Que plenitude tão apócrifa: vaguear, inutilmente, pela noite, a tentar escrever qualquer coisa de jeito, à espera de d.sebastião...
Nem sei por que me queixo... Adoro as noites mal dormidas, dormidas de modo intermitente, sem sequer ir à cama, num ritual que me dá uma certa sensação de liberdade: sofá, computador, sofá , computador: penso,escrevo; dormito, escrevo; sonho, escrevo num ciclo de uma ociosidade indiferente a tempo e espaço, absolutamente inefável...
Muitas outras virtudes certamente poderia alguém louvar em Sócrates, e admiráveis; todavia, das demais atividades, talvez também a respeito de alguns outros se pudesse dizer outro tanto; o facto porém de a nenhum homem assemelhar-se ele, antigo ou moderno, eis o que é digno de toda admiração. Com efeito, qual foi Aquiles, tal poder-se-ia imaginar Brasidas e outros, e inversamente, qual foi Péricles, tal Nestor e Antenor – sem falar de outros – e todos os demais por esses exemplos se poderia comparar; o que porém é este homem aqui, o que há de desconcertante na sua pessoa e nas suas palavras, nem de perto se poderia encontrar um semelhante, quer se procure entre os modernos, quer entre os antigos, a não ser que se lhe faça a comparação com os que eu estou dizendo, não com nenhum homem, mas com os silenos e os sátiros, e não só de sua pessoa como de suas palavras.
No início, a raça dos homens não era como hoje. Era diferente. Não havia dois sexos, mas três: homem, mulher e a união dos dois. E esses seres tinham um nome que expressava bem essa sua natureza e hoje perdeu o seu significado: Andrógino. Além disso, essa criatura primordial era redonda: as suas costas e as partes laterais formavam um círculo e ela possuía quatro mãos, quatro pés e uma cabeça com duas faces exatamente iguais, cada uma olhando numa direção, pousada num pescoço redondo. A criatura podia andar ereta, como os seres humanos fazem, para frente e para trás. Mas podia também rolar sobre os seus quatro braços e quatro pernas, veloz como um raio de luz. Eram redondos porque redondos eram seus pais: o homem era filho do Sol. A mulher, da Terra. E o par, um filhinho da Lua.
A sua força era extraordinária e o seu poder, imenso. E isso tornou-os ambiciosos. E quiseram desafiar os deuses. Foram eles que ousaram escalar o Olimpo, a montanha onde vivem os imortais. O que deviam fazer os deuses reunidos no conselho celeste? Aniquilar as criaturas? Mas como ficar sem os sacrifícios, as homenagens, a adoração? Por outro lado, tal insolência era perfeitamente intolerável. Então...O Grande Zeus rugiu: Deixem que vivam. Tenho um plano para os deixar mais humildes e diminuir o seu orgulho. Vou cortá-los ao meio e fazê-los andar sobre duas pernas. Isso com certeza irá diminuir a sua força, além de ter a vantagem de aumentar o seu número, o que é bom para nós. E mal tinha falado, começou a partir as criaturas em dois, como uma maçã. E, à medida em que os cortava, Apolo ia virando suas cabeças, para que pudessem contemplar eternamente sua parte amputada. Uma lição de humildade. Apolo também curou as suas feridas, deu forma ao seu tronco e moldou a sua barriga, juntando a pele que sobrava no centro, para que eles se lembrassem do que haviam sido um dia. E assim as criaturas começaram a morrer. Morriam de fome e de desespero. Abraçavam-se e deixavam-se ficar assim. E quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva, procurando, procurando... Zeus ficou com pena das criaturas. E teve outra ideia. Virou as partes reprodutoras dos seres para a sua nova frente. Antes, eles copulavam com a terra. De agora em diante, se reproduziriam um homem numa mulher. Num abraço. Assim a raça não morreria e eles descansariam. Poderiam até mesmo continuar a viver. Com o tempo eles esqueceriam o ocorrido e apenas perceberiam o seu desejo. Um desejo jamais inteiramente saciado no ato de amar, porque, mesmo derretendo-se no outro pelo espaço de um instante, a alma saberia, ainda que não conseguisse explicar, que seu anseio jamais seria completamente satisfeito. E a saudade da união perfeita renasceria, ainda antes de os últimos gemidos do amor se terem extinguido.
E esta é a nossa história. De como um dia fomos um todo, inteiros e plenos. Tão poderosos que rivalizávamos com os deuses. É a história também de como um dia, partidos ao meio, nos tornámos em dois e aprendemos a sentir saudades. E é a razão dessa busca sem fim do abraço que nos fará sentir de novo e uma vez mais, ainda que só por alguns momentos (quem se importa?), a emoção da plenitude que um dia, há muito tempo, perdemos.
Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas verdadeiramente belas são solitárias como a dor humana...Sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo... Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Plenitude- s.f. Condição daquilo que está completo, inteiro; que se apresenta na sua totalidade ou integralmente.
Sinónimos: completude, inteireza e totalidade.
(Não importa o que dizem dicionários e prontuários: a plenitude já foi conseguir dar um aula com todos os alunos calados... Há desígnios absolutamente insondáveis ... Será triste chegar a esta idade e nunca ter conseguido nada mais "completo,inteiro e total" do que dominar uma técnica pedagógica, mas reconheço-me, no entanto, este pequeno, mas significativo orgulho: considero-me uma stora plena... Talvez por isso, conviva com crescente dificuldade com a mediania cinzenta que me rodeia: gente sem saber e sem ser, gente sem ética e sem estética, gente que segue, mecânica e acefalamente, o manual, atingindo um verdadeiro orgasmo pedagógico porque "cumpri o dever, cumpri o programa, cumpri os normativos!!!". Que triste normalidade...cumprir, seguir, sem criatividade,sem produção divergente...
Pensei nos motivos da minha paranormalidade, o que me tornará tão exigente consigo e com os outros, o que fará de mim um ser intrinsecamente intolerante, debaixo de uma capa de amabilidade compreensiva e generosa. A resposta só pode radicar num ideal de plenitude, de perfeição que, desde sempre, me tem perseguido... Uma plenitude e uma perfeição que, paradoxalmente, podem ser vícios, defeitos, desde que integralmente assumidos.)
Um dia quebrarei todas as pontes Que ligam o meu ser, vivo e total, À agitação do mundo do irreal, E calma subirei até às fontes Irei até às fontes onde mora A plenitude, o límpido esplendor Que me foi prometido em cada hora, E na face incompleta do amor Irei beber a luz e o amanhecer, Irei beber a voz dessa promessa Que às vezes como um vôo me atravessa, E nela cumprirei todo o meu ser
- Ó sonho desprendido, ó luar errado, Nunca em meus versos poderei cantar, Como ansiara, até ao espasmo e ao oiro, Toda essa Beleza inatingível, Essa Beleza pura!
Há momentos em que sinto uma intensa necessidade de forever... de superar este eterno efémero que tem sido a minha existência: quero lá saber da plenitude...Bastam algumas palavras...
Words! Mere words! How terrible they were! How clear, and vivid, and cruel! One could not escape from them. And yet what a subtle magic there was in them! They seemed to be able to give a plastic form to formless things, and to have a music of their own as sweet as that of viol or of lute. Mere words! Was there anything so real as words?
Words are but symbols for the relations of things to one another and to us; nowhere do they touch upon the absolute truth.
Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto; Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído No papel abandonado) Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte.
Fazem-me falta as palavras, mas vou ter de me habituar...Tenho sempre a possibilidade de recorrer a empréstimos. Restam-me as palavras de outrora... agora.
Drama perfeito num único ato...
Pessoas do drama - Dois sobreviventes, num mundo em que as palavras são proibidas:
S1 - Ele
S2 - Ela
(Ele e Ela encontram-se ...Não se fica a saber nem onde nem quando...)
S1- Onde estamos?
S2- Onde combinámos.
S1- Quando?
S2 -Isso importa?
S1- Talvez não...
S2- O importante é que estamos, agora, aqui...
S1- Sim, isso é que importa: nós, agora, aqui...
S2 - Eu gosto de estar aqui, mesmo sem saber onde estou...
S1 - Eu também...
S2 - Estamos onde queremos, porque queremos...
S1 - Será?
S2 - É.
S1 - Às vezes, tenho medo...
S2 - Eu sei, sinto o teu medo e, às vezes, o teu medo torna-se o meu medo.
S1 - Se tu ficas com o meu medo, ele deixa de ser meu, não é?
S2 - O medo não tem dono , o medo é o medo : o medo, o verdadeiro medo, não se explica, não tem causas.
S1- Haverá quem tenha poder sobre o medo?
S2 - Ninguém...mesmo antes de as palavras serem proibidas.
S1 - Porquê?
S2 - Talvez porque o medo, tal como a dor, não aceita ordens de ninguém...
S1 - Talvez...Mas não viemos aqui para falar de medo...
S2 - Sim, Eu sei...
S1 - Viemos falar de quê?
S2 - Viemos falar sobre palavras...
S1 - Já me recordo: palavras por escrever... É assim?
S2 - Tanto faz...
S1 - Gostas das palavras que eu escrevo?
S2 - Gosto.Sabes que gosto porque elas também são minhas.
S1 - Eu não as escrevo para ti...
S2 - Mas eu leio-as como se o fossem.
S1 - Sabes o que pensei?
S2 - Diz.
S1 - Se as palavras não fossem proibidas, nós não existiríamos.
S2 - Explica.
S1 - Nós somos só feitos da procura de palavras...
S2 - Nós, quem?
S1 - Eu e tu.
S2 - Mas eu e tu somos eu e tu, não somos nós.
S1 - Todos os eus e tus são nós, não é?
S2 - Não sei se é, mas pode passar a ser...Está a ficar dia,dá-me as tuas palavras.
S1 - Toma.
(Ele sorri e entrega-lhe um monte de folhas que ela percorre rapidamente com os olhos.)
S2 - Falta uma...
S1 - Como sabes?
S2 - Sei.
S1 - Como sabes se eu ainda não a escrevi?
S2 - Porque eu já a li...
