Ah, bate leve, mais levemente! Eu julguei morto meu coração Na hora passa, como demente Ophelia indo para a corrente, Não sei que incerta minha emoção, Julguei-te morto, coração triste, Que nada fazes salvo doer.…… Coração triste, vibras incerto, Gemes na tua desolação. Que oásis falso no teu deserto Não foi esta vaga miragem perto Da tua inútil consolação!
Miragem - imagem causada pelo desvio da luz refletida pelo objeto, ou seja, é um fenómeno físico real e não deve ser confundida com uma alucinação.
Que soidade de mia senhor hei quando me nembra dela qual a vi e que me nembra que ben'a oí falar; e por quanto bem dela sei, rog'eu a Deus, que end'há o poder, que mi a leixe, se lhi prouguer, veer cedo; ca, pero mi nunca fez be se a nom vir, nom me posso guardar d'ensandecer ou morrer com pesar...
Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e, o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força de biliões.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.
E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas `daquilo de que os sonhos são feitos`. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente.
A melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim!
Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a índia e a China. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver.
A viagem vista pelo autor: nunca fui à Índia. Este livro é uma viagem totalmente imaginária. Fica em suspenso a hipótese de não ser uma viagem real do protagonista, Bloom, mas de ser uma viagem imaginária, quase um sonho. O que me parece relevante nessa relação com o Oriente é que todos nós, ocidentais, temos quase instintivamente a ideia que o Oriente é assim uma espécie de lado metafísico e espiritual, enquanto o Ocidente será mais o lado materialista. E é um pouco esta ilusão de que no Oriente o espírito está em todo o lado que está na base da viagem do protagonista.... Esta viagem apesar de tudo recupera a ideia da viagem enquanto percurso. Não viagem enquanto destino, porque Bloom sai de Lisboa no canto I e só chega no canto VII à Índia. Faz uma viagem estranha, por Paris, Londres… E o que é importante é mesmo o percurso. Só nesse aspecto é uma viagem antiga, porque as contemporâneas são aquelas em que se procura atingir o destino o mais rapidamente possível. Aqui Bloom atrasa-se, não vai pelo caminho mais recto. Interessa-lhe aprender – é uma viagem de aprendizagem.
Aqui, ao contrário de Os Lusíadas, há uma aventura individual. Em Os Lusíadas faz-se a exaltação de uma aventura colectiva. Esta passagem é essencial, porque é a passagem da descrição de um conjunto de feitos heróicos para o outro século, que é o século XXI, um século muito mais individualista, em que é quase estranho pensarmos que um conjunto de homens sai das suas casas e se junta para passar por uma determinada aventura. Hoje, alguém que de certa maneira quer seguir um caminho que tem que ver com a heroicidade, sai sozinho de casa. Acho que também aí há uma grande diferença entre o século dos Descobrimentos e o século actual. Já está tudo descoberto, já tudo tem nome e dono. No livro há uma saída individual para tentar encontrar qualquer coisa que também tem que ver com puros objectivos egoístas de Bloom.
Diria que Os Lusíadas, tal como as obras clássicas, remete-nos para uma espécie de estado de contemplação. Sinto em relação a Os Lusíadas o que sinto ao ver a grande pintura clássica: uma pessoa fica parada a olhar e a apreciar a beleza estética da obra. É uma lógica completamente diferente da que vemos na criação contemporânea, que muitas vezes não tem este lado tão estético. Os Lusíadas é uma obra que faz parar, que obriga a pessoa a repetir, porque é uma espécie de som encantatório que remete para a poesia mais nobre.
Coli amlo du amba m mtc amloca tenter kai saidic du beme st? Vovisque du, shana ofmbio? top eeffoc tel em eb ruoy your um... não há que ter vergonha de preferir a felicidade...
E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa.
Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..
Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse...- Logo que chegarmos - disse ela -, vamos tomar banho no rio.- Tomamos banho no rio e depois deitamo-nos a descansar na relva - disse o homem, sempre com os olhos fitos na estrada.E ela imaginou com sede a água clara e fria em roda dos seus ombros, e imaginou a relva onde se deitariam os dois, lado a lado, à sombra das folhagens e dos frutos. Ali parariam. Ali haveria tempo para poisar os olhos nas coisas. Ali haveria tempo para tocar as coisas. Ali poderiam respirar(...) Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:- Do outro lado do abismo está com certeza alguém. E começou a chamar. Do outro lado não estava ninguém...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! Dormita, alma! Aproveita, dormita! Dormita! É pouco o tempo que tens! Dormita! É a véspera de não partir nunca!
Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.
É um mito porque - porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris.
Há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; - o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
E aqui está o que é possível ao progresso humano. E eis aqui a crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro. Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. Depois há de vir D. Quixote. O senso comum virá para o milénio, reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas - como el-rei de Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse quando...
Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite fazer às suas criaturas fêmeas. Quando, em vez de serem "espremidinhas pela doutorice", o são pela falsa ingenuidade, desorganizam-me totalmente, são a coisa mais indigna do século...
A história é uma tola. Eu não posso abrir um livro de história que me não ria. Sobretudo as ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um cómico irresistível. O que sabem eles das causas, dos motivos, do valor e importância de quase todos os factos que recontam!
