Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 19 de outubro de 2025

Mundividências...

Jacaranda do escritor franco-ruandês Gaël Faye, que aos 13 anos fugiu do seu país natal rumo a França, acompanhado pela irmã, é o vencedor do Choix Goncourt du Portugal 2024. Retrata o Ruanda, um país devastado após o genocídio dos tútsis. O romance devolve a palavra aos desaparecidos, aos jovens que escaparão à solidão e encontrarão paz junto às margens deslumbrantes do lago Kivu. História de um país que tenta renovar-se através do diálogo e do perdão...


"Escrita carregada de prosa poética que encanta e que nos faz olhar para um tema tão duro, como o genocídio no Ruanda, de uma forma serena. Aprendemos sobre a história deste país e dos seus habitantes, mas aprendemos sobretudo sobre a vida e a nossa (in)capacidade de olhar o Outro e, consequentemente, de olhar o Eu. Milan, o protagonista, transporta-nos para lugares e oferece-nos informações, como as que encontramos acerca dos julgamentos dos genocidas, vizinhos dos assassinados ou mutilados, como Claude. Mas acima de tudo, a personagem leva-nos através de um tempo cronológico e histórico, que está mais próximo de nós do que seria expetável, fazendo-nos refletir sobre aquela realidade, mas igualmente sobre o presente e as atrocidades que se continuam a cometer. Mais uma vez, o Jacarandá, o amigo de Stella, é uma árvore. Esta é o símbolo da vida, da passagem do tempo, da tradição que se transforma em modernidade. Por isso, nem ela é poupada, deixando-nos, tal como a sua amiga, com uma sensação de vazio." Vanda Balão


  "Rapper, cantor, autor, compositor e intérprete, Gaël Faye escreveu um romance "que conta, com o olhar de quatro gerações, a história terrível do Ruanda, um país que tenta, apesar de tudo, o diálogo e o perdão", como uma árvore - no caso o jacarandá - "que se ergue entre a escuridão e a luz", celebrando a humanidade, descreve o júri do prémio." Público

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Infernos...

 Será que um homem, com vocação para " eterno marido", pode amar , com sinceridade, alguém que a sua infiel mulher amou?

Que solidão transforma um homem num eterno marido? Que conflitos íntimos o fazem sentir essa necessidade? 

Mas será que ele me amava ontem, quando ficou a falar de amor e me disse: ‘vamos acertar as contas’? Sim, ele  amava -me com maldade, e esse é o amor mais forte…


É possível amar e odiar a mesma pessoa?

O monstro mais monstruoso é um monstro com sentimentos nobres; eu sei disso por experiência própria, Pável Pávlovitch! Para o monstro, a natureza não é mãe carinhosa, mas sim madrasta. A natureza cria monstros, mas não para ter pena, e sim para dar cabo deles… e com razão. Hoje em dia, abraços e lágrimas de perdão não saem barato nem para pessoas decentes, quanto mais para gente como eu e você, Pável Pávlovitch!



Facas na solidão, Sete pequenos canivetes, Facasseisseis

Eu só penso num homemsolitário que não consigo descrever.
Eu só consigo pensar num homem solitário que não consigo descrever. Eu só penso.Nada mais importa quando se constrói a personagem

Envelheço. Morro, em cada dia definho um pouco mais . Metido entre estas paredes de gritos, rebusco um passado que não percebo, que não domino, um passado que me escapa por entre os dedos, anos e anos de hiatos, será que vivi, será que algum dia me senti vivo ao ponto de querer bater com a porta no ontem e de olhá-lo de soslaio e com desprezo? As muletas pesam cada vez mais, as muletas que me rebocam generosamente de uma tristeza a outra, eu, o homem das quatro pernas, o aleijado que afia os cornos na ombreira da porta do quarto onde a tua mãe se escarrapacha com os pretos, eu a olhar pela fechadura, agarrado às muletas,(...) e eu lembro-me de que não sou homem, de que sou um bicho assexuado e não consigo deixar de espreitar, a tua mãe a rugir e eu com o olho cravado na fechadura.
 

  Tu já os viste nos seus redutos de três assoalhadas, uma família a fingir família, parentesco e afeto, cada um deles mergulhado no lago umbilical da indiferença.

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante - então chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte - e mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe. As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância. É assim que nós vivemos, e ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas. Por mais que no-lo digam, é um disparate. Depois de nos termos divorciado e de o quadro familiar se ter desfeito, as relações com os filhos perdem o sentido. Um filho é uma armadilha que se fechou, é o inimigo que temos de continuar a manter e que vai acabar por nos enterrar.

 

sábado, 9 de novembro de 2019

Submissões e Salvações...

Hommage: (encore) Piet Mondrien: en quête d'un "mot"..."In-sanamemte, por entre os dedos, toco-te o rosto que me convoca, numa distância que a proximidade não sutura. Toco-o, na palavra que o nomeia."



Gostar de um livro é antes de mais gostar do seu autor, desejar estar com ele, ter vontade de passar os dias na sua companhia. E durante os sete anos que durou a redação da minha tese, eu vivi na companhia de Huysmans, na sua presença quase permanente.(...) Durante vários anos pude ...dedicar a totalidade dos meus dias à atividade que escolhera: a livre frequentação intelectual de um amigo.

Como se sabe, os estudos universitários da área das letras não conduzem a praticamente nada, exceto, para os estudantes mais dotados...

É porque existe o desejo, o olfato, e o medo,
e os vivos apaixonam-se por outros vivos,
e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta,
porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável.
E não basta então a mulher que amamos,
nem os filhos
– os que nos vão sobreviver no tempo –
e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,
é preciso sair dos ossos,
fugir ao obrigatório, à casa,
encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, um mapa,
fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância,
onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos,
Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, família, e alguns outros assuntos,
mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar, de que não sabemos falar.
E é por tudo isso,
e por quase tudo o que faltou dizer,
é por isso que é bom, por vezes,
suspender a noite e o coração,
e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.
É por isso que é bom, por vezes,
ocuparmos o corpo no acto de sentar,
e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,
que nos salve,
por enquanto,
antes de morrermos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

QuedaS...




Em dia de recordar Camus, uma breve reflexão sobre Serotonina, a queda de Florent-Claude Labrouste: um início nada inspirado, com uma crueza linguística que, pessoalmente, nada aprecio. Entretanto, algumas reflexões interessantes sobre banalidades. A partir da página 223 até ao final, na página 277, atinge o nível dos melhores romances que já li... É uma queda diferente da camusiana, eventualmente muito (demasiado?) inspirada em ...mas com um toque de génio.