S1- ( Esboça um sorriso cúmplice...) E tu, que palavras me trazes?
S2 - Toma.
( Ela entrega-lhe um livro.Ele agradece e sorri sem palavras.Abre o livro.)
S1 - Só me dás palavras já escritas...( Com um tom triste,desiludido...)
S2 - Mas nunca foram lidas.
31 - A última página está em branco.
S2- Este livro é uma despedida. Quando acabares de o ler, já não precisas mais de mim.
( Ele olhou-a,aparentemente surpreendido, mas não proferiu uma única palavra.)
Este livro tem todas as palavras,menos uma. Tens um lápis?
S1 - Tenho, mas...
S2 - Dá cá.
(Ela escreve, na página em branco: Adeus...)
S1 - Posso apagar?
( Ela encolhe os ombros, sorri e começa a dançar...)
Ouve-se , ao longe, uma melodia encantadora...
( Ele aproxima-se, sorri e, com um gesto muito lento, convida-a a dançar.)
S2 - Mas eu não sei...
S1 - Eu também não...
S2 - E...
S1 - Dançamos ao ritmo das palavras que ouvimos dentro de nós...
(S1 e S2 afastam-se a dançar muito lentamente...)
Cai o pano...
Um retrato perfeito:
Continuo igual ao que sempre fui, oscilando entre a ira e o riso que me produzem as coisas, sem meio termo, são os meus dois modos complementares de de me relacionar com o mundo e de andar por aí. Ou me enfureço ou me rio, ou ambas as coisas alternadamente, e ambas dentro de mim. Não mudo...A doença não me enfurece nem me faz rir. Se ela avançar, se se confirmar...observar-me-ei. Estou assustado.
Um homem perfeito...
Segundo contava a ama, aquele Terry Armstrong de que Clare pouco mais soube do que o nome, era, não só entusiasta e voluntarioso, como um bom amante.Era um desses homens que escrevem cartas e versos com suficiente seriedade e com suficiente ironia, que desencadeia energias e as contagiam com a sua vitalidade, provocando o riso e ilusões a quem se sente amado por eles. Aparecia e desaparecia e nunca se sabia exatamente quando iria reaparecer... Talvez TA nem fosse o seu verdadeiro nome ... ele era Mr. Terry Armstrong e eu, miss Clare, a menina da casa, sendo irrelevante que fôssemos mais ou se éramos algo mais. A relação clandestina de minha mãe com TA durou...ano e meio...até que a ama me contou que a minha mãe ficou grávida, acreditando que o filho era de TA.
Mi madre dijo: "No sé lo que quiero, ojalá lo supiera,estoy cansada de no saberlo.
E respondió mi padre:" En cambio yo estoy cansado de saberlo y no poder conseguirlo"
Este lacónico diálogo é uma síntese perfeita da minha existência: era la madre; soy el padre ...
MARIA: Amo como o amor ama. Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. Que queres que te diga mais que te amo, Se o que quero dizer-te é que te amo? Não procures no meu coração...Quando te falo, dói-me que respondas Ao que te digo e não ao meu amor. Quando há amor a gente não conversa: Ama-se, e fala-se para se sentir. Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas, Sem que mo digas, se eu sentir que me amas. Mas tu dizes palavras com sentido, E esqueces-te de mim; mesmo que fales Só de mim, não te lembras que eu te amo.(...)Mostra-te indiferente, ou não me queiras, Mas tu és como nunca ninguém foi, Pois procuras o amor para não amar, E, se me buscas, é como se eu só fosse O Alguém pra te falar de quem tu amas. Diz-me porque é que o amor te faz ser triste? Canso-te? Posso eu cansar-te se amas? Ninguém no mundo amou como tu amas. Sinto que me amas, mas que a nada amas, E não sei compreender isto que sinto. Dize-me qualquer palavra mais sentida Que essas palavras que, como se as perderas, buscas E encontras cinzas. Quando te vi, amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci pra ti antes de haver o mundo. Não há coisa feliz ou hora alegre Que eu tenha tido pela vida fora, Que não o fosse porque te previa, Porque dormias nela, tu futuro, E com essas alegrias e esse prazer Eu viria depois a amar-te.(...) Em palavras estranhas que mo fales, Eu compreenderei só porque te amo. Se o teu segredo é triste, eu saberei Chorar contigo até que o esqueças todo. Se o não podes dizer, dize que me amas, E eu sentirei sem querer o teu segredo. Quando eu era pequena, sinto que eu Amava-te já hoje, mas de longe, Como as coisas se podem ver de longe, E ser-se feliz só por se pensar Em chegar onde ainda se não chega. Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!
FAUSTO: Compreendo-te tanto que não sinto. Oh coração exterior ao meu!Fatalidade filha do destino E das leis que há no fundo deste mundo! Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto De o sentir...?
MARIA: Para que queres compreender Se dizes querer sentir?
Adoramos a perfeição, porque a não podemos ter; repugná-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito. O ódio surdo ao paraíso — o desejo como o da pobre infeliz de [que] houvesse campo no céu. Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as maravilhas do absoluto que podem encantar uma alma que sente: são os lares e as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através de árvores e as largas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as nunca tenhamos. Se não houver terra no céu mais vale não haver céu. Seja então tudo o nada e acabe o romance que não tinha enredo.
Para poder obter a perfeição fora precisa uma frieza de fora do homem e não haveria então coração de homem com que amar a própria perfeição. Pasmamos, adorando, da tensão para o perfeito dos grandes artistas. Amamos a sua aproximação do perfeito, porém o amamos porque é só aproximação.
Falamos muito, e com hipocrisia, no sentimento que temos da beleza antiga, e das civilizações mães da nossa, e que foram pagãs. Mas nós não temos a alma grega nem a alma romana. Amamo-las de pertil, incorporeamente. Nada da alma antiga está em nós ou connosco. A nossa ânsia de beleza clássica é toda cristã na sua fúria de perfeição, no seu desassossego... Amamos a beleza demasiadamente: os gregos não a amaram assim. Para o seu sentimento passava a calma da lucidez com que viam. Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso pouco sentiam. Daí a sua perfeita execução da obra de arte. Para executar a obra de arte com perfeita perfeição é preciso não sentir excessivamente a beleza que se vai esculpir. A arte grega era toda de equilíbrio e (...). E era a arte de quem via sabendo ver...Não há arte senão a arte grega. Não há beleza senão como a Grécia a criou. Reconhecemos isto — muitos de nós — obscuramente. Na realidade, a nossa alma anda tão longe disso que todos os dias traímos a uma linguagem mãe, a (...) Grécia Antiga. O nosso romanismo secou-nos, e o nosso cristianismo apodreceu-nos. Ficámos secos e pôr isso moles.
Sofremos de cada vez que duvidamos de alguém ou de qualquer coisa, mas o nosso sofrimento transforma-se em alegria logo que aprendemos, nessa pessoa ou nessa coisa, a beleza imortal que nos fazia amá-la...
Não consigo esta perfeição: o meu sofrimento só evolui para uma mágoa enorme e para uma descrença destrutiva...
Não irei mais longe, Gherardo. Não te acompanho mais porque o trabalho urge e eu sou um homem velho. Sou um homem velho, Gherardo. Às vezes, quando te entregas mais à ternura, chegas a chamar-me teu pai. Mas eu não tenho filhos. Nunca encontrei mulher tão bela como as minhas figuras de pedra, mulher que ficasse horas imóvel sem falar, como coisa necessária que não precisa de agir para ser, e nos faz esquecer que o tempo passa porque está sempre presente. Mulher que se deixe olhar sem sorrir nem corar porque compreendeu que a beleza é qualquer coisa de grave. As mulheres de pedra são mais castas que as outras, e mais fiéis, porém, são estéreis. Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer, a morte, ou a semente de uma criança, e por isso elas são menos frágeis. Por vezes quebram-se e em cada pedaço de mármore fica contida a sua beleza inteira, como Deus que está em todas as coisas, mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração. Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana. Gherardo, não tenho filhos. Eu bem sei que a maioria dos homens não tem propriamente um filho: têm Tito, ou Caio, ou Pedro, e não é a mesma alegria. Se eu tivesse um filho, ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara antes de existir. Assim também as estátuas que faço são diferentes daquelas que comecei por sonhar. Mas Deus permite-se ser conscientemente criador. Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-me porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore como se a verdade se encontrasse no coração das pedras, e espalhei as cores para pintar muralhas como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio. Tudo se cala, sabes, até a nossa alma —ou então somos nós que não ouvimos.
Assim, tu partes.Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios. Estás sentado sobre essa pedra e julgas-te ainda aí,mas o teu ser, voltado para o futuro, não adere mais ao que foi a tua vida,e a tua ausência já começou. É certo que compreendo que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe. Os homens que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando.
Estás sentado, Gherardo, mas os teus pés estão assentes no solo com a inquietação de quem experimenta o caminho. Estás vestido com trajes do nosso século, que hão-de parecer feios ou simplesmente estranhos quando o século tiver passado pois as vestes não são mais que a caricatura do corpo.Vejo-te nu. Tenho o dom de ver através das roupas o irradiar do corpo, que é como os santos vêem as almas, segundo penso. É um suplício quando são feios, mas é um outro suplício quando são belos, dessa beleza frágil que a vida e o tempo atacam por todos os lados e acabarão por tomar-te, mas neste momento és dono dela e tua será na abóbada da igreja onde pintei a tua imagem. Mesmo que um dia o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio o reflexo imóvel de ti. E desse modo imobilizarei a tua alma também.
Tu já não me amas. Se consentes em ouvir-me durante uma hora é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar. Ligaste-me e agora desligas-me. Não te censuro, Gherardo. O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver.
Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Tudo o que vejo parece-me um reflexo, tudo o que ouço, um eco distante, e a minha alma procura a fonte maravilhosa, pois tem sede de água pura.Passam os séculos e gasta-se o mundo, mas a minha alma permanece jovem; vigia entre as estrelas, na noite dos tempos. Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste por ventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues; olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo...É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.
