Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reflexos e narcisos...

O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim. A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.

Aceitar ser um mero reflexo é negar tudo o que se é; é abdicar de tudo o que se acreditava ser... Um braço que se estende ocupa espaço e torna-se, assim, uma escultura metafísica. Nunca pude deixar de dar a este facto insignificante uma importância alada sobre o quotidiano.

It's a reflector It's just a reflector Just a reflector But I see you on the other side It's just a reflector But I see you on the other side We all got things to hide It's just a reflector But I see you on the other side...


Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque da quinta, com um docel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Nunca vi em mim senão uma romaria de inconsciências para o outono das minhas intenções. As longas horas que tenho passado à beira do meu correr têm-me [...] rios sobre a existência. Com os meus passos treme a luz das estrelas. Um gesto da minha mão, que me oculta a lua um momento, mostra, com este meu assombro, quanto pode realmente significar. Destes pensamentos, tornados domésticos e quotidianos ao meu escrúpulo, adveio ao meu instinto que ele naufragava no porto. Pareceu-me sempre que ser era ousar; que querer era aventurar-se. Inércia soube-me a santidade, e não-querer a ter bons costumes. Construí assim uma moral burguesa do pensamento, um cuidado da comodidade e da decência através do respeito do mistério. A exagerada consciência, que sempre tive, dos meus momentos, doeu-me sempre a mistério e a divino. Nunca me compreendi sobretudo quando me surpreendi a viver as inconsciências dos meus instintos e a vulgar correcção dos meus reflexos nervosos.

Perdi-me pelos sistemas secundários, excitados da metafísica sistemas cheios de analogias perturbantes, de alçapões para a lucidez, pondo paisagens misteriosas onde reflexos de sobrenatural acordam mistérios nos contornos. Envelheci pelas sensações... Gastei-me gerando os pensamentos... E a minha vida passou a ser uma febre metafísica, sempre descobrindo sentidos ocultos nas coisas, brincando com o fogo das analogias misteriosas, procrastinando a lucidez integral […].Caí numa complexa indisciplina cerebral, cheia de indiferenças. Onde me refugiei? Tenho a impressão de que não me refugiei em parte nenhuma. Abandonei-me mas não sei a quê. Que sonhos tenho? Não sei. Forcei-me por chegar a um ponto onde nem saiba já em que penso, em que sonho, o que visiono. Parece-me que sonho cada vez de mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.

Narciso, durante uma caçada, encontra a ninfa Eco. Logo que o viu, uma paixão súbita se apoderou dela. Foi em sua perseguição, mas, como não podia falar, limitava-se a segui-lo. Até que Narciso, pressentindo alguém, exclama: — Ecquis adest? - Ela surge e abraça-se a ele que a repele... Eco, entristecida e envergonhada, refugia-se na floresta, deixando de comer. Todos, jovens e donzelas, se sentiam desprezados por Narciso, até que alguém lançou uma maldição: «Possa ele amar e não possuir o objeto dos seus desejos!" A deusa Nemesis ouve esta súplica e prepara-se para a satisfazer. Um dia, Narciso, extenuado após uma caçada, encontra um local maravilhoso, onde descansa e aproveitou para matar a sede num lago imaculado, que Ovídio descreve de forma pormenorizada, de modo dar-nos a perfeita sensação de um espelho. Ao matar a sede, mira-se e vê a sua bela imagem no lago... Apaixonana-se pela sua pessoa e não consegue afastar-se desse feitiço.... Moribundo, dirige as suas últimas palavras às árvores que o rodeiam e refere o seu desgosto pela paixão que o dominou, que nunca poderá concretizar. Na realidade, apesar de não haver grande distância entre eles, o ser amado era inantigível: quando estendia os braços, o ente querido também os estendia, quando sorria, ele também sorria, quando falava, do outro lado só havia um mexer de lábios sem som. Mas reconhece o seu erro, pois apaixonou-se por si próprio — Iste ergo sum — e em breve exalarão ambos o último suspiro...
Eco vem assistir aos seus últimos momentos: mesmo ao entrar nos Infernos, Narciso mirou-se nas águas do lago Estígio.

