Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola mais um letreiro que promete raízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginário que tem a forma de uma cidade mais um relógio e um calendário onde não vem a nossa idade...
Penteiam-nos os crânios ermos com as cabeleiras das avós para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a história da nossa história sem enredo e não nos soa na memória outra palavra que o medo...
É em homenagem ao poeta inglês John Keats ( 1795 - 1821) que o professor , protagonista do Clube dos poetas mortos, se chama john Keating.
Keats é uma das principais figuras da segunda geração do movimento romântico, no entanto a sua obra apenas começa a ser publicada quatro anos antes da sua morte. Durante a vida, os seus poemas, caracterizados por um imaginário sensual, não foram bem recebidos pelos críticos, sendo a sua influência e importância só postumamente reconhecidas. Também as conceções pedagógicas de JK foram rejeitadas na década de 50, tendo sido só muito mais tarde consideradas como válidas.
Keats e keating, dois homens incompreendidos no seu tempo, só serão valorizados pelos vindouros.
"Oh, se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos."
Carpe diem, quam minimum credula postero.
Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.
O Captain! my Captain!
Ó Capitão! Meu capitão! A nossa terrível viagem já se cumpriu,
O Navio cruzou tormentas, é nosso o prémio pio,
O porto vê-se ao perto — os sinos dobram, o povo espera,
Olhos que à quilha firme tornam, desta nave forte e fera;
Mas ó coração, coração!
Ó gotas de vermelho brio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.
E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.As palavras são pedras,o que nelas vive é o espírito que por elas passa.
Este «eu» solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse «eu» e a sua descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lhe razão.
Entendo a tua loucura, meu bom moço, a tua perplexidade diante do poder que te nasceu nas mãos. Mas como não aprendeste que é mais forte criar uma flor (um parafuso...) do que destruir um império.
Aparição e Clube dos poetas mortos- Dois jovens professores de Literatura não convencionais que, por não cumprirem as normas vigentes, acabam por ser destituídos. Ambos têm alunos que, eventualmente influenciados pelas suas teorias existenciais, cometem atos extremos. A culpa será do professor?
Poderá um professor ser responsabilizados pelos atos de um aluno? Será Keating culpado do suicídio de Neil Perry? E Alberto, do ato homicida de Carolino.
Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.
O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.
Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quarta-feira, 25 de outubro de 2017
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Para sempre: teño morriña, teño saudade...
Até ao fim do mundo...Drama em 4 atos
Pêro Coelho (narrando a Pedro o momento do assassinato de Inês de Castro)
Foi quando nos olhamos sem falar, e como a pedra cai num poço em noite, a decisão suprema entrou em nós. (...). Era no Outono como agora. Vós lembrai-vos. Sabíamos que iríeis a montear, e partimos, noite cerrada, para perto. El-Rei vosso pai, meu senhor, fazia dó. (...) por duas ou três vezes quis voltar. (...). Era o dever, o seu dever de rei, que o levava arrastos pela noite... (...) Por fim, chegamos. (...). A manhã tinha de vir: e veio!... Daí a pouco, os vossos cães latiram. Soou então uma trompa de monteiro, mas baixo, como quem chamasse a medo. Houve um rumor de porta sob o alpendre... Éreis vós, meu senhor, que íeis montear... (...). Vi então claramente o vosso vulto. (...). Depois Ela... Foi para vós: beijou-vos: não sei o que vos disse...e ouvi-vos rir... Oh! O vosso rir, o vosso rir na inocência da manhã! (...). Descestes. Ela seguia-vos com os olhos, debruçada. (...). Ela tinha a mão por sobre os olhos, acenou-vos um adeus lento, (...). Chamei por vosso pai. Disse-lhe baixo: — É a hora, meu senhor. Ele hesitava, branco, cor-de-cera, encostado a um tronco de oliveira, que era mesmo da cor de suas cãs... (...). Demos a volta ao muro do pomar, e eu empurrei a porta — a porta que vós meu senhor, tínheis deixado entreaberta (...). Ela estava ainda sob o alpendre, e olhava do lado do Mondego. Voltou-se então: decerto ouvira os passos... e toda a face lhe embranqueceu de tal maneira, que para que eu não quedasse de piedade, foi meu senhor, lembrar-me de que amava a minha terra (...) Vi que queria gritar, mas não pode. Ainda olhou num instinto de defesa, para o lado por onde vós sumistes... Quando subi a escada, vi-a abalar com gestos de agonia, para a alcova de vossos filhos. (...). Parecia que um vento de terror a enovelava, assim, movendo os braços como asas, com três vidas pequeninas a cercá-la, (...). E cravara em vosso pai os olhos! (...). Ele tapara os olhos com a mão para não ver os dela, nem os netos; e com uma voz tão branca como o rosto, ela disse ao Infante D. Dinis: — Olha o avô!... (...). Eu desnudei então a minha espada. Avancei para ela. Nem fugiu. Estava sem alma já. (...)
Pedro - – Sou o rei... o rei do maior reino... do reino que me deste, minha Inês... Duas vezes Rainha!... Santa! Santa!... Se estou aqui ao pé de ti – tudo foi bom!... A minha dor, Inês, beijo-a nos olhos!... beijo-a como beijei a tua boca... como – cerrando os olhos na saudade – beijei, beijei, beijei a tua alma... Tudo, tudo foi bom. Tudo eu bendigo. Oiço bater o coração do meu destino. Agora sei, Inês... agora entendo. Morreste moça – pr'a viveres na eternidade sempre moça. Bendito seja sempre o teu martírio! Bendito o lobo em mim... bendita a hiena... (Mais perto d'ela ainda, erguendo as mãos) Bendita tu, Inês, sempre bendita! (Pausa. N'um tom d'intimidade mística) Estás outra vez no reino pequenino. Ele foi-te fiel como o teu Pedro. Cada árvore sabe a tua graça. A tarde cai lembrando o teu sorriso. A terra que tu pisaste alimentou-me: era pão pr'a mim, mais do que pão. Oh! Mas Coimbra foi como uma mãe. Como se o húmus recebesse a tua carne, floriu todo em saudades – campo e montes... Terra de comunhão, carne de Inês. Como eu a Vejo agora – a nossa Coimbra!... É uma Coimbra decantada na saudade... uma Coimbra d'além... E rio e choupos, e olivais e paços, vozes de sinos, voz de rouxinóis: é tudo, tudo feito de reflexos... Só ela vive do meu reino agora. O meu reino lá foi – sumido em névoa. Adeus salas de pedra dos meus paços... meu povo e minha corte... meu chicote de justiceiro... noites de folgança ao som das longas... manhãs de montaria... bons nebris... Sois uma asa ao fundo da memória. Só guardo nos meus olhos o Mondego, tal como o vi depois de tu morreres. Eu não tinha um irmão... Ninguém comigo. Fui ter com ele – o meu amigo de água. Ia como uma lágrima doirada, com folhas secas a boiar, o céu ao fundo, e os choupos nas margens a rezar... Assim ficou n'esta alma para sempre. Lembras-te? – uma vez, no ardor da sesta, adormeci no teu regaço. Era em agosto. Ele corria aos nossos pés, n'um murmurinho: as suas águas tinham sede como a areia. Pr'a me acordares – era já quase noite – beijaste-me nos olhos, minha Inês. E eu quedei como um monte, em seu burel de mato rude, quando uma nuvem da manhã o beija... Não sabia onde estava. Tu sorrias. Entrevi n'esse instante o nosso reino... Ouve o teu Pedro, Inês, peço-te muito: – havemos de nos lembrar do sol da terra! E do Mondego, Inês, das suas águas. O sol da terra é irmão do teu cabelo. Como eu o amei, como eu amei o teu cabelo!... Muitas vezes, a afogar-me n'ele, sentia luz em mim, era meio-dia, como se Deus mungisse o sol sobre a minha alma... Amava-o tanto como tu o sol. Tu amavas o sol perdidamente. Até fugias dos meus braços, meu amor, para o ver a arraiar por sobre os montes. Ao luzir d'alva, abrias a janela: "Anda ver, meu Pedro, ele não tarda." Eu cingia-te quente, semi-nua. O pomar dormia. Só o silêncio andava a perfumar-se no pomar. Tudo era cor de asas de rouxinóis... Como tu te fazias pequenina!... A manhã vinha vindo além dos montes... Os teus seios arfavam com a luz... E ficavas a olhar os olhos rasos!... Que tinhas tu!?... Vias o céu sofrer?... Era pr'a dar a aurora ao nosso amor!... E nascia... subia: encantamento!... Os teus olhos faziam-se maiores. Oh! O que o sol gozou de viver n'eles!... Mesmo na sombra – eram flores com raios... Os teus olhos olhavam-me na sombra – como as janelas do meu paço olham a noite... Os meus agora vivem como estrelas: dobam a luz dos teus sem descansar (Com opressão e êxtase) Onde estou eu?... Não sei. Estou só contigo. Respiro o teu olhar: é luz de luz... É o ar da minha alma – o teu olhar. E Alcobaça!?... A minha coroa d'oiro!?... Alcobaça onde está!?... as altas naves!?... E os sinos?... a corte!?... os sinos d'oiro a bailar no ar as minhas bodas!?... Ainda os oiço... ainda... mas tão longe... É o princípio e o fim de todo o nosso amor. Os teus seios uniram-se: ei-lo – o mundo!... Oiço no teu silêncio cotovias... O som e a luz casaram-se, fundiram-se: são o ar que eu respiro... o nosso ar... Oh! Asas... asas... dêem-me asas!... É um abismo d'estrelas – este amor... Faz-me medo. É um turbilhão de estrelas... (Com voz de aura, chamando) Inês!... Inês!... Eu tenho medo... Sinto o vento de luz da eternidade...
«No final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos-chave da sua existência. Recheado de flashbacks para o passado e para o futuro (!), a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral urge em Paulo a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida».
«Contínua e cada vez mais solitária viagem em volta do único ponto do seu universo: o da sua infância como monólogo inacabado e inacabável em torno do milagre ardente e pavoroso da sua própria aparição no meio do mundo - montanha, estrelas, água, vento que é uma resposta antes de ser desesperada e inútil interrogação.»
Via-a de longe, evitava vê-la de perto, como é que lhe havia de falar? E era como se uma vergonha muito grande, um pecado ou coisa assim, ou uma inferioridade muito baixa e que vinha de uma superioridade muito alta em que eu via Sandra. Eu sentia-me esmagado de humilhação, como é que lhe havia de falar? Quem é que disse que o amor aproxima não sei quê? Não é verdade. Sou um homem experimentado - não é verdade. Se eu amasse pouco Sandra, ou não a amasse, era-me muito mais fácil falar com ela, lidar com ela e com a irmã e com quem quer que fosse dela, eu livre e independente. Amar é pôr ao alto e ao longe, treme-se como diante de um deus tresloucado. Amar muito é ter pouco de nós com que se possa ser gente.
Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.
É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténue, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és.
Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.
Uma dúvida para sempre: vergílio ferreira é melhor ou pior do que josé luís peixoto? São semelhantes no recorte frásico, na racionalidade pateticamente frouxa, na emotividade racionalmente patética. São intensos, mas sem qualquer intensidade.Escrevem bem, pensam bem, mas não despertam qualquer emoção intelectual, são eternos adolescentes sofredores, só isso... Saber pensar e saber escrever não equivale, necessariamente, a ser um grande escritor...
Vergílio Ferreira não transforma o pensamento em reflexão, mas em lamentos; não é um adulto lúcido, mas um eterno adolescente sofredor. A sua revolta conformada é, por vezes, entediante. Não basta pensar e escrever bem, é preciso construir livros " que nos afetem como um desastre..." Há mais virilidade( não tenho medo desta palavra/ conceito tão fora de moda) numa página de Agustina do que em todos os romances de VF e de JLP.
I'm up in the woods I'm down on my mind I'm building a still to slow down the time...
