Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Sombras, Sonhos...


    Para o ocidente, o mais importante aliado da beleza é luz; para a estética tradicional japonesa, o essencial está na sombra... 


 Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficiail e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados... 

  A minha intenção ao escrever isto era a de colocar a questão de saber se ...nas letras e nas artes não subsistiria alguma maneira de compensar os estragos. Quanto a mim, gostaria de fazer reviver , pelo menos no domínio da literatura, esse universo de sombra que estamos prestes a dissipar.

Na penumbra da casa, ao sol da beira -rio, junto dos barcos, e à sombra do bosque amarelado e da figueira, nasceu Siddhartha, o belo filho do brâmane...

O filho permaneceu silencioso e imóvel,de braços cruzados. O pai, silencioso e imóvel, continuou sentado na esteira. E as estrelas iam passando no céu.


Via muito bem como os mercadores faziam negócios, como os potentados iam à caça, os enlutados choravam seus mortos, as meretrizes se ofereciam, os médicos cuidavam de seus pacientes, os sacerdotes fixavam o dia apropriado para a semeadura, os namorados enlaçavam-se, as mães amamentavam os filhinhos... Mas nada disso era digno de ser olhado. Tudo era mentira..



A ampla fachada principal do castelo era feita de pedra clara e suas grandes janelas davam para o Reno e os canaviais, e além para uma paisagem aberta e brilhante de água, juncos e relva onde, mais longe, as montanhas arqueadas de azul as florestas formaram uma curva suave que seguiu o deslocamento das nuvens; Somente quando o Foehn, o vento sul, soprou, os castelos e casas de fazenda brilharam, minúsculos prédios brancos à distância. A fachada do castelo refletia-se no riacho calmo, alegre e frívolo como uma menina; os arbustos do parque deixavam seus galhos verde. 
"Jogo de Sombras"

Havia um certo homem que exercia a profissão bem pouco considerada de novelista, mas que, no entanto, pertencia àquele grupo de literatos que fazem todos os possíveis por a levar a sério e aos quais, alguns entusiastas, concediam uma veneração semelhante àquela que em tempos, quando ainda havia poesia e poetas, costumava conceder-se aos verdadeiros artistas. Este literato escrevia muitas coisas bonitas: escrevia romances, contos e ainda poesia, e dava-se ao inimaginável trabalho de o fazer bem feito. Todavia, raramente conseguia corresponder às suas aspirações, pois tomando-se embora por uma pessoa modesta cometia o erro de, arrogantemente, não se confrontar com os seus colegas e contemporâneos, seguindo-lhes o exemplo, mas sim com os poetas dos tempos antigos, aquele, portanto, que se haviam afirmado ao longo de diversas gerações. Então, para seu próprio desgosto, tinha de reconhecer sempre de novo que, mesmo a sua melhor página, a mais perfeita, se achava bem distante da frase ou do verso mais esquecido daqueles verdadeiros poetas. E, assim, ele foi-se tornando sempre mais descontente (…)

Durante todo o dia, o literato manteve-se ocupado com o seu sonho e, quanto mais profundamente se embrenhava nele, mais belo lhe parecia, mais lhe parecia superar todos os poemas dos melhores poetas. Longo tempo, e por vários dias, ele perseguiu o desejo e os projectos para narrar este sonho, de tal modo que não só para ele que o sonhara, mas também para os outros, possuísse esta beleza inqualificável e esta mesma profundidade e interioridade. Somente muito mais tarde ele abdicou destes desejos e tentativas, e viu que teria de concentrar-se por ser um verdadeiro poeta, um sonhador, um visionário na sua alma e que a sua obra manual, todavia, teria de permanecer  a de um simples literato.   "Andanças de um Sonho"

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu e o(s) Fausto(s)...

Que atrás dos tempos vêm tempos E outros tempos hão-de vir Eu sei de histórias verdadeiras Umas belas Outras tristes de assombrar...



Após esta anacrónica introdução, deixando de lado as várias interpretações do mito de Fausto, é de salientar a convicção, relativamente consensual, de que o Doutor Fausto existiu, provavelmente na Alemanha, entre 1480 e 1540. Terá sido registado como um falso médico, humanista, alquimista, mago, ousado cavaleiro andante, praticante de milagres, impostor, lascivo e homossexual... Depois de sua morte, é associado a histórias que pretensamente confirmavam a existência de um pacto entre ele e o Diabo. O primeiro texto sobre Fausto, Historia Von D.Johann Fausten, de autoria desconhecida, surgiu em 1587, na Feira de Frankfurt...

A História trágica da vida e morte do Doutor Fausto, escrita por marlowe, em 1588 ou em 1592, com base na história anónima do Dr. Fausto, datada de 1587, é publicada, pela primeira vez, em 1604.


Sê médico, fausto, junta ouro
E torna-te eterno por cura maravilhosa.
Summum bonum medicinae sanitas.
A saúde do corpo é o que visa a medicina.
Não alcançaste já, Fausto, tal fim?
Não se julgam aforismos os teus ditos?
Não se erguem, como monumentos, as receitas
Com que baniste a peste das cidades,
E curaste mil maleitas incuráveis?
Contudo, ainda és só Fausto, apenas um homem.



Fausto partiu: atentai na sua queda,
No seu infernal fado. Que ele exorte os prudentes
À mera admiração das coisas proibidas,
Cujo abismo aos audazes, como ele, incita a mente
A maiores cometimentos do que o Céu consente.
Sai.
Terminat hora diem. Terminat Author opus.


1808
Estudei com ardor tanta Filosofia,
Direito e Medicina,
E infelizmente até muita Teologia
A tudo investiguei com esforço e disciplina,
E assim me encontro eu, qual pobre tolo, agora,
Tão sábio e tão instruído quanto fora outrora!
Primeiro fui Assistente e em seguida Doutor,
Dez anos a ensinar, autêntico impostor
A subir e a descer por todos os lados
Estudantes à volta em mim sempre grudados
E chego ao fim de tudo ignorante em tudo!
Coração a ferver! Para quê tanto estudo!


CHORUS MYTICUS
Tudo o que passa
É símbolo só;
O que não se alcança
Em corpo aqui está;
O indescritível
Realiza-s aqui;
O Eterno - Feminino
Atrai-nos para si.
FINIS


1844 / 1854


1926


Sem data / 1988
(after running away. (He never loves))
Não sei viver! nem fui para viver
Destinado; porquê então a vaga
Aspiração que tenho?
( ...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.


Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)



1947
( "Thomas Mann pertenceu a esse pequeno grupo de espíritos prudentes e tortuosos por natureza,(...) verdadeiramente conservadores, na medida em que não perdem o que quer que seja de uma acumulação de riquezas milenárias e, no entanto, subversivos na contínua reinterpretação do pensamento e da conduta humana" - Marguerite Yourcenar )

Faço questão de assegurar com toda a clareza que não tenho qualquer intenção de colocar a minha pessoa em lugar de destaque...antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkunhn.(...) Porém, em última análise, ou melhor, em primeira, eu amei-o, com horror, ternura, compaixão e admiração devota sem sequer me interrogar se ele, por pouco que fosse, correspondia aos meus sentimentos. Não, não o fez. No papel em que me transmitiu os esboços de composições e as páginas do diário, encontrados no espólio, expressa-se uma confiança, sem dúvida honrosa para mim, confiança na minha escrupulosidade, lealdade e correcção. Mas, amar-me? Quem teria amado esse homem? (...) A quem teria Adrian aberto o coração?... Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro , sem a perceber. A sua indiferença era tão grande que apenas raras vezes se dava conta da companhia em que estava e do que se passava ao seu redor(... )Inclino-me a comparar a sua solidão com um abismo, no qual se afundavam, sem ruído nem rasto, os sentimentos que os outros lhe ofereciam.

A 25 de Agosto de 1940, recebi aqui em Freising a notícia de que se haviam extinguido os restos de uma vida que dera à minha própria a sua substância essencial, em matéria de amor, angústia, pavor e orgulho. Junto da cova a erta, no pequeno cemitério de Oberweiler, estavam comigo, além dos parentes, ... e ainda uma senhora estranha, irreconhecível sob o seu véu. Enquanto as primeiras pazadas de terra caíam sobre o caixão, esta desapareceu.
roficamente.
A essa altura, a Alemanha, as faces ardentes de febre, no apogeu de selvagens triunfos, cambaleava, ébria, a ponto de conquistar o mundo, graças a um pacto ao qual tencionava manter-se fiel e que assinara com seu sangue. Hoje, cai de desespero em desespero, cingida de demónios, cobrindo um dos olhos com a mão e cravando o outro num quadro horroroso. Quando alcançará o fundo do abismo? Quando raiará, em meio à derradeira desolação, um milagre superior a qualquer fé, a luz da esperança? Um homem solitário junta as mãos e diz: ‘Que Deus tenha misericórdia de vossas pobres almas, meu amigo, minha pátria!’



