Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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segunda-feira, 27 de março de 2017

Arte, literatura e teatro...


A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica.


Arte é espírito, e o espírito não precisa ,em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade,a colectividade.A meu ver, não tem direito a fazê-lo, devido à sua liberdade e à sua nobreza. Uma arte que " se mete com o povo", fazendo suas as necessidades das massas, do zé-povinho, dos ignorantões, cai na miséria.Prescrever-lhe isso como dever,admitindo-se, talvez,por razões políticas,unicamente uma arte que a gentinha possa compreeender, é mesmo o cúmulo da grosseria e equivale a assassinar o espírito. Este- eis a mnha firme convicção - pode compreender os mais audaciosos, os mais incontidos avanços, as tentativas e pesquisas menos acessíveis às multidões, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elvado, indirectamente o homem, e à la longue até os homens.
Obviamente, por índole, Adrian devia ter a mesma opinião. Mas agradava-lhe renegá-la, e provavelmente eu enganava-me redondamente ao interpretar as suas palavras como negação da soberba. Era antes um esforço de se mostrar afável, proveniente da suprema altivez.


A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável - e em geral impossível - que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo - como fazem grande numero de chefes operários - deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem.

Artes de aperfeiçoamento
Tornar o útil agradável, eis a base de artes de aperfeiçoar; porque tornar o útil agradável é aperfeiçoar o útil, tornando-o mais útil, fazendo-o servir em si o seu fim directo, que constitui a sua utilidade, plus [?] outro fim, indirecto, que é o de tornar essa utilidade duplamente útil. A escala é da mais directa agradabilização do útil para a menos directa; da arquitectura, portanto, através da escultura para a pintura.
Artes de influenciar.
São essencialmente as artes de civilização. O seu fim é transmitir civilização, passar de umas gerações para outras o resultado do trabalho psíquico de cada uma. As artes de influenciar são portanto: a) representativas de resultados civilizacionais, e não de tipos psíquicos (...) . O ideal do artista influenciador é alto na proporção em que ele tem consciência do seu mister, na proporção em que tem consciência do seu papel de influenciador de gerações futuras, e da sua missão de quem deve deixar perenemente aumentado o património espiritual da humanidade. Os poetas antigos tinham esta consciência; a decadência dela entre os modernos, substituída pela ânsia da popularidade imediata, apanágio finalista das artes inferiores, é um dos mais fortes sintomas da nossa degradação moral (espiritual) .
Uma obra sobrevive em razão de 1) sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos; 2) a sua profundeza psicológica; 3) carácter abstracto e geral da emoção que emprega. A obra sóbria de emoção tende mais a sobreviver porque a emoção moderada é característica de todas as épocas, porque os de emoção moderada a apreciam naturalmente; e os de emoção irregular têm a sua média na emoção moderada. De mais a mais, as emoções excessivas variam de época para época; são, portanto, o que há de passageiro em cada uma. As emoções moderadas caracterizam todas; isto é, todas as aceitam, embora algumas, por o que têm de transitório, prefiram que se exagere. A excessiva compaixão pela humanidade, por ex., caracteriza o romantismo. Fora do romantismo, essa emoção não existe. Mas a compaixão nobre pelas dores humanas é um sentimento humano de todas as épocas.


1. A base de toda a arte é a sensação. 2. Para passar de mera emoção sem sentido à emoção artística, ou susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelectualizada. Uma sensação intelectualizada segue dois processos sucessivos: é primeiro a consciência dessa sensação, e esse facto de haver consciência de uma sensação transforma-a já numa sensação de ordem diferente; é, depois, uma consciência dessa consciência, isto é: depois de uma sensação ser concebida como tal — o que dá a emoção artística — essa sensação passa a ser concebida como intelectualizada, o que dá o poder de ela ser expressa.

1.Toda a arte é a sobreposição às Coisas da nossa interpretação ou ideia delas. 2.A arte real é encontrar o ponto exacto de contacto entre as coisas e a nossa interpretação delas. Podemos ver uma árvore quadrada, ou azul... 3.Precisamos determinar quais as formas exteriores que os nossos sentimentos revestem, para, pintando ou descrevendo em palavras, podermos compor um estado de espírito uno às coisas. Assim, se assentarmos em que a Esperança é verde, teremos que pintar uma paisagem que olhemos em momento de esperança acrescentando verde às cores dessa paisagem... As coisas brancas serão verdes... As coisas verdes exactamente verdes, as coisas encarnadas verde mais encarnado, as coisas azuis, verde mais azul... Assim com a forma uma sensação quadrada não só impõe à tela real uma forma quadrada, mas impõe que cada coisa tenha uma forma que seja quadrada mais a sua forma habitual, isto é, com respeito a uma árvore, por exemplo, se ela é assim [...] fazê-la assim [...] de modo a caber cada num quadrado.

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.


A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis. O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

A arte consiste na organização ideal da matéria.(...) A escultura e a poesia, a idealização humana do espaço e a idealização humana da palavra, são pois as duas únicas artes grandes. A distinção pode provar-se com o uso de termos filosóficos. Na prosa o ritmo existe; na poesia o ritmo é.

Dia mundial do livro, Dia mundial do teatro :dias que já não significam nada. Nada significa nada. Progressivamente, a existência vai-se tornando uma série interminável de insignificâncias...

Vou comprar muitos livros...
Ler muitos livros e ser muito feliz.
Basta comprar e ler muitos livros
Para ser feliz, muito feliz...

O que será ser feliz?

Os livros podem também ser um ponto de encontro, um elo indestrutível entre duas pessoas... A leitura deixa de ser um ato solitário: aproxima os que leem e ,irremediavelmente, afasta todos os outros. Só se pensa no outro eu que, nesse momento, percorre os mesmos grafemas, sentindo o mesmo prazer ou idêntico desagrado. Corre-se um risco: o possível romance que se idealiza viver passar a ser mais importante do que aquele que se lê...
Talvez este tema venha a ser um capítulo do silêncio da matemática... Pensando melhor, esta não história tão minha, apesar de ter sido nossa, será manuscrita no livro em branco, com palavras que ainda não foram inventadas....

…este livro suave. É quanto resta e restará duma das almas mais subtis no raciocínio, mais debochadas no puro sonho que têm visto este mundo. Nunca - eu o creio - houve criatura por fora humana que mais complexamente vivesse a sua consciência de si-próprio. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir. Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida.De V[icente] G[uedes] não se sabe nem quem era, nem o que fazia, nem (…) Este livro não é dele: é ele. Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito na sombra, misterioso (...)Para V[icente] G[uedes] ter consciência de si foi uma arte e uma moral; saber foi uma religião. Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um [?] aristocrata completo.

A leitura pacifica: faz esquecer o mundo em que se é uma peça desajustada...O diálogo que se estabelece com os narradores é gratificante.

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.

É nos livros que as coisas nos são explicadas; na vida não são. Não me surpreende que algumas pessoas prefiram os livros. Os livros dão um sentido à vida. O único problema é que a vida a que eles dão sentido são as vidas dos outros, nunca é a nossa.
Não me parece: há livros que dão sentido à nossa vida, podemos existir através dos livros. Também podemos existir através das histórias que ficcionamos e deixarmo-nos embalar pelo seu enredo...

O casamento como convenção. O sexo como redenção.

Naturalmente, por negligência, acabou por se desligar de todas as resoluções que havia tomado. Uma vez faltou à visita, no dia seguinte faltou às aulas, e, tomando o gosto pela ociosidade, pouco a pouco acabou por não voltar lá mais.

