Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eu e o(s) Fausto(s)...

Que atrás dos tempos vêm tempos E outros tempos hão-de vir Eu sei de histórias verdadeiras Umas belas Outras tristes de assombrar...



Após esta anacrónica introdução, deixando de lado as várias interpretações do mito de Fausto, é de salientar a convicção, relativamente consensual, de que o Doutor Fausto existiu, provavelmente na Alemanha, entre 1480 e 1540. Terá sido registado como um falso médico, humanista, alquimista, mago, ousado cavaleiro andante, praticante de milagres, impostor, lascivo e homossexual... Depois de sua morte, é associado a histórias que pretensamente confirmavam a existência de um pacto entre ele e o Diabo. O primeiro texto sobre Fausto, Historia Von D.Johann Fausten, de autoria desconhecida, surgiu em 1587, na Feira de Frankfurt...

A História trágica da vida e morte do Doutor Fausto, escrita por marlowe, em 1588 ou em 1592, com base na história anónima do Dr. Fausto, datada de 1587, é publicada, pela primeira vez, em 1604.


Sê médico, fausto, junta ouro
E torna-te eterno por cura maravilhosa.
Summum bonum medicinae sanitas.
A saúde do corpo é o que visa a medicina.
Não alcançaste já, Fausto, tal fim?
Não se julgam aforismos os teus ditos?
Não se erguem, como monumentos, as receitas
Com que baniste a peste das cidades,
E curaste mil maleitas incuráveis?
Contudo, ainda és só Fausto, apenas um homem.



Fausto partiu: atentai na sua queda,
No seu infernal fado. Que ele exorte os prudentes
À mera admiração das coisas proibidas,
Cujo abismo aos audazes, como ele, incita a mente
A maiores cometimentos do que o Céu consente.
Sai.
Terminat hora diem. Terminat Author opus.


1808
Estudei com ardor tanta Filosofia,
Direito e Medicina,
E infelizmente até muita Teologia
A tudo investiguei com esforço e disciplina,
E assim me encontro eu, qual pobre tolo, agora,
Tão sábio e tão instruído quanto fora outrora!
Primeiro fui Assistente e em seguida Doutor,
Dez anos a ensinar, autêntico impostor
A subir e a descer por todos os lados
Estudantes à volta em mim sempre grudados
E chego ao fim de tudo ignorante em tudo!
Coração a ferver! Para quê tanto estudo!


CHORUS MYTICUS
Tudo o que passa
É símbolo só;
O que não se alcança
Em corpo aqui está;
O indescritível
Realiza-s aqui;
O Eterno - Feminino
Atrai-nos para si.
FINIS


1844 / 1854


1926


Sem data / 1988
(after running away. (He never loves))
Não sei viver! nem fui para viver
Destinado; porquê então a vaga
Aspiração que tenho?
( ...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.


Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)



1947
( "Thomas Mann pertenceu a esse pequeno grupo de espíritos prudentes e tortuosos por natureza,(...) verdadeiramente conservadores, na medida em que não perdem o que quer que seja de uma acumulação de riquezas milenárias e, no entanto, subversivos na contínua reinterpretação do pensamento e da conduta humana" - Marguerite Yourcenar )

Faço questão de assegurar com toda a clareza que não tenho qualquer intenção de colocar a minha pessoa em lugar de destaque...antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkunhn.(...) Porém, em última análise, ou melhor, em primeira, eu amei-o, com horror, ternura, compaixão e admiração devota sem sequer me interrogar se ele, por pouco que fosse, correspondia aos meus sentimentos. Não, não o fez. No papel em que me transmitiu os esboços de composições e as páginas do diário, encontrados no espólio, expressa-se uma confiança, sem dúvida honrosa para mim, confiança na minha escrupulosidade, lealdade e correcção. Mas, amar-me? Quem teria amado esse homem? (...) A quem teria Adrian aberto o coração?... Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro , sem a perceber. A sua indiferença era tão grande que apenas raras vezes se dava conta da companhia em que estava e do que se passava ao seu redor(... )Inclino-me a comparar a sua solidão com um abismo, no qual se afundavam, sem ruído nem rasto, os sentimentos que os outros lhe ofereciam.