Abro , aqui , um parêntesis para citar herman hesse (1927): «…essas fatais relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã (…) uma hegemonia da música, como não se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, sonhamos todos com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprimível, que possa representar o irrepresentável. Em vez de tocar o seu instrumento da forma mais fiel e honesta possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra, seduzindo a música».

Esta atração fatal está bem presente em doutor fausto.




1967

1987 ...........................................................................................2001..................


2009
Na encenação do Fausto, de Gounod (1818-1893), concebida pelo alemão Christof Loy, o protagonista não está encerrado no seu gabinete num cenário quinhentista, a refletir sobre a vida e o conhecimento, mas está em frente a um aparelho de televisão, num lar de idosos do século XX. Mefistófeles faz a sua primeira aparição de forma teatral, saltando de um palco em traje do século XVI, mas depois do pacto de devolver a juventude a Fausto também ele dará um salto no tempo. Vestida de luto, com um crucifixo ao peito, vemos inicialmente Margarida como uma das funcionárias do asilo...

terça-feira, 18 de abril de 2017

Eu e Dosto...

- Porque não fazes nada?
- Eu faço...
- O quê?
- Um trabalho...
- Que trabalho?
- Penso
.

Olho para a estante, percorro-me e descubro-me: gosto de livros porque não consigo gostar das pessoas, como gente, como seres humanos, só consigo, excecionalmente, gostar de indivíduos.
É muito fácil viver fazendo-se de idiota. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui, agora, feito um imbecil.

Onde é que eu li aquilo de um condenado à morte que, no momento de morrer, dizia ou pensava que, se o deixassem viver num alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, eterna solidão e tempestade perene -, e tivesse de ficar assim, em todo esse espaço de um archin, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim do que morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!

( Seria uma forma interessante de aferir uma existência: o número de centímetros que os livros de um determnado autor ocupam numa estante.. A olho nu, pessoa e heterónimos, gmt, saramago, eça, dosto e camões estarão em primeiro lugar.)

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski morre, em São Petersburgo, no dia 9 de fevereiro de 1881... 1+8 = 9 / 8-1=9, noves fora nada.
Conheci dostoiévski ( só muito, muito mais tarde, se tornaria " dosto"... ) da pior ou da melhor maneira possível: o primeiro romance que li foi crime e castigo.Nunca reli, nem tenciono fazê-lo.

Muito; havia já muito tempo que se enraizara e crescera nele toda a tristeza atual; nos últimos tempos acumulara -se e reconcentrara-se, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que lhe torturava o coração e a alma, reclamando uma resposta urgente. (...)Era evidente que agora não se tratava de ficar triste, de sofrer passivamente, fazendo apenas apreciações acerca da insolubilidade daqueles problemas, mas de fazer impreterivelmente qualquer coisa, imediatamente, o mais depressa possível. Fosse o que fosse, era preciso tomar uma decisão ou... "Ou renunciar completamente à vida!", exclamou de repente com raiva. "Aceitar o destino docilmente, tal como é, de uma vez para sempre, e abafar tudo no seu íntimo, renunciando a todo o direito à ação, a viver e a amar! "Compreende, meu senhor, o senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir?", de repente veio-lhe à memória a pergunta que Marmieládov lhe dirigira na noite anterior. "Porque todo homem precisa de ter algum lugar aonde ir!"

Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto , passa a desrespeitar -se a si e aos demais.

A perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais razoável de cada ateu.

Ele [Ivan Karamázov] declarou em tom solene que, em toda a face da Terra, não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amar os seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural, mas tão-só ao facto de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou […] que é nisso que consiste toda a lei natural, de modo que, destruindo-se nos homens a fé na sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem, mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre…

Traduções... “Se Deus não existe, tudo é permitido” é uma famosa falsa citação, cuja origem está num excerto, já quase do final do romance, no livro XI, capítulo 4, no momento em que Aliosha discute com Mítia sobre Rakitin. Mítia critica o cinismo do último e conta que o questionou, dizendo: “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?” . Na tradução de Nina e Filipe Guerra, página 309, " Mas, então,como é que o homem vai viver? ... sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?". Em síntese:

1. “Se Deus não existe, tudo é permitido” , versão mais divulgada...
2. “Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?”
3. sem Deus e sem a vida eterna? Nesse caso tudo é permitido não é?".

Vi-me, envolvida, quase por acaso, numa polémica deveras interessante: parece que há tradutores que, despudoradamente, afirmam deturpar o texto...Interessou-me, mas não é meu objetivo , nestas minhas leituras, falar sobre tal assunto, até porque não sei russo...

Reli ultimamente, embora não na íntegra, e tenho andado a tentar ser aliócha...

Seguiu-se O jogador, um romance considerado " menor", que se revelou, na época, a minha escolha. Ainda recordo a emoção de jogar roleta, algo que só experimentaria anos mais tarde...

- Le jeu est fait! - gritou o croupier. A roleta girou e saiu o treze. Perdemos!
- Mais, mais, mais! Põe mais! - gritava a avó. Eu já não a contrariava e, encolhendo os ombros, apostei mais doze fredericos no zero. A roleta girou demoradamente. A avó tremia ao seguir o movimento da roleta. «Estará a pensar que sai outra vez o zero?» - pensava enquanto olhava espantado para ela. Do rosto dela irradiava a profunda convicção de que ia ganhar, a esperança certa de que iam já gritar zero! A bolinha imobilizou-se numa casa.
- Zero! - gritou o croupier.
- Viste!!! - a avó estava voltada para mim num triunfo louco.
Também eu era jogador - senti-o nesse mesmo instante. Tremiam-me as mãos e as pernas, andava-me a cabeça à volta.


Não somente se afastou da vida, dos seus interesses próprios e dos interesses sociais, dos seus deveres de homem e de cidadão, dos seus amigos (pois os tinha), não somente se afastou de todo e qualquer objetivo que não seja o de ganhar, como até mesmo das suas recordações...

Mas será possível,será possível que seja assim tão infantil? Será que não compreendo que sou um homem perdido? Mas, porque não poderia ressuscitar? Bastaria por uma vez ter caráter, e numa hora poderia mudar toda a minha vida.

Experimenta-se uma sensação muito especial quando, sozinho, numa terra estranha, longe de parentes e amigos, sem saber o que se vai comer dali a pouco, se aposta o último florim, exactamente o último! Ganhei e, vinte minutos depois, saía do casino com cento e setenta florins no bolso. Foi um facto! Eis o que, por vezes, pode significar o último florim! E se agora perdesse a coragem, se não me atrevesse a tomar uma decisão?
Amanhã, amanhã tudo isto acabará
.

Li, em seguida, o eterno marido...

ele mesmo compreendia que o que havia tão cedo envelhecido não era a quantidade mas, por assim dizer, a qualidade dos anos, e que se se sentia enfraquecer antes da idade, era mais depressa por dentro do que por fora ...

de que servem tais recordações, quando não sei nem mesmo libertar-me suficientemente de mim no presente?

É uma dessas mulheres, pensava ele, que nasceram para ser infiéis. Não há risco de que mulheres dessa espécie caiam enquanto são donzelas: é lei de sua natureza esperarem para isso que estejam casadas. O marido é o primeiro amante delas, porém jamais antes do casamento. Não há mulheres mais honestas do que elas para o casamento.

O homem dessa espécie vem ao mundo e cresce apenas para se casar e, logo que casa, torna-se imediatamente algo de complementar da sua mulher. (...)E o maravilhoso é que com tudo isso não se podia dizer que aquele marido vivesse sob o chinelo de sua esposa. Natalia Vassílievna mostrava toda a aparência da mulher perfeitamente obediente e talvez ela própria estivesse convencida de sua obediência.

O isolamento torna o protagonista num idealista capaz de se apaixonar por mulheres que não existem realmente, mas que ,nem por isso, deixa de desejar, acreditando que um dia virá em que esse desejo se torne realidade, à semelhança de um sonho que se vive intensamente.
Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente quando estamos ambos de bom humor. Recentemente, como não nos víssemos há já dois dias, ao terceiro, quando nos encontramos, íamos já a levar as mãos aos chapéus, mas reprimimos a tempo essa intenção.

Que seja claro o teu céu, que seja luminoso e sereno o teu doce sorriso e bendita sejas pelos minutos de felicidade e de alegria que deste a outro coração solitário e agradecido.Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Não será isso o bastante para preencher toda a vida de um homem!
( Quando li o estrangeiro de camus, pela primeira vez, tive a certeza de que já tinha lido esta ideia, mas, na época, não me consegui lembrar em que romance...Compreendi , então , que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.
Só há pouco tempo, ao reler noites brancas, tive a revelação...Fui feliz nesse momento.Fui-o outrora agora...

