Um salvador... Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender...
Pela normalidade??
Pelas palavras...
A glória nocturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento do mundo. E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos da estranha recebida por anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém estático.
Pelo amor ...
"L'amour n'a point de moyen terme; ou il perd, ou il sauve..."
Estava claro o céu, tépido o ar, e as bouças e montes floridos, O mês era de Dezembro, de 1863, em véspera de Natal. A gente das cidades pergunta-me em que país do mundo florescem, em Dezembro, bouças e montados.
Eu, homem sem família, sem mão amiga neste mundo, há trinta anos sozinho, sem reminiscências de carícias maternais, benquisto apenas de uns cães, que pareciam amar-me com a cláusula de eu os sustentar e agasalhar; eu, que, naquele tão festivo dia da nossa terra, não tinha colmado onde me esperasse um amigo pobre para me dar entre os seus um lugar no escabelo, nem parente abastado, que de mim se lembrasse à hora dos brindes com generosos vinhos em lúcidos cristais, eu vendo-me com lágrimas em minha sombra, assim me fora a contemplar a felicidade alheia pelas chãs e outeiros do devoto Minho.
D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquele amor que dá ao peito de boa esposa arnês de aço contra as frechas de um cupido estranho. O marido, minimamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui está um mal enorme de onde vamos ver brotar uma enchente de benefícios à humanidade...
Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dores, que escondera de todos. Tive ânsias de uma alma que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido comigo. Sem exceção de um só, eram todos fúteis e incapazes de me pouparem à sua zombaria, se me vissem chorar. Sufoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz fantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridículo em nenhuma das minhas desgraças.
O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não há infâmia de alma que desça até aí. Ódio também não, que o ódio quer vingança, e eu dava-me já por vingado de a ver a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abismos. Era piedade que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmira, dentro de um ano, perdera a formosura, que vendia, e os bens, que herdara, e se desgraçara até à extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dois quinhões, e um mandar-lho-ia sem insulto nem palavra recordadora do passado.
Agora sei que há sobre a Terra um homem feliz há dez anos, feliz para uma longa existência. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!
Pelo humor ...
Então chegaram junto de Jesus uns fariseus que se interessavam por fiscalidade. E, talvez um pouco enfastiados de parábolas acerca do reino dos céus, quiseram saber a opinião do Messias a respeito do regime de tributação sobre dividendos agrícolas. E perguntaram-Lhe: “Mestre, devemos pagar o imposto a César ou não?” E Jesus disse: “Trazei-me uma moeda.” E os fariseus deram-Lhe uma moeda, embora com relutância, evidentemente, pois eram judeus. E então Jesus disse: “De quem é a figura que está nesta moeda?” E eles responderam: “É de César. Ainda precisais da moeda ou já podeis devolvê-la?” E Jesus disse: “Pois então dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” E ficou muito claro para todos que o Messias tinha dito “Pagai e não bufai”, mas de um modo mais elegante. E todos compreenderam que, embora tivesse vindo para nos salvar da morte, em relação aos impostos Ele nada podia fazer, pois a omnipotência tem limites e um deles é o fisco. E então passaram dois milénios de exegese bíblica, e ao que tudo indica aquela frase passou a ser interpretada como se Ele não tivesse dito “Dai a César o que é de César” mas sim “Tentai obter uma isenção fiscal total, por exemplo através da assinatura de uma Concordata.” E os imóveis da igreja católica passaram a estar isentos de IMI, incluindo os edifícios em cujas salas decorressem aulas de catequese. E aconteceu que, muitos anos depois de Jesus, o fisco veio a considerar que os edifícios e terrenos que a igreja arrenda a terceiros, ou que não utiliza para fins religiosos, não estão abrangidos pela Concordata. E houve grande lamento e ranger de dentes, porque as riquezas da igreja não contam como riquezas, tanto que Jesus contou a parábola do jovem rico e não a parábola da diocese rica, pois o Senhor deseja que os jovens ricos se despojem de todos os bens e que todas as dioceses ricas se despojem de todos os impostos sobre os bens. E, como os edifícios usados para fins religiosos estavam isentos de IMI, todos os contribuintes quiseram aceitar Cristo em seus corações, e transformar suas casas em templos, e ensinar catequese aos filhos em todas as assoalhadas, pois a promessa da vida eterna não os tinha convencido, mas a hipótese de uma isenção fiscal até converte o Diabo. Palavra da salvação.