Parece-me que se a morte me viesse surpreender antes de eu ter podido mergulhar por completo no rio da vida, havia de dizer-lhe: vai-te embora, ainda não soou a hora...O repouso do teu grande céu azul seria para mim pesado, se me restasse ainda alguma força por esgotar, e a tua felicidade eterna teria um sabor de saudade, se tivesse ficado na terra uma flor de que eu não conhecesse o perfume...
Eu, Miguel Ângelo, entalhador de pedra, desenhei nesta abóbada a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados parecem esconder o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não querem que nós conheçamos.
Amei em primeiro lugar os meus sonhos porque não conhecia outra coisa. Depois amei a minha família …e os amigos que vinham a mim carregados de tanta beleza que eu me sentia ao mesmo tempo humilhado e feliz. Por fim amei uma mulher…Então pus-me de novo a amar os meus sonhos porque não me restava mais nada. Mas os sonhos também podem trair e agora eu estou só.
Amamos porque não somos capazes de suportar estar sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. ... Amei uma só mulher, que não desejei, e quando penso nisso ainda não sei se era por ela não ser suficientemente bela ou por sê-lo de mais. Mas as pessoas não compreendem que a beleza possa ser um obstáculo que aplaca o desejo antes de ele nascer…
Querer imobilizar a vida é a danação de escultor... Beijei, antes que a pusessem no caixão, a mão da única mulher que para mim dava sentido à vida toda, mas não beijei os seus lábios, e agora tenho pena, como se eles tivessem podido ensinar-me qualquer coisa. Também não beijei o jovem de Florença, nem as suas mãos, nem o seu rosto claro. Mas esse não o lamento, era demasiado belo. Era perfeito como aqueles que nada pode atingir, pois os mortos são todos impassíveis… Cecchino dei Bracchi, meu amigo, era simplesmente belo. A sua beleza, que se parcelara em vida em tantos gestos e pensamentos, feitos expressão ou movimento, voltava a ser intacta, absoluta, eterna: parecia que ele tinha composto o corpo antes de o deixar. Vi sorrisos dar cor a lábios exangues, filtrar sob pálpebras cerradas e iluminar tantos rostos. Os mortos repousam satisfeitos numa certeza que nada pode destruir porque é ela que se anula à medida que se cumpre. E porque eles tinham passado além da ciência, eu supus que eles sabiam.
Mas talvez os mortos não saibam que sabem.
Acordo. Que disseram os outros? Aurora que, cada manhã, reconstróis o mundo; integral nos braços nus que conténs o universo; juventude, aurora do homem. Que importa o que outros disseram, o que pensaram, o que acreditaram. Sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito. Existo como um fruto, como um copo de vinho, como uma árvore. Quando vem o Inverno, as pessoas afastam-se da árvore que não dá sombra; comido o fruto, deitam fora o caroço; vazio o copo, vão buscar outro. Eu aceito. Verão, água lustral da manhã sobre membros ágeis; ó alegria, orvalho do coração…
Acordo. Tenho diante de mim, atrás de mim, a noite eterna. Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir… Só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais.
A beleza é uma forma de génio... diria mesmo que é mais sublime que o génio por não precisar de qualquer explicação. É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol, ou a primavera, ou o reflexo nas escuras águas dessa concha de prata a que chamamos lua. É inquestionável...
o senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-á com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas.
Que tristeza ! Eu envelhecerei, ficarei horrível.... Mas esse quadro sempre se manterá jovem. Nunca será mais velho do que esse dia de Junho … Se fosse o contrário ! Se fosse eu que me mantivesse jovem e o retrato ficasse velho! Por isso, — por isso — Eu daria tudo ! Sim, não há nada no mundo todo que eu não daria por isso.
Ao ver escoar-se a vida humanamente Em suas águas certas, eu hesito, E detenho-me às vezes na torrente Das coisas geniais em que medito. Afronta-me um desejo de fugir Ao mistério que é meu e me seduz. Mas logo me triunfo. A sua luz Não há muitos que a saibam reflectir. A minha alma nostálgica de além, Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto, Aos meus olhos ungidos sobe um pranto Que tenho a força de sumir também. Porque eu reajo. A vida, a natureza, Que são para o artista? Coisa alguma. O que devemos é saltar na bruma,Correr no azul à busca da beleza. É subir, é subir além dos céus Que as nossas almas só acumularam, E prostrados rezar, em sonho, ao Deus Que as nossas mãos de auréola lá douraram. É partir sem temor contra a montanha Cingidos de quimera e de irreal; Brandir a espada fulva e medieval, A cada hora acastelando em Espanha. É suscitar cores endoidecidas, Ser garra imperial enclavinhada, E numa extrema-unção d'alma ampliada, Viajar outros sentidos, outras vidas. Ser coluna de fumo, astro perdido, Forçar os turbilhões aladamente, Ser ramo de palmeira, água nascente E arco de ouro e chama distendido... Asa longínqua a sacudir loucura, Nuvem precoce de subtil vapor, Ânsia revolta de mistério e olor, Sombra, vertigem, ascensão - Altura! E eu dou-me todo neste fim de tarde À espira aérea que me eleva aos cumes. Doido de esfinges o horizonte arde, Mas fico ileso entre clarões e gumes!... Miragem roxa de nimbado encanto - Sinto os meus olhos a volver-se em espaço! Alastro, venço, chego e ultrapasso; Sou labirinto, sou licorne e acanto. Sei a distância, compreendo o Ar; Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz; Sou taça de cristal lançada ao mar, Diadema e timbre, elmo real e cruz... O bando das quimeras longe assoma...
Ao triunfo maior, avante pois! O meu destino é outro - é alto e é raro. Unicamente custa muito caro: A tristeza de nunca sermos dois...
Vou dormir, dormir, dormir, Vou dormir sem despertar, Mas não dormir sem sentir Que estou dormindo a sonhar. Não insciência e só treva Mas também estrelas a abrir Olhos cujo olhar me enleva, Que estou sonhando a dormir. Constelada inexistência Em que subsiste de meu Só uma abstracta insciência Una com estrelas e céu.
As palavras adquirem, em ricardo reis, uma solenidade hermética que torna os seus versos tão sagrados que receio maculá-los pelo facto de os entoar ,em voz alta. Só gosto de os sentir, em silêncio, e deixar-me possuir por essa beleza. Entrego-me à magia encantatória das palavras como nunca me entreguei a ninguém...
Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais, entre eles, prestar uma certa atenção à maneira como toda obra se constrói, principalmente os seus períodos; estar sempre consciente de que toda a criação literária de Kafka foi dolorida, feita com o intuito não de parecer bonita, mas de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositadas, precisas.
São raros os que sentem fascínio pela estrutura interna de um texto: esquematizá-lo, dividi-lo em partes ou momentos, analisar o ritmo discursivo e surpreender os marcadores dessa progressão são tarefas tão deleitosas como captar significantes que, de modo harmonioso, se combinam com significados. Para a generalidade dos leitores , essa é a parte fastidiosa, o que importa é a intriga,o enredo, permanecendo indiferentes à progressão temática ou remática..
Mas, não é verdade:a coesão interna encerra uma simbologia; a dimensão dos parágrafos comunica estados de alma. A capacidade de modelar um texto, como se se estivesse a esculpir uma estátua, revela a organização da mente e traduz uma capacidade artística superior. Um idiota minimamente informado pode escrever (Os exemplos são múltiplos); um idiota sensível até pode conseguir ajeitar-se a alinhavar palavras com sentido (Tantos,tanto...) , mas nunca será capaz de construir um texto coeso, nunca... Por isso proliferam, como ervas daninhas, escrevinhadores e poetas, rareando os verdadeiros escritores...
Definitivamente, a prosa é superior à poesia: a composição poética, regra geral, tem como traço definidor uma brevidade que não exige um arquiteto da palavra...A poesia permite uma emoção que alegra ou entristece, mas não propicia - a não ser em casos excecionais como o de fernando pessoa - êxtase intelectual, perante a grandiosa momumentalidade do que se leu. A mensagem é uma obra grandiosa, verdadeiramente épica, apesar da brevidade sintagmática...
Café nº 5 ,café nº 8, café nº 10 - Acordo cedo, durmo pouco, mas o suficiente. Quando, depois de tratar da gata, preparo , como é hábito, café, dou por mim a contemplar , com um prazer inesperado, a minha obra prima: uma casa perfeitamente organizada, tudo escrupulosamente limpo, no local certo. Começo, então, embevecida, a percorrer as estantes: os livros , aparentemente desordenados,estão perfilados de acordo com uma lógica inquestionável, nacionalidade do autor e, porque a estética também é essencial, arrumados por tamanhos. Dou por mim, quase de fita métrica, a recolocar os exemplares a que "uma empregada descuidada" alterou a simetria... Cada vez gosto menos de sair porque lá fora tudo é desorganizado e dramaticamente imperfeito. Em casa, tenho tudo o que me causa verdadeiro prazer. Em casa sou eu, não preciso de fingir...Em casa, gosto-me e tudo é perfeito.
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
Mostrar mensagens com a etiqueta bolaño. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta bolaño. Mostrar todas as mensagens
sábado, 13 de maio de 2017
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Casos...Deambulações e divagações...
Casos difíceis...
Mas quando via que nem isso produzia o efeito desejado, não era raro assumir uma solene pose teatral e declarar-se" anarquista teórico", que os sociais democratas salvariam a qualquer momento se ele se decidisse a aceitar favores desses malvados judeus exploradores do povo trabalhador ignorante. E com isso mostrava que também ele tinha uma "disciplina científica", um terreno em que a arrogância erudita dos seus juízes não podia acompanhã-lo. Em geral, isso valia-lhe, por parte dos juízes, a classificação de " inteligência notável", uma atenção respeitosa às suas palavras durante a audiência e sentenças mais pesadas; mas, lá no fundo, a sua vaidade lisonjeada via esses julgamentos como momentos altos da sua vida. Por isso não odiava mais ninguém do que os psiquiatras, que achavam que resolviam toda a complexidade da sua difícil personalidade com uns termos estrangeiros, como se aquilo fosse para eles matéria quotidiana... Moosbrugger não deixava passar em claro nenhuma destas oportunidades de mostrar na sala de audiências a sua superioridade em relação aos psiquiatras, desmacarando-os comoidiotas e charlatães emproados que tinham de o mandar para o manicómio quando ele fazia uma simulação, em vez de o mandarem para a prisão que era o seu lugar.