Nota prévia
"Em maio de 1884, o escritor parisiense Joris-Karl Huysmans publicou Às avessas, um romance que, logo no título, anunciava uma contraposição às convenções literárias naturalistas e aos valores burgueses vigentes na época. A obra tornou-se emblemática das novas propostas artísticas que circulavam em França, berço do movimento simbolista e do espírito decadentista. O seu autor concentrou a narrativa, marcada pela escassez de intrigas e peripécias, em torno da perturbadora figura do protagonista, o jovem Des Esseintes. Descendente da linhagem dos proprietários do castelo de Lourps, o solitário rapaz, de saúde frágil e gostos refinados, mergulha num profundo tédio que o conduzirá à reclusão numa casa na região rural de Fontenay, nos arredores de Paris. A fortuna herdada por Des Esseintes permite-lhe realizar excêntricas experiências estéticas e explorar intensamente um sem-número de sensações, dando asas a devaneios fantásticos e caprichos hedonistas.A estrutura do livro acompanha o agravamento da neurose da personagem central: alguns capítulos consistem em pequenos tratados sobre especialidades decorativas, apresentadas conforme os interesses variados de Des Esseintes. No isolamento em Fontenay-aux-Roses, o herói cultiva habilidades de decorador, ourives, florista, perfumista e bibliófilo, por meio da aquisição de objetos extravagantes. As referências eruditas feitas pelo narrador, que enumera obras e artistas, refletem as escolhas e os juízos críticos do aristocrático protagonista. Enclausurado na torre construída por ele próprio, Des Esseintes desenvolve o gosto pelo artifício e pela intelectualização dos sentidos. No decorrer de sua trajetória de neurasténico e misantropo, acentuam-se as oscilações de humor e as crises nervosas.As suas preocupações religiosas convivem com o desprezo manifestado pelo modo de vida burguês e pela pobreza dos espíritos comuns.Às avessas realiza um processo de imersão no mundo criado pelas preferências estéticas de um indivíduo avesso ao convívio social e amante de obras de arte capazes de estimular uma profusão de experiências sensoriais. Contrário ao progresso e à vida superficial característicos da sociedade burguesa, Des Esseintes constitui a representação patológica de um homem oitocentista, que, decepcionado com um mundo destituído de sentido e interesse, opta por se isolar da realidade. As escolhas do protagonista, afastado do meio social e das preocupações quotidianas, são regidas por finalidades puramente estéticas, em consonância com o princípio da arte pela arte. A técnica narrativa empregada, precursora das obras modernistas que fazem uso das imagens oníricas e do discurso indireto livre, revela procedimentos inovadores para o período de composição do romance. Obra de interesse atual, Às avessas desenvolve a sensibilidade do leitor e possibilita reflexões acerca dos laços mantidos entre arte e vida."

Durante todos os anos de minha triste juventude, Huysmans foi para mim um companheiro, um amigo fiel; nunca tive dúvida, nunca fui tentado a abandonar, nem a orientar-me para outro tema; e então, numa tarde de junho de 2007, depois de longamente esperar, depois de tanto tergiversar até um pouco mais que o admissível, defendi perante a banca da universidade Paris IV Sorbonne minha tese de doutorado: Joris-Karl Huysmans, ou a saída do túnel. Já na manhã seguinte (ou talvez já na própria noite, não posso garantir, pois a noite de minha defesa foi solitária e muito alcoolizada), entendi que uma parte de minha vida acabava de terminar, e era provavelmente a melhor.
Este é o caso, em nossas sociedades ainda ocidentais e social-democratas, de todos os que concluem seus estudos, mas que na sua maioria não tomam, ou não imediatamente, consciência disso, hipnotizados que estão pela ânsia do dinheiro, ou talvez do consumo, entre os mais primitivos, aqueles que desenvolveram o vício mais violento a certos produtos (são minoria, pois a maioria, mais sensata e ajuizada, desenvolve um fascínio simples pelo dinheiro, esse “Proteu incansável”), hipnotizados ainda mais pelo desejo de passar pelas provações, de consolidar um lugar social invejável num mundo que imaginam e esperam ser competitivo, galvanizados que estão pela adoração de ícones mutáveis: atletas, criadores de moda ou de portais da internet, atores e modelos.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Outono...

Outono tardio, o outono instala-se no meu coração pesado
Vinho, mistura-se com mil sentimentos
Despedidas, são tantas como as folhas caídas nesta temporada
Com a sua mão agarrada ao meu coração
Eu preciso que se lembre, da nossa promessa não dita




Eu não sinto saudade
Mas a sua tristeza persegue-me
Nós temos o vento para culpar
pela nossa despedida
Eu não temo a solidão
Mas a sua solidão persegue-me
Ninguém vai ouvir a nossa desolação


Marc Augé: "existe uma ilusão de conhecimento que é ainda pior do que o facto de não saber."


Um mosteiro abandonado, único testemunho de uma vida de outros tempos: Mosteiro de Santa Maria das Júnias...

Este sonhar acordado, este cismar poético diante dos sublimes espetáculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu às almas de certa têmpera. Doce é gozar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o ácido poderoso que estimula! Tirai-lho, fica a insipidez: deixai-lho, ulcera por fim os órgãos: o gozo é mais vivo, porque a ação do estímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne viva... agora o prazer é martírio.

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos concertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.

Sons inebriantes...


Não sei se gostei, se adorei ou se detestei...Sei que senti qualquer coisa de intenso...


“As pessoas tolerantes foram esmagadas pelos discursos populistas” - “O Medo do Futuro” em discussão no Festival Literário de Óbidos

“O medo pode ser o melhor dos contributos para a renovação das democracias”, afirmou Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, na sessão sobre “O Medo do Futuro”, que teve lugar esta sexta-feira, 11 de Outubro, no FOLIO – Festival Literário de Óbidos.

Para o também comentador televisivo, estamos numa época em que toda a gente faz debate político com base em desinformação e teorias da conspiração. Isso acontece inclusive com líderes políticos, como é o caso de Donald Trump, o que torna a análise política atual ainda mais difícil.

Numa mesa moderada por Pedro Mexia, participou ainda o filósofo brasileiro Francisco Bosco, que fez uma explicação sobre a história política recente do Brasil. Na sua opinião, o que está acontecer é resultado de uma revolta dos setores não liberais que, ao longo das últimas décadas, sofreram a agenda mundial de elites liberais progressistas. “Sentiram-se atropelados por uma agenda que não lhes diz respeito”, afirmou.

A crise económica mundial de 2008, cujos efeitos se fizeram sentir nos anos seguintes, levaram a que essa “maioria silenciosa” se fizesse ouvir. A eleição de Trump e Bolsonaro, ou o Brexit, são uma resposta (que considera errada) a essa revolta.

Tudo isso se tornou uma grande dimensão devido à democracia digital que as redes sociais trouxeram. Numa primeira fase, as redes sociais contribuíram positivamente para o envolvimento das pessoas, o que levou, por exemplo, à eleição de Obama. Depois dessa democratização digital estar mais consolidada, e devido à falta de consciência política de uma grande maioria, houve uma maior adesão a líderes populistas.

É por isso que Bernardo Pires de Lima defende que deve existir mais humildade por parte dos intelectuais e que estes precisam de dar a cara “defendendo o que é bom”. É que, entende, “as pessoas tolerantes foram esmagadas pelos discursos populistas”.

Há ainda outro fator importante: “a corrupção tem corroído a Democracia em todo o Mundo”, considera o especialista, que, no entanto, disse ser muito otimista em relação ao que irá acontecer no futuro.