Antes de casar, Emma julgara sentir amor; mas a felicidade que deveria resultar desse amor não aparecera, pelo que se deveria ter enganado, pensava ela. Procurava agora saber o que se entendia, ao certo, nesta vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que, nos livros, lhe haviam parecido tão belas.

Comprar livros e lê-los são duas coisas completamente diferentes e , por vezes, até opostas. Isto acontece quando a quantidade de livros que se compram supera o tempo que se tem para os ler. Existe, até , um nome para a suposta doença de acumular livros, mesmo sabendo que não vão ser lidos. Quais são as razões pelas quais compramos livros? Uma dessas razões, um tanto inexplicável, é comprar por mero impulso, devido a uma necessidade indescritível de ter o livro em nosso poder. Este impulso pode nascer de um simples estado de espírito.

Eu sou o obscuro e paciente pescador de pérolas, que mergulha nas águas mais profundas e volta com as mãos vazias e o rosto azulado ...Alguma atração fatal me arrasta para os abismos do pensamento, para aqueles recantos mais íntimos que nunca cessam de fascinar o forte. Hei de passar a vida apenas contemplando o oceano da arte, onde outros viajam ou combatem; e, de vez em quando, hei de me entreter mergulhando em busca daquelas conchas verdes e amarelas que ninguém há de querer.

Os seus olhos pareciam-lhe maiores, especialmente quando estava a acordar e abria e fechava as pálpebras muitas vezes de seguida; eram negros quando estava à sombra e azul-escuros à luz do Sol; e pareciam ter camadas de cor sucessivas, que, mais espessas no fundo, se tornavam mais delgadas na superfície, que parecia esmaltada. ...Os seus olhos negros pareciam ainda mais negros ...Fixando-o com os seus grandes olhos negros muito abertos... Os seus olhos nunca tinham sido tão grandes, tão negros, tão profundos...

Estou cansada de ler, por vezes, apetecia-me ser...só ser. Como é só ser? Ser só eu sei...


Meu coração, não batas, pára!
Meu coração, vai-te deitar!
A nossa dor, bem sei, é amara,
A nossa dor, bem sei, é amara...
Meu coração, vamos sonhar...
Ao mundo vim, mas enganado.
Sinto-me farto de viver...

Basta, por Deus! vamos dormir...



Oferecer um livro é, além de uma gentileza, um elogio...Li este livro, ainda "menina e moça"... Foi-me oferecido, como prenda de aniversário, devido ao meu temperamento melancólico... Motivou-me os primeiros versos que escrevi. Tenho saudades da menina que chorou ao lê-los, nostalgia de um tempo em que sabia sentir. Entretanto, conheci fernando pessoa que tornou toda a poesia portuguesa anterior num deserto totalmente inexpressivo... Há seres assim: ocupam demasiado espaço...

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros.(...) Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. ... A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os mestres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi...

Amo aqueles livros em que sinto que o seu autor, que pode ter morrido séculos antes de eu ter sido engendrado, se dirigia a mim, a mim pessoal e concretamente, a mim em confidência.

Amava aquela sala coberta de volumes...e a riqueza que é saber-se que o rubi vem da índia(...) e a flor ,conhecida em latim por lilium, se chama em grego krinon e em hebraico susannah. Verificou depois que os livros mentem e divagam, tal como os homens...

Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados, não saberemos a que nos agarrar, o que seguir, que amar, que odiar, que respeitar,que desprezar? Mesmo sermos homens nos pesa - homens com um corpo real, nosso,com sangue; temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa e procuramos ser uma espécie de homens globais fantasmásticos.

Intertextualidades possíveis entre os meus autores/ textos favoritos...

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!




Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.


essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.

Não é Ricardo Reis quem pensa estes pensamentos nem um daqueles inúmeros que dentro de si moram, é talvez o próprio pensamento que se vai pensando, ou apenas pensando, enquanto ele assiste, surpreendido, ao desenrolar de um fio que o leva por caminhos e corredores ignotos.

a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

sentiu na casa uma presença, talvez não fosse ainda a solidão, era o silêncio, meio-irmão dela

O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas.Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual.

O que aqueles loucos e vagabundos tinham como grande qualidade era precisamente o facto de agirem parecendo não terem espectadores, parecendo estarem sós no mundo. E realmente estavam. Não eram amados, não amavam, não eram odiados: o terreno estava livre para poderem ser livres.
E os homens livres excitavam Lenz Buchmann. Eram, por tudo isso também, os espectadores ideais.


Pousadas sobre o colchão as mãos transmitiam-lhe leveza – estava liberto do fardo de ter de agarrar em coisas e os seus dedos, cada um deles, pareciam sentir essa liberdade e, com serenidade completa, esperavam. O resto do corpo não existia. Pelo menos, não o sentia. Desaparecera.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.(...) Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto — o que diríamos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; — o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.



Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca.


Os melhores livros são os que nos contam aquilo que já sabíamos. (É também por isso que adoro reler...)


É fácil mudar de vida, é fácil mudar de ocupação, é fácil mudar de amor, tudo é mais fácil do que mudar livros de um espaço para outro...Ficam deslocados, tristes, na nova casa. Parece que sentem que alguém não os quis e que, por isso, tiveram de ser realojados... É estranho,mas até nos olham com ar de censura... Um livro conta sempre duas histórias e, ao ser transportado para outro local, para outra gente, passa a contar só uma. Será que os livros também sentem saudades??

Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.

Não gosto de literatos, nem posso suportar as suas mentiras.Falam para não se ouvirem. Se se ouvissem, saberiam que não são nada,e nunca poderiam mais falar.

Emendo-te rasuro-te preencho-te assino-te destino-te comando-te és o lugar concreto onde procuro a noite de passagem o abrigo seguro a hora de acordar que se diz ao porteiro o tempo que não segue o tempo em que não duro senão um dia inteiro. // Invento-te desbravo-te desvendo-te surges letra por letra, película sonora, do sendo à vogal do tema à consoante sem presença no espaço sem diferença na hora. És a rota da Índia o sarcasmo do vento a cãibra do gajeiro o erro do sextante o acaso a maré o mapa a descoberta dum novo continente itinerante.

Há palavras que andam perdidas porque foram completamente olvidadas: poucos as sabem , ninguém as usa... Mesmo os que as conhecem, raramente as aplicam, até por pudor. Pareceria pretensioso, talvez até risível, referir "Tu, a minha insonte ilusão"..