El adulterio lleva mucho trabajo ...
Para o conseguir só tinha de praticar com ela o exercício intelectual que propicia o adultério: ajudá-la a inventar histórias sem falhas para Edward Bayes e levá-la a preocupar-se em não incorrer em contradições , ao relatá-las , embora ela achasse tal exercício desnecessário e fastidioso( a sua expressão ensombrada sempre a dizer adeus por causa da minha insistência.) Ela era negligente e ligeira e risonha e esquecida, e se eu fosse Edward Bayes - pensava -o eu - não me precisaria de muita urdidura nem esforço para averiguar cada um dos seus pensamentos e cada um dos passos que ela dava.(...) Clare Bayes simplesmente não tinha escrúpulos, mas quem a conhecesse não podia exigir-lhos, pois em boa parte a sua graciosidade residia precisamente na sua falta de consideração pelos outros como por si mesma. Clare Bayes fazia-me rir com frequência , que é o que mais aprecio, mas sei que nunca tive por ela - nem tão pouco ela por mim - uma debiidade suficientemente prolongada ou sólida para estar em qualquer forma de perigo( tão pouco estive em risco de suplantar Edward Bayes).
Casos atmosféricos...
29.7.39
As eleições gerais em França vão ser adiadas por decreto durante dois anos...
29.7.46
Choveu um pouco,mas chuva mais miúda...Colhi algumas batatas. Colheita muito má,apesar de os caules serem bons.Diria que havia uma média de 5 ou 6 batatas por planta.Razão dada,a terra não foi estrumada.
29.7.47
Dia bonito e com sol,com algum vento de oeste.Mar calmo.Fiz uma caixa para as lagostas...Receio que as sementes de relva do caminho tenham sido arrastadas pela chuva,mas é difícil ter a certeza.3 ovos(216)
31.7.39
Na maior parte do dia esteve tempo nublado,com chuvadas fortes e trovoada cerca do meio-dia. Mondei as cebolas. Repiquei 35 cravos...11 ovos ( três frangas? É evidente que pelo menos uma franga já está a pôr).
31.7.46
Dia lindo,bom tempo e bastante calor...Pintei o barco de verde e branco. Lancei o lagosteiro,já que não tenho isco para o outro. Tirei 6 litros de gasolina. ( Ao todo 44-8 litros.)
31.7.48
Estou a reabrir este diário ao fim de sete meses de ausência. O tempo está quente e seco...A aveia ainda vai pouco alta...O feno já foi quase todo cortado...As rosas,as papoilas,os cravos-de-poeta e os malmequeres...os tremoceiros...o ibério...as clárquias.Os arbustos...As árvores...Os morangos...A primeira leva de ervilhas...As alfaces...os nabos,o feijão rasteiro...cebolas.Temos duas ninhadas de pintos a chegar...O porco que nasceu...Ambas as vacas...A erva está bastante boa,e os cardos...Durante algum tempo ainda,não vou poder fazer nada no quintal...A pesca tem sido boa...Os candeeiros estão meio avariados...Encomendar candeeiros Tilly e vaporizadores:
« martelo
«veda-juntas( para as torneiras)
« válvula para o lavatório
« chaminé para os candeeiros.
4.8.39
Choveu a maior parte do dia,com intervalos de sol,e tempo ventoso...Hoje de manhã vi outra vez a galinha perdida...13 ovos( 3 pequenos).
Amanhã parte para a missão militar franco-britânica num paquete de baixa velocidade,que levará uma semana a chegar a Leninegrado...Dizem que a Alemanha está a pensar transferir a Eslováquia da Polónia,de forma a separar a últimae Radnor da Polónia...
O Partido Trabalhista ganhou em Brecon e Radnor por uma maioria de 2500 votos...
A imprensa Albatrross , que está a tratar da publicação do meu último livro, exige a supressão de certas referências hostis a Hitler. Dizem que são obrigados a fazer isso, visto os seus livros circularem largamente na Alemanha.
4.8.46
Grande tempestade de manhã,a clarear à tarde, mas com vento ainda forte. Abri uma avelã. Lá dentro só havia medula. Pelos vistos vai haver uma grande colheita de avelãs.
4.8.48
A maior parte do dia sem vento nenhum, com neblina,razoavelmente quente...Algumas das ervilhas-de-cheiro estão a florir,mas não são de boa qualidade. Esqueci-me de dizer que ontem vi 3 águias a voar por cima do campo em frente ( acho que eram 3,embora só tenha visto 2 de cada vez)...Emitem uma espécie de grito,que eu pensava ser exclusivo dos abutres.
Leio, com prazer, estas pouco mais do que listagens, talvez por sentir a alma e a beleza de quem as escreveu...Não sei, mas há uma cadência suave e pacificadora nesta quase plenitude existencial, similar à do guardador de rebanhos...
Só um grande homem pode realizar-se com coisas tão pequenas...(Ao reler , fiquei receosa sobre a banalidade da minha afirmação, mas também não almejo fazer concorrência ao wilde...)
Casos recorrentes...
Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto. Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não. E a chuva cai levemente(Porque Verlaine consente)Dentro do meu coração.
Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra. Chove...A minha alma é húmida de ouvi-lo...
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas (...) alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.Como chove!
As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos, um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente a chuva...
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego.
Chove muito, chove excessivamente... Chove e de vez em quando faz um vento frio... Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu(...)
Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.
cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser. Até o meu pensamento Tem chuva nele a escorrer.
Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon coeur d'une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l'heure, Je me souviens des jours anciens tt je pleure Et je m'en vais au vent mauvais qui m'emporte Deçà, delà, pareil à la feuille morte.
Casos amorosos...
Conheci, mal que te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração para te dar, se a minha alma fosse capaz...
Achei-me só, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exausto do coração — numa depressão de espírito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola ao peito, não levantava o braço para a arredar... Já não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito...
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras...
Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.
Mas se os cinco capítulos por que se estende esta carta lhe conferem um lugar importante na história da nossa literatura, dos nossos costumes, da nossa mentalidade, é porque na sua aparente ligeireza e insignificância o que repetidamente se manifesta é a torturada e engenhosa tomada de consciência das nossas bem modernas contradições. Essa carta é importante porque nela se descobre e denuncia a complexidade pouco lógica dos afectos, dos desejos, das vaidades, isto é, daquilo a que chamamos amor; e é importante também porque nela, na sua estratégia tortuosa, nessa impossibilidade de destrinçar o que é sincero do que pode ser simplesmente talento verbal de sedutor barato, se anuncia já também a problemática do fingimento e da sinceridade, da verdade e da ficção, que para Pessoa será uma preocupação constante e fundamental. Justifica-se plenamente, portanto, que consideremos Garrett um lúcido precursor de Júlio Dinis, Camilo, Eça, Cesário Verde e outros, por um lado, do modernismo português do Orpheu, por outro.
(João Camilo dos Santos - Professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Califórnia.)
Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Casos de polícia...
A morta seguinte apareceu em Agosto de 1994...Esta não era uma desconhecida, mas, coisa curiosa, ninguém soube dizer como se chamava. Em casa, onde vivia sozinha há três anos, não foram encontrados papéis pessoais nem nada que pudesse levar a um esclarecimento rápido da sua identidade. Algumas pessoas, não muitas, sabiam que se chamava Isabel, mas quase toda a gente a conhecia como a Vaca... A Vaca estava deitada no chão. Só quando tentaram puxá-la é que se deram conta de que estava morta. O caso foi arquivado.
Em Agosto de 1995 foram encontrados os corpos de sete mulheres...Os polícias percorreram a cidade , visitaram bares e discotecas...encontraram-se com os inspectores ...falaram com dois médicos-legistas...examinaram alguns dossiês e visitaram o bordel Asuntos Internos, onde foram para a cama cada um com a sua puta. Depois, tal como tinham chegado, assim partiram.
Quando Agosto chegava ao fim, foi encontrado na estrada...o corpo de Jacqueline Rios, de vinte e cinco anos, empregada numa loja de perfumaria... Morrera devido a disparos de arma de fogo no tórax e no abdómen. Partilhava a casa com uma amiga...e as duas tinham o sonho de ir viver na Califórnia...O caso ficou por esclarecer.
As enumerações exaustivas,mas nunca entediantes, que recordam os trabalhos e dias de hesíodo,são uma peculiaridade de 2666. A formação clássica do autor é óbvia, embora talvez inesperada. Este pendor enumerativo, no caso das fobias, é uma sátira mordaz às pseudojustificações científicas que,por vezes, os psiquiatras arquitetam para explicar comportamentos desviantes e criminosos...Se eu matar um padre porque padeço de sacrofofia, sou inimputável...
Sacrofobia, gefirofobia,claustrofobia, agorafobia, necrofofia, hematofofia, pecatofobia, clinofofia, tricofobia, vestiofobia...Verbofobia é o medo das palavras... É um pouco mais do que ficar calado,porque as palavras estão em toda a parte,inclusivamente no silêncio,que nunca é um silêncio total, não é verdade?... Um relativamente comum: a iatrofofia, que é o medo dos médicos.Ou a ginofobia, que é o medo da mulher...Difundidíssimo no México, embora disfarçado com as mais diversas roupagens... Depois há dois medos que no fundo são muito românticos: o ombrofobia e a talassofobia...a antofobia...e a dendrofobia...E o senhor o que acha que é a optofobia?... Medo de abrir os olhos...Depois temos,claro está, a pedifofia...e a balistofobia...E outra fobia,que está a aumentar,´é a tropofobia...Que se pode agravar se derivar de agirofofia,que é o medo das ruas ou de atravessar uma rua.Sem esquecermos a cromofofia...ou a noctofobia...ou a ergofofia,que é o medo do trabalho. Um medo muito difundido é a decidofobia,que é o medo de tomar decisões.E um medo que começa agora a difundir-se que é a antropofobia,que é o medo das pessoas. Alguns índios sofrem de forma muito acentuada de astrofobia...Mas as piores fobias,no meu entender,são a pantofobia,que é ter medo de tudo, e a fobofobia ,que é o medo dos próprios medos. Se você tivesse de ter um destes dois últimos,qual escolheria? A fobofobia,disse Juan Dios Martinez.Tem os seus inconvenientes,pense bem,disse a directora... Se eu tivesse medo de tudo , não podia trabalhar,não se esqueça que sou polícia.Mas se tiver medo dos seus medos a sua vida pode transformar-se numa observação constante do medo,e se estes se activarem, o que se produz é um sistema que se alimenta a si mesmo, um enredo do qual lhe será difícil escapar, sublinhou a directora.