A 25 de Agosto de 1940, recebi aqui em Freising a notícia de que se haviam extinguido os restos de uma vida que dera à minha própria a sua substância essencial, em matéria de amor, angústia, pavor e orgulho. Junto da cova a erta, no pequeno cemitério de Oberweiler, estavam comigo, além dos parentes, ... e ainda uma senhora estranha, irreconhecível sob o seu véu. Enquanto as primeiras pazadas de terra caíam sobre o caixão, esta desapareceu.
roficamente.
A essa altura, a Alemanha, as faces ardentes de febre, no apogeu de selvagens triunfos, cambaleava, ébria, a ponto de conquistar o mundo, graças a um pacto ao qual tencionava manter-se fiel e que assinara com seu sangue. Hoje, cai de desespero em desespero, cingida de demónios, cobrindo um dos olhos com a mão e cravando o outro num quadro horroroso. Quando alcançará o fundo do abismo? Quando raiará, em meio à derradeira desolação, um milagre superior a qualquer fé, a luz da esperança? Um homem solitário junta as mãos e diz: ‘Que Deus tenha misericórdia de vossas pobres almas, meu amigo, minha pátria!’



Abro , aqui , um parêntesis para citar herman hesse (1927): «…essas fatais relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã (…) uma hegemonia da música, como não se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, sonhamos todos com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprimível, que possa representar o irrepresentável. Em vez de tocar o seu instrumento da forma mais fiel e honesta possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra, seduzindo a música».

Esta atração fatal está bem presente em doutor fausto.




1967

1987 ...........................................................................................2001..................


2009
Na encenação do Fausto, de Gounod (1818-1893), concebida pelo alemão Christof Loy, o protagonista não está encerrado no seu gabinete num cenário quinhentista, a refletir sobre a vida e o conhecimento, mas está em frente a um aparelho de televisão, num lar de idosos do século XX. Mefistófeles faz a sua primeira aparição de forma teatral, saltando de um palco em traje do século XVI, mas depois do pacto de devolver a juventude a Fausto também ele dará um salto no tempo. Vestida de luto, com um crucifixo ao peito, vemos inicialmente Margarida como uma das funcionárias do asilo...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Eu, goethe e a santísima trindade...

Dos autores que Joyce considerava a " santíssima trindade" da cultura europeia, só goethe me interessa. Não gosto de ler dante nem shakespeare, são símbolos culturais cujo indiscutível mérito reconheço, mas que não me emocionam. Li-os com a mesma atitude com que visitei as capitais europeias e com que ingiro fruta: não por prazer, mas porque é preciso - uma obrigação , não um deleite. Ler dante e shakespeare entedia-me, viajar cansa-me, comer fruta arrepia-me...

Nimbus são nuvens densas , com aspecto amorfo, base difusa e baixa, muito espessa, escura ou cinzenta, que ocultam o sol , produzindo precipitação intermitente e mais ou menos intensa.
Formam-se em massas de ar com alguma instabilidade, quando a humidade é moderada ou alta e a temperatura é relativamente elevada, e estão normalmente associadas a frentes quentes ou oclusas. A evaporação da água da chuva torna normalmente a visibilidade baixa, podendo-se formar uma camada inferior de nuvens ou de nevoeiro por debaixo dos nimbus, se o ar ficar saturado.

Adormeci e acordei nimba...

" As nuvens são para Goethe seres animados, nem fixas, nem voláteis, mas, como tudo na natureza, formas em permanente transformação, elementos de uma coreografia cósmica...Goethe reconhece que a natureza se abre a certos espíritos e comunga íntima e ininterruptamente com certas almas . É por este espectador duplo - mas não dividido- que a observação das nuvens em Goethe tem sempre uma vertente empírica e outra simbólica. Mas de onde vem o interesse de Goethe pelas nuvens, o tema específico dos textos reunidos neste pequeno volume? O catalisador directo do interesse meteorológico foi o conhecimento da teoria classificativa das nuvens apresentada em 1802 por Luke Howard (On the Modifications of Clouds, publicado em 1803), de que Goethe toma conhecimento através do Grão-Duque Carlos Augusto, que em 1815 mandara construir no Ettersberg, a norte de Weimar, a primeira estação meteorológica do grão-ducado.”

O grau de fascínio que sobre mim exerceram as classificações das nuvens por Howard está bem patente em muitas páginas do volume científico no qual incluí também esta nota.O meu desejo de dar forma ao informe , de encontrar um princípio que possa reger a infinita mutação das formas, está igualmente patente em todos os meus esforços no âmbito científico e artístico.

Apresentamos aqui a terminologia de Howard pela ordem segundo a qual as formações nebulosas podem entrar em relação , qur com a terra, quer com as regiões superiores.
Stratus
Cumulo- stratus
Cumulus - Estas são aquelas fantásticas que verdadeiramente merecem o nome de nuvens.
Cirro - cumulus
Cirrus
Cirro - stratus
Nimbus


Se a região superior, com a sua energia dissecante, capaz de absorver e dissolver em si a água, vence a disputa, estas massas concentradas dissolvem-se e desfiam-se nas pontas superiores, elevam-se em flocos e nós vemo-las como cirrus que acabam por desaparecer no espaço infinito. Mas se for a região inferior a vencer, a zona mais propícia a atrair a si a mais densa humidade e a mostrá-la em gotas sensíveis, então a base horizontal do cumulus desce, a nuvem alarga-se e forma um stratus, fica parada ou anda, alternadamente, e acaba por cair na terra sob a forma de chuva, fenómeno que, conjuntamente com o anterior, recebe o nome de nimbus.

