Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Releituras. Regresso ao passado...

«É um livro que, durante muitos anos, me tocou de perto como só o fizeram dois ou três seres humanos. Em qualquer momento e lugar em que o abri provocou-me sobressaltos de medo e absorveu-me inteiramente e de todas as vezes senti-me como um filho espiritual deste escritor, ainda que pobre e desajeitado.» Kafka dixit...

 

Assim termina um amor. Assim se recupera uma amizade ... 

  "Adeus, meu amigo, meu querido amigo! Não voltarei a vê-lo" … E beijou-o na fronte como uma mãe … Quando ela saiu , Frederico abriu a janela. A Srª Arnoux, no passeio, mandava parar um fiacre. Subiu. A viatura desapareceu. Foi tudo.

No princípio do inverno, Frederico e Deslauriers conversavam sentados ao pé do lume, reconciliados mais uma vez pela fatalidade das suas maneiras de ser, que os fazia voltarem sempre um para o outro e estimarem-se.


Sexta feira de carnaval é dia de regressar ao passado...

  Foi como uma visão: Ela estava sentada , no meio de um banco, sozinha; ou pelo menos ele não distinguia mais ninguém no meio da ofuscação que lhe envolvia os olhos. Ao mesmo tempo que ele passou , ela levantou a cabeça; ele fletiu involuntariamente os ombros; e quando se colocou, um pouco mais longe, do mesmo lado, olhou-a.

Esta sexta de carnaval foi dia de decidir o futuro...

segunda-feira, 27 de março de 2017

Arte, literatura e teatro...


A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica.


Arte é espírito, e o espírito não precisa ,em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade,a colectividade.A meu ver, não tem direito a fazê-lo, devido à sua liberdade e à sua nobreza. Uma arte que " se mete com o povo", fazendo suas as necessidades das massas, do zé-povinho, dos ignorantões, cai na miséria.Prescrever-lhe isso como dever,admitindo-se, talvez,por razões políticas,unicamente uma arte que a gentinha possa compreeender, é mesmo o cúmulo da grosseria e equivale a assassinar o espírito. Este- eis a mnha firme convicção - pode compreender os mais audaciosos, os mais incontidos avanços, as tentativas e pesquisas menos acessíveis às multidões, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elvado, indirectamente o homem, e à la longue até os homens.
Obviamente, por índole, Adrian devia ter a mesma opinião. Mas agradava-lhe renegá-la, e provavelmente eu enganava-me redondamente ao interpretar as suas palavras como negação da soberba. Era antes um esforço de se mostrar afável, proveniente da suprema altivez.


A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável - e em geral impossível - que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo - como fazem grande numero de chefes operários - deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem.

Artes de aperfeiçoamento
Tornar o útil agradável, eis a base de artes de aperfeiçoar; porque tornar o útil agradável é aperfeiçoar o útil, tornando-o mais útil, fazendo-o servir em si o seu fim directo, que constitui a sua utilidade, plus [?] outro fim, indirecto, que é o de tornar essa utilidade duplamente útil. A escala é da mais directa agradabilização do útil para a menos directa; da arquitectura, portanto, através da escultura para a pintura.
Artes de influenciar.
São essencialmente as artes de civilização. O seu fim é transmitir civilização, passar de umas gerações para outras o resultado do trabalho psíquico de cada uma. As artes de influenciar são portanto: a) representativas de resultados civilizacionais, e não de tipos psíquicos (...) . O ideal do artista influenciador é alto na proporção em que ele tem consciência do seu mister, na proporção em que tem consciência do seu papel de influenciador de gerações futuras, e da sua missão de quem deve deixar perenemente aumentado o património espiritual da humanidade. Os poetas antigos tinham esta consciência; a decadência dela entre os modernos, substituída pela ânsia da popularidade imediata, apanágio finalista das artes inferiores, é um dos mais fortes sintomas da nossa degradação moral (espiritual) .
Uma obra sobrevive em razão de 1) sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos; 2) a sua profundeza psicológica; 3) carácter abstracto e geral da emoção que emprega. A obra sóbria de emoção tende mais a sobreviver porque a emoção moderada é característica de todas as épocas, porque os de emoção moderada a apreciam naturalmente; e os de emoção irregular têm a sua média na emoção moderada. De mais a mais, as emoções excessivas variam de época para época; são, portanto, o que há de passageiro em cada uma. As emoções moderadas caracterizam todas; isto é, todas as aceitam, embora algumas, por o que têm de transitório, prefiram que se exagere. A excessiva compaixão pela humanidade, por ex., caracteriza o romantismo. Fora do romantismo, essa emoção não existe. Mas a compaixão nobre pelas dores humanas é um sentimento humano de todas as épocas.


1. A base de toda a arte é a sensação. 2. Para passar de mera emoção sem sentido à emoção artística, ou susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelectualizada. Uma sensação intelectualizada segue dois processos sucessivos: é primeiro a consciência dessa sensação, e esse facto de haver consciência de uma sensação transforma-a já numa sensação de ordem diferente; é, depois, uma consciência dessa consciência, isto é: depois de uma sensação ser concebida como tal — o que dá a emoção artística — essa sensação passa a ser concebida como intelectualizada, o que dá o poder de ela ser expressa.

1.Toda a arte é a sobreposição às Coisas da nossa interpretação ou ideia delas. 2.A arte real é encontrar o ponto exacto de contacto entre as coisas e a nossa interpretação delas. Podemos ver uma árvore quadrada, ou azul... 3.Precisamos determinar quais as formas exteriores que os nossos sentimentos revestem, para, pintando ou descrevendo em palavras, podermos compor um estado de espírito uno às coisas. Assim, se assentarmos em que a Esperança é verde, teremos que pintar uma paisagem que olhemos em momento de esperança acrescentando verde às cores dessa paisagem... As coisas brancas serão verdes... As coisas verdes exactamente verdes, as coisas encarnadas verde mais encarnado, as coisas azuis, verde mais azul... Assim com a forma uma sensação quadrada não só impõe à tela real uma forma quadrada, mas impõe que cada coisa tenha uma forma que seja quadrada mais a sua forma habitual, isto é, com respeito a uma árvore, por exemplo, se ela é assim [...] fazê-la assim [...] de modo a caber cada num quadrado.

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.


A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis. O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

A arte consiste na organização ideal da matéria.(...) A escultura e a poesia, a idealização humana do espaço e a idealização humana da palavra, são pois as duas únicas artes grandes. A distinção pode provar-se com o uso de termos filosóficos. Na prosa o ritmo existe; na poesia o ritmo é.

Dia mundial do livro, Dia mundial do teatro :dias que já não significam nada. Nada significa nada. Progressivamente, a existência vai-se tornando uma série interminável de insignificâncias...

Vou comprar muitos livros...
Ler muitos livros e ser muito feliz.
Basta comprar e ler muitos livros
Para ser feliz, muito feliz...

O que será ser feliz?

Os livros podem também ser um ponto de encontro, um elo indestrutível entre duas pessoas... A leitura deixa de ser um ato solitário: aproxima os que leem e ,irremediavelmente, afasta todos os outros. Só se pensa no outro eu que, nesse momento, percorre os mesmos grafemas, sentindo o mesmo prazer ou idêntico desagrado. Corre-se um risco: o possível romance que se idealiza viver passar a ser mais importante do que aquele que se lê...
Talvez este tema venha a ser um capítulo do silêncio da matemática... Pensando melhor, esta não história tão minha, apesar de ter sido nossa, será manuscrita no livro em branco, com palavras que ainda não foram inventadas....

…este livro suave. É quanto resta e restará duma das almas mais subtis no raciocínio, mais debochadas no puro sonho que têm visto este mundo. Nunca - eu o creio - houve criatura por fora humana que mais complexamente vivesse a sua consciência de si-próprio. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir. Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida.De V[icente] G[uedes] não se sabe nem quem era, nem o que fazia, nem (…) Este livro não é dele: é ele. Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito na sombra, misterioso (...)Para V[icente] G[uedes] ter consciência de si foi uma arte e uma moral; saber foi uma religião. Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um [?] aristocrata completo.

A leitura pacifica: faz esquecer o mundo em que se é uma peça desajustada...O diálogo que se estabelece com os narradores é gratificante.

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.

É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa.
Não me parece: há livros que dão sentido à nossa vida, podemos existir através dos livros. Também podemos existir através das histórias que ficcionamos e deixarmo-nos embalar pelo seu enredo...

O casamento como convenção. O sexo como redenção.

Naturalmente, por negligência, acabou por se desligar de todas as resoluções que havia tomado. Uma vez faltou à visita, no dia seguinte faltou às aulas, e, tomando o gosto pela ociosidade, pouco a pouco acabou por não voltar lá mais.

Antes de casar, Emma julgara sentir amor; mas a felicidade que deveria resultar desse amor não aparecera, pelo que se deveria ter enganado, pensava ela. Procurava agora saber o que se entendia, ao certo, nesta vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que, nos livros, lhe haviam parecido tão belas.

Comprar livros e lê-los são duas coisas completamente diferentes e , por vezes, até opostas. Isto acontece quando a quantidade de livros que se compram supera o tempo que se tem para os ler. Existe, até , um nome para a suposta doença de acumular livros, mesmo sabendo que não vão ser lidos. Quais são as razões pelas quais compramos livros? Uma dessas razões, um tanto inexplicável, é comprar por mero impulso, devido a uma necessidade indescritível de ter o livro em nosso poder. Este impulso pode nascer de um simples estado de espírito.

Eu sou o obscuro e paciente pescador de pérolas, que mergulha nas águas mais profundas e volta com as mãos vazias e o rosto azulado ...Alguma atração fatal me arrasta para os abismos do pensamento, para aqueles recantos mais íntimos que nunca cessam de fascinar o forte. Hei de passar a vida apenas contemplando o oceano da arte, onde outros viajam ou combatem; e, de vez em quando, hei de me entreter mergulhando em busca daquelas conchas verdes e amarelas que ninguém há de querer.

Os seus olhos pareciam-lhe maiores, especialmente quando estava a acordar e abria e fechava as pálpebras muitas vezes de seguida; eram negros quando estava à sombra e azul-escuros à luz do Sol; e pareciam ter camadas de cor sucessivas, que, mais espessas no fundo, se tornavam mais delgadas na superfície, que parecia esmaltada. ...Os seus olhos negros pareciam ainda mais negros ...Fixando-o com os seus grandes olhos negros muito abertos... Os seus olhos nunca tinham sido tão grandes, tão negros, tão profundos...