Pela arte ...
Uma síntese disto tudo; a salvação
É porque existe o desejo, o olfato, e o medo,
e os vivos apaixonam-se por outros vivos,
e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta,
porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável.
E não basta então a mulher que amamos,
nem os filhos
– os que nos vão sobreviver no tempo –
e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,
é preciso sair dos ossos,
fugir ao obrigatório, à casa,
encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, um mapa,
fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância,
onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos,
Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, família, e alguns outros assuntos,
mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar, de que não sabemos falar.
E é por tudo isso,
e por quase tudo o que faltou dizer,
é por isso que é bom, por vezes,
suspender a noite e o coração,
e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.
É por isso que é bom, por vezes,
ocuparmos o corpo no acto de sentar,
e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,
que nos salve,
por enquanto,
antes de morrermos.
Pelo humanismo ...
Se vejo reaparecer, enquanto ele fala, todos os humanistas que conheci? Ah, conheci tantos! O humanista radical é amigo especialmente dos funcionários. O humanista dito «da esquerda» tem como preocupação principal a de conservar os valores humanos; não adere a nenhum partido para não trair o humano, mas as suas simpatias vão para os humildes; é aos humildes que consagra a sua bela cultura clássica. Em geral é viúvo e tem uns bonitos olhos sempre húmidos de lágrimas: nos aniversários chora. Gosta também dos gatos, dos cães e de todos os mamíferos superiores. O escritor comunista gosta dos homens desde o segundo plano quinquenal: castiga porque ama. Pudico, como todos os fortes, sabe esconder os seus sentimentos, mas sabe também, com um olhar, com uma inflexão da voz, fazer pressentir por trás das suas rudes palavras de justiceiro uma paixão ríspida e doce pelos seus irmãos. O humanista católico, o que chegou atrasado, o benjamim, fala dos homens com um ar maravilhado. «Que belo conto de fadas», diz ele, «que é a vida mais humilde, a dum estivador londrino, a duma operária que passa a vida a pespontar calçado!» Escolheu o humanismo dos anjos; escreve, para edificação dos anjos, longos romances tristes e belos, que obtêm frequentemente o prémio Femina. São estes os papéis grandes, os principais. Mas há outros, uma quantidade de outros: o filósofo humanista, que olha pelos seus irmãos como um irmão mais velho e que tem o sentido das responsabilidades: o humanista que ama os homens tais-quais são; o que os ama tais como deviam ser; o que quer salvá-los com o seu consentimento, e o que decide salvá-los mesmo contra vontade deles; o que tenta criar mitos novos, e o que se contenta com os antigos; o que, no homem, ama a sua morte; o que, no homem, ama a sua vida; o humanista alegre que traz sempre uma graça engatilhada; o humanista sombrio, que se encontra sobretudo em velas a mortos. Odeiam-se todos uns aos outros: como indivíduos, evidentemente - não como homens. Mas o Autodidata não sabe: fechou-os em si próprio, como gatos num saco de cabedal, e os humanistas vão-se dilacerando mutuamente, sem ele dar por isso. Já está a olhar para mim com menos confiança.
«O senhor não partilha os meus sentimentos?»
«Bem...»
Em face da sua expressão inquieta, um pouco rancorosa, arrependo-me um momento de o ter desiludido. Mas ele reata amavelmente:
«Eu sei: o senhor tem as suas pesquisas, os seus livros... Serve a mesma causa doutra maneira.»
Os meus livros, as minhas pesquisas... Que imbecil! Não podia ter dito uma inépcia maior.
«Não é esse o motivo por que escrevo.»
No mesmo instante, a cara do Autodidata transforma-se: dir-se-ia que farejou o inimigo. Nunca lhe tinha visto esta expressão. Qualquer coisa acaba de morrer entre nós.
Fingindo-se surpreendido, pergunta:
«Mas... se não sou indiscreto, então porque é que escreve?»
«Bem... não sei: por nada, por escrever.»
Não lhe custa esboçar um sorriso: pensa que me desconcertou :
«O senhor escreveria se estivesse numa ilha deserta? Não é sempre para ser lido que se escreve?»
Foi por hábito que ele deu à sua frase uma entoação interrogativa. Na realidade, tratava-se duma afirmação. O seu verniz de doçura e de timidez foi estalando: mal o reconheço. As suas feições deixam transparecer uma pesada obstinação: é um muro de suficiência. Ainda não me refiz da minha admiração, já o ouço dizer:
«Que me respondam:escrevo para certa categoria social, para um grupo de amigos.Muito bem.Talvez o senhor escreva para a posteridade.. Mas, queira ou não queira, para alguém escreve.»