Certo homem(...) ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, era -lhe lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer. Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e, muitas vezes, depois, eu interrogava -o sobre isso. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, rodeado de soldados e populares, havia três postes fincados no chão, pois eram vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento . E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao despedir -se dos camaradas ocorreu-lhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles…
A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta ideia lhe veio com tal furor que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!…


Os dois romances que se seguem já foram lidos pelo meu eu atual. Registo alguns sublinhados e uma apreensão...

Será que é possível,será que é concebível um homem ter qualquer respeito por si mesmo se no seu sentimento próprio de auto-humilhação ousou encontar prazer?

Eu inventava para mim fantasmas e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida.

Em qualquer dos casos,a civilização tornou o homem,senão mais sanguinário,de certeza sanguinário de maneira mais feia, mais ignóbil do que antes.

O que eu fazia ,sobretudo em casa era ler. Queria que as impressões exteriores viessem abafar o que fervia sem parar no interior de mim. E as únicas impressões exteriores, para mim, vinham da leitura.

Eram quase oito da manhã quando o conselheiro titular Iákov Petróvitch Góliádkin acordou do seu longo sono, bocejou, espreguiçou -se e, finalmente, abriu por completo os olhos.

Desconfiado,começou por verificar tudo o que tinha escrito - e não percebia nadado que escrevera. Por fim, o outro senhor Goliádkin, que até então tinha estado sentado e sisudo,levantou-se e desapareceu pela porta que dava para outra repartição.

Gostei, sem entusiasmo, sem emoção, mas gostei. Ficou-me uma apreensão: saramago terá conhecido este romance, quando escreveu o homem duplicado??
O homem que acabou de entrar no loja para alugar uma casse vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso.

Comprei O Adolescente, folheei, informei-me sobre, mas , afinal, não acabei de ler...Registarei a sinopse oficial da wook, porque,assumidamente, tenho horror vacui (A minha paradoxal faceta barroca ...)

"O Adolescente (1874-1875) é o menos conhecido dos cinco longos romances produzidos por Dostoiévski, entre 1866 e 1880, o seu período de plena maturidade literária. Escrito na primeira pessoa, é a história de um filho ilegítimo. Mais um herói humilhado e ofendido, que cresceu entre estranhos, sem quase ter visto a mãe nos seus primeiros anos de vida, e atormentado por uma existência parental «dupla» - o pai biológico e o marido de sua mãe, que lhe deu o nome – divisão acentuada ainda pela diferença de estrato social entre essas figuras parentais. A história de Arkádi é assim uma espécie de «educação sentimental», extremamente complexa pela multiplicidade de contradições que dividem o jovem. Todos os grandes temas de Dostoiévski estão aqui presentes: a luta entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, a degradação moral inerente à condição humana e a possibilidade de redenção...Dostoiévski evidencia, nesta obra, os sinais terríveis que são o reflexo dessa dicotomia em todos os estratos da sociedade russa, nos meados do século XIX."

O meu horror vacui conduz-me, por mero acaso, a um grupo de que nunca ouvira falar e o tema darkness pareceu-me bem adequado para encerrar este dia dedicado a Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski...


In darkness I will feel alright... You are so dark, You are so dark...


You don't know my mind You don't know my kind Dark necessities are part of my design... Do you want this love of mine The darkness helps to sort the shine Do you want it, do you want it now Do you want it all the time But darkness helps us all to shine Do you want it, do you want it now...

Post scriptum
Existe na minha estante, mas não o li nem me apetece fazê-lo. Nunca me cativou: nem no passado nem no presente ...
Fica uma breve nota e uma curiosidade: O livro Recordações da Casa dos Mortos resulta da experiência que Dostoiévski viveu na prisão de Omsk, na Sibéria. Curiosa a semelhança no modo de introduzir o romance , entre dosto e Hermann Hesse, em O Lobo das Estepes.


O dia decorrera como de resto os dias costumam decorrer; matara o tempo, matara-o com suavidade, com aquele meu modo primitivo e acanhado de levar a vida...

Mais uma similitude...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Perversidade? Desalento, copos e bebidas...

A literatura é naturalmente perversa... O moralismo é a antítese da Literatura. A Literatura começa precisamente quando recusamos ser moralistas e instintivamente somos perversos. Quem escreve não pode olhar para onde toda a gente está a olhar, mas para o outro lado... O instinto de maldade é, de resto, condição de sobrevivência da espécie humana...Disse Gonçalo M Tavares

Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros têm de curiosamente atrativo.Disse Oscar wilde...

I'm not crazy. I may look weird, but I'm just like you I'm just a regular guy.

Não me macem, por amor de Deus!
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!



Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada, ó meu amor, nos cure do prazer quase-espasmo de mentir. Requinte último! Perversão máxima! A mentira absurda tem todo o encanto do perverso com o último e maior encanto de ser inocente. A perversão de propósito inocente — quem excederá, ó (...) o requinte máximo disto? A perversão que nem aspira a dar-nos gozo, que nem tem a fúria de nos causar dor, que cai para o chão entre o prazer e a dor, inútil e absurda como um brinquedo mal feito com que um adulto quisesse divertir-se! E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos.

Tudo quanto de sério ou de importante se faz, faz-se em segredo; e, se as associações secretas são más por serem secretas, todos quantos decidem qualquer coisa sem ser em público, ou com plena publicidade ulterior, estão em igual estado de perversidade.

O primeiro poema, Antinous, representa o conceito grego do mundo sexual. Como todos os conceitos primitivos, é substancialmente perverso; como todos os conceitos inocentes, a emoção manifestada é propositadamente não-primitiva; a fim de permitir que surja como conceito inocente, desenvolve-se o conceito até se tornar uma metafísica, mas, como se trata de inocência, a metafísica acrescenta-se a, sem se inserir dentro da substância do tema principal.
O segundo poema, Epithalamium, representa o conceito romano do mundo sexual. É brutal, como todas as emoções coloniais, animalesco, como todas as coisas naturais, quando são secundárias, como eram para homens tais como os romanos, que eram animais a dirigirem um estado. Neste poema não há nenhuma metafísica. Neste poema não poderia haver perversidade. O cenário, como no poema Antinous, não se relaciona com o tema. Um vulgar casamento cristão fornece o cenário; contra este pouco imaginativo cenário negro faz-se destacar o instinto romano como um monstro nu nascido do mundo.
O terceiro poema, Oração ao Corpo de uma Mulher, representa o conceito cristão do mundo sexual. Não tem nada a ver com o conceito cristão do mundo em si, pois, na verdade, o cristão normal não tem nada a ver com ele. A confusão do sensual e do espiritual, que os místicos cristãos aplicam aos santos do sexo oposto, (…)


Referindo-me, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão: "A primrose by the river's brim A yellow primrose was to him And it was nothing more." E traduzi (omitindo a tradução exacta de «primrose», pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada».O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela».Mas, de repente, pensou.«Há uma diferença», acrescentou. «Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só».E depois disse: «O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes».

Dar o domínio sobre outra pessoa é uma coisa pesada; exercer domínio sobre outra pessoa é uma coisa errada; dar o domínio de si mesmo a outra pessoa é uma coisa perversa.

É impossível percorrer um qualquer jornal, seja de que dia for, ou de que mês, ou de que ano, sem aí encontrar, em cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as presunções mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, a as afirmações mais descaradas, relativas ao progresso e à civilização.(...) Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma convulsão de asco.

O que se passa comigo?
Não sou indiferente às repetições, suporto melhor o tédio que certas aventuras desnecessárias. Não estou, pois, obcecado por novidades. Porém não suporto que, em mim, a não surpresa já não me surpreenda. Sou, de uma forma geral, magnífico. E...apesar de culto... Sei estrelar ovos e fazer um arroz vago. E tenho uma força que, quando corretamente aplicada, se transforma em simpatia. Sei sorrir para duas pessoas ao mesmo tempo, e tal facto não é descoordenação da face, mas técnica, aprendizagem, boas famílias e esforço. EU dividiria (o guarda-chuva) consigo, como a mãe divide o pão com o próprio filho. Porque até os meus músculos mais ferozes têm tendência para o sentimento.

Há qualquer coisa de belo no contentamento, na ausência de dor, nestes dias suportáveis e submissos, em que nem a dor nem o prazer ousam gritar...passado pouco tempo... Arde então em mim uma ânsia incontrolável por sentimentos fortes ,por sensações,uma fúria contra esta vida tão destituída de cor,tão rasteira, tão normalizada e esterilizada,uma delirante vontade de ...

You're standing next to me My mind holds the key Set my spirit free Set my spirit free Set my body free

Is anything as strange as a normal person? Is anyone as cruel as a normal person? I'm so confused. Am I a normal person? You know, I can't tell if I'm a normal person...