Exista ou não unidade linguística entre o galego e o português, como defendem muitos estudiosos, o galego é a língua mais bonita que existe.( Só esse facto justifica a presença de julio iglesias na minha biblioteca. Talvez nem fique mal depois da " morriña" lusitana...)
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Realidades e ilusões...
"Há momentos em que és realidade; noutros, uma mera ilusão , não de ótica, mas de perspetiva: uma ilusão que teve como ponto de partida uma outra ilusão, uma espécie de realidade virtual, uma memória futura de um passado inexistente; nunca foste nem serás um sonho..."
Just a song we shared I'll hear Brings memories back when you were here...
Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...
A realidade nem sempre se toca fisicamente. As imagens que tens na cabeça não são frases sequer. A realidade está inscrita numa coisa mais ampla e esponjosa. Nem sempre tocas no que existe, há coisas que existem com força e não são elementos com volume. Percebe os pressentimentos assim. A realidade desaparece no momento em que um pressentimento avança.
Não é frequente um livro, que não considere superior, aparecer mais do que uma vez, nestas Leituras. As paixões de rosa montero são uma exceção porque temo ter sido pretensiosamente precipitada no meu julgamento inicial. Apesar de construído a partir da realidade, o que lhe retira, só por si, o estatuto de grande obra, tem qualquer coisa que, entretanto, me fez ser mais indulgente na crítica. Qual o motivo? Apaixonei-me pelo retrato dos amores de wilde... Quase me senti aceder à sua alma perfeita... Sempre tive uma enorme fascínio pela vida do criador de dorian gray, mas nunca contactara com uma narrativa, simultaneamente lúcida e emotiva e, presumivelmente, verdadeira, do que foi a esplendorosa existência de um ser destruído, de forma ignominiosa e cruel, por essa outra gente que ele tanto desprezou...
Acabei de ler este capítulo e chorei...sei lá se por ele, se por mim... Chorei, afinal, por todos os génios, destroçados só porque o foram... Como sou inconstante, mudo de opinião apenas porque a narradora me consegue emocionar...
Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
Tudo será fácil porque é tudo para mim sonho. Mando-me sonhá-lo e sonho-o. Às vezes crio em mim um filósofo, que me traça cuidadosamente as filosofias enquanto eu, pagão, namoro a filha dele, cuja alma sou, à janela da sua casa. Limitam-me, é claro, os meus conhecimentos. Não posso criar um matemático... Mas contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais... Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos, nem o meu carácter... Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos a mim prório. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou bocados de personagens de dramas meus.
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso. É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, quando um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele — sem nenhuma masturbação mais que mental — ter uma ejaculação quando um momento desses chegar no romance. Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será muito maior, mas o prazer é completamente mais intenso.
O mais alto grau do sonho é quando, criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjunta e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encinzamento do espírito a que isto leva, e é difícil, confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo... Mas o triunfo é tal. Este é o único ascetismo possível. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Ninguém alguma vez escreveu, pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.O inferno é a realidade real..Se um homem misturar absinto com a realidade obtém uma realidade melhor -mas também é certo que o absinto fica pior: nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto...
O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque, já não penso em ti.
Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.
Eu inventava para mim aventuras e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida. Tantas vezes me aconteceu ofender-me - por nada, propositadamente...fomentava a ofensa por dentro, mas levava a coisa a um ponto tal que, por fim, sentia-me de facto ofendido... Aconteceu-me sentir vontade de me apaixonar... O que eu sofri... No fundo da alma, eu não acreditava que sofria, agitava-se dentro de mim um sarcasmo, e , mesmo assim, sofria, ainda por cima a sério, e muito; tinha ciúmes, perdia as estribeiras...
Nunca consegui decidir se uma coisa me aconteceu ou se a imaginei.Pouca diferença fazia ter encontrado um homem ou que ele só tivesse existido num livro...Cada vez que a minha mente fornecia uma recordação há muito suprimida,era apenas outra peça,e havia tão poucas peças e o quebra-cabeças era tão grande!
O tempo passa e eu espero junto à porta...os cegos guiam os cegos e os surdos gritam avisos uns aos outros até que as suas vozes se percam
Na minha cabeça,telefonava a alguém, e essa pessoa convidava-me para sua casa,mas,a partir do momento em que lá entrava,compreendia que tinha sido um erro. A conversa esmorecia,eu gaguejava,morria por me ir embora. E assim,pensando nas pessoas que conhecia,eliminava-as,uma a uma, convencido,ao considerá-las isoladamente, de que não tinham interesse...
Não desejara verdadeiramente Lanine: deixara-me levar....Infelizmente, as nossas decisões são sempre mais plásticas do que desejaríamos e,assim, ao acordar, compreendi que a minha noite com Lanine perdera o que existia já de si sem qualquer atracção.
Escrevi outra vez durante toda a noite e...decidi não me deitar. Durante todo este tempo mal pensei nas pessoas da pensão..no meu trabalho e.Tudo o que estivera disperso parecia resolver-se por si mesmo no meu trabalho e, durante aqueles dois dias, não fui infeliz.
As relações sociais, como as relações económicas,ainda não dependiam da vontade dos homens. Excepto para mim.Eu vivia,e era eu só, em relação a quê? O mundo rodaria, e eu que só podia exercer uma vontade durante o tempo que o dinheiro durasse, não exercia coisa alguma e passava horas a sonhar em cima da cama.
Desde sempre, o homem tem organizado as sociedades com base em privilégios : a liberdade é uma ilusão, a igualdade uma utopia...
Por qualquer motivo,não queria abandonar no quarto a minha máquina de escrever...libertei-me dela numa casa de penhores. Arrastado or um estranho impulso,que me obrigava a levar tudo aos seus extremos,empenhei-a num nome que não me pertencia,falsa identidade de alguém que morava numa rua inexistente.Mas havia ainda a minha novela. Enfiando-a num envelope,enderecei-a à minha nova identidade...Iria buscá-la sim.
Testamento de Mcleod: Para Michel Lovett, a quem, pela primeira vez na minha vida que agora chega ao fim,me julgo capaz de oferecer um pouco de amizade desinteressada, lego em herança o remanescente da minha cultura socialista. Possa ele viver o suficiente para assistir ao renascimento da Fénix.
O tempo passa. Eu trabalho e estudo, olhos fixos na porta, atentos ao menor alarme. Entretanto ...o mundo continua a girar...a marcha da guerra acelera sem obstáculos à sua progressão....os cegos serão conduzidos por cegos, os surdos gritarão avisos a outros surdos até que as suas vozes se percam totalmente.
A realidade assedia constantemente o artista visando impedir a sua evasão. Que astúcia não supor a fuga genial! Terá de ser a de um Ulisses às avessas, que se liberta da sua Penélope quotidiana e navega, entre escolhos, rumo ao feitiço de Circe.
Gostei da ideia de um Ulisses que navega rumo ao feitiço de Circe...
1. A Ilusão do mundo
2. A Ilusão do Amor.
a) o sentimento.
o s[entimento] não existe
b) a posse.
a posse não existe
c) o gozo.
o gozo não existe.
3. A Ilusão da Força
A Ilusão da Realidade
A. As Ilusões dos Instintos
B. As Ilusões do Pensamento.
C. As Ilusões do Ideal (a) a Il[usão] da Liberdade (b) a Il[usão] da Felicidade (c) a Il[usão] da Força
O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.
Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.
As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real.
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos morno sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para quê há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele ralará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade insconciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espetáculo está em toda a parte.
O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.
Toda a vida das sociedades em que dominam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espectáculos.
No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.
Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.
À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade acorrentada, que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sonho.
A existir, neste século, um escritor a quem Debord aceitaria comparar-se, esse escritor é Karl Kraus.Tanto em Debord, como em Kraus, a língua é a imagem é o lugar da justiça.
Demagogia- Palavra de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo".Etimologicamente, não tem qualquer conotação pejorativa, só existindo uma evolução semântica após a morte de Péricles. Aristóteles, em A Política, considera a demagogia como a corrupção da democracia, assim como a tirania corresponde à corrupção da monarquia. Num sentido figurado, demagogia é a prática dos que aparentam honestidade com o intuito de obter favores pouco claros,designadamente atrair o reconhecimento ou admiração dos outros.
Será que tenho de acrescentar mais uma característica ao meu perfil? Yo soy yo y mis circunstancias...
O segredo do demagogo é tentar parecer tão estúpido como o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto como ele.
O autêntico dizer não só diz algo, como diz alguém a alguém. Em todo o dizer há um emissor e um receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem. Todo o vocábulo é ocasional. A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem a sua eficácia. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente o seu leitor e este percebe como se de entre as linhas saísse uma mão ectoplástica que tacteia a sua pessoa, que quer acariciá-la – ou bem, mui delicadamente, dar-lhe um murro.(...)
Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação, sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.
Esse costume de falar para a Humanidade, a forma mais sublime e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi adotado até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes dos seus próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração.
Just a song we shared I'll hear Brings memories back when you were here...
Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...
A realidade nem sempre se toca fisicamente. As imagens que tens na cabeça não são frases sequer. A realidade está inscrita numa coisa mais ampla e esponjosa. Nem sempre tocas no que existe, há coisas que existem com força e não são elementos com volume. Percebe os pressentimentos assim. A realidade desaparece no momento em que um pressentimento avança.
Não é frequente um livro, que não considere superior, aparecer mais do que uma vez, nestas Leituras. As paixões de rosa montero são uma exceção porque temo ter sido pretensiosamente precipitada no meu julgamento inicial. Apesar de construído a partir da realidade, o que lhe retira, só por si, o estatuto de grande obra, tem qualquer coisa que, entretanto, me fez ser mais indulgente na crítica. Qual o motivo? Apaixonei-me pelo retrato dos amores de wilde... Quase me senti aceder à sua alma perfeita... Sempre tive uma enorme fascínio pela vida do criador de dorian gray, mas nunca contactara com uma narrativa, simultaneamente lúcida e emotiva e, presumivelmente, verdadeira, do que foi a esplendorosa existência de um ser destruído, de forma ignominiosa e cruel, por essa outra gente que ele tanto desprezou...
Acabei de ler este capítulo e chorei...sei lá se por ele, se por mim... Chorei, afinal, por todos os génios, destroçados só porque o foram... Como sou inconstante, mudo de opinião apenas porque a narradora me consegue emocionar...
Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
Tudo será fácil porque é tudo para mim sonho. Mando-me sonhá-lo e sonho-o. Às vezes crio em mim um filósofo, que me traça cuidadosamente as filosofias enquanto eu, pagão, namoro a filha dele, cuja alma sou, à janela da sua casa. Limitam-me, é claro, os meus conhecimentos. Não posso criar um matemático... Mas contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais... Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos, nem o meu carácter... Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos a mim prório. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou bocados de personagens de dramas meus.
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso. É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, quando um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele — sem nenhuma masturbação mais que mental — ter uma ejaculação quando um momento desses chegar no romance. Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será muito maior, mas o prazer é completamente mais intenso.
O mais alto grau do sonho é quando, criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjunta e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encinzamento do espírito a que isto leva, e é difícil, confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo... Mas o triunfo é tal. Este é o único ascetismo possível. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Ninguém alguma vez escreveu, pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.O inferno é a realidade real..Se um homem misturar absinto com a realidade obtém uma realidade melhor -mas também é certo que o absinto fica pior: nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto...
O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque, já não penso em ti.
Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.
Eu inventava para mim aventuras e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida. Tantas vezes me aconteceu ofender-me - por nada, propositadamente...fomentava a ofensa por dentro, mas levava a coisa a um ponto tal que, por fim, sentia-me de facto ofendido... Aconteceu-me sentir vontade de me apaixonar... O que eu sofri... No fundo da alma, eu não acreditava que sofria, agitava-se dentro de mim um sarcasmo, e , mesmo assim, sofria, ainda por cima a sério, e muito; tinha ciúmes, perdia as estribeiras...