Páginas com datas, congressos, temas de apresentações, artigos de revista, que se leem com uma ansiedade e um prazer enorme. Hesíodo , um autor grego muito importante, mas menos conhecido do que Homero, tem uma obra em que, ao longo de páginas e páginas , elabora um célebre catálogo das naus… Sempre me intrigou o motivo pelo qual a professora helena rocha pereira tanto se emocionava com aquela enumeração… Pois, hoje, entendi-a … A ansiedade de saber como é que 4 jovens , um francês, um italiano, um espanhol e uma inglesa, que têm em comum a idade e a paixão por um autor alemão, se encontram, onde estão, como se vai chamar o artigo , transforma o que poderia ser um relato fastidioso…
Não li nada sobre o livro, mas julgo que ele será uma metáfora da cultura europeia na segunda metade do século XX- A nacionalidade das personagens principais não pode ser inocente, num livro que foi tão bem pensado que o seu autor, com medo de ser surpreendido pela morte, como veio a acontecer, deixou todas as indicações para a sua publicação… Um D. Quixote do século XX.

Casos preocupantes...
Não há nenhum lugar na terra onde haja mais tontas por metro quadrado que numa universidade da Califórnia.
Universidade estatal, constituída por diferentes instituições semiautónomas: Angeles (UCLA), Berkeley (UC Berkeley), San Diego (UCSD), Davis, Irvine, Merced, Riverside, São Francisco, Santa Cruz e Santa Bárbara.
יְהִי אוֹר, Fiat lux, γενηθήτω φῶς...
O lema da universidade,uma tradução discutível que retira a dignidade ao original hebraico, latino ou grego, andará a causar confusão aos jovens universitários californianos,tendo em conta as imagens degradantes que nos chegam dos seus comportamentos académicos...
Light - luz,lâmpada,lume;fraqueza,leveza, futilidade...
Paradoxalmente, este be light das light universitárias californianas está a ser decisivo para os mexicanos melhorarem a raça, Vejamos: Um Presidente do México costumava chegar , no melhor dos casos, ao ombro de um Presidente da América. Às vezes a cabeça de um Presidente do México estava apenas a uns centímetros acima do umbigo de um Presidente americano. Como mesmo a classe alta mexicana era baixa, um anão mexicano manda o seu filho anão estudar para uma universidade da Califórnia. O menino tem dinheiro, faz o que quer e isso impressiona as estudantes...Resultado: o menino obtém um título e consegue uma esposa...Desta forma ,os netos do anão mexicano deixam de ser anões e, de passagem, ficam mais claros. Esses netos,chegado o momento,realizam o mesmo périplo iniciático do pai.
O bolaño nunca visitou outras universidades...Talvez a sua ratio de tontas, por metro quadrado,seja injusta...
Esta foto foi tirada, de facto, na UC, mas o C não é abreviatura de califórina...
E eu pergunto aos economistas políticos...se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
Personagens reais: encantadoras e monstruosas
Um bom trabalho de investigação
Uma técnica narrativa ...mediana
If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face—for ever.
The picture of my present: Nada é mais humilhante do que ver os tolos vencer naquilo em que fracassámos.
A opressão da bota desapareceu ,subitamente, porque pensei em alguém que perdeu as palavras ( não metáforas em sentido metafórico) e sofre uma asfixia terrivelmente dolorosa. O que se diz? Só consigo consolar e compreender adolescentes, é a minha especialidade( talvez porque serei sempre adolescente, não cresço, não me permito crescer ...) Não posso adiar o momento, mas o que se diz? Recuso-me ao blá esteriotipado,comiserativo "tem paciência, estas coisas levam tempo, vais ver que recuperas...".Para isso, há mulheres,namoradas,amigos, filhos, cunhadas, cunhados, sogras, sogros, fora enfermeiros, médicos e colegas de trabalho. De mim não é isso que se espera e sufoca-me uma impotência enorme, um quase pavor de desiludir. "Ó meu amigo, tu perdeste as palavras, mas eu nunca, num certo sentido, as tive: vivem estéreis dentro da minha cabeça, incapazes de se exteriorizar."
Não posso continuar com esta cobardia, hoje, chova ou faça sol ,vou ter de quebrar o meu silêncio...Mas, o que se diz? Como se responde??
…… ainda não sei o que falta, mas sei que pode acabar assim… (13:00 - A gata miou 3 vezes. Ela sabe o que lhe falta : uma lata de "peixe do oceano"...) Mesmo que acabe assim...
Será que tudo o que sentimos tem de ter nome? Será que tudo o que pensamos tem de ser dito? Para quê? Porquê? São tão poucos os que nos sabem ler / escutar... Mesmo sem verbalizar através de palavras,os seres ,que o são de facto, continuam a ser...Mesmo que todas as palavras dos outros nos escapem, não corramos atrás delas, somos e continuaremos a ser no silêncio... Se aprendermos a ouvir o silêncio que há em nós, talvez consigamos imaginar sísifo feliz... Está um belo dia de sol.
Será que poderemos sufocar com o silêncio? Será o silêncio antinatural?
There's a silence surroundiing me I can't seem to think straight I'll sit in the corner Where no one can bother me
I think I should speak now (why won't you talk to me) But I can't seem to speak now (you never talk to me)
My words won't come out right (what are you thinking) I feel like I'm drowning (what are you feeling) I'm feeling weak now (why won't you talk to me) But I can't show my weakness (you never talk to me I sometimes wonder (what are you thinking) Where do we go from here (what are you feeling) It doesn't have to be like this All we need to do is make sure we keep talking...
Um caso clínico...
As pessoas têm formas de preocupação estranhas e inexplicáveis. Dizem os que presumo que gostam de mim, pelo lugar que ocupam na minha vida, mesmo que involuntariamente, que ando há demasiado tempo com uma " tosse muito seca". Sou acusada, perseguida, como se a minha indiferença perante a dita tosse fosse uma espécie de tendência suicida ... Como se eu pudesse fazer algo, além do que já fiz: exames para...
Relembrei, com nostalgia, as minhas doenças invisíveis do passado e de como, na época, eu teria ficado contente com um " cafum", cafum" sequinho e irritante, perfeitamente audível ...A outra gente , sempre muito perspicaz, pergunta-me : " Andas com tosse?"
Começo a ficar exasperada com o ruído que involuntariamente produzo. Sinto bem que, quanto mais me enervo, mais " cafum, cafum, cafum"... Eu que detesto tornar a minha presença demasiado visível, particularmente desde que o meu volume aumentou, vejo-me assim observada por tudo o que é ser ouvinte....( como é sabido cada um tem dois ouvidos, o que agrava o meu problema...)
Ninguém se preocupa com o deserto de recusas em que arrasto a minha existência, mas uma tossezita provoca um desassossego maior que o de Bernardo Soares. Tenho de abdicar de mostar indiferença e ter a atitude considerada normal: lacrimejar, com ar condoído, " Ai, ando tão preocupada com esta tosse".
Casos perdidos...
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me I formulate infinity And store it deep inside me...
Nosso caso é uma porta entreaberta... é o amor agitando o meu coração Há um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não...
Deambulações e divagações..
Percorri interminavelmente a cidade de Oxoford e conheço quase todos os seus recantos e também a sua infinidade de limites esdrúxulos... A maioria das vezes caminhava sem objetivo e sem rumo determinado, embora me recorde bem que, durante dez dias, do meu segundo período letivo... caminhei com um propósito pouco adulto e então - enquanto durou- nem sequer a mim mesmo o confessei.
Em Inglaterra os desconhecidos não costumam conversar , nem sequer nos comboios nem durante longas esperas, e o silêncio noturno da estação de Didcot é um dos mais profundos que eu conheci. O silêncio é tanto mais profundo quando é quebrado por vozes ou ruídos isolados e sem continuidade
A partir de então e durante uns dez dias caminhei pela cidade de Oxford com o propósito ou a esperança insconsciente de a voltar a encontrar, o que não seria demasiado improvável se ela não tivesse ido de visita e ali vivesse. Andei pelas ruas mais tempo do que o habitual, e cada dia que passava o seu rosto ia-se esfumando ou confundindo-se com outros, como costuma acontecer com as coisas que se querem recordar ou nos empenhamos em recordar , com todas aquelas imagens perante as quais a memória não se mostra respeituosa ( quer dizer, passiva)...Eu saía da livraria Blackweel's com o tempo contado para chegar a uma das minhas turmas de tradução com o exigente Dewar. Apressei o passo olhando em frente no meio de um vendaval que entretanto se havia levantado ... Havia dado quatro ou cinco passos a reconheci e voltei-me. O que mais me surpreendeu foi que também ela e a sua amiga..haviam parado e se tinham virado. Ela sorriu e gritou, mais para se dar a reconhecer que reconhecendo-me: "No comboio! Em Didcot!" ... Não a voltei a ver no resto do ano nem no seguinte, no fim do qual deixei Oxford... O que mais lamento é não ter podido atentar ...nos seus sapatos ingleses nem nos seus tornozelos, que sem dúvida me teriam parecido fragilizados pelo vento. Estava demasiado atento ao cauteloso voo da sua saia.