Nobel da Literatura: para mim dois desconhecidos...


Comecei o outono a confrontar Sofia Tolstoi com Alberto Luís...e, estranhamente, esse confronto fez-me pensar em mim. O que há de comum?




"And everyone has a heart and it's calling for something / And we are all so sick and tired of seeing things as they are / Horses are just horses and their manes aren't full of fire / The fields are just fields and there ain't no Lord /And everyone is hidden and everyone is cruel / And there is no shortage of tyrants and no shortage of fools And the little white shape dancing at the end of the hall / Is just a wish that time can't dissolve at all..."



"Well, sometimes it's better not to say anything at all
Your body is an anchor, never asked to be free
Just want to stay in the business of making you happy

Well I'm just waiting for you
Waiting for you, waiting for you
Waiting for you, waiting for you..."


É um pequeno comprimido, branco, oval, divisível.
Cerca das cinco horas da manhã , por vezes seis, acordo... é o momento mais doloroso do meu dia.


Tenho quarenta e seis anos, chamo-me Florent-Claude Labrouste e detesto o meu primeiro nome, penso ter origem no desejo de o meu pai e a minha mãe homenagearem, cada um por seu lado, dois membros da minha família; é tanto mais lamentável que nada tenho, aliás, a censurar aos meus pais, foram para todos os efeitos pais excelentes, fizeram o melhor por me dar as armas necessárias na luta pela vida e, se por fim falhei, se a minha vida desemboca na tristeza e no sofrimento, não os posso culpar, é antes um lamentável encadeamento de circunstâncias ao qual terei oportunidade de regressar — e que constitui mesmo, a bem dizer, o motivo deste livro —, não tenho absolutamente nada a censurar aos meus pais, excepto este pequeníssimo, lamentável mas pequeníssimo, caso do nome próprio, não só acho a combinação Florent-Claude ridícula como desgosto dos próprios elementos, e em suma considero o meu primeiro nome um falhanço absoluto. Florent é demasiado suave, demasiado próximo do feminino Florence, num sentido quase andrógino. Não corresponde de todo ao meu rosto de traços vigorosos, sob determinados ângulos brutais, que foi frequentemente (por algumas mulheres, pelo menos) considerado viril e nunca, mas mesmo nunca, o rosto de um larilas botticelliano. Quanto a Claude, nem vale a pena falarmos disso, faz-me imediatamente pensar nas Claudettes, e vem-me logo à cabeça a imagem pavorosa de um vídeo vintage do Claude François a ser passado em loop num serão de bichas velhas, assim que ouço o nome Claude.

Os anos de estudo são os únicos anos felizes, os únicos em que o futuro parece aberto, em que tudo parece possível, a vida de adulto que se lhes segue, a vida profissional, não é senão um lento e progressivo decaimento, é sem dúvida por esse motivo que as amizades de juventude, as que fazemos no período em que estudamos e que no fundo são as únicas amizades verdadeiras, nunca sobrevivem à entrada na vida adulta, evitamos rever os amigos de juventude, para não sermos confrontados com os testemunhos das nossas esperanças frustradas, com a evidência do nosso próprio esmagamento.

Desenvolvi a convicção de que o amor não se pode desenvolver senão sobre a base de uma certa diferença, que o semelhante não se apaixona nunca pelo semelhante, mesmo se na prática inúmeras diferenças possam funcionar: uma diferença grande de idade, como se sabe, pode dar lugar a paixões de violência extraordinária; a diferença racial continua a ser eficaz, e mesmo a diferença nacional e linguística não é de desdenhar. Não é bom que os amantes falem a mesma língua, não é bom que possam realmente compreender-se um ao outro, que possam trocar palavras, porque a palavra tem como vocação criar, não amor, mas divisão e ódio, a palavra separa assim que é formulada,enquanto uma informe tagarelice amorosa,semilinguística, falar com a namorada ou namorado como se fala com o cão lá de casa, cria as condições para um amor incondicional e duradouro. Se ao menos nos pudéssemos limitar aos assuntos imediatos e concretos — onde estão as chaves da garagem? a que horas passa o electricista? —, a coisa ainda podia funcionar, mas, para lá disso, começa o reino da desunião, do desamor e do divórcio.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Condenações e Prisões...


..Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir às dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento, permanecemos no local até mais ou menos onze horas.

Existe na justiça moderna e entre aqueles que a distribuem uma vergonha de punir, que nem sempre exclui o zelo; ela aumenta constantemente: sobre esta chaga pululam os psicólogos e o pequeno funcionário da ortopedia moral.

Permanece, por conseguinte, um fundo “supliciante” nos modernos mecanismos da justiça criminal — fundo que não está inteiramente sob controle, mas envolvido, cada vez mais amplamente, por uma penalidade do incorporai.

Terminada uma tragédia, começa a comédia, com sombrias silhuetas, vozes sem rosto, entidades impalpáveis. O aparato da justiça punitiva tem que ater-se, agora, a esta nova realidade, realidade incorpórea.(...) Faz 150 ou 200 anos que a Europa implantou os seus novos sistemas de penalidade, e desde então os juizes, pouco a pouco, mas por um processo que remonta bem longe no tempo, começaram a julgar coisa diferente além dos crimes; a “alma” dos criminosos.

O interrogatório é um meio perigoso de chegar ao conhecimento da verdade; por isso os juizes não devem recorrer a ele sem refletir. Nada é mais equívoco. Há culpados que têm firmeza suficiente para esconder um crime verdadeiro...; e outros, inocentes, a quem a força dos tormentos fez confessar crimes de que não eram culpados.

Encontrar para um crime o castigo que convém é encontrar a desvantagem cuja ideia seja tal que torne definitivamente sem atração a ideia de um delito. É uma arte das energias que se combatem, arte das imagens que se associam, fabricação de ligações estáveis que desafiem o tempo. Importa constituir pares de representação de valores opostos, instaurar diferenças quantitativas entre as forças em questão, estabelecer um jogo de sinais-obstáculos que possam submeter o movimento dasforças a uma relação de poder.

Como o modelo coercitivo, corporal, solitário, secreto, do poder de punir substitui o modelo representativo, cénico, significante, público, coletivo? Porque o exercício físico da punição (e que não é o suplício) substituiu, com a prisão que é seu suporte institucional, o jogo social dos sinais de castigo, e da festa bastarda que os fazia circular?

