El centro del amor
no siempre coincide
con el centro de la vida.
Ambos centros
se buscan entonces
como dos animales atribulados.
Pero casi nunca se encuentran,
porque la clave de la coincidencia es otra:
nacer juntos.
Nacer juntos,
como debieran nacer y morir
todos los amantes.
Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.
Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
A quem teria Adrian aberto o coração? A quem teria acolhido na sua vida? Tais atitudes não existiam nele. Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro, sem a perceber. A sua indiferença era tão grande que só raramente se apercebia da companhia em que estava (...)Inclino-me a comparar a sua solidão com um abismo, no qual murgulhavam os sentimentos que os outros lhe ofereciam. Em torno dele reinava frieza ...
— Consideras o amor a mais forte de todas as paixões? — perguntou ele.
— Conheces outra mais forte?
— Sim, o interesse.
— Imagino que esse termo signifique para ti um amor privado de qualquer calor animal.
— Proponho que aceitemos essa definição — respondeu, rindo. — Boa noite!
A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.
Nunca amei ninguém. O mais que tenho amado são sensações minhas - estados da visualidade consciente, impressões da audição desperta, perfumes que são uma maneira de a humildade do mundo externo falar comigo, dizer-me coisas do passado (tão fácil de lembrar pelos cheiros) isto é, de me darem mais realidade, mais emoção, que o simples pão a cozer lá dentro na padaria funda, como naquela tarde longínqua em que vinha do enterro do meu tio que me amara tanto e havia em mim vagamente a ternura de um alívio, não sei bem de quê.
É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu; transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.
(O amor a certos livros tem um efeito devastador: depois de thomas mann, de kafka, de gmt, de saramago ,de camus... é difícil tentar ler autores menores...Tal como depois de conhecer fernando pessoa, só é possível gostar de alguns poemas, mas nunca mais consegui gostar de outro poeta ...)
( Há uns oito anos escrevi uma novela intitulada "um amor diferente" , que, num momento de fúria, apaguei do computador... Arrependi-me, mas talvez ainda a consiga reconstituir... )
Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo. (...) Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro vitral... Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a humanidade passando... (...) E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o Sol nos bata nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)
Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo. O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.
— De que havemos de falar?
— De qualquer cousa. Do mistério das cousas e das formas das flores. (...)
— Às vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.
Caeiro escreveu talvez o único poema de amor de que gosto verdadeiramente:
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
A única velharia que chegou intacta
ao estúpido século XXI
é a do amor. A população é dispensada
de se dirigir a um centro
que entregue intacto o instinto
amoroso, pois recebe-se essa coisa obscura logo
ao nascer e morre-se com ela. O amor
como coisa obscura que afina os dias.
Os outros e o Amor
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus
O que particularmente me indignava contra mim, nestes momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia de muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do factor social no jogo desequilibrado das minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. (…) E assim eu, o homem de inteligência e de desprendimento, perdia a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo. Lembro-me ainda, com uma precisão em que intercala o perfume vago do ar da Primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel.(…) . Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ... E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Amores grandes...
O amor, esse ser invencível, doce e sublime,que desata os membros, de novo me socorre. Ele agita o meu espírito como uma avalanche sacode as encostas. Lutar contra o amor é impossível, pois, como uma criança faz, ao ver sua mãe,sinto-me impelida para ele. Minha alma está dividida: algo a detém aqui,mas algo lhe diz para no amor viver...
Nada podeis contra o amor, contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis. Podeis dar-nos a morte, a mais vil, isso podeis. E é tão pouco!
El centro del amor no siempre coincide con el centro de la vida./Ambos centros se buscan entonces como dos animales atribulados. Pero casi nunca se encuentran, porque la clave de la coincidencia es otra: nacer juntos. Nacer juntos, como debieran nacer y morir todos los amantes.
A cidade está deserta, E alguém escreveu o teu nome em toda a parte: Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. Em todo o lado essa palavra Repetida ao expoente da loucura! Ora amarga! Ora doce! Para nos lembrar que o amor é uma doença, Quando nele julgamos ver a nossa cura!
Há muito tempo já que não escrevo um poema De amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! A nossa natureza lusitana Tem essa humana Graça Feiticeira de tornar de cristal a mais sentimental e baça bebedeira. Mas ou seja que vou envelhecendo e ninguém me deseje apaixonado, ou que a antiga paixão me mantenha calado O coração num íntimo pudor, — Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor.
No tenemos un lenguaje para los finales,para la caída del amor,para los concentrados laberintos de la agonía,para el amordazado escándalo de los hundimientos irrevocables./ (...) Quizá un lenguaje para los finales exija la total abolición de los otros lenguajes, la imperturbable síntesis de las tierras arrasadas.
Não podendo suportar o amor, a igreja quis, pelo menos, desinfectá-lo... Então, inventou o casamento.
A Idade só se aplica às pessoas Vulgares. A tendência para colocar uma ênfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres. É coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experiência e benevolência com a própria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas são eles próprios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles próprios são fanáticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade não é pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Tsé não é pior que Buda e o azul não é pior que o vermelho. A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude.
Transforma-se o amador na cousa amada,Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar?Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada.
Heathcliff, n'"O Monte dos Vendavais",seria capaz de matar a terra inteira para possuir Cathie,mas nunca lhe ocorreria a ideia de afirmar que semelhante crime era racional ou justificado por um sistema.Cometê-lo-ia e por aí se fica toda a sua fé. Mas semelhante atitude pressupõe a força do amor e a existência de carácter.
Amor feliz
E o certo é que nenhuma outra mulher,antes de eu conhecer Y, se me afigurou simultaneamente tão bela e tão simples, nem tão sensível na sua inteligência, nem tão inteligente na sua sensualidade.(...) A minha mulher, imersa na cinza, permanecia uma sombra intocável, uma sombra intocada; o marido de Y ,por seu turno,outra sombra intocável, e, ao que me parecia, também intocada, também felizmente intocante.
Que estranho...
Viver duas vezes a mesma história...
Há mitos eternos...
Procurar o sonho é procurar a verdade, visto que a única verdade, para mim, sou eu próprio. Isolar-me tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.
Conhecemos as pessoas durante anos...guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis... A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos... até que um acontecimento definitivo ...vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.
Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias; ou ter morrido até neste preciso instante. Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber da tua morte. A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata do luto: a de passar, anónima, à beira do teu esquife, para mim lamentando que não seja uma gôndola; a de ser simplesmente, e entre muitas outras, a figura provável de alguma antiga aluna. E só nesse momento sentirei a revolta de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata diante da loucura dos mais arrebatados de teus projectos, e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga, e não ter transplantado, com maior duração, os dias de Veneza para outro hemisfério. É certo: poderias até ter morrido durante o caminho, a viagem. Ao menos, se assim fosse, eu estaria a teu lado
Quantas vezes, estupefacto, abri um livro na mesma página para encontrar a mesma frase? E que prazer saber que a expectativa de que aquele universo se preserve não sairia gorada, porque os livros de papel são estáveis, não pensam em ser outra coisa senão por dentro das próprias palavras. Precisei muitas vezes de reencontrar páginas específicas, com o seu grafismo cristalizado, o seu grafismo diamante, a guardarem‑me o que não podia perder. Amar um livro é pedir-lhe que seja sempre nosso, assim, como um amor que se conserva para repetir ou reaprender.
O que é o amor?
Amor
É sonhar perfumes e maravilhas...