As divaçaçoes de Clare Bayes, um tipo mulher que considero insuportável: Tudo nela era expansivo, excessivo, um ser nervoso, uma dessas pessoas para quem não foi feita a noção de tempo, para as quais a própria noção de tempo e de espaço é uma ofensa, necessitadas como estão de fragmentos da eternidade de qualquer coisa ou, dito de outra maneira, de conteúdos etrnos para encher e inundar o tempo...Era eu que tinha de interromper as intermináveis divagações de Clare Bayes, o seu conteúdo eternizável de qualquer tempo, os seus comentários ou verborreia infinita enquanto permanecia deitada na cama, fumando , fazendo ademanes, pontificando, cruzando as pernas, abrindo-as, encolhendo-as, exaltando ou teorizando sobre o seu passado ou o seu presente, saltando de um assunto para outro para o seu futuro mais imediato, sem que nenhum tema fosse levado até ao fim.
Uma divagação do narrador, um homem interessante, que, como todos os homens inteligentes e discretos, adora mulheres extravagantes: A visão de uns sapatos vazios faz-me imaginar sobre eles a pessoa que os usou ou que poderia tê-los calçado, e vê-la de facto ao meu lado - fora dos sapatos - ou não a ver em absoluto irrita-me terrivelmente ( por isso , para mim, contemplar a montra de uma sapataria tradicional pressupõe a figuração automática de multidões firmes, incómodas e estreitas).
Qual é a idade da alma do homem? Gosto de acreditar que a alma não envelhece...Gosto da deambulação de leopold, através da sua existência: apeteceu-me reler joyce...
If Socrates leaves his house today he will find the sage seated on his doorstep. If Judas go forth tonight it is to Judas his steps will tend. Every life is in many days, day after day. We walk through ourselves, meeting robbers, ghosts, giants, old men, young men, wives, widows, brothers-in-love, but always meeting ourselves.
Não mais é Leopold, ali sentado, a ruminar a matutar em reminiscências, o tranquilo agente de publicidade e proprietário de uma modesta maquia em títulos. É o jovem Leopold. Ali, como se fosse um arranjo retrospetivo, um espelho dentro de um espelho ( eia! " presto"), a si próprio se contempla.V~e-se a jovem figura de então, precocemente viril, caminhando numa fria manhã da velha casa, em ..., em direção à escola, a pasta dos livros à tiracolo e dentro dela um bom pedaço de pão de trigo, ideia de sua mãe. Ou é a mesma figura, decorrido coisa de um ano, com o primeiro chapéu( ah! esse é que foi um dia!) já no seu caminho , um viajante a sério da firma familiar , equipado com um livro de requisições, um lenço perfumado( não apenas para exibir) , a maleta de brilhante quinquilharia( ah, coisa já do passado!) e um cascás repleto de sorrisos complacentes, para esta ou para aquela dona de casa, meio convencida, a fazer contas pelos dedos ou para uma virgem em florescência que timidamente aceita ( mas o coração, diz-me?) os seus estudados beija-mãos. O perfume , o sorriso mas, mais do que estes, os olhos escuros e os modos untuosos ajudavam-no a trazer para casa, ao cair da noite, mais uma comissão para o chefe da firma, sentado com o cachimbo de jacob , depois de semelhantes trabalheiras, ao canto da lareira paterna ( um prato de macarrão, bem podeis rstar certos, está a ser aquecido), lendo através de redondos óculos de aros de tartaruga algum jornal da Europa de um mês atrás. Mas, ela, "presto" , o espelho embacia-se e o jovem cavaleiro andante retira-se, murcha, reduz-se a um pontinho na névoa. Agora, por sua vez, é ele paternal e os que estão à volta dele podiam ser seus filhos. Quem pode dizer?
Deambulando...he llegado hoy hasta aquí, sin pena ni gloria
con mis sentidos alertas y preparados para gozar y penar ,
perdonar y ser perdonado , cantar y llorar , vivir y gozar...
Deambulando...supe ver la entrega del cuerpo deseado
y me enseñaron a amar sin retaceos ni miradas en el vacío
que trasmiten el hartazgo que solo da la pasíon fingida...
Deambulando...he llegado hasta aquí , hasta estas palabras
que son el premio de saber que todo es por algo mágico,
que solo lo puedes ver si escuchas a tu ángel en la mente...!
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Take me out tonight Oh take me anywhere I don't care, I don't care, I don't care...
Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.
O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.
Damos commumente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que não lhe compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém, não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, ou tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar —, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.
Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo, aconselho-vos o amor ao longínquo.
Assim falava Zaratustra
Mas quando via que nem isso produzia o efeito desejado, não era raro assumir uma solene pose teatral e declarar-se" anarquista teórico", que os sociais democratas salvariam a qualquer momento se ele se decidisse a aceitar favores desses malvados judeus exploradores do povo trabalhador ignorante. E com isso mostrava que também ele tinha uma "disciplina científica", um terreno em que a arrogância erudita dos seus juízes não podia acompanhã-lo. Em geral, isso valia-lhe, por parte dos juízes, a classificação de " inteligência notável", uma atenção respeitosa às suas palavras durante a audiência e sentenças mais pesadas; mas, lá no fundo, a sua vaidade lisonjeada via esses julgamentos como momentos altos da sua vida. Por isso não odiava mais ninguém do que os psiquiatras, que achavam que resolviam toda a complexidade da sua difícil personalidade com uns termos estrangeiros, como se aquilo fosse para eles matéria quotidiana... Moosbrugger não deixava passar em claro nenhuma destas oportunidades de mostrar na sala de audiências a sua superioridade em relação aos psiquiatras, desmacarando-os comoidiotas e charlatães emproados que tinham de o mandar para o manicómio quando ele fazia uma simulação, em vez de o mandarem para a prisão que era o seu lugar.
El adulterio lleva mucho trabajo ...
Para o conseguir só tinha de praticar com ela o exercício intelectual que propicia o adultério: ajudá-la a inventar histórias sem falhas para Edward Bayes e levá-la a preocupar-se em não incorrer em contradições , ao relatá-las , embora ela achasse tal exercício desnecessário e fastidioso( a sua expressão ensombrada sempre a dizer adeus por causa da minha insistência.) Ela era negligente e ligeira e risonha e esquecida, e se eu fosse Edward Bayes - pensava -o eu - não me precisaria de muita urdidura nem esforço para averiguar cada um dos seus pensamentos e cada um dos passos que ela dava.(...) Clare Bayes simplesmente não tinha escrúpulos, mas quem a conhecesse não podia exigir-lhos, pois em boa parte a sua graciosidade residia precisamente na sua falta de consideração pelos outros como por si mesma. Clare Bayes fazia-me rir com frequência , que é o que mais aprecio, mas sei que nunca tive por ela - nem tão pouco ela por mim - uma debiidade suficientemente prolongada ou sólida para estar em qualquer forma de perigo( tão pouco estive em risco de suplantar Edward Bayes).
Casos atmosféricos...
29.7.39
As eleições gerais em França vão ser adiadas por decreto durante dois anos...
29.7.46
Choveu um pouco,mas chuva mais miúda...Colhi algumas batatas. Colheita muito má,apesar de os caules serem bons.Diria que havia uma média de 5 ou 6 batatas por planta.Razão dada,a terra não foi estrumada.
29.7.47
Dia bonito e com sol,com algum vento de oeste.Mar calmo.Fiz uma caixa para as lagostas...Receio que as sementes de relva do caminho tenham sido arrastadas pela chuva,mas é difícil ter a certeza.3 ovos(216)
31.7.39
Na maior parte do dia esteve tempo nublado,com chuvadas fortes e trovoada cerca do meio-dia. Mondei as cebolas. Repiquei 35 cravos...11 ovos ( três frangas? É evidente que pelo menos uma franga já está a pôr).
31.7.46
Dia lindo,bom tempo e bastante calor...Pintei o barco de verde e branco. Lancei o lagosteiro,já que não tenho isco para o outro. Tirei 6 litros de gasolina. ( Ao todo 44-8 litros.)
31.7.48
Estou a reabrir este diário ao fim de sete meses de ausência. O tempo está quente e seco...A aveia ainda vai pouco alta...O feno já foi quase todo cortado...As rosas,as papoilas,os cravos-de-poeta e os malmequeres...os tremoceiros...o ibério...as clárquias.Os arbustos...As árvores...Os morangos...A primeira leva de ervilhas...As alfaces...os nabos,o feijão rasteiro...cebolas.Temos duas ninhadas de pintos a chegar...O porco que nasceu...Ambas as vacas...A erva está bastante boa,e os cardos...Durante algum tempo ainda,não vou poder fazer nada no quintal...A pesca tem sido boa...Os candeeiros estão meio avariados...Encomendar candeeiros Tilly e vaporizadores:
« martelo
«veda-juntas( para as torneiras)
« válvula para o lavatório
« chaminé para os candeeiros.
4.8.39
Choveu a maior parte do dia,com intervalos de sol,e tempo ventoso...Hoje de manhã vi outra vez a galinha perdida...13 ovos( 3 pequenos).
Amanhã parte para a missão militar franco-britânica num paquete de baixa velocidade,que levará uma semana a chegar a Leninegrado...Dizem que a Alemanha está a pensar transferir a Eslováquia da Polónia,de forma a separar a últimae Radnor da Polónia...
O Partido Trabalhista ganhou em Brecon e Radnor por uma maioria de 2500 votos...
A imprensa Albatrross , que está a tratar da publicação do meu último livro, exige a supressão de certas referências hostis a Hitler. Dizem que são obrigados a fazer isso, visto os seus livros circularem largamente na Alemanha.
4.8.46
Grande tempestade de manhã,a clarear à tarde, mas com vento ainda forte. Abri uma avelã. Lá dentro só havia medula. Pelos vistos vai haver uma grande colheita de avelãs.
4.8.48
A maior parte do dia sem vento nenhum, com neblina,razoavelmente quente...Algumas das ervilhas-de-cheiro estão a florir,mas não são de boa qualidade. Esqueci-me de dizer que ontem vi 3 águias a voar por cima do campo em frente ( acho que eram 3,embora só tenha visto 2 de cada vez)...Emitem uma espécie de grito,que eu pensava ser exclusivo dos abutres.