Espera uma resposta. Como ela não vem, sorri discretamente.
«Talvez o senhor seja um misantropo?»
Eu sei o que este falacioso esforço de conciliação dissimula. É pouco, afinal, o que me pedem: simplesmente que aceite um rótulo. Mas é uma cilada: se consinto, o Autodidacta triunfa, e sou imediatamente contornado, reivindicado, ultrapassado, porque o humanismo toma à sua conta, e funde na mesma massa, todas as atitudes humanas. Se nos opomos a ele de frente, caímos no seu jogo; ele tira forças do que lhe é adverso. Existe uma raça de pessoas teimosas e curtas de vista, de salteadores, que perde com ele, a cada jogada: o humanismo digere todas as violências, os piores excessos dessa gente, fá-los numa linfa branca e espumosa. Digeriu o anti intelectualismo, o maniqueísmo, o misticismo, o pessimismo, o anarquismo, o egotismo; correntes que já só aparecem como etapas, como pensamentos incompletos que só nele encontram a sua justificação. A misantropia tem também o seu lugar neste concerto: não passa duma dissonância necessária à harmonia do conjunto. O misantropo é homem: logo, é preciso que o humanista seja, em certa medida, misantropo. Mas é um misantropo científico, que soube dosear o seu ódio, que, se começa por odiar os homens, é apenas para, mais tarde, poder amá-los melhor.
Não quero que me integrem, nem que o meu belo sangue vermelho vá engordar esse animal linfático: não vou cometer a tolice de me declarar «anti-humanista». Não sou humanista, eis tudo. «Acho», digo eu ao Autodidata, «que é tão impossível odiar os homens como amá-los.» O Autodidata olha-me com um ar protector e distante. Murmura, como se não prestasse atenção às próprias palavras:
«É preciso amá-los, é preciso amá-los...»
«Amar quem? As pessoas que estão aqui?»
«Estas também. Todas.»
Nisto, volta-se para o par de radiosa juventude: ali está o que é preciso amar. Contempla um momento o senhor de cabelos brancos. Depois dirige novamente para mim o seu olhar: leio-lhe na cara uma interrogação muda. Faço que não com a cabeça. Ele parece ter dó de mim.
«Mas o senhor», digo-lhe eu, irritado, «o senhor também não os ama.»
«Julga isso? Dê-me licença para não partilhar a sua opinião.»
De novo se tornou respeitoso, dos pés à cabeça; mas adopta a expressão irónica de alguém que estivesse imensamente divertido. Odeia-me. Bem mal teria eu feito em me comover com este maníaco. Interrogo-o por minha vez:
«Então o senhor ama os dois namorados que estão ali, por trás de si?»
Ele olha-os outra vez; reflecte:
«O senhor quer levar-me a dizer», replica ele, desconfiado, «que os amo sem os conhecer. Pois bem, confesso, não os conheço... A não ser, justamente, que o amor seja o verdadeiro conhecimento», acrescentou como uma expressão fátua.
«Mas de que é que gosta neles?»
«Vejo que são novos, e é essa mocidade que aprecio. Entre outras coisas...»
Interrompeu-se e pôs-se à escuta:
«Percebe o que estão a dizer?»
Se percebo! O rapaz, encorajado pela simpatia que o rodeia, conta, com uma voz cheia, um desafio de futebol que o seu grupo ganhou, o ano passado, contra um clube do Havre.
«Está-lhe a contar uma história», digo eu ao Autodidata.
«Ah! Não percebo bem. Mas ouço as vozes; uma voz doce e uma voz grave, alternadamente. É... é tão simpático.»
«Sim, mas eu, infelizmente, ouço também o que dizem.»
«E então?»
«E então, estão a representar uma comédia.»
«Sério? A comédia da mocidade, talvez?», sugere ele com ironia. «Permita-me que a considere muito proveitosa. Bastará representá-la para voltar à idade deles?»
Permaneço insensível à sua ironia; continuo: «O senhor está de costas voltadas, escapa-lhe o que eles dizem... De que cor são os cabelos da rapariga?»
Ele perturba-se:
«São... bem...» Relanceia um olhar aos namorados e retoma a sua segurança. «São pretos!»