Tempo perdido: nada de novo. Prefere a análise de fernando pessoa:

(" O criminoso não é o louco, embora possa ser louco, pois, como disse, pode coexistir uma doença do sentido de relação com uma doença dos sentidos objectivo e subjectivo. O criminoso não é o idiota mental, embora, pelo mesmo motivo que no outro caso, possa ser idiota mental. O criminoso raríssimas vezes, se alguma, poderá ser um homem de génio, no verdadeiro sentido deste termo, pois, como expus, o crime se baseia precisamente no fenómeno mental contrário de aquilo em que se baseia o génio. O que pode haver é momentos, fenómenos ocasionais, de depressão do sentido de relação, como os pode haver no homem normal.
Creio, aliás, que o único caso onde se possa encontrar qualquer coisa parecida com a conjugação do génio autêntico e do crime, é em Benvenuto Cellini.
Ora todos estes fenómenos que descrevi podem ser orgânicos ou episódicos. Certas circunstâncias de educação, de meio, e outras mais ocasionais em muito menor grau, podem, até certo ponto, fazer do homem, que salvo elas seria normal, um imbecil. Certas circunstancias, já mais fáceis de produzir, podem fazer de um homem normal um louco. Outras circunstâncias, como certos estimulantes, certos momentos de exaltação espiritual, e outras assim, podem produzir num cérebro não genial faíscas do que, se fosse constante, seria génio. Tal homem, naturalmente normal, e portanto banal, mas inteligente, terá um momento em que escreve um soneto que fica, único dele, numa antologia. Tal outro — e isto é mais vulgar — terá um dito de espírito que mais vulgarmente atribuiríamos a um espírito realmente genial. O dito de espírito é, até, um dos exemplos curiosos do raro fenómeno do génio ocasional — e é de notar quantas vezes nasce do estímulo da sociedade, do vinho, e de outros assim.
Do mesmo modo, como todos sabemos, há circunstâncias ocasionais que podem fazer do homem, que diríamos normal e que de facto o é, um criminoso. Tal homem, normalmente moral mas fraco, praticará um desfalque sobre a pressão de circunstâncias desvairantes e da oportunidade traiçoeira. Tal outro, não menos normal, matará a mulher num acesso de raiva contra uma traição. Estes casos, não sendo inteiramente raros, são-no todavia mais do que julgamos. Em muitos casos de crime aparentemente ocasional, encontramos, se procurarmos bem, um fundo de anormalidade, talvez vago, talvez escasso, mas que certa circunstância ocasional violenta conseguiu erguer à superfície. O que distingue, contudo, e a todos será evidente, o criminoso-nato (chamemos-lhe assim) do criminoso ocasional, embora neste haja um vago fundo mórbido, é uma de três coisas: a desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa; a reincidência constante no crime; e a premeditação.
O crime, porém ocasional ou não, é sempre crime. Como, porém, tanto o crime ocasional (precisamente por ser ocasional, mostra mais claramente e mais destacadamente, visto que se dá sobre um fundo não criminoso ou pouco criminoso, a mecânica do crime) como o homem normal, ou quase normal (em que se dá) nos mais compreensíveis que o anormal, a melhor maneira de estudarmos a mecânica do crime, e, derivadamente, a alma do criminoso, é fazermos uma análise de como surge, numa alma normal ou quase, o impulso realizado ou tentado para o crime.
A desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa é característica do criminoso louco, isto é, ou do louco que se torna criminoso, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de loucura. A constância na prática do crime é característica do criminoso idiota, ou do idiota malévolo, tipo diferente, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de inferioridade mental. É no crime com premeditação que surge o exemplo perfeito, direi, até, o exemplo puro do criminoso. Como neste tipo de criminoso se não alia à sua idiotia relacional nenhum fenómeno rnórbido proveniente dos sentidos antagónicos, e seu desequilíbrio próprio, como deste tipo de criminoso deriva a doença que o faz criminoso, exclusivamente de uma perturbação do sentido de relação, não havemos de estranhar que haja crimes de relação em que há qualquer vaga coisa que parece génio. É que em toda a doença há qualquer coisa de esboçadamente pendular — no génio a frequente insociabilidade, que é a mesma coisa, salvo que em menor grau, que a base do crime; no criminoso premeditado a exaltação e clareza de organização que por vezes o converte num verdadeiro estratégico, se bem que num campo limitado. E, a propósito mas entre parênteses: mais tarde terei que tratar do estratégico mais detalhadamente.")

Lenz Buchmann sentia a cada dia que passava uma ligação mais forte com a menina Julia Liegnitz. Estava, de certa maneira, a fazê-la, como em tempos fizera a criadita que servia na casa dos pais. Um violação não sexual, mas contínua, aquela que não se agarra para depois largar; agarra e jamais larga; primeiro destrói, amassa, torna informe, colocando todos os valores antigos ao mesmo nível, e depois, sim, começa a dar uma outra forma , conduz e infiltra uma outra força.Aquela mulher abandonava, dia após dia, por completo, a ingenuidade. Em dois anos o político Lenz Buchmann e a sua secretária Julia Liegnitz tornaram-se inseparáveis. Como no processo de osmose: uma única substância.

Os livros, isso, sim, incomodava-o. Pedira mesmo - a certa altura exigira - que os livros de Julia e de Gustav Liegnitz não saíssem dos quartos respectivos e não fossem esquecidos pela casa.


Gostava tanto dela que não podia deixar de sorrir alegremente do seu mau gosto musical... Outras vezes deixava-me ficar na cama , a sonhar todo o tempo que quisesse... a calma que a minha amiga me dava era, mais do que alegria, era alívio do sofrimento .(...) Albertine possuía uma tal força de passividade , uma tal faculdade de esquecer e de se submeter, que essas relações haviam sido efectivamente cortadas, e curada a fobia que me obcecava. Enquanto o meu ciúme não havia reincarnado em novos seres, tivera , depois dos meus sofrimentos passados, um intervalo de calma.O seu encanto um pouco incómodo consistia em estar lá em casa como um animal doméstico que entra numa sala, que sai, que aparece onde menos se espera, e que vinha - o que me repousava profundamente - atirar-se para cima da minha cama, a meu lado, conquistando um lugar donde nunca se mexia, sem incomodar como uma pessoa incomodaria.(...)

As coisas mais insignificantes ganham de repente um valor extraordinário quando uma criatura que amamos ( ou a quem só faltava essa duplicidade para a amarmos) se esconde de nós! Em si mesmo, o sofrimento não nos proporciona forçosamente sentimentos de amor ou de ódio pela pessoa que o causa: um cirurgião que nos provoca dor continua a ser-nos indiferente. Mas numa mulher que nos disse que éramos tudo para ela, sem ela ser tudo para nós, numa mulher que temos prazer em contemplar, em beijar, em ter sentada nos joelhos, ficamos admirados mal sentimos que não dispomos dela.

Até cerca de metade do livro, não entendi o porquê do título: deveria ser O Prisioneiro. Albertine vive "enclausurada", mas ele é o verdadeiro prisioneiro...Depois, acabei por perceber: ela é prisioneira , ele é escravo, escravo da escravatura daquele pássaro engaiolado...