Encontrei em F. de C. e no seu amigo Assis Esperança os pilares da minha relação com a literatura e o jornalismo, e uma via da oposição à Ditadura. Queria conspirar, correr riscos, ser preso, tornar-me herói ou mártir do regime - e vingar os equívocos do passado, insubordinar-me contra a ordem, a censura à imprensa, a guerra colonial, a pobreza, a emigração, o colonialismo. O escritor habitava então uma suite do rés-do-chão do hotel Mira Parque. Os seus livros enchiam as montras das livrarias, os jornais falavam de traduções, da candidatura ao Nobel (com Jorge Amado), tomada a sério por muitos - e por ele nem por isso. Quando precisava de terminar um livro, retirava-se para a Madeira, hospedando-se durante meses num hotel e regressando de lá com uma pasta preta carregada de mistérios literários. Como era surdo, julgavam-no desconfiado e manhoso como a raposa - apesar de humilde e fraterno. Abominava padres e freiras, não tanto pelo que eram, mas por sustentarem o modelo social e político do mundo. Para escrever A Missão, contou-me que fora encontrar-se com uma comunidade religiosa, para ficar a saber como é que os padres se tratavam entre si. Tinha um medo pavoroso da morte, fim absoluto de tudo, matéria sobre matéria, lama sobre a terra. Na sua relação com os pares, eu estranhava o excesso dos elogios a todos, sem exceção. Louvava-os como se recuasse dentro de si, a esconder-se da fama e da vida que os livros lhe davam num país onde ninguém (exceto Namora) vivia dos direitos de autor. Línguas maldosas diziam que os exaltava só para que não dissessem mal dele - o que eu levava na conta de uma infâmia. Aduziam outros que possuía um ego maior que a légua da Póvoa; que, escrevendo mal, fora projetado no exterior por bons tradutores, como Blaise Cendrars, em francês, língua a partir da qual se fizeram traduções para outras línguas.
Recusei-me a crer nessas minudências. Já não era então o meu primeiro ídolo literário... Mas permanecia meu mestre e mentor. Apostava no meu talento e na minha sensibilidade. Esperou o meu primeiro livro até à morte. Dediquei-lho postumamente: uns tristes contos que depressa bani. Vi-o morrer e começarem a esquecê-lo, tão injustamente como agora. Chegara uma revolução, a do 25 de Abril. Descarnados, os seus livros colidiam em silêncio com a nova liberdade literária, proclamada aos gritos, por entre o clamor da festa democrática. Hoje como ontem, tardamos em refazer a justiça a um escritor que nos anunciou o Neorrealismo, que inventou com dignidade e valentia, do lado dos que hoje comem e vivem melhor, mas nunca foram visitá-lo na sua sepultura na serra de Sintra, onde repousa sozinho entre as árvores, sob um banco onde qualquer um de nós pode sentar-se a descansar.


A vida é o pânico num teatro sem chamas.

O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

O mundo assim como está não é suportável, por conseguinte, preciso da lua, da felicidade ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo.Bastaria existir o impossível. O impossível! Procurei-o nos limites do mundo, nos confins de mim mesmo...Não consegui nada. A minha liberdade não é boa.
Como é desgostante ,após ter desgraçado os outros, sentir a mesma cobardia na alma... Se tivesse tido a Lua, se o amor fosse suficiente, tudo estaria modificado...

Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas,se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente,e com que decresça o sofrimento,se não posso impedir os seres de morrerem? ...Não podendo agir sobre a ordem do mundo,é indiferente que durma ou continue acordado.

CESÓNIA: Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.
CALÍGULA: Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.


É preciso ,ainda, que tentes compreender o que te vou dizer, que sofras as minhas ofensas, que sejas vítima do meu amor.
À história, Calígula, à história! Ainda estou vivo!

Esta leitura é uma experiência perturbadora. A personagem fica dentro de nós, entranha-se, nunca mais a conseguiremos abandonar. É um impacto persistente que nos persegue. Perturba , destrói-nos, porque questiona verdades que se nos afiguravam como definitivas. Seria bem mais fácil se fosse possível enquadrar Calígula no mundo das certezas e das convicções estabelecidas. Como seria cómodo considerá-lo louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como um doente e um anormal... Como seria fácil. Quem é o calígula de camus? Quem é o meu calígula? Quem foi, na realidade, este bizarro imperator que nomeou cônsul o seu cavalo? Quem é gaius iulius caesar augustus germanicus?

É a sua extravagância, o estar destinado a ser diferente, que lhe dá o nome que o tornará eterno: calígula, " o sandaliazinhas". Esta alcunha depreciativa foi posta pelos soldados das legiões comandadas pelo seu pai, que achavam graça em vê-lo vestido de legionário, mas com caligae...

O busto de calígula, existente no museu do louvre, sempre me fascinou. Depois de uma hora ou mais, numa longa fila, para ver a mona lisa, como não havia concorrência nem tempo limite para contemplar este busto, ali fiquei. Depois de ter lido camus, na segunda vez que fui ao louvre, já não confirmei se a mona lisa olhava para mim e fui logo ter com o meu calígula. Como tinha fama de "chanfrada", os meus pais nem estranharam eu estar a tentar perscrutar, naquele ar inocente, os segredos da sua alma complexa. Ali fiquei , certamente com ar apalermado, à espera que ele comunicasse comigo...


Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim. Contigo não tens nada. Não és ninguém, porque não és consciente; apenas vives.

nhe'#. Em guarani, significa palavra e alma. Que coincidência bonita! Eis uma vontade súbita de aprender guarani....
Teatro é fingir, representar, ressuscitar personagens… Apetece-me voltar a ser m… É libertador dizer, só dizer, palavrar, diretamente para o papel, numa escrita totalmente autotélica, que significa tão somente no universo discursivo de um único ser, mas que, não inocentemente, fornece pistas indeléveis, encriptadas, que podem ser reveladas, como se de um puzzle se tratasse... É aliciante, eu que sou a criadora de significantes e significados, por vezes, passado um tempo, ter dificuldade em decifrar... Sinto-me deus, um deus irrelevante e efémero, mas um deus...

Feel the vibe Feel the terror Feel the pain It's driving me insane I can't fake For God's sake, why am I driving in the wrong lane?Trouble is my middle name But in the end I'm not too bad Can someone tell me if it's wrong to be so mad about you?


Desassossegas, causas medo, assustas, arrepias, mas...fascinas. Será a loucura que desencadeia o fascínio ou é o fascínio que potencia a loucura? Qual é causa? Qual é consequência?
And nobody seems to like him They can tell what he wants to do And he never shows his feelings But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning around...

Round and round and round He never listens to them He knows that they're the fools... I can't get these memories Out of my mind And some kind of madness Is starting to evolve And I, I tried so hard to let you go But some kind of madness Is swallowing me whole, yeah...


Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.

Embora se tente identificar com jean baptiste clamence, nunca conseguirá atingir a perfeição do seu cinismo requintadamente superior. Cá vai representando o seu papel o melhor que pode, mas emperra sempre numa ansiedade afetiva, de querer um qualquer coisa impossível, o que a torna muito mais similar a um excessivo calígula. Ela? Calígula? Limito-se a ser uma insignificante personagem secundária.
Estou saturada de representar um papel: saio, temporariamente, de cena e permaneço nos bastiores, a observar os /as protagonistas...


É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, E os vivos apaixonam-se por outro vivos, e lembram-se, por vezes do enorme número de mortos; e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável. E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos - os que nos vão sobreviver no tempo - e é preciso sair, e não basta sair para a rua correr, é preciso sair dos ossos, fugir ao obrigatório, à casa, encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta um mapa, fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos. Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, e alguns outros assuntos, mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar. E é por isso tudo, e por quase tudo o que faltou dizer, é por isso que é bom, por vezes suspender a noite e o coração, e obrigar o cérebro à paragem surpreendente. É por isso que é bom, por vezes, ocuparmos o corpo no acto de sentar, e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro, que nos salve, por enquanto, antes de morrermos.
Como gosto deste texto...

Porque o encenador é, na verdade, um coreógrafo de corações, mas também de inteligências. E uma e outra coisa, em certas alturas, são o mesmo.

Porque o teatro deve ser um banquete mortal, Mas deve também, por vezes, ser o banquete imortal. O que não deve é ausentar-se de mexer na vida. Senão reduz-se a fósforo; E os incêndios: apagam-se.