«Já vê!»
«Como?»
«Já vê que não os ama, àqueles dois. Quando passasse por eles na rua, talvez nem os reconhecesse. São apenas símbolos, para si. Não é com eles, de modo algum, que o senhor está a enternecer-se; estava-se a enternecer era com a Juventude do Homem, com o Amor do Homem e da Mulher, com a Voz humana.»
«E então? Serão coisas que não existem?»
«Claro que não, não existem! Nem a Mocidade, nem a Maturidade, nem a Velhice, nem a Morte...»
A cara do Autodidacta, amarela e dura como um marmelo, cristalizou-se num tétano reprovador. Não obstante, prossigo:
«É como o sujeito já de certa idade que está atrás de si, a beber água de Vichy. Nesse, é o Homem maduro, creio eu, que o senhor ama; o Homem maduro que caminha corajosamente para o declínio, e cuida do seu trajo porque não quer abandonar-se?»
«Exactamente», responde-me ele num tom de desafio.
«E o senhor não vê que ele é um safado?»
O meu companheiro ri, acha-me um doidivanas, deita um rápido olhar ao belo rosto emoldurado de cabelos brancos:
«Mas, admitindo que aquele homem pareça o que o senhor diz, como pode o senhor julgá-lo pela cara? Uma cara em repouso não exprime coisa nenhuma.»
Ah, cegos humanistas! Aquela cara é tão eloquente, tão clara - mas nunca a alma deles, sensível e abstracta, se-deixou impressionar pelo sentido duma cara.
«Como pode o senhor», diz o Autodidata, «reter um homem, dizer este homem é isto ou aquilo? Quem poderá esgotar um homem? Conhecer-lhe todos os recursos?»
Esgotar um homem! Cumprimento de passagem o humanismo católico, donde o Autodidacta, sem saber, tirou esta fórmula.
«Bem sei», digo-lhe eu, «bem sei que todos os homens são admiráveis. O senhor é admirável. Eu sou admirável. Enquanto criaturas de Deus, bem entendido.»
Ele olha para mim sem compreender; depois, com um sorriso ténue:
«O senhor está com certeza a brincar, mas é verdade que todos os homens têm direito à nossa admiração. É difícil, é muito difícil ser um homem.»
Sem dar por isso, acaba de abandonar o amor dos homens em Cristo; meneia a cabeça e, por um curioso fenómeno de mimetismo, parece-se com o pobre Guéhenno.
«Desculpe», digo-lhe eu, «mas então não tenho bem a certeza de ser um homem: nunca tinha achado isso muito difícil. Parecia-me que bastava deixar andar.»
O Autodidata ri francamente, mas permanece-lhe nos olhos um mau fulgor:
«O senhor é demasiado modesto. Para suportar a sua condição, a condição humana, precisa, como toda a gente, de muita coragem. O instante que vai chegar pode ser o da sua morte; o senhor sabe-o, e pode sorrir: vejamos! Não é admirável ? Na mais insignificante das suas acções», acrescenta com azedume, «há um heroísmo imenso.»
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Espaço...Vazio...Peso... Leveza
Um plano geral para a vida deve implicar, antes de mais, alcançar-se qualquer forma de estabilidade financeira.(...) A coisa essencial que vem logo a seguir é residir numa casa com bastante espaço, espaço quanto a divisões e divisões com os requisitos necessários, para arrumar todos os meus papéis e livros na devida ordem; e tudo isto sem grande possibilidade de me mudar dentro de pouco tempo.(...)Substituir, no tocante à ordem dos papéis, a minha caixa grande por caixas mais pequenas contendo os papéis por ordem de importância. Na caixa grande e na outra em A. S. ficariam só os jornais e revistas que guardo.
Como o sinto parecido comigo. Talvez pudesse ter gostado de mim se o nosso espaço - tempo não fosse desencontrado.
Mas quanto amor(...) eu sentia, por vezes, nos meus devaneios, nesses salvamentos pelo belo e sublime: um amor fantástico, claro, que nunca foi concretamente realizado em nada de humano, mas havia tanto desse amor em mim, que depois, concretamente, eu nem sentia a necessidade de o realizar...
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me...