Nunca consegui decidir se uma coisa me aconteceu ou se a imaginei.Pouca diferença fazia ter encontrado um homem ou que ele só tivesse existido num livro...Cada vez que a minha mente fornecia uma recordação há muito suprimida,era apenas outra peça,e havia tão poucas peças e o quebra-cabeças era tão grande!
O tempo passa e eu espero junto à porta...os cegos guiam os cegos e os surdos gritam avisos uns aos outros até que as suas vozes se percam
Na minha cabeça,telefonava a alguém, e essa pessoa convidava-me para sua casa,mas,a partir do momento em que lá entrava,compreendia que tinha sido um erro. A conversa esmorecia,eu gaguejava,morria por me ir embora. E assim,pensando nas pessoas que conhecia,eliminava-as,uma a uma, convencido,ao considerá-las isoladamente, de que não tinham interesse...
Não desejara verdadeiramente Lanine: deixara-me levar....Infelizmente, as nossas decisões são sempre mais plásticas do que desejaríamos e,assim, ao acordar, compreendi que a minha noite com Lanine perdera o que existia já de si sem qualquer atracção.
Escrevi outra vez durante toda a noite e...decidi não me deitar. Durante todo este tempo mal pensei nas pessoas da pensão..no meu trabalho e.Tudo o que estivera disperso parecia resolver-se por si mesmo no meu trabalho e, durante aqueles dois dias, não fui infeliz.
As relações sociais, como as relações económicas,ainda não dependiam da vontade dos homens. Excepto para mim.Eu vivia,e era eu só, em relação a quê? O mundo rodaria, e eu que só podia exercer uma vontade durante o tempo que o dinheiro durasse, não exercia coisa alguma e passava horas a sonhar em cima da cama.
Desde sempre, o homem tem organizado as sociedades com base em privilégios : a liberdade é uma ilusão, a igualdade uma utopia...
Por qualquer motivo,não queria abandonar no quarto a minha máquina de escrever...libertei-me dela numa casa de penhores. Arrastado or um estranho impulso,que me obrigava a levar tudo aos seus extremos,empenhei-a num nome que não me pertencia,falsa identidade de alguém que morava numa rua inexistente.Mas havia ainda a minha novela. Enfiando-a num envelope,enderecei-a à minha nova identidade...Iria buscá-la sim.
Testamento de Mcleod: Para Michel Lovett, a quem, pela primeira vez na minha vida que agora chega ao fim,me julgo capaz de oferecer um pouco de amizade desinteressada, lego em herança o remanescente da minha cultura socialista. Possa ele viver o suficiente para assistir ao renascimento da Fénix.
O tempo passa. Eu trabalho e estudo, olhos fixos na porta, atentos ao menor alarme. Entretanto ...o mundo continua a girar...a marcha da guerra acelera sem obstáculos à sua progressão....os cegos serão conduzidos por cegos, os surdos gritarão avisos a outros surdos até que as suas vozes se percam totalmente.
A realidade assedia constantemente o artista visando impedir a sua evasão. Que astúcia não supor a fuga genial! Terá de ser a de um Ulisses às avessas, que se liberta da sua Penélope quotidiana e navega, entre escolhos, rumo ao feitiço de Circe.
Gostei da ideia de um Ulisses que navega rumo ao feitiço de Circe...
1. A Ilusão do mundo
2. A Ilusão do Amor.
a) o sentimento.
o s[entimento] não existe
b) a posse.
a posse não existe
c) o gozo.
o gozo não existe.
3. A Ilusão da Força
A Ilusão da Realidade
A. As Ilusões dos Instintos
B. As Ilusões do Pensamento.
C. As Ilusões do Ideal (a) a Il[usão] da Liberdade (b) a Il[usão] da Felicidade (c) a Il[usão] da Força
O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.
Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.
As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real.
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos morno sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para quê há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele ralará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade insconciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espetáculo está em toda a parte.
O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.
Toda a vida das sociedades em que dominam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espectáculos.
No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.
Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.
À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade acorrentada, que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sonho.
A existir, neste século, um escritor a quem Debord aceitaria comparar-se, esse escritor é Karl Kraus.Tanto em Debord, como em Kraus, a língua é a imagem é o lugar da justiça.
Demagogia- Palavra de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo".Etimologicamente, não tem qualquer conotação pejorativa, só existindo uma evolução semântica após a morte de Péricles. Aristóteles, em A Política, considera a demagogia como a corrupção da democracia, assim como a tirania corresponde à corrupção da monarquia. Num sentido figurado, demagogia é a prática dos que aparentam honestidade com o intuito de obter favores pouco claros,designadamente atrair o reconhecimento ou admiração dos outros.
Será que tenho de acrescentar mais uma característica ao meu perfil? Yo soy yo y mis circunstancias...
O segredo do demagogo é tentar parecer tão estúpido como o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto como ele.
O autêntico dizer não só diz algo, como diz alguém a alguém. Em todo o dizer há um emissor e um receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem. Todo o vocábulo é ocasional. A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem a sua eficácia. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente o seu leitor e este percebe como se de entre as linhas saísse uma mão ectoplástica que tacteia a sua pessoa, que quer acariciá-la – ou bem, mui delicadamente, dar-lhe um murro.(...)
Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação, sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.
Esse costume de falar para a Humanidade, a forma mais sublime e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi adotado até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes dos seus próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Espaço...Vazio...Peso... Leveza
Um plano geral para a vida deve implicar, antes de mais, alcançar-se qualquer forma de estabilidade financeira.(...) A coisa essencial que vem logo a seguir é residir numa casa com bastante espaço, espaço quanto a divisões e divisões com os requisitos necessários, para arrumar todos os meus papéis e livros na devida ordem; e tudo isto sem grande possibilidade de me mudar dentro de pouco tempo.(...)Substituir, no tocante à ordem dos papéis, a minha caixa grande por caixas mais pequenas contendo os papéis por ordem de importância. Na caixa grande e na outra em A. S. ficariam só os jornais e revistas que guardo.
Como o sinto parecido comigo. Talvez pudesse ter gostado de mim se o nosso espaço - tempo não fosse desencontrado.
Mas quanto amor(...) eu sentia, por vezes, nos meus devaneios, nesses salvamentos pelo belo e sublime: um amor fantástico, claro, que nunca foi concretamente realizado em nada de humano, mas havia tanto desse amor em mim, que depois, concretamente, eu nem sentia a necessidade de o realizar...
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me...
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -
Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio. Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Fragmentos verbais de inveja, de luxúria, de trivialidade vão de embate ao meu sentido de ouvir. Sussurrados murmúrios (...) ondulam para a minha consciência. Pouco a pouco vou perdendo a consciência nítida de que existo coextensamente com isto tudo, de que realmente me movo, ouvindo e pouco vendo, entre sombras que representam entes e lugares onde entes o são. Torna-se-me gradualmente, escuramente, indistintamente incompreensível como é que isto tudo pode ser em face do tempo eterno e do espaço infinito.
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
Estou vazio como um poço seco Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma Tampa no esforço imaginativo!
Indiferença relativamente ao conteúdo, valorização da forma; comunicação sem finalidade, desejo de falar m a respeito de nada. Comunicar por comunicar, sem qualquer finalidade. Esta é a lógica do vazio: isolamento do ser social e a valorização do ser individual.
CAPÍTULO I – Sedução non stop
CAPÍTULO II - A indiferença pura
CAPÍTULO III - Narciso ou a estratégia do vazio
CAPÍTULO IV - Modernismo e pós-modernismo
CAPÍTULO V . A sociedade humorística
CAPÍTULO VI - Violências selvagens, violências modernas
Tempo de fuga perante qualquer sinal de sentimentalismo. Desenvolvem -se as possibilidades de encontros, mas aumenta a solidão; quanto mais as relações se tornam livres de restrições, mais rara se torna a possibilidade de uma relação afetiva intensa.
Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabiaque estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornandoos, por essa maneira, duplamente invisíveis.
Peso ou leveza? Segundo Parménides, filósogo grego do século VI aC, o universo estava dividido em pares antitéticos: luz-sombra; ativo-passivo; masculino-feminino; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser; leve-pesado; fogo-terra; vida-morte. Considerava também que um dos pólos da dicotomia era sempre positivo e o outro negativo: a sombra é a negação da luz e o mesmo se passa nos outros pares de opostos. Portanto, para Parménides a leveza é positivo e o pesado, negativo. Teria razão?
O insustentável peso da leveza...
Quanto mais leve e mais pequeno melhor: Ouvimos toda a música do mundo por meio de aparelhos leves como o ar. Vemos filmes em tablets que cabem no bolso.
Estamos apenas nos primeiros passos, mas todos os dias conquista novos territórios, realiza novas proezas, suscita novas esperanças e, ao mesmo tempo, novas angústias. Da cloud computing às biotecnologias, dos nano-objectos aos aparelhos de alta tecnologia, do culto da magreza à alimentação light, dos desportos com prancha às técnicas de relaxamento, das tendências da moda às indústrias do entretenimento, é através de uma multidão de dispositivos heteróclitos e multiformes que evolui a revolução hipermoderna do ligeiro.
O leve, aquilo que era mais insignificante e mais fútil, tornou-se a maior força de transformação do mundo. Na era da hipermodernidade, não é o poder sobre o pesado que muda a face do mundo, mas sim o poder sobre o ultra-leve. Na época que se inicia, o domínio técnico do infinitamente pequeno é aquilo que abre infinitamente o horizonte dos possíveis, tornando real o que, até então, era considerado impossível. Note-se que esta dinâmica está longe de estar igualmente desenvolvida em todas as esferas. As grandes infraestruturas, o gigantismo e os equipamentos faraónicos não estão em vias de extinção. Muito pelo contrário, até os bancos se tornaram too big to fail. No entanto, o princípio da leveza não deixa de progredir a uma velocidade estonteante e de chegar a cada vez mais setores: energia, aeronáutica, telecomunicações, automóveis, banca, cirurgia, mas também jogos, música, fotografia, cinema, arquitetura, design.
De resto, civilização do ligeiro significa tudo menos viver de forma leve. Embora o peso das normas sociais se tenha aligeirado, a vida parece mais pesada. Desemprego, precariedade, instabilidade dos casais, emprego de tempo sobrecarregado, riscos sanitários – perguntamo-nos se isto não alimentará a sensação de gravidade da vida. Por toda a parte se multiplicam os sinais de desamparo, as novas expressões do «mal-estar na civilização». Os dispositivos leves podem abundar, mas os mecanismos do mercado e a dinâmica de individualização não deixam de continuar a produzir inúmeros danos.
Ironia hipermoderna: atualmente, é a leveza que alimenta o espírito de gravidade. Isto porque a leveza se acompanha de normas exigentes com efeitos esgotantes e, por vezes, deprimentes: ter um corpo esbelto implica normalmente a renúncia à tranquilidade do carpe diem, uma existência nos antípodas de uma vida despreocupada. O próprio consumo impõe-se, para grandes frações da população, como fonte de preocupações quotidianas e de práticas que se assemelham a um «trabalho» feito de pesquisas e de comparações pacientes e sérias.
E é mais pesado não ser feliz numa sociedade que celebra o ideal de leveza hedonista do que nas sociedades que ensinavam, como no passado, a resignação na Terra tendo em vista a salvação no Além. O nosso mundo deu origem a desejos de felicidade impossíveis de satisfazer; daí a multiplicação das desilusões relativas a uma vida que nunca é suficientemente leve, divertida ou móvel. O sentimento gracioso da existência recua enquanto triunfam a cultura do divertimento e as disposições materiais do ultraleve. A época foi dominada por um novo «espírito de gravidade».
Ai a inevitável leveza da sociologia...Prefiro sempre o inevitável peso do pensamento filosófico...Gilles Lipovetsky é mais sociólogo do que filósofo: paradoxalmente, neste livro, um exemplo de leveza...
Eterno retorno: o maior peso ou a maior leveza?