Uma palavra que durante décadas não seja utilizada na rua ou nos livros e permaneça apenas no dicionário tem um destino à vista: ser palavra¬ defunta. O dicionário pode ser visto, assim, como uma antecâmara da morte. Como se algumas palavras estivessem ali paradinhas, quietas, mudas (no sentido literal e metafórico) porque não falam, ninguém fala por elas e ninguém as fala – como se estivessem, então, ali em fila, à espera do seu próprio velório. Ou podemos então mudar radicalmente de ponto de vista: o dicionário, com os seus milhares e milhares de palavras, pode ser entendido como um depósito contra o esquecimento, um enorme arquivo. Eis, pois, um outro nome possível para o dicionário: instrumento para evitar o esquecimento. Imaginemos, por absurdo, que os dicionários desapareciam. Que uma qualquer ordem política determinava a sua destruição. Pois bem, seria uma matança. Em poucas décadas, morreriam palavras como tordos. E se, no limite, não existisse qualquer livro, e ficássemos apenas […] com a linguagem das conversas rápidas, então o vocabulário ficaria reduzido ao mais essencial e mínimo: sim, não, comida, bebida, etc. Poderíamos assim, com a linguagem, expressar as necessidades do organismo mas certamente não as do espírito. Abrir o dicionário, pois, como ato de resistência e salvação: não vou ficar só com as palavras que ouço ou leio nos livros comuns – eis o que se poderia dizer. Abrimos ao acaso na página 310, e depois na página 315, sempre com a firme determinação de salvar duas ou três palavras de cada página. Como aquele que salva quem se está a afogar. E não é por acaso, aliás, que muitas das mitologias remetem o esquecimento para a imagem do rio. Uma água onde as coisas se afundam, deixam de ser vistas à superfície, desaparecem da vista. A passagem do rio utilizada também como metáfora do tempo que passa e leva e afunda as coisas que ainda há momentos estavam à nossa frente, bem vivas. Salvar palavras da água que engole e faz esquecer as coisas, eis o que é, em parte, abrir um dicionário.

Se dentre as mulheres da terra eu vier um dia a colher (uma) esposa, que a tua prece por mim seja esta — que, de qualquer modo, ela seja estéril. Mas pede também, se por mim rezares, que eu não venha nunca a tirar para mim essa esposa suposta.
Só a esterilidade é nobre e digna. Só matar o que nunca foi é alto e perverso e absurdo.


This bad begins, and worse remains behind...

HAMLET
Exorciza o demónio ou deita-o fora
Com um poder espantoso. Mais uma vez boa noite.
E quando desejares uma bênção,
Eu te pedirei a bênção. Quanto a este senhor, (aponta Polónio)
Arrependo-me. Mas o céu quis assim,
Para me castigar com isto e o castigar por mim,
Que eu fosse seu açoite e seu verdugo.
Encarrego-me dele e terei de responder duramente
Pela morte que lhe dei. E, mais uma vez, boa noite.
Tenho de ser cruel para ser bom.
Eis que o mal começa, o pior está por vir.


Como começa o mal?
Não tenho um “plano” para o conjunto da minha obra. Sempre que termino um romance, não sei sequer se haverá algum outro, nem quando. Costumo escrever quando algo me inquieta ou me interessa o bastante, na minha própria vida, para me ocupar disso de forma romanceada. A esta altura, é normal que haja alguns temas ou assuntos que me importam, e que frequentemente reaparecem nos diferentes romances - espero que não como uma mera repetição, mas como aprofundamentos dessas questões. É evidente que existem pontos em comum entre Assim Começa o Mal e Os Enamoramentos, mas também entre aquele e Coração Tão Branco ou Seu Rosto Amanhã. Em todos eles, aparecem temas como a impossibilidade de saber com certeza o que quer que seja, ou a possível conveniência de não saber algo; ou o engano e a traição e o segredo. Vou escrevendo o que me vem à mente e, se um dia eu me repetir excessivamente, os leitores, cansados, avisar-me-ão. Se se cansarem dos meus romances, saberei que não devo fazer mais isso.

Aquela história não aconteceu há muito - menos do que costuma durar uma vida, e uma vida é tão pouco depois de terminada, quando já pode ser contada em algumas frases e deixa apenas na memória cinzas que se soltam ao menos solavanco e esvoaçam com a mais leve brisa - e, no entanto, hoje seria impossível.
As sensações são instáveis, transformam-se em lembranças, variam e bailam, podem prevalecer sobre aquilo que se disse e ouviu, sobre o repúdio ou a aceitação. Às vezes as sensações fazem desistir, às vezes dão ânimo para tentar de novo.

E fiz isso, não me recordar dela nem de mim, na medida do possível, ou seja, à superfície: no fundo fica-nos sempre a nostalgia da vida que desperdiçámos, e nos maus momentos refugiamo-nos nela como num sonho ou numa fantasmagoria.

(...) ao longo de uma vida, quem sabe o que vai ser, ninguém deve abster-se por conjecturas ou previsões que ultrapassam a nossa compreensão, temos apenas o dia de hoje e jamais o de amanhã, por muito que por vezes nos entreguemos às suposições.

O passado tem um futuro com o qual nunca contamos.

E há então um momento em que não sei qual dos dois ...fica a pensar:" Não, nada de beijos."Olhamos um para o outro sem nada dizermos, e quem sabe se aquilo que estamos a dizer um ao outro é algo em que estamos de acordo: "E, não, nada de palavras "
Eis que o mal começa, o pior está por vir.

Lo peor de todo...
O pior de tudo. O que é o pior de tudo?

Crónica de una generación, la de los 80, ésta es la historia de un adolescente que vive, es decir, que sobrevive. Una chica, el rock, dos o tres amigos, la familia, el trabajo. La primera novela escrita por Ray Loriga sorprende por la desnudez absoluta de su prosa. Un lenguaje de apariencia simple con el que se construye un retrato social. Ésta es una novela acerca del desaliento, acerca de todo lo que uno tiene que hacer aunque no quiera, y de lo raras que son algunas cosas. Un libro sencillo y directo.

Ahora ya sé lo que uno siente cuando lee a Ray Loriga. Lo peor de todo es un viaje hacia dentro. Con sinceridad. Hacia el alma. Contundente. Su potencia existencialista, su furia amotinada y su melancolía catártica conectan durante la lectura con nuestro ritmo cardíaco. Loriga pone de relieve los problemas que se plantean en la conciencia de los hombres de hoy. Escribe con el hastío de Kierkegard y el ojo fílmico de Sam Peckinpah, sin miedo a mostrar su cosmovisión sombría y cruel de la existencia humana. Permitiendo que supure el asesino que existe dentro de él. Afrontándolo.Ignacio Barriendo Soro

Lo peor de todo no son las horas perdidas, ni el tiempo por detrás y por delante, lo peor son essos espantosos crucifijos hechos con pinzas para la ropa. Primero se recorta un cartón en forma de cruz y después se van pegando las pinzas encima. Hay que sacar el muelle y separar las dos tablitas y pegarlas luego con mucho cuidado, una para arriba y una para abajo.

Los niños no tiene nada de mágico la mayoría de las veces, son la misma mierda en dimensiones reducidas.

De todas formas, creo que lo que uno se inventa es más real que lo que a uno le pasa. Al fin y al cabo, lo que a uno le pasa no deja de ser un accidente.

O pior de tudo é que não estou a gostar e não vou, para já, acabar de ler...



Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu. Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Estética do Desalento - Já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não poder extrair beleza da vida. Façamos da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual. Se a vida [não] nos deu mais do que uma cela de reclusão, façamos por ornamentá-la, ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos e cores mistas esculpindo o nosso esquecimento sob a parada exterioridade dos muros. Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.

Horas pálios submersos, meras roupas de pompa morta aparecidas moles entre águas, como algas levadas por acasos de corrente, lentas entre esquecimentos. Entardece nas minhas ilusões. Vela-se bruma o horizonte dos meus desalentos. Entre ventos débeis, brisas doentes, sente-se o ar incoerente ser gente.

Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida. Estou em um desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago, náusea e desalento. Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inacção. Nem olho o dia, para ver o que ele tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição, tape com palavras a chícara vazia do meu não me querer. Nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fora na rua subjectivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. Parei de trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos de absorção e distracção que estão borrados nele. Várias vezes a minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali, assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção. Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por detrás dos centros cerebrais que promovem a visão. Tenho mais sono íntimo do que cabe em mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir.

Nenhum problema, mas nenhum no mundo, é mais torturante do que o do talento artístico e do seu efeito no homem.

Então veio, com o martírio e altivez do conhecimento, a solidão, pois não aguentava ficar no meio dos inocentes de espírito alegre e obscuro a quem a sua marca na testa perturbava. Mas mais e mais adocicou-lhe o prazer na palavra e na forma, pois costumava dizer ...que o conhecimento da alma por si só, nos tornaria melancólicos, se não fosse a satisfação das formas de expressão que nos mantém vivos e despertos...