É ver-te surgir,envolto em cetim,
estátua burilada pelo meu cinzel,
alma esculpida pela minha palavra.
Amor
É ver-te surgir como parte de mim...
Amor é ... Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.
A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
El amor es... Desmayarse, atreverse, estar furioso, aspero, tierno, liberal, esquivo, alentado, mortal, difunto, vivo, leal, traidor, cobarde y animoso; no hallar fuera del bien, centro y reposo, mostrarse alegre, triste, humilde, altivo, enojado, valiente, fugitivo, satisfecho, ofendido, receloso;
Amor não é... A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração.Certas formas, certo ar voluptuoso criam o desejo.O que produz o amor não se sabe; é tudo isto às vezes, é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar.O amor não está definido, nem o pode ser nunca, O amor verdadeiro; que as outras coisas não são isso.
Amor será... O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar...
Amor discreto... Tenho barcos, tenho remos,tenho navios no mar;tenho o amor ali defronte e não lhe posso chegar...
Amor mais do que discreto
Amor indiscreto... Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim nesta minha mania de te dar o que tu gostas e depois esquecer-me irremediavelmente de ti Agora na superfície da luz a procurar a sombra agora encostado ao vidro a sonhar a terra agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba e depois matar-te e dar-te vida eterna
Amor que é teu...
Amores diferentes ...
Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e de livros..
Já percebi por que razão as minhas memórias são tão desorganizadas: muitos livros e só dois namorados...
História de amor entre Rosa Montero e a sua imaginação...
Cativou-me esta apreciação sobre a obra...
Gostei da ideia: o meu livro em branco poderá ser, em certa medida, a história da minha imaginação: os seres que vou referir, embora reais, foram mitificados...Só existem para mim, fui a sua criadora.
Qualquer narrador profissional sabe que se escreve ,sobretudo, dentro da cabeça.
Ora aqui está uma opinião que me convém: "dentro da cabeça", sou uma grande escritora, mas como prová-lo??
O escritor está sempre a escrever. Nisto consiste a graça de ser romancista: na torrente de palavras que borbulham constantemente no seu cérebro. Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos enquanto estou a passear com os meus cachorros, por exemplo: na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo. Muitas vezes escrevo mentalmente a frase perfeita e volta e meia, se não a anoto a tempo, ela escapa -me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes a tentar recuperar aquelas palavras exatas que por um momento iluminaram o interior de minha cabeça e depois tornaram a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas no meio de águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que não as consiga pescar de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.
Amar apaixonadamente sem ser correspondido é como estar num barco e enjoar: o próprio acha que vai morrer, mas isso nos outros só provoca vontade de rir, eu li isso certa vez no escritor Alejandro Gándara, que teve uma lucidez esmagadora ao escrever isso. É mesmo: sofrimentos amorosos costumam provocar nos espectadores um sorrisinho meio de troça, meio piedoso. E, apesar desse comportamento dos outros, a dor de um amor desprezado é tão aguda! É um desespero que deixa doente, uma desolação que deixa vazio. Parece curioso que os seus amigos não levem muito a sério um sofrimento que para si é tão profundo; e ainda mais curioso que você também não se comova demais quando quem sofre são seus amigos. Porque será que, quando não estamos mergulhados no martírio do desamor, damos tão pouca importância a essa desgraça? Será que no fundo da nossa consciência sabemos que a paixão amorosa é um invento, um produto de nossa imaginação, uma fantasia? E que, por isso, essa dor que nos queima por dentro é de alguma maneira irreal? Como uma pessoa apaixonada, vivi repetidas vezes essa insuportável dor amorosa que afinal você acaba sempre por suportar...
Os humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um único romance cuja escrita demora toda a sua existência e na qual reservam para si o papel de protagonista.
But something good, oh something good, oh something good, oh something good make me forget about you for now...
She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon She loves you, Leon
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras matéria insensível de um poder esquivo. Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação Há uma embriaguez de luto em nossos atos-chave...
Que é o amor? A necessidade de sair de si. O homem é um animal adorador... Adorar é sacrificar-se e prostituir-se. Assim, todo amor é prostituição. Sempre se interrogou se esta afirmação de baudelaire também se aplicaria ao amor platónico...Julga que sim: pode existir prostituição espiritual, mas não tem certezas...
Durante muito tempo, associado a amor homossexual, o termo amor platonicus foi usado, pela primeira vez, por marsilio ficino, sendo considerado um amor centrado na beleza do caráter e na inteligência, não no aspeto físico. Vulgarmente, é entendido como um amor à distância, feito de fantasias e de idealização... Por influência do romantismo,o amor platónico começa a ser confundido com amor impossível... Numa breve pesquisa, absolutamente informal e desordenada, encontrei as opiniões mais caricatas:" é amar o vizinho da frente e ele não olhar para mim"; "é ser muito tímido". Registo,apenas,a nota sarcástica de bernard shaw: Noutros tempos houve amores platónicos, hoje há casamentos platónicos...
Há muito que ando a tentar construir uma definição, não académica, que responda à pergunta que, frequentemente,me coloco: o que é o amor platónico?
É o encontro espiritual entre duas almas que não precisam de existir no tempo e no espaço; é estar apaixonado, tão só, pela ideia de alguém, aceitando o que se crê sentir sem emoções que provoquem sofrimento; é amar com a serenidade com que se joga xadrez,enquanto o jogo for prazer, aceitando a vitória ou a derrota. O prazer reside no próprio jogo, nunca no resultado...O amor platónico não culmina no ato sexual e muito menos na procriação, ele é um processo, sem qualquer finalidade.
Uma paixão ou a convicção dela, o desejo ou o sexo, são infinitamente menos inebriantes do que a cumplicidade intelectual que o amor platónico implica; o encontro espiritual entre dois seres é um sentimento inefável, tão raro que o nome ainda não foi inventado...Pigmaleão esculpiu uma estátua e apaixonou-se por esse mármore sem alma; o amor platónico é esculpir uma alma e apaixonar-se por essa imaterialidade, como ideia, como abstração...D. Quixote ama Dulcineia na sua inexistência...Quem duvidará da intensidade do sentimento de el ingenioso hidalgo?
Este amor, da filosofia de platão, conserva, tão só, a ideia de que um amor perfeito, como a perfeição em geral, não existe no mundo real, mas apenas no mundo das ideias..
καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους; και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων, δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς. cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον..
Assim, não só desejo apresentar o meu contributo e satisfazê-lo, como, ao mesmo tempo, parece-me que convém, aos aqui presentes, venerar o deus. Se então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem passar o nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o pai da ideia.
Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em vida como após a sua morte.
O que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é, fica feio. Assim, é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar com beleza.
Ora, eu começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como há pouco Pausânias dizia que aos homens bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos elementos bons de cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se dá o nome de medicina, enquanto que aos maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar em resumo, a ciência dos fenómenos de amor...
Ela ,porém, não conseguia desviar os olhos do horizonte. Ao longe...nesse lugar em que a terra e o céu se juntavam numa linha pura, pareceu-lhe ...que a esperava qualquer coisa até então ignorada e que todavia sempre lhe fizera falta....sabia apenas que esse reino sempre lhe fora prometido mas que jamais o alcançaria.
A gente faz amor por telepatia No chão, no mar, na lua, na melodia Mania de você...
Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras (...) Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minha(s). Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. (...) O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne não é espiritual mas é espiritualidade...
A propósito....