Leio, com prazer, estas pouco mais do que listagens, talvez por sentir a alma e a beleza de quem as escreveu...Não sei, mas há uma cadência suave e pacificadora nesta quase plenitude existencial, similar à do guardador de rebanhos...
Só um grande homem pode realizar-se com coisas tão pequenas...(Ao reler , fiquei receosa sobre a banalidade da minha afirmação, mas também não almejo fazer concorrência ao wilde...)
Casos recorrentes...
Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto. Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não. E a chuva cai levemente(Porque Verlaine consente)Dentro do meu coração.
Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra. Chove...A minha alma é húmida de ouvi-lo...
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas (...) alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.Como chove!
As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos, um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente a chuva...
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego.
Chove muito, chove excessivamente... Chove e de vez em quando faz um vento frio... Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu(...)
Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.
cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser. Até o meu pensamento Tem chuva nele a escorrer.
Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon coeur d'une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l'heure, Je me souviens des jours anciens tt je pleure Et je m'en vais au vent mauvais qui m'emporte Deçà, delà, pareil à la feuille morte.
Casos amorosos...
Conheci, mal que te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração para te dar, se a minha alma fosse capaz...
Achei-me só, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exausto do coração — numa depressão de espírito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola ao peito, não levantava o braço para a arredar... Já não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito...
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras...
Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.
Mas se os cinco capítulos por que se estende esta carta lhe conferem um lugar importante na história da nossa literatura, dos nossos costumes, da nossa mentalidade, é porque na sua aparente ligeireza e insignificância o que repetidamente se manifesta é a torturada e engenhosa tomada de consciência das nossas bem modernas contradições. Essa carta é importante porque nela se descobre e denuncia a complexidade pouco lógica dos afectos, dos desejos, das vaidades, isto é, daquilo a que chamamos amor; e é importante também porque nela, na sua estratégia tortuosa, nessa impossibilidade de destrinçar o que é sincero do que pode ser simplesmente talento verbal de sedutor barato, se anuncia já também a problemática do fingimento e da sinceridade, da verdade e da ficção, que para Pessoa será uma preocupação constante e fundamental. Justifica-se plenamente, portanto, que consideremos Garrett um lúcido precursor de Júlio Dinis, Camilo, Eça, Cesário Verde e outros, por um lado, do modernismo português do Orpheu, por outro.
(João Camilo dos Santos - Professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Califórnia.)
Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Casos de polícia...
A morta seguinte apareceu em Agosto de 1994...Esta não era uma desconhecida, mas, coisa curiosa, ninguém soube dizer como se chamava. Em casa, onde vivia sozinha há três anos, não foram encontrados papéis pessoais nem nada que pudesse levar a um esclarecimento rápido da sua identidade. Algumas pessoas, não muitas, sabiam que se chamava Isabel, mas quase toda a gente a conhecia como a Vaca... A Vaca estava deitada no chão. Só quando tentaram puxá-la é que se deram conta de que estava morta. O caso foi arquivado.
Em Agosto de 1995 foram encontrados os corpos de sete mulheres...Os polícias percorreram a cidade , visitaram bares e discotecas...encontraram-se com os inspectores ...falaram com dois médicos-legistas...examinaram alguns dossiês e visitaram o bordel Asuntos Internos, onde foram para a cama cada um com a sua puta. Depois, tal como tinham chegado, assim partiram.
Quando Agosto chegava ao fim, foi encontrado na estrada...o corpo de Jacqueline Rios, de vinte e cinco anos, empregada numa loja de perfumaria... Morrera devido a disparos de arma de fogo no tórax e no abdómen. Partilhava a casa com uma amiga...e as duas tinham o sonho de ir viver na Califórnia...O caso ficou por esclarecer.
As enumerações exaustivas,mas nunca entediantes, que recordam os trabalhos e dias de hesíodo,são uma peculiaridade de 2666. A formação clássica do autor é óbvia, embora talvez inesperada. Este pendor enumerativo, no caso das fobias, é uma sátira mordaz às pseudojustificações científicas que,por vezes, os psiquiatras arquitetam para explicar comportamentos desviantes e criminosos...Se eu matar um padre porque padeço de sacrofofia, sou inimputável...
Sacrofobia, gefirofobia,claustrofobia, agorafobia, necrofofia, hematofofia, pecatofobia, clinofofia, tricofobia, vestiofobia...Verbofobia é o medo das palavras... É um pouco mais do que ficar calado,porque as palavras estão em toda a parte,inclusivamente no silêncio,que nunca é um silêncio total, não é verdade?... Um relativamente comum: a iatrofofia, que é o medo dos médicos.Ou a ginofobia, que é o medo da mulher...Difundidíssimo no México, embora disfarçado com as mais diversas roupagens... Depois há dois medos que no fundo são muito românticos: o ombrofobia e a talassofobia...a antofobia...e a dendrofobia...E o senhor o que acha que é a optofobia?... Medo de abrir os olhos...Depois temos,claro está, a pedifofia...e a balistofobia...E outra fobia,que está a aumentar,´é a tropofobia...Que se pode agravar se derivar de agirofofia,que é o medo das ruas ou de atravessar uma rua.Sem esquecermos a cromofofia...ou a noctofobia...ou a ergofofia,que é o medo do trabalho. Um medo muito difundido é a decidofobia,que é o medo de tomar decisões.E um medo que começa agora a difundir-se que é a antropofobia,que é o medo das pessoas. Alguns índios sofrem de forma muito acentuada de astrofobia...Mas as piores fobias,no meu entender,são a pantofobia,que é ter medo de tudo, e a fobofobia ,que é o medo dos próprios medos. Se você tivesse de ter um destes dois últimos,qual escolheria? A fobofobia,disse Juan Dios Martinez.Tem os seus inconvenientes,pense bem,disse a directora... Se eu tivesse medo de tudo , não podia trabalhar,não se esqueça que sou polícia.Mas se tiver medo dos seus medos a sua vida pode transformar-se numa observação constante do medo,e se estes se activarem, o que se produz é um sistema que se alimenta a si mesmo, um enredo do qual lhe será difícil escapar, sublinhou a directora.
Páginas com datas, congressos, temas de apresentações, artigos de revista, que se leem com uma ansiedade e um prazer enorme. Hesíodo , um autor grego muito importante, mas menos conhecido do que Homero, tem uma obra em que, ao longo de páginas e páginas , elabora um célebre catálogo das naus… Sempre me intrigou o motivo pelo qual a professora helena rocha pereira tanto se emocionava com aquela enumeração… Pois, hoje, entendi-a … A ansiedade de saber como é que 4 jovens , um francês, um italiano, um espanhol e uma inglesa, que têm em comum a idade e a paixão por um autor alemão, se encontram, onde estão, como se vai chamar o artigo , transforma o que poderia ser um relato fastidioso…
Não li nada sobre o livro, mas julgo que ele será uma metáfora da cultura europeia na segunda metade do século XX- A nacionalidade das personagens principais não pode ser inocente, num livro que foi tão bem pensado que o seu autor, com medo de ser surpreendido pela morte, como veio a acontecer, deixou todas as indicações para a sua publicação… Um D. Quixote do século XX.

Não há nenhum lugar na terra onde haja mais tontas por metro quadrado que numa universidade da Califórnia.
Universidade estatal, constituída por diferentes instituições semiautónomas: Angeles (UCLA), Berkeley (UC Berkeley), San Diego (UCSD), Davis, Irvine, Merced, Riverside, São Francisco, Santa Cruz e Santa Bárbara.
יְהִי אוֹר, Fiat lux, γενηθήτω φῶς...
O lema da universidade,uma tradução discutível que retira a dignidade ao original hebraico, latino ou grego, andará a causar confusão aos jovens universitários californianos,tendo em conta as imagens degradantes que nos chegam dos seus comportamentos académicos...
Light - luz,lâmpada,lume;fraqueza,leveza, futilidade...
Paradoxalmente, este be light das light universitárias californianas está a ser decisivo para os mexicanos melhorarem a raça, Vejamos: Um Presidente do México costumava chegar , no melhor dos casos, ao ombro de um Presidente da América. Às vezes a cabeça de um Presidente do México estava apenas a uns centímetros acima do umbigo de um Presidente americano. Como mesmo a classe alta mexicana era baixa, um anão mexicano manda o seu filho anão estudar para uma universidade da Califórnia. O menino tem dinheiro, faz o que quer e isso impressiona as estudantes...Resultado: o menino obtém um título e consegue uma esposa...Desta forma ,os netos do anão mexicano deixam de ser anões e, de passagem, ficam mais claros. Esses netos,chegado o momento,realizam o mesmo périplo iniciático do pai.
O bolaño nunca visitou outras universidades...Talvez a sua ratio de tontas, por metro quadrado,seja injusta...
Esta foto foi tirada, de facto, na UC, mas o C não é abreviatura de califórina...
E eu pergunto aos economistas políticos...se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
Personagens reais: encantadoras e monstruosas
Um bom trabalho de investigação
Uma técnica narrativa ...mediana
If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face—for ever.
The picture of my present: Nada é mais humilhante do que ver os tolos vencer naquilo em que fracassámos.
A opressão da bota desapareceu ,subitamente, porque pensei em alguém que perdeu as palavras ( não metáforas em sentido metafórico) e sofre uma asfixia terrivelmente dolorosa. O que se diz? Só consigo consolar e compreender adolescentes, é a minha especialidade( talvez porque serei sempre adolescente, não cresço, não me permito crescer ...) Não posso adiar o momento, mas o que se diz? Recuso-me ao blá esteriotipado,comiserativo "tem paciência, estas coisas levam tempo, vais ver que recuperas...".Para isso, há mulheres,namoradas,amigos, filhos, cunhadas, cunhados, sogras, sogros, fora enfermeiros, médicos e colegas de trabalho. De mim não é isso que se espera e sufoca-me uma impotência enorme, um quase pavor de desiludir. "Ó meu amigo, tu perdeste as palavras, mas eu nunca, num certo sentido, as tive: vivem estéreis dentro da minha cabeça, incapazes de se exteriorizar."