Estou cansada de ler, por vezes, apetecia-me ser...só ser. Como é só ser? Ser só eu sei...


Meu coração, não batas, pára!
Meu coração, vai-te deitar!
A nossa dor, bem sei, é amara,
A nossa dor, bem sei, é amara...
Meu coração, vamos sonhar...
Ao mundo vim, mas enganado.
Sinto-me farto de viver...

Basta, por Deus! vamos dormir...



Oferecer um livro é, além de uma gentileza, um elogio...Li este livro, ainda "menina e moça"... Foi-me oferecido, como prenda de aniversário, devido ao meu temperamento melancólico... Motivou-me os primeiros versos que escrevi. Tenho saudades da menina que chorou ao lê-los, nostalgia de um tempo em que sabia sentir. Entretanto, conheci fernando pessoa que tornou toda a poesia portuguesa anterior num deserto totalmente inexpressivo... Há seres assim: ocupam demasiado espaço...

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros.(...) Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. ... A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os mestres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi...

Amo aqueles livros em que sinto que o seu autor, que pode ter morrido séculos antes de eu ter sido engendrado, se dirigia a mim, a mim pessoal e concretamente, a mim em confidência.

Amava aquela sala coberta de volumes...e a riqueza que é saber-se que o rubi vem da índia(...) e a flor ,conhecida em latim por lilium, se chama em grego krinon e em hebraico susannah. Verificou depois que os livros mentem e divagam, tal como os homens...

Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados, não saberemos a que nos agarrar, o que seguir, que amar, que odiar, que respeitar,que desprezar? Mesmo sermos homens nos pesa - homens com um corpo real, nosso,com sangue; temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa e procuramos ser uma espécie de homens globais fantasmásticos.

Intertextualidades possíveis entre os meus autores/ textos favoritos...

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!




Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.


essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.

Não é Ricardo Reis quem pensa estes pensamentos nem um daqueles inúmeros que dentro de si moram, é talvez o próprio pensamento que se vai pensando, ou apenas pensando, enquanto ele assiste, surpreendido, ao desenrolar de um fio que o leva por caminhos e corredores ignotos.

a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

sentiu na casa uma presença, talvez não fosse ainda a solidão, era o silêncio, meio-irmão dela

O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas.Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual.

O que aqueles loucos e vagabundos tinham como grande qualidade era precisamente o facto de agirem parecendo não terem espectadores, parecendo estarem sós no mundo. E realmente estavam. Não eram amados, não amavam, não eram odiados: o terreno estava livre para poderem ser livres.
E os homens livres excitavam Lenz Buchmann. Eram, por tudo isso também, os espectadores ideais.


Pousadas sobre o colchão as mãos transmitiam-lhe leveza – estava liberto do fardo de ter de agarrar em coisas e os seus dedos, cada um deles, pareciam sentir essa liberdade e, com serenidade completa, esperavam. O resto do corpo não existia. Pelo menos, não o sentia. Desaparecera.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.(...) Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto — o que diríamos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; — o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.



Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca.


Os melhores livros são os que nos contam aquilo que já sabíamos. (É também por isso que adoro reler...)


É fácil mudar de vida, é fácil mudar de ocupação, é fácil mudar de amor, tudo é mais fácil do que mudar livros de um espaço para outro...Ficam deslocados, tristes, na nova casa. Parece que sentem que alguém não os quis e que, por isso, tiveram de ser realojados... É estranho,mas até nos olham com ar de censura... Um livro conta sempre duas histórias e, ao ser transportado para outro local, para outra gente, passa a contar só uma. Será que os livros também sentem saudades??

Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.

Não gosto de literatos, nem posso suportar as suas mentiras.Falam para não se ouvirem. Se se ouvissem, saberiam que não são nada,e nunca poderiam mais falar.

Emendo-te rasuro-te preencho-te assino-te destino-te comando-te és o lugar concreto onde procuro a noite de passagem o abrigo seguro a hora de acordar que se diz ao porteiro o tempo que não segue o tempo em que não duro senão um dia inteiro. // Invento-te desbravo-te desvendo-te surges letra por letra, película sonora, do sendo à vogal do tema à consoante sem presença no espaço sem diferença na hora. És a rota da Índia o sarcasmo do vento a cãibra do gajeiro o erro do sextante o acaso a maré o mapa a descoberta dum novo continente itinerante.

Há palavras que andam perdidas porque foram completamente olvidadas: poucos as sabem , ninguém as usa... Mesmo os que as conhecem, raramente as aplicam, até por pudor. Pareceria pretensioso, talvez até risível, referir "Tu, a minha insonte ilusão"..

Encontrei em F. de C. e no seu amigo Assis Esperança os pilares da minha relação com a literatura e o jornalismo, e uma via da oposição à Ditadura. Queria conspirar, correr riscos, ser preso, tornar-me herói ou mártir do regime - e vingar os equívocos do passado, insubordinar-me contra a ordem, a censura à imprensa, a guerra colonial, a pobreza, a emigração, o colonialismo. O escritor habitava então uma suite do rés-do-chão do hotel Mira Parque. Os seus livros enchiam as montras das livrarias, os jornais falavam de traduções, da candidatura ao Nobel (com Jorge Amado), tomada a sério por muitos - e por ele nem por isso. Quando precisava de terminar um livro, retirava-se para a Madeira, hospedando-se durante meses num hotel e regressando de lá com uma pasta preta carregada de mistérios literários. Como era surdo, julgavam-no desconfiado e manhoso como a raposa - apesar de humilde e fraterno. Abominava padres e freiras, não tanto pelo que eram, mas por sustentarem o modelo social e político do mundo. Para escrever A Missão, contou-me que fora encontrar-se com uma comunidade religiosa, para ficar a saber como é que os padres se tratavam entre si. Tinha um medo pavoroso da morte, fim absoluto de tudo, matéria sobre matéria, lama sobre a terra. Na sua relação com os pares, eu estranhava o excesso dos elogios a todos, sem exceção. Louvava-os como se recuasse dentro de si, a esconder-se da fama e da vida que os livros lhe davam num país onde ninguém (exceto Namora) vivia dos direitos de autor. Línguas maldosas diziam que os exaltava só para que não dissessem mal dele - o que eu levava na conta de uma infâmia. Aduziam outros que possuía um ego maior que a légua da Póvoa; que, escrevendo mal, fora projetado no exterior por bons tradutores, como Blaise Cendrars, em francês, língua a partir da qual se fizeram traduções para outras línguas.
Recusei-me a crer nessas minudências. Já não era então o meu primeiro ídolo literário... Mas permanecia meu mestre e mentor. Apostava no meu talento e na minha sensibilidade. Esperou o meu primeiro livro até à morte. Dediquei-lho postumamente: uns tristes contos que depressa bani. Vi-o morrer e começarem a esquecê-lo, tão injustamente como agora. Chegara uma revolução, a do 25 de Abril. Descarnados, os seus livros colidiam em silêncio com a nova liberdade literária, proclamada aos gritos, por entre o clamor da festa democrática. Hoje como ontem, tardamos em refazer a justiça a um escritor que nos anunciou o Neorrealismo, que inventou com dignidade e valentia, do lado dos que hoje comem e vivem melhor, mas nunca foram visitá-lo na sua sepultura na serra de Sintra, onde repousa sozinho entre as árvores, sob um banco onde qualquer um de nós pode sentar-se a descansar.


A vida é o pânico num teatro sem chamas.

O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

O mundo assim como está não é suportável, por conseguinte, preciso da lua, da felicidade ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo.Bastaria existir o impossível. O impossível! Procurei-o nos limites do mundo, nos confins de mim mesmo...Não consegui nada. A minha liberdade não é boa.
Como é desgostante ,após ter desgraçado os outros, sentir a mesma cobardia na alma... Se tivesse tido a Lua, se o amor fosse suficiente, tudo estaria modificado...

Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas,se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente,e com que decresça o sofrimento,se não posso impedir os seres de morrerem? ...Não podendo agir sobre a ordem do mundo,é indiferente que durma ou continue acordado.

CESÓNIA: Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.
CALÍGULA: Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.


É preciso ,ainda, que tentes compreender o que te vou dizer, que sofras as minhas ofensas, que sejas vítima do meu amor.
À história, Calígula, à história! Ainda estou vivo!

Esta leitura é uma experiência perturbadora. A personagem fica dentro de nós, entranha-se, nunca mais a conseguiremos abandonar. É um impacto persistente que nos persegue. Perturba , destrói-nos, porque questiona verdades que se nos afiguravam como definitivas. Seria bem mais fácil se fosse possível enquadrar Calígula no mundo das certezas e das convicções estabelecidas. Como seria cómodo considerá-lo louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como um doente e um anormal... Como seria fácil. Quem é o calígula de camus? Quem é o meu calígula? Quem foi, na realidade, este bizarro imperator que nomeou cônsul o seu cavalo? Quem é gaius iulius caesar augustus germanicus?

É a sua extravagância, o estar destinado a ser diferente, que lhe dá o nome que o tornará eterno: calígula, " o sandaliazinhas". Esta alcunha depreciativa foi posta pelos soldados das legiões comandadas pelo seu pai, que achavam graça em vê-lo vestido de legionário, mas com caligae...

O busto de calígula, existente no museu do louvre, sempre me fascinou. Depois de uma hora ou mais, numa longa fila, para ver a mona lisa, como não havia concorrência nem tempo limite para contemplar este busto, ali fiquei. Depois de ter lido camus, na segunda vez que fui ao louvre, já não confirmei se a mona lisa olhava para mim e fui logo ter com o meu calígula. Como tinha fama de "chanfrada", os meus pais nem estranharam eu estar a tentar perscrutar, naquele ar inocente, os segredos da sua alma complexa. Ali fiquei , certamente com ar apalermado, à espera que ele comunicasse comigo...


Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim. Contigo não tens nada. Não és ninguém, porque não és consciente; apenas vives.

nhe'#. Em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani....
Teatro é fingir, representar, ressuscitar personagens… Apetece-me voltar a ser m… É libertador dizer, só dizer, palavrar, diretamente para o papel, numa escrita totalmente autotélica, que significa tão somente no universo discursivo de um único ser, mas que, não inocentemente, fornece pistas indeléveis, encriptadas, que podem ser reveladas, como se de um puzzle se tratasse... É aliciante, eu que sou a criadora de significantes e significados, por vezes, passado um tempo, ter dificuldade em decifrar... Sinto-me deus, um deus irrelevante e efémero, mas um deus...

Feel the vibe Feel the terror Feel the pain It's driving me insane I can't fake For God's sake, why am I driving in the wrong lane?Trouble is my middle name But in the end I'm not too bad Can someone tell me if it's wrong to be so mad about you?


Desassossegas, causas medo, assustas, arrepias, mas...fascinas. Será a loucura que desencadeia o fascínio ou é o fascínio que potencia a loucura? Qual é causa? Qual é consequência?
And nobody seems to like him They can tell what he wants to do And he never shows his feelings But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning around...

Round and round and round He never listens to them He knows that they're the fools... I can't get these memories Out of my mind And some kind of madness Is starting to evolve And I, I tried so hard to let you go But some kind of madness Is swallowing me whole, yeah...


Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.

Embora se tente identificar com jean baptiste clamence, nunca conseguirá atingir a perfeição do seu cinismo requintadamente superior. Cá vai representando o seu papel o melhor que pode, mas emperra sempre numa ansiedade afetiva, de querer um qualquer coisa impossível, o que a torna muito mais similar a um excessivo calígula. Ela? Calígula? Limito-se a ser uma insignificante personagem secundária.
Estou saturada de representar um papel: saio, temporariamente, de cena e permaneço nos bastiores, a observar os /as protagonistas...


É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, E os vivos apaixonam-se por outro vivos, e lembram-se, por vezes do enorme número de mortos; e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável. E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos - os que nos vão sobreviver no tempo - e é preciso sair, e não basta sair para a rua correr, é preciso sair dos ossos, fugir ao obrigatório, à casa, encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta um mapa, fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos. Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, e alguns outros assuntos, mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar. E é por isso tudo, e por quase tudo o que faltou dizer, é por isso que é bom, por vezes suspender a noite e o coração, e obrigar o cérebro à paragem surpreendente. É por isso que é bom, por vezes, ocuparmos o corpo no acto de sentar, e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro, que nos salve, por enquanto, antes de morrermos.
Como gosto deste texto...

Porque o encenador é, na verdade, um coreógrafo de corações, mas também de inteligências. E uma e outra coisa, em certas alturas, são o mesmo.

Porque o teatro deve ser um banquete mortal, Mas deve também, por vezes, ser o banquete imortal. O que não deve é ausentar-se de mexer na vida. Senão reduz-se a fósforo; E os incêndios: apagam-se.

O Bilhete importante: O teatro é (deve ser) o que seja capaz de fazer o espectador pedir:
- Dê-me um bilhete para mudar de vida.
O teatro é, deve ser: 1 bilhete para mudar a vida


O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Casos...Deambulações e divagações...

Casos difíceis...

Mas quando via que nem isso produzia o efeito desejado, não era raro assumir uma solene pose teatral e declarar-se" anarquista teórico", que os sociais democratas salvariam a qualquer momento se ele se decidisse a aceitar favores desses malvados judeus exploradores do povo trabalhador ignorante. E com isso mostrava que também ele tinha uma "disciplina científica", um terreno em que a arrogância erudita dos seus juízes não podia acompanhã-lo. Em geral, isso valia-lhe, por parte dos juízes, a classificação de " inteligência notável", uma atenção respeitosa às suas palavras durante a audiência e sentenças mais pesadas; mas, lá no fundo, a sua vaidade lisonjeada via esses julgamentos como momentos altos da sua vida. Por isso não odiava mais ninguém do que os psiquiatras, que achavam que resolviam toda a complexidade da sua difícil personalidade com uns termos estrangeiros, como se aquilo fosse para eles matéria quotidiana... Moosbrugger não deixava passar em claro nenhuma destas oportunidades de mostrar na sala de audiências a sua superioridade em relação aos psiquiatras, desmacarando-os comoidiotas e charlatães emproados que tinham de o mandar para o manicómio quando ele fazia uma simulação, em vez de o mandarem para a prisão que era o seu lugar.

El adulterio lleva mucho trabajo ...
Para o conseguir só tinha de praticar com ela o exercício intelectual que propicia o adultério: ajudá-la a inventar histórias sem falhas para Edward Bayes e levá-la a preocupar-se em não incorrer em contradições , ao relatá-las , embora ela achasse tal exercício desnecessário e fastidioso( a sua expressão ensombrada sempre a dizer adeus por causa da minha insistência.) Ela era negligente e ligeira e risonha e esquecida, e se eu fosse Edward Bayes - pensava -o eu - não me precisaria de muita urdidura nem esforço para averiguar cada um dos seus pensamentos e cada um dos passos que ela dava.(...) Clare Bayes simplesmente não tinha escrúpulos, mas quem a conhecesse não podia exigir-lhos, pois em boa parte a sua graciosidade residia precisamente na sua falta de consideração pelos outros como por si mesma. Clare Bayes fazia-me rir com frequência , que é o que mais aprecio, mas sei que nunca tive por ela - nem tão pouco ela por mim - uma debiidade suficientemente prolongada ou sólida para estar em qualquer forma de perigo( tão pouco estive em risco de suplantar Edward Bayes).



Casos atmosféricos...

29.7.39
As eleições gerais em França vão ser adiadas por decreto durante dois anos...
29.7.46
Choveu um pouco,mas chuva mais miúda...Colhi algumas batatas. Colheita muito má,apesar de os caules serem bons.Diria que havia uma média de 5 ou 6 batatas por planta.Razão dada,a terra não foi estrumada.
29.7.47
Dia bonito e com sol,com algum vento de oeste.Mar calmo.Fiz uma caixa para as lagostas...Receio que as sementes de relva do caminho tenham sido arrastadas pela chuva,mas é difícil ter a certeza.3 ovos(216)
31.7.39
Na maior parte do dia esteve tempo nublado,com chuvadas fortes e trovoada cerca do meio-dia. Mondei as cebolas. Repiquei 35 cravos...11 ovos ( três frangas? É evidente que pelo menos uma franga já está a pôr).
31.7.46
Dia lindo,bom tempo e bastante calor...Pintei o barco de verde e branco. Lancei o lagosteiro,já que não tenho isco para o outro. Tirei 6 litros de gasolina. ( Ao todo 44-8 litros.)
31.7.48
Estou a reabrir este diário ao fim de sete meses de ausência. O tempo está quente e seco...A aveia ainda vai pouco alta...O feno já foi quase todo cortado...As rosas,as papoilas,os cravos-de-poeta e os malmequeres...os tremoceiros...o ibério...as clárquias.Os arbustos...As árvores...Os morangos...A primeira leva de ervilhas...As alfaces...os nabos,o feijão rasteiro...cebolas.Temos duas ninhadas de pintos a chegar...O porco que nasceu...Ambas as vacas...A erva está bastante boa,e os cardos...Durante algum tempo ainda,não vou poder fazer nada no quintal...A pesca tem sido boa...Os candeeiros estão meio avariados...Encomendar candeeiros Tilly e vaporizadores:
« martelo
«veda-juntas( para as torneiras)
« válvula para o lavatório
« chaminé para os candeeiros.

4.8.39
Choveu a maior parte do dia,com intervalos de sol,e tempo ventoso...Hoje de manhã vi outra vez a galinha perdida...13 ovos( 3 pequenos).
Amanhã parte para a missão militar franco-britânica num paquete de baixa velocidade,que levará uma semana a chegar a Leninegrado...Dizem que a Alemanha está a pensar transferir a Eslováquia da Polónia,de forma a separar a últimae Radnor da Polónia...
O Partido Trabalhista ganhou em Brecon e Radnor por uma maioria de 2500 votos...
A imprensa Albatrross , que está a tratar da publicação do meu último livro, exige a supressão de certas referências hostis a Hitler. Dizem que são obrigados a fazer isso, visto os seus livros circularem largamente na Alemanha.

4.8.46
Grande tempestade de manhã,a clarear à tarde, mas com vento ainda forte. Abri uma avelã. Lá dentro só havia medula. Pelos vistos vai haver uma grande colheita de avelãs.
4.8.48
A maior parte do dia sem vento nenhum, com neblina,razoavelmente quente...Algumas das ervilhas-de-cheiro estão a florir,mas não são de boa qualidade. Esqueci-me de dizer que ontem vi 3 águias a voar por cima do campo em frente ( acho que eram 3,embora só tenha visto 2 de cada vez)...Emitem uma espécie de grito,que eu pensava ser exclusivo dos abutres.

Leio, com prazer, estas pouco mais do que listagens, talvez por sentir a alma e a beleza de quem as escreveu...Não sei, mas há uma cadência suave e pacificadora nesta quase plenitude existencial, similar à do guardador de rebanhos...
Só um grande homem pode realizar-se com coisas tão pequenas...(Ao reler , fiquei receosa sobre a banalidade da minha afirmação, mas também não almejo fazer concorrência ao wilde...)

Casos recorrentes...
Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto. Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não. E a chuva cai levemente(Porque Verlaine consente)Dentro do meu coração.

Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra. Chove...A minha alma é húmida de ouvi-lo...
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas (...) alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.Como chove!
As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos, um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente a chuva...


Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego.

Chove muito, chove excessivamente... Chove e de vez em quando faz um vento frio... Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu(...)

Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.

cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser. Até o meu pensamento Tem chuva nele a escorrer.

Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon coeur d'une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l'heure, Je me souviens des jours anciens tt je pleure Et je m'en vais au vent mauvais qui m'emporte Deçà, delà, pareil à la feuille morte.

Casos amorosos...


Conheci, mal que te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração para te dar, se a minha alma fosse capaz...
Achei-me só, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me atur­dido da cabeça, exausto do coração — numa depressão de espírito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola ao peito, não levantava o braço para a arredar... Já não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito...
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras...
Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.