E se, um dia ou uma noite, um demónio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como tu a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo; muito pelo contrário. A menor dor, o menor prazer,o menor pensamento, o menor suspiro, e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, ínfima poeira da poeira!“ Não te lançarias ao chão, não rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; havias de te perguntar a propósito de tudo:" Queres isto? E quere-lo outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?" E esta questão pesaria sobre ti como um peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além desta suprema confirmação!
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que os seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
De que serve? O que é que tem que servir? Pálido esboço leve Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir... Vago sussurro breve.
À leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado. Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto. Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas.
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele não é esse teu amigo mas sim um seu irmão gémeo. Imediatamente uma alteração profunda se instalou nas vossas relações. Mas se te perguntares em quê, não é fácil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo não era ele, que era outra pessoa. Mas outra em quê? O corpo é igual nos mínimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recordações, o todo integral da sua vida e do que ele é. Se percorreres todos os pormenores, encontrá-los-ás em hipótese absolutamente iguais. Começa onde quiseres, examina cada minúcia que constitui o teu amigo, progride até ao mais extremo limite e verificarás que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto é assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa é aquilo que ela nos é, se uma pessoa é aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define é aquilo que somos e se esse alguém que encontrámos em nada difere, em hipótese, do alguém que esperávamos encontrar, nenhuma razão havia para que as relações com ele se perurbassem. Mas elas perturbam-se, porque esse alguém não é o outro. Em quê, porém, não é o outro? E eis que se levanta agora flagrante essa coisa obscura que determina o «tu» de alguém. Não é nada. E é tudo. Porque toda a sua pessoa está naquilo que a diz - e no entanto não está. Toda a sua pessoa se revela no que vem à superfície ou aí se anuncia, e no entanto alguma coisa ficou ainda atrás, indizível e inacessível, fugidia e flagrante - início puro e categórico, intocável e nula realidade, e no entanto fulgurante e categórica realidade. Está aí e não se vê, assinala uma irredutibilidade e todavia personifica-se em tudo o que a manifesta. É cognoscível e furta-se, é inegável e não podemos apreendê-la. Mas é essa indizibilidade, essa coisa nenhuma, esse quid real, que marca e determina a verdade de se ser uma pessoa e não outra.
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de espinhos. Eu desejaria fazer a apoteose de uma incoerência nova, que ficasse sendo como que a constituição negativa da nova anarquia das almas. Compilar um digesto dos meus sonhos pareceu-me sempre que seria útil à humanidade. Por isso nunca me abstive de o tentar.(...) A academia vegetal dos silêncios... o teu nome soando como as papoilas... os tanques... o meu regresso... o padre louco que endoideceu na missa. Estas recordações são dos meus sonhos... Não fecho os olhos mas não vejo nada... Não estão aqui as coisas que vejo...Águas… A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não vai acontecer-me hoje qualquer coisa de terrível para a minha alma!... Às vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania suprema que nos faz ter de olhar puros não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro.
Como o sinto parecido comigo. Talvez pudesse ter gostado de mim se o nosso espaço - tempo não fosse desencontrado.
Mas quanto amor(...) eu sentia, por vezes, nos meus devaneios, nesses salvamentos pelo belo e sublime: um amor fantástico, claro, que nunca foi concretamente realizado em nada de humano, mas havia tanto desse amor em mim, que depois, concretamente, eu nem sentia a necessidade de o realizar...
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me...
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -
Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio. Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Fragmentos verbais de inveja, de luxúria, de trivialidade vão de embate ao meu sentido de ouvir. Sussurrados murmúrios (...) ondulam para a minha consciência. Pouco a pouco vou perdendo a consciência nítida de que existo coextensamente com isto tudo, de que realmente me movo, ouvindo e pouco vendo, entre sombras que representam entes e lugares onde entes o são. Torna-se-me gradualmente, escuramente, indistintamente incompreensível como é que isto tudo pode ser em face do tempo eterno e do espaço infinito.
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
Estou vazio como um poço seco Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma Tampa no esforço imaginativo!
Indiferença relativamente ao conteúdo, valorização da forma; comunicação sem finalidade, desejo de falar m a respeito de nada. Comunicar por comunicar, sem qualquer finalidade. Esta é a lógica do vazio: isolamento do ser social e a valorização do ser individual.
CAPÍTULO I – Sedução non stop
CAPÍTULO II - A indiferença pura
CAPÍTULO III - Narciso ou a estratégia do vazio
CAPÍTULO IV - Modernismo e pós-modernismo
CAPÍTULO V . A sociedade humorística
CAPÍTULO VI - Violências selvagens, violências modernas
Tempo de fuga perante qualquer sinal de sentimentalismo. Desenvolvem -se as possibilidades de encontros, mas aumenta a solidão; quanto mais as relações se tornam livres de restrições, mais rara se torna a possibilidade de uma relação afetiva intensa.
Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabiaque estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornandoos, por essa maneira, duplamente invisíveis.
Peso ou leveza? Segundo Parménides, filósogo grego do século VI aC, o universo estava dividido em pares antitéticos: luz-sombra; ativo-passivo; masculino-feminino; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser; leve-pesado; fogo-terra; vida-morte. Considerava também que um dos pólos da dicotomia era sempre positivo e o outro negativo: a sombra é a negação da luz e o mesmo se passa nos outros pares de opostos. Portanto, para Parménides a leveza é positivo e o pesado, negativo. Teria razão?
O insustentável peso da leveza...
Quanto mais leve e mais pequeno melhor: Ouvimos toda a música do mundo por meio de aparelhos leves como o ar. Vemos filmes em tablets que cabem no bolso.
Estamos apenas nos primeiros passos, mas todos os dias conquista novos territórios, realiza novas proezas, suscita novas esperanças e, ao mesmo tempo, novas angústias. Da cloud computing às biotecnologias, dos nano-objectos aos aparelhos de alta tecnologia, do culto da magreza à alimentação light, dos desportos com prancha às técnicas de relaxamento, das tendências da moda às indústrias do entretenimento, é através de uma multidão de dispositivos heteróclitos e multiformes que evolui a revolução hipermoderna do ligeiro.
O leve, aquilo que era mais insignificante e mais fútil, tornou-se a maior força de transformação do mundo. Na era da hipermodernidade, não é o poder sobre o pesado que muda a face do mundo, mas sim o poder sobre o ultra-leve. Na época que se inicia, o domínio técnico do infinitamente pequeno é aquilo que abre infinitamente o horizonte dos possíveis, tornando real o que, até então, era considerado impossível. Note-se que esta dinâmica está longe de estar igualmente desenvolvida em todas as esferas. As grandes infraestruturas, o gigantismo e os equipamentos faraónicos não estão em vias de extinção. Muito pelo contrário, até os bancos se tornaram too big to fail. No entanto, o princípio da leveza não deixa de progredir a uma velocidade estonteante e de chegar a cada vez mais setores: energia, aeronáutica, telecomunicações, automóveis, banca, cirurgia, mas também jogos, música, fotografia, cinema, arquitetura, design.
De resto, civilização do ligeiro significa tudo menos viver de forma leve. Embora o peso das normas sociais se tenha aligeirado, a vida parece mais pesada. Desemprego, precariedade, instabilidade dos casais, emprego de tempo sobrecarregado, riscos sanitários – perguntamo-nos se isto não alimentará a sensação de gravidade da vida. Por toda a parte se multiplicam os sinais de desamparo, as novas expressões do «mal-estar na civilização». Os dispositivos leves podem abundar, mas os mecanismos do mercado e a dinâmica de individualização não deixam de continuar a produzir inúmeros danos.
Ironia hipermoderna: atualmente, é a leveza que alimenta o espírito de gravidade. Isto porque a leveza se acompanha de normas exigentes com efeitos esgotantes e, por vezes, deprimentes: ter um corpo esbelto implica normalmente a renúncia à tranquilidade do carpe diem, uma existência nos antípodas de uma vida despreocupada. O próprio consumo impõe-se, para grandes frações da população, como fonte de preocupações quotidianas e de práticas que se assemelham a um «trabalho» feito de pesquisas e de comparações pacientes e sérias.
E é mais pesado não ser feliz numa sociedade que celebra o ideal de leveza hedonista do que nas sociedades que ensinavam, como no passado, a resignação na Terra tendo em vista a salvação no Além. O nosso mundo deu origem a desejos de felicidade impossíveis de satisfazer; daí a multiplicação das desilusões relativas a uma vida que nunca é suficientemente leve, divertida ou móvel. O sentimento gracioso da existência recua enquanto triunfam a cultura do divertimento e as disposições materiais do ultraleve. A época foi dominada por um novo «espírito de gravidade».
Ai a inevitável leveza da sociologia...Prefiro sempre o inevitável peso do pensamento filosófico...Gilles Lipovetsky é mais sociólogo do que filósofo: paradoxalmente, neste livro, um exemplo de leveza...
Eterno retorno: o maior peso ou a maior leveza?
E se, um dia ou uma noite, um demónio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como tu a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo; muito pelo contrário. A menor dor, o menor prazer,o menor pensamento, o menor suspiro, e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, ínfima poeira da poeira!“ Não te lançarias ao chão, não rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; havias de te perguntar a propósito de tudo:" Queres isto? E quere-lo outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?" E esta questão pesaria sobre ti como um peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além desta suprema confirmação!
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que os seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
De que serve? O que é que tem que servir? Pálido esboço leve Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir... Vago sussurro breve.
À leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado. Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto. Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas.
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele não é esse teu amigo mas sim um seu irmão gémeo. Imediatamente uma alteração profunda se instalou nas vossas relações. Mas se te perguntares em quê, não é fácil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo não era ele, que era outra pessoa. Mas outra em quê? O corpo é igual nos mínimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recordações, o todo integral da sua vida e do que ele é. Se percorreres todos os pormenores, encontrá-los-ás em hipótese absolutamente iguais. Começa onde quiseres, examina cada minúcia que constitui o teu amigo, progride até ao mais extremo limite e verificarás que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto é assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa é aquilo que ela nos é, se uma pessoa é aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define é aquilo que somos e se esse alguém que encontrámos em nada difere, em hipótese, do alguém que esperávamos encontrar, nenhuma razão havia para que as relações com ele se perurbassem. Mas elas perturbam-se, porque esse alguém não é o outro. Em quê, porém, não é o outro? E eis que se levanta agora flagrante essa coisa obscura que determina o «tu» de alguém. Não é nada. E é tudo. Porque toda a sua pessoa está naquilo que a diz - e no entanto não está. Toda a sua pessoa se revela no que vem à superfície ou aí se anuncia, e no entanto alguma coisa ficou ainda atrás, indizível e inacessível, fugidia e flagrante - início puro e categórico, intocável e nula realidade, e no entanto fulgurante e categórica realidade. Está aí e não se vê, assinala uma irredutibilidade e todavia personifica-se em tudo o que a manifesta. É cognoscível e furta-se, é inegável e não podemos apreendê-la. Mas é essa indizibilidade, essa coisa nenhuma, esse quid real, que marca e determina a verdade de se ser uma pessoa e não outra.
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de espinhos. Eu desejaria fazer a apoteose de uma incoerência nova, que ficasse sendo como que a constituição negativa da nova anarquia das almas. Compilar um digesto dos meus sonhos pareceu-me sempre que seria útil à humanidade. Por isso nunca me abstive de o tentar.(...) A academia vegetal dos silêncios... o teu nome soando como as papoilas... os tanques... o meu regresso... o padre louco que endoideceu na missa. Estas recordações são dos meus sonhos... Não fecho os olhos mas não vejo nada... Não estão aqui as coisas que vejo...Águas… A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não vai acontecer-me hoje qualquer coisa de terrível para a minha alma!... Às vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania suprema que nos faz ter de olhar puros não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Descontentamentos e contentamentos descontentes...
E agora que tudo findou, eu a ouço ainda, aqui, nesta noite de verão, com um insidioso arrepio... Porque, apesar de bela, a sua voz soava-me como um insulto, era ácida como todo o desespero...Deixei de a ver: quando uma ou outra vez a encontrei, ela falava-me como se eu mal a conhecesse...tinha acabado para sempre.