Não posso continuar com esta cobardia, hoje, chova ou faça sol ,vou ter de quebrar o meu silêncio...Mas, o que se diz? Como se responde??
…… ainda não sei o que falta, mas sei que pode acabar assim… (13:00 - A gata miou 3 vezes. Ela sabe o que lhe falta : uma lata de "peixe do oceano"...) Mesmo que acabe assim...
Será que tudo o que sentimos tem de ter nome? Será que tudo o que pensamos tem de ser dito? Para quê? Porquê? São tão poucos os que nos sabem ler / escutar... Mesmo sem verbalizar através de palavras,os seres ,que o são de facto, continuam a ser...Mesmo que todas as palavras dos outros nos escapem, não corramos atrás delas, somos e continuaremos a ser no silêncio... Se aprendermos a ouvir o silêncio que há em nós, talvez consigamos imaginar sísifo feliz... Está um belo dia de sol.
Será que poderemos sufocar com o silêncio? Será o silêncio antinatural?
There's a silence surroundiing me I can't seem to think straight I'll sit in the corner Where no one can bother me
I think I should speak now (why won't you talk to me) But I can't seem to speak now (you never talk to me)
My words won't come out right (what are you thinking) I feel like I'm drowning (what are you feeling) I'm feeling weak now (why won't you talk to me) But I can't show my weakness (you never talk to me I sometimes wonder (what are you thinking) Where do we go from here (what are you feeling) It doesn't have to be like this All we need to do is make sure we keep talking...
Um caso clínico...
As pessoas têm formas de preocupação estranhas e inexplicáveis. Dizem os que presumo que gostam de mim, pelo lugar que ocupam na minha vida, mesmo que involuntariamente, que ando há demasiado tempo com uma " tosse muito seca". Sou acusada, perseguida, como se a minha indiferença perante a dita tosse fosse uma espécie de tendência suicida ... Como se eu pudesse fazer algo, além do que já fiz: exames para...
Relembrei, com nostalgia, as minhas doenças invisíveis do passado e de como, na época, eu teria ficado contente com um " cafum", cafum" sequinho e irritante, perfeitamente audível ...A outra gente , sempre muito perspicaz, pergunta-me : " Andas com tosse?"
Começo a ficar exasperada com o ruído que involuntariamente produzo. Sinto bem que, quanto mais me enervo, mais " cafum, cafum, cafum"... Eu que detesto tornar a minha presença demasiado visível, particularmente desde que o meu volume aumentou, vejo-me assim observada por tudo o que é ser ouvinte....( como é sabido cada um tem dois ouvidos, o que agrava o meu problema...)
Ninguém se preocupa com o deserto de recusas em que arrasto a minha existência, mas uma tossezita provoca um desassossego maior que o de Bernardo Soares. Tenho de abdicar de mostar indiferença e ter a atitude considerada normal: lacrimejar, com ar condoído, " Ai, ando tão preocupada com esta tosse".
Casos perdidos...
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me I formulate infinity And store it deep inside me...
Nosso caso é uma porta entreaberta... é o amor agitando o meu coração Há um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não...
Deambulações e divagações..
Percorri interminavelmente a cidade de Oxoford e conheço quase todos os seus recantos e também a sua infinidade de limites esdrúxulos... A maioria das vezes caminhava sem objetivo e sem rumo determinado, embora me recorde bem que, durante dez dias, do meu segundo período letivo... caminhei com um propósito pouco adulto e então - enquanto durou- nem sequer a mim mesmo o confessei.
Em Inglaterra os desconhecidos não costumam conversar , nem sequer nos comboios nem durante longas esperas, e o silêncio noturno da estação de Didcot é um dos mais profundos que eu conheci. O silêncio é tanto mais profundo quando é quebrado por vozes ou ruídos isolados e sem continuidade
A partir de então e durante uns dez dias caminhei pela cidade de Oxford com o propósito ou a esperança insconsciente de a voltar a encontrar, o que não seria demasiado improvável se ela não tivesse ido de visita e ali vivesse. Andei pelas ruas mais tempo do que o habitual, e cada dia que passava o seu rosto ia-se esfumando ou confundindo-se com outros, como costuma acontecer com as coisas que se querem recordar ou nos empenhamos em recordar , com todas aquelas imagens perante as quais a memória não se mostra respeituosa ( quer dizer, passiva)...Eu saía da livraria Blackweel's com o tempo contado para chegar a uma das minhas turmas de tradução com o exigente Dewar. Apressei o passo olhando em frente no meio de um vendaval que entretanto se havia levantado ... Havia dado quatro ou cinco passos a reconheci e voltei-me. O que mais me surpreendeu foi que também ela e a sua amiga..haviam parado e se tinham virado. Ela sorriu e gritou, mais para se dar a reconhecer que reconhecendo-me: "No comboio! Em Didcot!" ... Não a voltei a ver no resto do ano nem no seguinte, no fim do qual deixei Oxford... O que mais lamento é não ter podido atentar ...nos seus sapatos ingleses nem nos seus tornozelos, que sem dúvida me teriam parecido fragilizados pelo vento. Estava demasiado atento ao cauteloso voo da sua saia.
As divaçaçoes de Clare Bayes, um tipo mulher que considero insuportável: Tudo nela era expansivo, excessivo, um ser nervoso, uma dessas pessoas para quem não foi feita a noção de tempo, para as quais a própria noção de tempo e de espaço é uma ofensa, necessitadas como estão de fragmentos da eternidade de qualquer coisa ou, dito de outra maneira, de conteúdos etrnos para encher e inundar o tempo...Era eu que tinha de interromper as intermináveis divagações de Clare Bayes, o seu conteúdo eternizável de qualquer tempo, os seus comentários ou verborreia infinita enquanto permanecia deitada na cama, fumando , fazendo ademanes, pontificando, cruzando as pernas, abrindo-as, encolhendo-as, exaltando ou teorizando sobre o seu passado ou o seu presente, saltando de um assunto para outro para o seu futuro mais imediato, sem que nenhum tema fosse levado até ao fim.
Uma divagação do narrador, um homem interessante, que, como todos os homens inteligentes e discretos, adora mulheres extravagantes: A visão de uns sapatos vazios faz-me imaginar sobre eles a pessoa que os usou ou que poderia tê-los calçado, e vê-la de facto ao meu lado - fora dos sapatos - ou não a ver em absoluto irrita-me terrivelmente ( por isso , para mim, contemplar a montra de uma sapataria tradicional pressupõe a figuração automática de multidões firmes, incómodas e estreitas).
Qual é a idade da alma do homem? Gosto de acreditar que a alma não envelhece...Gosto da deambulação de leopold, através da sua existência: apeteceu-me reler joyce...
If Socrates leaves his house today he will find the sage seated on his doorstep. If Judas go forth tonight it is to Judas his steps will tend. Every life is in many days, day after day. We walk through ourselves, meeting robbers, ghosts, giants, old men, young men, wives, widows, brothers-in-love, but always meeting ourselves.
Não mais é Leopold, ali sentado, a ruminar a matutar em reminiscências, o tranquilo agente de publicidade e proprietário de uma modesta maquia em títulos. É o jovem Leopold. Ali, como se fosse um arranjo retrospetivo, um espelho dentro de um espelho ( eia! " presto"), a si próprio se contempla.V~e-se a jovem figura de então, precocemente viril, caminhando numa fria manhã da velha casa, em ..., em direção à escola, a pasta dos livros à tiracolo e dentro dela um bom pedaço de pão de trigo, ideia de sua mãe. Ou é a mesma figura, decorrido coisa de um ano, com o primeiro chapéu( ah! esse é que foi um dia!) já no seu caminho , um viajante a sério da firma familiar , equipado com um livro de requisições, um lenço perfumado( não apenas para exibir) , a maleta de brilhante quinquilharia( ah, coisa já do passado!) e um cascás repleto de sorrisos complacentes, para esta ou para aquela dona de casa, meio convencida, a fazer contas pelos dedos ou para uma virgem em florescência que timidamente aceita ( mas o coração, diz-me?) os seus estudados beija-mãos. O perfume , o sorriso mas, mais do que estes, os olhos escuros e os modos untuosos ajudavam-no a trazer para casa, ao cair da noite, mais uma comissão para o chefe da firma, sentado com o cachimbo de jacob , depois de semelhantes trabalheiras, ao canto da lareira paterna ( um prato de macarrão, bem podeis rstar certos, está a ser aquecido), lendo através de redondos óculos de aros de tartaruga algum jornal da Europa de um mês atrás. Mas, ela, "presto" , o espelho embacia-se e o jovem cavaleiro andante retira-se, murcha, reduz-se a um pontinho na névoa. Agora, por sua vez, é ele paternal e os que estão à volta dele podiam ser seus filhos. Quem pode dizer?
Deambulando...he llegado hoy hasta aquí, sin pena ni gloria
con mis sentidos alertas y preparados para gozar y penar ,
perdonar y ser perdonado , cantar y llorar , vivir y gozar...
Deambulando...supe ver la entrega del cuerpo deseado
y me enseñaron a amar sin retaceos ni miradas en el vacío
que trasmiten el hartazgo que solo da la pasíon fingida...
Deambulando...he llegado hasta aquí , hasta estas palabras
que son el premio de saber que todo es por algo mágico,
que solo lo puedes ver si escuchas a tu ángel en la mente...!
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Take me out tonight Oh take me anywhere I don't care, I don't care, I don't care...
Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.
O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.
Damos commumente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que não lhe compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém, não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, ou tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar —, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.
Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo, aconselho-vos o amor ao longínquo.
Assim falava Zaratustra
Labels:
alberto_caeiro,
bernardo_soares,
bolaño,
camões,
campos,
flaubert,
garrett,
hesíodo,
james_joyce,
javier_marías,
musil,
nietzsche,
nirvana,
orwell,
pessoa,
peter_green,
philip_gourevitch,
zamplini
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