Mas se os cinco capítulos por que se estende esta carta lhe conferem um lugar importante na história da nossa literatura, dos nossos costumes, da nossa mentalidade, é porque na sua aparente ligeireza e insignificância o que repetidamente se manifesta é a torturada e engenhosa tomada de consciência das nossas bem modernas contradições. Essa carta é importante porque nela se descobre e denuncia a complexidade pouco lógica dos afectos, dos desejos, das vaidades, isto é, daquilo a que chamamos amor; e é importante também porque nela, na sua estratégia tortuosa, nessa impossibilidade de destrinçar o que é sincero do que pode ser simplesmente talento verbal de sedutor barato, se anuncia já também a problemática do fingimento e da sinceridade, da verdade e da ficção, que para Pessoa será uma preocupação constante e fundamental. Justifica-se plenamente, portanto, que consideremos Garrett um lúcido precursor de Júlio Dinis, Camilo, Eça, Cesário Verde e outros, por um lado, do modernismo português do Orpheu, por outro.

(João Camilo dos Santos - Professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Califórnia.)

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Casos de polícia...

A morta seguinte apareceu em Agosto de 1994...Esta não era uma desconhecida, mas, coisa curiosa, ninguém soube dizer como se chamava. Em casa, onde vivia sozinha há três anos, não foram encontrados papéis pessoais nem nada que pudesse levar a um esclarecimento rápido da sua identidade. Algumas pessoas, não muitas, sabiam que se chamava Isabel, mas quase toda a gente a conhecia como a Vaca... A Vaca estava deitada no chão. Só quando tentaram puxá-la é que se deram conta de que estava morta. O caso foi arquivado.

Em Agosto de 1995 foram encontrados os corpos de sete mulheres...Os polícias percorreram a cidade , visitaram bares e discotecas...encontraram-se com os inspectores ...falaram com dois médicos-legistas...examinaram alguns dossiês e visitaram o bordel Asuntos Internos, onde foram para a cama cada um com a sua puta. Depois, tal como tinham chegado, assim partiram.

Quando Agosto chegava ao fim, foi encontrado na estrada...o corpo de Jacqueline Rios, de vinte e cinco anos, empregada numa loja de perfumaria... Morrera devido a disparos de arma de fogo no tórax e no abdómen. Partilhava a casa com uma amiga...e as duas tinham o sonho de ir viver na Califórnia...O caso ficou por esclarecer.

As enumerações exaustivas,mas nunca entediantes, que recordam os trabalhos e dias de hesíodo,são uma peculiaridade de 2666. A formação clássica do autor é óbvia, embora talvez inesperada. Este pendor enumerativo, no caso das fobias, é uma sátira mordaz às pseudojustificações científicas que,por vezes, os psiquiatras arquitetam para explicar comportamentos desviantes e criminosos...Se eu matar um padre porque padeço de sacrofofia, sou inimputável...

Sacrofobia, gefirofobia,claustrofobia, agorafobia, necrofofia, hematofofia, pecatofobia, clinofofia, tricofobia, vestiofobia...Verbofobia é o medo das palavras... É um pouco mais do que ficar calado,porque as palavras estão em toda a parte,inclusivamente no silêncio,que nunca é um silêncio total, não é verdade?... Um relativamente comum: a iatrofofia, que é o medo dos médicos.Ou a ginofobia, que é o medo da mulher...Difundidíssimo no México, embora disfarçado com as mais diversas roupagens... Depois há dois medos que no fundo são muito românticos: o ombrofobia e a talassofobia...a antofobia...e a dendrofobia...E o senhor o que acha que é a optofobia?... Medo de abrir os olhos...Depois temos,claro está, a pedifofia...e a balistofobia...E outra fobia,que está a aumentar,´é a tropofobia...Que se pode agravar se derivar de agirofofia,que é o medo das ruas ou de atravessar uma rua.Sem esquecermos a cromofofia...ou a noctofobia...ou a ergofofia,que é o medo do trabalho. Um medo muito difundido é a decidofobia,que é o medo de tomar decisões.E um medo que começa agora a difundir-se que é a antropofobia,que é o medo das pessoas. Alguns índios sofrem de forma muito acentuada de astrofobia...Mas as piores fobias,no meu entender,são a pantofobia,que é ter medo de tudo, e a fobofobia ,que é o medo dos próprios medos. Se você tivesse de ter um destes dois últimos,qual escolheria? A fobofobia,disse Juan Dios Martinez.Tem os seus inconvenientes,pense bem,disse a directora... Se eu tivesse medo de tudo , não podia trabalhar,não se esqueça que sou polícia.Mas se tiver medo dos seus medos a sua vida pode transformar-se numa observação constante do medo,e se estes se activarem, o que se produz é um sistema que se alimenta a si mesmo, um enredo do qual lhe será difícil escapar, sublinhou a directora.

Páginas com datas, congressos, temas de apresentações, artigos de revista, que se leem com uma ansiedade e um prazer enorme. Hesíodo , um autor grego muito importante, mas menos conhecido do que Homero, tem uma obra em que, ao longo de páginas e páginas , elabora um célebre catálogo das naus… Sempre me intrigou o motivo pelo qual a professora helena rocha pereira tanto se emocionava com aquela enumeração… Pois, hoje, entendi-a … A ansiedade de saber como é que 4 jovens , um francês, um italiano, um espanhol e uma inglesa, que têm em comum a idade e a paixão por um autor alemão, se encontram, onde estão, como se vai chamar o artigo , transforma o que poderia ser um relato fastidioso…
Não li nada sobre o livro, mas julgo que ele será uma metáfora da cultura europeia na segunda metade do século XX- A nacionalidade das personagens principais não pode ser inocente, num livro que foi tão bem pensado que o seu autor, com medo de ser surpreendido pela morte, como veio a acontecer, deixou todas as indicações para a sua publicação… Um D. Quixote do século XX.

Casos preocupantes...

Não há nenhum lugar na terra onde haja mais tontas por metro quadrado que numa universidade da Califórnia.

Universidade estatal, constituída por diferentes instituições semiautónomas: Angeles (UCLA), Berkeley (UC Berkeley), San Diego (UCSD), Davis, Irvine, Merced, Riverside, São Francisco, Santa Cruz e Santa Bárbara.
יְהִי אוֹר, Fiat lux, γενηθήτω φῶς...
O lema da universidade,uma tradução discutível que retira a dignidade ao original hebraico, latino ou grego, andará a causar confusão aos jovens universitários californianos,tendo em conta as imagens degradantes que nos chegam dos seus comportamentos académicos...

Light - luz,lâmpada,lume;fraqueza,leveza, futilidade...

Paradoxalmente, este be light das light universitárias californianas está a ser decisivo para os mexicanos melhorarem a raça, Vejamos: Um Presidente do México costumava chegar , no melhor dos casos, ao ombro de um Presidente da América. Às vezes a cabeça de um Presidente do México estava apenas a uns centímetros acima do umbigo de um Presidente americano. Como mesmo a classe alta mexicana era baixa, um anão mexicano manda o seu filho anão estudar para uma universidade da Califórnia. O menino tem dinheiro, faz o que quer e isso impressiona as estudantes...Resultado: o menino obtém um título e consegue uma esposa...Desta forma ,os netos do anão mexicano deixam de ser anões e, de passagem, ficam mais claros. Esses netos,chegado o momento,realizam o mesmo périplo iniciático do pai.



O bolaño nunca visitou outras universidades...Talvez a sua ratio de tontas, por metro quadrado,seja injusta...
Esta foto foi tirada, de facto, na UC, mas o C não é abreviatura de califórina...

E eu pergunto aos economistas políticos...se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?


Personagens reais: encantadoras e monstruosas
Um bom trabalho de investigação
Uma técnica narrativa ...mediana

If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face—for ever.

The picture of my present: Nada é mais humilhante do que ver os tolos vencer naquilo em que fracassámos.

A opressão da bota desapareceu ,subitamente, porque pensei em alguém que perdeu as palavras ( não metáforas em sentido metafórico) e sofre uma asfixia terrivelmente dolorosa. O que se diz? Só consigo consolar e compreender adolescentes, é a minha especialidade( talvez porque serei sempre adolescente, não cresço, não me permito crescer ...) Não posso adiar o momento, mas o que se diz? Recuso-me ao blá esteriotipado,comiserativo "tem paciência, estas coisas levam tempo, vais ver que recuperas...".Para isso, há mulheres,namoradas,amigos, filhos, cunhadas, cunhados, sogras, sogros, fora enfermeiros, médicos e colegas de trabalho. De mim não é isso que se espera e sufoca-me uma impotência enorme, um quase pavor de desiludir. "Ó meu amigo, tu perdeste as palavras, mas eu nunca, num certo sentido, as tive: vivem estéreis dentro da minha cabeça, incapazes de se exteriorizar."
Não posso continuar com esta cobardia, hoje, chova ou faça sol ,vou ter de quebrar o meu silêncio...Mas, o que se diz? Como se responde??

…… ainda não sei o que falta, mas sei que pode acabar assim… (13:00 - A gata miou 3 vezes. Ela sabe o que lhe falta : uma lata de "peixe do oceano"...) Mesmo que acabe assim...
Será que tudo o que sentimos tem de ter nome? Será que tudo o que pensamos tem de ser dito? Para quê? Porquê? São tão poucos os que nos sabem ler / escutar... Mesmo sem verbalizar através de palavras,os seres ,que o são de facto, continuam a ser...Mesmo que todas as palavras dos outros nos escapem, não corramos atrás delas, somos e continuaremos a ser no silêncio... Se aprendermos a ouvir o silêncio que há em nós, talvez consigamos imaginar sísifo feliz... Está um belo dia de sol.

Será que poderemos sufocar com o silêncio? Será o silêncio antinatural?


There's a silence surroundiing me I can't seem to think straight I'll sit in the corner Where no one can bother me
I think I should speak now (why won't you talk to me) But I can't seem to speak now (you never talk to me)
My words won't come out right (what are you thinking) I feel like I'm drowning (what are you feeling) I'm feeling weak now (why won't you talk to me) But I can't show my weakness (you never talk to me I sometimes wonder (what are you thinking) Where do we go from here (what are you feeling) It doesn't have to be like this All we need to do is make sure we keep talking...


