Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Natal...

Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris. Nescio, sed fieri sentio, et excrucior. 

  Natal
Leio o teu nome 
Na página da noite: Menino Deus... 
E fico a meditar 
No milagre dobrado
 De ser Deus e menino. 
Mas de ti como posso duvidar? 
Todos os dias nascem
 Meninos pobres em currais de gado.
 Crianças que são ânsias alargadas 
De horizontes pequenos. 
Humanas alvoradas... 
A divindade é o menos.


 1ª - Substituir o mês de dezembro por julho. 

2ª - Limpar o calendário, com especial afinco os dias 24 a 26 dezembro. 

3ª - Fazer um retiro em dezembro. 

4ª - Perder a memória com uma paulada na cabeça. 

5ª - Tornar-se budista ou muçulmano.

 6ª - Estragar o Natal dos outros. 

7ª - Ficar preso no elevador. 

8ª - Tornar-se monge. 

9ª - Organizar uma série de manifestações contra a guerra. 

10ª - Ter um acidente de automóvel. 

11ª - Suicidar-se.

 (Ainda tínhamos muitas ideias: prisão, LSD, Lua...Desistimos delas. Mas temos uma última:

 12ª - Fazer uma lista de propostas para escapar ao Natal.

 Nota do Autor: Feliz Natal!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Procuras...

Hommage: (encore) Piet Mondrien: en quête d'un "mot"...

"In-sanamemte, por entre os dedos, toco-te o rosto que me convoca, numa distância que a proximidade não sutura. Toco-o, na palavra que o nomeia."

Estar entre ruínas era como perder o sentido do tempo.Sentia-me como um fantasma, um fantasma não do passado, mas do futuro.Sentia que a minha vida e a minha ambição tinham já sido vividas por mim e que estava para ali a olhar para as relíquias dessa vida. Estava num sítio por onde o futuro já tinha passado, de onde o futuro havia já desaparecido.

Em plena expansão, os temores e ansiedades não me largavam e sentia-me tão insatisfeito e inquieto como no início. Não se tratava de pressões exteriores, nem era apenas um problema da minha solidão ou do meu temperamento. Era algo que tinha a ver também com a própria paz, com a forma como a vida tinha sido alterada pela paz.

Porque descobrira os meandros da dor e o amadurecimento que isso traz, não me surpreendeu que Metty e eu nos sentíssemos tão próximos no preciso momento em que compreendemos que tínhamos de seguir cada um o seu caminho. Aquilo que, naquela noite, nos dera a ilusão de proximidade fora muito simplesmente a mágoa que sentíamos por um passado que morrera, a nossa trizteza pelo facto de a vida não parar.

Agora que eu me apercebia do encanto do seu mundo, Indar era como um guia que perdera a fé no que mostrava.Ou como um homem que, por ter conseguido levar alguém a acreditar, sentia que podia perder algo da sua fé.

What do I do with all this ?

Why do you come here When you know it makes things hard for me ? When you know, oh Why do you come ?


Escrevo meu livro à beira-mágoa. Meu coração não tem que ter. Tenho meus olhos quentes de água. Só tu, Senhor, me dás viver. Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura. Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora?...Ah, quando quererás, voltando, Fazer minha esperança amor? Da névoa e da saudade quando? Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Tú no tienes nombre. Tal vez nada lo tenga. Pero ... el nombre que no tienes me acompaña y el nombre que nada tiene crea un sitio en donde está de más la soledad.



Nietzsche: Nós devemos morrer... Mas na hora certa. A morte só não é assustadora quando a vida já se consumou. Já consumou a sua vida?
Breuer: Eu já consegui muitas coisas.
Nietzsche: Mas aproveitou a vida? Ou deixou-se levar por ela? Você está fora da sua vida...a sofrer. Por uma vida que nunca foi vivida.
Breuer: Não posso mudar a minha vida. Tenho a minha família, os meus doentes,os meus alunos. É tarde demais.
Nietzsche: Não lhe posso dizer como viver de outra forma... mas talvez lhe possa dar um presente, Josef: um pensamento.
E se um demónio lhe dissesse que esta vida... teria de ser vivida de novo. Porém inúmeras vezes mais e sem acontecer nada de novo. Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria . A mesma sucessão, a mesma sequência, várias e várias vezes, como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito! Considere a possibilidade de que cada ato que escolher ,Josef, o escolherá para sempre! Então toda a vida não vivida permaneceria dentro de si! Não vivida... por toda a eternidade! Gosta desta ideia...? Ou detesta? Escolha!


26 de novembro de 2014

Tentei explicar-lhe que não era um homem falador. Gosto de ouvir, disse-lhe, não tenho muito para dizer. Ele perguntou, virado para Hanna:
- Como te chamas?
Hanna respondeu. Ele não percebeu. Hanna repetiu, ele continuou sem perceber. Eu repeti:
- Chama-se Hanna.
- Hanna - disse Fried. - Bom.
- Que idade tens?
- Catorze - respondeu, e agora percebeu-se. Fried sorriu para ela, simpaticamente. Ela disse:
- Olhos: pretos. Cabelo: castanho.
Eu disse: - Ela aprendeu assim. Depois ela disse:
- Estou à procura do meu pai
.


4 de março de 2015

Numa ânsia de ter alguma cousa, Divago por mim mesmo a procurar, Desço-me todo, em vão, sem nada achar, E a minh'alma perdida não repousa. Nada tendo, decido-me a criar: Brando a espada: sou luz harmoniosa E chama genial que tudo ousa Unicamente à força de sonhar... Mas a vitória fulva esvai-se logo... E cinzas, cinzas só, em vez do fogo... - Onde existo que não existo em mim?

Só quem procura sabe como há dias de imensa paz deserta; pelas ruas a luz perpassa dividida em duas: a luz que pousa nas paredes frias, outra que oscila desenhando estrias nos corpos ascendentes como luas suspensas, vagas, deslizantes, nuas, alheias, recortadas e sombrias. E nada coexiste. Nenhum gesto a um gesto corresponde; olhar nenhum perfura a placidez, como de incesto, de procurar em vão; em vão desponta a solidão sem fim, sem nome algum - - que mesmo o que se encontra não se encontra.

Uma certa quantidade de gente à procura de gente à procura duma certa quantidade ...Entretanto e justamente quando já não eram precisos apareceram os poetas à procura e a querer multiplicar tudo por dez má raça que eles têm ou muito inteligentes ou muito estúpidos pois uma e outra coisa eles são Jesus Aristóteles Platão abrem o mapa: dói aqui dói acolá / E resulta que também estes andavam à procura duma certa quantidade de gente que saía à procura mas por outras bandas bandas que por seu turno também procuravam imenso um jeito certo de andar à procura deles visto todos buscarem quem andasse incautamente por ali a procurar...

