Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Mal(es)...

A mulher literata, insatisfeita, inquieta, vazia de coração e de entranhas, que em todos os momentos escuta, com uma dolorosa curiosidade, o imperativo, que desde as profundezas de seu ser, lhe sussurra "aut liberi aut libri": a mulher literata, suficientemente culta para compreender a voz da natureza, mesmo quando esta fala em latim, e, por outro lado, bastante vaidosa e estúpida para, em segredo, dizer também para si própria em francês: " je me verrai, je me lirai, et je m'extasierai et je dirai: Possible, que j'aie tant d ' esprit?" ...

O doente é um parasita da sociedade. Atingindo-se um certo estado é indecoroso continuar a viver. O permanecer vegetando, numa covarde dependência dos médicos e dos medicamentos, depois do sentido da vida, do direito à vida se ter perdido, é algo que deveria acarretar um profundo desprezo por parte da sociedade.

Ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém.

Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo dissipar-se: o amor que termina afasta-se para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenómeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim de minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica.

Ao longo da vida amorosa, as figuras surgem na cabeça do sujeito apaixonado sem nenhuma ordem,porque dependem cada vez de um acaso (interior ou exterior). A cada um desses incidentes (aquele que lhe “cai” sobre a cabeça), o enamorado retira figuras de reserva (do tesouro?), de acordo com as carências, as injunções ou os prazeres do seu imaginário. Cada figura explode, vibra sozinha como um som despojado de toda melodia – ou se repete, até cansar, como motivo de uma música sempre igual.Nenhuma lógica liga as figuras nem determina a sua contigüidade: as figuras estão fora do sintagma, fora da narrativa, são Erínias; agitam -se, chocam-se, acalmam-se, voltam e afastam-se sem nenhuma ordem como um vôo de mosquitos. O dis-cursus amoroso não é dialético; ele gira como um calendário perpétuo,uma enciclopédia afetiva.

Ajo sempre – teimo em agir, não importa o que me digam nem quais sejam os meus próprios desencorajamentos, como se o amor pudesse um dia fazer -me transbordar, como se o Bem Supremo fosse possível. Daí essa curiosa dialética que permite que o amor absoluto suceda sem embaraço ao amor absoluto, como se, através do amor, eu tivesse acesso a uma outra lógica (o absoluto não sendo obrigatoriamente o único), a um outro tempo (de amor em amor vivo instantes verticais), a uma outra música (esse som sem memória, sem construção, esquecido daquilo que o precede e o segue, esse som é em si mesmo musical). Procuro, começo, tento, vou mais longe, corro, mas nunca sei que acabo: não se diz da Fénix que ela morre, mas apenas que renasce (posso então renascer sem morrer?)

A errância amorosa tem os seus aspetos cómicos: parece uma dança, mais ou menos rápida conforme a velocidade do sujeito infiel; mas é também uma grande ópera (Wagner). O Holandês maldito é condenado a errar sobre o mar até encontrar uma mulher de uma fidelidade eterna. Sou esse Holandês Voador; não posso parar de errar (de amar) por causa de uma antiga marca que me destinou, nos tempos remotos da minha infância profunda, ao deus Imaginário, que me afligiu de uma compulsão de fala que me leva a dizer “Eu amo -te”, de escala em escala, até que qualquer outro escolha essa fala e ma devolva mas ninguém pode assumir a resposta impossível (que completa de uma forma insustentável), e a errância continua.

Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: porque desejo Esse?…

Na distância imprecisa, meu amor, ignoramos de nós sequer a latitude. Contudo, provavelmente o mesmo sol cobre os nossos corpos ávidos de luz e de acontecer, os mesmo rostos (ou serão outros?) da mesma gente envolvem os nossos passos, os mesmos ruídos, o mesmo bombardear de factos e de ideias, a mesma música flutua nos nossos cabelos, o mesmo vento impele-nos na busca de horizontes claros e do mar, cheiro de algas penetrante, doçura do pôr do sol e das tempestades na barra.(…) Como serás tu que imagino mais do que recordo – a memória traz consigo também o esquecimento, continuando embora memória de gestos repetidos – com quem te encontras, como pensas, que brisas novas suavizarão o teu sangue inquieto.Na distância imprecisa que o tempo traz, recordo vagamente o teu rosto rude e já marcado, a ternura inconsistente e macia da areia deslizando nas nossas mãos.