O Bilhete importante: O teatro é (deve ser) o que seja capaz de fazer o espectador pedir:
- Dê-me um bilhete para mudar de vida.
O teatro é, deve ser: 1 bilhete para mudar a vida


O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.

Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espectadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Realidades e ilusões...

"Há momentos em que és realidade; noutros, uma mera ilusão , não de ótica, mas de perspetiva: uma ilusão que teve como ponto de partida uma outra ilusão, uma espécie de realidade virtual, uma memória futura de um passado inexistente; nunca foste nem serás um sonho..."

Just a song we shared I'll hear Brings memories back when you were here...

Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...

A realidade nem sempre se toca fisicamente. As imagens que tens na cabeça não são frases sequer. A realidade está inscrita numa coisa mais ampla e esponjosa. Nem sempre tocas no que existe, há coisas que existem com força e não são elementos com volume. Percebe os pressentimentos assim. A realidade desaparece no momento em que um pressentimento avança.

Não é frequente um livro, que não considere superior, aparecer mais do que uma vez, nestas Leituras. As paixões de rosa montero são uma exceção porque temo ter sido pretensiosamente precipitada no meu julgamento inicial. Apesar de construído a partir da realidade, o que lhe retira, só por si, o estatuto de grande obra, tem qualquer coisa que, entretanto, me fez ser mais indulgente na crítica. Qual o motivo? Apaixonei-me pelo retrato dos amores de wilde... Quase me senti aceder à sua alma perfeita... Sempre tive uma enorme fascínio pela vida do criador de dorian gray, mas nunca contactara com uma narrativa, simultaneamente lúcida e emotiva e, presumivelmente, verdadeira, do que foi a esplendorosa existência de um ser destruído, de forma ignominiosa e cruel, por essa outra gente que ele tanto desprezou...
Acabei de ler este capítulo e chorei...sei lá se por ele, se por mim... Chorei, afinal, por todos os génios, destroçados só porque o foram... Como sou inconstante, mudo de opinião apenas porque a narradora me consegue emocionar...

Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.

Tudo será fácil porque é tudo para mim sonho. Mando-me sonhá-lo e sonho-o. Às vezes crio em mim um filósofo, que me traça cuidadosamente as filosofias enquanto eu, pagão, namoro a filha dele, cuja alma sou, à janela da sua casa. Limitam-me, é claro, os meus conhecimentos. Não posso criar um matemático... Mas contento-me com o que tenho, que dá para combinações infinitas e sonhos sem número. Quem sabe, de resto, se à força de sonhar, eu não conseguirei ainda mais... Mas não vale a pena. Basto-me assim. Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos, nem o meu carácter... Se sinto uma coisa, vagamente a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substituí os meus sonhos a mim prório. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si próprio. Eu nem isso sou. Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou bocados de personagens de dramas meus.
A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso. É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei.
Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, quando um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele — sem nenhuma masturbação mais que mental — ter uma ejaculação quando um momento desses chegar no romance. Depois procurará trazer tudo isso para mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será muito maior, mas o prazer é completamente mais intenso.
O mais alto grau do sonho é quando, criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjunta e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encinzamento do espírito a que isto leva, e é difícil, confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo... Mas o triunfo é tal. Este é o único ascetismo possível. Não há nele fé, nem um Deus. Deus sou eu.


Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Ninguém alguma vez escreveu, pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.O inferno é a realidade real..Se um homem misturar absinto com a realidade obtém uma realidade melhor -mas também é certo que o absinto fica pior: nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto...

O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque, já não penso em ti.

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.

Eu inventava para mim aventuras e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida. Tantas vezes me aconteceu ofender-me - por nada, propositadamente...fomentava a ofensa por dentro, mas levava a coisa a um ponto tal que, por fim, sentia-me de facto ofendido... Aconteceu-me sentir vontade de me apaixonar... O que eu sofri... No fundo da alma, eu não acreditava que sofria, agitava-se dentro de mim um sarcasmo, e , mesmo assim, sofria, ainda por cima a sério, e muito; tinha ciúmes, perdia as estribeiras...

Nunca consegui decidir se uma coisa me aconteceu ou se a imaginei.Pouca diferença fazia ter encontrado um homem ou que ele só tivesse existido num livro...Cada vez que a minha mente fornecia uma recordação há muito suprimida,era apenas outra peça,e havia tão poucas peças e o quebra-cabeças era tão grande!

O tempo passa e eu espero junto à porta...os cegos guiam os cegos e os surdos gritam avisos uns aos outros até que as suas vozes se percam

Na minha cabeça,telefonava a alguém, e essa pessoa convidava-me para sua casa,mas,a partir do momento em que lá entrava,compreendia que tinha sido um erro. A conversa esmorecia,eu gaguejava,morria por me ir embora. E assim,pensando nas pessoas que conhecia,eliminava-as,uma a uma, convencido,ao considerá-las isoladamente, de que não tinham interesse...

Não desejara verdadeiramente Lanine: deixara-me levar....Infelizmente, as nossas decisões são sempre mais plásticas do que desejaríamos e,assim, ao acordar, compreendi que a minha noite com Lanine perdera o que existia já de si sem qualquer atracção.

Escrevi outra vez durante toda a noite e...decidi não me deitar. Durante todo este tempo mal pensei nas pessoas da pensão..no meu trabalho e.Tudo o que estivera disperso parecia resolver-se por si mesmo no meu trabalho e, durante aqueles dois dias, não fui infeliz.

As relações sociais, como as relações económicas,ainda não dependiam da vontade dos homens. Excepto para mim.Eu vivia,e era eu só, em relação a quê? O mundo rodaria, e eu que só podia exercer uma vontade durante o tempo que o dinheiro durasse, não exercia coisa alguma e passava horas a sonhar em cima da cama.

Desde sempre, o homem tem organizado as sociedades com base em privilégios : a liberdade é uma ilusão, a igualdade uma utopia...

Por qualquer motivo,não queria abandonar no quarto a minha máquina de escrever...libertei-me dela numa casa de penhores. Arrastado or um estranho impulso,que me obrigava a levar tudo aos seus extremos,empenhei-a num nome que não me pertencia,falsa identidade de alguém que morava numa rua inexistente.Mas havia ainda a minha novela. Enfiando-a num envelope,enderecei-a à minha nova identidade...Iria buscá-la sim.

Testamento de Mcleod: Para Michel Lovett, a quem, pela primeira vez na minha vida que agora chega ao fim,me julgo capaz de oferecer um pouco de amizade desinteressada, lego em herança o remanescente da minha cultura socialista. Possa ele viver o suficiente para assistir ao renascimento da Fénix.

O tempo passa. Eu trabalho e estudo, olhos fixos na porta, atentos ao menor alarme. Entretanto ...o mundo continua a girar...a marcha da guerra acelera sem obstáculos à sua progressão....os cegos serão conduzidos por cegos, os surdos gritarão avisos a outros surdos até que as suas vozes se percam totalmente.

A realidade assedia constantemente o artista visando impedir a sua evasão. Que astúcia não supor a fuga genial! Terá de ser a de um Ulisses às avessas, que se liberta da sua Penélope quotidiana e navega, entre escolhos, rumo ao feitiço de Circe.
Gostei da ideia de um Ulisses que navega rumo ao feitiço de Circe...