Mas ele, Howard, homem clarividente,
Com a sua doutrina ensinou toda a gente.
O que o céu não retém e o sentido não vê,
Ele primeiro o fixa, e enfim o lê;
Dá forma ao informe, seu domínio estreita,
Com o nome certo - honra lhe seja feita! -
A nuvem sobe, adensa, esgarça, desce,
E o mundo pensa em ti e agradece.


De onde vem o meu interesse pelas nuvens?

Tudo era como nuvens.Tudo existia só dentro da minha cabeça, nunca nada se materializou: não havia sonhos, não havia desejos, só um vazio preenchido por construções mentais, representações de momentos de felicidade que nunca chegaram a ser concretizados. Nunca consegui, a não ser por breves momentos, ter uma vida feita de acontecimentos que aconteceram... Sou a personagem secundária de um romance que nunca foi escrito… Se, ao menos, fosse a protagonista...

(Ao dizer "tudo era como nuvens", não tinha noção de que não estava a ser rigorosa: que tipo de nuvens?
Impossível, agora, não revisitar aristófanes, embora esta digressão não esteja anunciada no título...)


Diálogo entre Estrepsíades (E) e Sócrates (S): um bom exemplo da "arte do convencimento":

E- Mas... Então e Zeus?... Vejamos pela Terra!... Então Zeus Olímpico não é deus?
S- Qual Zeus nem meio Zeus!... Não digas asneiras: Zeus... não existe!
E- Que é que estás dizendo? Então quem é que chove? Sim, antes de mais nada, explica-me lá essa coisa.
S- São as nuvens que chovem, obviamente. E é isso mesmo que te vou demonstrar com provas irrefutáveis. Ora bem: onde é que já alguma vez viste chover sem haver nuvens? Em boa verdade, ele, Zeus, deveria chover com céu limpo, na ausência de nuvens.
E- Por Apolo! Com tal argumento provaste muito bem essa teoria... E eu que dantes cuidava que era mesmo Zeus a mijar por um regador!... Mas... Explica-me mais uma coisa: quem é que troveja, que até me põe todo a tremelicar?
S- São elas, as nuvens, que, ao rebolarem-se, provocam, os trovões.
E- Mas como é isso, criatura tão desmedida?
S- Ao encherem-se abundantemente de água, são forçadas, por via disso, a deslocar-se. Ora, assim cheias de chuva, forçosamente ficam penduradas para baixo... Vai daí, mais pesadas, caem uma sobre as outras, rebentam e estalam.
E- E quem é que as força a mover-se? Não é Zeus?
S- Nada disso... É o Tornado etéreo.
E- O Tornado? Eis uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, que Zeus não existe, e que agora, em vez dele, quem reina é o Tornado..
.

E assim os deuses começaram a ser desacreditados na Antiga Grécia. Primeiro no teatro e depois na vida real. Sócrates, através de Aristófanes, coloca os fenómenos meteorológicos naturais a ocupar o lugar dos deuses, em particular do maior deles todos, o poderoso Zeus.

Romance epistolar, autobiográfico, constituído, essencialmente, pelas cartas de Werther dirigidas ao seu amigo Wilhelm . Nestas cartas, o jovem artista descreve a sua vida em Wahlheim, uma pequena aldeia para onde se mudou. Ali conhece Carlota, uma jovem de incrível beleza que está noiva de Albert, um homem onze anos mais velho. Porém, Werther, incapaz de controlar as suas emoções, apaixona-se por ela, originando um dos mais famosos triângulos amorosos da história da literatura ocidental.
Um amor que acaricia, mesmo sem estar presente. É famoso o excerto em que Werther manda o seu criado a casa de Carlota apenas para: “ter junto de mim alguém que tivesse estado na sua presença”. E continua: “Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e ter-me-ia atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos”. “Falam que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve os seus raios e reluz por algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado no seu rosto, nas suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Sentia - me tão bem na sua presença...”

Tu perguntas se deves enviar-me os meus livros... Meu caro, peço - te pelo amor de Deus, deixa-os longe do meu pescoço. Não quero
mais ser guiado, animado e afogueado... Este coração já fermenta o bastante por si próprio. Necessito muito antes de canções que embalem, e essas eu as achei no meu Homero. Quantas vezes tenho de mimar o meu sangue revolto até o acalmar... Tu sabes que não existe no mundo nada tão instável, tão inquieto quanto o meu coração. Se é que tenho necessidade de o dizer a quem tantas vezes carregou o fardo de me ver passar da aflição à digressão, da doce melancolia à paixão furiosa, meu caro! É por isso que trato meu pobre coração como uma criança doente, satisfazendo-lhe todas as vontades.