Eu não procuro nada em ti, nem em mim, é algo em ti que procura algo em ti no labirinto dos meus pensamentos.Eu estou entre ti e ti, a minha vida, os meus sentidos( principalmente os meus sentidos) toldam de sombras o teu rosto. O meu rosto não reflete a tua imagem, o meu silêncio não te deixa falar, o meu corpo não deixa que se juntem as partes dispersas de ti em mim. Eu sou talvez aquele que procuras, e as minhas dúvidas a tua voz chamando do fundo do meu coração.

Depois de estar cansado de procurar Aprendi a encontrar. Depois de um vento me ter feito frente Navego com todos os ventos.

Parece que hoje é o dia internacional da amizade...é difícil fugir às lindas definições desse belo sentimento. O que é um amigo? É alguém que se ama sem amor ... Será? Não sabe responder. Talvez só alexandre o'neill tenha a única definição aceitável: "Amigo é o contrário de inimigo"...

31 de julho de 2015...

O ser humano tenta, por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante ao da paixão. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar, pelo menos, as condições da autêntica paixão.

1. Que não tem ou não desperta interesse.
2. Que está sem acção, em estado de estupor.
3. Que é demasiado intenso.
4. Que não tem razão de ser; que não faz sentido.
5. Que tem grande dificuldade em compreender, julgar ou discernir por falta de inteligência.
6. Que é muito desagradável, incivilizado ou grosseiro.


Não me perguntes, porque nada sei Da vida, Nem do amor, Nem de Deus,Nem da morte. Vivo, Amo, Acredito sem crer,E morri, antecipadamente Ressuscitando.O resto são palavras Que decorei De tanto as ouvir. E a palavra É o orgulho do silêncio envergonhado. Num tempo de ponteiros, agendado, Sem nada perguntar, Vê, sem tempo, o que vês Acontecer. E na minha mudez Aprende a adivinhar O que de mim não possas entender.

Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto, E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim... A sua não história recente marcou-a mais do que podia supor, esvaziou-a completamente, está sem alma...Enquanto não se libertar, não a recupera, por mais que fuja, por mais que procure...


"O que ele encontrou não era o que os outros procuravam. E estamos aqui perante uma definição de indivíduo e do seu isolamento no meio do grupo: eu encontro o que os outros não procuram, eu procuro o que os outros nunca encontrarão."


Esse lugar activo de sensações, a minha alma, passeia às vezes comigo conscientemente pelas ruas nocturnas da cidade, nas horas tedientas em que me sinto um sonho entre sonhos de outra espécie, à luz (...) do gás, pelo ruído transitório dos veículos (...)Ao mesmo tempo que em corpo me embrenho por vielas e subruas, torna-se-me complexa a alma em labirintos de sensação. Tudo quanto de aflitivamente pode dar a noção de irrealidade e de existência fingida, tudo quanto soletra, sem ser ao raciocínio, mas concreta e (...)mente, o quanto é mais do que oco o lugar do universo, desenrola-se-me então objectivamente no espírito apartado. Angustia-me, não sei porquê, essa extensão objectiva de ruas estreitas, e largas, essa consecução (...) de candieiros, árvores, janelas iluminadas e escuras, portões fechados e abertos, vultos heterogeneamente nocturnos que a minha vista curta, no que de maior imprecisão lhes dá, ajuda a tornar subjectivamente monstruosos, incompreensíveis e irreais.

Fragmentos verbais de inveja, de luxúria, de trivialidade vão de embate ao meu sentido de ouvir. Sussurrados murmúrios (...) ondulam para a minha consciência.

Pouco a pouco vou perdendo a consciência nítida de que existo coextensamente com isto tudo, de que realmente me movo, ouvindo e pouco vendo, entre sombras que representam entes e lugares onde entes o são. Torna-se-me gradualmente, escuramente, indistintamente incompreensível como é que isto tudo pode ser em face do tempo eterno e do espaço infinito.

Passo daqui, por passiva associação de ideias, a pensar nos homens que desse espaço e desse tempo tiveram a consciência analisadora e compreendedoramente perdida. Sente-se-me grotesco a ideia de que entre homens como estes, em noites sem dúvida como esta, em cidades de certo não essencialmente diversas da em que penso, os Platões, os Scotus Erigenas, os Kants, os Hegels como que se esqueceram disto tudo, como que se tornaram diversos desta gente (...). E eram da mesma humanidade, (...). Eu mesmo que passeio aqui com estes pensamentos, com que horrorosa nitidez, ao pensá-los, me sinto distante, alheio, confuso e (…).

Acabo a minha solitária peregrinação. Um vasto silêncio, que sons miúdos não alteram no como é sentido, como que me assalta e subjuga. Um cansaço imenso das meras coisas, do simples estar aqui, do (...) encontrar-me deste modo pesa-me do espírito ao corpo (...). Quase que me surpreendo a querer gritar, de afundando-me que me sinto em um oceano de (...) de uma imensidão que nada tem com a infinidade do espaço nem com a eternidade do tempo, nem com qualquer coisa susceptível de medida e nome. Nestes momentos de terror supremamente silencioso não sei o que sou materialmente, o que costumo fazer, o que me é usual querer, sentir e pensar. Sinto-me perdido de mim mesmo, fora do meu alcance. A ânsia moral de lutar, o esforço intelectual para sistematizar e compreender, a irrequieta aspiração artista a produzir uma coisa que ora não compreendo, mas que me lembro de compreender, e a que chamo beleza, tudo isto se me some do instinto do real, tudo isto se me afigura nem digno de ser pensado inútil, vazio e longínquo. Sinto-me apenas um vácuo, uma ilusão de uma alma, um lugar de um ser, uma escuridão de consciência onde estranho insecto (...) procurasse em vão sequer a cálida lembrança de uma luz.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Piadas e aborrecimentos...

Estou sentado numa sala, rodeado de cabeças e de corpos. A minha postura é conscientemente congruente com a forma da minha dura cadeira.

Eu estou aqui.
Três caras ocupam lugar em cima de casacos desportivos de verão e largas gravatas de seda do outro lado de uma mesa de conferências de pinho polido que brilha com a luz - que parece uma teia de aranha - do meio-dia do Arizona. São três os deões: o das Admissões, o dos Assuntos Académicos e o dos Assuntos Desportivos. Não sei a qual corresponde cada cara.


Não sou apenas um rapaz que joga ténis. Tenho uma história intrincada. Experiências e sentimentos. Sou complexo. Eu leio. Leio e estudo.Aposto que li tudo o que os senhores professores leram. Não pensem que não o fiz.Devoro bibliotecas. Desgasto as lombadas e os leitores de CD-ROM. Faço coisas do género de apanhar um táxi e dizer ao condutor:" Leve-me a uma biblioteca e prego a fundo". Os meus instintos sintáticos e mecânicos são melhores do que os vossos.(...) Não sou uma máquina . Sinto e acredito. Tenho opiniões próprias. Algumas são interessantes.Falemos de qualquer coisa.Julgo que tem minimizado a influência de Kirkegaard em Camus.(...) Não sou um creatus prefabricado, condicionado e criado com uma única função.