Tal como é costume fazer-se em vésperas de uma morte prematura, eu fazia as contas aos prazeres de que era privado pelo ponto final que Albertine punha à minha liberdade.(...) A bem dizer, eu havia chegado com Albertine àquele ponto em que ( quando tudo continua na mesma, quando as coisas se passam normalmente) uma mulher só nos serve de transição para outra mulher.(...) Aí estava justamente aquilo de que Albertine me privava. De que me privava? Não deveria antes pensar , pelo contrário, com que ela me gratificava? Se Albertine não vivesse comigo, se eu fosse livre, teria imaginado, e com razão, todas aquelas mulheres como objectos possíveis, prováveis, do seu desejo, do seu prazer.(...) Ao enclausurar Albertine, eu tinha ao mesmo tempo devolvido ao universo todas aquelas asas a rebrilhar que zumbem nos passeios, nos bailes, nos teatros, e que tornavam a ser tentadoras para mim porque Albertine já não podia sucumbir à tentação delas. Elas constituíam a beleza do mundo. Haviam constituído em tempo a de Albertine. Fora por tê-la visto como um pássaro misterioso, e depois como um grande atriz da praia, desejada, porventura, conquistada, que eu a achara maravilhosa.. Uma vez preso o pássaro em minha casa... a pouco e pouco perdera a beleza.(...) Mas a ideia da minha escravatura deixava de epente de me pesar, e desejava prolongá-la mais porque me parecia perceber que Albertine sentia cruelmente a sua. (...) Para que as suas grilhetas lhe parecessem mais leves pareceu-me que o mais hábil seria fazer-lhe crer que eu próprio lhas iria quebrar.

Estou a gostar muito, muito, deste quinto volume. Só tenho pena de não ser homem para poder avaliar, intimamente, a vivência real que o narrador / protagonista relata...Só posso imaginar, a minha representação mental é, inevitavelmente, condicionada pela minha natureza.

A partir de uma certa idade, por amor-próprio e por sagacidade, são as coisas que mais desejamos aquelas a que fingimos atribuir menor importância.(...) Aquele vago receio que senti de que Albertine me deixasse começara por se dissipar. Quando voltei para casa fizera-o com a sensação de um prisioneiro, de modo algum com a sensação de ir ao encontro de uma prisioneira.(...) A minha escravidão, de que me apercebera ainda quando , ao dar o endereço ao cocheiro, vira a luz na janela, deixara de me pesar pouco depois, quando vira que Albertine parecia sentir a sua tão cruelmente.Pretendera guardá-la para mim, porque a sentia esparsa noutras criaturas às quais não podia impedi-la de juntar-se. (...) Eu tinha lágrimas nos olhos, tal como aqueles que, sozinhos no seu quarto, imaginando ao sabor dos caprichosos meandros do seu devaneio a morte de um ente querido, crêem com tal minícia na dor que sentiriam que acabam mesmo por senti-la.(...) Em amor é mais fácil renunciar a um sentimento que a um hábito.

Continuo prisioneira, mas consola-me a certeza perversa de que o carcereiro é um ser que rasteja na cela que , livremente, construiu, à espera de ser esmagado...

"Lamentações de Adriano sobre a morte de Antinoos"
Não escrevi mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas Porque estás morto E contigo morreu o meu projeto de viver a condição divina

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreva como se durasse.


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei


Com o passar do tempo , os fragmentos mais duros acabam por deslizar para uma localização onde não causam excessivos sofrimentos, onde já não se movem, de modo que deixa de se sentir a sua presença ; é o esquecimento, ou a recordação indiferente.

Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela. Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros actores com um sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido. Sinto. Esfrio febre. Sou eu.


É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas… A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos voos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam…

Querer ser livre? Temos de nos limitar a querer ser: ser só e só ser...Ser implica pensar e nós estamos condenados a viver aprisionados pelo pensamento. Ser livre implica livre-arbítrio e ter de escolher é uma prisão...Será que isto faz sentido?

Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.



É difícil encontrar, atualmente, um autor mais polémico: amado por uns, odiado por outros. Uns consideram-no um genial observador da sociedade e da condição humana; outros veem-no como um puro provocador, um vulgar escritor de pornografia, um racista insuportável.

Se o homem ri, se é o único , em todo o reino animal, a exibir esta atroz deformação facial, é igualmente por ser o único, a ultrapassar o egoísmo da natureza animal, atingindo o estádio infernal e supremo da crueldade.

A vida é dolorosa e dececionante. Por isso, é inútil escrever novas novelas realistas. Nós geralmente sabemos onde estamos em relação à realidade e não nos preocupamos em saber mais. A juventude foi a hora da felicidade, é a única temporada. Os jovens, que dirigem uma vida preguiçosa e despreocupada, parcialmente ocupados por estudos, podem-se dedicar ilimitadamente à exultação libertadora dos seus corpos. Podem jogar, dançar, amar e multiplicar os seus prazeres. Eles poderiam deixar uma festa, nas primeiras horas da manhã, na companhia de parceiros sexuais que escolheram, e contemplar a linda linha de funcionários que vão trabalhar. Eles eram o sal da terra, e tudo lhes foi dado, tudo lhes era permitido , tudo era possível. Mais tarde, tendo constituído uma família, tendo entrado no mundo adulto, eles seriam preparados para se preocupar, trabalho, responsabilidade e as dificuldades de existência. Teriam de pagar impostos, submeterem -se a formalidades administrativas, enquanto testemunham incessantemente - impotentes e cheios de vergonha - a degradação irreversível dos seus próprios corpos, o que será lento no início, logo cada vez mais rápido. Acima de tudo, eles teriam que cuidar de crianças, inimigos mortais, nas suas próprias casas, eles teriam que cuidar deles, alimentá-los, preocuparem-se com as suas doenças, fornecer os meios para a sua educação e o seu prazer, e ao contrário do mundo dos animais, isso não durará apenas uma temporada, eles permanecerão escravos de sua prole sempre, o tempo de alegria foi bem e verdadeiramente para eles, eles teriam que continuar a sofrer até o fim, com dor e com problemas de saúde crescentes . Até que eles não servem mais para nada e são definitivamente jogados no monte de lixo, pesados ​​e inúteis. Em troca, os seus filhos não seriam de todo gratos, pelo contrário, os seus esforços, por mais vigorosos que fossem, nunca seriam considerados suficientes, eles, até o amargo final, seriam considerados culpados pelo simples facto de serem pais. A partir desta vida triste, marcada pela vergonha, toda alegria seria desapiadadamente banida. Quando eles se queriam aproximar dos corpos dos jovens, eles seriam expulsos, rejeitados, ridiculariizados, insultados e, cada vez mais frequentemente, presos. Os corpos físicos dos jovens, a única posse desejável que o mundo já produziu, foram reservados para o uso exclusivo dos jovens.

Juventude,beleza,força: os critérios do amor físico são exatamente os mesmos do nazismo.


Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.


Sou o pássaro que canta dentro da tua cabeça que canta na tua garganta canta onde lhe apeteça / Sou o pássaro que voa dentro do teu coração e do de qualquer pessoa mesmo as que julgas que não / Sou o pássaro da imaginação que voa até na prisão e canta por tudo e por nada mesmo com a boca fechada / E esta é a canção sem razão que não sirva para mais nada senão para ser cantada quando os amigos se vão / E ficas de novo sozinho na solidão que começa apenas com o passarinho dentro da tua cabeça.

No use looking out It's within that brings That lonely feeling...Alone again Alone again Alone again Alone...


Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
Que Amor não quer cordeiros nem bezerros;
Vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
Parece-me que estava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
Que era o contentamento vergonhoso,
Só por ver que cousa era viver ledo.