O talento para o estilo, a forma e a expressão, pressupõe precisamente esta fria e seletiva atitude para o humano(...)Pois o sentimento saudável e forte, e isto é que é certo, não tem gosto nenhum. Um artista está acabado se se torna humano e começa a sentir.

A literatura não é ofício nenhum , mas sim uma maldição(...) Você começa por se sentir marcada, numa contradição inexplicável com os outros, com os seres normais e ordeiros, o abismo da ironia , dúvida, apreensão,oposição, sentimento que a separa dos outros, fende-se mais e mais, você está só e a partir daí não há mais entendimento possível...Um artista de verdade , não é um desses cuja profissão burguesa é a arte, mas sim um predestinado um amaldiçoado.

Tinha um livro sobre os joelhos , mas não lia uma única linha. Saboreava um profundo esquecimento, uma suspensão redentora sobre o espaço e tempo e só por vezes se sentia como se o seu coração fosse atravessado por uma dor, um curto e agudo sentimento de saudade ou arrependimento; mas estava demasiado indolente e ensimesmado para se interrogar sobre o nome ou origem de tal sensação.

Não troce deste amor Lisaveta; ele é bom fecundo.É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.


Nada disto é importante,mas ninguém imita melhor do que eu uma bela vida.


Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!
)


Oh, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais
,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,(...)
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!



Lenz Buchmann, que nascera já com os genes dominados pela lucidez, aprendera depois, pela medicina, a reservar uma certa distância em relação ao sofrimento do outro, distância essa que poderia, por outras pessoas, ser classificada por incapacidade de empatia ou mesmo de perversidade; ou podia simplesmente ser entendida enquanto puro profissionalismo.

Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe. Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas. Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação. Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim. De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima.

A mulher de Lenz não era uma mulher que meditasse sobre o que fazer além do dia seguinte. Era uma mulher estranha, que parecia aceitar tudo com uma passividade que misturava uma certa perversão que por vezes chegava a enojar o próprio Lenz. Ela somava tudo, um acontecimento seguia-se a outro, e ela aceitava - não havia reflexão.

Claro está que a técnica e a medicina, de que ele era um fiel representante, permitiam o prolongamento das paixões, ; o que para Lenz apenas significava que o ser humano agora podia odiar até mais tarde.

O que loucos e vagabundos tinham como grande qualidade era precisamente o facto de agirem parecendo estarem sós no mundo.(...) Não eram amados, não amavam, não eram odiados: o terreno estava livre para poderem ser livres.
E os homens livres excitavam Lenz Buchmann. Eram, por isso também, os espectadores ideais.


Mas naquele momento o importante era isto: só com aquele tipo de espectadores, desviados,ele, Lenz Buchmann, conseguia ser absolutamente imoral. Um indivíduo único, sem cópia.

E agora ele foi; deixou-se ir. E eu chorei: a morte de Lenz Buchmann entristeceu-me quase tanto como ter chegado, mais uma vez , ao fim deste capítulo do nosso reino...

Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada, ó meu amor, nos cure do prazer quase-espasmo de mentir.Requinte último! Perversão máxima! A mentira absurda tem todo o encanto do perverso com o último e maior encanto de ser inocente. A perversão de propósito inocente — quem excederá, ó (...) o requinte máximo disto? A perversão que nem aspira a dar-nos gozo, que nem tem a fúria de nos causar dor, que cai para o chão entre o prazer e a dor, inútil e absurda como um brinquedo mal feito com que um adulto quisesse divertir-se! E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos. E quando nos causar angústia, paremos, para que o sofrimento nos não signifique nem perversamente prazer...Não conheces, ó Deliciosa, o prazer de comprar coisas que não são precisas? Sabes o sabor aos caminhos que, se os tomássemos esquecidos, era por erro que os tomaríamos? Que acto humano tem uma cor tão bela como os actos espúrios — (...) que mentem à sua própria natureza e desmentem o que lhes é a intenção?A sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil, de nunca executar uma obra que por força seria bela, de abandonar a meio caminho a estrada certa da vitória! Ah, meu amor, a glória das obras que se perderam e nunca se acharão, dos tratados que são títulos apenas hoje, das bibliotecas que arderam, das estátuas que foram partidas. Que santificados do Absurdo os artistas que queimaram uma obra muito bela, daqueles que, podendo fazer uma obra bela, de propósito a fizeram imperfeita, daqueles poetas máximos do Silêncio que, reconhecendo que poderiam fazer obra de todo perfeita, preferiram ousá-la de nunca a fazer. (Se fora imperfeita, vá.) (...) E eu que digo isto — por que escrevo eu este livro? Porque o reconheço imperfeito. Calado seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se; por isso o escrevo. E, sobretudo, porque defendo a inutilidade, o absurdo (...), — eu escrevo este livro para mentir a mim próprio, para trair a minha própria teoria. E a suprema glória disto tudo, meu amor, é pensar que talvez isto não seja verdade, nem eu o creia verdadeiro.

Uma torva e peçonhenta maldade — maldade excessiva mesmo para o coração, tão de ofício viperino, de um editor — levou os srs. Lello & Irmão, não sei porque azar póstumo de Shakespeare, a escolher para vítima prolongada aquela, a maior de todas as almas que se têm enganado de mundo. Decidiram fazer passar a Shakespeare tratos de tradutor. E como encontrassem vis e criminosos precedentes, em ambos os lugares onde há más fadas, para que, sem ousadia de originalidade, n'eles alicerçassem o seu grande crime, escolheram para mestre de obras a figura, d'oravante laivada de perversão, do dr. Domingos Ramos. E passaram a insultar os descendentes dos navegadores com incutir-lhes a ideia de que é possível traduzir o verso e a prosa eternos de Shakespeare para uma prosa portuguesa excessivamente transitória. Apenas folheei, e nem uma linha li, das traduções que o sr. dr. Domingos Ramos terá imortalmente que expiar. Porque não é com a competência de tradutor-de-inglês do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. É com a sua competência para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa. Shakespeare só se deve ousar traduzir — o verso para verso, e a prosa para prosa, e que verso e que prosa têm de ser! Mas vá que o não sejam: o tradutor terá falhado n'uma boa causa. Agora propor-se pôr em mera prosa a prosa e o verso de Shakespeare, como se se estivesse traduzindo de uma tradução inglesa de Shakespeare para Rudyard Kipling — isso é que não pode ser — isso é que pede reclamação diplomática; justo ultimatum, intervenção estrangeira...
Apelo, indignado e crítico, para quantos em Portugal conheçam Shakespeare. Bem sei que não são mais que quatro ou cinco. Mas as grandes convicções valem exércitos. Com dois homens se fez o regicídio.


Uma noite, só, sentado num quarto vazio, subitamente compreendi. Nunca mais deixei de ser inteligente. Você com certeza supõe que sou uma pessoa ferida, extorquida, amarga. Perdi as belas - isso- as belas e afortunadas oportunidades. Oportunidades? Tudo são oportunidades em tamanha ignorância. Ninguém as perde, impossível. Não perdi nada. Sou apenas lúcido.Digo: só, desprovido , crítico, bastante. O mal é bastar-se. Não preciso de ninguém. Nem sequer dos pequenos mitos de mim próprio.

Sou como um copo vazio...


Pego no copo vazio que enche o tempo e invento que há luz. Não vês o copo vazio por onde fujo sem ver? Quem quer sai!
Quem quer sai! Lá fora a dor é maior e ninguém quer sair... Fico no copo vazio onde me lanço, danço em paz. Sou como um copo vazio, ando num resto apagado, sou como um rasto quebrado, um rato, um corpo, fechado, parou! Quem quer sai! Quem quer sai! Lá fora a dor é real e ninguém quer sair...Lá fora a dor é maior e ninguém quer cair...Só quem quer.


- Um pouco mais de brandy, se faz favor. Ou mesmo cerveja, embora eu preferisse brandy. Vinho , não. Bem vê: a tradição mítica - paganismo, catolicismo. ...Bebida de padres e panteístas. Perfeito, se substituir brandy por gim ou vodka...
Sim, deite mais brandy. Sou um bêbado claro. Que esperava? Que fosse um apóstolo, um assassino, um político , um anjo? Não, sou apenas um bêbado.

Mais brandy! Deseja poupar-me à embriaguês? Não se compadeça do meu fígado, nem da minha alma. Alma imortal? O fígado, esse, é bem mortal, estamos de acordo. Quanto à alma, considere, é uma alma - e o álcool, naturalmente, não possui efeitos sobre as qualidades intrínsecas ( cá está uma expressão sua) de uma alma. O meu modo de reconhecer a bebedeira.Comoção? O chão a aluir dentro de mim? O súbito terror da carne? Fala-me agora da morte como se fosse uma coisa concreta. É uma ideia simples a morte.