A . — Quisera saber como és feito por dentro (...) Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes … Quando levantas um braço, eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és (...) Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. (...) Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos, mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo!
Amor abstrato...
Marguerite Yourcenar rejeita tudo o que lhe parece redutor, onde se inclui o feminismo, que quase considera uma forma de racismo ao contrário.Tal como todas aquelas que não sentiram dificuldade em ser mulheres, porque a sua inteligência impunha pelo menos igualdade em relação aos homens, ela tende também a negar esse problema. Na mesma linha, não vê necessidade de estabelecer diferença entre o amor homossexual e o amor, simplesmente. É o suficiente para desencorajar vários admiradores que tentaram fazer dela porta-voz dos seus ideais particularistas, quando na realidade isso está completamente ausente do seu pensamento. Esta solidão de escritor, que lhe parece essencial e mesmo indispensável ao exercício da sua arte, decorre com a mesma naturalidade da sua concepção do mundo.(...) Desvia-se da política por a considerar demasiado efémera no curso da História. Deste modo, as simpatias desta romancista clássica, com um estilo talhado em mármore latino, com uma vida ordenada e regular, dirigem-se antes para os marginais e para aqueles que recusam poses e preconceitos...gosta de Bob Dylan.(...) Dos seus sonhos conserva na memória, com alguma nostalgia,o ter gostado de ser médica, por exemplo, como Zenão...(...)A sua abertura ao mistério da inspiração é também resultado de uma ascese. Esforça-se por conseguir um vazio em si própria, para nele acolher as suas criaturas, tão vivas no seu pensamento ao ponto de estarem sempre presentes.. As suas duas grandes personagens ( Adriano e Zenão) nasceram da sua imaginação aos dezoito anos. O imperador e o médico segui -la-ão ao longo de toda a sua existência, primeiro como esboços de um desenho, depois como heróis de romances, e finalmente como companheiros do dia-a-dia, cúmplices tutelares, tão presentes na sua vida como o mais familiar dos familiares.
Serena até ao desprendimento - e, no entanto, terna; basta vê-la acariciar um cão ou um seixo na praia - , diríamos que pertence a um outro reino... Ela olha o mundo e o homem de frente, com um amor tão abstracto que pode causar medo, como o dos santos. Apesar do seu sorriso de Minerva, contido e mesmo um pouco distante, é uma visionária que nos contempla, com aquele olhar azul onde se reencontra, intacta, a inocência gelada da criança perante um mundo que se afunda.
Amor(?) concreto...
Marguerite e Grace conheceram-se em 1937, ocasião em que Grace, que era americana, estava em viagem por França. Encantada com Marguerite, Grace apaixona -se e passa com ela o resto da sua vida.(...) Depois do contacto inicial, Marguerite e Grace iniciam uma relação de amizade que resultou em algumas viagens que realizaram juntas.(...) O registo das diversas etapas das viagens era feito por Grace que até ao fim da vida cultivou o hábito de anotar em agendas factos do quotidiano, eventos, e tudo aquilo que ela considerava significativo.(...) No ano de 1938 afirma: “So I love you, believe it or not”. Marguerite...tinha estado recentemente apaixonada pelo seu editor, um homossexual que não correspondeu ao seu amor, o que constituía para ela uma situação não resolvida...(...) Em 1939, devido à guerra que alastra na Europa e da qual ela queria fugir, Marguerite toma a decisão de embarcar para os Estados Unidos para uma estadia de seis meses a um ano. Chegando lá, instala -se no apartamento de Grace e iniciam uma vida em comum, primeiramente em Manhattan, depois em Connecticut e finalmente, de forma definitiva no Maine, numa ilha chamada Montes Desertos, onde adquiriram uma casa denominada por elas de “petite plaisance”. Marguerite passou os dez primeiros anos da sua vida com Grace sem sair dos Estados Unidos, país que nunca sentiu verdadeiramente seu, pois possuía um vínculo muito forte com a Europa e um espírito nómada que a impulsionava a mudar constantemente. Apesar disso, ficou com Grace e disse “eu não decidi nada, deixei-me levar”. Deixou-se levar, pelo amor, pela vida tranquila, pela solicitude sempre presente de Grace, pela possibilidade de se dedicar inteiramente ao seu trabalho de escritora, enfim por tudo aquilo de cómodo que a possibilidade de ficar lhe oferecia.(...) Grace, desejosa de reter Marguerite perto de si, cuidava de todos os detalhes da sua vida diária, assumindo o papel não só de amante, mas de ajudante, secretária e tradutora dos seus livros para inglês. (...) Foram quarenta anos de vida em comum, marcados pela “paixão inicial”, como disse certa vez Marguerite, mas também por momentos de turbulência. Os anos mais difíceis foram especialmente os dez últimos em que Grace lutou contra um cancro, que obrigou Marguerite a permanecer isolada da Europa, no que ela definia como uma “vida imóvel”, anos que coincidiram com o seu apogeu como escritora e que geraram uma insatisfação contida, como ela mesma diz: “não sei quando acabará essa má sorte. Pois é sempre má sorte estar imobilizada contra a sua vontade”. Recusou -se a deixar Grace, ainda que isso lhe fosse extremamente penoso, e ficou com ela até os seus últimos momentos, marcados por uma certa animosidade entre ambas.
( Não gostei da submissão de marguerite à submissão de grace...)
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Dez de junho...
Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combatera doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente.
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo Anda na consulta externa do Júlio de Matos Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete,
Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca
De Luís de Camões sabemos pouco, é certo, mas sabemos o suficiente para se não poder fazer dele outro modelo que não seja de singularidade. Pois em que padrão poderia transformar-se um homem que não estudou leis, não teve modo de vida conhecido, não levou nenhuma dama à igreja, não contribuiu para o aumento da população, não pertenceu a qualquer confraria, e cuja vida é capaz de ter sido mesmo das mais desgraçadas que jamais a qualquer português letrado coube em sorte? Camões, se modelo é, convenhamos que é apenas modelo de poesia e de liberdade — e isso basta.
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Luís Vaz de Camões poeta infortunado e tutelar. Fez o milagre de ressuscitar a pátria em que nasceu.Quando,vidente,a viu a caminho da negra sepultura,num poema de amor e de aventura, deu-lhe a vida perdida. E agora,nesta segunda hora de vil tristeza, imortal, ele é ainda a única certeza de Portugal.
Casca é o tempo que dói, a janela fechada que estilhaça quando se olha para trás...Tentamos disfarçar demónios Por medo desviamos olhos Por fuga apagamos fogos Por escudos renascemos novos Sem rasto esquecemos lábios Altivos, rastejamos, sábios Cada vez mais fundo No buraco do mundo...
De tudo que fomos, restam-nos apenas a paisagem e a língua...Uma paisagem descaracterizada e uma língua vilipendiada...
De tudo o que fui, o que me resta? Sinto-me sem glória, sem musa, sem herói, sem mito, sem alma, sem país, sem praias, sem mares... sem nada. Só uma "apagada e vil tristeza"...
I lost my way...
When you feel life coming down on you like a heavy weight When you feel this crazy society adding to the strain Take a stroll to the nearest water's edge, remember your place Many moons have risen and fallen long, long before you came So which way is the wind blowing What does your heart say So follow, follow the sun And which way the wind blows When this day is done...
Fernando Pessoa, culturalmente considerado, não será muito mais poeta nacional deste século do que Camões? Por ser o símbolo da Pátria e por ter envolvido emblematicamente a glória do poeta. Glória pura que, como poucas, merecia a graça desse póstumo calor materno. Ninguém antes tinha realizado o milagre de criar de raiz um Portugal feito de versos.