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -
Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio. Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Fragmentos verbais de inveja, de luxúria, de trivialidade vão de embate ao meu sentido de ouvir. Sussurrados murmúrios (...) ondulam para a minha consciência. Pouco a pouco vou perdendo a consciência nítida de que existo coextensamente com isto tudo, de que realmente me movo, ouvindo e pouco vendo, entre sombras que representam entes e lugares onde entes o são. Torna-se-me gradualmente, escuramente, indistintamente incompreensível como é que isto tudo pode ser em face do tempo eterno e do espaço infinito.
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
Estou vazio como um poço seco Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma Tampa no esforço imaginativo!
Indiferença relativamente ao conteúdo, valorização da forma; comunicação sem finalidade, desejo de falar m a respeito de nada. Comunicar por comunicar, sem qualquer finalidade. Esta é a lógica do vazio: isolamento do ser social e a valorização do ser individual.
CAPÍTULO I – Sedução non stop
CAPÍTULO II - A indiferença pura
CAPÍTULO III - Narciso ou a estratégia do vazio
CAPÍTULO IV - Modernismo e pós-modernismo
CAPÍTULO V . A sociedade humorística
CAPÍTULO VI - Violências selvagens, violências modernas
Tempo de fuga perante qualquer sinal de sentimentalismo. Desenvolvem -se as possibilidades de encontros, mas aumenta a solidão; quanto mais as relações se tornam livres de restrições, mais rara se torna a possibilidade de uma relação afetiva intensa.
Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabiaque estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornandoos, por essa maneira, duplamente invisíveis.
Peso ou leveza? Segundo Parménides, filósogo grego do século VI aC, o universo estava dividido em pares antitéticos: luz-sombra; ativo-passivo; masculino-feminino; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser; leve-pesado; fogo-terra; vida-morte. Considerava também que um dos pólos da dicotomia era sempre positivo e o outro negativo: a sombra é a negação da luz e o mesmo se passa nos outros pares de opostos. Portanto, para Parménides a leveza é positivo e o pesado, negativo. Teria razão?
O insustentável peso da leveza...
Quanto mais leve e mais pequeno melhor: Ouvimos toda a música do mundo por meio de aparelhos leves como o ar. Vemos filmes em tablets que cabem no bolso.
Estamos apenas nos primeiros passos, mas todos os dias conquista novos territórios, realiza novas proezas, suscita novas esperanças e, ao mesmo tempo, novas angústias. Da cloud computing às biotecnologias, dos nano-objectos aos aparelhos de alta tecnologia, do culto da magreza à alimentação light, dos desportos com prancha às técnicas de relaxamento, das tendências da moda às indústrias do entretenimento, é através de uma multidão de dispositivos heteróclitos e multiformes que evolui a revolução hipermoderna do ligeiro.
O leve, aquilo que era mais insignificante e mais fútil, tornou-se a maior força de transformação do mundo. Na era da hipermodernidade, não é o poder sobre o pesado que muda a face do mundo, mas sim o poder sobre o ultra-leve. Na época que se inicia, o domínio técnico do infinitamente pequeno é aquilo que abre infinitamente o horizonte dos possíveis, tornando real o que, até então, era considerado impossível. Note-se que esta dinâmica está longe de estar igualmente desenvolvida em todas as esferas. As grandes infraestruturas, o gigantismo e os equipamentos faraónicos não estão em vias de extinção. Muito pelo contrário, até os bancos se tornaram too big to fail. No entanto, o princípio da leveza não deixa de progredir a uma velocidade estonteante e de chegar a cada vez mais setores: energia, aeronáutica, telecomunicações, automóveis, banca, cirurgia, mas também jogos, música, fotografia, cinema, arquitetura, design.
De resto, civilização do ligeiro significa tudo menos viver de forma leve. Embora o peso das normas sociais se tenha aligeirado, a vida parece mais pesada. Desemprego, precariedade, instabilidade dos casais, emprego de tempo sobrecarregado, riscos sanitários – perguntamo-nos se isto não alimentará a sensação de gravidade da vida. Por toda a parte se multiplicam os sinais de desamparo, as novas expressões do «mal-estar na civilização». Os dispositivos leves podem abundar, mas os mecanismos do mercado e a dinâmica de individualização não deixam de continuar a produzir inúmeros danos.
Ironia hipermoderna: atualmente, é a leveza que alimenta o espírito de gravidade. Isto porque a leveza se acompanha de normas exigentes com efeitos esgotantes e, por vezes, deprimentes: ter um corpo esbelto implica normalmente a renúncia à tranquilidade do carpe diem, uma existência nos antípodas de uma vida despreocupada. O próprio consumo impõe-se, para grandes frações da população, como fonte de preocupações quotidianas e de práticas que se assemelham a um «trabalho» feito de pesquisas e de comparações pacientes e sérias.
