Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 26 de novembro de 2023

Normalidades...

Rauli, um rapazinho muito delicado, quase feminino, dado à contemplação,   ávido leitor dos clássicos, é um menino de dez anos que adivinha o futuro e se sente como uma mulher que nasceu no corpo de um homem. Como Cassandra (filha dos reis de Troia, irmã de Heitor e Páris, sacerdotisa de Apolo), Rauli tem o dom da profecia e a maldição de ninguém acreditar nele. Desde cedo sabe que irá combater em Angola e que morrerá trespassado por balas e pela homofobia. O romance testemunha também o colapso do sonho do «homem novo» e da utopia internacionalista. Lírico e histórico ao mesmo tempo, Chamem-me Cassandra reconstrói o quotidiano da Cuba dos anos 70, através da ligação do mito clássico e de figuras da guerra de Troia ao enredo da guerra de Angola. (Texto da contracapa, adaptado)

... quero passar muito tempo a olhar para o mar até o mar se gastar nos meus olhos e não ser mais do que uma linha branca que faz chorar. 

Gastei o dinheiro do transporte em livros e arrrasto os pés para levantar o pó e depois respirá-lo... 

Vejo mortos.(...) Também adivinho coisas. Eu sei como a russa vai morrer... 

Afundo-me nas ideias de Kierkegaard quando volto da escola. Afundo-me nas suas ideias  como quem regressa a um porto seguro onde já esteve...

A minha mãe penteia-me, põe-me um laço azul e chama-me Nancy.Queri ir para o quarto para continuar a ler Kierkegaard , ir assim, vestido de mulher.


A minha mãe também julga que eu sou maricas, que gosto de homens, mas eu não sinto nada.


Sinto-me à vontade vestida de Nancy e ninguém me reconhece e posso dizer que sou a Cassandra e ninguém olha para mim com estranheza. Sou uma rapariga que vai a uma festa...

OCAPITÃO.O capitão.O capitão. O capitão.O capitão.O capitão.O capitão.O capitão.O capitão.O capitão.O capitão.O capitão olha para mim e é como se não me visse. O capitão olha para mim, mas não olha para mim. Ocapitão olha para a mulher amada  que jaz em Cuba e é parecida comigo. Não estou dentro dos olhos do capitão, ela é que está, a que já não está.

Dedicatória que a russa escreve, na edição cubana de Anna Karenina,  que oferece a Raulito: " Para o Raulito porque gosto mais dele do que dos filhos que terei no futuro."
Foi a Svetlana que te ofereceu esta merda- diz a minha mãe quando me vê chegar com o livro.

A minha mãe chama-me maricas num entardecer de setembro, olhando-me nos olhos.

Raulito usa a palavra "anjo" num poema e é acusado de " diversionismo ideológico"...Comove imaginar o sofrimento deste adolescente que não percebe quem é...Eu não tenho futuro , sou uma árvore de raízes  na areia...

A mãe quer que Raulito seja Nancy, a tia precocemente, desaparecida;  o capitão vê  no soldado Raul Iriarte a mulher que ficou em Cuba e morreu...Ele  torna-se Cassandra...

O capitão chama-me pelo nome dela e dá-me um  abraço que nos consome a ambos, o abraço mais longo do mundo deu-me o capitão enquanto as balas que me vão matar descansam dentro da espingarda automática.

Jogamos beisebol e o Anna Karénina ficou aberto em cima da cama e eu penso que algém pode roubar-mo para limpar o ânus e que então ficarei mais só, mais abandonado do que nunca, apenas com os deuses, apenas com Apolo...

José, irmão de Raulito: -   "  Se o velho descobrir, mata-te,e a ele expulsam-no do partido e, provavelmente, do trabalho, está proibido de ter um filho maricas."

A alternância Cuba/ Angola não me parece eficaz, como estratégia narrativa. Desagrada-me...Também não apreciei a veracidade dos dons divinatórios de Taulito como Cassandra: tudo deveria ter permanecido no reino da imaginação....

Lejos de un dilema de época, la literatura de Gala crece en esa representación de los inadaptados: aquellos que no encajan, que incomodan y quedan a la deriva en un sistema que prefiere invisibilizarlos. El tiempo y el espacio son relativos. ¿Angola? ¿Cuba? ¿La Grecia clásica? Lo que importa, más allá de eso, es el escenario de tragedia anticipada, cómo la condición humana sigue sujeta a mandatos que la arrastran hasta su propia perdición>Él siente que lo es, y que está viviendo en un cuerpo prestado, pero no por ser transgénero –que lo es– sino que es como una reencarnación.


 O que eu adoro este poema...



















Sempre soube que na minha cabeça alguma coisa não funcionava muito bem.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Arte, literatura e teatro...


A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica.


Arte é espírito, e o espírito não precisa ,em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade,a colectividade.A meu ver, não tem direito a fazê-lo, devido à sua liberdade e à sua nobreza. Uma arte que " se mete com o povo", fazendo suas as necessidades das massas, do zé-povinho, dos ignorantões, cai na miséria.Prescrever-lhe isso como dever,admitindo-se, talvez,por razões políticas,unicamente uma arte que a gentinha possa compreeender, é mesmo o cúmulo da grosseria e equivale a assassinar o espírito. Este- eis a mnha firme convicção - pode compreender os mais audaciosos, os mais incontidos avanços, as tentativas e pesquisas menos acessíveis às multidões, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elvado, indirectamente o homem, e à la longue até os homens.
Obviamente, por índole, Adrian devia ter a mesma opinião. Mas agradava-lhe renegá-la, e provavelmente eu enganava-me redondamente ao interpretar as suas palavras como negação da soberba. Era antes um esforço de se mostrar afável, proveniente da suprema altivez.


A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável - e em geral impossível - que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo - como fazem grande numero de chefes operários - deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem.

Artes de aperfeiçoamento
Tornar o útil agradável, eis a base de artes de aperfeiçoar; porque tornar o útil agradável é aperfeiçoar o útil, tornando-o mais útil, fazendo-o servir em si o seu fim directo, que constitui a sua utilidade, plus [?] outro fim, indirecto, que é o de tornar essa utilidade duplamente útil. A escala é da mais directa agradabilização do útil para a menos directa; da arquitectura, portanto, através da escultura para a pintura.
Artes de influenciar.
São essencialmente as artes de civilização. O seu fim é transmitir civilização, passar de umas gerações para outras o resultado do trabalho psíquico de cada uma. As artes de influenciar são portanto: a) representativas de resultados civilizacionais, e não de tipos psíquicos (...) . O ideal do artista influenciador é alto na proporção em que ele tem consciência do seu mister, na proporção em que tem consciência do seu papel de influenciador de gerações futuras, e da sua missão de quem deve deixar perenemente aumentado o património espiritual da humanidade. Os poetas antigos tinham esta consciência; a decadência dela entre os modernos, substituída pela ânsia da popularidade imediata, apanágio finalista das artes inferiores, é um dos mais fortes sintomas da nossa degradação moral (espiritual) .
Uma obra sobrevive em razão de 1) sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos; 2) a sua profundeza psicológica; 3) carácter abstracto e geral da emoção que emprega. A obra sóbria de emoção tende mais a sobreviver porque a emoção moderada é característica de todas as épocas, porque os de emoção moderada a apreciam naturalmente; e os de emoção irregular têm a sua média na emoção moderada. De mais a mais, as emoções excessivas variam de época para época; são, portanto, o que há de passageiro em cada uma. As emoções moderadas caracterizam todas; isto é, todas as aceitam, embora algumas, por o que têm de transitório, prefiram que se exagere. A excessiva compaixão pela humanidade, por ex., caracteriza o romantismo. Fora do romantismo, essa emoção não existe. Mas a compaixão nobre pelas dores humanas é um sentimento humano de todas as épocas.