Oxalá se torne uma memória suave,discreta: recordar sem mágoa e sorrir placidamente, sem a sensação de uma asfixia que sufoca. Foi a última emoção, o último mistério: quero que permaneça ad aeternum...
É um adeus...Não vale a pena sofismar a hora! É tarde nos meus olhos e nos teus...Agora, o remédio é partir discretamente, sem palavras, sem lágrimas, sem gestos. De que servem lamentos e protestos contra o destino?
Natália Correia tece violentas críticas a flobela espanca, denunciando o seu enorme descontentamento perante a alienação que a poetisa alentejana evidenciou relativamente à defesa dos direitos da mulher, sobretudo porque era dotada de potencialidades intelectuais e de um talento assinalável. No dizer de Natália, Florbela demonstrava uma feminilidade estreme, acompanhada de um coquetismo patético, chegando mesmo a acusá-la de diletantismo intelectual. Considerando-a insensível às rupturas engendradas pelas crises do discurso lógico masculino, Natália conclui que se tratou de uma diva do simbolizante, dona de uma poesia maquilhada com langores de estrela de cinema mudo. Carregada de pó-de-arroz.
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto. ( primeiro dia)
Devo ter por alma um diamante ou uma labareda e sinto nela a beleza inquietante e misteriosa das obras incompletas ou mutiladas.(...) Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o príncipe
Charmant vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade.
Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que importa o desalento da vida se há a morte? Com tantas riquezas porque sentir-me pobre? E os meus versos e a minha alma, e os meus sonhos, e os montes e as rosas e a canção dos sapos nas ervas húmidas e a minha charneca alentejana e os olivais vestidos de Gata Borralheira e o assombro dos crepúsculos e o murmúrio das noites... então isto não é nada? Napoleão de saias, que impérios desejas? Que mundo queres conquistar? Estás, decididamente, atacada de delírio de grandezas!...
E não haver gestos novos nem palavras novas! (último dia, últimas palavras que florbela escreveu...)
This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end I'll never look into your eyes... again Can you picture what will be So limitless and free Desperately in need... of some... stranger's hand In a... desperate land?
Jim Morrison( 8 de dezembro de 1943/ 3 de julho de 1971) e Florbela Espanca( 8 de dezembro de 1894 / 8 de dezembro de 1930) nunca se conheceram...Foi pena. Teriam gostado um do outro.
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid, no I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me
So darling, darling, stand by me, oh stand by me
Stand by me, stand by me
Can you remember remember my name As I flow through your life A thousand oceans I have flown(...) I know I must remain inside this silent Well of sorrow(...) And if you hear me talking on the wind You've got to understand We must remain Perfect strangers... / Yet again I'm missing you(...) I hear your name I see your face I see your face(...) Sometimes I feel like... Screaming...
But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round...
Abro a janela. Tudo lá fora é suave, mas punge-me como uma dor incerta, como uma sensação vaga de descontentamento.
(Capa da primeira edição)
Tenho sempre receio de que falem em mim. Falhei em tudo. Nada ousei sequer pensar em ser; pensar que o desejaria nem sequer o sonhei porque no próprio sonho me conheci incompatível para a vida, até no meu estado visionário de sonhador apenas. Nem um sentimento levanta a minha cabeça do travesseiro onde a afundo por não poder com o corpo, nem com a ideia de que vivo, ou sequer com a ideia absoluta da vida. Não falo a língua das realidades, e entre as coisas da vida cambaleio como um doente de longo leito que se ergue pela primeira vez. Só no leito me sinto na vida normal. Quando a febre chega agrada-me como coisa natural ao meu estado recumbente. Como uma chama ao vento tremo e estonteio-me. Só no ar morto dos quartos fechados respiro a normalidade da minha vida.Nem uma saudade já me resta dos búzios à beira dos mares. Comparei-me com ter-me a minha alma por convento e eu não ser mais para mim do que outono sobre descampados secos, sem mais vida viva do que um reflexo vivo como uma luz que finda na escuridão endovelada dos tanques, sem mais esforço e cor do que o esplendor [?] violeta — exílio do fim do poente sobre os montes...
No fundo nenhum outro prazer do que a análise da dor, nem outra volúpia que a do colear líquido e doente das sensações quando se esmiuçam e se decompõem — leves passos na sombra incerta, suaves ao ouvido, e nós nem nos voltamos para saber de quem são, vagos cantos longínquos, cujas palavras não buscamos colher, mas onde nos embala mais o indeciso do que dirão e a incerteza do lugar donde vêm; ténues segredos de águas pálidas, enchendo de longes leves os espaços (...) e nocturnos; guizos de carros longínquos, regressando donde? e que alegrias lá dentro, que não se ouvem aqui, sonolentos no torpor morno na tarde onde o verão se esquece a outono... Morreram as flores do jardim, e, murchas, são outras flores — mais antigas, mais nobres, mais coevas a amarelo morto com o mistério e o silêncio e o abandono. As cobras de água que afloram nos tanques têm a sua razão para os sonhos. Coaxar distante das rãs? Ó campo morto em mim! Ó sossego rústico passado em sonhos! Ó minha vida fútil como um maltez que não trabalha e dorme à beira dos caminhos com o aroma dos prados a entrar-lhe na alma como um nevoeiro, num sono translúcido e fresco, fundo e cheio de entender com tudo que nada liga a nada, nocturno, ignorado, nómada e cansado sob a compaixão fria das estrelas.
Sigo o curso dos meus sonhos, fazendo das imagens degraus para outras imagens; desdobrando, como um leque, as metáforas casuais em grandes quadros de visão interna; desato de mim a vida, e ponho-a de banda como a um traje que aperta. Oculto-me entre árvores longe das estradas. Perco-me. E logro, por momentos que correm levemente, esquecer o gesto à vida, deixar […] a ideia de luz e de bulício e acabar conscientemente, absurdamente pelas sensações fora, como um império de ruínas angustiadas [?], e uma entrada entre pendões e tambores de vitória numa grande cidade final onde não choraria nada, nem desejaria nada e nem a mim próprio pediria o ser.
Doem-me as superfícies dos azuis dos tanques que criei em sonhos. É minha a palidez da Lua que visiono sobre paisagens de florestas. É o meu cansaço o outono dos céus estagnados que recordo e não vi nunca. Pesa-me toda a minha vida morta, todos os meus sonhos faltos, tudo meu que não foi meu, no azul dos meus céus interiores, no tinir à vista do correr dos meus rios na alma, no vasto e inquieto sossego dos trigos nas planícies que vejo e que não vejo.
Uma chávena de café; um tabaco que se fuma e cujo aroma nos atravessa, os olhos quase cerrados num quarto em penumbra... não quero mais da vida do que os meus sonhos e isto... Se é pouco? Não sei. Sei eu acaso o que é pouco ou o que é muito?
Tarde de verão lá fora como eu gostaria de ser outro... Abro a janela. Tudo lá fora é suave, mas punge-me como uma dor incerta, como uma sensação vaga de descontentamento. E uma última coisa punge-me, rasga-me, esfrangalha-me toda a alma. É que eu, a esta hora, a esta janela, perante estas coisas tristes e suaves, devia ser uma figura estética, bela, como uma figura num quadro — e eu não o sou, nem isto sou... A hora que passe e esqueça... A noite que venha, que cresça, que caia sobre tudo e nunca se erga. Que esta alma seja o meu túmulo para sempre, e que (...) se absoluto em treva e eu nunca mais pense viver a sentir ou desejar.
O segundo inverno do meu descontentamento...
Quanto a mim, sinto nos ossos e na carne que um dia, cedo ou tarde, a minha vida cessará, e então ora luto contra o sono, ora chamo por ele e tento enganá-lo. Para mim, dormir é um esforço enorme, uma agonia. Sei isso por acordar com a sensação de uma dor esmagadora. Quando durmo, canso-me. Os meus sonhos são os problemas do dia deformados até ao absurdo.
Estaria ele irritado porque desonfiava de alguma coisa? Não, o motivo era não se ver obedecdo. Detestamos terrivelmente aqueles que não aceitam os nossos conselhos.
Quando um problema se torna demasiado vasto, o homem tem sempre o recurso a tentar ignorá-lo. Mas ele infiltra-se , penetra no espírito, mistura-se ao que já ali se encobria e dá origem ao descontentamento e à inquietação, a um sentimento de culpa, a um desejo de se manifestar antes que seja dmasiado tarde.
Não sei ao certo como são as outras pessoas por dentro - todas diferentes e todas semelhantes ao mesmo tempo. Não posso senão calcular. Mas sei de que maneira me torço e me revolvo para escapar a uma verdade dolorosa, e quando, finalmente, não a puder negar, iludo-a , esperando que ela se vá embora por si mesma.
Contentamentos descontentes...
Ricardo ama Ricardo, ou seja, eu sou eu. Haverá, em todos nós, um ricardo?
Este é o Inverno do nosso descontentamento Feito glorioso Verão por aquele filho de Yorque; E todas as nuvens que sobre a nossa casa pairavam No fundo colo do oceano enterradas ficaram. (...) Mas eu, que feito não fui para jogos de cortesão, Nem para namorar um afectuoso espelho, Eu, rudemente marcado e, do amor, carente da majestade Para perante devassas ninfas me pavonear, Eu, que fui privado de proporcional beleza, Roubado, pela dissimulada Natureza, de feição, Deformado, inacabado, enviado antes do meu tempo Para este mundo que respira ainda mal feito pela metade – E assim tão lamentável e horrendo Que até os cães me ladram quando manco ao passar por eles – Ora, eu, nestes tempos de paz melodiosos, Outro prazer não tenho em que gastar o tempo A não ser mirar a minha sombra ao Sol E cantar a minha própria deformidade. Portanto, já que um amante não poderei parecer Para festejar estes tempos bem-falantes, Um vilão estou determinado a ser E a odiar estes dias indolentes.(...)
Há , para mim, algo de similar entre ricardo e o calígula de camus: ao longo da peça, oscilo, paradoxalmente, entre o desprezo e o fascínio por estes seres ardilosos.
A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder os meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida. Antigamente, a perda dos meus manuscritos, de toda a obra fragmentária mas cuidada da minha vida, reduzir-me-ia à loucura; já agora a contemplava como um incidente casual do meu destino, não como um golpe mortal que aniquilasse, por lhe aniquilar as manifestações, a minha própria personalidade.
Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha».
Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera.
A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII, segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube.
Renego deste lavrar E do primeiro que o usou;Ó diabo que o eu dou,Que tão mau é d'aturar.Oh Jesu! que enfadamento,E que raiva, e que tormento,Que cegueira, e que canseira!Eu hei de buscar maneira D'algum outro aviamento Coitada, assi hei de estar Encerrada nesta casa Como panela sem asa,Que sempre está num lugar?E assi hão de ser logrados Dous dias amargurados,Que eu possa durar viva?
Porém não hei de casar Senão com homem avisado Ainda que pobre e pelado,Seja discreto em falar...Que seja homem mal feito, Feio, pobre, sem feição, Como tiver discrição, Não lhe quero mais proveito.E é homem de discrição...
O homem ideal para inês tinha de ser discreto, mas cedo se arrepende: Quem bem tem e mal escolhe Por mal que lhe venha não s'anoje. Renego da discrição Comendo ò demo o aviso, Que sempre cuidei que nisso Estava a boa condição.
Bom título...
Teresa Veiga não dá entrevistas e não revela a sua verdadeira identidade. Ignoramos a sua idade e profissão mas uma certeza temos: Teresa Veiga escreve como poucos. Passear pela leitura dos seus livros é um enorme, imenso prazer. Público
É o que se sabe,desta escritora que se julgou a pensar ser um homem: teresa veiga nasceu em Lisboa em 1945. Licenciada em Direito e mais tarde em Literaturas Românicas, exerceu por um breve período de tempo a actividade de conservadora do Registo Civil.