Tento recordar o teu rosto... Curioso, como às vezes nos escapam os traços da pessoa amada. Situo-te num passado já distante. Não te imagino num presente.De ti resta-me o que foste comigo.

Algures tu és, aqui eu sou.Porque imprecisa, a distância resolve -se na certeza vaga de existirmos num como e num onde. Tanto basta. [pergunta ou afirmação?] Não há passos que nos aproximem no impreciso e no vago. O nosso reencontro está só na certeza vaga de existirmos com outros, sob o mesmo sol. Melhor assim.

De amor não falemos. De que serviria dar nome ao que encerra somente o equívoco? Somos e não somos sós. E depois ser só não é ser só. Não estamos sós. Temo-nos um ao outro na distância e na ausência, que são só acidentes e nada de essencial atingem. Temo-nos no que ficou do fugidio encontro, na ternura renovada que nos inventamos ou recriamos. Ou na lembrança.


Não há mal como o ciúme: Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo por sê-lo, porque temo que o meu ciúme ofenda o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.

28 de agosto de 430: Morre Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, Doutor da Igreja...
Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagasta (Argélia) e terá sido o impulsionador da primeira tentativa sistemática para a harmonização da Filosofia e da Teologia, conciliando elementos de origem platónica e neoplatónica com os preceitos da revelação. Por palavras suas, procurou «crer para entender e entender para crer» com o objetivo de integrar num corpo doutrinal coerente as verdades da fé. Filho de Patrício, pagão, e Santa Mónica, fervorosamente cristã, viveu uma juventude dissoluta mas sempre atormentada pela busca da verdade e da felicidade. Depois de ter abraçado e renegado várias doutrinas, deixou-se vencer pelo ceticismo e só tardiamente se converteu à religião cristã.
O núcleo do sistema agostiniano reside exatamente na superação do ceticismo e da dúvida que, num percurso que encontrará paralelo em Descartes, o conduz ao primado da certeza imediata da experiência interior: mesmo quando duvida, o homem tem de admitir que vive, recorda, conhece e quer, de onde lhe advém a certeza que existe, e que, ainda que erre em tudo o resto, pode ter como seguro que até para errar tem de existir. Além disso, só é possível pôr em causa os dados do mundo exterior quando existe algum padrão superior de Verdade. De facto, na razão, o ser humano encontra certas verdades necessárias e universais - os princípios lógicos e matemáticos, assim como as ideias de Uno, de Bem e de Belo -, cuja origem não pode estar na experiência sensível. O mesmo acontece com a generalidade dos conceitos, cujas especificações não podem ser extraídas da simples sensibilidade, pressupondo ideias determinadas apenas acessíveis por via intelectual.

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu sobre Fernando Pessoa: «Não há revolta na sua vida. Apenas uma mágoa parecida com desdém.» Esta frase também podia tê-la escrito sobre Paulo José Miranda...

José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Herberto Helder disse que ele era «o único jovem romancista português que conseguia ler». De escritor-promessa da geração de 1990 a persona non grata do meio literário português, eis Paulo José Miranda. Um ilustre desconhecido, agora a viver no Brasil.