I started a joke Which started the whole world crying But I didn't see That the joke was on me...

Sei o que não quero dizer, mas não sei o que quero dizer. Querer ou não querer eis uma questão que não tem piada nenhuma...Espero que as mil e duzentas páginas de uma piada infinita não me desiludam...



Autor de A Piada Infinita, um dos cem melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923, David Foster Wallace é considerado um dos escritores mais originais da sua geração, capaz de transformar um texto sobre Roger Federer numa obra de arte. O sucesso e o reconhecimento não lhe permitiram superar a depressão que enfrentou ao longo de toda a vida, suicidando-se em 2008, com 46 anos.

Wallace projeta-se em A Piada Infinita, através de tópicos que marcam a sua existência: a paixão pelo ténis, o consumo de marijuana e de antidepressivos, a tendência suicida, o pavor da solidão e uma genialidade torrencial.

"Acabei de encontrar um homem maravilhoso. É de ficção, mas não se pode ter tudo."



"...nunca fui excessivamente infeliz - porque não tenho imaginação..."
Os supervisores do complexo regional da AT do município de Lake James estão a tentar estabelecer por que razão ninguém reparou que um dos funcionários esteve sentado à secretária, morto, durante quatro dias, antes de alguém lhe perguntar se se sentia bem.

O liceu tornou-se um tormento diário, ainda que as notas melhorassem cada vez mais, devido ao tempo acrescido de leitura e estudo, porque era só quando estava sozinho e completamente absorvido e concentrado noutra coisa qualquer que se sentia bem.

A chave burocrática subjacente é a capacidade de lidar com o aborrecimento. De funcionar eficazmente num ambiente que impossibilita tudo o que seja vital e humano. De respirar, por assim dizer, sem ar. A chave é a capacidade, inata ou condicionada, de encontrar o outro lado do que é rotineiro, insignificante, irrelevante, repetitivo, escusadamente complexo. De ser, em resumo, imune ao aborrecimento.

Depois dos atentados contra o Charlie Hebdo, o Bataclan e um bar gay em Orlando, o retrato dos terroristas islâmicos começa a ficar cada vez mais claro: são pessoas, digamos assim, que odeiam piadas, música rock e homossexuais. É um pouco inquietante constatar esta afinidade ideológica entre o Daesh e o meu tio Alfredo. Tirando uma divergência importante sobre o consumo de vinho verde tinto, entre os fundamentalistas e o meu tio Alfredo verifica‑se aquilo a que se costuma chamar um amplo consenso. O meu tio Alfredo já morreu, que a cirrose não perdoa, mas explanou raciocínios enquanto era vivo — que é, aliás, a altura ideal para os explanar.
Entre os autores de piadas, os frequentadores de concertos e os homossexuais, os únicos dos quais ouvi o meu tio Alfredo dizer que mereciam morrer foram os últimos. Se o meu tio Alfredo fosse vivo, talvez aproveitasse este massacre para rever a sua opinião sobre o acolhimento de refugiados. Afinal, a hipótese de podermos receber muçulmanos radicais talvez provocasse um choque civilizacional bastante menor do que ele temia.


O Soares e o Pereira, empregados do mesmo escritório, eram inimigos de alma.(...) Um dia o Soares, que era o mais inteligente e por isso o mais estúpido dos dois, referindo, fora do escritório, a qualquer amigo as cenas habituais com o Pereira, recebeu d'esse a pergunta, «Mas porque diabo é que tu não o esmagas com uma coisa pior que todas as piadas?» «Que coisa?» perguntou o Soares; «porrada?» «Não, não digo isso... Melhor que isso: o silêncio... Ele tem mais piada que tu; pois bem, arranja mais desprezo do que ele. Ele insulta, e tu olhas para ele e não dizes nada. Ele insulta mais e tu na mesma. Ele espuma e esbraveja, e tu idem e igualmente zero. Verás que não há piada que ele possa dizer que valha o que tu não dizes. O que tu não dizes pode ser tudo; o que ele diz não pode ser senão o que ele diz, e, se calhar, muitas vezes nem isso é.»

O Pereira pensou e achou razão, pelo menos provisória, ao conselho. E, ao contrário do que a prudência manda, seguiu-o. Mas, como é costume suceder quando se não segue a prudência, fez bem. Foi logo no dia seguinte, porque era todos os dias, e o dia seguinte não era feriado. Surgiu um incidente que o Pereira fez o Soares ter feito surgir. E, sob os ouvidos fitantes do outro pessoal, o Pereira começou. Os substantivos do costume uniram-se aos adjectivos do da vizinhança e o carácter, habilitações, possibilidades penais, e outros atributos de um Soares de retórica, fulguraram no discurso. A certa altura, como o Soares não dissesse nada, mas somente olhasse para o orador com uma atenção despreocupada e triste, o Pereira começou a afrouxar. Seguiu a cena, de parte a parte, e o Pereira, afrouxando cada vez mais, foi-se tornando lívido. Ao fim de cinco minutos estava quase mudo e com a voz e a expressão do olhar em vésperas de lágrimas. Então engoliu um pouco; e, dirigindo-se ao Soares numa voz trémula disse: «Ó Soares, você está zangado comigo?»
Si vis bellum, para pacem.


"Antes quero asno que me leve que cavalo que me derrube."

Oh Jesu! que enfadamento,
E que raiva, e que tormento,
Que cegueira, e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
D'algum outro aviamento.
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?


Aborrece-me mais um texto deturpado do que o destino da humanidade...Terei de seguir o conselho de álvaro de campos:

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!



Entendamo-nos bem. Ninguém pode ler tudo, sequer sobre um só assunto. É, pois necessário, muitas vezes, citar em segunda-mão, quando não ainda mais translatamente. Não há nisso charlatanice, desde que estejamos convencidos da competência e da probidade do primeiro citador; nem é necessário que estejamos sempre indicando que não citamos do original, enchendo as páginas, que escrevemos, de «citas em segunda-mão», ociosas e importunas. Se eu citar, ainda que no original, uma frase grega ou alemã, não vem a propósito dizerem-me, o que é aliás verdade, que não sei grego nem alemão. E preferível citar em português, até para conveniência do leitor.
Posso traduzir, através de idioma intermédio, qualquer poema grego, desde que consiga aproximar-me do ritmo do original, para o que basta saber simplesmente ler o grego, o que de facto sei, ou que obtenha uma equivalência rítmica.



Aborrecem-me certas formas de tolerância...

Temos pois de proclamar, em nome da tolerância, o direito de não sermos tolerantes com os intolerantes. Temos de proclamar que qualquer movimento que promova a intolerância se coloca fora da lei, e temos de considerar criminoso todo e qualquer incitamento à intolerância e à perseguição, como consideramos criminoso o incitamento ao homicídio, ao rapto, ou ao restabelecimento do tráfico de escravos.