E é mais pesado não ser feliz numa sociedade que celebra o ideal de leveza hedonista do que nas sociedades que ensinavam, como no passado, a resignação na Terra tendo em vista a salvação no Além. O nosso mundo deu origem a desejos de felicidade impossíveis de satisfazer; daí a multiplicação das desilusões relativas a uma vida que nunca é suficientemente leve, divertida ou móvel. O sentimento gracioso da existência recua enquanto triunfam a cultura do divertimento e as disposições materiais do ultraleve. A época foi dominada por um novo «espírito de gravidade».
Ai a inevitável leveza da sociologia...Prefiro sempre o inevitável peso do pensamento filosófico...Gilles Lipovetsky é mais sociólogo do que filósofo: paradoxalmente, neste livro, um exemplo de leveza...
Eterno retorno: o maior peso ou a maior leveza?
E se, um dia ou uma noite, um demónio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como tu a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo; muito pelo contrário. A menor dor, o menor prazer,o menor pensamento, o menor suspiro, e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, ínfima poeira da poeira!“ Não te lançarias ao chão, não rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; havias de te perguntar a propósito de tudo:" Queres isto? E quere-lo outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?" E esta questão pesaria sobre ti como um peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além desta suprema confirmação!
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que os seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
De que serve? O que é que tem que servir? Pálido esboço leve Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir... Vago sussurro breve.
À leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado. Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto. Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas.
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele não é esse teu amigo mas sim um seu irmão gémeo. Imediatamente uma alteração profunda se instalou nas vossas relações. Mas se te perguntares em quê, não é fácil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo não era ele, que era outra pessoa. Mas outra em quê? O corpo é igual nos mínimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recordações, o todo integral da sua vida e do que ele é. Se percorreres todos os pormenores, encontrá-los-ás em hipótese absolutamente iguais. Começa onde quiseres, examina cada minúcia que constitui o teu amigo, progride até ao mais extremo limite e verificarás que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto é assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa é aquilo que ela nos é, se uma pessoa é aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define é aquilo que somos e se esse alguém que encontrámos em nada difere, em hipótese, do alguém que esperávamos encontrar, nenhuma razão havia para que as relações com ele se perurbassem. Mas elas perturbam-se, porque esse alguém não é o outro. Em quê, porém, não é o outro? E eis que se levanta agora flagrante essa coisa obscura que determina o «tu» de alguém. Não é nada. E é tudo. Porque toda a sua pessoa está naquilo que a diz - e no entanto não está. Toda a sua pessoa se revela no que vem à superfície ou aí se anuncia, e no entanto alguma coisa ficou ainda atrás, indizível e inacessível, fugidia e flagrante - início puro e categórico, intocável e nula realidade, e no entanto fulgurante e categórica realidade. Está aí e não se vê, assinala uma irredutibilidade e todavia personifica-se em tudo o que a manifesta. É cognoscível e furta-se, é inegável e não podemos apreendê-la. Mas é essa indizibilidade, essa coisa nenhuma, esse quid real, que marca e determina a verdade de se ser uma pessoa e não outra.
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de espinhos. Eu desejaria fazer a apoteose de uma incoerência nova, que ficasse sendo como que a constituição negativa da nova anarquia das almas. Compilar um digesto dos meus sonhos pareceu-me sempre que seria útil à humanidade. Por isso nunca me abstive de o tentar.(...) A academia vegetal dos silêncios... o teu nome soando como as papoilas... os tanques... o meu regresso... o padre louco que endoideceu na missa. Estas recordações são dos meus sonhos... Não fecho os olhos mas não vejo nada... Não estão aqui as coisas que vejo...Águas… A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não vai acontecer-me hoje qualquer coisa de terrível para a minha alma!... Às vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania suprema que nos faz ter de olhar puros não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro.
Como o sinto parecido comigo. Talvez pudesse ter gostado de mim se o nosso espaço - tempo não fosse desencontrado.
Mas quanto amor(...) eu sentia, por vezes, nos meus devaneios, nesses salvamentos pelo belo e sublime: um amor fantástico, claro, que nunca foi concretamente realizado em nada de humano, mas havia tanto desse amor em mim, que depois, concretamente, eu nem sentia a necessidade de o realizar...
