza, eram de progresso lento, e atingiam a princípio apenas as camadas superiores da sociedade.
Acentuou-se a desadaptação no segundo período, que parte da Revolução para o século XIX, e em que os estímulos são já sobretudo políticos, onde a progressão é facilmente maior e o alcance do estímulo muito mais vasto. Cresceu a desadaptação vertiginosamente no período desde meados do século XIX à nossa época, em que o estímulo, sendo as criações da ciência, produz já uma rapidez de desenvolvimento que deixa atrás os progressos da sensibilidade, e, nas aplicações práticas da ciência, atinge toda a sociedade. Assim se chega à enorme desproporção entre o termo presente da progressão geométrica dos estímulos da sensibilidade e o termo correspondente da progressão aritmética da própria sensibilidade.
Daí a desadaptação, a incapacidade criativa da nossa época. Temos, portanto, um dilema: ou morte da civilização, ou adaptação artificial, visto que a natural, a instinctiva faliu.
Para que a civilização não morra, proclamo, portanto em segundo lugar,
A Necessidade da Adaptação Artificial
O que é a adaptação artificial?
É um acto de cirurgia sociológica. É a transformação violenta da sensibilidade de modo a tornar-se apta a acompanhar pelo menos por algum tempo, a progressão dos seus estímulos.
A sensibilidade chegou a um estado mórbido, porque se desadaptou. Não há que pensar em curá-la. Não há curas sociais. Há que pensar em operá-la para que ela possa continuar a viver. Isto é, temos que substituir a morbidez natural da desadaptação pela sanidade artificial feita pela intervenção cirúrgica, embora envolva uma mutilação.
O que é que é preciso eliminar do psiquismo contemporâneo?
Evidentemente que é aquilo que seja a aquisição fixa mais recente no espírito — isto é, aquela aquisição geral do espírito humano civilizado que seja anterior ao estabelecimento da nossa civilização, mas recentemente anterior; e isto por três razões: (a) porque, por ser a mais recente das fixações psíquicas, é a menos difícil de eliminar; (b) porque, visto que cada civilização se forma por uma reacção contra a anterior, são os princípios da anterior que são os mais antagónicos à actual e que mais impedem a sua adaptação às condições especiais que durante esta apareçam; (c) porque, sendo a aquisição fixa mais recente, a sua eliminação não ferirá tão fundo a sensibilidade geral como o faria a eliminação, ou a pretensão de eliminar, qualquer fundo depósito psíquico.
Qual é a ultima aquisição fixa do espírito humano geral?
Deve ser composta de dogmas do cristianismo, porque a Idade Média, vigência plena daquele sistema religioso, precede imediatamente e duradouramente, a eclosão da nossa civilização, e os princípios cristãos são contraditados pelos firmes ensinamentos da ciência moderna.
A adaptação artificial será portanto espontanente feita desde que se faça uma eliminação das aquisições fixas do espírito humano, que derivam da sua mergência no cristianismo.
Proclamo, por isso, em terceiro lugar,
A intervenção cirúrgica anti-cristã
Resolve-se ela, como é de ver, na eliminação dos três preconceitos, dogmas, ou atitudes, que o cristianismo fez que se infiltrassem na própria substância da psique humana.
Mas qual o Método, o feitio da operação colectiva que há de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Método operatório inicial?
O Método sabe-o só a geração por quem grito por quem o cio da Europa se roça contra as paredes ! Se eu soubesse o Método, seria eu-próprio toda essa geração!
Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde ele vai ter.
Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos Engenheiros!
Faço mais: garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros!
Proclamo, para um futuro próximo, a criação científica dos Super-homens!
Proclamo a vinda de uma Humanidade matemática e perfeita!
Proclamo a sua Vinda em altos gritos!
Proclamo a sua Obra em altos gritos!
Proclamo‑A, sem mais nada, em altos gritos!
E proclamo também: Primeiro:
O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo!
E proclamo também: Segundo:
O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo!
E proclamo também: Terceiro:
O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico!
Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstractamente o Infinito.


Um livro é um grande cemitério onde, sobre a maioria dos túmulos, não se podem mais ler os nomes apagados.