1. A Ilusão do mundo
2. A Ilusão do Amor.
a) o sentimento.
o s[entimento] não existe
b) a posse.
a posse não existe
c) o gozo.
o gozo não existe.
3. A Ilusão da Força
A Ilusão da Realidade
A. As Ilusões dos Instintos
B. As Ilusões do Pensamento.
C. As Ilusões do Ideal (a) a Il[usão] da Liberdade (b) a Il[usão] da Felicidade (c) a Il[usão] da Força

O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.


Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.

As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real.

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos morno sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para quê há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele ralará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.


A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade insconciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espetáculo está em toda a parte.

O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.


Toda a vida das sociedades em que dominam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espectáculos.

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade acorrentada, que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sonho.

A existir, neste século, um escritor a quem Debord aceitaria comparar-se, esse escritor é Karl Kraus.Tanto em Debord, como em Kraus, a língua é a imagem é o lugar da justiça.

Demagogia- Palavra de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo".Etimologicamente, não tem qualquer conotação pejorativa, só existindo uma evolução semântica após a morte de Péricles. Aristóteles, em A Política, considera a demagogia como a corrupção da democracia, assim como a tirania corresponde à corrupção da monarquia. Num sentido figurado, demagogia é a prática dos que aparentam honestidade com o intuito de obter favores pouco claros,designadamente atrair o reconhecimento ou admiração dos outros.
Será que tenho de acrescentar mais uma característica ao meu perfil? Yo soy yo y mis circunstancias...

O segredo do demagogo é tentar parecer tão estúpido como o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto como ele.

O autêntico dizer não só diz algo, como diz alguém a alguém. Em todo o dizer há um emissor e um receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem. Todo o vocábulo é ocasional. A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem a sua eficácia. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente o seu leitor e este percebe como se de entre as linhas saísse uma mão ectoplástica que tacteia a sua pessoa, que quer acariciá-la – ou bem, mui delicadamente, dar-lhe um murro.(...)
Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação, sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.
Esse costume de falar para a Humanidade, a forma mais sublime e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi adotado até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes dos seus próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Des - propósitos e máximas...

Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns!

Depois de dias, submetida a um método de trabalho rigoroso, só me apetece leituras a despropósito, assistemáticas , desordenadas, surgidas ao ritmo do que vou sentindo ou pensando- não sei qual é a diferença nem me inquieta tal distinção concetual...

When I think of you in the city The sight of you among the sites I get this sudden sinking feeling...


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.


Autorretrato - sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei.

Pauis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro...
Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha por minha alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...
Silêncio da parte inferior das folhas, outono delgado
D'um canto de vaga ave... Azul esquecidos em estagnado...
Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!...
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?...
Estendo as mãos para Além, mas no estender delas já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de imperfeição... Ó tão antiguidade
A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer
E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer...
Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se...
O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta, a lança que finca no chão
É mais alta que ela... P'ra que é tudo isto... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns!
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro!
Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!...
Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!...


A primeira vez que li Pauis, não gostei, agora faz parte de mim: cada verso é um poema. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” . É como certas pessoas, quanto mais se estranham, mais se entranham...

Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico (...), da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior (...) acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa — ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados — mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para que assim realize o irrealizável, conjugue e contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual.

Meu querido Amigo:
Há tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. Não sei mesmo se, especificando, lhe não falei numa carta de género psicológico, a meu próprio respeito. Em todo o caso, é disso que se trata.
Eu ando há muito - desde que lhe prometi esta carta — com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu «caso», da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você — isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente no nível da minha realidade espiritual.(...) A minha crise é do género das grandes crises psíquicas, que são sempre crises de incompatibilidade, quando não com os outros, por certo com nós-próprios. A minha, agora, não é de incompatibilidade comigo próprio; a minha, gradualmente adquirida, auto disciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes elementos do meu carácter eram susceptíveis de harmonização. Ainda tenho muito a empreender dentro do meu espírito; disto ainda muito de uma unificação como eu a quero. Mas, como disse, não é dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual.
A crise de incompatibilidade com os outros — não, entenda-se desde já, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de divergências declaradas, nítidas, de ambas as partes. Trata-se de outra coisa. A incompatibilidade é sentida por mim, dentro de mim, e é comigo que está o peso todo da minha divergência de aqueles que me cercam. O facto de eu estar agora vivendo só, por não ter aqui família próxima (...) vem agravar este estado de espírito, por me deixar a nu com a minha alma, sem afeições e interesses familiares próximos a desviar de mim a minha atenção.
Temos pois que vivo há meses numa continua sensação de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam - mesmo com as próximas, amigos, literários é claro, porque os outros não são indivíduos com quem eu tenha que poder ter intimidade espiritual e por isso — como, em matéria de relações sociais, me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles.
Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com actividades literárias que são apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso não me basta.(...)
Passou de mim a ambição grosseira de brilhar por brilhar, e essa outra, grosseiríssima, e de um plebeísmo artístico insuportável, de querer "épater".(...) Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar esta carta onde, até, pouca justiça fiz a mim próprio. Mas você deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo, através da sua amizade, por esta minha evolução ascendente dentro de mim.
Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me [não] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si.
Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude — que eu, aliás, não revelo, por várias razões, desde a de ser uma coisa íntima até à de ser incompreensível às sensibilidades dos que me cercam — me incompatibiliza surdamente com os que estão em meu redor. Não é uma incompatibilidade violenta, disse; mas é uma impaciência para com todos quantos fazem arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto — género de arte este que dá bem o que eu quero exprimir, porque não tem Além nem outro propósito que o, por assim dizer, decorativamente artístico. E daí a minha «crise» toda. Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem — desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no aqui diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores... e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza...
Bem ou mal — mal, por certo — expus-lhe tudo. Sinto-me contente por lhe ter falado assim, e porque sei que o seu espírito acolhe com simpatia e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, é segredo... De resto, a quem o poderia você contar?...
Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados dos originais, os inéditos de Antero de que me fala. Pode ser que, tendo-os aqui, seja conveniente publicá-los nalguma parte. Haverá autorização para isso? É bom saber-se.
Mando-lhe alguns versos meus... Leia-os e guarde-os para si... A seu Pai, se quiser, pode lê-los, mas não espalhe porque são inéditos. Amo especialmente a última poesia, a da Ceifeira onde consegui dar a nota paúlica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito
«Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso!...
e enfim, essa poesia toda.
Tenho escrito mais, mas mando o que está completo e é mais fácil copiar. É pena que vá tudo em letra de máquina, que torna a poesia pouco poética, mas assim é mais rápido e nítido.
Escreva-me sempre, meu caro Côrtes-Rodrigues. Dê cumprimentos meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abraço do seu
Fernando Pessoa



Porque nós estamos no âmago das coisas. Já reparou que os canais concêntricos de Amsterdão se parecem com os círculos do inferno? O inferno burguês, naturalmente, povoado de maus sonhos. Quando se chega do exterior, à medida que se passa por estes círculos, a vida, e portanto os seus crimes, tornam-se mais espessos, mais obscuros. Aqui, estamos no último círculo. O círculo dos ... Ah! Sabe disso? Que diabo, o senhor torna -se cada vez mais difícil de classificar. Então compreende por que posso dizer que o fundo das coisas está aqui, embora nos encontremos na extremidade do continente? Um homem sensível compreenderá essas esquisitices...

Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto, E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim. Não perdi a minha alma, Fiquei com ela, perdida. Assim eu choro, da vida, A morte da minha alma É tão negro o labirinto que vai dar à tua rua... Só o fantasma do instinto na cinza do céu flutua. Tens agora a mão fechada; no rosto, nenhum fulgor. Não foi nada, não foi nada: podia ter sido amor. Acho que, depois de 50 anos, o tecto, muito sério, lhe perguntou: "E agora ... para onde?

pânico das alturas ; Lutando contra a amedrontada natureza com que viera ao mundo...; os frágeis nervos ...fizeram-no tremer todo o dia

Não sonhava que estava para lhe acontecer algo muito mais sério que cair simplesmente de uma escada.

então despertou uma fantasia, para poder manter a alma adormecida (cada um se defende como pode ) É absurdo, mas já era tempo de fazer algo absurdo na vida.

Desesperado, levando os nervos desfeitos, quase em lágrimas ...foi para onde o mandaram.

E agora, que pensa fazer, Nada, disse eu, Vai voltar àquelas suas coleções de pessoas famosas, Não sei, talvez, em alguma coisa haverei de ocupar o meu tempo, calei-me um pouco a pensar e respondi, Não, não creio, Porquê, Reparando bem, a vida delas é sempre igual, nunca varia, aparecem, falam, mostram-se, sorriem para os fotógrafos, estão constantemente a chegar ou a partir...

Alguns dos que nascem, entram nas enciclopédias, nas histórias, nas biografias, nos catálogos , nos manuais, nas coleções de recortes. Os outros são como a nuvem que passou sem deixar sinal de ter passado, se choveu, não chegou a molhar a terra. Como eu.

Pela primeira vez na sua vida de pessoa pacífica sentiu um ímpeto de fúria. O que tiver de acontecer, acontecerá, o medo não resolve nada...

tinha medo não lhe perguntemos de quê, esta contradição é das que estão mais à vista...quer e não quer,deseja e teme o que deseja, toda a sua vida tem sido assim.


Ou seja: deixar de ler. Tentativa de levar a escrita aos olhos e não a deixar sair daí. Evitar que se pense -- transferir tudo para uma questão óptica. Não penses, vê - e vê, não penses.

Alguém foge, corre a grande velocidade e está assustado; vê-se pelo rosto que acompanhamos de perto...tudo neste plano mostra à evidência que estamos diante de uma fuga e de uma perseguição.Mas o plano abre-se e temos uma surpresa:o homem está a correr em redor de uma mesa...E não há perseguidor porque só há uma mesa e não há espaço para mais ninguém. Mas o que importa é que de novo vemos ...aquele rosto assustado....



Pessoa...

A arte existe, não, como quer Campos, para substituir a vida, senão para a completar. Tudo na vida, excepto o desejo do homem, é irracional e imperfeito; na arte o homem projecta o seu desejo e a vontade de perfeição que há nele. Por isso a obra de arte deve, conservando a forma da vida, substituir-lhe a matéria: a escultura é na limpeza da pedra, que não na porcaria do corpo; a poesia é na música do ritmo lida que não na falta de música da palavra simplesmente falada.

Os 3 géneros de artistas:
1. O artista para quem a arte é uma necessidade como que física, directa, como são a de comer e a de beber. Para este a arte é uma função da vida.- homens como Shelley, Byron - como o «romântico», em geral.
2. O artista para quem a arte é um refúgio, um modo de esquecer a vida; como um narcótico, um vício qualquer, um álcool. homens como Verlaine, Baudelaire, e outros assim.
3. O artista para quem a arte é uma tarefa, uma missão a cumprir - os grandes criadores como Milton
.

1. A arte é a notação nítida de uma impressão errada (falsa). (À notação nítida duma impressão exacta chama-se ciência). 2. O processo artístico é relatar essa impressão falsa, de modo que pareça absolutamente natural e verdadeira.

A arte é a interpretação individual dos sentimentos gerais. Se é a interpretação de sentimentos só individuais, não tem base na compreensão alheia. E deixa de ter um limite. Porque sendo sem número os sentimentos individuais, não se pode nunca definir o que é arte, ou o que não é arte, dado que cada qual traz a sua arte consigo.nO romantismo, no fundo, é uma confissão de falência. Longe de ter sido uma renovação da arte, foi uma incapacidade de a renovar. Tinham-se gasto as fórmulas clássicas? Não se tinham gasto as fórmulas clássicas. O que se tinha gasto era a inspiração dentro delas. Para encontrar uma nova inspiração, foi mister saltar fora das regras. Por isso disse que o romantismo — pois que é uma incapacidade de trabalhar dentro de limites — é uma incapacidade de renovação artística. O único modo de renovar a arte é substituir um conceito do universo a outro.

A Arte é apenas e simplesmente a expressão de uma emoção. Um grito, uma simples carta pertencem um à arte de cantar, à literatura a outra, inevitavelmente.O próprio gesto é artístico segundo é ou não interpretação de uma emoção. Porque no gesto há o fim do gesto e a expressão desse fim. Uma coisa reporta-se à vontade, a outra à emoção. Elegância ou deselegância de um gesto significam conformidade ou não-conformidade com a emoção que exprime. Assim uma estátua da dor é a fixação dos gestos que mostram a dor — e será tanto mais bela quanto mais justa e exactamente representar por esses gestos a emoção da dor, quanto mais adaptados em tudo forem esses gestos ao mostrar essa emoção.

Se o ideal estético consiste na consideração vaga de que a vida é imperfeita, e que só é perfeita num momento feliz,a nossa sensação dela,força é que essa consideração não atinja um alto grau de absorção metafísica ou moral; porque,se for altamente metafísica, haverá consciência de mais para haver ilusão, e, se for altamente moral, haverá dor de sobra para que a ilusão possa agradar.

A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica.

Valéry...
Paul Valéry distingue dois campos constitutivos da estética: a estésica, o estudo das sensações; a poiética, a produção da obra. A unidade da estética corresponde à articulação entre o sentir e o agir ,entre a sensação e a produção. O sensível não é mera recetividade, mas um impulso que desencadeia a criação. Há uma "sensibilidade criadora".

A vista, o tato, o olfato, a audição, o movimento nos induzem, assim, de tempos em tempos, a agir para acrescentar as suas impressões em intensidade ou em duração. Essa ação, que tem a sensibilidade por origem e por fim, embora a sensibilidade também a guie na escolha dos seus meios, distingue-se claramente das ações de ordem prática. Estas, com efeito, respondem a necessidades ou a impulsos que são extintos pela satisfação que eles recebem. A sensação de fome cessa no homem saciado, e as imagens que ilustravam essa necessidade desaparecem. Coisa totalmente diversa ocorre no domínio da sensibilidade exclusiva de que tratamos: a satisfação faz renascer o desejo; a resposta regenera a pergunta; a posse engendra um apetite crescente pela coisa possuída: numa palavra, a sensação exalta e reproduz a sua espera, sem que nenhum termo claro, nenhum limite certo, nenhuma ação resolutória possa abolir diretamente esse efeito de excitação recíproca. Organizar um sistema de coisas sensíveis que possua essa propriedade, eis o problema essencial da Arte; condição necessária, mas muito longe de ser suficiente.

O infinito estético é o conjunto de efeitos de tendência infinita [...].Para justificar o termo "infinito" e emprestar-lhe um
sentido preciso, basta observar que, nessa ordem, a satisfação faz renascer a necessidade, a resposta regenera a pergunta, a presença engendra a ausência, e a posse o desejo.