Um caso clínico...
As pessoas têm formas de preocupação estranhas e inexplicáveis. Dizem os que presumo que gostam de mim, pelo lugar que ocupam na minha vida, mesmo que involuntariamente, que ando há demasiado tempo com uma " tosse muito seca". Sou acusada, perseguida, como se a minha indiferença perante a dita tosse fosse uma espécie de tendência suicida ... Como se eu pudesse fazer algo, além do que já fiz: exames para...
Relembrei, com nostalgia, as minhas doenças invisíveis do passado e de como, na época, eu teria ficado contente com um " cafum", cafum" sequinho e irritante, perfeitamente audível ...A outra gente , sempre muito perspicaz, pergunta-me : " Andas com tosse?"
Começo a ficar exasperada com o ruído que involuntariamente produzo. Sinto bem que, quanto mais me enervo, mais " cafum, cafum, cafum"... Eu que detesto tornar a minha presença demasiado visível, particularmente desde que o meu volume aumentou, vejo-me assim observada por tudo o que é ser ouvinte....( como é sabido cada um tem dois ouvidos, o que agrava o meu problema...)
Ninguém se preocupa com o deserto de recusas em que arrasto a minha existência, mas uma tossezita provoca um desassossego maior que o de Bernardo Soares. Tenho de abdicar de mostar indiferença e ter a atitude considerada normal: lacrimejar, com ar condoído, " Ai, ando tão preocupada com esta tosse".

Casos perdidos...
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me I formulate infinity And store it deep inside me...

Nosso caso é uma porta entreaberta... é o amor agitando o meu coração Há um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não...

Deambulações e divagações..

Percorri interminavelmente a cidade de Oxoford e conheço quase todos os seus recantos e também a sua infinidade de limites esdrúxulos... A maioria das vezes caminhava sem objetivo e sem rumo determinado, embora me recorde bem que, durante dez dias, do meu segundo período letivo... caminhei com um propósito pouco adulto e então - enquanto durou- nem sequer a mim mesmo o confessei.

Em Inglaterra os desconhecidos não costumam conversar , nem sequer nos comboios nem durante longas esperas, e o silêncio noturno da estação de Didcot é um dos mais profundos que eu conheci. O silêncio é tanto mais profundo quando é quebrado por vozes ou ruídos isolados e sem continuidade

A partir de então e durante uns dez dias caminhei pela cidade de Oxford com o propósito ou a esperança insconsciente de a voltar a encontrar, o que não seria demasiado improvável se ela não tivesse ido de visita e ali vivesse. Andei pelas ruas mais tempo do que o habitual, e cada dia que passava o seu rosto ia-se esfumando ou confundindo-se com outros, como costuma acontecer com as coisas que se querem recordar ou nos empenhamos em recordar , com todas aquelas imagens perante as quais a memória não se mostra respeituosa ( quer dizer, passiva)...Eu saía da livraria Blackweel's com o tempo contado para chegar a uma das minhas turmas de tradução com o exigente Dewar. Apressei o passo olhando em frente no meio de um vendaval que entretanto se havia levantado ... Havia dado quatro ou cinco passos a reconheci e voltei-me. O que mais me surpreendeu foi que também ela e a sua amiga..haviam parado e se tinham virado. Ela sorriu e gritou, mais para se dar a reconhecer que reconhecendo-me: "No comboio! Em Didcot!" ... Não a voltei a ver no resto do ano nem no seguinte, no fim do qual deixei Oxford... O que mais lamento é não ter podido atentar ...nos seus sapatos ingleses nem nos seus tornozelos, que sem dúvida me teriam parecido fragilizados pelo vento. Estava demasiado atento ao cauteloso voo da sua saia.

As divaçaçoes de Clare Bayes, um tipo mulher que considero insuportável: Tudo nela era expansivo, excessivo, um ser nervoso, uma dessas pessoas para quem não foi feita a noção de tempo, para as quais a própria noção de tempo e de espaço é uma ofensa, necessitadas como estão de fragmentos da eternidade de qualquer coisa ou, dito de outra maneira, de conteúdos etrnos para encher e inundar o tempo...Era eu que tinha de interromper as intermináveis divagações de Clare Bayes, o seu conteúdo eternizável de qualquer tempo, os seus comentários ou verborreia infinita enquanto permanecia deitada na cama, fumando , fazendo ademanes, pontificando, cruzando as pernas, abrindo-as, encolhendo-as, exaltando ou teorizando sobre o seu passado ou o seu presente, saltando de um assunto para outro para o seu futuro mais imediato, sem que nenhum tema fosse levado até ao fim.

Uma divagação do narrador, um homem interessante, que, como todos os homens inteligentes e discretos, adora mulheres extravagantes: A visão de uns sapatos vazios faz-me imaginar sobre eles a pessoa que os usou ou que poderia tê-los calçado, e vê-la de facto ao meu lado - fora dos sapatos - ou não a ver em absoluto irrita-me terrivelmente ( por isso , para mim, contemplar a montra de uma sapataria tradicional pressupõe a figuração automática de multidões firmes, incómodas e estreitas).

Qual é a idade da alma do homem? Gosto de acreditar que a alma não envelhece...Gosto da deambulação de leopold, através da sua existência: apeteceu-me reler joyce...

If Socrates leaves his house today he will find the sage seated on his doorstep. If Judas go forth tonight it is to Judas his steps will tend. Every life is in many days, day after day. We walk through ourselves, meeting robbers, ghosts, giants, old men, young men, wives, widows, brothers-in-love, but always meeting ourselves.

Não mais é Leopold, ali sentado, a ruminar a matutar em reminiscências, o tranquilo agente de publicidade e proprietário de uma modesta maquia em títulos. É o jovem Leopold. Ali, como se fosse um arranjo retrospetivo, um espelho dentro de um espelho ( eia! " presto"), a si próprio se contempla.V~e-se a jovem figura de então, precocemente viril, caminhando numa fria manhã da velha casa, em ..., em direção à escola, a pasta dos livros à tiracolo e dentro dela um bom pedaço de pão de trigo, ideia de sua mãe. Ou é a mesma figura, decorrido coisa de um ano, com o primeiro chapéu( ah! esse é que foi um dia!) já no seu caminho , um viajante a sério da firma familiar , equipado com um livro de requisições, um lenço perfumado( não apenas para exibir) , a maleta de brilhante quinquilharia( ah, coisa já do passado!) e um cascás repleto de sorrisos complacentes, para esta ou para aquela dona de casa, meio convencida, a fazer contas pelos dedos ou para uma virgem em florescência que timidamente aceita ( mas o coração, diz-me?) os seus estudados beija-mãos. O perfume , o sorriso mas, mais do que estes, os olhos escuros e os modos untuosos ajudavam-no a trazer para casa, ao cair da noite, mais uma comissão para o chefe da firma, sentado com o cachimbo de jacob , depois de semelhantes trabalheiras, ao canto da lareira paterna ( um prato de macarrão, bem podeis rstar certos, está a ser aquecido), lendo através de redondos óculos de aros de tartaruga algum jornal da Europa de um mês atrás. Mas, ela, "presto" , o espelho embacia-se e o jovem cavaleiro andante retira-se, murcha, reduz-se a um pontinho na névoa. Agora, por sua vez, é ele paternal e os que estão à volta dele podiam ser seus filhos. Quem pode dizer?

Deambulando...he llegado hoy hasta aquí, sin pena ni gloria
con mis sentidos alertas y preparados para gozar y penar ,
perdonar y ser perdonado , cantar y llorar , vivir y gozar...

Deambulando...supe ver la entrega del cuerpo deseado
y me enseñaron a amar sin retaceos ni miradas en el vacío
que trasmiten el hartazgo que solo da la pasíon fingida...

Deambulando...he llegado hasta aquí , hasta estas palabras
que son el premio de saber que todo es por algo mágico,
que solo lo puedes ver si escuchas a tu ángel en la mente...!


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...



Take me out tonight Oh take me anywhere I don't care, I don't care, I don't care...


Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.


Damos commumente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que não lhe compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém, não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, ou tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar —, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.


Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo, aconselho-vos o amor ao longínquo.
Assim falava Zaratustra

domingo, 11 de setembro de 2016

(Des) certezas...(In)certezas...


Os homens, que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro, mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando.

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, Perante este horrível ser que é haver ser, Perante este abismo de existir um abismo, Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, Ser um abismo por simplesmente ser, Por poder ser, Por haver ser! — Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, Tudo o que os homens dizem, Tudo quanto construem, desfazem ou se construi ou desfaz através deles. Se empequena! Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —Numa só coisa tremenda e negra e impossível, Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino — A minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor, E é com as minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim, Com a substância essencial do meu ser abstrato Que sufoco de incompreensível, Que me esmago de ultratranscendente, E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Se não ficar completamente doida, talvez ...

Crer é muito monótono, a dúvida é apaixonante.

I can see the glowing lights I can see them every night Really not that far away I could be there in a day

The dream is gone And I have become Comfortably numb...

Vestígio do que não foi, Não sei se existe ou se dói. Sono de ser, sem remédio, Leve mágoa, breve tédio, Não sei se pára, se flui; Não sei se existe ou se dói.

A amizade é , acima de tudo, certeza – é isso que a distingue do amor.
Between men and women there is no friendship possible. There is passion, enmity, workship, love, but no friendship.

As duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a última.

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? Será essa, se alguém a escrever, a verdadeira história da humanidade. O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; O que não há somos nós, e a verdade está aí. Sou quem falhei ser. Somos todos quem nos supusemos. A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Por vezes, não queremos ouvir a verdade porque não desejamos que as nossas ilusões sejam destruídas. Mesmo sem as ouvir, descobrimos e o resultado é o mesmo... Continuo sem ter a certeza certa, mas induvida... Uma descerteza possibilita certezas e ela tenho várias...Não lhe causam sofrimento, aceito-as como inevitabilidades: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; muda-se o ser, muda-se a confiança... Sobra um prefixo, talvez ilusório, necessidade de perpetuar, teimosamente, algo que existiu... Recusa as certezas...nem sequer necessita de realidades... mas preferia poder duvidar... Não é preciso que a realidade exista para acreditarmos nela. Na verdade, se não existir, tudo é mais luminoso.

Quem sonha mais, vais-me dizer, aquele que vê o mundo acertado ou o que em sonhos se foi perder? O que é verdadeiro? O que mais será? A mentira que há na realidade ou a mentira que em sonhos está? Quem está da verdade mais distanciado aquele que em sombra vê a verdade ou o que vê o sonho iluminado? A pessoa que é um bom conviva, ou esta? A que se sente um estranho na festa?

Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.