Como estava aborrecida, misturei gim à realidade - plágio assumido - e o resultado foi... Não encontro o adjetivo! Com os artistas tudo corre bem, comigo, não...Que inteligência totalmente improfícua. Como álvaro de campos traduziria este estado de espírito de uma forma superior...Assim não tem piada ponto final.

É preciso confessar que havia dias em que a condessa não dirigia palavra a ninguém: viam-na passar sob os grandes castanheiros,mergulhada nas suas meditações; era demasiado inteligente para não sentir às vezes quanto é aborrecido não se ter a quem comunicar as nossas ideias.

Sem a si própria o confessar, aquela alma ativa começava a sentir -se cansada da vida monótona que levava ...e não se deixar morrer - pensava ela- não é o mesmo que viver.(...)Tal era a singular posição da condessa: Fabrício ausente, pouco esperava do futuro; o seu coração precisava de consolação e de novidade.

A duquesa deu-se pressa em descer até aos seus aposentos. Mal se fechou no quarto, desatou a chorar; a ideia de ser amante daquele Fabrício que vira nascer, tinha para ela qualquer coisa de horrível; contudo, que significava a conduta dela?Fora esse o primeiro motivo da pesada melancolia em que o conde viera encontrá-la; à sua chegada teve acessos de irritação contra ele, e quase contra

Fabrício; desejaria nunca mais ver um nem outro; e sentia-se despeitada por causa do papel, a seus olhos ridículo, que Fabrício representava junto de Marieta ... A duquesa não se podia resignar àquela infelicidade: o seu ídolo tinha um defeito.


Decidiu nunca mais mentir à duquesa, e era por a amar com adoração, nesse momento, que jurou nunca lhe dizer que a amava; nunca pronunciaria junto dela a palavra amor, visto que a paixão a que se dá esse nome não existia no seu coração.

Mas em vão buscou no seu coração o ânimo necessário para falar com aquela sinceridade sublime que lhe parecia tão fácil na noite que passara nas margens do lago Como.« Vou aborrecer a pessoa que mais amo no mundo; se falar, terei o ar dum mau ator; realmente , só nos momentos de exaltação valho alguma coisa.»

A duquesa olhava para ele com admiração. Não era já a criança que vira nascer; não era tão pouco o jovem sempre pronto a obedecer-lhe: era um homem grave, e pelo qual seria delicioso fazer-se amar.
- Então queres fugir de mim?
- Não - respondeu ele com um ar de imperador romano - , mas queria ter juízo.


«Amo-te com a mais devotada amizade, etc., etc, porém , a minha alma não é suscetível de amor.»

Uma noite, Fabrício pensou mais seriamente na tia: ficou espantado, teve dificuldade em evocar a sua imagem. ( ...) « Santo Deus - exclamou ele com entusiasmo - Que boa inspiração tive em não lhe dizer que a amava!» Quase já não podia compreender como a pudera achar tão linda. Sob esse ponto de vista, Marieta fazia-lhe uma impressão de mudança menos sensível: nunca imaginara que a sua alma tivesse qualquer participação no amor de Marieta, ao passo que muitas vezes supusera que toda a sua alma pertencia à duquesa.

Assim, embora comprimido numa espécie de gaiola, Fabrício tinha uma vida muito plena; ocupava-a inteiramente procurando a solução deste problema importante:» Gostará ela( Clélia) de mim?» O resultado de milhares de observações incessantemente repetidas, mas não menos incessantemente postas em dúvida, era este:« Todos os seus gestos voluntários dizem que não, mas o que é involuntário no movimento dos seus olhos parece confessar que ela está a ganhar-me amizade.»

Nesse magnífico palácio Vignano, que o conde mandara construir para ela, recebia às quintas-feiras toda a alta sociedade de Parma, e todos os dias os seus numerosos amigos. Fabrício não deixava nunca passar um dia sem ir a Vignano. Numa palavra, a condessa reunia todas as aparências da felicidade, mas pouco tempo sobreviveu a Fabrício, que adorava, e que passou um ano apenas na sua Cartuxa...
TO THE HAPPY FEW

She said I know what it's like to be dead I know what it is to be sad And she's making me feel like I've never been born...



I'm a loser And I lost someone who's near to me I'm a loser And I'm not what I appear to be...

Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura.

[Carta a Armando Teixeira Rebelo -2 Ago. 1907]

Hotel Brito, Portalegre, 22 de Agosto de 1907

Venerável porção de existência terrena!

Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica — nada mais nada menos do que vinho — não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.
Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente — abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo — nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até mim a ideia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o «bálsamo em Gilead» sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado. Daí esta carta.

Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada...A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado — poeticamente falando, é claro. Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e tenho os olhado e observado com a maior das energias.
Acredito sinceramente que, se tivesse que aqui ficar um mês, teria de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiperaborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! (...)

Passa bem, ó tu
F. Nogueira Pessoa

P. S. — Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

«A felicidade - uma combinação de alegria + gratidão, a cada segundo que passa, pela dádiva de estarmos vivos, conscientes - encontra-se do outro lado de um aborrecimento absolutamente aniquilador. Prestem toda a atenção à coisa mais entediante que forem capazes de descobrir (declarações fiscais, golfe na televisão) e vão ser inundados por ondas de um aborrecimento como nunca sentiram e que vos vai praticamente matar. Mas, se conseguirem sobreviver a isso, será como passar do preto e branco para a cor. Como água depois de vários dias no deserto. Uma felicidade constante em cada átomo.» DFW

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
(...)
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo? ...


Aborrecem-me certos velhos vícios nacionais: Sublima-se uma pessoa até à quase canonização. Chegando a este ponto, tal figura fica integrada num estranho limbo de "independência imaculada", cuja transgressão será punida implacavelmente pelos próprios admiradores. O ídolo deixa de ter autonomia e só lhe é permitido que se mova nas baias erguidas pelos seus fiéis. Isso acontece também em situações mais banais. Há tempos encontrei um ex-aluno que me declarou ter sido eu - perdoe-me a imodéstia da referência - " o melhor professor que jamais tinha tido". Só um defeito me diminuía a seus olhos: esta minha imperdoável mania de me meter na política. Este tipo de atitude está por todo o lado; e quanto mais alto sobe o ídolo, mais vigilantes e implacáveis são os admiradores.

terça-feira, 29 de maio de 2018

O Abafador...




No romance A Mulher do Legionário, é referida a figura do "abafador", um profissional da eutanásia, reconhecido pela comunidade e pela igreja católica: «O meu avô aguardava que a chama da sua fogueira se extinguisse, mas era um europeu e não o podíamos tratar como a um ancião africano e deixar que se cumprissem as ordens dadas pela natureza aos seus antepassados. Dava a ideia de abandono, parecia mal. E também já não estávamos no tempo da impiedosa coragem do apressamento do fim, como faziam antigamente os parentes ao chamarem o abafador, o homem forte da povoação, que abraçava os moribundos e lhes comprimia o peito para abreviar o sofrimento.»