1. A base de toda a arte é a sensação. 2. Para passar de mera emoção sem sentido à emoção artística, ou susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelectualizada. Uma sensação intelectualizada segue dois processos sucessivos: é primeiro a consciência dessa sensação, e esse facto de haver consciência de uma sensação transforma-a já numa sensação de ordem diferente; é, depois, uma consciência dessa consciência, isto é: depois de uma sensação ser concebida como tal — o que dá a emoção artística — essa sensação passa a ser concebida como intelectualizada, o que dá o poder de ela ser expressa.

1.Toda a arte é a sobreposição às Coisas da nossa interpretação ou ideia delas. 2.A arte real é encontrar o ponto exacto de contacto entre as coisas e a nossa interpretação delas. Podemos ver uma árvore quadrada, ou azul... 3.Precisamos determinar quais as formas exteriores que os nossos sentimentos revestem, para, pintando ou descrevendo em palavras, podermos compor um estado de espírito uno às coisas. Assim, se assentarmos em que a Esperança é verde, teremos que pintar uma paisagem que olhemos em momento de esperança acrescentando verde às cores dessa paisagem... As coisas brancas serão verdes... As coisas verdes exactamente verdes, as coisas encarnadas verde mais encarnado, as coisas azuis, verde mais azul... Assim com a forma uma sensação quadrada não só impõe à tela real uma forma quadrada, mas impõe que cada coisa tenha uma forma que seja quadrada mais a sua forma habitual, isto é, com respeito a uma árvore, por exemplo, se ela é assim [...] fazê-la assim [...] de modo a caber cada num quadrado.

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.


A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis. O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

A arte consiste na organização ideal da matéria.(...) A escultura e a poesia, a idealização humana do espaço e a idealização humana da palavra, são pois as duas únicas artes grandes. A distinção pode provar-se com o uso de termos filosóficos. Na prosa o ritmo existe; na poesia o ritmo é.

Dia mundial do livro, Dia mundial do teatro :dias que já não significam nada. Nada significa nada. Progressivamente, a existência vai-se tornando uma série interminável de insignificâncias...

Vou comprar muitos livros...
Ler muitos livros e ser muito feliz.
Basta comprar e ler muitos livros
Para ser feliz, muito feliz...

O que será ser feliz?

Os livros podem também ser um ponto de encontro, um elo indestrutível entre duas pessoas... A leitura deixa de ser um ato solitário: aproxima os que leem e ,irremediavelmente, afasta todos os outros. Só se pensa no outro eu que, nesse momento, percorre os mesmos grafemas, sentindo o mesmo prazer ou idêntico desagrado. Corre-se um risco: o possível romance que se idealiza viver passar a ser mais importante do que aquele que se lê...
Talvez este tema venha a ser um capítulo do silêncio da matemática... Pensando melhor, esta não história tão minha, apesar de ter sido nossa, será manuscrita no livro em branco, com palavras que ainda não foram inventadas....

…este livro suave. É quanto resta e restará duma das almas mais subtis no raciocínio, mais debochadas no puro sonho que têm visto este mundo. Nunca - eu o creio - houve criatura por fora humana que mais complexamente vivesse a sua consciência de si-próprio. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir. Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida.De V[icente] G[uedes] não se sabe nem quem era, nem o que fazia, nem (…) Este livro não é dele: é ele. Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito na sombra, misterioso (...)Para V[icente] G[uedes] ter consciência de si foi uma arte e uma moral; saber foi uma religião. Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um [?] aristocrata completo.

A leitura pacifica: faz esquecer o mundo em que se é uma peça desajustada...O diálogo que se estabelece com os narradores é gratificante.

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.

É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa.
Não me parece: há livros que dão sentido à nossa vida, podemos existir através dos livros. Também podemos existir através das histórias que ficcionamos e deixarmo-nos embalar pelo seu enredo...

O casamento como convenção. O sexo como redenção.

Naturalmente, por negligência, acabou por se desligar de todas as resoluções que havia tomado. Uma vez faltou à visita, no dia seguinte faltou às aulas, e, tomando o gosto pela ociosidade, pouco a pouco acabou por não voltar lá mais.

Antes de casar, Emma julgara sentir amor; mas a felicidade que deveria resultar desse amor não aparecera, pelo que se deveria ter enganado, pensava ela. Procurava agora saber o que se entendia, ao certo, nesta vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que, nos livros, lhe haviam parecido tão belas.

Comprar livros e lê-los são duas coisas completamente diferentes e , por vezes, até opostas. Isto acontece quando a quantidade de livros que se compram supera o tempo que se tem para os ler. Existe, até , um nome para a suposta doença de acumular livros, mesmo sabendo que não vão ser lidos. Quais são as razões pelas quais compramos livros? Uma dessas razões, um tanto inexplicável, é comprar por mero impulso, devido a uma necessidade indescritível de ter o livro em nosso poder. Este impulso pode nascer de um simples estado de espírito.

Eu sou o obscuro e paciente pescador de pérolas, que mergulha nas águas mais profundas e volta com as mãos vazias e o rosto azulado ...Alguma atração fatal me arrasta para os abismos do pensamento, para aqueles recantos mais íntimos que nunca cessam de fascinar o forte. Hei de passar a vida apenas contemplando o oceano da arte, onde outros viajam ou combatem; e, de vez em quando, hei de me entreter mergulhando em busca daquelas conchas verdes e amarelas que ninguém há de querer.

Os seus olhos pareciam-lhe maiores, especialmente quando estava a acordar e abria e fechava as pálpebras muitas vezes de seguida; eram negros quando estava à sombra e azul-escuros à luz do Sol; e pareciam ter camadas de cor sucessivas, que, mais espessas no fundo, se tornavam mais delgadas na superfície, que parecia esmaltada. ...Os seus olhos negros pareciam ainda mais negros ...Fixando-o com os seus grandes olhos negros muito abertos... Os seus olhos nunca tinham sido tão grandes, tão negros, tão profundos...

Estou cansada de ler, por vezes, apetecia-me ser...só ser. Como é só ser? Ser só eu sei...