Doem-me a cabeça e o universo. As dores físicas mais nitidamente dores que as morais, desenvolvem, por um reflexo no espírito,tragédias incontidas nelas. Trazem uma impaciência de tudo que, como é de tudo, não exclui nenhuma das estrelas.(...) Dói-me a cabeça hoje, e é talvez do estômago que me dói. Mas a dor, uma vez sugerida do estômago à cabeça, vai interromper as meditações que tenho por detrás de ter cérebro. Quem me tapa os olhos não me cega, porém impede-me de ver. E assim agora, porque me dói a cabeça, acho sem valia nem nobreza o espectáculo, neste momento monótono e absurdo, do que aí fora mal quero ver como mundo. Dói-me a cabeça, e isto quer dizer que tenho consciência de uma ofensa que a matéria me faz, e que, porque como todas as ofensas, me indigna, me predispõe para estar mal com toda a gente, incluindo a que está próxima porém me não ofendeu.

Sua inconsciência alegre é uma ofensa Para mim. O seu rir esbofeteia-me! Sua alegria cospe-me na cara!

Sirvo-me de uma bebida, mas acabo por me arrepender: não era para mim. Que festa? Que bebida? Talvez esteja mesmo a ficar doida...Tornei-me ninguém e afirmo-o, fazendo um brinde de copo erguido:" Morri". Eis um belo paradoxo: nenhum ser, nem mesmo um ninguém, pode conjugar o verbo morrer no pretérito perfeito simples do indicativo, na primeira pessoa do singular, exceto eu...

Uma ansiedade...

As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo. Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. Sou nada...Sou uma ficção...Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
Para onde foi a ansiedade? Quero-o de volta. Gosto de me sentir ansiosa...Sem ansiedade, não existe prazer.

Um livro ...

Gosto de ser surpreendida, gosto de livros que me deixem insegura, ansiosa... Viver é fácil: basta deixar andar. E ter algum dinheiro. Outros que travem as guerras, os outros que vão para a prisão.

- O que é uma prisão?
- Tudo é uma prisão.
- eu NÃO SOU uma prisão!


senti-me, estranhamente, envergonhado de qualquer coisa. culpado, mal, incompleto, como um monte de merda, como uma bala de metralhadora desperdiçada...

A raça humana sempre me tinha causado asco. Fundamentalmente, aquilo que a tornava repugnante era a doença das relações familiares, onde se incluíam o casamento, as trocas de poder e ajuda, que à semelhança de uma ferida, uma lepra, se tornava então: o nosso vizinho do lado, a nossa vizinhança, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso condado, o nosso estado, o nosso país… toda a gente agarrada aos cus uns dos outros na colmeia da sobrevivência por causa de uma imbecilidade de animalesco receio.

o mundo levou-me muitas horas e anos com as suas tarefas aborrecidíssimas; nota-se. sinto vergonha pela minha derrota; não pelo dinheiro dele, pela minha derrota. o melhor revolucionário é um tipo pobre; eu nem sequer revolucionário sou, estou apenas cansado, mas que balde de merda me calhou! espelho, espelho na parede...

Tinha uma fixação pelo suicídio e uns surtos depressivos violentos e não suportava as multidões e, sobretudo, não suportava estar numa longa fila à espera de qualquer coisa. e é nisso que a sociedade se está a tornar: longas filas e esperas por qualquer coisa. eu tinha tentado suicidar-me com gás. mas não tinha resultado. Havia, no entanto, outro problema. O meu problema era sair da cama. Eu odiava sair da cama, sempre. Costumava dizer a quem me quisesse ouvir: «As duas maiores invenções do homem são a cama e a bomba atómica; a primeira mantém-nos longe do mundo e a segunda tira-nos do mundo». As pessoas achavam que eu era maluco.


Uma paisagem...

Pode ser Que não venhas mais Que não venhas nunca mais...

De que servem as flores que nascem Pelo caminho …

Um amor literário...

Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja.

Manifestava uma dedicação extrema à poesia e às letras . Era um grande conhecedor de aritmética, geometria e pintura; e até se gabava da sua habilidade em tocar cítara e cantar. Nos prazeres, era excessivo; e compôs muitos versos sobre os seus favoritos; escrevia poemas de amor. ... Competente nas armas e grande conhecedor da arte militar... Era de igual modo rigoroso e afável, sisudo e brincalhão, hesitante e impetuoso, fingido e sincero, cruel e clemente, e sempre muito oscilante em tudo.... Expressava-se com desembaraço em prosa e em verso, grande conhecedor de todas as artes, punha sempre a ridículo os professores de todas as disciplinas, como se ele próprio fosse mais entendido, desdenhava deles e humilhava‑os.

Ser sozinho, sem bens, sem prestígio, sem nenhum dos benefícios de uma cultura, expor-me a um meio de homens novos, por entre riscos nunca experimentados...É claro que não passava de um sonho e o mais breve de todos. Esta liberdade que eu inventava só existia à distância...

Há um ponto em que me sinto superior ao comum dos homens: sou ao mesmo tempo mais livre e mais submisso que eles se atrevem a ser. Quase todos desconhecem igualmente a sua justa liberdade e a sua verdadeira servidão.(...)E foi assim, com uma mistura de reserva e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente concertadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que eu, finalmente, me aceitei a mim próprio.

Aos quarenta e quatro anos sentia-me sem impaciência, seguro de mim, tão perfeito quanto a minha natureza me permitia, eterno...Era deus simplesmente porque era homem. Senti prazer em fazer e refazer este retrato de um homem quase sábio..


Não existindo já deuses e não existindo ainda Cristo, houve de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem.

Uma grande parte da minha vida ia passar-se a tentar definir, depois a descrever, esse homem sozinho, mas ligado a tudo.
Ulisses sem outra Ítaca além da interior.(...) Estrangeiro em toda a parte, não me sentia especialmente isolado em parte alguma.




What were all those dreams we shared those many years ago, What were all those plans we made, now left beside the road. Behind us in the road...

Animula vagula,blandula, Quae nunc abibis...Nec,ut soles,dabis iocos...Vale...

Nunca no teatro fitei com tamanha atenção o rosto de um ator como olhei aquele semblante, onde, como luz e sombra sobre uma paisagem, ocorria uma incessante alternância de todas as cores e sentimentos. Nunca segui um jogo com tamanha intensidade como no reflexo daquela estranha excitação. Se alguém me observasse nesse instante teria considerado meu olhar fixo como uma hipnose, o meu estado parecia -se com isso – eu simplesmente não conseguia afastar os olhos daquela expressão facial, e tudo o mais que havia no salão, luzes, rostos, pessoas e olhares, apenas me envolvia sem forma como uma fumaça amarela no meio da qual estava aquele rosto, chama entre chamas. Eu não ouvia nada, nada sentia, não percebia gente ao meu lado, outras mãos que se estendiam de repente como antenas…

Não acha então desprezível ou repugnante que uma mulher deixe o seu marido e as suas crianças para ir atrás de um homem qualquer, a respeito do qual ainda não me é de modo algum possível saber se é digno do seu amor?

Um amigo...

Alguém que não é a nossa sombra, nem o nosso reflexo, nem mesmo o nosso complemento, mas ela própria; alguém que nos deixa divinamente livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos. Hospes Comesque.

Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exal­tação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.


Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

Uma canção...



Uma ilusão...

O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais... como os que tive por figuras que eu próprio criei. Que pena! Tenho saudades deles, porque, como os outros, passam...

Põe-me as mãos nos ombros... Beija-me na fronte... Minha vida é escombros, A minha alma insonte. Eu não sei por quê, Meu desde onde venho, Sou o ser que vê, E vê tudo estranho. Põe a tua mão Sobre o meu cabelo... Tudo é ilusão. Sonhar é sabê-lo.

Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo… De que serve o que já não serve? Vou-me em busca de um grande talvez. Baixai o pano, que a farsa terminou...

Ficção de pensar...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande,
Faróis distantes.





Faremos de conta que Rutinha e o marido eram pessoas vulgares, um pouco loucos, porque a vulgaridade imita a loucura para não ter que se dar por entendida dos seus segredos. Vai para o túmulo dizendo que não tem segredos, dizendo que é simples como a água de uma fonte. Porém, não há nada de simples em se ser humano. E quem aceita isso é, de certo modo, chamado a cumprir com um destino extraordinário, o de causar nos outros os efeitos nefastos da verdade.
- Eu acho fantástica e está tudo dito. É por estar sempre num espaço pequeno e não precisar de dar um passo para fora dele. Em volta há murmúrios e ruídos de coisas que não se sabe o que são.
- O que são?
- Já disse, não se sabe o que são. Uma bola salta e nós dizemos: é uma bola. A água pinga no chão e nós sabemos que é um pingo de água. Ou o papel que se amarrota, ou o leite que ferve e chia numa placa quente. Mas em volta dela há outra espécie de ruído...


– Sabe o que não quer pôr em causa? É a quinta liberdade.
– O que é isso, valha-me Deus? Parece-me que vai dizer uma barbaridade.
– A quinta liberdade é a de fazer o mal. Destruir, esmagar, tornar estéril, molhar o pão no sangue e comê-lo. E você, querida, muitas vezes querida, ama a quinta liberdade mais do que as outras quatro.
– Que são?
– As que estão incluídas no sistema dominante. A paz, sobretudo. A pomba da paz de asas abertas e com um ramo de oliveira no bico.