Ah! este vazio! Este vazio terrível que sinto no peito! Muitas vezes penso, se pudesses uma vez, pelo menos uma vez, tê-las nos braços, bem junto ao coração, como este vazio ficaria preenchido...

Tenho tanto dentro de mim, e o sentimento por ela tudo devora; tenho tanto e, sem ela, tudo se reduz a nada.

Às vezes não posso compreender como um outro pode amá-la, se permite amá-la, ousa amá-la, quando eu a amo de maneira única, tão profunda, tão plena; quando nada conheço, nada sei, nada tenho senão a ela!

Cem vezes estive a ponto de a apertar nos meus braços... quanto custa ver tamanho encanto cruzar o nosso caminho sem se ter o direito de o agarrar; e, no entanto, esse é o instinto mais natural da humanidade.

Suplico-te... Vês que para mim acabou-se tudo... Não poderei suportar tudo isso mais tempo. Estava sentado hoje ao lado dela...Estava sentado e ela tocava diferentes árias ao piano, com uma expressividade! Que expressividade... Que queres que eu diga? As lágrimas vieram-me aos olhos. Inclinei-me e eis que dou com sua aliança de casamento... as minhas lágrimas jorraram... E de repente ela passou a tocar aquela antiga ária, cuja doçura tem algo de celestial, assim de repente... e logo senti penetrar na minha alma um sentimento de consolação, e comecei a reviver a recordação do passado, do tempo em que ouvia aquela ária, dos intervalos sombrios de desgosto, das mágoas, das esperanças iludidas e depois... Andava no quarto de um lado para outro, o meu coração sufocava. “Pelo amor de Deus!”, disse-lhe eu explodindo e caminhando ao encontro dela. “Pelo amor de Deus, acabe com isso!” Ela cessou e olhou-me atentamente: “Werther!”, disse ela com um sorriso que me trespassou a alma. “Werther! Vós estais doente, repugnam-vos os vossos acepipes favoritos. Ora, vamos, faça o favor de sossegar.” Fugi de perto dela e... Deus meu! Tu vês o meu sofrer e haverás de extingui-lo.

A casa, a vizinhança, a cidade veio em tumulto. Alberto entrou. Haviam deitado Werther sobre a cama, com a fronte amarrada. O seu rosto mostrava a palidez da morte, ele não movia nenhum membro. O pulmão estertorava ainda mais terrivelmente, ora mais fraco, ora mais forte. Apenas esperavam o seu fim. Do vinho bebera apenas um copo. Emília Galotti jazia aberta sobre a secretária. Da comoção de Alberto, do desespero de Carlota não consigo dizer nada. O velho bailio veio a correr com a notícia e beijou o moribundo debaixo das mais sentidas lágrimas. Os seus filhos mais velhos vieram logo atrás dele, a pé. Caíram junto ao leito, expressando a mais incontida das dores e beijaram as mãos e a boca do amigo; e o mais velho, aquele que ele sempre amara mais, ficou pendurado nos seus lábios até ele expirar, e só à força foi tirado dali. Morreu ao meio-dia. A presença do bailio e as providências que ele tomou evitaram uma aglomeração maior de pessoas. À noite, às onze, fê-lo enterrar no lugar que ele havia escolhido. O velho e os filhos seguiram o corpo, Alberto não teve forças. Temia-se pela vida de Carlota. Foi carregado por operários. Nenhum sacerdote o acompanhou.
FIM

Não sou romântica, mas ... não resisto ao romantismo alemão... sobretudo ao alemão...
Quando a mente é um turbilhão de pensamentos e de emoções que se projetam num vazio que não permite concluir nada, a incapacidade de distinguir a verdade da mentira transforma-se no dom de construir uma realidade virtual. Sou uma espécie de quixote, metáfora de mim mesma: sonho e vivo fugazes momentos de uma felicidade inefável, eu e as minhas projeções; eu e os meus devaneios...

Com o Fausto ainda inacabado, goethe continua a escrever Os anos de Aprendizado de Wilhelm Meister...«Wilhelm, é certo, não passa de um pobre diabo, mas é com personagens destas que melhor se deixam mostrar o jogo inconstante da vida e as inúmeras e diversas tarefas da existência e não com caracteres rígidos e já formados.»