Não tem razão miguel torga... o poeta nacional é camões, nunca poderia ser fernando pessoa , não porque ele não o mereça, mas porque portugal não o merece: fernando pessoa é demasiado perfeito para representar esta gente que, com intensidade, só é capaz de amar e fornicar...
Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar... Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir...
Mais uma vez um discurso igual,certamente a todos os outros, de uma "apagada e vil tristeza"...Ora deixem-me adivinhar: É necessário o entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia. Ambicionamos um país mais rico e mais justo, uma sociedade que não seja atravessada por tantas assimetrias e desigualdades. É preciso adoptar uma cultura de transparência e de prestação de contas...
Vejamos em 2015: Se assegurarmos estabilidade política e governabilidade, se definirmos uma linha de sustentabilidade das contas, de competitividade, de integração social, podemos festejar este dia com confiança no futuro.
Vou adaptar estas "sábias" palavras : se eu assegurar a estabilidade afetiva e a governabilidade existencial,se definir uma linha de sustentatibilidade dos afetos, de competitividade, de integração , posso festejar este dia com confiança...Se---
Se me ponho a ouvir isto, fico triste e isso não está previsto no discurso presidencial...
Pera servir-vos, braço às armas feito;
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser de vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pressaga mente vaticina,
Olhando a vossa inclinação divina
Parece-me um bom remate esta súplica de camões a d.sebastião...Dez de junho é um dia propício para esperar d. sebastião "quer ele venha quer não"...
Mas também há homens muito atentos à Língua.
Mais insensível à dor dos outros que a um adjetivo mal colocado.
Para mim, os pronomes pessoais são mais importantes que a tua pessoa, desculpa dizer-te isso.
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Luís Vaz de Camões poeta infortunado e tutelar. Fez o milagre de ressuscitar a pátria em que nasceu.Quando,vidente,a viu a caminho da negra sepultura,num poema de amor e de aventura, deu-lhe a vida perdida. E agora,nesta segunda hora de vil tristeza, imortal, ele é ainda a única certeza de Portugal.
Casca é o tempo que dói, a janela fechada que estilhaça quando se olha para trás...Tentamos disfarçar demónios Por medo desviamos olhos Por fuga apagamos fogos Por escudos renascemos novos Sem rasto esquecemos lábios Altivos, rastejamos, sábios Cada vez mais fundo No buraco do mundo...
De tudo que fomos, restam-nos apenas a paisagem e a língua...Uma paisagem descaracterizada e uma língua vilipendiada...
De tudo o que fui, o que me resta? Sinto-me sem glória, sem musa, sem herói, sem mito, sem alma, sem país, sem praias, sem mares... sem nada. Só uma "apagada e vil tristeza"...
I lost my way...
When you feel life coming down on you like a heavy weight When you feel this crazy society adding to the strain Take a stroll to the nearest water's edge, remember your place Many moons have risen and fallen long, long before you came So which way is the wind blowing What does your heart say So follow, follow the sun And which way the wind blows When this day is done...
Fernando Pessoa, culturalmente considerado, não será muito mais poeta nacional deste século do que Camões? Por ser o símbolo da Pátria e por ter envolvido emblematicamente a glória do poeta. Glória pura que, como poucas, merecia a graça desse póstumo calor materno. Ninguém antes tinha realizado o milagre de criar de raiz um Portugal feito de versos.
Não tem razão miguel torga... o poeta nacional é camões, nunca poderia ser fernando pessoa , não porque ele não o mereça, mas porque portugal não o merece: fernando pessoa é demasiado perfeito para representar esta gente que, com intensidade, só é capaz de amar e fornicar...
Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar... Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir...
Mais uma vez um discurso igual,certamente a todos os outros, de uma "apagada e vil tristeza"...Ora deixem-me adivinhar: É necessário o entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia. Ambicionamos um país mais rico e mais justo, uma sociedade que não seja atravessada por tantas assimetrias e desigualdades. É preciso adoptar uma cultura de transparência e de prestação de contas...
Vejamos em 2015: Se assegurarmos estabilidade política e governabilidade, se definirmos uma linha de sustentabilidade das contas, de competitividade, de integração social, podemos festejar este dia com confiança no futuro.
Vou adaptar estas "sábias" palavras : se eu assegurar a estabilidade afetiva e a governabilidade existencial,se definir uma linha de sustentatibilidade dos afetos, de competitividade, de integração , posso festejar este dia com confiança...Se---
Se me ponho a ouvir isto, fico triste e isso não está previsto no discurso presidencial...
Pera servir-vos, braço às armas feito;
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser de vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pressaga mente vaticina,
Olhando a vossa inclinação divina
Parece-me um bom remate esta súplica de camões a d.sebastião...Dez de junho é um dia propício para esperar d. sebastião "quer ele venha quer não"...
Mas também há homens muito atentos à Língua.
Mais insensível à dor dos outros que a um adjetivo mal colocado.
Para mim, os pronomes pessoais são mais importantes que a tua pessoa, desculpa dizer-te isso.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Flirts, enamoramentos e paixões...
Flirts...
Por vezes, cogita que é injusta para com com os linguistas e vai ter de se redimir...
Como queria rezar o ato de contrição, fez uma descoberta surpreendente: existe a versão "grande" e a versão "pequena".A versão contraída do ato de contrição deve ser para devotos apressados...
Ato de Contrição Grande - Meu Deus,porque sois infinitamente bom e vos amo de todo o meu coração,pesa-me de vos ter ofendido e, com o auxilio da vossa divina graça, proponho, firmemente,emendar-me e nunca mais vos tornar a ofender; peço e espero perdão das minhas culpas pela vossa infinita misericórdia.Ámen.
Ato de Contrição Pequeno- Meu Deus, porque sois tão bom,tenho muita pena de vos ter ofendido, ajudai-me a não tornar a pecar.
( A pontuação foi corrigida porque,pelos vistos, a santa madre igreja só gosta de pôr os pontos nos is relativamente ao uso de preservativo e pontos finais nas relações homossexuais ou simplesmente sexuais, não cuidando, como lhe competia, das vírgulas. Desprezar as vírgulas e adorar pontos não me parece caridade cristã, mas decidiu falar de linguistas e não se quer afastar do seu propósito, embora já o tenha feito...)
Optou pelo Ato de Contrição Grande porque não pactua com abreviações simplistas - deus até pode não concordar- e tem de reconhecer que,se não fossem os linguistas, que leu apaixonadamente em jovem, não seria o que é...O seu primeiro e amor foi ....Saussure. Teve,é certo, uns flirts semióticos, mas meros significantes , sem significado...
Há quanto tempo não pensava em to flirt: O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização não as apurar. To flirt é um verbo inocente que se conjuga ali entre os dois sexos, e não significa namorar — palavra grossa e absurda que eu detesto - não significa "fazer a corte”; é mais do que estar amável, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequências, começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento. Eu flartava nós flartávamos, eles flartavam. E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito do que o flartar...
É uma curiosidade linguística interessante que, após o predomínio, nos séculos XVI e XVII, dos empréstimos castelhanos, das penetrações, no século XVIII, de italianismos e de galicismos, de um século XIX / XX marcados, sobretudo, por galicismos, o anglicismo flirt tenha sido uma exceção, muito antes da invasão de estrangeirismos de língua inglesa, sobretudo a partir do último quartel do século XX.