Tire a mão de cima da minha.Desejo estar completamente bêbado. Pare de falar nas pessoas. Que são as pessoas? São eu? Soa mal? A expressão está conforme à gramática? São eu. Curioso. Estilisticamente ... Claro, já me encontro bastante bêbado para poder dormir. Exactamente: dormir.

Ninguém alguma vez escreveu, pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.O inferno é a realidade real...Se um homem misturar absinto com a realidade obtém uma realidade melhor -mas também é certo que o absinto fica pior: nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto...

Se misturar gin à realidade, ela será mais suportável, mas estragará a qualidade do gin,o que é um sacrilégio...

Haverá sempre a hipótese que o senhor henry não considerou: tornar o gin uma realidade... Se assim for, sempre se passa a considerar a realidade boa. Está deliberado:o gin é uma good, good realidade...

O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns golos de conhaque, já não penso em ti.

Após o primeiro copo, é como uma bebida comum, depois começa -se a ver coisas monstruosas e cruéis, e , após essa fase finalmente veem-se as coisas como elas realmente são, e isso é a pior coisa do mundo.

A fama da " fada verde" surgiu graças às histórias sobre alucinações, relatadas por Wilde e Baudelaire. Mesmo que inventadas e romanceadas, o facto é que o absinto implica uma relação tão intensa que foi descrita por Wilde como “algo tão poético quanto qualquer outra coisa no mundo.”

Está comprovado que o absinto não é um alucinógeno... Confirmo, bebi em paris, num bar em Montmartre, emocionada pelo meu encontro espiritual com baudelaire e wilde, e o resultado foi só, no dia seguintre, uma manhã a vomitar e um dor de cabeça insuportável...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Serendipitando: acaso, destino, fortuna e sorte..

Porque é que pessoas de cuja existência nem sequer suspeitamos,com as quais nos cruzamos uma vez por acaso e que nunca mais voltaremos a ver,desempenham, secretamente, um papeltão importante na nossa vida? Pergunta patrick Modiano...

Primeiro pensamento do dia: Os sonhos mais lindos sonhei.De quimeras mil um castelo ergui...Vindo do nada ou do tudo, logo após o miar da gata, o meu doce despertador, surgiu dentro de mim a voz de elis regina. Mas não quero falar de fascinações: é tempo de serendipitidade: acaso, fortuna/ destino e sorte, uma não santíssima trindade...

O que é serendipitidade


1. aptidão de atrair a si acontecimentos favoráveis de maneira fortuita; dom de fazer boas descobertas por acaso.

2. acontecimento favorável que se produz de maneira fortuita; acaso feliz; descoberta acidental.



Eu não terei aptidões serendipíticas... se atraio acontecimento fortuitos, eles são sempre negativos,como esta imagem que, inexplicavelmente, veio ter comigo.


Palavra criada pelo escritor britânico Horace Walpole , em 1754, a partir do conto persa infantil Os três príncipes de Serendip. Esta história de Walpole conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, actual Sri Lanka, que faziam descobertas inesperadas, cujos resultados eles não procuravam. Graças à sua sagacidade, descobriam , acidentalmente, a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom peculiar, mas por terem a mente aberta para a múltiplas possibilidades.

Há muito tempo atrás, no país de Serendip, havia um rei grande e poderoso de nome Giaffer. O rei tinha três filhos e a eles dedicava todo o seu amor. Por ser um bom pai, ele preocupava -se muito com a educação, decidindo que deveria deixar aos príncipes não apenas um grande poder, mas também virtudes imprescindíveis aos. Assim, o rei Giaffer procura os melhores tutores possíveis para seus filhos, aos quais confia a formação, recomendando que deveriam ser ensinados de maneira que pudessem ser reconhecidos por sua boa reputação. Desse modo, quando os mestres consideraram que os príncipes estavam suficientemente educados, tanto nas artes quanto nas ciências, relataram esse facto ao rei. Porém, o rei ainda tinha dúvidas acerca da formação e reúne-os, declarando -lhes , o que era uma simulação, que se iria retirar do reino para seguir uma vida contemplativa, deixando-lhes o encargo de governar. Cada um deles, polidamente, declinou o convite, afirmando, de uma forma ou de outra, que somente o pai tinha sabedoria superior e aptidão para governar. O rei fica satisfeito momentaneamente, mas no seu íntimo ainda pairava a dúvida se não teriam recebido apenas uma educação privilegiada, sob a sua proteção. Resolve , então, fingir ficar furioso com eles pela recusa do trono e envia-os em viagem, para longe das suas terras.
Aconteceu que, mal haviam chegado ao exterior, resolvem descobrir pistas para identificar com precisão um camelo que jamais haviam visto. Concluem, então, que o camelo é coxo, cego de um olho, sem um dos dentes, transportando uma mulher grávida, e carregando mel de um lado e manteiga do outro. Quando, depois, encontraram um comerciante que procurava um , relataram as suas observações. O comerciante, pasmado, acusa-os de terem roubado o camelo e leva os três príncipes diante do Imperador Bahram, exigindo punição. Os três príncipes negam qualquer crime, ao que Bahram indaga como poderiam ter sido capazes de descrever com tanta precisão um camelo, sem nunca o terem visto. Mas, a partir das respostas, baseadas em evidências somadas em pequenas pistas, dadas pelos três príncipes, percebe a inteligência dos herdeiros de Serendip na identificação do camelo.
Os princípes disseram que, como a relva havia sido comida pelo lado da estrada onde estava menos verde, haviam deduzido que o camelo era cego do outro lado. Também falaram que, como havia pedaços de relva semimastigados na estrada, do tamanho de um dente de camelo, eles haviam deduzido que haviam caído através do espaço deixado por dente perdido na boca do camelo. Como as faixas de marcas na estrada deixavam as impressões em apenas três metros, o quarto estava sendo arrastado, pelo que indicava o animal ser coxo. A questão da carga, para os três príncipes, tinha sido muito simples, posto que havia formigas de um lado, indicando que tinham sido atraídas pelo mel, de um lado da estrada, e o outro lado apresentava manteiga derretida derrramada. Quanto ao transporte da mulher, um dos príncipes disse: "Imaginei que o camelo transportava uma mulher, porque havia notado, próximo à trilha, onde o animal deixara marcas de ajoelhar-se, o rastro visível de pés, claramente femininos, onde tinha resquícios de urina humana que, pelo seu próprio odor, denotava ter sido deixados por uma mulher que tinha mantido relações sexuais há algum tempo. Um outro príncipe, esclareceu que concluíram a gravidez da mulher, pois próximo às marcas dos pés, haviam marcas de mãos femininas, denotando que ela havia se apoiado com as mãos para urinar o que configurava o peso da gravidez. No momento que terminavam o relato ao Imperador, chegou à corte, um viajante que discorreu ter encontrado o camelo vagando pelo deserto e que o havia reconduzido ao dono, bem como sua carga e transporte.
O Imperador Bahram, além de, evidentemente, poupar as vidas do três príncipes, encheu -os de ricas recompensas e nomeou-os conselheiros.


Lentin (1996) comenta a história dos príncipes, e a proposta para o novo termo, mas também descreve que Walpole foi traído pela sua memória, afirmando que as descobertas de Serendip, Serendib, e Sarendip nada devem ao acaso, e que eles resolviam os problemas e enigmas pelo poder de suas deduções. Ruiz (1997) comenta que os três príncipes foram chamados pelo pai no leito de morte. O rei queria deixar todo o seu vasto reinado para os filhos e dizer -lhes que havia um grande tesouro muito próximo da superfície. Assim que o pai morre, os três filhos mobilizaram todos os homens do reinado para cavar e revolver a terra, mas, após vários anos de trabalho, nenhum tesouro foi encontrado. No entanto, mas a terra foi tão revolvida, que as colheitas foram as maiores de toda a história do reino... Assim, surge o vocábulo serendípite, em homenagem aos príncipes que procuravam o tesouro e encontraram colheita abundante, e sabedoria do rei, ao aconselhar os filhos, pode ser definida como serendipidade.

O termo é usado repetidas vezes no meio científico e académico, onde existem muitos exemplos de serendipidade, mas podemos, de modo oportuno, aplicá-lo a outras situações da vida. Ocorre serendípite, por exemplo, quando encontramos uma palavra no dicionário, à procura de outra; quando, numa livraria, achamos um livro de ética, mas o que procurávamos era um sobre computadores.
A ciência moderna é também uma crónica de descobertas serendipitosas: Fleming descobriu, em 1928, a penicilina; a heparina foi descoberta por um estudante de medicina, que procurava, não um anticoagulante natural; o anticoagulante oral tem a sua origem nas pesquisas na área animal, feita num bovino que morreu de hemorragia, após ingestão de trevo doce deteriorado; os sucrilhos ou corn-flakes surgem de um esquecimento do milho em um forno acesso durante todo um dia, por parte dos irmãos Kellog, no ano de 1898; a borracha vulcanizada surge quando Charles Goodyear, em 1844, deixa cair um pedaço de borracha escolar, dentro de uma frigideira quente; o corante índigo, em 1893, quando um químico quebra o termómetro dentro de uma solução e reage com o mercúrio; o nailon, em 1939; o polietileno, em 1935, graças a um acidente no laboratório.