Não! Só quero a liberdade! Amor, glória, dinheiro são prisões. Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles? Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo. Quero respirar o ar sozinho, Não tenho pulsações em conjunto, Não sinto em sociedade por quotas, Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim. Onde quero dormir? No quintal... Nada de paredes — ser o grande entendimento — Eu e o universo, E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos, O grande abismo infinito para cima A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo. Não quero! Dêem-me a liberdade! Quero ser igual a mim mesmo. Não me capem com ideais! Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras! Não me façam elogiável ou inteligível! Não me matem em vida! Quero saber atirar com essa bola alta à lua E ouvi-la cair no quintal do lado! Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"... Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado... Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado... " Amanhã vou buscá-la ao quintal" Buscá-la ao quintal Ao quintal ao lado...


Um inspector de prisões chega a uma cidade e encontra um homem sentado à porta da prisão a fumar cachimbo.
— Onde está o diretor?
— Saiu.
— E o chefe dos guardas?
— Foi assistir ao casamento do filho.
— E os outros guardas?
— Estão no café, a jogar bilhar.
— E você, que faz aqui?
— Eu não posso sair daqui. Sou o preso.


Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?
Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória...


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Amor e amores...

El centro del amor
no siempre coincide
con el centro de la vida.
Ambos centros
se buscan entonces
como dos animales atribulados.
Pero casi nunca se encuentran,
porque la clave de la coincidencia es otra:
nacer juntos.
Nacer juntos,
como debieran nacer y morir
todos los amantes.


Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...


Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.
Se te vejo não sei quem sou; eu amo.


A quem teria Adrian aberto o coração? A quem teria acolhido na sua vida? Tais atitudes não existiam nele. Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro, sem a perceber. A sua indiferença era tão grande que só raramente se apercebia da companhia em que estava (...)Inclino-me a comparar a sua solidão com um abismo, no qual murgulhavam os sentimentos que os outros lhe ofereciam. Em torno dele reinava frieza ...

— Consideras o amor a mais forte de todas as paixões? — perguntou ele.
— Conheces outra mais forte?
— Sim, o interesse.
— Imagino que esse termo signifique para ti um amor privado de qualquer calor animal.
— Proponho que aceitemos essa definição — respondeu, rindo. — Boa noite!


A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.


Nunca amei ninguém. O mais que tenho amado são sensações minhas - estados da visualidade consciente, impressões da audição desperta, perfumes que são uma maneira de a humildade do mundo externo falar comigo, dizer-me coisas do passado (tão fácil de lembrar pelos cheiros) isto é, de me darem mais realidade, mais emoção, que o simples pão a cozer lá dentro na padaria funda, como naquela tarde longínqua em que vinha do enterro do meu tio que me amara tanto e havia em mim vagamente a ternura de um alívio, não sei bem de quê.

É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu; transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.

(O amor a certos livros tem um efeito devastador: depois de thomas mann, de kafka, de gmt, de saramago ,de camus... é difícil tentar ler autores menores...Tal como depois de conhecer fernando pessoa, só é possível gostar de alguns poemas, mas nunca mais consegui gostar de outro poeta ...)

( Há uns oito anos escrevi uma novela intitulada "um amor diferente" , que, num momento de fúria, apaguei do computador... Arrependi-me, mas talvez ainda a consiga reconstituir... )

Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo. (...) Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro vitral... Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a humanidade passando... (...) E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o Sol nos bata nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)

Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo. O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.
— De que havemos de falar?
— De qualquer cousa. Do mistério das cousas e das formas das flores. (...)
— Às vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.


Caeiro escreveu talvez o único poema de amor de que gosto verdadeiramente:

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.



A única velharia que chegou intacta
ao estúpido século XXI
é a do amor. A população é dispensada
de se dirigir a um centro
que entregue intacto o instinto
amoroso, pois recebe-se essa coisa obscura logo
ao nascer e morre-se com ela. O amor
como coisa obscura que afina os dias.


Os outros e o Amor

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus


O que particularmente me indignava contra mim, nestes momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia de muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do factor social no jogo desequilibrado das minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. (…) E assim eu, o homem de inteligência e de desprendimento, perdia a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo. Lembro-me ainda, com uma precisão em que intercala o perfume vago do ar da Primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel.(…) . Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio...

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ... E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Amores grandes...
O amor, esse ser invencível, doce e sublime,que desata os membros, de novo me socorre. Ele agita o meu espírito como uma avalanche sacode as encostas. Lutar contra o amor é impossível, pois, como uma criança faz, ao ver sua mãe,sinto-me impelida para ele. Minha alma está dividida: algo a detém aqui,mas algo lhe diz para no amor viver...

Nada podeis contra o amor, contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis. Podeis dar-nos a morte, a mais vil, isso podeis. E é tão pouco!

El centro del amor no siempre coincide con el centro de la vida./Ambos centros se buscan entonces como dos animales atribulados. Pero casi nunca se encuentran, porque la clave de la coincidencia es otra: nacer juntos. Nacer juntos, como debieran nacer y morir todos los amantes.

A cidade está deserta, E alguém escreveu o teu nome em toda a parte: Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. Em todo o lado essa palavra Repetida ao expoente da loucura! Ora amarga! Ora doce! Para nos lembrar que o amor é uma doença, Quando nele julgamos ver a nossa cura!

Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira de tornar de cristal a mais sentimental e baça bebedeira. Mas ou seja que vou envelhecendo e ninguém me deseje apaixonado, ou que a antiga paixão me mantenha calado O coração num íntimo pudor, — Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor.

No tenemos un lenguaje para los finales,para la caída del amor,para los concentrados laberintos de la agonía,para el amordazado escándalo de los hundimientos irrevocables./ (...) Quizá un lenguaje para los finales exija la total abolición de los otros lenguajes, la imperturbable síntesis de las tierras arrasadas.

Não podendo suportar o amor, a igreja quis, pelo menos, desinfectá-lo... Então, inventou o casamento.

A Idade só se aplica às pessoas Vulgares. A tendência para colocar uma ênfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres. É coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experiência e benevolência com a própria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas são eles próprios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles próprios são fanáticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade não é pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Tsé não é pior que Buda e o azul não é pior que o vermelho. A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude.

Transforma-se o amador na cousa amada,Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar?Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada.

Heathcliff, n'"O Monte dos Vendavais",seria capaz de matar a terra inteira para possuir Cathie,mas nunca lhe ocorreria a ideia de afirmar que semelhante crime era racional ou justificado por um sistema.Cometê-lo-ia e por aí se fica toda a sua fé. Mas semelhante atitude pressupõe a força do amor e a existência de carácter.

Amor feliz
E o certo é que nenhuma outra mulher,antes de eu conhecer Y, se me afigurou simultaneamente tão bela e tão simples, nem tão sensível na sua inteligência, nem tão inteligente na sua sensualidade.(...) A minha mulher, imersa na cinza, permanecia uma sombra intocável, uma sombra intocada; o marido de Y ,por seu turno,outra sombra intocável, e, ao que me parecia, também intocada, também felizmente intocante.