"A figura do "abafador" surge na personagem Alma Grande nos Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Segundo se consta, no tempo dos Cristãos Novos, existia uma figura - o Abafador - cuja função consistia em acabar com o sofrimento alheio. Quando um moribundo se encontrava às portas da morte, o Abafador era chamado para cumprir o seu desígnio e pôr fim à sua agonia. O prestígio, e a função social, do Abafador eram enormes e quem tinha a seu cargo essa importante missão era alguém muito respeitado na comunidade."

Por desgraça, o Alma-Grande não podia ver aquilo. Insensível à profundidade dos mistérios da vida, sem o estremecimento de uma fibra sequer, avançou para o leito num automatismo rotineiro. O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido correctamente a sua função.
No seu castelo o Isaac pelejava sempre. O fole pressuroso do arcaboiço metia ar na fornalha; espesso, cálido, activo, o suor ia brotando do vulcão.
A casa dir-se-ia um sepulcro habitado por vivos petrificados e mudos. Só no quarto havia movimento e palpitação. Calado, o Alma-Grande avançou. Mas quando de mãos abertas e joelho dobrado ia a cair sobre o Isaac, fê-lo parar uma voz diferente de todas as que ouvira em momentos iguais, que parecia vir do outro mundo, e dizia:
- Não... Ainda não... Ainda não... Quantas vezes o abafador tinha escutado aquilo, gritos de desespero, apelos sôfregos e angustiados, sem se deter na sua missão sagrada! Quantas vezes! Desta, porém, o apelo e os gemidos soavam-lhe nos ouvidos doutra maneira.
- Não... Não... Ainda não... Um pano escuro que até ali vendara os olhos do Alma-Grande queria rasgar-se de cima a baixo. E o abafador, paralisado entre as trevas do hábito e a luz que rompia, lembrava uma torrente subitamente sem destino.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Inevitabilidades....

Não se entendem os grandes homens quando são encarados a partir da mesquinha perspectiva do proveito público.Talvez o facto de não se saber extrair deles nenhum proveito faça mesmo parte da sua grandeza.


Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa meu amor, e às vezes faço coisas que não devo...

Ela rapidamente compreendeu que o jovem MS iria marcar o seu nome na história. Elizabeth era daquele tipo de mulher que tinha a capacidade de compreender e de admirar a grandeza, sem contudo a conseguir alcançar ou ambicionar para si, pelo menos directamente. Tinha plena consciência disso e queria um lugar na história...Amar a história e o meu pai eram uma e a mesma coisa. Não foi difícil seduzir MS; bastou compreendê-lo, querer segui-lo, ir sempre atrás dele, admirando-o e amparando-o nas quedas, e abrindo aqui e ali portas ao jovem brilhante que ambicionava isolar a felicidade.

O problema maior da felicidade é que nunca acaba.Quem contrai felicidade não tem cura.A felicidade não tem cura, mas pode entrar em colapso. É comum o feliz chegar a um ponto de ruptura consigo próprio. O cérebro não suporta muito tempo uma produção excessiva de eudaimonia. Uma pessoa pode, contudo, morrer feliz.(...) O que acontece quando o cérebro entra em colapso consigo próprio é que o feliz entra num estado de vazio profundo. Este vazio profundo é o nada. A pessoa já não consegue voltar a sr feliz; nem consegue retroceder na doença, nem consegue ser normal. O nada é a felicidade sem argumentos, como um lago que seca, mas que continua a ser lago. Depois da felicidade há ainda felicidade: felicidade seca.

Nunca será de mais repetir que a felicidade é uma fuga à realidade. Uma fuga que não depende de uma escolha do sujeito, mas de um código genético predisposto a uma produção exagerada de uma substância que vai atuar no sistema nervoso central: a eudaimonia. Ninguém é responsável por querer ser feliz ou, em casos limites, por ser feliz. Mas isso não lhe retira a responsabilidade de se preocupar consigo, com a sua saúde e procurar um médico, fazer exames e , se for caso disso, se lhe for diagnosticado ser feliz, seguir o tratamento que melhor se lhe adequa, para evitar não só contrair felicidade mas também fazer estagnar ou regredir o querer ser feliz.

Quando começar a achar com frequência que tudo está bem ou que tudo está mal, dou-lhe um conselho de amigo: dirija-se imediatamente a um médico.

O medo entra em nós pela incapacidade de aceitar os outros; o medo é o outro dentro de nós, o outro que não se quer; o medo é como que a solidificação da incompreensão dentro de um humano. E, obviamente, esta incompreensão solidificada impede a produção de eudaimonia e a consequente procura da felicidade. Só que não é uma verdadeira saúde, pois trata-se de uma saúde resultante do medo.

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


Era uma vez um velho Sábio que tinha lido todos os livros e sabia tudo. Nada do que existia, e mesmo do que não existia, tinha para si segredos. Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo. Conversava com os animais e com as plantas e conhecia o passado, o presente e o futuro.(...) Como sabia todas as coisas e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério.
Vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.

O Sábio abriu os olhos e verificou então, surpreendido, que estava no meio da sua Biblioteca, sentado, como sempre, à sua mesa de trabalho. Como era muito sábio, depressa concluiu que tinha morrido. Tinha morrido precisamente no momento em que soube a última coisa de todas as coisas que havia para saber e, desde aí, não mais vivera. Apenas sonhara, sem saber que tinha morrido. Até a sua viagem ao Reino das Sombras tinha sido, também ela, um sonho. Sem saber que tinha morrido…Afinal sempre tinha morrido sem saber que morria como estava escrito no Livro onde estão escritas, diz-se, todas as coisas da Vida e da Morte.

inevitabilidade primordial pensar...
inevitabilidade lateral pensar-me...
inevitabilidade colateral pensar-te...
inevitabilidade inevitável perceber...


"Mas não me quero meter com gente louca", observou Alice.
"Oh! É inevitável", disse o Gato; "somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca."
"Como sabe que sou louca? perguntou Alice.
"Só pode ser", respondeu o Gato, "ou não teria vindo parar aqui."
Alice não achava que isso provasse coisa alguma; apesar disso, continuou: "E como sabe que você é louco?"
"Para começar", disse o Gato, "um cachorro não é louco. Admite isso?"
"Suponho que sim", disse Alice.
"Pois bem", continuou o Gato, " um cachorro rosna quando está zangado e abana a cauda quando está contente. Ora, eu rosno quando estou contente e abano a cauda quando estou zangado. Portanto sou louco."