Passado! Uma palavra estúpida. Porquê passado? Passado e puro nada, absolutamente a mesma coisa (…) ‘Passou’! O que significa isso? É como se jamais houvesse sido, e no entanto agita-se em círculos como se existisse (…)

E, por outro lado, que importava se os indivíduos se tornavam pó e brisa? Se daquele pai, daquela mãe, daquele jovem esposo se perdiam o nome e a lembrança? Enquanto os indivíduos se extinguiam, os arquétipos da vida sobreviviam vitoriosamente às gerações. Assim, durante séculos o pai brincaria com a criança; a esposa, enrubescendo, esperaria pelo esposo; o sábio prosseguiria com as suas tranquilas meditações; os reis e os povos aliar-se-iam diante dos altares solenes dos deuses.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Estilhaços, abdicações e esoterismos...




No one is waiting For me to fail My will could sail yeah It's such a waste to be wasted In the first place I want to taste the taste of Being face to face with common grace To meditate on the warmest dream And when I walk alone I listen To our secret theme Your solar eyes are like Nothing I have ever seen Somebody close That can see right through I'd take a fall and you know That I'do anything I will for you (...) Long to be with Someone to tell I love your smell...

Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.
Mas dia a dia o que vejo me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha inteligência para com o meu senso moral.(...) Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada. Nem choro. Como chorar? (...) Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se, com a chave daquilo a que chamamos «pudor», no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente noutra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando, os envolve como uma nuvem. Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.


Precisava de libertar, de qualquer maneira, o sentimento que me asfixiava. Para pôr à vista o que ele tinha no ventre, eu queria despedaçar o belo manequim que por toda a parte eu apresentava.

Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.

Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta. Não é o que estou chorando. O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, A nuvem flutua calma, E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece, Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade. Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem.

As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. Na Múmia a posição é absolutamente exacta. Música longínqua, Música excessivamente longínqua, Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos.

Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim...



A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são! Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?) E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de angústia...Acordo para saber que existo...Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá ao fundo estúpido do jardim.



But I can't relate To the never-ending games That you play

Assim , sem europa, sem sonhos, a olhar o futuro de um passado em que uma quimera me tocou...Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.


Resolvi ler livro de adulto. Não penso nas minhas fantasias fantasiosas e, já que não consigo concluir nada sobre mim, vou tentar compreender a europa.

O historiador lamenta a deriva capitalista desenfreada das direitas de agora e a agenda «narcisista» das novas esquerdas, e defende o regresso a um sentido de «bem-comum» e «interesse público» que, segundo diz, só pode ser assegurado pelo Estado.

Ai Portugal...

São a Espanha e Portugal países latinos?
Em primeiro lugar, cumpre advertir um leitor incauto que a expressão "raça latina" ou "países latinos" não tem sombra de base sociológica a que se apegue. Não há, na enorme diversidade de factores sociais incluída nos povos a que se convencionou chamar "latinos" traço comum, que não seja uma certa semelhança linguística — semelhança essa porém que resulta, não de uma fundamental e espontânea semelhança íntima de características raciais, mas de uma comum origem linguística nos restos degenerados do Império Romano.
As nações a que se chama latinas têm de comum os característicos das nações meridionais, mas esses característicos pertencem também a povos como o grego e o turco, a gentes como os árabes e os índios — longe de toda a conexão, propriamente tal — e linguística nenhuma — com essa morta civilização latina que serve aqui de nome.
Mas a comum origem da língua não basta para se afirmar uma fundamental semelhança de intuitos e fórmulas raciais.
Qual o sentido possível da expressão "povos latinos"? A que povos se pode dar esse nome? Evidentemente apenas àqueles que são herdeiros, não só da língua, mas do próprio espírito do Império Romano. Esses, e não outros, têm direito a ser considerados latinos, por pouco que a expressão em geral signifique.
Chegou-se ao absurdo de chamar latinos aos povos simplesmente reveladores de qualidades características dos povos do Sul, de climas quentes, suaves, estimuladores da inércia e da paixão. Como se o Império Romano — tão disciplinado e seco de emoções e paixões — se pudesse prestar a uma comparação dessas!
Só a França e a Itália são povos latinos, no sentido possível sociológico da palavra. A Itália é directamente herdeira da tradição clássica. A França, pelo seu génio peculiar de raça, predominantemente de lucidez e brilho, é a natural herdeira da parte lógica, simplificadora, um pouco superficial das gentes romanas.



Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.

Portugal ...
1843
Fazem ideia do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não saem, se não vêem mundo esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de S. Carlos, como hão-de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século?(...)Viajar?...qual viajar!até à Cova da Piedade,quando muito...Pois ficareis alfacinhas para sempre,cuidando que todas as praças do mundo são como a do Terreiro do Paço,todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.

1872
Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se a Grécia e Portugal.

193?
Se... quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental.