O que é o Acaso?

substantivo masculino:1. Ocasião imprevista que produz um facto; 2. O que acontece fortuitamente.
O dicionário esqueceu-se de acrescentar: assassino. Nunca vi nenhum médico indicar, numa certidão de óbito, a verdadeira causa da morte: o acaso. Os juízes são outros incompetentes, deixam o acaso à solta. Esta sociedade policiada, vigiada, burocrata destrói-nos a felicidade com prescrições, com regras, com padrões de conduta e nada pode contra o acaso. Oh,como eu odeio o Acaso!!! Aceito que o meu pensamento - se é que a isto se pode chamar pensamento - não tem um único argumento sustentável, mas é assim que sinto: oh,como eu odeio o Acaso!!!

Acasos poéticos...e desassossegos

Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...


DIÁRIO AO ACASO
Todos os dias a Matéria me maltrata. A minha sensibilidade é uma chama ao vento.Passo por uma rua e estou vendo na face dos transeuntes, não a expressão que eles realmente têm, mas a expressão que teriam para comigo se soubessem a minha vida, e como eu sou, se eu trouxesse transparente nos meus gestos e no meu rosto a ridícula e tímida anormalidade da minha alma. Em olhos que não me olham, suspeito troças que acho naturais, dirigidas contra a excepção deselegante que sou entre um mundo de gente que age e goza; e no fundo suposto de fisionomias que passam gargalha da acanhada gesticulação da minha vida uma consciência dela que sobreponho e interponho. Debalde, depois de pensar isto, procuro convencer-me de que de mim, e só de mim, a ideia da troça e do opróbio leve parte e esguicha. Não posso já chamar a mim a imagem do ver-me ridículo, uma vez objectivado nos outros. Sinto-me, de repente, abafar e hesitar numa estufa de mofas e inimizades. Todos me apontam a dedo do fundo das suas almas. Lapidam-me de alegres e desdenhosas troças todos que passam por mim. Caminho entre fantasmas inimigos que a minha imaginação doente imaginou e localizou em pessoas reais. Tudo me esbofeteia e me escarnece. E às vezes, em pleno meio da rua — inobservado, afinal — paro, hesito, procuro como que uma súbita nova dimensão, uma porta para o interior do espaço, para o outro lado do espaço, onde sem demora fuja da minha consciência dos outros, da minha intuição demasiado objectivada da realidade das vivas almas alheias.

Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)


Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele.Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos.Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais...

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu


No acaso da rua o acaso da rapariga loira. Mas não, não é aquela. A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. Perco-me subitamente da visão imediata, Estou outra vez na outra cidade, na outra rua, E a outra rapariga passa. Que grande vantagem o recordar intransigentemente! Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! Ao menos escrevem-se versos. Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar. Se calhar, ou até sem calhar,Maravilha das celebridades!

A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.


O meu acaso ...

Eu nem queria mais sofrer A agonia da paixão Nem tinha mais o que esquecer Vivia em paz, na solidão Mas foi te encontrar E o futuro chegou como um pressentimento Meus olhos brilharam, brilharam No escuro da emoção. Não sei se o acaso quis brincar Ou foi a vida que escolheu Por ironia fez cruzar O seu caminho com o meu...



Que a tua essência seja o seres distante ...Nunca me serás nada mais do que um acaso... O florir do encontro casual dos que hão sempre de ficar estranhos... Seremos estranhos?

Acasos filosóficos...

A mim é-me familiar o que a outros, e a raros outros, apenas em horrorosos acasos é de algum modo vagamente experiência - o sentimento do mistério e do horror intelectual do mundo. É minha inimiga do meu sangue e na minha alma quotidiana a sensação ôca de que o universo é uma pavorosa ilusão. Passou já o tempo em que este medo me era ocasional e, como um relâmpago, uma coisa de um horroroso instante. Hoje consubstancia-se com a minha vida espiritual ao ponto de me parecer estranha e não de mim a hora do espírito em que de algum modo me desenvencilho da consciência do mistério do mundo.

É de um sadismo soberbo pensar que deveríamos ser julgados pelas nossas boas e más acções, uma vez que só de um pequeníssimo número das nossas acções podemos decidir. O acaso cego, que se distingue da justiça cega pelo simples facto de ainda não usar venda, introduz e acaba as nossas acções; o que podemos fazer e, bem entendido, o que devemos fazer, em virtude da existência tantas vezes negada da nossa consciência, é deixarmo-nos arrastar numa certa direcção e mantermo-nos depois nessa direcção enquanto conservamos os olhos abertos e estamos conscientes de que o fim em geral é uma ilusão, pelo que o fundamental é a direcção que mantivermos, pois só ela se encontra sob o nosso controlo, sob o controlo do nosso miserável eu. E a lucidez, sim, a lucidez, os olhos abertos fitando sem medo a nossa terrível situação devem ser a estrela do eu, a nossa única bússola, uma bússola que cria a direcção, porque sem bússola não há direcção. Mas se me disponho agora a acreditar na direcção, passo a duvidar dos testemunhos relativos à maldade humana, uma vez que no interior de uma mesma direcção - em si mesma excelente - podem existir correntes boas e más.

O acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível. De todos os doadores, ele é o único que, ao dar, mostra ao mesmo tempo e com clareza que não temos direito nenhum aos seus bens, os quais devemos agradecer não ao nosso mérito, mas tão-só à sua bondade e graça, que nos permitem até nutrir a esperança alegre de receber, no futuro e com humildade, muitos outros bens imerecidos. Eis o acaso: mestre da arte régia de tornar claro o quanto, em oposição ao seu favor e à sua graça, todo o mérito é impotente e sem valor.

Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas inúmeras ondulações, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo é necessidade, cada movimento pode ser calculado matematicamente. O mesmo acontece com as acções humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada acção, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele próprio, tem a ilusão, é verdade, do livre-arbítrio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma inteligência calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser até aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de então passaria. A ilusão sobre si mesmo do homem actuante, a convicção do seu livre-arbítrio, pertence igualmente a esse mecanismo, que é objecto de cálculo.

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.
Na verdade, porém, não se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferença. O que se passa - como, de resto, em qualquer confronto de opiniões - é o mesmo que sucede com certos pratos culinários: são conhecidos por nomes diferentes mas, na prática, o resultado não varia.


Todos os acasos da nossa vida são materiais de que podemos fazer o que quisermos. Quem possui muito espírito faz muito da sua vida - cada tomada de conhecimento, cada acontecimento seria para ele inteiramente espiritual - um primeiro membro de uma série infinita - o início de um romance infinito.

O que é então o absurdo como estado de facto, como dado original? Nada menos do que a relação do homem com o mundo. O absurdo fundamental manifesta, antes de tudo, um divórcio: o divórcio entre as aspirações do homem à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direcção ao eterno e o caráceter finito da sua existência, entre a «preocupação» que é a sua própria essência e a inutilidade dos seus esforços. A morte, o pluralismo irredutível das verdades e dos seres, a ininteligibilidade do real, o acaso, eis os pólos do absurdo.

Este estava quase de costas para mim e, sem me olhar, declarou que, com a autorização do presidente, gostava de saber se eu voltara à nascente com a intenção de matar o Árabe: "Não", respondi. "Então, porque estava ele armado e porque regressara precisamente, àquele lugar?" Repliquei que fora o acaso que lá me levara. E o procurador concluiu, com uma expressão malévola: "Por agora, é tudo".

O acaso e as circunstâncias. É o destino, o cruzamento entre o acontecimento e um homem, que amplia ou não o reino da banalidade. Pouco depende do homem - quase tudo é imposto pelo dia, pelas suas exigências de causas quase sempre obscuras.

Não sou acaso um falso acorde nessa divina sinfonia, graças à voraz ironia que me sacode e que me morde?
O acaso só favorece uma mente preparada, afirma pasteur.

Qual será diferença entre o acaso e o destino? E entre o destino e a fortuna?E entre fortuna e sorte?

He'll feel the things you'll never feel Behind this wall only love is real ...

I forgot A palace, it's our palace... The sweetest spot When it's gone, it's gone..

O Acaso é algo que surge ou acontece sem motivo ou explicação aparente: acontece sem finalidade, objetivo ou causa final- opõe-se à teleologia; acontece sem ser consequência de algo, há um efeito que não se explica por uma determinação precedente-opõe-se ao pré-determinismo; acontece sem ser explicado por nenhuma relação, sem qualquer determinação- opõe-se ao determinismo.