Terá de confirmar, mas julga que a origem estará no excerto transcrito de garrett... Seja qual for a razão , o facto indubitável é que, em tempo de francesismos, se tinham flirts e, no reinado dos anglicismos, to flirt, como que por magia, se desvaneceu, tendo sido substituído por curtir , "palavra grossa e absurda que detesta."
Imagine-se uma publicação sobre curtições semióticas!! Até parecia título de filme pornográfico...
Profetizou bem garrett: O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização não as apurar...
Sempre se interrogou sobre a forma como acontece o enamoramento entre dois cegos. Acredita no amor platónico, mesmo sem saber exatamente o que seja, mas confunde-A como decorrerão os primeiros contactos. O que substitui a figura, a expressão, o sorriso, o olhar, as mãos, tudo o que se vê quando olhamos para o ser amado? Será que tudo isso se torna irrelevante? O amor entre os cegos será similar às novas formas de contactos meramente virtuais, propiciadas pelas novas tecnologias? Nas raras vezes em que vénus se sobrepôs a atena, existiu sempre uma descoberta súbita: num certo dia olhOU para uma pessoa, que estava farta de ver, e sentiu um verdadeiro deslumbramento... Se fosse cega, o que substituiria esse fascínio revelador?
O enamoramento entre cegos pode até ser fácil de explicar: valoriza o tom de voz, o cheiro, o toque... As sensações visuais são supridas por todas as outras... Nunca existirá, certamente, é "amor à primeira vista"...
Imaginou-se na casa dos cegos de saramago. Que facetas escondidas revelaria? Como seria o seu encontro contigo? Reconhecer-se-íam? Ignora o recorte do teu rosto, nunca o sentiu. Não recorda o som da tua voz. Desconhece o teu cheiro. Se ocultassem todos os elementos identificadores, reconhecer-se-iam? Gostar - se -iam? Se tu falasses, ela sentir-te-ia? Será que as suas palavras te eram familiares? Conheces o som da sua voz? Será que, sem visão, como dizem, os outros sentidos ficam mais apurados e ela, afinal, se tocasse o teu rosto, o identificava? O teu cabelo é grosso ou fino, é áspero ou macio? As coisas em que nunca reparamos só porque temos olhos...Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Enquanto te pude olhar, não te vi. Enquanto te pude ver, não reparei.
Durante o escasso tempo que dormiu,sonhou que estava cega e que se debatia com a angústia de te sentir, mas sem conseguir saber onde estavas. Só ouvia um riso, um riso cruel, que se afigurava familiar, mas acordou, sem te reconhecer, com os olhos cheios de lágrimas..
Pela primeira vez, aos quinze anos, contactou com a palavra enamoramento...(Confessa que se imaginei aónia ou arima ,personagens da menina e moça, e que um cavaleiro a amaria serena, mas intensamente, cativado, de modo súbito e inexplicável, pela beleza da sua alma, pela auréola mágica que via em mim. Bem pôde esperar...Também nunca encontrei nenhum cavaleiro que lhe agradasse...)
O enamoramento é um estado emocional em que sentimos alegria e satisfação. É um processo que, implicando a ação de diversos elementos, começa no córtex cerebral, passando depois para o sistema endócrino,convertendo-se em respostas fisiológicas. Ao conhecer alguém por quem se sente atraído, o ser humano experiencia uma série de alterações químicas e psicológicas. Ao accionar os mecanismos de sedução, a pessoa conjuga o seu instinto animal (inconsciente) com a capacidade própria da nossa espécie. Por outro lado, o amor (principalmente, nos primeiros tempos) abastece-se fundamentalmente de química: a feniletilamina obriga a dopamina ou a norepinefrina a segregar, provocando assim um efeito de euforia natural sempre que a pessoa está junto do objeto do amor. Embora sejam conceitos próximos, há que distinguir o enamoramento (a atracção e paixão) do amor (um sentimento em que a pessoa necessita da presença da outra).
Tornaram‑se quase uma obrigação. Não, a palavra não é adequada para o que nos proporciona prazer e sossego. Talvez numa superstição, mas nem isso: não era que eu acreditasse que o dia me ia correr mal se não partilhasse com eles o pequeno‑almoço,isto é, à distância; acontecia apenas que o iniciava de ânimo mais abatido ou com menos optimismo sem a visão que me ofereciam diariamente, a qual era a do mundo em ordem, ou, se se preferir, em harmonia...
Naquele último dia em que a mulher dele e eu o vimos não puderam jantar juntos. Nem sequer almoçaram. Ela esperou por ele vinte minutos sentada a uma mesa de restaurante, admirada mas sem nada recear, até que tocou o telefone e acabou o seu mundo, e nunca mais tornou a esperar por ele.
Era uma daquelas frases que as pessoas dizem quando se despedem e de que se esquecem depois da despedida. Eu não voltaria à sua memória, era apenas uma jovem prudente que conhecia de vista, e mais nada, e de outra vida. E já nem sequer era jovem.
E, entrando, viu a senhora Aónia, que em grande extremo era formosa, soltos os seus grandes cabelos, que toda a cobriam, e parte deles molhados em lágrimas que o seu rosto por algumas partes descobriam. Foi logo trespassado do amor dela, sem haver quem, por parte de outrem, fizesse defesa alguma...
E porque ainda ele não tinha determinado consigo querer Arima bem de Amor” (querendo-lhe já sem o ter determinado) como anojado de si consigo, muitas vezes fazia por dormir. E não cria ele que uma vez só que vira a Arima, lhe podia ocupar tanto o tempo e tanto o cuidado que lhe tolhesse o sono. Mas não era assim como ele cria: tamanho poder sobre ele, só foi dado a um só pôr de olhos e abaixar!
Neste enigmática novela sentimental, a primeira em língua portuguesa, assistimos ao despertar da consciência dos mecanismos psíquicos que desencadeiam as paixões e os impulsos afetivos, sendo o homem perspetivado, não como o típico cavaleiro andante, lutador e enérgico, mas como um ser delicado, com sensibilidade feminina, um cavaleiro estático, dominado pelo sentimento amoroso ... Nesta narrativa , de conteúdo platónico, o Amor é o Desejo despertado pela Beleza...
Existe entre nós os dois algo melhor do que o amor: a cumplicidade.
Paixões...
Quem procura o prazer pelo prazer jamais se sentirá satisfeito. O homem só poderá ser feliz se aprender a dominar as suas paixões. O prazer implica dor.... Quem o procura só pode encontrar infelicidade, sofrimento, fazendo também sofrer os outros.Nunca terá amigos, mas apenas aduladores ou os que o odeiam.
O ser humano não consegue viver sem paixão.(...)E o ser humano tenta, por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar, pelo menos, as condições da autêntica paixão.
Paixão - 1. Impressão viva 2.Perturbação ou movimento desordenado do ânimo 3. Grande inclinação ou predileção 4. Afeto violento, amor ardente 5. O objeto desse amor 6. Pena, cuidado, trabalho 7. Grande desgosto, grande pesar 8. Parcialidade 9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados) 10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo 11. [Filosofia] Impressão recebida de um agente 12. [Portugal: Aveiro] Cada uma das estacas em que se arma o botirão.
Compaixão1. Sentimento benévolo que nos inspira a infelicidade ou o mal alheio 2. Dó; lástima; piedade.
Conheço, desde há muito, a etimologia destes dois nomes não-contáveis...