Que estranho...
Viver duas vezes a mesma história...
Há mitos eternos...


Procurar o sonho é procurar a verdade, visto que a única verdade, para mim, sou eu próprio. Isolar-me tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.

Conhecemos as pessoas durante anos...guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis... A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos... até que um acontecimento definitivo ...vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.

Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias; ou ter morrido até neste preciso instante. Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber da tua morte. A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata do luto: a de passar, anónima, à beira do teu esquife, para mim lamentando que não seja uma gôndola; a de ser simplesmente, e entre muitas outras, a figura provável de alguma antiga aluna. E só nesse momento sentirei a revolta de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata diante da loucura dos mais arrebatados de teus projectos, e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga, e não ter transplantado, com maior duração, os dias de Veneza para outro hemisfério. É certo: poderias até ter morrido durante o caminho, a viagem. Ao menos, se assim fosse, eu estaria a teu lado

Quantas vezes, estupefacto, abri um livro na mesma página para encontrar a mesma frase? E que prazer saber que a expectativa de que aquele universo se preserve não sairia gorada, porque os livros de papel são estáveis, não pensam em ser outra coisa senão por dentro das próprias palavras. Precisei muitas vezes de reencontrar páginas específicas, com o seu grafismo cristalizado, o seu grafismo diamante, a guardarem‑me o que não podia perder. Amar um livro é pedir-lhe que seja sempre nosso, assim, como um amor que se conserva para repetir ou reaprender.

O que é o amor?

Amor
É sonhar perfumes e maravilhas...
É ver-te surgir,envolto em cetim,
estátua burilada pelo meu cinzel,
alma esculpida pela minha palavra.
Amor
É ver-te surgir como parte de mim...


Amor é ... Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.


El amor es... Desmayarse, atreverse, estar furioso, aspero, tierno, liberal, esquivo, alentado, mortal, difunto, vivo, leal, traidor, cobarde y animoso; no hallar fuera del bien, centro y reposo, mostrarse alegre, triste, humilde, altivo, enojado, valiente, fugitivo, satisfecho, ofendido, receloso;

Amor não é... A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração.Certas formas, certo ar voluptuoso criam o desejo.O que produz o amor não se sabe; é tudo isto às vezes, é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar.O amor não está definido, nem o pode ser nunca, O amor verda­deiro; que as outras coisas não são isso.

Amor será... O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar...

Amor discreto... Tenho barcos, tenho remos,tenho navios no mar;tenho o amor ali defronte e não lhe posso chegar...


Amor mais do que discreto


Amor indiscreto... Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim nesta minha mania de te dar o que tu gostas e depois esquecer-me irremediavelmente de ti Agora na superfície da luz a procurar a sombra agora encostado ao vidro a sonhar a terra agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba e depois matar-te e dar-te vida eterna

Amor que é teu...


Amores diferentes ...

Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e de livros..
Já percebi por que razão as minhas memórias são tão desorganizadas: muitos livros e só dois namorados...
História de amor entre Rosa Montero e a sua imaginação...
Cativou-me esta apreciação sobre a obra...
Gostei da ideia: o meu livro em branco poderá ser, em certa medida, a história da minha imaginação: os seres que vou referir, embora reais, foram mitificados...Só existem para mim, fui a sua criadora.
Qualquer narrador profissional sabe que se escreve ,sobretudo, dentro da cabeça.
Ora aqui está uma opinião que me convém: "dentro da cabeça", sou uma grande escritora, mas como prová-lo??

O escritor está sempre a escrever. Nisto consiste a graça de ser romancista: na torrente de palavras que borbulham constantemente no seu cérebro. Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos enquanto estou a passear com os meus cachorros, por exemplo: na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo. Muitas vezes escrevo mentalmente a frase perfeita e volta e meia, se não a anoto a tempo, ela escapa -me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes a tentar recuperar aquelas palavras exatas que por um momento iluminaram o interior de minha cabeça e depois tornaram a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas no meio de águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que não as consiga pescar de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.

Amar apaixonadamente sem ser correspondido é como estar num barco e enjoar: o próprio acha que vai morrer, mas isso nos outros só provoca vontade de rir, eu li isso certa vez no escritor Alejandro Gándara, que teve uma lucidez esmagadora ao escrever isso. É mesmo: sofrimentos amorosos costumam provocar nos espectadores um sorrisinho meio de troça, meio piedoso. E, apesar desse comportamento dos outros, a dor de um amor desprezado é tão aguda! É um desespero que deixa doente, uma desolação que deixa vazio. Parece curioso que os seus amigos não levem muito a sério um sofrimento que para si é tão profundo; e ainda mais curioso que você também não se comova demais quando quem sofre são seus amigos. Porque será que, quando não estamos mergulhados no martírio do desamor, damos tão pouca importância a essa desgraça? Será que no fundo da nossa consciência sabemos que a paixão amorosa é um invento, um produto de nossa imaginação, uma fantasia? E que, por isso, essa dor que nos queima por dentro é de alguma maneira irreal? Como uma pessoa apaixonada, vivi repetidas vezes essa insuportável dor amorosa que afinal você acaba sempre por suportar...

Os humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um único romance cuja escrita demora toda a sua existência e na qual reservam para si o papel de protagonista.

But something good, oh something good, oh something good, oh something good make me forget about you for now...

She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras matéria insensível de um poder esquivo. Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação Há uma embriaguez de luto em nossos atos-chave...

Que é o amor? A necessidade de sair de si. O homem é um animal adorador... Adorar é sacrificar-se e prostituir-se. Assim, todo amor é prostituição. Sempre se interrogou se esta afirmação de baudelaire também se aplicaria ao amor platónico...Julga que sim: pode existir prostituição espiritual, mas não tem certezas...

Durante muito tempo, associado a amor homossexual, o termo amor platonicus foi usado, pela primeira vez, por marsilio ficino, sendo considerado um amor centrado na beleza do caráter e na inteligência, não no aspeto físico. Vulgarmente, é entendido como um amor à distância, feito de fantasias e de idealização... Por influência do romantismo,o amor platónico começa a ser confundido com amor impossível... Numa breve pesquisa, absolutamente informal e desordenada, encontrei as opiniões mais caricatas:" é amar o vizinho da frente e ele não olhar para mim"; "é ser muito tímido". Registo,apenas,a nota sarcástica de bernard shaw: Noutros tempos houve amores platónicos, hoje há casamentos platónicos...

Há muito que ando a tentar construir uma definição, não académica, que responda à pergunta que, frequentemente,me coloco: o que é o amor platónico?

É o encontro espiritual entre duas almas que não precisam de existir no tempo e no espaço; é estar apaixonado, tão só, pela ideia de alguém, aceitando o que se crê sentir sem emoções que provoquem sofrimento; é amar com a serenidade com que se joga xadrez,enquanto o jogo for prazer, aceitando a vitória ou a derrota. O prazer reside no próprio jogo, nunca no resultado...O amor platónico não culmina no ato sexual e muito menos na procriação, ele é um processo, sem qualquer finalidade.
Uma paixão ou a convicção dela, o desejo ou o sexo, são infinitamente menos inebriantes do que a cumplicidade intelectual que o amor platónico implica; o encontro espiritual entre dois seres é um sentimento inefável, tão raro que o nome ainda não foi inventado...Pigmaleão esculpiu uma estátua e apaixonou-se por esse mármore sem alma; o amor platónico é esculpir uma alma e apaixonar-se por essa imaterialidade, como ideia, como abstração...D. Quixote ama Dulcineia na sua inexistência...Quem duvidará da intensidade do sentimento de el ingenioso hidalgo?