Meteu o revólver na boca e estremeceu ao senti-lo frio contra o céu da boca. Mas lembrou-se, não sem prazer [...], que assim se tinha suicidado Antero de Quental. Tirou o revólver e manteve-o na mão, descaída esta sobre a colcha, ao longo da perna.Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista. Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já. Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto. Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si. Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida… Tudo era indeciso e sem fim. Fechou os olhos e puxou o gatilho…

Tenho por intuição que para as criaturas como eu nenhuma circunstância material pode ser propícia, nenhum caso da vida ter uma solução favorável. Se já por estas razões me afasto da vida, esta contribui também para que eu me afaste. Aquelas somas de factos que, para os homens vulgares, inevitabilizariam o êxito, têm, quando me dizem respeito, um outro resultado qualquer, inesperado e adverso.
Nasce-me, às vezes, desta constatação, uma impressão dolorosa de inimizade divina. Parece-me que só por um ajeitar consciente dos factos, de modo a que me sejam maléficos, a série de desastres, que define a minha vida, me poderia ter acontecido. Resulta de tudo isto para o meu esforço que eu não intento nunca demasiadamente. A sorte, se quiser, que venha ter comigo. Sei, de sobra, que o meu maior esforço não logra o conseguimento que noutros teria. Por isso me abandono à sorte, sem esperar muito dela. Para quê? O meu estoicismo é uma necessidade orgânica. Preciso de me couraçar contra a vida. Como todo o estoicismo não passa de um epicurismo severo, desejo, quanto possível, fazer que a minha desgraça me divirta. Não sei até que ponto o consigo. Não sei até que ponto consigo qualquer coisa. Não sei até que ponto qualquer coisa se pode conseguir...
Onde um outro venceria, não pelo seu esforço, mas por uma inevitabilidade das coisas, eu nem por essa inevitabilidade, nem por esse esforço venço ou venceria. Nasci talvez espiritualmente, num dia curto de Inverno. Chegou cedo a noite ao meu ser. Só em frustração e abandono posso realizar a minha vida. No fundo, nada disto é estóico. É só nas palavras que há a nobreza do meu sofrimento. Queixo-me, como uma criada doente. Ralo-me como uma dona de casa. A minha vida é inteiramente fútil e inteiramente triste.


"O único consolo que sinto ao pensar na inevitabilidade da minha morte é o mesmo que se sente quando o barco está em perigo: encontramo-nos todos na mesma situação." Tolstoi


segunda-feira, 13 de março de 2017

Página de um diário e notas soltas...

Esculpi o ser que poderia ter sido , mas nunca fui...

Um encontro, uma apresentação...

Todos querem saber para onde vamos quando morremos. Eu tive uma antevisão. Estava na sala de estar da minha mãe em Pūpū-kea, na North Shore de O‘ahu, a falar ao telefone com o meu médico, quando as luzes se apagaram de repente. Aparentemente, caí no chão. Não houve uma caminhada em direção à luz, nenhum ponto luminoso no fim do longo túnel da vida. Aquele novo lugar era veludo negro, tranquilo e em paz...

O meu amigo Kolohe Blomfield está de pé, atento. O Kolohe é um frequentador habitual muito respeitado na North Shore, agora um salva-vidas de longa data, e um tipo que eu admiro. Quando regresso ainda a tossir, ele vem ter comigo a correr. «Meu, nunca vi um wipeout como aquele.» Penso que ele quer dizer que sou invencível, que aguento tudo o que o mar me puser à frente. Tenho 22 anos, 67 quilos, e estou exausto.

Por sorte, o Jeff estava lá para me amparar. Estou no chão, fico ali um minuto ou uma hora, confortado pela escuridão, abençoadamente sem dores. Nunca estive num lugar tão tranquilo. Não me apetecia voltar. De repente, oiço o meu irmão Liam gritar e dizer o meu nome. A voz dele desperta-me, mas, ao recuperar a consciência, a dor acompanha-me, e penso: «Ah, não; neste lugar não, esta dor não.» Lentamente, percebo que posso não voltar a surfar...

Deixá-la ir, a nota desprendida
D'um canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... Deixá-la ir, a vida!


Uma explicação...

Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto ativo
contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um ralo, terrível, a voz de Deus:
– Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados...


Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança? Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravaram-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava...

Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade. Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.

Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte. Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre. Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.

Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto ativo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.A rapidez com que a miúda percebeu o conceito de arbítrio e que o Vicente era um eleito foi a plenitude possível...

Uma leitura...

— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos? Uma vez fui a um médico.
– Doutor, estou louco – disse. – Devo estar louco.
– Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?
– Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
– Não preciso de remédios – disse eu. – Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me serve barbitúricos? A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura… Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este.(...) Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos inteligente. Vê-se bem que não estou louco Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta um estilo.
Sabe de que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o senhor não é estúpido, mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o género. Talvez eu já tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na posse de um estilo. Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu.


Notas soltas em volta destes passos de herberto helder ...

Apetecia-me ficar só. Comer aqui e ali em pequenos restaurantes e, no quarto, à noite, fumar um cigarro à janela, folhear um tratado de arqueologia. Não sentir ninguém nem falar nem me ver obrigado à condescendência ou à fraternidade. Sou um neurótico, vê-se logo. Um egoísta. Deixem-me. Não vou amar o mundo. Estou-me nas tintas.

Convivia com bastante gente. Claro, não amava ninguém.( ...) Mas uma força dramática parecia libertar-se agora da magnética e frágil trama entendida entre mim e as pessoas.

...cada criatura subtilmente se conjuga com os impulsos da destruição. Tecido de imperscrutáveis forças que de súbito se animam. É um jogo cerrado, difícil.

Eis a verdade: sou uma criatura devastada pelo egoísmo... Sentia-me a transbordar de experiências desordenadas e irrevogáveis. Um pouco enjoado de pequenas cidades descobertas à noite, quando se sai numa estação de caminho de ferro. Farto e gentes, costumes, acontecimentos. Viajar é idiota. Bom para a crassa primeira juventude.... Sou cruel? Ou frio. Para o caso tanto faz. ... Não gosto de ninguém.... Quero poupar-me à ignara massa de palavras que descreveriam a subtileza de quantos movimentos, o fulgor de quantas revelações, o ondulante espectáculo do nascimento e acção de um corpo.... Detesto em bloco a incapacidade humana em atingir a pureza ou a intensidade criada pela solidão.

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento de um homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta.



Uma nota inesperada, no " desassossego" de bernardo soares...

Ela canta e as suas notas soltas tecem
Penumbras de sentir no (...) ar...
Em torno as coisas todas entristecem
Só para que ela lhes possa ser luar.

Ó alma derramando-se invisível,
Ó natural requinte da expressão...
Rio de som em tua água
Vai boiando em silêncio (...) e insensível
E debruça-se a vê-lo o inextinguível
Esforço de ser perfeito de imperfeição.(...)