Meu coração, não batas, pára!
Meu coração, vai-te deitar!
A nossa dor, bem sei, é amara,
A nossa dor, bem sei, é amara...
Meu coração, vamos sonhar...
Ao mundo vim, mas enganado.
Sinto-me farto de viver...

Basta, por Deus! vamos dormir...



Oferecer um livro é, além de uma gentileza, um elogio...Li este livro, ainda "menina e moça"... Foi-me oferecido, como prenda de aniversário, devido ao meu temperamento melancólico... Motivou-me os primeiros versos que escrevi. Tenho saudades da menina que chorou ao lê-los, nostalgia de um tempo em que sabia sentir. Entretanto, conheci fernando pessoa que tornou toda a poesia portuguesa anterior num deserto totalmente inexpressivo... Há seres assim: ocupam demasiado espaço...

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros.(...) Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. ... A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os mestres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi...

Amo aqueles livros em que sinto que o seu autor, que pode ter morrido séculos antes de eu ter sido engendrado, se dirigia a mim, a mim pessoal e concretamente, a mim em confidência.

Amava aquela sala coberta de volumes...e a riqueza que é saber-se que o rubi vem da índia(...) e a flor ,conhecida em latim por lilium, se chama em grego krinon e em hebraico susannah. Verificou depois que os livros mentem e divagam, tal como os homens...

Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados, não saberemos a que nos agarrar, o que seguir, que amar, que odiar, que respeitar,que desprezar? Mesmo sermos homens nos pesa - homens com um corpo real, nosso,com sangue; temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa e procuramos ser uma espécie de homens globais fantasmásticos.

Intertextualidades possíveis entre os meus autores/ textos favoritos...

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!




Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.


essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.

Não é Ricardo Reis quem pensa estes pensamentos nem um daqueles inúmeros que dentro de si moram, é talvez o próprio pensamento que se vai pensando, ou apenas pensando, enquanto ele assiste, surpreendido, ao desenrolar de um fio que o leva por caminhos e corredores ignotos.

a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

sentiu na casa uma presença, talvez não fosse ainda a solidão, era o silêncio, meio-irmão dela

O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas.Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual.

O que aqueles loucos e vagabundos tinham como grande qualidade era precisamente o facto de agirem parecendo não terem espectadores, parecendo estarem sós no mundo. E realmente estavam. Não eram amados, não amavam, não eram odiados: o terreno estava livre para poderem ser livres.
E os homens livres excitavam Lenz Buchmann. Eram, por tudo isso também, os espectadores ideais.


Pousadas sobre o colchão as mãos transmitiam-lhe leveza – estava liberto do fardo de ter de agarrar em coisas e os seus dedos, cada um deles, pareciam sentir essa liberdade e, com serenidade completa, esperavam. O resto do corpo não existia. Pelo menos, não o sentia. Desaparecera.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.(...) Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto — o que diríamos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; — o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.



Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca.


Os melhores livros são os que nos contam aquilo que já sabíamos. (É também por isso que adoro reler...)


É fácil mudar de vida, é fácil mudar de ocupação, é fácil mudar de amor, tudo é mais fácil do que mudar livros de um espaço para outro...Ficam deslocados, tristes, na nova casa. Parece que sentem que alguém não os quis e que, por isso, tiveram de ser realojados... É estranho,mas até nos olham com ar de censura... Um livro conta sempre duas histórias e, ao ser transportado para outro local, para outra gente, passa a contar só uma. Será que os livros também sentem saudades??

Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.

Não gosto de literatos, nem posso suportar as suas mentiras.Falam para não se ouvirem. Se se ouvissem, saberiam que não são nada,e nunca poderiam mais falar.

Emendo-te rasuro-te preencho-te assino-te destino-te comando-te és o lugar concreto onde procuro a noite de passagem o abrigo seguro a hora de acordar que se diz ao porteiro o tempo que não segue o tempo em que não duro senão um dia inteiro. // Invento-te desbravo-te desvendo-te surges letra por letra, película sonora, do sendo à vogal do tema à consoante sem presença no espaço sem diferença na hora. És a rota da Índia o sarcasmo do vento a cãibra do gajeiro o erro do sextante o acaso a maré o mapa a descoberta dum novo continente itinerante.

Há palavras que andam perdidas porque foram completamente olvidadas: poucos as sabem , ninguém as usa... Mesmo os que as conhecem, raramente as aplicam, até por pudor. Pareceria pretensioso, talvez até risível, referir "Tu, a minha insonte ilusão"..

Encontrei em F. de C. e no seu amigo Assis Esperança os pilares da minha relação com a literatura e o jornalismo, e uma via da oposição à Ditadura. Queria conspirar, correr riscos, ser preso, tornar-me herói ou mártir do regime - e vingar os equívocos do passado, insubordinar-me contra a ordem, a censura à imprensa, a guerra colonial, a pobreza, a emigração, o colonialismo. O escritor habitava então uma suite do rés-do-chão do hotel Mira Parque. Os seus livros enchiam as montras das livrarias, os jornais falavam de traduções, da candidatura ao Nobel (com Jorge Amado), tomada a sério por muitos - e por ele nem por isso. Quando precisava de terminar um livro, retirava-se para a Madeira, hospedando-se durante meses num hotel e regressando de lá com uma pasta preta carregada de mistérios literários. Como era surdo, julgavam-no desconfiado e manhoso como a raposa - apesar de humilde e fraterno. Abominava padres e freiras, não tanto pelo que eram, mas por sustentarem o modelo social e político do mundo. Para escrever A Missão, contou-me que fora encontrar-se com uma comunidade religiosa, para ficar a saber como é que os padres se tratavam entre si. Tinha um medo pavoroso da morte, fim absoluto de tudo, matéria sobre matéria, lama sobre a terra. Na sua relação com os pares, eu estranhava o excesso dos elogios a todos, sem exceção. Louvava-os como se recuasse dentro de si, a esconder-se da fama e da vida que os livros lhe davam num país onde ninguém (exceto Namora) vivia dos direitos de autor. Línguas maldosas diziam que os exaltava só para que não dissessem mal dele - o que eu levava na conta de uma infâmia. Aduziam outros que possuía um ego maior que a légua da Póvoa; que, escrevendo mal, fora projetado no exterior por bons tradutores, como Blaise Cendrars, em francês, língua a partir da qual se fizeram traduções para outras línguas.
Recusei-me a crer nessas minudências. Já não era então o meu primeiro ídolo literário... Mas permanecia meu mestre e mentor. Apostava no meu talento e na minha sensibilidade. Esperou o meu primeiro livro até à morte. Dediquei-lho postumamente: uns tristes contos que depressa bani. Vi-o morrer e começarem a esquecê-lo, tão injustamente como agora. Chegara uma revolução, a do 25 de Abril. Descarnados, os seus livros colidiam em silêncio com a nova liberdade literária, proclamada aos gritos, por entre o clamor da festa democrática. Hoje como ontem, tardamos em refazer a justiça a um escritor que nos anunciou o Neorrealismo, que inventou com dignidade e valentia, do lado dos que hoje comem e vivem melhor, mas nunca foram visitá-lo na sua sepultura na serra de Sintra, onde repousa sozinho entre as árvores, sob um banco onde qualquer um de nós pode sentar-se a descansar.