(Há o seu quê de bizarria incontável nesta nova terminologia gramatical: substantivos abstratos seria óbvio demais? Não teria a designação aquele quid hermético e esotérico que os falsos intelectuais consideram dar dignidade ao discurso científico? Será um sintoma inequívoco da mediocridade pindérica dos pretensos linguistas portugueses que se degladiam, histérica e esterilmente, pretendendo garantir a supremacia à escola de Coimbra ou à de Lisboa, em polémicas verdadeiramente clubísticas? Quem sabe) Como também tenho direito a produções divergentes, vou designá-los por nomes incontáveis...
Sempre me incomodou o facto de um prefixo poder retirar à palavra primitiva o seu significado, violando-a, apropriando-se dela sem piedade, a compaixão não teve qualquer compaixão pela paixão, o que é um paradoxo,apesar de linguisticamente explicável.A paixão evolui semanticamente,enriquece-se, repaganiza-se, enquanto a compaixão permanece vinculada à matriz inicial, mas deturpada pelo cristianismo.
Repare-se que, na generalidade dos dicionários, o sentido de sofrimento nunca surge nos primeiros lugares....É assim e, provavelmente, a clivagem profunda entre os apaixonados por e os que sentem compaixão por manter-se-á. Por comodidade, já que inovei nos nomes incontáveis, vou criar o adjetivo compaixonado, para melhor estabelecer a antítese relativamente ao apaixonado...
É pela mão dos trovadores medievais que, no século XIII,a paixão se erotiza: Esta paixon sofro por teu amor, lamenta Afonso X.
Será desnecessário percorrer as diferentes fases da vida da paixon, que, definitivamente se fixou como um afeto intenso por algo, alguém ou alguma coisa... Um destino de glória ascendente, ao contrário da compaixão que chega a originar a morte de Deus: Tu, Zaratustra, tu foste o primeiro a assinalar o perigo da compaixão...tu mesmo defende-te da tua própria compaixão(...) A compaixão de Deus não conhecia o pudor; insinuava-se nas pregas mais imundas,esse curioso,esse indiscreto,esse maníaco da compaixão; foi realmente necessário que morresse..
Deus - um maníaco da compaixão...que síntese sublime!
Os compaixonados são seres inferiores, destruídos pela sua própria piedade; só os apaixonados podem ser homens superiores, mesmo que pareçam loucos, como o beloved D.Juan del Marco... Posso ser acusada de muita coisa, mas compaixonada nunca fui, não sou nem serei...
Opiniões...
Na sua primeira paixão, a mulher ama o amante; em todas as outras, ela gosta é do amor. - goethe
A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais....- wilde
As nossas paixões são verdadeiras fénixes. Quando a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira.- byron
O amor não é senão o desejo; e assim, o desejo é o princípio original de que todas as nossas paixões decorrem, como os riachos da sua origem; por isso, sempre que o desejo de um objecto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo e somos levados a mil desordens. - cervantes
Nada existe de grandioso sem paixão.- hegel
Mas dizer que vamos falar de paixão não esclarece grande coisa: na realidade, não estamos a fazer nada mais do que nomear o caos... Porque a paixão, e este é o segundo traço fundamental, é uma espécie de sonho que se deteriora em contacto com a realidade..." É que eu não aprendo", queixa -se o amante sofredor. E ele está certo, porque o amor permanece impermeável à experiência.
Em 1890, um gigante corpulento e pálido entrou num café de Paris e aproximou-se do maestro da pequena orquestra que animava o local: 'Estou a escrever uma obra sobre uma mulher que dança, de pés descalços, sobre o sangue do homem por quem estava desesperadamente apaixonada, e que ela matou', explicou com refinada educação: 'Vocês poderiam tocar alguma coisa que se adequasse a isso?' Os músicos, ao fim e ao cabo parisienses do fim do século, acharam a solicitação normal e interpretaram uma peça tão terrível e agonizante que os frequentadores do café, espantados, interromperam as suas conversas. O homenzarrão ouviu a tenebrosa melodia, com visível satisfação e, no fim, voltou ao seu quarto para continuar a escrever. Tratava-se de Oscar Wilde, e a obra era Salomé.
Liz tentou o suicídio, Sybil (então mulher de Burton) tentou suicidar-se, Richard suicidava -se um pouco todos os dias, bebendo inacreditáveis quantidades de álcool. Há paixões assim, baseadas em sucessivos espasmos de carinho e de agressão. Na crispação e no êxtase contínuos.
No decorrer dessa mesma semana Tolstoi teve a cruel e original ideia de que a noiva lesse todos os seus diários íntimos, para saber com quem se ia casar. E a pobre Sónia, ainda uma menina, teve que engolir as escabrosas revelações de um senhor de 34 anos a quem mal conhecia.
Ela [Cleópatra] entrou para a história pela mão de um génio como Júlio César, mas sem dúvida era uma mulher extraordinária.(...) Ele [Marco António], pelo contrário, entrou para a história graças a Cleópatra: sem a rainha do Egipto, hoje não recordaríamos aquele romano ignorante.
Um bom presente de natal para um leitor ou, melhor, para uma leitora não muito exigente... só isso. Diz bem, escreve bem, investiga bem, conhece bem, mas não me surpreende. Aprendem-se coisas,tem dignidade mais do que suficiente para ser oferecido por mim, mas só isso..Já devia saber que andar atrás de paixões não dá bom resultado, mas não aprendo...
A avestruz não aspira a erguer-se nos ares, expondo-se a uma exemplar queda: deixa descobrir pouco a pouco a beleza das suas plumas. E... se tiverdes paixões, não as ponhais à vista, por mais nobres que vos pareçam. Não se deve consentir a todos o acesso ao nosso próprio coração. Um silêncio cauto e prudente é o cofre da sensatez.
O que eu fazia,em casa, sobretudo era ler. Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no fundo de mim. E as únicas impressões exteriores para mim vinham da leitura. A leitura, escusado será dizê-lo, ajudava-me muito- apaixonava-me, preenchia-me, torturava-me.(...) As minhas pequenas paixões eram agudas, inflamadas, por causa de eu ser sempre doentiamente irritadiço. Havia uns repentes histéricos, com lágrimas e convulsões. Fora da leitura, não havia nada para mim- ou seja, não tinha nada à minha volta que pudesse admirar e que pudesse arrastar-me.
Por vezes, cogita que é injusta para com com os linguistas e vai ter de se redimir...
Como queria rezar o ato de contrição, fez uma descoberta surpreendente: existe a versão "grande" e a versão "pequena".A versão contraída do ato de contrição deve ser para devotos apressados...
Ato de Contrição Grande - Meu Deus,porque sois infinitamente bom e vos amo de todo o meu coração,pesa-me de vos ter ofendido e, com o auxilio da vossa divina graça, proponho, firmemente,emendar-me e nunca mais vos tornar a ofender; peço e espero perdão das minhas culpas pela vossa infinita misericórdia.Ámen.
Ato de Contrição Pequeno- Meu Deus, porque sois tão bom,tenho muita pena de vos ter ofendido, ajudai-me a não tornar a pecar.
( A pontuação foi corrigida porque,pelos vistos, a santa madre igreja só gosta de pôr os pontos nos is relativamente ao uso de preservativo e pontos finais nas relações homossexuais ou simplesmente sexuais, não cuidando, como lhe competia, das vírgulas. Desprezar as vírgulas e adorar pontos não me parece caridade cristã, mas decidiu falar de linguistas e não se quer afastar do seu propósito, embora já o tenha feito...)