O mito de Narciso para Valéry traduz a pretensão de corporalizar, de reduzir a uma concreta imagem mítica, o mais antinatural, irreal e absoluto — o seu Eu: Mais moi, Narcisse aimé, je ne suis curieux Que de ma seule essence Tout autre n'a pour moi un coeur mystérieux Tout autre n" est qu' absence. Te voici, mon doux corps de lune et de rosée, O forme obéissante à mes vœux opposée ! Qu'ils sont beaux, de mes bras les dons vastes et vains ! Mes lentes mains, dans l'or adorable se lassent D'appeler ce captif que les feuilles enlacent; Mon cœur jette aux échos l'éclat des noms divins !... Du souffle que j'enseigne à tes lèvres, mon double, Sur la limpide lame a fait courir un trouble ! ...Tu trembles ! ... Mais ces mots que j'expire à genoux Ne sont pourtant qu'une âme hésitante entre nous,Entre ce front si pur et ma lourde mémoire ... Je suis si près de toi que je pourrais te boire, O visage ! ... Ma soif est un esclave nu ...jusqu'à ce temps charmant je m'étais inconnu, Et je ne savais pas me chérir et me joindre ! Mais te voir, cher esclave, obéir à la moindre Des ombres dans mon cœur se fuyant à regret, Voir sur mon front l'orage et les feux d'un secret, Voir, ô merveille, voir ! ma bouche nuancée Trahir... peindre sur l'onde une fleur de pensée, Et quels événements étinceler dans l'œil ! J'y trouve un tel trésor d'impuissance et d'orgueil, Que nulle vierge enfant échappée au satyre, Nulle ! aux fuites habiles, aux chutes sans émoi, Nulle des nymphes, nulle amie, ne m'attire Comme tu fais sur l'onde, inépuisable Moi !.

A criação literária mais genial, inspirada neste mito, é, indiscutivelmente, a de Wilde...

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expessão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

o tempo tem-lhe inveja e faz guerra aos seus lírios e às suas rosas. a bela aparência de Dorian Gray: são dons dos deuses...A noção de sua beleza dominava-o como uma revelação.

-Que tristeza!- murmurou Dorian.- Que tristeza!- repetiu, com os olhos cravados na sua efígie- Eu vou ficar velho, feio, horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre jovem, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo!Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!

Estava cada vez mais enamorado da sua própria beleza, mais e mais empenhado em corromper a sua própria alma.

-Que horror, Dorian! Alguma coisa o transformou completamente. Por fora, ainda é o belo rapaz que, não há muito tempo, ia ao meu estúdio e posava diariamente para o seu retrato: um rapaz simples, afetuoso, sem afetação. A criatura mais inocente deste mundo. Agora, não sei o que lhe sucedeu. Fala como se não tivesse coração, como se desconhecesse a piedade.

É frequente desencadearem-se as verdadeiras tragédias da vida de uma maneira tão pouco artística que nos magoam com a sua crua violência, a sua tremenda incoerência, carecendo absolutamente de sentido, sem o mínimo estilo. Afectam-nos do mesmo modo que a vulgaridade. Causam-nos uma impressão de pura força bruta contra a qual nos revoltamos. Por vezes, porém, cruzamo-nos nas nossas vidas com uma tragédia repassada de elementos de beleza artística. Se esses elementos estéticos são autênticos, todo o episódio apela à nossa apreciação do efeito dramático. De repente deixamos de ser actores e passamos a espectadores da peça. Ou antes, somos ambas as coisas. Observamo-nos, e todo o encanto do espectáculo nos arrebata.


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... Ah, que terrível face e que arcabouço Este meu corpo lânguido escondia! Ó boca tumular, cerrada e fria, Cujo silêncio esfíngico bem ouço! Ó lindos olhos sôfregos, de moço, Numa fronte a suar melancolia! Assim me desejei nestas imagens. Meus poemas requintados e selvagens, O meu Desejo os sulca de vermelho: Que eu vivo à espera dessa noite estranha, Noite de amor em que me goze e tenha, ...Lá no fundo do poço em que me espelho!