Faz-me lembrar eu próprio, nos alvores da carreira … Havia então em mim uma ânsia, um frenesim, um instinto assassino de abocanhar o mundo que não conhecia entraves nem limitações de espécie nenhuma. Digamos que tudo o que vinha à rede era peixe. Ocorre-me que a menina, repare que lhe estou a fazer um elogio, sofre dessa bulimia. Mas há sempre um reverso da medalha. A pedra aplanada pela erosão em que se senta depois de sacudir as poeiras tem por baixo uma crosta de terriça em que fervilham as larvas. Ou seja, a menina pega no drama de Natasha, apercebe-se das potencialidades da história e vá de dar asas à imaginação como se por baixo não estivessem conflitos humanos muito graves. … A sua Coimbra, menina Susana, tresanda a cadáver. … A menina Susana, muito compreensivelmente, não quis chafurdar em águas turvas e, faço-lhe justiça, provavelmente nem tem experiência de vida para tal.
O meu último pensamento deste mês foi: "da minha cama vejo a lua".As coisas em que se repara quando se dorme de janela aberta.
Helicon - E que querias tu?
Calígula - A Lua.
Helicon - O quê?
Calígula - Sim, eu queria a Lua.
Eu só quero a lua... Sei de antemão o que me vai matar. Mas ainda não esgotei tudo o que me pode fazer viver. É por isso que eu quero a lua.
A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como uma viagem em velha diligência para quem vai acompanhado (e o pode ver [?]). Nem ao menos posso sentir o meu sofrimento como sinal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu sofro com coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais, que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter génio. A glória de um poente belo, com a sua beleza entristece-me. Ante eles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!
Estocolmo, 10 de dezembro1998...
Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.
José Saramago
É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver. Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa (...) Fogos fátuos que a nossa podridão gera são ao menos luz nas nossas trevas. Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se furtou, em meio de construí-las, de pensar em quem construiu.Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável, nimba vagamente de segredo.Benditos os que não confiam a vida a ninguém.
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
Oxalá se torne uma memória suave,discreta: recordar sem mágoa e sorrir placidamente, sem a sensação de uma asfixia que sufoca. Foi a última emoção, o último mistério: quero que permaneça ad aeternum...
É um adeus...Não vale a pena sofismar a hora! É tarde nos meus olhos e nos teus...Agora, o remédio é partir discretamente, sem palavras, sem lágrimas, sem gestos. De que servem lamentos e protestos contra o destino?
Natália Correia tece violentas críticas a flobela espanca, denunciando o seu enorme descontentamento perante a alienação que a poetisa alentejana evidenciou relativamente à defesa dos direitos da mulher, sobretudo porque era dotada de potencialidades intelectuais e de um talento assinalável. No dizer de Natália, Florbela demonstrava uma feminilidade estreme, acompanhada de um coquetismo patético, chegando mesmo a acusá-la de diletantismo intelectual. Considerando-a insensível às rupturas engendradas pelas crises do discurso lógico masculino, Natália conclui que se tratou de uma diva do simbolizante, dona de uma poesia maquilhada com langores de estrela de cinema mudo. Carregada de pó-de-arroz.
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto. ( primeiro dia)
Devo ter por alma um diamante ou uma labareda e sinto nela a beleza inquietante e misteriosa das obras incompletas ou mutiladas.(...) Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o príncipe
Charmant vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade.
Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que importa o desalento da vida se há a morte? Com tantas riquezas porque sentir-me pobre? E os meus versos e a minha alma, e os meus sonhos, e os montes e as rosas e a canção dos sapos nas ervas húmidas e a minha charneca alentejana e os olivais vestidos de Gata Borralheira e o assombro dos crepúsculos e o murmúrio das noites... então isto não é nada? Napoleão de saias, que impérios desejas? Que mundo queres conquistar? Estás, decididamente, atacada de delírio de grandezas!...
E não haver gestos novos nem palavras novas! (último dia, últimas palavras que florbela escreveu...)
This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end I'll never look into your eyes... again Can you picture what will be So limitless and free Desperately in need... of some... stranger's hand In a... desperate land?
Jim Morrison( 8 de dezembro de 1943/ 3 de julho de 1971) e Florbela Espanca( 8 de dezembro de 1894 / 8 de dezembro de 1930) nunca se conheceram...Foi pena. Teriam gostado um do outro.
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid, no I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me
So darling, darling, stand by me, oh stand by me
Stand by me, stand by me
Can you remember remember my name As I flow through your life A thousand oceans I have flown(...) I know I must remain inside this silent Well of sorrow(...) And if you hear me talking on the wind You've got to understand We must remain Perfect strangers... / Yet again I'm missing you(...) I hear your name I see your face I see your face(...) Sometimes I feel like... Screaming...
But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round...
Abro a janela. Tudo lá fora é suave, mas punge-me como uma dor incerta, como uma sensação vaga de descontentamento.
(Capa da primeira edição)
Tenho sempre receio de que falem em mim. Falhei em tudo. Nada ousei sequer pensar em ser; pensar que o desejaria nem sequer o sonhei porque no próprio sonho me conheci incompatível para a vida, até no meu estado visionário de sonhador apenas. Nem um sentimento levanta a minha cabeça do travesseiro onde a afundo por não poder com o corpo, nem com a ideia de que vivo, ou sequer com a ideia absoluta da vida. Não falo a língua das realidades, e entre as coisas da vida cambaleio como um doente de longo leito que se ergue pela primeira vez. Só no leito me sinto na vida normal. Quando a febre chega agrada-me como coisa natural ao meu estado recumbente. Como uma chama ao vento tremo e estonteio-me. Só no ar morto dos quartos fechados respiro a normalidade da minha vida.Nem uma saudade já me resta dos búzios à beira dos mares. Comparei-me com ter-me a minha alma por convento e eu não ser mais para mim do que outono sobre descampados secos, sem mais vida viva do que um reflexo vivo como uma luz que finda na escuridão endovelada dos tanques, sem mais esforço e cor do que o esplendor [?] violeta — exílio do fim do poente sobre os montes...
No fundo nenhum outro prazer do que a análise da dor, nem outra volúpia que a do colear líquido e doente das sensações quando se esmiuçam e se decompõem — leves passos na sombra incerta, suaves ao ouvido, e nós nem nos voltamos para saber de quem são, vagos cantos longínquos, cujas palavras não buscamos colher, mas onde nos embala mais o indeciso do que dirão e a incerteza do lugar donde vêm; ténues segredos de águas pálidas, enchendo de longes leves os espaços (...) e nocturnos; guizos de carros longínquos, regressando donde? e que alegrias lá dentro, que não se ouvem aqui, sonolentos no torpor morno na tarde onde o verão se esquece a outono... Morreram as flores do jardim, e, murchas, são outras flores — mais antigas, mais nobres, mais coevas a amarelo morto com o mistério e o silêncio e o abandono. As cobras de água que afloram nos tanques têm a sua razão para os sonhos. Coaxar distante das rãs? Ó campo morto em mim! Ó sossego rústico passado em sonhos! Ó minha vida fútil como um maltez que não trabalha e dorme à beira dos caminhos com o aroma dos prados a entrar-lhe na alma como um nevoeiro, num sono translúcido e fresco, fundo e cheio de entender com tudo que nada liga a nada, nocturno, ignorado, nómada e cansado sob a compaixão fria das estrelas.
Sigo o curso dos meus sonhos, fazendo das imagens degraus para outras imagens; desdobrando, como um leque, as metáforas casuais em grandes quadros de visão interna; desato de mim a vida, e ponho-a de banda como a um traje que aperta. Oculto-me entre árvores longe das estradas. Perco-me. E logro, por momentos que correm levemente, esquecer o gesto à vida, deixar […] a ideia de luz e de bulício e acabar conscientemente, absurdamente pelas sensações fora, como um império de ruínas angustiadas [?], e uma entrada entre pendões e tambores de vitória numa grande cidade final onde não choraria nada, nem desejaria nada e nem a mim próprio pediria o ser.
Doem-me as superfícies dos azuis dos tanques que criei em sonhos. É minha a palidez da Lua que visiono sobre paisagens de florestas. É o meu cansaço o outono dos céus estagnados que recordo e não vi nunca. Pesa-me toda a minha vida morta, todos os meus sonhos faltos, tudo meu que não foi meu, no azul dos meus céus interiores, no tinir à vista do correr dos meus rios na alma, no vasto e inquieto sossego dos trigos nas planícies que vejo e que não vejo.
Uma chávena de café; um tabaco que se fuma e cujo aroma nos atravessa, os olhos quase cerrados num quarto em penumbra... não quero mais da vida do que os meus sonhos e isto... Se é pouco? Não sei. Sei eu acaso o que é pouco ou o que é muito?
Tarde de verão lá fora como eu gostaria de ser outro... Abro a janela. Tudo lá fora é suave, mas punge-me como uma dor incerta, como uma sensação vaga de descontentamento. E uma última coisa punge-me, rasga-me, esfrangalha-me toda a alma. É que eu, a esta hora, a esta janela, perante estas coisas tristes e suaves, devia ser uma figura estética, bela, como uma figura num quadro — e eu não o sou, nem isto sou... A hora que passe e esqueça... A noite que venha, que cresça, que caia sobre tudo e nunca se erga. Que esta alma seja o meu túmulo para sempre, e que (...) se absoluto em treva e eu nunca mais pense viver a sentir ou desejar.
O segundo inverno do meu descontentamento...
Quanto a mim, sinto nos ossos e na carne que um dia, cedo ou tarde, a minha vida cessará, e então ora luto contra o sono, ora chamo por ele e tento enganá-lo. Para mim, dormir é um esforço enorme, uma agonia. Sei isso por acordar com a sensação de uma dor esmagadora. Quando durmo, canso-me. Os meus sonhos são os problemas do dia deformados até ao absurdo.
Estaria ele irritado porque desonfiava de alguma coisa? Não, o motivo era não se ver obedecdo. Detestamos terrivelmente aqueles que não aceitam os nossos conselhos.
Quando um problema se torna demasiado vasto, o homem tem sempre o recurso a tentar ignorá-lo. Mas ele infiltra-se , penetra no espírito, mistura-se ao que já ali se encobria e dá origem ao descontentamento e à inquietação, a um sentimento de culpa, a um desejo de se manifestar antes que seja dmasiado tarde.
Não sei ao certo como são as outras pessoas por dentro - todas diferentes e todas semelhantes ao mesmo tempo. Não posso senão calcular. Mas sei de que maneira me torço e me revolvo para escapar a uma verdade dolorosa, e quando, finalmente, não a puder negar, iludo-a , esperando que ela se vá embora por si mesma.
Contentamentos descontentes...
Ricardo ama Ricardo, ou seja, eu sou eu. Haverá, em todos nós, um ricardo?
Este é o Inverno do nosso descontentamento Feito glorioso Verão por aquele filho de Yorque; E todas as nuvens que sobre a nossa casa pairavam No fundo colo do oceano enterradas ficaram. (...) Mas eu, que feito não fui para jogos de cortesão, Nem para namorar um afectuoso espelho, Eu, rudemente marcado e, do amor, carente da majestade Para perante devassas ninfas me pavonear, Eu, que fui privado de proporcional beleza, Roubado, pela dissimulada Natureza, de feição, Deformado, inacabado, enviado antes do meu tempo Para este mundo que respira ainda mal feito pela metade – E assim tão lamentável e horrendo Que até os cães me ladram quando manco ao passar por eles – Ora, eu, nestes tempos de paz melodiosos, Outro prazer não tenho em que gastar o tempo A não ser mirar a minha sombra ao Sol E cantar a minha própria deformidade. Portanto, já que um amante não poderei parecer Para festejar estes tempos bem-falantes, Um vilão estou determinado a ser E a odiar estes dias indolentes.(...)