Tinha 27 anos quando decidiu mudar de vida, 30 quando escreveu o primeiro livro, 34 quando recebeu o Prémio Saramago. Mas nunca saiu da penumbra, embora não tenha passado despercebido num certo meio literário lisboeta que se reunia todas as tarde numa leitaria das Escadinhas do Duque e onde paravam, entre outros, os poetas António Cabrita e Herberto Helder. Nunca deu uma entrevista. Nunca escreveu crónicas em jornais nem apareceu em programas de televisão. Porquê? «Porque nunca me convidaram», responde com alguma indiferença. Quase anónimo, quase celebridade, PJM regressou a Portugal em 2003 depois da rutura com a cineasta Pelin Esmer e com o seu editor de sempre André Jorge (Cotovia). Continuou a escrever compulsivamente. Mas para ele tal como para as personagens que foi criando a morte torna-se, por vezes, um lugar demasiado atraente. Sobre estes tempos sombrios PJM diz apenas: «Por vezes é preciso morrer para ver melhor. Morrer para renascer.» Agora em Curitiba escreve, reescreve, toca, reinventa-se. Por necessidade, por fatalidade. Áurea, a nova companheira, é advogada e ajudou-o a tratar da documentação. «Agora até já tenho o Cartão de Cidadão», diz, rindo.
Numa estranha coincidência, quando a Notícias Magazine preparava esta entrevista, Paulo recebeu a proposta editorial mais prometedora dos últimos anos: Gonçalo Bulhosa, da editora Oficina do Livro, queria editar não só os seus novos romances como reeditar toda a obra anterior. Filhas, que chegou às livrarias no início de julho, é o romance que promete abrir a nova fase da vida de Paulo José Miranda e, quem sabe, colocá-lo definitivamente nas rotas literárias dos portugueses, porque afinal, como ele próprio escreveu um dia, «só sofremos de amor e de uma obra por cumprir». 5 de janeiro de 2013, artigo de Joana Emídio Marques

"Não me parece, com toda a sinceridade, que a minha obra algum dia tenha sido presente. Ganhei dois prémios, sim, o primeiro prémio José Saramago evidentemente foi o mais importante pelo escritor que lhe dá nome, pelo significado e pela atenção mediática que lhe é conferido, mas os meus livros foram e continuam a ser lidos por poucos. Infelizmente ou felizmente, não sei, não sou um autor muito comercial. E isso foi muito bem entendido pelos jornais e revistas, pois, enquanto todos os outros autores vencedores desse prémio foram convidados para escreverem com regularidade aqui e ali, a mim nunca o fizeram. E isso, evidentemente, tem a ver com a compreensão, muito correcta, do que é a minha escrita." - Entrevista, em 24 de junho de 2014

O mal - Um professor de português prepara, em Macau, uma dissertação sobre a vida e obra de Camilo Pessanha , encontrando, à medida que o lê, paralelos consigo próprio e com a sua vida...Aos poucos, por meio das palavras do próprio Pessanha, vamos acompanhando as reflexões e a vivência deste professor/ narrador...

Muitas vezes senti a meio da ponte vontade de me atirar à lama. Sem nenhuma razão, apenas uma vontade de desaparecer numa substância desconhecida, lembrando " A minha alma é lânguida e inerme/ Oh!Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme...A verdade é que também não tenho para onde ir. Pior, não sei para onde ir. Mais do que uma vontade de morrer, é uma desvontade de viver, como em Pessanha.

Aprendera que qualquer ser humano deve ser possuído ligeiramente alcoolizado, tal como a carne que vai a cozinhar, tem outro sabor. E no momento em que as almas dirigem as energias para a sua completude no gozo, todas as mentiras são verdade... No dia seguinte quando acordou, antes de mim, começou a beijar-me a glande.Era o modo de me agradecer o que se tinha passado horas atrás... Sexo com alguém que nos atrai é somente uma das coisas agradáveis da vida, mas apenas alguns momentos antes de acontecer, o momento durante e alguns momentos depois. ...Só me interessa o sexo porque existe, e quando existe; o amor interessa-me porque, não existindo, exerce uma força que pode ser utilizada por quem saiba da sua inexistência.