A vida é o pânico num teatro sem chamas.

O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

O mundo assim como está não é suportável, por conseguinte, preciso da lua, da felicidade ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo.Bastaria existir o impossível. O impossível! Procurei-o nos limites do mundo, nos confins de mim mesmo...Não consegui nada. A minha liberdade não é boa.
Como é desgostante ,após ter desgraçado os outros, sentir a mesma cobardia na alma... Se tivesse tido a Lua, se o amor fosse suficiente, tudo estaria modificado...

Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas,se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente,e com que decresça o sofrimento,se não posso impedir os seres de morrerem? ...Não podendo agir sobre a ordem do mundo,é indiferente que durma ou continue acordado.

CESÓNIA: Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.
CALÍGULA: Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.


É preciso ,ainda, que tentes compreender o que te vou dizer, que sofras as minhas ofensas, que sejas vítima do meu amor.
À história, Calígula, à história! Ainda estou vivo!

Esta leitura é uma experiência perturbadora. A personagem fica dentro de nós, entranha-se, nunca mais a conseguiremos abandonar. É um impacto persistente que nos persegue. Perturba , destrói-nos, porque questiona verdades que se nos afiguravam como definitivas. Seria bem mais fácil se fosse possível enquadrar Calígula no mundo das certezas e das convicções estabelecidas. Como seria cómodo considerá-lo louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como um doente e um anormal... Como seria fácil. Quem é o calígula de camus? Quem é o meu calígula? Quem foi, na realidade, este bizarro imperator que nomeou cônsul o seu cavalo? Quem é gaius iulius caesar augustus germanicus?

É a sua extravagância, o estar destinado a ser diferente, que lhe dá o nome que o tornará eterno: calígula, " o sandaliazinhas". Esta alcunha depreciativa foi posta pelos soldados das legiões comandadas pelo seu pai, que achavam graça em vê-lo vestido de legionário, mas com caligae...

O busto de calígula, existente no museu do louvre, sempre me fascinou. Depois de uma hora ou mais, numa longa fila, para ver a mona lisa, como não havia concorrência nem tempo limite para contemplar este busto, ali fiquei. Depois de ter lido camus, na segunda vez que fui ao louvre, já não confirmei se a mona lisa olhava para mim e fui logo ter com o meu calígula. Como tinha fama de "chanfrada", os meus pais nem estranharam eu estar a tentar perscrutar, naquele ar inocente, os segredos da sua alma complexa. Ali fiquei , certamente com ar apalermado, à espera que ele comunicasse comigo...


Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim. Contigo não tens nada. Não és ninguém, porque não és consciente; apenas vives.

nhe'#. Em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani....
Teatro é fingir, representar, ressuscitar personagens… Apetece-me voltar a ser m… É libertador dizer, só dizer, palavrar, diretamente para o papel, numa escrita totalmente autotélica, que significa tão somente no universo discursivo de um único ser, mas que, não inocentemente, fornece pistas indeléveis, encriptadas, que podem ser reveladas, como se de um puzzle se tratasse... É aliciante, eu que sou a criadora de significantes e significados, por vezes, passado um tempo, ter dificuldade em decifrar... Sinto-me deus, um deus irrelevante e efémero, mas um deus...

Feel the vibe Feel the terror Feel the pain It's driving me insane I can't fake For God's sake, why am I driving in the wrong lane?Trouble is my middle name But in the end I'm not too bad Can someone tell me if it's wrong to be so mad about you?


Desassossegas, causas medo, assustas, arrepias, mas...fascinas. Será a loucura que desencadeia o fascínio ou é o fascínio que potencia a loucura? Qual é causa? Qual é consequência?
And nobody seems to like him They can tell what he wants to do And he never shows his feelings But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning around...

Round and round and round He never listens to them He knows that they're the fools... I can't get these memories Out of my mind And some kind of madness Is starting to evolve And I, I tried so hard to let you go But some kind of madness Is swallowing me whole, yeah...


Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.

Embora se tente identificar com jean baptiste clamence, nunca conseguirá atingir a perfeição do seu cinismo requintadamente superior. Cá vai representando o seu papel o melhor que pode, mas emperra sempre numa ansiedade afetiva, de querer um qualquer coisa impossível, o que a torna muito mais similar a um excessivo calígula. Ela? Calígula? Limito-se a ser uma insignificante personagem secundária.
Estou saturada de representar um papel: saio, temporariamente, de cena e permaneço nos bastiores, a observar os /as protagonistas...


É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, E os vivos apaixonam-se por outro vivos, e lembram-se, por vezes do enorme número de mortos; e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável. E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos - os que nos vão sobreviver no tempo - e é preciso sair, e não basta sair para a rua correr, é preciso sair dos ossos, fugir ao obrigatório, à casa, encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta um mapa, fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos. Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, e alguns outros assuntos, mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar. E é por isso tudo, e por quase tudo o que faltou dizer, é por isso que é bom, por vezes suspender a noite e o coração, e obrigar o cérebro à paragem surpreendente. É por isso que é bom, por vezes, ocuparmos o corpo no acto de sentar, e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro, que nos salve, por enquanto, antes de morrermos.
Como gosto deste texto...

Porque o encenador é, na verdade, um coreógrafo de corações, mas também de inteligências. E uma e outra coisa, em certas alturas, são o mesmo.

Porque o teatro deve ser um banquete mortal, Mas deve também, por vezes, ser o banquete imortal. O que não deve é ausentar-se de mexer na vida. Senão reduz-se a fósforo; E os incêndios: apagam-se.

O Bilhete importante: O teatro é (deve ser) o que seja capaz de fazer o espectador pedir:
- Dê-me um bilhete para mudar de vida.
O teatro é, deve ser: 1 bilhete para mudar a vida


O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Realidades e ilusões...

"Há momentos em que és realidade; noutros, uma mera ilusão , não de ótica, mas de perspetiva: uma ilusão que teve como ponto de partida uma outra ilusão, uma espécie de realidade virtual, uma memória futura de um passado inexistente; nunca foste nem serás um sonho..."

Just a song we shared I'll hear Brings memories back when you were here...

Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...

A realidade nem sempre se toca fisicamente. As imagens que tens na cabeça não são frases sequer. A realidade está inscrita numa coisa mais ampla e esponjosa. Nem sempre tocas no que existe, há coisas que existem com força e não são elementos com volume. Percebe os pressentimentos assim. A realidade desaparece no momento em que um pressentimento avança.