1968
Costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva, enquanto todos os portugueses não forem obrigados, por lei, a fazer um estágio no estrangeiro, mas proibidos de se encontrarem uns com os outros. Esta proibição é da maior importância, para impedi-los de assarem colectivamente sardinhas, cozerem bacalhau com fervor nacionalista, ou trocarem, sofregamente, as últimas novidades do Chiado.

ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!(...)
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,golpe até ao osso, fome sem entretém,perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,rocim engraxado,feira cabisbaixa,meu remorso,meu remorso de todos nós..


Ai eu...
Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.

Ânsia infinda
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir (...)
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?


Pensar, ainda assim, é agir. Só no devaneio absoluto, onde nada de activo intervém, onde por fim até a nossa consciência de nós mesmos se atola num lodo — só aí, nesse morno e húmido não-ser, a abdicação da acção competentemente se atinge. Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo — a sabedoria é isto.

Entre o asceta e o homem vulgar não reconheço, na esfera da dignidade da alma, uso intermédio ou médio termo. Quem usa que use, quem abdica que abdique. Use com a brutalidade do uso; abdique com a absoluteza da abdicação. Abdique sem lágrimas, sem consolações de si mesmo, senhor ao menos da força de saber abdicar. Despreze-se, sim, mas com dignidade.

Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. O sonho, porém, substitui tudo. (...) Posso amar sem me recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida: depende apenas do meu poder em tornar o sono vívido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Já não me importo Até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto E cujo movimento é ali estar. Nada me resta Do que quis ou achei. Cheguei da festa Como fui para lá ou ainda irei Indiferente A quem sou ou suponho que mal sou...

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.
Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.
Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.

Não sei quem foi a mulher que Caeiro amou. (...) Há coisas que [a] alma se recusa a não ignorar. Bem sei que ninguém é obrigado a corresponder ao amor, e que os grandes poetas não têm nada com ser grandes amados.

Aprende a desligar as ideias de voluptuosidade e de prazer. Aprende a gozar em tudo, não o que ele é, mas as ideias e os sonhos que provoca. Porque nada é o que é: os sonhos sempre são os sonhos. Para isso precisas não tocar em nada. Se tocares o teu sonho morrerá, o objecto tocado ocupará a tua sensação. Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar. Não se aproximar — eis o que é fidalgo.

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.

ABDICAÇÃO
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa, — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.



Monte Abiegno ou Monte de Abeto é um termo místico. Os documentos rosacrucianos aparecem frequentemente expedidos de uma montanha com este nome. Tem relação com os montes Meru, Mariah, Olimpo, Sião ou Herman, Sinai e outros montes sagrados, que antigamente eram lugares de iniciação, de revelações e de cultos.


Na sombra do Monte Abiegno Repousei de meditar. Vi no alto o alto Castelo Onde sonhei de chegar.(...) Está no alto, sem caminho Senão o que há por achar. Na sombra do Monte Abiegno Meu sonho é de o encontrar. Mas por ora estou dormindo, Porque é sono o não saber.Olho o Castelo de longe, Mas não olho o meu querer. Da sombra do Monte Abiegno Que me virá desprender?



Do vale à montanha, Da montanha ao monte,Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,Por casas,por prados,Por quinta e por fonte, Caminhais aliados. Do vale à montanha, Da montanha ao monte,Cavalo de sombra, Cavaleiro monge,Por penhascos pretos,Atrás e defronte, Caminhais secretos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por plainos desertos Sem ter horizontes, Caminhais libertos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por ínvios caminhos, Por rios sem ponte, Caminhais sozinhos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte Cavalo de sombra,Cavaleiro monge, Por quanto é sem fim, Sem ninguém que o conte, Caminhais em mim.

O paganismo helénico tem duas feições: a exotérica, que é a do mito popular e admite os deuses, objectivista, patente, consoante o são todas as manifestações populares, e, sobretudo, todas as manifestações do espírito grego; e a esotérica, que o heleno aprendia apenas nos mistérios, a parte oculta do paganismo, ligada intimamente — mais mesmo que a parte aparente e normal — aos velhos cultos e sacerdócios do Egipto e do Oriente indefinido.
Em Pitágoras emerge, afirma-se em Platão, este esoterismo pagão. Porque emerge? Porque o espírito da filosofia pagã começou da limitação objectivista. Desceu às cavernas das iniciações. Abriu portas insuspeitas no mistério da alma humana.
O adoecimento do espírito objectivo. O sincretismo helénico, o carácter sintético do paganismo devia complicar-se . Tendo começado por admitir todos os deuses, devia, interiorizando-se, acabar por admitir todas as ideias de deuses. Assim, (...), no seu paganismo fundamental, o cristianismo é um paganismo de três dimensões, não só externo mas também interno; não só admissor dos deuses de todas as crenças, mas aperfeiçoador de todas as crenças. É isto o paganismo superior.(...)Na sua essência, o cristianismo é um paganismo esotérico. Na sua desvirtuação, o cristianismo é um judaísmo degenerado, na sua forma exterior católica, o cristianismo é um império romano subjugado.