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
I can't see the end of me My whole expanse I cannot see I formulate infinity And store it deep inside me...
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -
Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio. Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Fragmentos verbais de inveja, de luxúria, de trivialidade vão de embate ao meu sentido de ouvir. Sussurrados murmúrios (...) ondulam para a minha consciência. Pouco a pouco vou perdendo a consciência nítida de que existo coextensamente com isto tudo, de que realmente me movo, ouvindo e pouco vendo, entre sombras que representam entes e lugares onde entes o são. Torna-se-me gradualmente, escuramente, indistintamente incompreensível como é que isto tudo pode ser em face do tempo eterno e do espaço infinito.
A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
Estou vazio como um poço seco Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma Tampa no esforço imaginativo!
Indiferença relativamente ao conteúdo, valorização da forma; comunicação sem finalidade, desejo de falar m a respeito de nada. Comunicar por comunicar, sem qualquer finalidade. Esta é a lógica do vazio: isolamento do ser social e a valorização do ser individual.
CAPÍTULO I – Sedução non stop
CAPÍTULO II - A indiferença pura
CAPÍTULO III - Narciso ou a estratégia do vazio
CAPÍTULO IV - Modernismo e pós-modernismo
CAPÍTULO V . A sociedade humorística
CAPÍTULO VI - Violências selvagens, violências modernas
Tempo de fuga perante qualquer sinal de sentimentalismo. Desenvolvem -se as possibilidades de encontros, mas aumenta a solidão; quanto mais as relações se tornam livres de restrições, mais rara se torna a possibilidade de uma relação afetiva intensa.
Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabiaque estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornandoos, por essa maneira, duplamente invisíveis.
Peso ou leveza? Segundo Parménides, filósogo grego do século VI aC, o universo estava dividido em pares antitéticos: luz-sombra; ativo-passivo; masculino-feminino; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser; leve-pesado; fogo-terra; vida-morte. Considerava também que um dos pólos da dicotomia era sempre positivo e o outro negativo: a sombra é a negação da luz e o mesmo se passa nos outros pares de opostos. Portanto, para Parménides a leveza é positivo e o pesado, negativo. Teria razão?
O insustentável peso da leveza...
Quanto mais leve e mais pequeno melhor: Ouvimos toda a música do mundo por meio de aparelhos leves como o ar. Vemos filmes em tablets que cabem no bolso.
Estamos apenas nos primeiros passos, mas todos os dias conquista novos territórios, realiza novas proezas, suscita novas esperanças e, ao mesmo tempo, novas angústias. Da cloud computing às biotecnologias, dos nano-objectos aos aparelhos de alta tecnologia, do culto da magreza à alimentação light, dos desportos com prancha às técnicas de relaxamento, das tendências da moda às indústrias do entretenimento, é através de uma multidão de dispositivos heteróclitos e multiformes que evolui a revolução hipermoderna do ligeiro.
O leve, aquilo que era mais insignificante e mais fútil, tornou-se a maior força de transformação do mundo. Na era da hipermodernidade, não é o poder sobre o pesado que muda a face do mundo, mas sim o poder sobre o ultra-leve. Na época que se inicia, o domínio técnico do infinitamente pequeno é aquilo que abre infinitamente o horizonte dos possíveis, tornando real o que, até então, era considerado impossível. Note-se que esta dinâmica está longe de estar igualmente desenvolvida em todas as esferas. As grandes infraestruturas, o gigantismo e os equipamentos faraónicos não estão em vias de extinção. Muito pelo contrário, até os bancos se tornaram too big to fail. No entanto, o princípio da leveza não deixa de progredir a uma velocidade estonteante e de chegar a cada vez mais setores: energia, aeronáutica, telecomunicações, automóveis, banca, cirurgia, mas também jogos, música, fotografia, cinema, arquitetura, design.
De resto, civilização do ligeiro significa tudo menos viver de forma leve. Embora o peso das normas sociais se tenha aligeirado, a vida parece mais pesada. Desemprego, precariedade, instabilidade dos casais, emprego de tempo sobrecarregado, riscos sanitários – perguntamo-nos se isto não alimentará a sensação de gravidade da vida. Por toda a parte se multiplicam os sinais de desamparo, as novas expressões do «mal-estar na civilização». Os dispositivos leves podem abundar, mas os mecanismos do mercado e a dinâmica de individualização não deixam de continuar a produzir inúmeros danos.