Não é frequente um livro, que não considere superior, aparecer mais do que uma vez, nestas Leituras. As paixões de rosa montero são uma exceção porque temo ter sido pretensiosamente precipitada no meu julgamento inicial. Apesar de construído a partir da realidade, o que lhe retira, só por si, o estatuto de grande obra, tem qualquer coisa que, entretanto, me fez ser mais indulgente na crítica. Qual o motivo? Apaixonei-me pelo retrato dos amores de wilde... Quase me senti aceder à sua alma perfeita... Sempre tive uma enorme fascínio pela vida do criador de dorian gray, mas nunca contactara com uma narrativa, simultaneamente lúcida e emotiva e, presumivelmente, verdadeira, do que foi a esplendorosa existência de um ser destruído, de forma ignominiosa e cruel, por essa outra gente que ele tanto desprezou...
Acabei de ler este capítulo e chorei...sei lá se por ele, se por mim... Chorei, afinal, por todos os génios, destroçados só porque o foram... Como sou inconstante, mudo de opinião apenas porque a narradora me consegue emocionar...

Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.

Tudo será fácil porque é tudo para mim sonho. Mando-me sonhá-lo e sonho-o. Às vezes crio em mim um filósofo, que me traça cuidadosamente as filosofias enquanto eu, pagão, namoro a filha dele, cuja alma sou, à janela da sua casa. Limitam-me, é claro, os meus conhecimentos. Não posso criar um matemático... Mas contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais... Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos, nem o meu carácter... Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos a mim prório. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou bocados de personagens de dramas meus.
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso. É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, quando um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele — sem nenhuma masturbação mais que mental — ter uma ejaculação quando um momento desses chegar no romance. Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será muito maior, mas o prazer é completamente mais intenso.
O mais alto grau do sonho é quando, criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjunta e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encinzamento do espírito a que isto leva, e é difícil, confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo... Mas o triunfo é tal. Este é o único ascetismo possível. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.


Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Ninguém alguma vez escreveu, pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.O inferno é a realidade real..Se um homem misturar absinto com a realidade obtém uma realidade melhor -mas também é certo que o absinto fica pior: nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto...

O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque, já não penso em ti.

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.

Eu inventava para mim aventuras e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida. Tantas vezes me aconteceu ofender-me - por nada, propositadamente...fomentava a ofensa por dentro, mas levava a coisa a um ponto tal que, por fim, sentia-me de facto ofendido... Aconteceu-me sentir vontade de me apaixonar... O que eu sofri... No fundo da alma, eu não acreditava que sofria, agitava-se dentro de mim um sarcasmo, e , mesmo assim, sofria, ainda por cima a sério, e muito; tinha ciúmes, perdia as estribeiras...

Nunca consegui decidir se uma coisa me aconteceu ou se a imaginei.Pouca diferença fazia ter encontrado um homem ou que ele só tivesse existido num livro...Cada vez que a minha mente fornecia uma recordação há muito suprimida,era apenas outra peça,e havia tão poucas peças e o quebra-cabeças era tão grande!

O tempo passa e eu espero junto à porta...os cegos guiam os cegos e os surdos gritam avisos uns aos outros até que as suas vozes se percam

Na minha cabeça,telefonava a alguém, e essa pessoa convidava-me para sua casa,mas,a partir do momento em que lá entrava,compreendia que tinha sido um erro. A conversa esmorecia,eu gaguejava,morria por me ir embora. E assim,pensando nas pessoas que conhecia,eliminava-as,uma a uma, convencido,ao considerá-las isoladamente, de que não tinham interesse...

Não desejara verdadeiramente Lanine: deixara-me levar....Infelizmente, as nossas decisões são sempre mais plásticas do que desejaríamos e,assim, ao acordar, compreendi que a minha noite com Lanine perdera o que existia já de si sem qualquer atracção.

Escrevi outra vez durante toda a noite e...decidi não me deitar. Durante todo este tempo mal pensei nas pessoas da pensão..no meu trabalho e.Tudo o que estivera disperso parecia resolver-se por si mesmo no meu trabalho e, durante aqueles dois dias, não fui infeliz.

As relações sociais, como as relações económicas,ainda não dependiam da vontade dos homens. Excepto para mim.Eu vivia,e era eu só, em relação a quê? O mundo rodaria, e eu que só podia exercer uma vontade durante o tempo que o dinheiro durasse, não exercia coisa alguma e passava horas a sonhar em cima da cama.

Desde sempre, o homem tem organizado as sociedades com base em privilégios : a liberdade é uma ilusão, a igualdade uma utopia...

Por qualquer motivo,não queria abandonar no quarto a minha máquina de escrever...libertei-me dela numa casa de penhores. Arrastado or um estranho impulso,que me obrigava a levar tudo aos seus extremos,empenhei-a num nome que não me pertencia,falsa identidade de alguém que morava numa rua inexistente.Mas havia ainda a minha novela. Enfiando-a num envelope,enderecei-a à minha nova identidade...Iria buscá-la sim.

Testamento de Mcleod: Para Michel Lovett, a quem, pela primeira vez na minha vida que agora chega ao fim,me julgo capaz de oferecer um pouco de amizade desinteressada, lego em herança o remanescente da minha cultura socialista. Possa ele viver o suficiente para assistir ao renascimento da Fénix.

O tempo passa. Eu trabalho e estudo, olhos fixos na porta, atentos ao menor alarme. Entretanto ...o mundo continua a girar...a marcha da guerra acelera sem obstáculos à sua progressão....os cegos serão conduzidos por cegos, os surdos gritarão avisos a outros surdos até que as suas vozes se percam totalmente.

A realidade assedia constantemente o artista visando impedir a sua evasão. Que astúcia não supor a fuga genial! Terá de ser a de um Ulisses às avessas, que se liberta da sua Penélope quotidiana e navega, entre escolhos, rumo ao feitiço de Circe.
Gostei da ideia de um Ulisses que navega rumo ao feitiço de Circe...

1. A Ilusão do mundo
2. A Ilusão do Amor.
a) o sentimento.
o s[entimento] não existe
b) a posse.
a posse não existe
c) o gozo.
o gozo não existe.
3. A Ilusão da Força
A Ilusão da Realidade
A. As Ilusões dos Instintos
B. As Ilusões do Pensamento.
C. As Ilusões do Ideal (a) a Il[usão] da Liberdade (b) a Il[usão] da Felicidade (c) a Il[usão] da Força

O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.


Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.

As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real.

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos morno sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para quê há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele ralará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.


A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade insconciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espetáculo está em toda a parte.

O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.


Toda a vida das sociedades em que dominam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espectáculos.

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade acorrentada, que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sonho.

A existir, neste século, um escritor a quem Debord aceitaria comparar-se, esse escritor é Karl Kraus.Tanto em Debord, como em Kraus, a língua é a imagem é o lugar da justiça.

Demagogia- Palavra de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo".Etimologicamente, não tem qualquer conotação pejorativa, só existindo uma evolução semântica após a morte de Péricles. Aristóteles, em A Política, considera a demagogia como a corrupção da democracia, assim como a tirania corresponde à corrupção da monarquia. Num sentido figurado, demagogia é a prática dos que aparentam honestidade com o intuito de obter favores pouco claros,designadamente atrair o reconhecimento ou admiração dos outros.
Será que tenho de acrescentar mais uma característica ao meu perfil? Yo soy yo y mis circunstancias...