13-3-1913 (Quinta)
Dia perdido, excepto na surda acumulação de energia.— Escritório Lavado. Carta no escritório do Mayer. Depois fui à Brasileira; só fui jantar à meia-noite. Carta de Sá-Carneiro de manhã. Carta do Natal à noite.
(Diário de FP)

13-3-2017 ( Segunda)
Conheci o Mcnamara.Consegui que os alunos apresentassem um livro que nunca li. Escrevi uma notícia para o jornal escolar. Expliquei. Jantei. O benfica ganhou 4-0. Li, com prazer, Herberto Hélder.Observei.Esperei. Entristeci:"Dia perdido, exceto na surda acumulação de energia."
(Não Diário de IV)

Esculpi o ser que poderia ter sido , mas nunca fui...

domingo, 4 de dezembro de 2016

Mundo às avessas...

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.



Uma releitura de Os Maias fez-me reconhecer que , por vezes, tenho sido injusta e excessiva nas minhas apreciações: mesmo não gostanto, particularmente, da minúcia descritiva, eça é um mestre inquestionável na arte de retratar cenários, ambientes e figuras humanas. Certos momentos do passeio por sintra e a delicadeza do enamoramento de carlos e maria eduarda são de uma beleza inefável. Mea culpa, mea maxima culpa, eça é, sem dúvida, um dos nomes mais representativos da literatura portuguesa...

Eram três horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos cortinados de seda, outra vez um belo dia de inverno morria sem uma aragem, banhado de cor de rosa: o banal peristilo de Hotel alargava-se, claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadelinha nos braços; uma mulher passava, com um casaco de veludo branco de Génova, mais alta que uma criatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno que remonta ao Olimpo: a ponta dos seus sapatos de verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia très-chic. Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal, enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrelas com a sua sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das paixões, alçando os braços, clamando no espaço: Abril chegou, sê minha!

Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia os presos pediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fechadas, continuando o seu sono de inverno, entre as árvores já verdes. De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitário, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha a doçura do seu veludo.

E dali olhava, enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se veem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro. E nesta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que o interessava, branquejando, afogada entre a folhagem, com um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma ideia de artista: desejou habitá-la com uma mulher, um piano e um cão da Terra-nova.

Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos assim que ele tinha na mesa do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, numa massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, naquele solo onde as águas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as ervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida, esbatida na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um belo esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farrapozinho de névoa, que ficara ali esquecido, e que dormia enovelado e suspenso na luz...

Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si.Foi como uma inesperada aparição - e vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente à borda do sofá de repes. E depois de um instante de silêncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, de um tom de ouro que acariciava.

Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, num encanto de tudo. E pareceu-lhe então que no olhar dela alguma coisa brilhara, fugira para ele, de mais vivo, de mais doce.

Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade enternecida nesses objectos familiares onde pousava a doçura das mãos dela - um sinete d'ágata sobre um velho livro de contas, uma faca de marfim com monograma de prata ao lado de uma taça de Saxe cheia destaropilhas; e em tudo havia a ordem clara que tão bem condizia com o seu puro perfil. Na rua o realejo calara-se, por cima do tecto já não cavalavam as crianças. E, enquanto escrevia devagar, Carlos sentia-a abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais de leve.

Quando ela lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe de novo à face ao tocar aquela palma tão macia e tão fresca. Pediu os seus cumprimentos para Mademoisele Rosa. Depois, à porta, já com o reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma vez mais, numa última saudação, a receber o olhar suave com que ela o seguia...
- Até amanhã, está claro! exclamou ela de repente, com o seu lindo sorriso.
- Até amanhã, decerto!


Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham falado de afeições. Ela acreditava candidamente que pudesse haver, entre uma mulher e um homem, uma amizade pura, imaterial, feita da concordância amável de dois espíritos delicados. Carlos jurou que também tinha fé nessas belas uniões, todas de estima, todas de razão contanto que se lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso perfumava-as de um grande encanto - e não lhes diminuía a sinceridade. E, sob estas palavras um pouco difusas, murmuradas por entre as malhas do bordado e com lentos sorrisos, ficara subtilmente estabelecido que entre eles só deveria haver um sentimento assim, casto, legítimo, cheio de suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Contanto que pudesse passar aquela hora na poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa; contanto que visse o seu rosto, ligeiramente corado, baixar-se, com a lenta atracção de uma caricia, sobre as flores que lhe trazia; contanto que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento dela o ficava seguindo simpaticamente através do seu dia, mal ele deixava aquela adorada saia de repes vermelho – o seu coração estava satisfeito, esplendidamente.


O que levou torga a meter na gaveta, durante quarenta anos, esta novela ? Considera o autor que a escreveu nos arroubos da juventude e que preferiu esquecê-la...Permito-me dizer eu que o terá considerado uma tentativa, quase pueril, de imitar o glorioso dom quixote... O facto é que, só aos 78 anos, torga tem coragem de publicar o que considerou um devaneio literário... O que o levou a publicá-la? Eis o que nos diz no prefácio:

Querido leitor: Não sei com que palavras te hei-de apresentar este livro, mesmo depois da volta que levou. Escrito de uma assentada há mais de quarenta anos, na idade em que os atrevimentos são argumentos, nele deixei a nu toda a fantasia descabelada e toda a canhestrez que se tem impunemente na juventude.(...) Depois de o aceitar em consciência e de o mortificar na bigorna do ofício, assumo em parte inteira o devaneio. E até com certo enternecimento. Talvez por me sentir incapaz de o repetir.

Coimbra, Maio de 1985

Teu, Miguel Torga


Em tardes assim como as de hoje, cansado de esperar não sei por que milagre, desanimado diante do mapa do mundo que da parede me desafia desde a meninice, começo a pensar no Senhor Ventura. Na sua evocação mitigo durante algumas horas a dor que vai dando cabo de mim. Não me resigno à ideia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante séculos inquieta de descobrir e saber, e depois tragicamente adormecida para tudo o que não seja olhar-se e resignar-se. Parece-me um castigo imerecido do destino e da história. Mas, como sou homem de impossíveis, salvo-me como posso. Encho-me da lembrança mágica do Senhor Ventura, que nenhuma razão impediu de correr as sete partidas que chamam em vão por cada um de nós. Na sua figura ponho a realidade do que sou e a saudade do que podia ser. Entrelaço no desenho do seu nome quanto a imaginação me pede de distância e de perigo. Vivo nele. E, enquanto dura a memória dos seus passos, sinto-me tão verdadeiro que quase sou feliz.

Quem é o senhor ventura? Esta espécie de avesso dos heróis paradigmáticos portugueses não é um cavaleiro nem um santo...

A mulher olhou-o demoradamente. Não era fácil de compreender semelhante mistura de ferocidade e traficância, grandeza e lealdade. A sua inteligência fina, perspicaz, esbarrava diante de tamanho muro. Não quisera ou não pudera amá-lo. E sem amor não se podia entender nenhuma criatura.