Ela considerava o meu cinismo excitante, embora nunca soubesse o que lhe estava a acontecer, até ao dia em que tudo acabou...Mesmo muito depois do divórcio, sempre que os olhos dela se cruzavam com os meus, via o mal infligido gravado no seu rosto. E não há maior prazer para a alma do que assistir a uma vida moribunda pelo mal que lhe infligimos.

Será que poetas como Pessanha e Pessoa não nascem para ter corpo? Ou será que envelhecem cedo demais para ter um? Pois a incondicional entrega ao desperdício dos seus próprios corpos, um através do ópio, o outro através do álcool, revela uma de três coisas: ou a humilhação do corpo ou o seu desprezo ou uma incompreensível inaptidão a ele ( como se eles não fossem corpo.)

Aquilo que, para mim, é particularmente angustiante é não poder saber se me perdi, porque a partir de um determinado momento passei a viver neste mundo distante, ou se me perdi porque não me esforcei o bastante ou somente porque não tenho capacidades suficientes para não ter deixado de me perder.

Maria foi o único ser humano de quem consegui sentir-me verdadeiramente próximo.(...)Compreendi então que o ódio não chega. O ódio é a base, o chão que sustenta qualquer interpretação, não é o método. O método é a mentira. Mentir aproxima-nos dos outros. O ódio é privado, secreto e revela muito claramente que estamos sós. Este solipsismo só será ultrapassado com a mentira.(...) Maria não é a Ana de Castro de Pessanha. De um modo estranho, a Maria é o Pessanha. Também para ela o amor está do outro lado do mundo.(...)No fundo, tornei-me crente com a Maria. Passei a acreditar piamente na mentira como aquilo que une os homens.(...). Da última vez que a vi, Maria já não era uma deusa, mas uma mulher.A idade fizera-a perder o fôlego , a originalidade. Andava a escrever um romance, dizia, e esquecera por completo a mentira. Mais ainda do que perder uma irmã e um doce incesto, o que verdadeiramente me custava era ver aquela mulher , que já havia sido um exemplo para mim vulgarizar-se...


domingo, 30 de abril de 2017

O mal e o bem...

Cause it's a bittersweet symphony, this life... You know I can change, I can change I can change, I can change But I'm here in my mold I am here in my mold And I'm a million different people from one day to the next I can't change my mold No, no, no, no...



Maldições: horrores e traições...

Ó vestidas razões! Dor que é vergonha
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo(...)
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Está o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!


Mas eu não ouso. Ó horror e tortura! O transcendente horror de um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser, O mistério encarnado em nu e sólido. A nudez(...) Há entre alma e alma um abismo.Saber Que me está vendo uma alma em (...), nudez E acto de amor!Não a nudez da estátua, Mas a nudez viva, cheia de olhar-me Até que me apavoro de pensá-lo. Nem tenho gestos para saber amar...

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!


A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro acto se representou. Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva. O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, um halo de gelo que repele os outros. Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia. Nunca dei crédito à amizade que me mostraram, como o não teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que, aliás, seria impossível. Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles — tão complexo e subtil é o meu destino de sofrer. Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim.
Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim...Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético — e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia.


Não tive consciência de que a terra tremeu. José Saramago sim, e descreve-o na “Jangada de Pedra”. Eu não. Senti tudo isso com uma enorme naturalidade. Saí do encontro com ele e disse: “Vai acontecer qualquer coisa!” Cheguei a Espanha, e a primeira coisa que fiz foi telefonar à pessoa com quem namorava na altura para lhe dizer que não íamos continuar. Passou junho, julho, agosto. Em setembro recebi uma carta: “Se as circunstâncias da vida mo permitirem, gostaria de te ir ver.” Já me tinha dado recomendações de leitura, a nossa correspondência nesse sentido era quase ditatorial. Eu tinha de ler “Uma Família Inglesa”, de Júlio Dinis, o “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís, a Lídia Jorge..

Ie knsci womu muchan in dadi mey ocey du vidol od wamod di, shanaofmbio. Nenu lile du emvmi m...