De suave e aérea a hora era uma ara onde orar. Por certo que no horóscopo do nosso encontro benéficos conjuntos culminavam. Tal, tão sedosa e tão subtil, a matéria incerta de sonho visto que se intrometia na nossa consciência de sentir. Cessara por completo, como um verão qualquer, a nossa noção ácida de que não vale a pena viver. Renascia aquela primavera que, embora por erro, podíamos pensar que houvéssemos tido. No desprestígio das nossas semelhanças os tanques lamentavam-se da mesma maneira, entre árvores, e as rosas nos canteiros descobertos, e a melodia indefinida de viver — tudo irresponsavelmente.
Não vale a pena pressentir nem conhecer. Todo o futuro é uma névoa que nos cerca e amanhã sabe a hoje quando se entrevê. Meus destinos os palhaços que a caravana abandonou, e isto sem melhor luar que o luar nas estradas, nem outros estremecimentos nas folhas que a brisa, e a incerteza da hora e o nosso julgar ali estremecimentos. Púrpuras distantes, sombras fugidias, o sonho sempre incompleto e não crendo que a morte o complete, raios de sol mortiço, a lâmpada da casa na encosta, a noite angustiosa, o perfume a morte entre livros só, com a vida lá fora, árvores cheirando a verdes na imensa noite mais estrelada do outro lado do monte. Assim, as tuas agruras tiveram o seu consórcio benigno; as tuas poucas palavras sagraram de régio o embarque, não voltaram nunca naus nenhumas, nem as verdadeiras, e o fumo de viver despiu os contornos de tudo deixando só as sombras, e os engastes, mágoas das águas nos lagos aziagos entre buxos por portões (a vista de longe) Watteau, a angústia, e nunca mais. Milénios, só os de vires, mas a estrada não tem curva, e por isso nunca poderás chegar. Taças só para as cicutas inevitáveis — não as tuas, mas a vida de todos, e mesmo os lampiões, os recessos, as asas vagas, ouvidas só, e com o pensamento, na noite inquieta, sufocada, que minuto a minuto se ergue de si e avança pela sua angústia fora. Amarelo, verde-negro, azul-amor — tudo morto, minha alma, tudo morto, e todos os navios aquele navio sem partir! Reza por mim, e Deus talvez exista por ser por mim que rezas. Baixinho, a fonte longe, a vida incerta, o fumo acabando no casal onde anoitece, a memória turva, o rio afastado... Dá-me que eu durma, dá-me que eu me esqueça, senhora dos Desígnios Incertos, Mãe das Carícias e das Bênçãos inconciliáveis com existirem...


Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?
Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu
(quando parte o último comboio?)


Certezas...

Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras (...) Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te... O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade ... O seu idealismo é uma veste que tapa, não é um sonho que crie.(...) Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo? Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente, se o meu amar-te não foi o pensar-em-ti, se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava, e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?
(...)Não sei mesmo já [se] não te amei já, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância... Que o teu silêncio me embale, que a tua (...) me adormeça, que o teu mero ser me acaricie e me amacie e me conforte...


Nothing really matters, nothing really matters when the one you love is gone You're still in me...I need you In my heart, I need you... Se tivesse a certeza...

Porque foste na vida A última esperança Encontrar-te me fez criança Porque já eras meu Sem eu saber(...) Porque tu me chegaste Sem me dizer que vinhas E tuas mãos foram minhas com calma Porque foste em minh'alma Como um amanhecer Porque foste o que tinha de ser...


Certezas perfeitas ...

Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui acção – isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a acção nem a progressão e consequência da acção – mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (…) Pode haver revelação de almas sem acção, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade.

PRIMEIRA — Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA — Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA — Não: o horizonte é negro.
PRIMEIRA — Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso. ..
SEGUNDA — Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa?
PRIMEIRA — Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?...


Senti-me feliz por não poder sentir-me infeliz. Desci a rua descansadamente, cheio de certeza, porque, enfim, o escritório conhecido, a gente conhecida nele, eram certezas. Não admira que me sentisse livre, sem saber de quê.

Contento-me, afinal, com muito pouco: o ter cessado a chuva, o haver um sol bom neste Sul feliz, bananas mais amarelas por terem nódoas negras, a gente que as vende porque fala, os passeios da Rua da Prata, o Tejo ao fundo, azul-esverdeado a ouro, todo este recanto doméstico do sistema do Universo.

Vejo que delirei. Nem delirando fui feliz; mas fui-o Apenas para obter esse cansaço Que não obtive outrora: desejar A morte enfim. Eis a felicidade Suprema: recear nem duvidar, Mas estar de prazer e dor tão lasso A nada já sentir, longe de mim Como era antigamente: e também longe Dos homens do (...) natural Estranho! com saudade só me lembro Do meu grão tempo de infelicidade, Saudade não, e um orgulho (que é só O que dela me resta hoje) e não quero Àquele tempo regressar. Já nada quero! Caí e a queda assim me transformou!

Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite. Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?(...) Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, unia divindade fluida e ouvida.(...) Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada...


Viva duas vidas separadas, sem que de qualquer d’elas se transborde para a outra — uma, a própria, fechada o mais possível; outra, a social, ampla e sem receio. Mas que a primeira não tente invadir a segunda! Quem é dois tem que ser dois.

Certezas imperfeitas...

Tenho a certeza, mas a certeza é mentira. Ter certeza é não estar vendo. Depois de amanhã não há. O que há é isto: Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte, Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois. Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo. Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã? Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido. Bem sei que a trovoada não cai da minha vista, Mas se eu não estiver no mundo. O mundo será diferente — Haverá eu a menos — E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.


O seu destrambelhamento sexual dava-lhe não só uma acuidade estranha para analisar até chegar às bases sexuais dos actos, aparentemente deles remotas, dos indivíduos - o que era horrorosamente desidealizante -, mas dava-lhe também a tendência para orientar sempre para um ponto sexual a sua análise dos indivíduos. A sua sexualidade enchia todo o cérebro - cobria tudo com a sua intenção. Misturava-se estranhamente com a sua ânsia de verdade e de certeza e, n'este ponto, poucas eram as dúvidas que ele tinha sobre se esses elementos sexuais, que ele tendia a achar basilares em quase todas as acções, o seriam ou não.
Como se conhecia com ideais, com altos e puros e nobres ideais, e como ao mesmo tempo se conhecia torpe e porco e cheio de corrupções e horrores da carne, - tendo perdido o pudor de se idealizar, perdera o de idealizar os outros e lia ocultos desejos, monstruosas ânsias de perversão nas coisas que de aparência ele mais desejaria crer de almas inocentes e puras. As suas observações tomavam um ar de certeza. Olhava para uma mulher de aspecto honrado, absolutamente - visivelmente - honrada e exclamava dentro de si - e pensar que é tão sujo o que vai n'aquela alma! - como se o soubesse realmente e se espantasse, depois de o saber de ciência segura, que a aparência pura traísse tanto o ignóbil fundo


Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. Os teus seios não são dos que se pudesse pensar em beijar-se. O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade (És a mulher anterior à Queda) […] O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. As da terra, que para serem (...) têm de suportar o peso movediço de um homem — quem as pode amar, que não se lhe desfolhe o amor na antevisão do prazer que serve o sexo […]? Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula... Quem não se enoja de ter mãe por ter sido tão vulvar na sua origem, tão nojentamente parido? Que nojo de nós não punge a ideia da origem carnal da nossa alma — daquele inquieto (...) corpóreo de onde a nossa carne nasce e, por bela que seja, se desfeia de origem e se nos enoja de nata.

Levas a mão ao cabelo
Num gesto de quem não crê.
Mas eu não te disse nada.
Duvidas de mim? Porquê?


Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre! Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma acção, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me pensar mais em ti... Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.

Só o ter flores pela vista fora Nas áleas largas dos jardins exactos Basta para podermos Achar a vida leve. De todo o esforço seguremos quedas As mãos. brincando, pra que nos não tome Do pulso, e nos arraste. E vivamos assim. Buscando o mínimo de dor ou gozo, Bebendo a goles os instantes frescos, Translúcidos como água Em taças detalhadas, Da vida pálida levando apenas As rosas breves, os sorrisos vagos, E as rápidas caricias Dos instantes volúveis. Pouco tão pouco pesarei nos braços Com que, exilados das supernas luzes, Escolhermos do que fomos O melhor pra lembrar Quando, acabados pelas Parcas, formos, Vultos solenes de repente antigos, E cada vez mais sombras, Ao encontro fatal Do barco escuro no soturno rio, E os nove abraços do horror estígio, E o regaço insaciável Da pátria de Plutão.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim
?

Torturava-me ainda outra circunstância:o facto de ,precisamente, ninguém se parecer comigo, e de eu não ser parecido com ninguém:" Eu sou único, e eles são todos", pensava...e ficava pensativo.

Aliás, a amizade só me aconteceu uma única vez. A não ser isso, estive sempre sozinho. O que eu fazia,sobretudo em casa, era ler.Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no fundo de mim. E as únicas impressões exteriores, para mim vinham da leitura.A leitura, escusado será dizê-lo,ajudava-me muito - apaixonava-me, preenchia-me, torturava-me.
As minhas pequena paixões eram agudas,inflamadas, por causa de eu ser sempre doentiamente irritadiço. Havia uns repentes histéricos, com lágrimas e convulsões. Fora da leitura,não havia saída para mim - ou seja,não tinha nada à minha volta que pudesse admirar e que pudesse arrastar-me. E depois, aquela angústia que se acumulava...

Agora teria dificuldade em dizer que coisa eram os meus sonhos,e de que modo eu me podia satisfazer com eles,mas,na altura,eles satisfaziam-me.Aliás,mesmo hoje eles me satisfaziam,ora mais, ora menos... Vivia instantes de uma plenitude tão jubilosa,de uma felicidade tão profunda que nem sequer sentia,juro-vos, o mínimo sarcasmo...

O que vale mais: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime?O que vale mais: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime?

As Musas cantam a aparição do mundo, a génese dos deuses, o nascimento da humanidade. Este passado revelado é muito mais que o precursor do presente: é a fonte. A memória mítica não procura situar os acontecimentos num quadro temporal.., quer descobrir a realidade primordial da qual saiu o cosmos, para compreender a evolução da humanidade...

A amizade era para ela uma eleição em que se empenhava por completo: entregava-se-lhe absolutamente e como eu só o fiz no amor. Conheceu-me melhor do que ninguém; deixei-lhe ver o que dissimulava cuidadosamente a qualquer outra pessoa: por exemplo secretas cobardias. Agrada-me pensar que, pelo seu lado, ela me confiou quase tudo. A intimidade dos corpos, que nunca existiu entre nós, foi compensada pelo contacto de dois espíritos estreitamente identificados um com o outro.

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas.