O segredo do demagogo é tentar parecer tão estúpido como o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto como ele.

O autêntico dizer não só diz algo, como diz alguém a alguém. Em todo o dizer há um emissor e um receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem. Todo o vocábulo é ocasional. A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem a sua eficácia. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente o seu leitor e este percebe como se de entre as linhas saísse uma mão ectoplástica que tacteia a sua pessoa, que quer acariciá-la – ou bem, mui delicadamente, dar-lhe um murro.(...)
Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação, sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.
Esse costume de falar para a Humanidade, a forma mais sublime e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi adotado até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes dos seus próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Amor e amores...

El centro del amor
no siempre coincide
con el centro de la vida.
Ambos centros
se buscan entonces
como dos animales atribulados.
Pero casi nunca se encuentran,
porque la clave de la coincidencia es otra:
nacer juntos.
Nacer juntos,
como debieran nacer y morir
todos los amantes.


Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...


Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.
Se te vejo não sei quem sou; eu amo.


A quem teria Adrian aberto o coração? A quem teria acolhido na sua vida? Tais atitudes não existiam nele. Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro, sem a perceber. A sua indiferença era tão grande que só raramente se apercebia da companhia em que estava (...)Inclino-me a comparar a sua solidão com um abismo, no qual murgulhavam os sentimentos que os outros lhe ofereciam. Em torno dele reinava frieza ...

— Consideras o amor a mais forte de todas as paixões? — perguntou ele.
— Conheces outra mais forte?
— Sim, o interesse.
— Imagino que esse termo signifique para ti um amor privado de qualquer calor animal.
— Proponho que aceitemos essa definição — respondeu, rindo. — Boa noite!


A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.


Nunca amei ninguém. O mais que tenho amado são sensações minhas - estados da visualidade consciente, impressões da audição desperta, perfumes que são uma maneira de a humildade do mundo externo falar comigo, dizer-me coisas do passado (tão fácil de lembrar pelos cheiros) isto é, de me darem mais realidade, mais emoção, que o simples pão a cozer lá dentro na padaria funda, como naquela tarde longínqua em que vinha do enterro do meu tio que me amara tanto e havia em mim vagamente a ternura de um alívio, não sei bem de quê.

É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu; transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.

(O amor a certos livros tem um efeito devastador: depois de thomas mann, de kafka, de gmt, de saramago ,de camus... é difícil tentar ler autores menores...Tal como depois de conhecer fernando pessoa, só é possível gostar de alguns poemas, mas nunca mais consegui gostar de outro poeta ...)

( Há uns oito anos escrevi uma novela intitulada "um amor diferente" , que, num momento de fúria, apaguei do computador... Arrependi-me, mas talvez ainda a consiga reconstituir... )

Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo. (...) Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro vitral... Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a humanidade passando... (...) E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o Sol nos bata nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)

Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo. O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.
— De que havemos de falar?
— De qualquer cousa. Do mistério das cousas e das formas das flores. (...)
— Às vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.


Caeiro escreveu talvez o único poema de amor de que gosto verdadeiramente:

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.



A única velharia que chegou intacta
ao estúpido século XXI
é a do amor. A população é dispensada
de se dirigir a um centro
que entregue intacto o instinto
amoroso, pois recebe-se essa coisa obscura logo
ao nascer e morre-se com ela. O amor
como coisa obscura que afina os dias.


Os outros e o Amor

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus


O que particularmente me indignava contra mim, nestes momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia de muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do factor social no jogo desequilibrado das minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. (…) E assim eu, o homem de inteligência e de desprendimento, perdia a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo. Lembro-me ainda, com uma precisão em que intercala o perfume vago do ar da Primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel.(…) . Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio...

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ... E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Amores grandes...
O amor, esse ser invencível, doce e sublime,que desata os membros, de novo me socorre. Ele agita o meu espírito como uma avalanche sacode as encostas. Lutar contra o amor é impossível, pois, como uma criança faz, ao ver sua mãe,sinto-me impelida para ele. Minha alma está dividida: algo a detém aqui,mas algo lhe diz para no amor viver...

Nada podeis contra o amor, contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis. Podeis dar-nos a morte, a mais vil, isso podeis. E é tão pouco!

El centro del amor no siempre coincide con el centro de la vida./Ambos centros se buscan entonces como dos animales atribulados. Pero casi nunca se encuentran, porque la clave de la coincidencia es otra: nacer juntos. Nacer juntos, como debieran nacer y morir todos los amantes.

A cidade está deserta, E alguém escreveu o teu nome em toda a parte: Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. Em todo o lado essa palavra Repetida ao expoente da loucura! Ora amarga! Ora doce! Para nos lembrar que o amor é uma doença, Quando nele julgamos ver a nossa cura!

Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira de tornar de cristal a mais sentimental e baça bebedeira. Mas ou seja que vou envelhecendo e ninguém me deseje apaixonado, ou que a antiga paixão me mantenha calado O coração num íntimo pudor, — Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor.

No tenemos un lenguaje para los finales,para la caída del amor,para los concentrados laberintos de la agonía,para el amordazado escándalo de los hundimientos irrevocables./ (...) Quizá un lenguaje para los finales exija la total abolición de los otros lenguajes, la imperturbable síntesis de las tierras arrasadas.

Não podendo suportar o amor, a igreja quis, pelo menos, desinfectá-lo... Então, inventou o casamento.

A Idade só se aplica às pessoas Vulgares. A tendência para colocar uma ênfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres. É coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experiência e benevolência com a própria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas são eles próprios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles próprios são fanáticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade não é pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Tsé não é pior que Buda e o azul não é pior que o vermelho. A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude.

Transforma-se o amador na cousa amada,Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar?Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada.

Heathcliff, n'"O Monte dos Vendavais",seria capaz de matar a terra inteira para possuir Cathie,mas nunca lhe ocorreria a ideia de afirmar que semelhante crime era racional ou justificado por um sistema.Cometê-lo-ia e por aí se fica toda a sua fé. Mas semelhante atitude pressupõe a força do amor e a existência de carácter.

Amor feliz
E o certo é que nenhuma outra mulher,antes de eu conhecer Y, se me afigurou simultaneamente tão bela e tão simples, nem tão sensível na sua inteligência, nem tão inteligente na sua sensualidade.(...) A minha mulher, imersa na cinza, permanecia uma sombra intocável, uma sombra intocada; o marido de Y ,por seu turno,outra sombra intocável, e, ao que me parecia, também intocada, também felizmente intocante.

Que estranho...
Viver duas vezes a mesma história...
Há mitos eternos...


Procurar o sonho é procurar a verdade, visto que a única verdade, para mim, sou eu próprio. Isolar-me tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.

Conhecemos as pessoas durante anos...guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis... A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos... até que um acontecimento definitivo ...vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.

Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias; ou ter morrido até neste preciso instante. Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber da tua morte. A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata do luto: a de passar, anónima, à beira do teu esquife, para mim lamentando que não seja uma gôndola; a de ser simplesmente, e entre muitas outras, a figura provável de alguma antiga aluna. E só nesse momento sentirei a revolta de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata diante da loucura dos mais arrebatados de teus projectos, e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga, e não ter transplantado, com maior duração, os dias de Veneza para outro hemisfério. É certo: poderias até ter morrido durante o caminho, a viagem. Ao menos, se assim fosse, eu estaria a teu lado

Quantas vezes, estupefacto, abri um livro na mesma página para encontrar a mesma frase? E que prazer saber que a expectativa de que aquele universo se preserve não sairia gorada, porque os livros de papel são estáveis, não pensam em ser outra coisa senão por dentro das próprias palavras. Precisei muitas vezes de reencontrar páginas específicas, com o seu grafismo cristalizado, o seu grafismo diamante, a guardarem‑me o que não podia perder. Amar um livro é pedir-lhe que seja sempre nosso, assim, como um amor que se conserva para repetir ou reaprender.

O que é o amor?

Amor
É sonhar perfumes e maravilhas...
É ver-te surgir,envolto em cetim,
estátua burilada pelo meu cinzel,
alma esculpida pela minha palavra.
Amor
É ver-te surgir como parte de mim...


Amor é ... Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.


El amor es... Desmayarse, atreverse, estar furioso, aspero, tierno, liberal, esquivo, alentado, mortal, difunto, vivo, leal, traidor, cobarde y animoso; no hallar fuera del bien, centro y reposo, mostrarse alegre, triste, humilde, altivo, enojado, valiente, fugitivo, satisfecho, ofendido, receloso;

Amor não é... A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração.Certas formas, certo ar voluptuoso criam o desejo.O que produz o amor não se sabe; é tudo isto às vezes, é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar.O amor não está definido, nem o pode ser nunca, O amor verda­deiro; que as outras coisas não são isso.

Amor será... O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar...

Amor discreto... Tenho barcos, tenho remos,tenho navios no mar;tenho o amor ali defronte e não lhe posso chegar...


Amor mais do que discreto


Amor indiscreto... Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim nesta minha mania de te dar o que tu gostas e depois esquecer-me irremediavelmente de ti Agora na superfície da luz a procurar a sombra agora encostado ao vidro a sonhar a terra agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba e depois matar-te e dar-te vida eterna

Amor que é teu...


Amores diferentes ...

Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e de livros..
Já percebi por que razão as minhas memórias são tão desorganizadas: muitos livros e só dois namorados...
História de amor entre Rosa Montero e a sua imaginação...
Cativou-me esta apreciação sobre a obra...
Gostei da ideia: o meu livro em branco poderá ser, em certa medida, a história da minha imaginação: os seres que vou referir, embora reais, foram mitificados...Só existem para mim, fui a sua criadora.
Qualquer narrador profissional sabe que se escreve ,sobretudo, dentro da cabeça.
Ora aqui está uma opinião que me convém: "dentro da cabeça", sou uma grande escritora, mas como prová-lo??

O escritor está sempre a escrever. Nisto consiste a graça de ser romancista: na torrente de palavras que borbulham constantemente no seu cérebro. Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos enquanto estou a passear com os meus cachorros, por exemplo: na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo. Muitas vezes escrevo mentalmente a frase perfeita e volta e meia, se não a anoto a tempo, ela escapa -me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes a tentar recuperar aquelas palavras exatas que por um momento iluminaram o interior de minha cabeça e depois tornaram a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas no meio de águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que não as consiga pescar de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.

Amar apaixonadamente sem ser correspondido é como estar num barco e enjoar: o próprio acha que vai morrer, mas isso nos outros só provoca vontade de rir, eu li isso certa vez no escritor Alejandro Gándara, que teve uma lucidez esmagadora ao escrever isso. É mesmo: sofrimentos amorosos costumam provocar nos espectadores um sorrisinho meio de troça, meio piedoso. E, apesar desse comportamento dos outros, a dor de um amor desprezado é tão aguda! É um desespero que deixa doente, uma desolação que deixa vazio. Parece curioso que os seus amigos não levem muito a sério um sofrimento que para si é tão profundo; e ainda mais curioso que você também não se comova demais quando quem sofre são seus amigos. Porque será que, quando não estamos mergulhados no martírio do desamor, damos tão pouca importância a essa desgraça? Será que no fundo da nossa consciência sabemos que a paixão amorosa é um invento, um produto de nossa imaginação, uma fantasia? E que, por isso, essa dor que nos queima por dentro é de alguma maneira irreal? Como uma pessoa apaixonada, vivi repetidas vezes essa insuportável dor amorosa que afinal você acaba sempre por suportar...

Os humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um único romance cuja escrita demora toda a sua existência e na qual reservam para si o papel de protagonista.

But something good, oh something good, oh something good, oh something good make me forget about you for now...

She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras matéria insensível de um poder esquivo. Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação Há uma embriaguez de luto em nossos atos-chave...

Que é o amor? A necessidade de sair de si. O homem é um animal adorador... Adorar é sacrificar-se e prostituir-se. Assim, todo amor é prostituição. Sempre se interrogou se esta afirmação de baudelaire também se aplicaria ao amor platónico...Julga que sim: pode existir prostituição espiritual, mas não tem certezas...

Durante muito tempo, associado a amor homossexual, o termo amor platonicus foi usado, pela primeira vez, por marsilio ficino, sendo considerado um amor centrado na beleza do caráter e na inteligência, não no aspeto físico. Vulgarmente, é entendido como um amor à distância, feito de fantasias e de idealização... Por influência do romantismo,o amor platónico começa a ser confundido com amor impossível... Numa breve pesquisa, absolutamente informal e desordenada, encontrei as opiniões mais caricatas:" é amar o vizinho da frente e ele não olhar para mim"; "é ser muito tímido". Registo,apenas,a nota sarcástica de bernard shaw: Noutros tempos houve amores platónicos, hoje há casamentos platónicos...

Há muito que ando a tentar construir uma definição, não académica, que responda à pergunta que, frequentemente,me coloco: o que é o amor platónico?

É o encontro espiritual entre duas almas que não precisam de existir no tempo e no espaço; é estar apaixonado, tão só, pela ideia de alguém, aceitando o que se crê sentir sem emoções que provoquem sofrimento; é amar com a serenidade com que se joga xadrez,enquanto o jogo for prazer, aceitando a vitória ou a derrota. O prazer reside no próprio jogo, nunca no resultado...O amor platónico não culmina no ato sexual e muito menos na procriação, ele é um processo, sem qualquer finalidade.
Uma paixão ou a convicção dela, o desejo ou o sexo, são infinitamente menos inebriantes do que a cumplicidade intelectual que o amor platónico implica; o encontro espiritual entre dois seres é um sentimento inefável, tão raro que o nome ainda não foi inventado...Pigmaleão esculpiu uma estátua e apaixonou-se por esse mármore sem alma; o amor platónico é esculpir uma alma e apaixonar-se por essa imaterialidade, como ideia, como abstração...D. Quixote ama Dulcineia na sua inexistência...Quem duvidará da intensidade do sentimento de el ingenioso hidalgo?