Nunca me ofereceram narcisos...Talvez ninguém saiba que adoro narcisos. Fui à florista comprar um vasinho de narcisos. " São para oferta?". "Sim! São para mim." Como??" "Sou narcisista, percebe?" Não percebeu e, contrafeita, fez o embrulho de oferta...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ideias fixas, obsessões, venenos e antídotos...

Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se, ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?
Pensei, primeiro, em publicar anonimamente, em relação a mim... Mas, sobre ser pequeno demais o meio intelectual português, para que (mesmo sem inconfidências) a máscara se pudesse manter, era inútil o esforço mental preciso para mantê-la. Tenho, na minha visão a que chamo interior apenas porque chamo exterior a determinado «mundo», plenamente fixas, nítidas, conhecidas e distintas, as linhas fisionómicas, os traços de carácter, a vida, a ascendência, nalguns casos a morte, destas personagens. Alguns conheceram-se uns aos outros; outros não. A mim, pessoalmente, nenhum me conheceu, excepto Álvaro de Campos... O que é a vida?


Gente coexistível: genial esta expressão...

De tanto se julgar doente, uma pessoa torna-se doente, emagrece, deixa de ter força para se levantar, tem enterites nervosas. De tento pensar nos homens com ternura, um homem torna-se mulher, e um vestido postiço entrava-lhe os passos. Nele, a ideia fixa pode modificar o sexo( tal como nos outros casos a saúde)

E como a pouco e pouco chegava a pensar, mesmo as coisas sociais, no feminino, e sem dar por isso, porque não é só à força de mentirmos aos outros mas também de mentirmos a nós mesmos que deixamos de notar que mentimos , embora tivesse pedido ao seu corpo que manifestasse toda a cortesia de um grande senhor , esse corpo compreendera bem que o senhor de Charlus deixara de ouvir...


Um prosador de temas onde a matéria-prima é só o tempo,mas um tempo antiproustiano,a perder... "Não serei eu que ande em busca do tempo perdido"...

O Sr. Teste é impossível e sem identidade...pode sugerir obsessão de eficácia... Teste foi gerado em era de embriaguez da minha vontade e rodeado por estranhos excessos de consciência de si. Atacara-me a doença da precisão. Eu tendia mais para a aguda forma do desejo insensato de compreender,e procurar em mim os pontos críticos da faculdade de atenção.

Construí uma ilha interior e perdia o tempo a reconhecê-la e fortificá-la.

A incoerência de um discurso depende de quem o ouve.Parece-me que o espírito é assim,só pode ser incoerente para si próprio.

De que sofri mais? Talvez do hábito de desenvolver todo o meu pensamento - de ir ao final de mim.

Não é filósofo, nem nada desse género, nem sequer literato; daí pensar muito - pois quanto mais se escreve, menos se pensa.

Como sabe, caro Você, sou um espírito da mais tenebrosa espécie.Sabe-o por experiência,e ainda melhor por estar farto de ouvi-lo dizer. Modeste tamen et circunspecto Juddicio pronuntiandum est, ne ( quod plerisque )accidit,damnent quae non intelligunt.

Refletir nas coisas que o jornal do dia diz é contar a mim próprio tudo o que ele não diz...

...quando o impossível transpõe de súbito os diques da vida quotidiana...
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vomito para aliviar a vontade de vomitar...A intriga a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desenhos, dos restos trincados das sensações.

A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cujo pensamento nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.



Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...


Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,
comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.




Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um facto consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez a tua cabeça
Minha cabeça perder o teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Embriagar-me até que alguém me esqueça


E no interior de cada castelo de ideias, de cada pardieiro de opiniões sobrepostas aos pardieiros de madeira e aos castelos de pedra, a vida empareda os loucos e abre uma fresta aos sábios.