Pactos com o diabo.Mas...quem é o diabo?

Eu não sou o que pensam. ... Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. É por mim que, quando criança, sonhaste aqueles sonhos que são brinquedos; é por mim que, quando mulher já, tiveste a abraçar-te de noite os príncipes e os dominadores que dormem no fundo desses sonhos. Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro. Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua. Minha luz paira sobre tudo quanto é fútil ou findo, fogo-fátuo, margens de rio, pântanos e sombras.

( De acordo com relatos orais, as origens da personagem “Fausto” remontam a um certo erudito Georgius ou Johann que, supostamente, terá vivido na Alemanha, entre os anos de 1470 e 1540.)

Tragédia filosófica absoluta é o Fausto de Goethe, em que por um lado a insatisfação na ciência, por outro a vivacidade da vida mundana e dos prazeres terrenos, constituem uma tal amplitude de conteúdo como nenhum outro poeta dramático ousou abarcar até então numa única obra.



Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir, descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo.




Tudo o que deve morrer não é senão reflexo
Tudo o que é imperfeito encontra aqui a perfeição
Tudo o que é mistério aqui encontra a luz
A Mulher em todos nós mostra-nos o nosso caminho.


Mas a Alquimia de Fausto foca outro aspecto. Na câmara gótica onde Fausto passou toda uma vida em busca do conhecimento e de onde saiu na companhia de Mefistófeles, o seu fâmulo, Wagner, sem qualquer auxílio demoníaco, prosseguiu os estudos e conseguiu criar um Homúnculo. Com esta figura Goethe mostra que é dentro de nós que se encontra a via que conduz à iluminação espiritual, mas que para a seguir é necessário aceitar-se a componente feminina do nosso ser, a famosa anima de Jung. É muito significativo o facto de Fausto estar inconsciente ou ausente em todas as cenas em que aparece o Homúnculo; é o desprezo pelo seu lado feminino e a sua opção pela via diabólica que lhe levanta todas as dificuldades, mas que no final o seu humanitarismo permitiu-lhe vencer...

A Anima opõe-se à persona: o arquétipo de qualquer homem encontra expressão numa personalidade interior feminina. Aparentemente dissociados, animal tem a mesma etimologia que alma. Curiosa trilogia, com afinidades e cumplicidades etimológicas, culturalmente separadas, quase tornadas antagónicas:anima animal, alma...
A anima refere-se às características femininas, reprimidas e inconscientes, da personalidade de um homem. A anima, constituída por ideias, perceções, impulsos, padrões de atividade cerebral, é uma entidade com vida autónoma na estrutura psíquica de um homem. Em todo o homem existe um eu feminino,uma anima; em todo o homem existe um animal.Se recusa a anima, o homem torna-se um animal...


Je vous laisse le choix du mensonge qui vous paraîtra le plus digne d'être la vérité.

La méditation est un vice solitaire, qui creuse dans l'ennui un trou noir que la sottise vient remplir.

L'habitude, une fois formée, enchaîne et délivre.

Il est gênant et fatigant de faire figure de grand homme: ceux qui s'y plaisent font pitié.

La pensée gâte le plaisir et exaspère la peine.



Os leitores de Fausto irão, e devem, estar envolvidos, com estremecimento, em todas as três vertentes do livro: o cenário alemão dentro das suas mais amplas origens universais; a apresentação de uma arte não apenas alemã, mas vital para toda a nossa civilização; a música como uma instância das artes e o estado em que se encontram as artes hoje; e, finalmente, a invocação do demoníaco.

Porém, em última análise, ou melhor, em primeira(...) eu amei -o, com horror, ternura, compadecimento e devota admiração, sem perguntar-me sequer se ele, por pouco que fosse, correspondia aos meus sentimentos.Não, não o fez. No papel em que me transmitiu os esboços de composições e as páginas do diário, encontrados no espólio, expressa-se uma confiança cordialmente objectiva, quase que me sinto induzido a dizer: condescendente, sem dúvida honrosa para mim, confiança na minha escrupulosidade, lealdade e correção. Mas, amar-me? A quem teria amado esse homem? Talvez, em tempos idos, a uma mulher. No fim,possivelmente a uma criança. Um jovem leviano, capaz de conquistar a simpatia de qualquer um, homem de todas as horas, que ele depois despachou — provavelmente por se lhe afeiçoado —, e logo a morte. A quem teria Adrian aberto o coração? A quem teria alguma vez acolhido na sua vida? Tais atitudes não existiam para ele. Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro, sem percebê-la. A sua indiferença era tão grande que apenas raras vezes se dava conta da companhia em que estava e do que se passava ao seu redor, e o facto de ele quase nunca ter chamado pelo nome nenhum dos seus interlocutores faz-me supor que ele o ignorava, ao passo que estes tinham boas razões para imaginar o contrário. Inclino-me a comparar a sua solidão comum abismo,no qual se aprofundavam, sem ruído nem rasto, os sentimentos que os outros lhe ofereciam. Em torno dele reinava a frieza — e que sensação me invade, ao usar essa palavra, da qualtambém ele se serviu outrora numa ocasião monstruosa! A vida e a experiência podem conferir a determinados vocábulos um acento completamente estranho ao seu sentido comum, e que lhes confere um nimbo de pavor incompreensível para todos os que não os tenham conhecido no seu significado mais horroroso.