No caso de Marguerite Yourcenar, não dar relevo à sua biografia é quase uma necessidade. Desde uma primeira leitura da obra, torna-se evidente a ausência da autora. Não encontramos nela a Marguerite Crctyencour que, nascida em 1903 na Bélgica, só falará desta região sob o aspecto dos Flandres do século XVI. Desde 1939, vive nos Estados Unidos, mas nenhum romance tem como pano de fundo esse pais. A França, onde passou parte da sua infância, está ausente de seus livros. A sua experiência no mundo da literatura, como escritora, passa desapercebida, assim como a sua vida sentimental e outras vivências, por exemplo, o período em que foi professora de Francês numa Universidade americana. E, sobretudo, nenhuma pista quanto ao facto de ser mulher, transparece de seus livros. Autora tão secreta, que nem o nome da família conservou, preferindo-lhe um anagrama... Como afirma Jean d' Ormesson na saudação feita por ocasião da posse de Marguerite Yourcenar na Academia Francesa, em 22 de janeiro de 1981, "...Marguerite Yourcenar continua sendo um mistério extremamente célebre, quase uma obscuridade luminosa. Sabe-se que a obra é bela, que o autor é excepcional. É tudo. Marguerite Yourcenar é um mito e um desafio que, durante os últimos anos deu muito trabalho a quem queria conhecê-la mais de perto em vista de sua eleição para a Academia"


Certezas desfeitas

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida...


Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí entre as esperanças e as certezas, com os poentes todos.

Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho.
Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer coisa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.


É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver. Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa (...) Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se furtou, em meio de construí-las, de pensar em quem construiu. Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável, nimba vagamente de segredo. Benditos os que não confiam a vida a ninguém.

Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Quanto mais medito na capacidade que temos de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sofrimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão(...) coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos...

Uma certeza desfeita. Mais uma. Só isso.


Il pleure dans mon coeur Comme il pleut sur la ville ; Quelle est cette langueur Qui pénètre mon coeur ?

Cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser.Até o meu pensamento tem chuva nele a escorrer.Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto. Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não, E a chuva cai levemente (porque Verlaine consente) Dentro do meu coração.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.



Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível.
O resto da minha alma anda disperso
Pelos gritos e a luz desta oca orgia
Em estilhaços de consciência


Só quem nunca pensou chegou alguma vez a uma conclusão. Pensar é hesitar. Os homens de acção nunca pensam.

Já terei tentado tudo,já terei vasculhado tudo, ouvindo com paciência, sem fazer barulho? Estou a falar a sério,como de costume, gostaria de saber se fiz tudo, antes de me dar por ausente e desistir... Tenho o dia todo, para me iludir, para me recompor,para me acalmar, para desistir, não tenho nada a temer, o meu bilhete é válido para toda a vida.... É por isso que não deve haver pressa de concluir, o risco de errar é grande demais..E procurar-me noutro sítio qualquer,num sítio onde a vida persiste,e eu aqui, donde toda a vida fugiu,excepto a minha,se é que vivo,não, seria perder tempo.

Só as palavras rompem o silêncio,tudo o resto se calou.Se eu me calasse,não deixaria de ouvir fosse o que fosse.Se eu me calasse, voltariam os outros ruídos,os ruídos que as palavras não me deixam ouvir,ou que deixaram realmente de se ouvir...Também choro, sem parar. É uma torrente ininterrupta de palavras e de lágrimas.Tudo sem reflectir.

Desistir,mas eu já desisti de tudo,não é coisa recente,eu não sou recente.Portanto, houve alguma vez alguma coisa.Vamos acreditar que sim, mas saber que não,nunca houve nada, a não ser a desistência.

Dormi,ele dormiu, mas não terá dormido,ou ainda está a dormir,não terá feito nada,nada a não ser continuar,a fazer o quê,a fazer o que faz,sem parar, ou seja,não sei, a desistir,terei continuado,a desistir,sem ter tido nada, sem estar aqui.

Quando penso, não, assim não, quando aparecem os que me conheceram, e mesmo os que ainda me conhecem, de vista bem entendido, ou pelo cheiro, quando penso nele á como, como se, o quê, não sei, já não sei, não devia ter começado.

Será mesmo ele, será possível,antes de retomar com ele um caminho que não é meu e me afasta a cada passo desse outro que também não o pode ser, ou de ficar sozinho no mesmo sítio,entre dois sonhos que se vão afastando,sem conhecer ninguém, sem ninguém me conhecer, ora aqui está afinal o que eu tinha para dizer, tudo o que defa ter de dizer esta noite.

Diz que foi a única voz na minha vida, se é que falando de mim se pode falar de vida, e ela pode , ainda pode, se não de vida, e aí ela cala-se, se ao menos isto, se ao menos aquilo... Não há ninguém só uma voz sem boca....
E haveria um dia,aqui, onde não há dias, que não é um lugar, depois de o infactível ser sair da impossível voz, e um começo de dia, e tudo seria silencioso e negro, como agora, como daqui a pouco, quando tudo tiver acabado, quando tudo tiver sido dito, diz ela, murmura ela.


No time To plan our fears These things they always Come from nowhere...

"Toda a verdade é simples"- Não será esta uma dupla mentira?

Eu tenciono averiguar de que idiossincrasia procede aquela equação socrática de razão=virtude=felicidade: a equação mais extravagante que existe, e que tem contra si,em especial, todos os instintos do heleno antigo.

Todas as paixões têm uma época em que são meramente nefastas,durante a qual,com o peso da estupidez,arrastam as suas vítimas para uma depressão - e uma época mais tardia muito posterior,na qual desposam o espírito,na qual se "espiritualizam"...A espiritualização sa sensualidade chama-se amor: ela é o grande triunfo sobre o cristianismo.

O indivíduo é, de cima a baixo,um fragmento do fatum, mais uma lei, mais uma necessidade para tudo o que vem e será.

Hoje não temos já a menor complacência para o conceito de "livre artbítrio": sabemos demasiado bem o que é - a mais desacreditada artimanha dos teólogos que existe, destinada a fazer "responsável" a humanidade no sentidos dos teólogos, quer dizer, a torná-la dependente deles...



Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, d'este mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando n'alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido. (...) Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. E aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...) Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.

Onde está a verdade? O amor existe? Onde está? Em que pensa? O que quer? O que não quer? Partir? Ficar? O que significa? Significa? Alguma vez significou? Partir, para onde? Para quê? Oscila de lá para cá, de cá para lá ...Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, d'este mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura...

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso...


A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que me importem os valores que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeitos lógicos para convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça para baixo? A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? — A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores? Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdade das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nos embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!


Cada vez que o meu propósito se ergueu, por influência de meus sonhos, acima do nível quotidiano da minha vida, e um momento me senti alto, como a criança num balouço, cada vez dessas tive que descer como ela ao jardim municipal, e conhecer a minha derrota sem bandeiras levadas para a guerra nem espada que houvesse força para desembainhar.(...) Enchem os interstícios da acção quotidiana como o pó os interstícios dos móveis quando não são limpos com cuidado.

Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável.


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E, ó vento vago Das solidões, Minha alma é um lago De indecisões. Ergue-a em ondas De iras ou de ais, Vento que rondas Os pinheirais!

Should I speak? Should I bother shaking hands? Am I weak If I leave it as it stands? I've submerged
And I've surfaced with the blame I guess I'm no good I guess I'm insane...Should I confess The actions of a hand In my mind I'll betray you once again Why should I climb? What is there to gain? This is no good This is insane...




Partir do gesto para chegar ao ser. A um ser só sendo sem palavras pelo meio, sem demasiadas palavras. Verbos de consequência,adjectivos físicos, substantivos definidos.(...)Hoje vou ver por dentro, vou esquecer o que sei e penso e vou só sentir.

Da última vez estavas igual, tinhas já essa cor de ir e vir dentro de ti. Lembro-me, tu sabes que me lembro. Agora eu sou maior e tu continuas como sempre. Ganho eu. Tens vantagens claras, claro que tens, nós estamos de passagem, agarrados ao que ficou e incertos no que será, tu não. Se eu fechar a escotilha ficas todo lá fora, sozinho contigo, sem deuses que te aturem, és demasiado grande para chegares a mim, não tens dedos que me agarrem nem olhos de ver ao perto. As tuas ondas poderiam ser rugas se eu quisesse, sabes que o posso fazer? És um bruto desajeitado que esmaga os brinquedos e faz birras a fingir ódio(...) Gosto de te ter por perto, assim como estás agora, ao alcance de te querer. Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses para inventar e acredito ainda em cores que não são tuas. Um dia, um dia é o tempo de tudo o que haveríamos de ter sido, e eu ainda tenho dias para mundos maiores do que tu. Se eu quisesse, tu eras um segundo pequeno de uma vida por fazer, sabes que o posso querer? Agora durmo, agora és noite e tens a cor de tudo o resto (o mar não dorme, pois não?). Não sonhas, mas és sonhado e não há nada que possas fazer. O tempo das ondas parece-nos curto porque as vidas pequenas que vivemos nos deixam ainda ver tantas. Para o vento as ondas são montanhas azuis. Homens que viajam são o vento de quem espera e de quem fica. Tempo que vai e volta e se esquece no passar. Os homens eternos chamam deuses aos ventos e riem sozinhos ao acordar...

A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.(...) Tive de repente uma sensação ampla e absurda — a de que eu era um mar, ou o traço de um mar, que a vaga proa de não sei que navio vinha erguidamente abrindo. Pareceu-me que me dividia e que através do meu dividir, me passavam sensações de outras coisas e que essas sensações por me dividirem no passar, não eram sentidas por mim.Acabou tudo como uma rua quando viramos a esquina. Tive uma dificuldade física em me crer existente.

The seed of all this indecision isn't me, oh no Cause I decided long ago But that's the way it seems to go When trying so hard to get to something real, it feels

Fluctuations are aching My soul,expectation is Taking its toll..

É entre a sensação e a consciência dela que se passam todas as grandes tragédias da minha vida. Nessa região indeterminada, sombria de florestas e sons de água toda, neutral até ao ruído das nossas guerras, decorre aquele meu ser cuja visão em vão procuro...Jazo a minha vida. (As minhas sensações são um epitáfio, por de mais extenso, sobre a minha vida morta.) Aconteço-me a morte e ocaso. O mais que posso esculpir é sepulcro meu a beleza interior. Os portões do meu afastamento abrangem para parques de infinito, mas ninguém passa por eles, nem no meu sonho — mas abertos sempre para o inútil e de ferro eternamente para o falso...

Será o que tiver de ser...

Verdade, mentira, certeza, incerteza… Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras. Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas Sobre o mais alto dos joelhos cruzados. Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são? O cego pára na estrada, Desliguei as mãos de cima do joelho. Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas? Qualquer coisa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as minhas mãos. Qual é a ciência que tem conhecimento para isto? O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos. Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual. Ser real é isto.