Este amor, da filosofia de platão, conserva, tão só, a ideia de que um amor perfeito, como a perfeição em geral, não existe no mundo real, mas apenas no mundo das ideias..
καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους; και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων, δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς. cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον..

Assim, não só desejo apresentar o meu contributo e satisfazê-lo, como, ao mesmo tempo, parece-me que convém, aos aqui presentes, venerar o deus. Se então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem passar o nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o pai da ideia.

Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em vida como após a sua morte.

O que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é, fica feio. Assim, é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar com beleza.

Ora, eu começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como há pouco Pausânias dizia que aos homens bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos elementos bons de cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se dá o nome de medicina, enquanto que aos maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar em resumo, a ciência dos fenómenos de amor...

Ela ,porém, não conseguia desviar os olhos do horizonte. Ao longe...nesse lugar em que a terra e o céu se juntavam numa linha pura, pareceu-lhe ...que a esperava qualquer coisa até então ignorada e que todavia sempre lhe fizera falta....sabia apenas que esse reino sempre lhe fora prometido mas que jamais o alcançaria.



A gente faz amor por telepatia No chão, no mar, na lua, na melodia Mania de você...

Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras (...) Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. (...) O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade...

A propósito....
A . — Quisera saber como és feito por dentro (...) Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes … Quando levantas um braço, eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és (...) Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. (...) Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos, mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo!


Amor abstrato...

Marguerite Yourcenar rejeita tudo o que lhe parece redutor, onde se inclui o feminismo, que quase considera uma forma de racismo ao contrário.Tal como todas aquelas que não sentiram dificuldade em ser mulheres, porque a sua inteligência impunha pelo menos igualdade em relação aos homens, ela tende também a negar esse problema. Na mesma linha, não vê necessidade de estabelecer diferença entre o amor homossexual e o amor, simplesmente. É o suficiente para desencorajar vários admiradores que tentaram fazer dela porta-voz dos seus ideais particularistas, quando na realidade isso está completamente ausente do seu pensamento. Esta solidão de escritor, que lhe parece essencial e mesmo indispensável ao exercício da sua arte, decorre com a mesma naturalidade da sua concepção do mundo.(...) Desvia-se da política por a considerar demasiado efémera no curso da História. Deste modo, as simpatias desta romancista clássica, com um estilo talhado em mármore latino, com uma vida ordenada e regular, dirigem-se antes para os marginais e para aqueles que recusam poses e preconceitos...gosta de Bob Dylan.(...) Dos seus sonhos conserva na memória, com alguma nostalgia,o ter gostado de ser médica, por exemplo, como Zenão...(...)A sua abertura ao mistério da inspiração é também resultado de uma ascese. Esforça-se por conseguir um vazio em si própria, para nele acolher as suas criaturas, tão vivas no seu pensamento ao ponto de estarem sempre presentes.. As suas duas grandes personagens ( Adriano e Zenão) nasceram da sua imaginação aos dezoito anos. O imperador e o médico segui -la-ão ao longo de toda a sua existência, primeiro como esboços de um desenho, depois como heróis de romances, e finalmente como companheiros do dia-a-dia, cúmplices tutelares, tão presentes na sua vida como o mais familiar dos familiares.
Serena até ao desprendimento - e, no entanto, terna; basta vê-la acariciar um cão ou um seixo na praia - , diríamos que pertence a um outro reino... Ela olha o mundo e o homem de frente, com um amor tão abstracto que pode causar medo, como o dos santos. Apesar do seu sorriso de Minerva, contido e mesmo um pouco distante, é uma visionária que nos contempla, com aquele olhar azul onde se reencontra, intacta, a inocência gelada da criança perante um mundo que se afunda.


Amor(?) concreto...

Marguerite e Grace conheceram-se em 1937, ocasião em que Grace, que era americana, estava em viagem por França. Encantada com Marguerite, Grace apaixona -se e passa com ela o resto da sua vida.(...) Depois do contacto inicial, Marguerite e Grace iniciam uma relação de amizade que resultou em algumas viagens que realizaram juntas.(...) O registo das diversas etapas das viagens era feito por Grace que até ao fim da vida cultivou o hábito de anotar em agendas factos do quotidiano, eventos, e tudo aquilo que ela considerava significativo.(...) No ano de 1938 afirma: “So I love you, believe it or not”. Marguerite...tinha estado recentemente apaixonada pelo seu editor, um homossexual que não correspondeu ao seu amor, o que constituía para ela uma situação não resolvida...(...) Em 1939, devido à guerra que alastra na Europa e da qual ela queria fugir, Marguerite toma a decisão de embarcar para os Estados Unidos para uma estadia de seis meses a um ano. Chegando lá, instala -se no apartamento de Grace e iniciam uma vida em comum, primeiramente em Manhattan, depois em Connecticut e finalmente, de forma definitiva no Maine, numa ilha chamada Montes Desertos, onde adquiriram uma casa denominada por elas de “petite plaisance”. Marguerite passou os dez primeiros anos da sua vida com Grace sem sair dos Estados Unidos, país que nunca sentiu verdadeiramente seu, pois possuía um vínculo muito forte com a Europa e um espírito nómada que a impulsionava a mudar constantemente. Apesar disso, ficou com Grace e disse “eu não decidi nada, deixei-me levar”. Deixou-se levar, pelo amor, pela vida tranquila, pela solicitude sempre presente de Grace, pela possibilidade de se dedicar inteiramente ao seu trabalho de escritora, enfim por tudo aquilo de cómodo que a possibilidade de ficar lhe oferecia.(...) Grace, desejosa de reter Marguerite perto de si, cuidava de todos os detalhes da sua vida diária, assumindo o papel não só de amante, mas de ajudante, secretária e tradutora dos seus livros para inglês. (...) Foram quarenta anos de vida em comum, marcados pela “paixão inicial”, como disse certa vez Marguerite, mas também por momentos de turbulência. Os anos mais difíceis foram especialmente os dez últimos em que Grace lutou contra um cancro, que obrigou Marguerite a permanecer isolada da Europa, no que ela definia como uma “vida imóvel”, anos que coincidiram com o seu apogeu como escritora e que geraram uma insatisfação contida, como ela mesma diz: “não sei quando acabará essa má sorte. Pois é sempre má sorte estar imobilizada contra a sua vontade”. Recusou -se a deixar Grace, ainda que isso lhe fosse extremamente penoso, e ficou com ela até os seus últimos momentos, marcados por uma certa animosidade entre ambas.

( Não gostei da submissão de marguerite à submissão de grace...)