Por fim, ambos encontravam a paz perpétua, ela a vê-lo partir para a eternidade, ele a esquecê-la para todo o sempre. A luta tinha sido árdua, por ser a última entre eles, um a esgotar a forças que lhe restavam e o outro a reagir passivamente. Mas tinham conseguido o que desejavam. Agora eram na verdade quilo que a natureza sempre lhes pedira: dois.

Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? (...) Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? (...) E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? (...) Que significa isto, que não significa nada ?

Não,não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...


O vício (fala-se deste modo por comodidade de linguagem), o vício de cada um acompanha -o como aquele génio, que era invisível para os homens enquanto ignoravam a sua presença. A bondade, a artimanha, o nome, as relações mundanas não se deixam descobrir, e cada qual as traz escondidas. O próprio Ulisses a princípio não reconheceu Atenéia. Mas os deuses são imediatamente perceptíveis aos deuses, o semelhante o é bem depressa oa seu semelhante, e assim o fora ainda o Sr. de Charlus a Jupien.

Daí decorre que, no caso dos que amam os primeiros, o ciúme só é aguçado pelo prazer que poderiam ter com um homem e que é o único a parecer -lhes uma traição, visto que não participam do amor das mulheres, não praticaram senão por hábito e para reservar-se a possibilidade do casamento, imaginando tão parcamente o prazer que este pode proporcionar, que não podem tolerar que aquele a quem amam o desfrute; ao passo que os segundos inspiram com frequência o ciúme devido a seus amores com mulheres.

Deixemos todos esses, de uma variedade ou outra, que aparecerão por sua vez, e, para terminar esta primeira exposição, digamos só uma palavra acerca de quem tínhamos começado a falar agora há pouco, os solitários. Julgando o seu vício mais excepcional do que é, foram viver sozinhos no dia em que o descobriram, depois de o ter trazido consigo por muito tempo sem o conhecer, muito mais tempo apenas do que outros. Pois a princípio ninguém sabe que é invertido, ou poeta, ou snobe, ou malvado.

Não há grandes dores em grandes arrependimentos, nem em grandes recordações.Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para o desespero sem razão que se apodera de nós.

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folhejo-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe? Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?

Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida.
Estou em um desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago, náusea e desalento.


Comigo me desavim, Sou posto em todo perigo; Não posso viver comigo Nem posso fugir de mim.Com dor da gente fugia, Antes que esta assi crecesse:Agora já fugiria De mim , se de mim pudesse. Que meo espero ou que fim Do vão trabalho que sigo, Pois que trago a mim comigoTamanho imigo de mim?


Antre tremor e desejo, Vã esperança e vã dor, Antre amor e desamor, Meu triste coração vejo. Nestes extremos cativo Ando sem fazer mudança,E já vivi d'esperança E agora vivo de choro vivo. Contra mi mesmo pelejo, Vem d'ua dor outra dor E d'um desejo maior Nasce outro mor desejo.


Ó meus castelos de vento que em tal cuita me pusestes, como me vos desfizestes!Armei castelos erguidos, esteve a fortuna queda, e disse:– Gostos perdidos,como is a dar tão grã queda!Mas, oh!fraco entendimento! em que parte vos pusestes que então me não socorrestes? Caístes-me tão asinha caíram as esperanças; isto não foram mudanças, mas foram a morte minha. Castelos sem fundamento, quanto que me prometestes. quanto que me falecestes!


Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!


As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Presença, timidez e convenções...

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.


Não se ouve o instinto, por timidez ou por convenção? É a convenção que origina a timidez ou é a timidez que conduz à submissão a convenções?

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

A tua presença Paralisa meu momento em que tudo começa...


Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me todos os laços. Em breve ficarei sozinho. O meu pior mal é que não consigo nunca esquecer a minha presença metafísica na vida. De aí a timidez transcendental que me atemoriza todos os gestos, que tira a todas as minhas frases o sangue da simplicidade, da emoção directa.

Aquela divina e ilustre timidez que é o guarda dos tesouros e das regalias da alma.Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?

Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.

E eu tenho do alto orgulho a timidez E sinto horror a abrir o ser a alguém, A confiar n'alguém. Horror eu sinto A que prescrute alguém, ou levemente Ou não, quaisquer recantos do meu ser. Abandonar-me em braços nus e belos (Inda que deles o amor viesse) No conceber de tudo me horroriza; Seria violar meu ser profundo, Aproximar-me muito doutros homens; Uma nudez qualquer — espírito ou corpo ( Confrange-me: acostumei-me cedo Aos despimentos do meu ser, A fixar olhos púdicos, conscientes Demais. Pensar em dizer «amo-te» E «amo-te» só — só isto me angustia...Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja) Exponho uma íntima parte de mim, Para poder amar eu precisava Esquecer que sou Fausto o pensador. Eu queria era dormir, dormi, dormir, Longo dormir, meio sentindo em sono, E dormir sempre, sem consciência ter Do tempo, só do sono sonolento E da vacuidade do meu ser...

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida. Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver. Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Poema da Eterna Presença
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas porque eu não sou braço nem sou perna.(...) Mas não esqueci tudo. Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; guardei a memória do infinito, daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos, em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. Tudo se passou defronte de partes de mim. E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim. Já cá estavam. Estão. E estarão.



Em cada instante que possa decorrer uma eternidade, visto que cada instante, infinitamente divisível, é infinito idealmente, isto é, eterno.
A divisão do tempo é uma convenção. Realmente cada divisão dessas (seja qual for) é uma eternidade. O célebre argumento de éternité énubée é falso no que quer provar, por ser inconcebível uma éternité énubée. Se avançamos para o infinito não avançamos realmente, mas estamos essencialmente estacionários.


Depois - reparou - a própria inteligência, que ela sem dúvida tinha, produz um espírito de justiça e de lealdade... E trair aquele homem simples, sem interesse mas digno de amizade, seria para ela uma coisa quase criminal, uma coisa indigna não da pessoa dela, mas da sua inteligência. Era coisa possível só com a imaginação, mas ficando na imaginação. As mesmas qualidades de clareza de inteligência, que a levavam a devanear para longe daquele marido real, a levavam a respeitar, não a ele, mas a sua relação com ele. O homem banal vencia porque era banal. Poderia, sim, acontecer que um amor violento arrastasse aquela mulher, de repente, para fora dos eixos lentos da vida quotidiana e seria; mas esse amor ou teria que ter vindo mais cedo, ou que vir muito mais tarde, e mais cedo seria cedo, e mais tarde seria tarde; ou haveria de o causar alguém não inteiramente diferente daquele marido ocupador - alguém fogoso ou estranho, mas banal também, para que o passo do dever para a aventura se desse facilmente, e não fosse o trânsito da vida para o sonho ou de uma vida para outra vida, coisa que a própria dificuldade convertia em nada, nascendo a inércia da inércia.

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?

De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!




E mesmo nesta hora de perder-te Sabendo que a magia se desfez Terá valido a pena conhecer-te E deslumbrar-me ao menos uma vez!