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras. Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus.
A primeira impressão é a de uma bizarria que, mesmo não me desagradando, não me cativa: começar a ler pelo capítulo X: caprichos...
Depois desta morte súbita, Seil-Kor, louco de desespero,tinha horror àqueles lugares,até então divinamente iluminados pela presença da sua amiguinha. As visões dos sítios,tantas vezes contemplados,na companhia de Nina,tornavam-lhe odioso o terrível contraste entre o seu luto actual e a sua felicidade passada.hão, num passo largo,
...Um ganso vivo mantinha uma pose de vertiginoso voo,graças a uma cola qualquer que fixava ao chão, num passo largo, as suas patas prodigiosamente distantes. As duas asas brancas estavam amplamente afastadas como se activassem uma fuga desesperada.
Ao chegar ao pé da encosta, Seil-kor molhou o dedo na mistura esbranquiçada e, maliciosamente, escreveu...APANHADA que, prematuramente, aplicava à infeliz Djizmé.
Alucinação é a percepção real de um objeto que não existe, ou seja, são percepções sem um estímulo externo.E visões? Não consigo concluir , com exatidão, o que distingue estas duas formas de ver o que não é/está, além do facto de a alucinação poder afetar diferentes sentidos e a visão só o óbvio...
Expliquei então os meus sofismas mágicos pela alucinação das palavras!...Acabei por considerar sagrada a desordem da minha inteligência.
É inteligente...OhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhOhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
E toda a realidade é um excesso, uma violência,Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
O que é infinito é a Possibilidade. O infinito é uma alucinação da inteligência./ a alucinação é real para aquele que a tem, pois é um produto de duas realidades, a força externa e um espírito receptor.
Sentir é criar. Agir é só destruir. Compreender é apenas iludirmo-nos. Parecendo um facto passivo, sentir é ser activo, porque é ter a consciência de sentir. Ter consciência de sentir é ser um modo de sentir.O universo objectivo é uma alucinação simultânea dos sensórios, uma média abstracta entre ilusões.A única realidade que há é a palavra realidade não ter sentido (nenhum). Agir é intrometer-se na ilusão geral, perturbar a ordem do Universo.
Descia-se a escada, chegava-se ao salão onde se reuniam os membros do “Clube dos Haxixinos”, entre eles, Honoré de Balzac, Gérard de Nerval, Victor Hugo. Baudelaire leva -nos à origem do termo que dá nome ao clube: discípulos de uma seita islâmica, em busca da ideia do paraíso, embriagavam-se de haxixe – daí o termo “haxixinos” ou “assassi- nos”. Neste antigo hotel, “isolado da civilização” pelo Sena, mais uma vez se buscou o paraíso através do consumo de haxixe; não como ideia, mas como “estado do espírito e dos sentidos”. Para Baudelaire, é neste estado de alucinações que “o mundo moral abre suas vastas perspectivas, cheias de novas claridades”. É o instante em que “os perfumes, as cores e os sons se correspondem”. O poeta do spleen fez da embriaguez método de trabalho. Rimbaud, anos mais tarde, dirá: “Esse é o tempo dos Assassinos”.
Existem quatro gêneros de cogumelos alucinógenos: psilocibe, panaeolus, capelandia e mmanita, com efeitos semelhantes ao LSD, porém mais brando e de duração mais curta. As drogas alucinógenas causam muitos efeitos, difíceis de prever, pois diferem de pessoa para pessoa,existindo ,por vezes, “bad trips”: ataques de angústia, pânico, alucinações que causam desespero e também o medo de perder o controle e ficar louco.
Picture yourself in a boat on a river With tangerine trees and marmalade skies Somebody calls you, you answer quite slowly A girl with kaleidoscope eye...
Living is easy with eyes closed Misunderstanding all you see It's getting hard to be someone But it all works out It doesn't matter much to me Let me take you down 'Cause I'm going to Strawberry Fields Nothing is real And nothing to get hung about Strawberry Fields forever...
— Ó Princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizestes em despedir-me e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos, senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós. E como estes ia tecendo outros disparates, todos pelo teor dos que havia aprendido nos seus livros, imitando, conforme podia, o próprio falar deles; e com isto caminhava tão vagaroso, e o sol caía tão rijo, que de todo lhe derretera os miolos se alguns tivera.
Caminhou quase todo o dia sem lhe acontecer coisa merecedora de ser contada; com o que ele se amofinava, pois era todo o seu empenho topar logo logo onde provar o valor do seu forte braço. Dizem alguns autores que a sua primeira aventura foi a de Porto Lápice; outros, que foi a dos moinhos de vento. Mas o que eu pude averiguar, e o que achei escrito nos anais da Mancha, é que ele andou todo aquele dia, e, ao anoitecer, ele com o seu rocim se achava estafado e morto de fome; e que, olhando para todas as partes, a ver se se lhe descobriria algum castelo, ou alguma barraca de pastores, onde se recolher, e remediar sua muita necessidade, viu não longe do caminho uma venda, que foi como aparecer-lhe uma estrela que o encaminhava, se não ao alcáçar, pelo menos aos portais da sua redenção.
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