E quem é esta mulher? Alguém que não quer morrer numa “decadência ostensiva”. Que não corresponde, nunca correspondeu, a estereótipos ou normas sociais. Que acorda todos os dias para viver “da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido. Uma “maldição” que ainda hoje, sete anos passados sobre a morte de José Saramago, a afasta de refazer a vida, porque, simplesmente, não lhe apareceu à frente outro igual a ele.

Dedico-me à vida, aos meus irmãos, e se na vida está o meu marido dedico-me a ele; se está a fundação, dedico-me a ela. Ou seja, sou uma mulher dedicada. Mas, sim, dediquei-me a ele de corpo e alma, sabendo que era uma pessoa inesgotável. Começava uma conversa que nunca dava por terminada, porque tinha sempre pontos de vista diferentes, tal como a sua literatura. Era uma pessoa com uma formação infinitamente superior à minha. Foi uma maldição. Maldição? Sim, depois de o ter conhecido já não consegui gostar de mais ninguém.

Deem-me outro. Só teria reconstruído a minha vida se tivesse aparecido alguém assim por quem me apaixonasse.


De que servem as flores que nascem pelo caminho? Essas flores são um bem um um mal?

Sempre me perguntei como é que as pessoas se atreviam a contrair casamento- e têm-se atrevido ao longo dos séculos - quando este possuía um carácter definitivo; em especial as mulheres, a quem era mais difícil encontrar consolos, ou deviam esmerar-se o dobro ou o triplo a ocultá-los...

O chão é o lugar mais estável, firme e modesto que existe, com a melhor perspectiva do céu e do tecto, e onde melhor se pensa.(...) daqui ninguém pode cair nem cair mais baixo o que é uma vantagem quando se trata de tomar decisões; deveríamos tomá-las sempre a partir da pior das hipóteses, para não dizer partindo do desespero e da sua acompanhante habitual, a vileza, assim não amoleceríamos nem seríamos levados ao engano.

Neste sentido, o livro é uma "escola do cavalheiro", considerando-se esse conceito de modo mais intelectual e radical do que tem sido até agora. É necessário ter coragem no corpo, ainda que simplesmente para aceitar esta interpretação, é preciso desconhecer o medo. Todas as coisas de que se ufana a nossa época são consideradas como contrárias a este tipo, quase "modos nocivos", por exemplo, o famoso "objetivismo", a "compaixão pelos sofredores", o "sentido histórico" com a sua submissão ao gosto exótico, com sua banalidade diante dos petits laits, o "espírita científico."

Supondo-se que a verdade seja feminina — e não é fundada a suspeita de que todos os filósofos, enquanto dogmáticos, entendem pouco de mulheres? Que a espantosa seriedade, a indiscrição delicada com que até agora estavam acostumados a afrontar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar uma mulher? O que há de certo é que essa não se deixou cativar — e os dogmáticos de toda a espécie se voltaram tristemente frente a nós e se desencorajaram.

A falsidade de um juízo não pode constituir, na nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmações mais surpreendentes da nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez coloca -se , apenas por este facto, além do bem e do mal.

O amor, que vem procurado como sensação necessária à felicidade da vida, perde dois terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem todas as delícias puras que não correm perigos de empestarem-se em contacto com as da terra.

Ainda que o contrário se afigure a pessoas que têm a boa sorte de não escrever romances, a conclusão de um livro desta espécie é dolorosa de fazer-se, quer as personagens tenham existido, quer vivessem, como quimeras queridas, na fantasia do escritor. É doloroso digo. porque há aí um facto formidável e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte.

Ocorre desta história...que o coração do homem, formado na ciência e nos costumes antigos, encerra a urna dos bálsamos para as chagas dos corações formados à moderna.

I don't have to think I only have to do it The results are always perfect And that's old news...



A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.


Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produz se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente. Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei um amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for.

Aquela malícia incerta e quase imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos, acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro, quando não tem direito de o fazer.