Optou pelo Ato de Contrição Grande porque não pactua com abreviações simplistas - deus até pode não concordar- e tem de reconhecer que,se não fossem os linguistas, que leu apaixonadamente em jovem, não seria o que é...O seu primeiro e amor foi ....Saussure. Teve,é certo, uns flirts semióticos, mas meros significantes , sem significado...
Há quanto tempo não pensava em to flirt: O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização não as apurar. To flirt é um verbo inocente que se conjuga ali entre os dois sexos, e não significa namorar — palavra grossa e absurda que eu detesto - não significa "fazer a corte”; é mais do que estar amável, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequências, começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento. Eu flartava nós flartávamos, eles flartavam. E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito do que o flartar...
É uma curiosidade linguística interessante que, após o predomínio, nos séculos XVI e XVII, dos empréstimos castelhanos, das penetrações, no século XVIII, de italianismos e de galicismos, de um século XIX / XX marcados, sobretudo, por galicismos, o anglicismo flirt tenha sido uma exceção, muito antes da invasão de estrangeirismos de língua inglesa, sobretudo a partir do último quartel do século XX.
Terá de confirmar, mas julga que a origem estará no excerto transcrito de garrett... Seja qual for a razão , o facto indubitável é que, em tempo de francesismos, se tinham flirts e, no reinado dos anglicismos, to flirt, como que por magia, se desvaneceu, tendo sido substituído por curtir , "palavra grossa e absurda que detesta."
Imagine-se uma publicação sobre curtições semióticas!! Até parecia título de filme pornográfico...
Profetizou bem garrett: O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização não as apurar...
Sempre se interrogou sobre a forma como acontece o enamoramento entre dois cegos. Acredita no amor platónico, mesmo sem saber exatamente o que seja, mas confunde-A como decorrerão os primeiros contactos. O que substitui a figura, a expressão, o sorriso, o olhar, as mãos, tudo o que se vê quando olhamos para o ser amado? Será que tudo isso se torna irrelevante? O amor entre os cegos será similar às novas formas de contactos meramente virtuais, propiciadas pelas novas tecnologias? Nas raras vezes em que vénus se sobrepôs a atena, existiu sempre uma descoberta súbita: num certo dia olhOU para uma pessoa, que estava farta de ver, e sentiu um verdadeiro deslumbramento... Se fosse cega, o que substituiria esse fascínio revelador?
O enamoramento entre cegos pode até ser fácil de explicar: valoriza o tom de voz, o cheiro, o toque... As sensações visuais são supridas por todas as outras... Nunca existirá, certamente, é "amor à primeira vista"...
Imaginou-se na casa dos cegos de saramago. Que facetas escondidas revelaria? Como seria o seu encontro contigo? Reconhecer-se-íam? Ignora o recorte do teu rosto, nunca o sentiu. Não recorda o som da tua voz. Desconhece o teu cheiro. Se ocultassem todos os elementos identificadores, reconhecer-se-iam? Gostar - se -iam? Se tu falasses, ela sentir-te-ia? Será que as suas palavras te eram familiares? Conheces o som da sua voz? Será que, sem visão, como dizem, os outros sentidos ficam mais apurados e ela, afinal, se tocasse o teu rosto, o identificava? O teu cabelo é grosso ou fino, é áspero ou macio? As coisas em que nunca reparamos só porque temos olhos...Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Enquanto te pude olhar, não te vi. Enquanto te pude ver, não reparei.
Durante o escasso tempo que dormiu,sonhou que estava cega e que se debatia com a angústia de te sentir, mas sem conseguir saber onde estavas. Só ouvia um riso, um riso cruel, que se afigurava familiar, mas acordou, sem te reconhecer, com os olhos cheios de lágrimas..
Pela primeira vez, aos quinze anos, contactou com a palavra enamoramento...(Confessa que se imaginei aónia ou arima ,personagens da menina e moça, e que um cavaleiro a amaria serena, mas intensamente, cativado, de modo súbito e inexplicável, pela beleza da sua alma, pela auréola mágica que via em mim. Bem pôde esperar...Também nunca encontrei nenhum cavaleiro que lhe agradasse...)
O enamoramento é um estado emocional em que sentimos alegria e satisfação. É um processo que, implicando a ação de diversos elementos, começa no córtex cerebral, passando depois para o sistema endócrino,convertendo-se em respostas fisiológicas. Ao conhecer alguém por quem se sente atraído, o ser humano experiencia uma série de alterações químicas e psicológicas. Ao accionar os mecanismos de sedução, a pessoa conjuga o seu instinto animal (inconsciente) com a capacidade própria da nossa espécie. Por outro lado, o amor (principalmente, nos primeiros tempos) abastece-se fundamentalmente de química: a feniletilamina obriga a dopamina ou a norepinefrina a segregar, provocando assim um efeito de euforia natural sempre que a pessoa está junto do objeto do amor. Embora sejam conceitos próximos, há que distinguir o enamoramento (a atracção e paixão) do amor (um sentimento em que a pessoa necessita da presença da outra).
Tornaram‑se quase uma obrigação. Não, a palavra não é adequada para o que nos proporciona prazer e sossego. Talvez numa superstição, mas nem isso: não era que eu acreditasse que o dia me ia correr mal se não partilhasse com eles o pequeno‑almoço,isto é, à distância; acontecia apenas que o iniciava de ânimo mais abatido ou com menos optimismo sem a visão que me ofereciam diariamente, a qual era a do mundo em ordem, ou, se se preferir, em harmonia...
Naquele último dia em que a mulher dele e eu o vimos não puderam jantar juntos. Nem sequer almoçaram. Ela esperou por ele vinte minutos sentada a uma mesa de restaurante, admirada mas sem nada recear, até que tocou o telefone e acabou o seu mundo, e nunca mais tornou a esperar por ele.
Era uma daquelas frases que as pessoas dizem quando se despedem e de que se esquecem depois da despedida. Eu não voltaria à sua memória, era apenas uma jovem prudente que conhecia de vista, e mais nada, e de outra vida. E já nem sequer era jovem.
E, entrando, viu a senhora Aónia, que em grande extremo era formosa, soltos os seus grandes cabelos, que toda a cobriam, e parte deles molhados em lágrimas que o seu rosto por algumas partes descobriam. Foi logo trespassado do amor dela, sem haver quem, por parte de outrem, fizesse defesa alguma...
E porque ainda ele não tinha determinado consigo querer Arima bem de Amor” (querendo-lhe já sem o ter determinado) como anojado de si consigo, muitas vezes fazia por dormir. E não cria ele que uma vez só que vira a Arima, lhe podia ocupar tanto o tempo e tanto o cuidado que lhe tolhesse o sono. Mas não era assim como ele cria: tamanho poder sobre ele, só foi dado a um só pôr de olhos e abaixar!
Neste enigmática novela sentimental, a primeira em língua portuguesa, assistimos ao despertar da consciência dos mecanismos psíquicos que desencadeiam as paixões e os impulsos afetivos, sendo o homem perspetivado, não como o típico cavaleiro andante, lutador e enérgico, mas como um ser delicado, com sensibilidade feminina, um cavaleiro estático, dominado pelo sentimento amoroso ... Nesta narrativa , de conteúdo platónico, o Amor é o Desejo despertado pela Beleza...
Existe entre nós os dois algo melhor do que o amor: a cumplicidade.
Paixões...