A época que descrevo era para nós, os alemães, uma era de colapso do Estado, de capitulação, de revolta provocada pelo esgotamento, e de impotente abandono às mãos dos estrangeiros. A época na qual escrevo e que tem de me permitir deitar no papel, no meu calmo retiro, estas recordações, traz no ventre terrivelmente intumescido uma catástrofe nacional, em comparação com a qual a derrota precedente se afigura um módico infortúnio e a liquidação sensata de um empreendimento malogrado.

Sempre que a ampulheta for acionada e o tempo tiver sido prefixado, um tempo de dimensões inimagináveis e todavia delimitado, encontramo-nos nos nossos domínios e temos ricas colheitas. Vendemos tempo – digamos, vinte e quatro anos. Pode-se avistar o fim de um lapso tão grande? É adequada essa quantidade de anos? Com ela, a gente pode viver à farta, que nem os velhos imperadores, e espantar o mundo como um magnífico nigromante, através de numerosas obras diabólicas; com ela, um sujeito pode esquecer cada vez mais a lerdice e crescer, sumamente iluminado, acima de si próprio, sem, contudo, se alhear do seu ser, não, sempre é e prossegue sendo ele mesmo; apenas ficará alçado ao seu nível natural pela meia garrafa de champanhe, e terá o direito de saborear, em ébrio narcisismo, todas as delícias de um quase insuportável estro, de modo que, com mais ou menos razão, chegará talvez à convicção de que, desde há milénios, jamais houve tamanho engenho e simplesmente se reputará um deus em certos momentos desenfreados. Como poderá uma criatura dessas preocupar-se com o momento em que se cumpra pensar no fim? No entanto, esse fim pertence-nos; no fim, ele será nosso.

E todavia não se pode negar e nunca se negou que o elemento demoníaco, irracional, ocupa uma parcela inquietante dessa esfera luminosa, que entre ela e o reino dos Ínferos há uma ligação a despertar um leve horror e que, precisamente por isso, os epítetos positivos com os quais tentei qualificá-la, tais como ‘nobre’, ‘humanamente sadio’ e ‘harmonioso’, não querem adaptar-se inteiramente a ela, mesmo que [...] se trate de uma genialidade pura, autêntica, dada ou talvez infligida por Deus, e não de
uma congénere adquirida, ruinosa, de consumpção pecaminosa, doentia de dons naturais, do cumprimento de um atroz contrato de compra e venda.


Parece realmente cínico que, depois do que ocorreu na Europa e o que ainda ameaça ocorrer, dedique tempo e energia intelectual a decifrar os problemas esotéricos da moderna técnica da composição; além disso, as obstinadas discussões do texto, puramente formais, com frequência referem-se diretamente a uma realidade que não se interessa por elas.

O génio é uma forma de energia vital, profundamente conhecedora da doença, abeberada na mesma e criativa através dela.


(A desilusão de Fausto é de três espécies: 1) verifica, no facto de que Maria o ama em parte sem saber porquê e em parte por qualidades que lhe supõe e ele não tem, que o amor é coisa que não se pode querer compreender e entre o qual e ele há um abismo profundíssimo; 2) verifica, na sua incapacidade não só de compreender o amor; como até de o sentir ou, talvez melhor, de se sentir sentindo-o, que esse abismo que existe entre ele e o amor começa por ser um abismo que existe entre ele e ele próprio; 3) verifica (...))

Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.


Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.



O pensamento é enterrado vivo No mundo que o sufoca.

Condenados sem fim ao erro eterno. Porque não será isto a realidade? Porque não há-de ser, fantasma eterno, O abstracto e inúmero velado mundo, Sempre velado e abstracto, a sua própria Unidade uma imprecisão, Um todo indefinido, e mais que um todo Onde a verdade e o erro, pontos fixos, Nada sejam senão um maior erro?