Há , para mim, algo de similar entre ricardo e o calígula de camus: ao longo da peça, oscilo, paradoxalmente, entre o desprezo e o fascínio por estes seres ardilosos.
A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder os meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida. Antigamente, a perda dos meus manuscritos, de toda a obra fragmentária mas cuidada da minha vida, reduzir-me-ia à loucura; já agora a contemplava como um incidente casual do meu destino, não como um golpe mortal que aniquilasse, por lhe aniquilar as manifestações, a minha própria personalidade.
Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha».
Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera.
A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII, segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube.
Renego deste lavrar E do primeiro que o usou;Ó diabo que o eu dou,Que tão mau é d'aturar.Oh Jesu! que enfadamento,E que raiva, e que tormento,Que cegueira, e que canseira!Eu hei de buscar maneira D'algum outro aviamento Coitada, assi hei de estar Encerrada nesta casa Como panela sem asa,Que sempre está num lugar?E assi hão de ser logrados Dous dias amargurados,Que eu possa durar viva?
Porém não hei de casar Senão com homem avisado Ainda que pobre e pelado,Seja discreto em falar...Que seja homem mal feito, Feio, pobre, sem feição, Como tiver discrição, Não lhe quero mais proveito.E é homem de discrição...
O homem ideal para inês tinha de ser discreto, mas cedo se arrepende: Quem bem tem e mal escolhe Por mal que lhe venha não s'anoje. Renego da discrição Comendo ò demo o aviso, Que sempre cuidei que nisso Estava a boa condição.
Bom título...
Teresa Veiga não dá entrevistas e não revela a sua verdadeira identidade. Ignoramos a sua idade e profissão mas uma certeza temos: Teresa Veiga escreve como poucos. Passear pela leitura dos seus livros é um enorme, imenso prazer. Público
É o que se sabe,desta escritora que se julgou a pensar ser um homem: teresa veiga nasceu em Lisboa em 1945. Licenciada em Direito e mais tarde em Literaturas Românicas, exerceu por um breve período de tempo a actividade de conservadora do Registo Civil.
Faz-me lembrar eu próprio, nos alvores da carreira … Havia então em mim uma ânsia, um frenesim, um instinto assassino de abocanhar o mundo que não conhecia entraves nem limitações de espécie nenhuma. Digamos que tudo o que vinha à rede era peixe. Ocorre-me que a menina, repare que lhe estou a fazer um elogio, sofre dessa bulimia. Mas há sempre um reverso da medalha. A pedra aplanada pela erosão em que se senta depois de sacudir as poeiras tem por baixo uma crosta de terriça em que fervilham as larvas. Ou seja, a menina pega no drama de Natasha, apercebe-se das potencialidades da história e vá de dar asas à imaginação como se por baixo não estivessem conflitos humanos muito graves. … A sua Coimbra, menina Susana, tresanda a cadáver. … A menina Susana, muito compreensivelmente, não quis chafurdar em águas turvas e, faço-lhe justiça, provavelmente nem tem experiência de vida para tal.
O meu último pensamento deste mês foi: "da minha cama vejo a lua".As coisas em que se repara quando se dorme de janela aberta.
Helicon - E que querias tu?
Calígula - A Lua.
Helicon - O quê?
Calígula - Sim, eu queria a Lua.
Eu só quero a lua... Sei de antemão o que me vai matar. Mas ainda não esgotei tudo o que me pode fazer viver. É por isso que eu quero a lua.
A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como uma viagem em velha diligência para quem vai acompanhado (e o pode ver [?]). Nem ao menos posso sentir o meu sofrimento como sinal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu sofro com coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais, que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter génio. A glória de um poente belo, com a sua beleza entristece-me. Ante eles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!
Estocolmo, 10 de dezembro1998...
Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.
José Saramago
É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver. Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa (...) Fogos fátuos que a nossa podridão gera são ao menos luz nas nossas trevas. Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se furtou, em meio de construí-las, de pensar em quem construiu.Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável, nimba vagamente de segredo.Benditos os que não confiam a vida a ninguém.
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Miragens, alucinações e visões...
Ah, bate leve, mais levemente! Eu julguei morto meu coração Na hora passa, como demente Ophelia indo para a corrente, Não sei que incerta minha emoção, Julguei-te morto, coração triste, Que nada fazes salvo doer.…… Coração triste, vibras incerto, Gemes na tua desolação. Que oásis falso no teu deserto Não foi esta vaga miragem perto Da tua inútil consolação!
Miragem - imagem causada pelo desvio da luz refletida pelo objeto, ou seja, é um fenómeno físico real e não deve ser confundida com uma alucinação.
Que soidade de mia senhor hei quando me nembra dela qual a vi e que me nembra que ben'a oí falar; e por quanto bem dela sei, rog'eu a Deus, que end'há o poder, que mi a leixe, se lhi prouguer, veer cedo; ca, pero mi nunca fez be se a nom vir, nom me posso guardar d'ensandecer ou morrer com pesar...
Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e, o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força de biliões.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.
E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas `daquilo de que os sonhos são feitos`. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente.
A melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim!
Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a índia e a China. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver.
A viagem vista pelo autor: nunca fui à Índia. Este livro é uma viagem totalmente imaginária. Fica em suspenso a hipótese de não ser uma viagem real do protagonista, Bloom, mas de ser uma viagem imaginária, quase um sonho. O que me parece relevante nessa relação com o Oriente é que todos nós, ocidentais, temos quase instintivamente a ideia que o Oriente é assim uma espécie de lado metafísico e espiritual, enquanto o Ocidente será mais o lado materialista. E é um pouco esta ilusão de que no Oriente o espírito está em todo o lado que está na base da viagem do protagonista.... Esta viagem apesar de tudo recupera a ideia da viagem enquanto percurso. Não viagem enquanto destino, porque Bloom sai de Lisboa no canto I e só chega no canto VII à Índia. Faz uma viagem estranha, por Paris, Londres… E o que é importante é mesmo o percurso. Só nesse aspecto é uma viagem antiga, porque as contemporâneas são aquelas em que se procura atingir o destino o mais rapidamente possível. Aqui Bloom atrasa-se, não vai pelo caminho mais recto. Interessa-lhe aprender – é uma viagem de aprendizagem.
Aqui, ao contrário de Os Lusíadas, há uma aventura individual. Em Os Lusíadas faz-se a exaltação de uma aventura colectiva. Esta passagem é essencial, porque é a passagem da descrição de um conjunto de feitos heróicos para o outro século, que é o século XXI, um século muito mais individualista, em que é quase estranho pensarmos que um conjunto de homens sai das suas casas e se junta para passar por uma determinada aventura. Hoje, alguém que de certa maneira quer seguir um caminho que tem que ver com a heroicidade, sai sozinho de casa. Acho que também aí há uma grande diferença entre o século dos Descobrimentos e o século actual. Já está tudo descoberto, já tudo tem nome e dono. No livro há uma saída individual para tentar encontrar qualquer coisa que também tem que ver com puros objectivos egoístas de Bloom.
Diria que Os Lusíadas, tal como as obras clássicas, remete-nos para uma espécie de estado de contemplação. Sinto em relação a Os Lusíadas o que sinto ao ver a grande pintura clássica: uma pessoa fica parada a olhar e a apreciar a beleza estética da obra. É uma lógica completamente diferente da que vemos na criação contemporânea, que muitas vezes não tem este lado tão estético. Os Lusíadas é uma obra que faz parar, que obriga a pessoa a repetir, porque é uma espécie de som encantatório que remete para a poesia mais nobre.
Coli amlo du amba m mtc amloca tenter kai saidic du beme st? Vovisque du, shana ofmbio? top eeffoc tel em eb ruoy your um... não há que ter vergonha de preferir a felicidade...
E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa.
Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse...- Logo que chegarmos - disse ela -, vamos tomar banho no rio.- Tomamos banho no rio e depois deitamo-nos a descansar na relva - disse o homem, sempre com os olhos fitos na estrada.E ela imaginou com sede a água clara e fria em roda dos seus ombros, e imaginou a relva onde se deitariam os dois, lado a lado, à sombra das folhagens e dos frutos. Ali parariam. Ali haveria tempo para poisar os olhos nas coisas. Ali haveria tempo para tocar as coisas. Ali poderiam respirar(...) Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:- Do outro lado do abismo está com certeza alguém. E começou a chamar. Do outro lado não estava ninguém...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! Dormita, alma! Aproveita, dormita! Dormita! É pouco o tempo que tens! Dormita! É a véspera de não partir nunca!
Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.
É um mito porque - porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris.
Há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; - o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
E aqui está o que é possível ao progresso humano. E eis aqui a crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro. Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. Depois há de vir D. Quixote. O senso comum virá para o milénio, reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas - como el-rei de Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse quando...
Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite fazer às suas criaturas fêmeas. Quando, em vez de serem "espremidinhas pela doutorice", o são pela falsa ingenuidade, desorganizam-me totalmente, são a coisa mais indigna do século...
A história é uma tola. Eu não posso abrir um livro de história que me não ria. Sobretudo as ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um cómico irresistível. O que sabem eles das causas, dos motivos, do valor e importância de quase todos os factos que recontam!
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras. Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.
A primeira impressão é a de uma bizarria que, mesmo não me desagradando, não me cativa: começar a ler pelo capítulo X: caprichos...
Depois desta morte súbita, Seil-Kor, louco de desespero,tinha horror àqueles lugares,até então divinamente iluminados pela presença da sua amiguinha. As visões dos sítios,tantas vezes contemplados,na companhia de Nina,tornavam-lhe odioso o terrível contraste entre o seu luto actual e a sua felicidade passada.hão, num passo largo,
...Um ganso vivo mantinha uma pose de vertiginoso voo,graças a uma cola qualquer que fixava ao chão, num passo largo, as suas patas prodigiosamente distantes. As duas asas brancas estavam amplamente afastadas como se activassem uma fuga desesperada.
Ao chegar ao pé da encosta, Seil-kor molhou o dedo na mistura esbranquiçada e, maliciosamente, escreveu...APANHADA que, prematuramente, aplicava à infeliz Djizmé.
Alucinação é a percepção real de um objeto que não existe, ou seja, são percepções sem um estímulo externo.E visões? Não consigo concluir , com exatidão, o que distingue estas duas formas de ver o que não é/está, além do facto de a alucinação poder afetar diferentes sentidos e a visão só o óbvio...
Expliquei então os meus sofismas mágicos pela alucinação das palavras!...Acabei por considerar sagrada a desordem da minha inteligência.
É inteligente...OhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhOhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
E toda a realidade é um excesso, uma violência,Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
O que é infinito é a Possibilidade. O infinito é uma alucinação da inteligência./ a alucinação é real para aquele que a tem, pois é um produto de duas realidades, a força externa e um espírito receptor.
Sentir é criar. Agir é só destruir. Compreender é apenas iludirmo-nos. Parecendo um facto passivo, sentir é ser activo, porque é ter a consciência de sentir. Ter consciência de sentir é ser um modo de sentir.O universo objectivo é uma alucinação simultânea dos sensórios, uma média abstracta entre ilusões.A única realidade que há é a palavra realidade não ter sentido (nenhum). Agir é intrometer-se na ilusão geral, perturbar a ordem do Universo.
Descia-se a escada, chegava-se ao salão onde se reuniam os membros do “Clube dos Haxixinos”, entre eles, Honoré de Balzac, Gérard de Nerval, Victor Hugo. Baudelaire leva -nos à origem do termo que dá nome ao clube: discípulos de uma seita islâmica, em busca da ideia do paraíso, embriagavam-se de haxixe – daí o termo “haxixinos” ou “assassi- nos”. Neste antigo hotel, “isolado da civilização” pelo Sena, mais uma vez se buscou o paraíso através do consumo de haxixe; não como ideia, mas como “estado do espírito e dos sentidos”. Para Baudelaire, é neste estado de alucinações que “o mundo moral abre suas vastas perspectivas, cheias de novas claridades”. É o instante em que “os perfumes, as cores e os sons se correspondem”. O poeta do spleen fez da embriaguez método de trabalho. Rimbaud, anos mais tarde, dirá: “Esse é o tempo dos Assassinos”.