Quem procura o prazer pelo prazer jamais se sentirá satisfeito. O homem só poderá ser feliz se aprender a dominar as suas paixões. O prazer implica dor.... Quem o procura só pode encontrar infelicidade, sofrimento, fazendo também sofrer os outros.Nunca terá amigos, mas apenas aduladores ou os que o odeiam.
O ser humano não consegue viver sem paixão.(...)E o ser humano tenta, por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar, pelo menos, as condições da autêntica paixão.
Paixão - 1. Impressão viva 2.Perturbação ou movimento desordenado do ânimo 3. Grande inclinação ou predileção 4. Afeto violento, amor ardente 5. O objeto desse amor 6. Pena, cuidado, trabalho 7. Grande desgosto, grande pesar 8. Parcialidade 9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados) 10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo 11. [Filosofia] Impressão recebida de um agente 12. [Portugal: Aveiro] Cada uma das estacas em que se arma o botirão.
Compaixão1. Sentimento benévolo que nos inspira a infelicidade ou o mal alheio 2. Dó; lástima; piedade.
Conheço, desde há muito, a etimologia destes dois nomes não-contáveis...
(Há o seu quê de bizarria incontável nesta nova terminologia gramatical: substantivos abstratos seria óbvio demais? Não teria a designação aquele quid hermético e esotérico que os falsos intelectuais consideram dar dignidade ao discurso científico? Será um sintoma inequívoco da mediocridade pindérica dos pretensos linguistas portugueses que se degladiam, histérica e esterilmente, pretendendo garantir a supremacia à escola de Coimbra ou à de Lisboa, em polémicas verdadeiramente clubísticas? Quem sabe) Como também tenho direito a produções divergentes, vou designá-los por nomes incontáveis...
Sempre me incomodou o facto de um prefixo poder retirar à palavra primitiva o seu significado, violando-a, apropriando-se dela sem piedade, a compaixão não teve qualquer compaixão pela paixão, o que é um paradoxo,apesar de linguisticamente explicável.A paixão evolui semanticamente,enriquece-se, repaganiza-se, enquanto a compaixão permanece vinculada à matriz inicial, mas deturpada pelo cristianismo.
Repare-se que, na generalidade dos dicionários, o sentido de sofrimento nunca surge nos primeiros lugares....É assim e, provavelmente, a clivagem profunda entre os apaixonados por e os que sentem compaixão por manter-se-á. Por comodidade, já que inovei nos nomes incontáveis, vou criar o adjetivo compaixonado, para melhor estabelecer a antítese relativamente ao apaixonado...
É pela mão dos trovadores medievais que, no século XIII,a paixão se erotiza: Esta paixon sofro por teu amor, lamenta Afonso X.
Será desnecessário percorrer as diferentes fases da vida da paixon, que, definitivamente se fixou como um afeto intenso por algo, alguém ou alguma coisa... Um destino de glória ascendente, ao contrário da compaixão que chega a originar a morte de Deus: Tu, Zaratustra, tu foste o primeiro a assinalar o perigo da compaixão...tu mesmo defende-te da tua própria compaixão(...) A compaixão de Deus não conhecia o pudor; insinuava-se nas pregas mais imundas,esse curioso,esse indiscreto,esse maníaco da compaixão; foi realmente necessário que morresse..
Deus - um maníaco da compaixão...que síntese sublime!
Os compaixonados são seres inferiores, destruídos pela sua própria piedade; só os apaixonados podem ser homens superiores, mesmo que pareçam loucos, como o beloved D.Juan del Marco... Posso ser acusada de muita coisa, mas compaixonada nunca fui, não sou nem serei...
Opiniões...
Na sua primeira paixão, a mulher ama o amante; em todas as outras, ela gosta é do amor. - goethe
A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais....- wilde
As nossas paixões são verdadeiras fénixes. Quando a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira.- byron
O amor não é senão o desejo; e assim, o desejo é o princípio original de que todas as nossas paixões decorrem, como os riachos da sua origem; por isso, sempre que o desejo de um objecto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo e somos levados a mil desordens. - cervantes
Nada existe de grandioso sem paixão.- hegel
Mas dizer que vamos falar de paixão não esclarece grande coisa: na realidade, não estamos a fazer nada mais do que nomear o caos... Porque a paixão, e este é o segundo traço fundamental, é uma espécie de sonho que se deteriora em contacto com a realidade..." É que eu não aprendo", queixa -se o amante sofredor. E ele está certo, porque o amor permanece impermeável à experiência.
Em 1890, um gigante corpulento e pálido entrou num café de Paris e aproximou-se do maestro da pequena orquestra que animava o local: 'Estou a escrever uma obra sobre uma mulher que dança, de pés descalços, sobre o sangue do homem por quem estava desesperadamente apaixonada, e que ela matou', explicou com refinada educação: 'Vocês poderiam tocar alguma coisa que se adequasse a isso?' Os músicos, ao fim e ao cabo parisienses do fim do século, acharam a solicitação normal e interpretaram uma peça tão terrível e agonizante que os frequentadores do café, espantados, interromperam as suas conversas. O homenzarrão ouviu a tenebrosa melodia, com visível satisfação e, no fim, voltou ao seu quarto para continuar a escrever. Tratava-se de Oscar Wilde, e a obra era Salomé.
Liz tentou o suicídio, Sybil (então mulher de Burton) tentou suicidar-se, Richard suicidava -se um pouco todos os dias, bebendo inacreditáveis quantidades de álcool. Há paixões assim, baseadas em sucessivos espasmos de carinho e de agressão. Na crispação e no êxtase contínuos.
No decorrer dessa mesma semana Tolstoi teve a cruel e original ideia de que a noiva lesse todos os seus diários íntimos, para saber com quem se ia casar. E a pobre Sónia, ainda uma menina, teve que engolir as escabrosas revelações de um senhor de 34 anos a quem mal conhecia.
Ela [Cleópatra] entrou para a história pela mão de um génio como Júlio César, mas sem dúvida era uma mulher extraordinária.(...) Ele [Marco António], pelo contrário, entrou para a história graças a Cleópatra: sem a rainha do Egipto, hoje não recordaríamos aquele romano ignorante.
Um bom presente de natal para um leitor ou, melhor, para uma leitora não muito exigente... só isso. Diz bem, escreve bem, investiga bem, conhece bem, mas não me surpreende. Aprendem-se coisas,tem dignidade mais do que suficiente para ser oferecido por mim, mas só isso..Já devia saber que andar atrás de paixões não dá bom resultado, mas não aprendo...
A avestruz não aspira a erguer-se nos ares, expondo-se a uma exemplar queda: deixa descobrir pouco a pouco a beleza das suas plumas. E... se tiverdes paixões, não as ponhais à vista, por mais nobres que vos pareçam. Não se deve consentir a todos o acesso ao nosso próprio coração. Um silêncio cauto e prudente é o cofre da sensatez.
O que eu fazia,em casa, sobretudo era ler. Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no fundo de mim. E as únicas impressões exteriores para mim vinham da leitura. A leitura, escusado será dizê-lo, ajudava-me muito- apaixonava-me, preenchia-me, torturava-me.(...) As minhas pequenas paixões eram agudas, inflamadas, por causa de eu ser sempre doentiamente irritadiço. Havia uns repentes histéricos, com lágrimas e convulsões. Fora da leitura, não havia nada para mim- ou seja, não tinha nada à minha volta que pudesse admirar e que pudesse arrastar-me.
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