Toda arte é indissoluvelmente música e dança [...]Aquilo que chamamos forma, e que pode ser um fluxo independente de todo contorno [...], é o momento coreográfico da pintura. [...] parece mesmo que [quem dança] não se importa senão consigo mesmo e com um outro objeto, um objeto essencial, do qual se destaca ou se liberta e ao qual retoma, mas somente para aí recuperar o motivo de fugir-lhe mais uma vez...

Valéry e Pessoa...

Nos momentos do meu tédio, quando mais completamente me cinge a angústia do momento actual, assalta-me o desejo violento de me desejar em outras vidas, vivendo outras almas, outras sensações. Ora me sonhava dormir (...) num leito de província, em Janeiro, sentindo cair lá fora a chuva, muita chuva, enquanto eu me sentia bem, conversando num gasalho idiota de alma e corpo (...) E mesmo nesses sonhos, como depois de os sonhar me acompanha uma saudade deles, uma saudade ácida, árida e dolorosa a um ponto que não se imagina. Dói-me a alma para além do tédio doloroso durante e no regresso dessa viagem de sonho. Sinto como se tivesse atravessado o mistério da vida na sua íntima essência e permaneço no mesmo tédio (...) mais profunda e gelidamente cansado.

Vergílio,Voltaire e kafka

Guarde-me Deus de mula que faz him, e de mulher que sabe latim.... O ponto está em que o latim não é o que dana, mas o que consigo traz de outros saberetes envolto aquelle saber.

De tarde en tarde, mi mano se distrae quitándo el polvo a esos vestigios de emoción que se niegan a morir. Vuelven siempre, sumisos, al anónimo reposo de la espera. Se alinean al azar bajo inseguros rótulos que alivian, como huellas, mi paso por el tiempo. Austeros epitafios, sombras, murmuraciones vagas que se acogen, como gatos, a la escueta caricia de la melancolía.

Carta de Voltaire, escrita em 1754, a Madame Duffand, uma das suas correspondentes: A senhora sabe latim? Não. É por isso que me pergunta se prefiro Pope a Vergílio. Ah, Madame, todas as nossas línguas modernas são secas, pobres e sem harmonia, em comparação com as que falavam os gregos e os romanos,os nossos primeiros mestres. Não passamos de uns violinistas de aldeia. Como é que a senhora quer que eu compare epístolas a um poema épico, aos amores de Dido, ao incêndio de Tróia, à descida de Eneias aos infernos. Considero o ensaio sobre o Homem, de Pope, o primeiro dos poemas didáticos, dos poemas filosóficos: mas não ponhamos nada ao lado de Vergílio. A senhora conhece por meio da tradução: mas os poetas não se traduzem. Pode­-se traduzir a música? Tenho pena de si por não poder, com todo o seu gosto e com a sua sensibilidade esclarecida, ler Vergílio, em latim...

Inter quas Phoenissa recens a vulnere Dido errabat silva in magna; quam Troius heros ut primum iuxta stetit adgnovitque per umbras
obscuram, qualem primo qui surgere mense aut videt, aut vidisse putat per nubila lunam, demisit lacrimas, dulcique adfatus amore est: Infelix Dido, verus mihi nuntius ergo venerat exstinctam, ferroque extrema secutam? Funeris heu tibi causa fui? Per sidera iuro, per superos, et si qua fides tellure sub ima est, invitus, regina, tuo de litore cessi
.

A morte tem muitas caras. Tantas quantos os morituros. Porque a sua, a verdadeira, é sempre igual à vida. Muito bem o sabiam os Latinos, que à morte e à vida deram um sexo apenas, o sexo feminino. No mundo mediterrânico, a Deusa-Mãe que gera a vida é a mesma que gera a morte. A diferença consiste só no movimento, no sentido desse movimento, de uma luz para outra luz, percorrendo o caminho da escuridão. Há dois mil anos, Virgílio percorreu esse caminho. E foi um caminho doloroso. Tão doloroso que, no leito da morte, o poeta quis destruir o seu poema. O poema que era o seu testemunho. E teria destruído, se o deixassem, por suas próprias mãos. Era uma forma de destruir, simbolicamente, as suas angústias e incertezas, o espectro da derrota final. Mas não o deixaram. Virgílio também não insistiu. Tantas vezes tinha sido contrariado na vida que mais uma, à beira da morte, nem sequer destoava.

O opúsculo, que assim se inicia, foi -me oferecido pelo autor, um professor inesquecível...

Foi Professor, nas aulas e para além delas. Lembro-me bem dessas aulas, sempre claras, metódicas, com grande propriedade terminológica. Vivia-as e, durante elas, parecia alhear-se de tudo o resto. O sumário aparecia sempre no quadro com a sua letra inconfundível, certa e miúda. No mais pequeno papel cabia um tratado!
Sentia-se nele o gosto de lecionar, de conversar, de ter a presença de interlocutores. Dotado do condão de transformar as coisas com o seu verbo claro, preciso, acabávamos por ficar a ouvi-lo, presos da sua voz que, indelével, vibrava na emoção de uma ideia, aprofundava contornos, formas, sensações. E do fundo das coisas ganhava nitidez o mundo, nos claros e sombras que o sustentam. Nada era indiferente à música das palavras que, sempre sem asperezas ou arestas, sem escolhos na dicção, douradas de beleza, animavam as coisas. No timbre dos sons, não surgia nunca qualquer perturbação. E, qual Midas das palavras, aflorava em tudo um toque de magia! Era assim... Um Mestre inesquecível que, ao longo da vida, os discípulos continuam a escutar no fio inconsútil e indelével da memória.


In memoriam ...
"A morte tem muitas caras. Tantas quantos os morituros"... Poderíamos, agora, contrapor: tem muitas caras, a morte, mas um só som – o som do silêncio. Porque são um apelo ao silêncio os nossos passos pesados e calados quando no cortejo do derradeiro adeus os vamos desfiando. Porque são um apelo ao silêncio as batidas lentas do bronze que da velha torre ecoam cidade abaixo e cidade adentro, se a hora é de partida sem retorno. Porque de silêncio trajam os nossos rostos, velados de tristeza e de uma estranha melancolia, quando definitiva é a partida e sem remissão. A hora é de silêncio, sim. Silêncio absurdo, dir-se-ia, ao arrepio de uma Primavera que parece despontar com força inusitada. Silêncio entristecido, também, por ser tempo de despedida a contragosto. Silêncio doloroso, sobretudo, por partir com quem parte uma parte de quem fica. Silêncio denso, porque tecido de palavras indizíveis; silêncio sentido, porque semeado de emoções e de afetos; silêncio mal contido, por ter raízes numa imensa ovação a quem parte; silêncio, afinal, silencioso, por respeito a quem parece ter dito já todas as palavras. "A morte tem muitas caras"... Uma cara apenas teve, em toda a vida, aquele que a morte assim definiu.


Gostava das relações estranhamente íntimas e singularmente indefinidas que existem entre professores e alunos, como um canto de sereia no fundo de uma voz trémula que, pela primeira vez, nos revela uma obra- prima, ou nos dá a conhecer uma ideia nova. O maior sedutor não é, afinal, Alcibíades, mas Sócrates.


Nunca mais vi tão peculiar mestre e a rememoração de uma carta de voltaire levou- m, por um estranho despropósito , à notícia da sua morte...