Este amor, da filosofia de platão, conserva, tão só, a ideia de que um amor perfeito, como a perfeição em geral, não existe no mundo real, mas apenas no mundo das ideias..
καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους; και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων, δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς. cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον..

Assim, não só desejo apresentar o meu contributo e satisfazê-lo, como, ao mesmo tempo, parece-me que convém, aos aqui presentes, venerar o deus. Se então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem passar o nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o pai da ideia.

Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em vida como após a sua morte.

O que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é, fica feio. Assim, é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar com beleza.

Ora, eu começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como há pouco Pausânias dizia que aos homens bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos elementos bons de cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se dá o nome de medicina, enquanto que aos maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar em resumo, a ciência dos fenómenos de amor...

Ela ,porém, não conseguia desviar os olhos do horizonte. Ao longe...nesse lugar em que a terra e o céu se juntavam numa linha pura, pareceu-lhe ...que a esperava qualquer coisa até então ignorada e que todavia sempre lhe fizera falta....sabia apenas que esse reino sempre lhe fora prometido mas que jamais o alcançaria.



A gente faz amor por telepatia No chão, no mar, na lua, na melodia Mania de você...

Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras (...) Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. (...) O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade...

A propósito....
A . — Quisera saber como és feito por dentro (...) Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes … Quando levantas um braço, eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és (...) Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. (...) Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos, mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo!


Amor abstrato...

Marguerite Yourcenar rejeita tudo o que lhe parece redutor, onde se inclui o feminismo, que quase considera uma forma de racismo ao contrário.Tal como todas aquelas que não sentiram dificuldade em ser mulheres, porque a sua inteligência impunha pelo menos igualdade em relação aos homens, ela tende também a negar esse problema. Na mesma linha, não vê necessidade de estabelecer diferença entre o amor homossexual e o amor, simplesmente. É o suficiente para desencorajar vários admiradores que tentaram fazer dela porta-voz dos seus ideais particularistas, quando na realidade isso está completamente ausente do seu pensamento. Esta solidão de escritor, que lhe parece essencial e mesmo indispensável ao exercício da sua arte, decorre com a mesma naturalidade da sua concepção do mundo.(...) Desvia-se da política por a considerar demasiado efémera no curso da História. Deste modo, as simpatias desta romancista clássica, com um estilo talhado em mármore latino, com uma vida ordenada e regular, dirigem-se antes para os marginais e para aqueles que recusam poses e preconceitos...gosta de Bob Dylan.(...) Dos seus sonhos conserva na memória, com alguma nostalgia,o ter gostado de ser médica, por exemplo, como Zenão...(...)A sua abertura ao mistério da inspiração é também resultado de uma ascese. Esforça-se por conseguir um vazio em si própria, para nele acolher as suas criaturas, tão vivas no seu pensamento ao ponto de estarem sempre presentes.. As suas duas grandes personagens ( Adriano e Zenão) nasceram da sua imaginação aos dezoito anos. O imperador e o médico segui -la-ão ao longo de toda a sua existência, primeiro como esboços de um desenho, depois como heróis de romances, e finalmente como companheiros do dia-a-dia, cúmplices tutelares, tão presentes na sua vida como o mais familiar dos familiares.
Serena até ao desprendimento - e, no entanto, terna; basta vê-la acariciar um cão ou um seixo na praia - , diríamos que pertence a um outro reino... Ela olha o mundo e o homem de frente, com um amor tão abstracto que pode causar medo, como o dos santos. Apesar do seu sorriso de Minerva, contido e mesmo um pouco distante, é uma visionária que nos contempla, com aquele olhar azul onde se reencontra, intacta, a inocência gelada da criança perante um mundo que se afunda.


Amor(?) concreto...

Marguerite e Grace conheceram-se em 1937, ocasião em que Grace, que era americana, estava em viagem por França. Encantada com Marguerite, Grace apaixona -se e passa com ela o resto da sua vida.(...) Depois do contacto inicial, Marguerite e Grace iniciam uma relação de amizade que resultou em algumas viagens que realizaram juntas.(...) O registo das diversas etapas das viagens era feito por Grace que até ao fim da vida cultivou o hábito de anotar em agendas factos do quotidiano, eventos, e tudo aquilo que ela considerava significativo.(...) No ano de 1938 afirma: “So I love you, believe it or not”. Marguerite...tinha estado recentemente apaixonada pelo seu editor, um homossexual que não correspondeu ao seu amor, o que constituía para ela uma situação não resolvida...(...) Em 1939, devido à guerra que alastra na Europa e da qual ela queria fugir, Marguerite toma a decisão de embarcar para os Estados Unidos para uma estadia de seis meses a um ano. Chegando lá, instala -se no apartamento de Grace e iniciam uma vida em comum, primeiramente em Manhattan, depois em Connecticut e finalmente, de forma definitiva no Maine, numa ilha chamada Montes Desertos, onde adquiriram uma casa denominada por elas de “petite plaisance”. Marguerite passou os dez primeiros anos da sua vida com Grace sem sair dos Estados Unidos, país que nunca sentiu verdadeiramente seu, pois possuía um vínculo muito forte com a Europa e um espírito nómada que a impulsionava a mudar constantemente. Apesar disso, ficou com Grace e disse “eu não decidi nada, deixei-me levar”. Deixou-se levar, pelo amor, pela vida tranquila, pela solicitude sempre presente de Grace, pela possibilidade de se dedicar inteiramente ao seu trabalho de escritora, enfim por tudo aquilo de cómodo que a possibilidade de ficar lhe oferecia.(...) Grace, desejosa de reter Marguerite perto de si, cuidava de todos os detalhes da sua vida diária, assumindo o papel não só de amante, mas de ajudante, secretária e tradutora dos seus livros para inglês. (...) Foram quarenta anos de vida em comum, marcados pela “paixão inicial”, como disse certa vez Marguerite, mas também por momentos de turbulência. Os anos mais difíceis foram especialmente os dez últimos em que Grace lutou contra um cancro, que obrigou Marguerite a permanecer isolada da Europa, no que ela definia como uma “vida imóvel”, anos que coincidiram com o seu apogeu como escritora e que geraram uma insatisfação contida, como ela mesma diz: “não sei quando acabará essa má sorte. Pois é sempre má sorte estar imobilizada contra a sua vontade”. Recusou -se a deixar Grace, ainda que isso lhe fosse extremamente penoso, e ficou com ela até os seus últimos momentos, marcados por uma certa animosidade entre ambas.

( Não gostei da submissão de marguerite à submissão de grace...)