Ironia hipermoderna: atualmente, é a leveza que alimenta o espírito de gravidade. Isto porque a leveza se acompanha de normas exigentes com efeitos esgotantes e, por vezes, deprimentes: ter um corpo esbelto implica normalmente a renúncia à tranquilidade do carpe diem, uma existência nos antípodas de uma vida despreocupada. O próprio consumo impõe-se, para grandes frações da população, como fonte de preocupações quotidianas e de práticas que se assemelham a um «trabalho» feito de pesquisas e de comparações pacientes e sérias.
E é mais pesado não ser feliz numa sociedade que celebra o ideal de leveza hedonista do que nas sociedades que ensinavam, como no passado, a resignação na Terra tendo em vista a salvação no Além. O nosso mundo deu origem a desejos de felicidade impossíveis de satisfazer; daí a multiplicação das desilusões relativas a uma vida que nunca é suficientemente leve, divertida ou móvel. O sentimento gracioso da existência recua enquanto triunfam a cultura do divertimento e as disposições materiais do ultraleve. A época foi dominada por um novo «espírito de gravidade».
Ai a inevitável leveza da sociologia...Prefiro sempre o inevitável peso do pensamento filosófico...Gilles Lipovetsky é mais sociólogo do que filósofo: paradoxalmente, neste livro, um exemplo de leveza...
Eterno retorno: o maior peso ou a maior leveza?
E se, um dia ou uma noite, um demónio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como tu a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo; muito pelo contrário. A menor dor, o menor prazer,o menor pensamento, o menor suspiro, e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, ínfima poeira da poeira!“ Não te lançarias ao chão, não rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; havias de te perguntar a propósito de tudo:" Queres isto? E quere-lo outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?" E esta questão pesaria sobre ti como um peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além desta suprema confirmação!
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que os seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
De que serve? O que é que tem que servir? Pálido esboço leve Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir... Vago sussurro breve.
À leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado. Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto. Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as sensações, as coisas imaginadas e as actuais estão desarrumadas, são como o conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas.
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele não é esse teu amigo mas sim um seu irmão gémeo. Imediatamente uma alteração profunda se instalou nas vossas relações. Mas se te perguntares em quê, não é fácil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo não era ele, que era outra pessoa. Mas outra em quê? O corpo é igual nos mínimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recordações, o todo integral da sua vida e do que ele é. Se percorreres todos os pormenores, encontrá-los-ás em hipótese absolutamente iguais. Começa onde quiseres, examina cada minúcia que constitui o teu amigo, progride até ao mais extremo limite e verificarás que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto é assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa é aquilo que ela nos é, se uma pessoa é aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define é aquilo que somos e se esse alguém que encontrámos em nada difere, em hipótese, do alguém que esperávamos encontrar, nenhuma razão havia para que as relações com ele se perurbassem. Mas elas perturbam-se, porque esse alguém não é o outro. Em quê, porém, não é o outro? E eis que se levanta agora flagrante essa coisa obscura que determina o «tu» de alguém. Não é nada. E é tudo. Porque toda a sua pessoa está naquilo que a diz - e no entanto não está. Toda a sua pessoa se revela no que vem à superfície ou aí se anuncia, e no entanto alguma coisa ficou ainda atrás, indizível e inacessível, fugidia e flagrante - início puro e categórico, intocável e nula realidade, e no entanto fulgurante e categórica realidade. Está aí e não se vê, assinala uma irredutibilidade e todavia personifica-se em tudo o que a manifesta. É cognoscível e furta-se, é inegável e não podemos apreendê-la. Mas é essa indizibilidade, essa coisa nenhuma, esse quid real, que marca e determina a verdade de se ser uma pessoa e não outra.
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de espinhos. Eu desejaria fazer a apoteose de uma incoerência nova, que ficasse sendo como que a constituição negativa da nova anarquia das almas. Compilar um digesto dos meus sonhos pareceu-me sempre que seria útil à humanidade. Por isso nunca me abstive de o tentar.(...) A academia vegetal dos silêncios... o teu nome soando como as papoilas... os tanques... o meu regresso... o padre louco que endoideceu na missa. Estas recordações são dos meus sonhos... Não fecho os olhos mas não vejo nada... Não estão aqui as coisas que vejo...Águas… A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não vai acontecer-me hoje qualquer coisa de terrível para a minha alma!... Às vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania suprema que nos faz ter de olhar puros não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro.
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