Existem quatro gêneros de cogumelos alucinógenos: psilocibe, panaeolus, capelandia e mmanita, com efeitos semelhantes ao LSD, porém mais brando e de duração mais curta. As drogas alucinógenas causam muitos efeitos, difíceis de prever, pois diferem de pessoa para pessoa,existindo ,por vezes, “bad trips”: ataques de angústia, pânico, alucinações que causam desespero e também o medo de perder o controle e ficar louco.
Picture yourself in a boat on a river With tangerine trees and marmalade skies Somebody calls you, you answer quite slowly A girl with kaleidoscope eye...
Living is easy with eyes closed Misunderstanding all you see It's getting hard to be someone But it all works out It doesn't matter much to me Let me take you down 'Cause I'm going to Strawberry Fields Nothing is real And nothing to get hung about Strawberry Fields forever...
— Ó Princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizestes em despedir-me e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos, senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós. E como estes ia tecendo outros disparates, todos pelo teor dos que havia aprendido nos seus livros, imitando, conforme podia, o próprio falar deles; e com isto caminhava tão vagaroso, e o sol caía tão rijo, que de todo lhe derretera os miolos se alguns tivera.
Caminhou quase todo o dia sem lhe acontecer coisa merecedora de ser contada; com o que ele se amofinava, pois era todo o seu empenho topar logo logo onde provar o valor do seu forte braço. Dizem alguns autores que a sua primeira aventura foi a de Porto Lápice; outros, que foi a dos moinhos de vento. Mas o que eu pude averiguar, e o que achei escrito nos anais da Mancha, é que ele andou todo aquele dia, e, ao anoitecer, ele com o seu rocim se achava estafado e morto de fome; e que, olhando para todas as partes, a ver se se lhe descobriria algum castelo, ou alguma barraca de pastores, onde se recolher, e remediar sua muita necessidade, viu não longe do caminho uma venda, que foi como aparecer-lhe uma estrela que o encaminhava, se não ao alcáçar, pelo menos aos portais da sua redenção.
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Miragem - imagem causada pelo desvio da luz refletida pelo objeto, ou seja, é um fenómeno físico real e não deve ser confundida com uma alucinação.
Que soidade de mia senhor hei quando me nembra dela qual a vi e que me nembra que ben'a oí falar; e por quanto bem dela sei, rog'eu a Deus, que end'há o poder, que mi a leixe, se lhi prouguer, veer cedo; ca, pero mi nunca fez be se a nom vir, nom me posso guardar d'ensandecer ou morrer com pesar...
Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e, o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força de biliões.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.
E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas `daquilo de que os sonhos são feitos`. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente.
A melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim!
Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a índia e a China. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver.
A viagem vista pelo autor: nunca fui à Índia. Este livro é uma viagem totalmente imaginária. Fica em suspenso a hipótese de não ser uma viagem real do protagonista, Bloom, mas de ser uma viagem imaginária, quase um sonho. O que me parece relevante nessa relação com o Oriente é que todos nós, ocidentais, temos quase instintivamente a ideia que o Oriente é assim uma espécie de lado metafísico e espiritual, enquanto o Ocidente será mais o lado materialista. E é um pouco esta ilusão de que no Oriente o espírito está em todo o lado que está na base da viagem do protagonista.... Esta viagem apesar de tudo recupera a ideia da viagem enquanto percurso. Não viagem enquanto destino, porque Bloom sai de Lisboa no canto I e só chega no canto VII à Índia. Faz uma viagem estranha, por Paris, Londres… E o que é importante é mesmo o percurso. Só nesse aspecto é uma viagem antiga, porque as contemporâneas são aquelas em que se procura atingir o destino o mais rapidamente possível. Aqui Bloom atrasa-se, não vai pelo caminho mais recto. Interessa-lhe aprender – é uma viagem de aprendizagem.
Aqui, ao contrário de Os Lusíadas, há uma aventura individual. Em Os Lusíadas faz-se a exaltação de uma aventura colectiva. Esta passagem é essencial, porque é a passagem da descrição de um conjunto de feitos heróicos para o outro século, que é o século XXI, um século muito mais individualista, em que é quase estranho pensarmos que um conjunto de homens sai das suas casas e se junta para passar por uma determinada aventura. Hoje, alguém que de certa maneira quer seguir um caminho que tem que ver com a heroicidade, sai sozinho de casa. Acho que também aí há uma grande diferença entre o século dos Descobrimentos e o século actual. Já está tudo descoberto, já tudo tem nome e dono. No livro há uma saída individual para tentar encontrar qualquer coisa que também tem que ver com puros objectivos egoístas de Bloom.
Diria que Os Lusíadas, tal como as obras clássicas, remete-nos para uma espécie de estado de contemplação. Sinto em relação a Os Lusíadas o que sinto ao ver a grande pintura clássica: uma pessoa fica parada a olhar e a apreciar a beleza estética da obra. É uma lógica completamente diferente da que vemos na criação contemporânea, que muitas vezes não tem este lado tão estético. Os Lusíadas é uma obra que faz parar, que obriga a pessoa a repetir, porque é uma espécie de som encantatório que remete para a poesia mais nobre.
Coli amlo du amba m mtc amloca tenter kai saidic du beme st? Vovisque du, shana ofmbio? top eeffoc tel em eb ruoy your um... não há que ter vergonha de preferir a felicidade...
E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa.
Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse...- Logo que chegarmos - disse ela -, vamos tomar banho no rio.- Tomamos banho no rio e depois deitamo-nos a descansar na relva - disse o homem, sempre com os olhos fitos na estrada.E ela imaginou com sede a água clara e fria em roda dos seus ombros, e imaginou a relva onde se deitariam os dois, lado a lado, à sombra das folhagens e dos frutos. Ali parariam. Ali haveria tempo para poisar os olhos nas coisas. Ali haveria tempo para tocar as coisas. Ali poderiam respirar(...) Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:- Do outro lado do abismo está com certeza alguém. E começou a chamar. Do outro lado não estava ninguém...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! Dormita, alma! Aproveita, dormita! Dormita! É pouco o tempo que tens! Dormita! É a véspera de não partir nunca!
Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.
É um mito porque - porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris.
Há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; - o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
E aqui está o que é possível ao progresso humano. E eis aqui a crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro. Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. Depois há de vir D. Quixote. O senso comum virá para o milénio, reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas - como el-rei de Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse quando...
Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite fazer às suas criaturas fêmeas. Quando, em vez de serem "espremidinhas pela doutorice", o são pela falsa ingenuidade, desorganizam-me totalmente, são a coisa mais indigna do século...
A história é uma tola. Eu não posso abrir um livro de história que me não ria. Sobretudo as ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um cómico irresistível. O que sabem eles das causas, dos motivos, do valor e importância de quase todos os factos que recontam!
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras. Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.
A primeira impressão é a de uma bizarria que, mesmo não me desagradando, não me cativa: começar a ler pelo capítulo X: caprichos...
Depois desta morte súbita, Seil-Kor, louco de desespero,tinha horror àqueles lugares,até então divinamente iluminados pela presença da sua amiguinha. As visões dos sítios,tantas vezes contemplados,na companhia de Nina,tornavam-lhe odioso o terrível contraste entre o seu luto actual e a sua felicidade passada.hão, num passo largo,
...Um ganso vivo mantinha uma pose de vertiginoso voo,graças a uma cola qualquer que fixava ao chão, num passo largo, as suas patas prodigiosamente distantes. As duas asas brancas estavam amplamente afastadas como se activassem uma fuga desesperada.
Ao chegar ao pé da encosta, Seil-kor molhou o dedo na mistura esbranquiçada e, maliciosamente, escreveu...APANHADA que, prematuramente, aplicava à infeliz Djizmé.
Alucinação é a percepção real de um objeto que não existe, ou seja, são percepções sem um estímulo externo.E visões? Não consigo concluir , com exatidão, o que distingue estas duas formas de ver o que não é/está, além do facto de a alucinação poder afetar diferentes sentidos e a visão só o óbvio...
Expliquei então os meus sofismas mágicos pela alucinação das palavras!...Acabei por considerar sagrada a desordem da minha inteligência.
É inteligente...OhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhOhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
E toda a realidade é um excesso, uma violência,Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
O que é infinito é a Possibilidade. O infinito é uma alucinação da inteligência./ a alucinação é real para aquele que a tem, pois é um produto de duas realidades, a força externa e um espírito receptor.
Sentir é criar. Agir é só destruir. Compreender é apenas iludirmo-nos. Parecendo um facto passivo, sentir é ser activo, porque é ter a consciência de sentir. Ter consciência de sentir é ser um modo de sentir.O universo objectivo é uma alucinação simultânea dos sensórios, uma média abstracta entre ilusões.A única realidade que há é a palavra realidade não ter sentido (nenhum). Agir é intrometer-se na ilusão geral, perturbar a ordem do Universo.
Descia-se a escada, chegava-se ao salão onde se reuniam os membros do “Clube dos Haxixinos”, entre eles, Honoré de Balzac, Gérard de Nerval, Victor Hugo. Baudelaire leva -nos à origem do termo que dá nome ao clube: discípulos de uma seita islâmica, em busca da ideia do paraíso, embriagavam-se de haxixe – daí o termo “haxixinos” ou “assassi- nos”. Neste antigo hotel, “isolado da civilização” pelo Sena, mais uma vez se buscou o paraíso através do consumo de haxixe; não como ideia, mas como “estado do espírito e dos sentidos”. Para Baudelaire, é neste estado de alucinações que “o mundo moral abre suas vastas perspectivas, cheias de novas claridades”. É o instante em que “os perfumes, as cores e os sons se correspondem”. O poeta do spleen fez da embriaguez método de trabalho. Rimbaud, anos mais tarde, dirá: “Esse é o tempo dos Assassinos”.
Existem quatro gêneros de cogumelos alucinógenos: psilocibe, panaeolus, capelandia e mmanita, com efeitos semelhantes ao LSD, porém mais brando e de duração mais curta. As drogas alucinógenas causam muitos efeitos, difíceis de prever, pois diferem de pessoa para pessoa,existindo ,por vezes, “bad trips”: ataques de angústia, pânico, alucinações que causam desespero e também o medo de perder o controle e ficar louco.
Picture yourself in a boat on a river With tangerine trees and marmalade skies Somebody calls you, you answer quite slowly A girl with kaleidoscope eye...
Living is easy with eyes closed Misunderstanding all you see It's getting hard to be someone But it all works out It doesn't matter much to me Let me take you down 'Cause I'm going to Strawberry Fields Nothing is real And nothing to get hung about Strawberry Fields forever...
— Ó Princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizestes em despedir-me e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos, senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós. E como estes ia tecendo outros disparates, todos pelo teor dos que havia aprendido nos seus livros, imitando, conforme podia, o próprio falar deles; e com isto caminhava tão vagaroso, e o sol caía tão rijo, que de todo lhe derretera os miolos se alguns tivera.
Caminhou quase todo o dia sem lhe acontecer coisa merecedora de ser contada; com o que ele se amofinava, pois era todo o seu empenho topar logo logo onde provar o valor do seu forte braço. Dizem alguns autores que a sua primeira aventura foi a de Porto Lápice; outros, que foi a dos moinhos de vento. Mas o que eu pude averiguar, e o que achei escrito nos anais da Mancha, é que ele andou todo aquele dia, e, ao anoitecer, ele com o seu rocim se achava estafado e morto de fome; e que, olhando para todas as partes, a ver se se lhe descobriria algum castelo, ou alguma barraca de pastores, onde se recolher, e remediar sua muita necessidade, viu não longe do caminho uma venda, que foi como aparecer-lhe uma estrela que o encaminhava, se não ao alcáçar, pelo menos aos portais da sua redenção.
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