Como se sabe, Virgílio, quando estava prestes a morrer, encarregou os seus amigos de reduzir a cinzas o inacabado manuscrito da Eneida, que reunia onze anos de nobre e delicado trabalho; Kafka encomendou a Max Brod a destruição dos romances e narrativas que lhe asseguravam a fama. A afinidade destes episódios ilustres é, se não estou enganado, ilusória. Virgílio não podia ignorar que contava com a piedosa desobediência dos seus amigos; Kafka com a de Brod. . Para além disso, o homem que realmente quer o desaparecimento dos seus livros não delega a um outro essa tarefa. Kafka e Virgílio não desejavam a sua destruição; eles apenas ansiavam desligar-se da responsabilidade que uma obra sempre nos impõe. Virgílio, creio, agiu por razões estéticas; teria querido modificar esta ou aquela cadência ou um ou outro epíteto. Mais complexo é, segundo me parece, o caso de Kafka. Todo o seu trabalho poderia ser definido como uma parábola ou uma série de parábolas cujo tema é a relação moral do indivíduo com a divindade e com o seu incompreensível universo. Apesar do seu ambiente contemporâneo, está menos próximo daquilo que se convencionou chamar literatura moderna do que do Livro de Job. Pressupõe uma consciência religiosa e, antes de mais, judaica; a sua imitação formal noutros contextos carece de sentido. Kafka encarava a sua obra como um acto de fé e não queria que ela desalentasse os homens. Foi por essa razão que encarregou o seu amigo de a destruir. Podemos ainda suspeitar de outros motivos. Kafka, sinceramente, só conseguia sonhar pesadelos e não ignorava que a realidade se encarrega, sem cessar, de os fornecer. Mesmo assim, tinha-se apercebido das possibilidades patéticas da postergação, que se notam em quase todos os seus livros. Ambas as coisas, tristezas e postergações, acabaram, sem dúvida, por cansá-lo. Teria preferido a redacção de páginas felizes e a sua honradez não condescendeu em elaborá-las.

O animal arranca o chicote das mãos do dono e castiga-se para se converter no dono, sem compreender que isso não é mais do que uma ilusão produzida por um novo nó no chicote.

No templo irrompem leopardos que bebem o vinho dos cálices; isto sucede repetidamente; por fim, consegue prever-se o que acontecerá e integra-se na liturgia do templo.

Eis o mundo de kafka a provar que só o absurdo existe...

Is anything as strange as a normal person?

Making all his nowhere plans for nobody...

Serão mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
- Creio que não - disse Ega. - Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados...


Em terra de cegos, só quem tem um olho é rei. Quem vê com os olhos todos, o corpo todo, a alma toda só pode estar condenado ao exílio e à maldição...

A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.

Durante un segundo de lucidez tuve la certeza de que nos habíamos vuelto locos. Pero a ese segundo de lucidez se antepuso un supersegundo de superlucidez (si me permiten la expresión) en donde pensé que aquella escena era el resultado lógico de nuestras vidas absurdas...

Somos, com efeito, um manicómio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção da normalidade, e onde a rigidez vive por uma concessão da doença. Vivemos em doença crónica, em anemia febricitante O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao estado de (perpétuos) moribundos...Quero que sejamos indiferentes para com uma época que nada pode querer de nós, e sobre a qual em nada podemos agir. Mas não quero que se cante essa indiferença como coisa boa de per si. É isso que faz Ricardo Reis. Por esse ponto, longe de tornar-se indiferente às correntes da época, integra-se em uma delas, que é a decadente. Essa indiferença, é já uma adaptação ao meio. É já uma concessão.

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença.

Ah! Ser indiferente! É do alto do poder da sua indiferença Que os chefes dos chefes dominam o mundo. Ser alheio até a si mesmo! É do alto do sentir desse alheamento Que os mestres dos santos dominam o mundo. Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias...ouvi só a música, e nem a essa ouvi...Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...Com quem?Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...

Máximas

1- Amar é pensar

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


2- Vivemos numa oligarquia de bestas

Acabei de escrever. Detenho-me cansadamente na meditação do quanto, afinal de tudo, é mesquinho e vão o impulso do nosso instinto ainda que quando universo do ferrão de uma justa indignação. Há qualquer coisa de dolorosamente ridículo em estar a uma mesa (...) diante de um tinteiro, a odiar em voz alta homens e coisas. Faz sorrir, ao determo-nos em pensar-nos depois, o ver que Af. Costas, Alexandres Bragas, Bernardinos Machados e radicais lisbonenses e portugueses são realmente e objectivamente parte do universo, da Vida, do mundo, lugares psíquicos onde se encontram as forças basilares e primordiais do dinamismo universal.

3- O suicídio é um impulso como o que leva a deitar cedo.

Atingi à saciedade do nada, à plenitude de coisa nenhuma. O que me levará ao suicídio é um impulso como o que leva a deitar cedo. Tenho um sono íntimo de todas as intenções. Nada pode já transformar a minha vida. Se... se... Sim, mas se é sempre uma coisa que não aconteceu; e, se não aconteceu, para quê supor o que seria se ela fosse?

4- Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender.

Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender . O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analise, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto — uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.


5- Conviver é morrer.

Colaborar, ligar-se, agir com outros, é um impulso metafisicamente mórbido. A alma que é dada ao indivíduo, não deve ser emprestada às suas relações com os outros. O facto divino de existir não deve ser entregue ao facto satânico de coexistir.
Ao agir com outros perco, ao menos, uma coisa — que é agir só. Quando me entrego, embora pareça que me expando, limito-me. Conviver é morrer. Para mim, só a minha autoconsciência é real; os outros são fenómenos incertos nessa consciência, e a que seria mórbido emprestar uma realidade muito verdadeira.


6-Toda a filosofia é uma diplomacia sob a espécie de eternidade.

Cada palavra falada nos trai. A única comunicação tolerável é a palavra escrita, porque não é uma pedra em uma ponte entre almas, mas um raio de uma luz entre astros.Explicar é descrer. Toda a filosofia é uma diplomacia sob a espécie de eternidade (...), como a diplomacia, uma coisa substancialmente falsa, que existe não como coisa, mas inteira e absolutamente para um fim.

7- o verdadeiro destino nobre é o do escritor que não se publica.

O único destino nobre de um escritor que se publica é não ter uma celebridade que mereça. Mas o verdadeiro destino nobre é o do escritor que não se publica. Não digo que não escreva, porque esse não é escritor. Digo do que por natureza escreve, e por condição espiritual não oferece o que escreve. Escrever é objectivar sonhos, é criar um mundo exterior para prémio evidente da nossa índole de criadores. Publicar é dar esse mundo exterior aos outros; mas para quê, se o mundo exterior comum a nós e a eles é o «mundo exterior» real, o da matéria, o mundo visível e tangível. Que têm os outros com o universo que há em mim?

8-Nenhum problema tem solução.

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.


9- Perder tempo comporta uma estética.

Há para os subtis nas sensações, um formulário da inércia que inclui receitas para todas as formas de lucidez. A estratégia com que se luta com a noção das conveniências sociais, com os impulsos dos instintos, com as solicitações do sentimento exige um estudo que qualquer mero esteta não suporta fazer. A uma acurada etiologia dos escrúpulos deve seguir-se uma diagnose irónica das subserviências à normalidade. Há a cultivar, também, a agilidade contra as intrusões da vida; um cuidado (...) deve couraçar-nos contra sentir as opiniões alheias, e uma mole indiferença encamar-nos a alma contra os golpes surdos da coexistência com os outros.
10- Sentir tudo de todas as maneiras.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si-próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como um Deus.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.