O Destino é concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos, relacionada com uma possível ordem cósmica: o destino conduz a vida de acordo com uma ordem natural, à qual não se pode escapar.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo. Não tenhamos melhor conhecimento Do que nos coube que de que nos coube. Cumpramos o que somos. Nada mais nos é dado.

No que nós somos como em que não somos igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai nunca sendo colhido. Igual é o fado, quer o procuremos, quer o esperemos. Sorte hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa forma alheio e invencível...



Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós própios. Suave é viver só Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.

A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino. Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado ?

Soube-me sempre a destino a minha vida.Por isso, ainda hoje que todo o sal secou no fundo do mar e o mar é uma câmara, ainda hoje a ignoro —quando olho, surpreso, a sabedoria dos gestos com que as crianças começam a sentir-se reais.

Acredito que a existência precede a essência. Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez, e tudo acaba quando ele desiste de lutar. Que todas as paisagens são cenários do nosso drama pessoal, comentários decorativos da nossa aventura íntima e profunda. E que, por isso, cada homem só se pode salvar ou perder sozinho, e que só ele é o responsável pelos seus passos, que só as suas próprias raízes são raízes, e que está nas suas mãos a grandeza ou a pequenez do seu destino.

Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou,Mas onde vou nada existe. Será este,afinal,o meu destino?

Chego,agora, ao inefável centro do meu relato; começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph,que a minha tímida memória abarca?

São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, incolas da incompreensão ou da indiferença. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida(...)

Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. Igual é o fado, quer o procuremos, Quer o esperemos. Sorte Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa Forma alheio e invencível. Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses

Sempre me intrigaram estes versos: para um mar muito longe, para ao pé do Fado, mais longe que os deuses...

Sorte é "uma força sem propósito, imprevisível e incontrolável, que modela eventos de forma favorável ou não para determinado indivíduo, grupo ou causa".

Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. Igual é o fado, quer o procuremos, Quer o esperemos. Sorte Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa Forma alheio e invencível.

You are my destiny...Foi destino ou maldição ?



Que estranha sorte determinou que eu tivesse "conhecido" jean claude pelletier? Um jovem francês de 22 anos, que se apaixonou por um autor completamente desconhecido, para ele, para mim, para o mundo: benno von archimboldi, um alemão tão desconcertante como o seu nome.
Em 1983, aos vinte e dois anos, deu início à tarefa de traduzir D'Arsonval. Ninguém lhe pediu que o fizesse... Não havia nenhuma editora interessada em publicar aquele alemão de nome estranho. Pelletier começou a traduzi-lo porque gostava, porque era feliz a fazê-lo... Passado um ano,já tinha lido 15 livros do autor alemão,tinha traduzido dois e era considerado ,unanimemente, o maior especialista de Benno von Archimboldi...

Como não me sentir insignificante? Eu, aos 22 / 23 anos, já me considerava muito rara por ter lido uma dúzia de livros, gostar de pensar e de falar sobre eles: " mísera sorte,estranha condição".

Então Pelletier recordou-se do dia em que leu Archimboldi pela primeira vez e viu-se a si mesmo , novo e pobre...ascético e inclinado sobre os seus dicionários de alemão...como se todo ele fosse vontade feita carne,ossos e músculos... uma imagem que operou nele como uma droga, uma droga que o fez chorar,uma droga que abriu, como disse um poeta piroso holandês do século XIX,as comportas da emoção e de alguma coisa que á primeira vista parecia autocomiseração, mas que não o era...e que o levou pensar e a repensar,mas não com palavras e sim com imagens dolentes... depois de uma noite talvez inútil forçou a sua mente a duas conclusões...

"Conheci" também o italiano, Pierro Morini, e o espanhol, Manuel Espinoza, o jovem que sonhava ser escritor, especialista em junger, alma gémea de werther / goethe, segundo opinião de um seu professor do ensino secundário. Pierro Morini,devido à sua grande eloquência e poder de sedução, consegue vencer a resistência dos editores e publica duas traduções de obras de archimboldi. Vítima de esclerose múltipla, sofre um estranho acidente que o prende para sempre a uma cadeira de rodas.

Manuel Espinoza, depois de se desiludir com junger e, sobretudo, com os jungerianos, inicia um período de solidão, de propósitos contraditórios, descobrindo que jamais seria narrador e, à sua maneira,era um jovem corajoso.Também descobriu que era um jovem rancoroso,que supurava ressentimento,e que não lhe teria custado nada matar alguém,fosse quem fosse, desde que aliviasse a solidão,a chuva e o frio de Madrid,mas preferiu deixar aquela descoberta na escuridão e centrar-se na aceitação de que jamais seria um escritor e tirar todo o partido do mundo à sua recém-exumada coragem.

Pelletier, Morini e Espinoza, os três jovens intelectuais que tive a sorte de ter conhecido, foram os meus "amigos", a minha companhia,durante mais de mil páginas...
Por vezes temos a sorte de a ficção se identificar com a realidade.Porquê? Depois penso nisso...

Liz Norton não teve muitas hipóteses de me agradar,pois não vislumbrei,entre nós, qualquer identificação... Decididamente, não gostei da norton e todos os amigos me desiludiram...gente, afinal, vulgar, são todos demenos...

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. A natureza trai-nos, a sorte muda, um deus vê do alto todas estas coisas.

Fortuna...

Naquele engano da alma ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito...


Nec vita nec fortuna hominibus perpes est...

Muito contente fui eu... mas, coitada de mim, em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo tempo se buscava! Grande desaventura foi a que me fez ser triste, ou a que, porventura, me fez ser leda! Mas depois que vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha

O Fortuna, velut luna, statu variabilis, semper crescis aut decrescis, uita detestabilis...


A fortuna concede-nos momentos assim: Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto, E me deito ao comprido na erva,E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,Sei a verdade e sou feliz.
De imediato,a realidade exibe-se,como uma afronta, com crueldade e perfídia : sabe a verdade e é infeliz. Foi tudo um engano que a fortuna não deixou durar muito.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente.

Partindo destes versos de camões, natália correia faz uma reflexão magoada sobre a tragédia coletiva de alcácer-quibir, um prolongamento da tragédia pessoal de luís de camões. A culpa pela ruína de d. sebastião e de toda a nação portuguesa é assumida pelo poeta por ter incitado o imaturo rei, ao ler -lhe os lusíadas, a inspirar-se nas vitórias dos antigos portugueses para empreender, neste caso irrefletidamente, a funesta batalha contra os infiéis.

Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito...

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.



Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não disesse...



Quantum fortuna in rebus humanis possit, et quomodo illi sit occurrendum...

Para que o nosso livre arbítrio não se extinga, parece-me possível que a fortuna seja senhora de metade das nossas obras, mas que nos deixe governar,mais ou menos, a outra metade. Comparo-a a um desses rios torrenciais que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores e os edifícios, carregam terra de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem assim ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época era de calma, tomassem providências com anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um canal, ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso. Da mesma forma acontece com a fortuna, a qual demonstra o seu poderio onde não existe virtude preparada para resistir e, aí, volta seu ímpeto em direção ao ponto onde sabe não foram construídos diques e anteparos para contê-la...Um príncipe que depende exclusivamente da sorte cai quando ela muda.Penso também que será feliz aquele que souber acomodar-se com o seu tempo e infeliz aquele que não proceder de acordo com ele.
Concluo, pois, que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados nos seus modos de agir, serão felizes enquanto aquela e estes sejam concordes e infelizes quando surgir a discordância. Considero que é melhor ser impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário, querendo dominá-la, bater-lhe e contrariá-la; e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, porém, como mulher, sempre é amiga dos jovens, porque são menos cautelosos, mais afoitos e com maior audácia a dominam.


Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e ouco,
Pareço, até no tom lúgubre, e rouco
Triste sombra a carpir na sepultura:

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce, e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!

Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.


Vão os anos descendo, e já do Estio Há pouco que passar até o Outono; A Fortuna me faz o engenho frio, Do qual já não me jacto nem me abono;

Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem ter nada a ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar. (...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido…





Não faltará … quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.

No ser vivo toda a necessidade essencial, que brota do próprio ser e não lhe advém de fora acidentalmente, vai acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade é a cara, a facies da felicidade. E todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino, isto é, quando segue a encosta da sua inclinação, da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está a ser o que é na verdade...

Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino. Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais íntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertinácia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem é benéfico. O que começava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino. O homem do poder destrói-se pelo poder, o homem do dinheiro, pelo dinheiro, o subserviente pelo servir, o sequioso de prazer pela luxúria.

As palavras e a fantasia também podem destruir...

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. A minha vida passada misturou-se com a futura, E houve no meio um ruído do salão de fumo, Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo -nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.


A arte de viver - dado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (ver vida sexual, ver comércio, ver qualquer actividade) - consiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.

Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo.

Não é possível falar em destino sem uma referência romântica ...

Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


O acaso une, o destino e fortuna desunem. E a sorte? A sorte une e desune...