Tabaco, café, álcool, ácido prússico, estricnina — todos não passam de poções diluídas: o mais infalível veneno é o tempo. Essa taça, que a natureza nos põe nos lábios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperança, amor, ambição, ciência. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, força, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e delírio. Nós adiamos o nosso trabalho literário até que tenhamos maturidade e técnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento literário não passava de uma efervescência juvenil que perdemos.

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?


Every Sunday's getting more bleak A fresh poison each week We were born sick you heard them say it My church offers no absolutes ...

O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos. Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver. O criador do espelho envenenou a alma humana.

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia. A razão por que tantas vezes interrompo um pensamento com um trecho de paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao conhecimento da minha impotência criadora. Tenho a necessidade, em meio das conversas comigo que formam as palavras deste livro, de falar de repente com outra pessoa, e dirijo-me à luz que paira, como agora, sobre os telhados das casas, que parecem molhados de tê-la de lado; ao agitar brando das árvores altas na encosta citadina, que parecem perto, numa possibilidade de desabamento mudo; aos cartazes sobrepostos das casas ingremadas, com janelas por letras onde o sol morto doira goma húmida.
Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça. Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas [...], folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma. Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.


Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento


Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto

Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse



Day after day....night after night...



Se é verdade que os únicos paraísos são aqueles que se perderam, sei como hei-de chamar a esta qualquer coisa de terno e de inumano que hoje reside em mim.(...) Não quero ruminar a felicidade. É bem mais simples e é bem mais fácil. Porque destas horas que, do fundo do olvido, torno a trazer até mim, se conservou sobretudo a recordação intacta de uma pura emoção, de um instante suspenso na eternidade. Só isso é verdadeiro em mim e sei-o sempre demasiado tarde. Gostamos da curvatura de um gesto, da oportunidade de uma árvore na paisagem. E para recriar todo este amor não temos senão um pormenor, mas que basta: o cheiro de um quarto fechado por demasiado tempo, o som singular de um passo na estrada. Assim é quanto a mim.

Este é um dos textos que mais me pacifica: é o antídoto perfeito contra todos os venenos que me atormentam a existência...


Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,(...)
Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.


Os prazeres e os perigos da inteligência.
Apresentação do processo de entendimento do mundo, das várias facetas possíveis, que, no processo de crescimento, somos obrigados a experimentar. Vivemos todos os dias, um de cada vez, e de cada vez somos uma metamorfose, uma mutação, do dia anterior.

Mas a principal razão, e essa aplicável à humanidade em geral, era que nem sequer as nossas virtudes são algo de livre, de flutuante, de que guardemos permanente disponibilidade; acabam por ficar tão estreitamente associadas no nosso espírito aos actos em que nos achámos na obrigação de as exercer que, se nos aparece uma actividade de outra ordem, esta encontra­‑nos desprevenidos e sem sequer nos ter ocorrido que ela poderia implicar o exercício dessas mesmas virtudes.

Quando pela primeira vez se falou em convidar o senhor de Norpois para jantar lá em casa e a minha mãe exprimiu a pena que tinha de que o professor Cottard andasse em viagem e de que ela própria tivesse deixado completamente de se dar com Swann, porque tanto um como o outro haveriam por certo de interessar ao antigo embaixador, o meu pai respondeu que um conviva eminente, um sábio ilustre como Cottard, não podia nunca calhar
mal num jantar, mas que Swann, com aquela sua ostentação, com aquela maneira de anunciar aos quatro ventos as suas mínimas relações, era um vulgar parlapatão que o marquês de Norpois por certo acharia, segundo a sua expressão, «infecto».


Mas, no que se refere a Cottard, pelo contrário, a época em que o vimos assistir aos primeiros tempos de Swann em casa dos Verdurin ia já bem longe; ora as honras, os títulos oficiais, chegam com os anos. Em segundo lugar, pode­‑se ser iletrado, ou fazer trocadilhos estúpidos, sem deixar de possuir um dom especial, que nenhuma cultura geral substitui, como é o dom do grande estratega ou do grande clínico. Efectivamente, não era apenas como um facultativo obscuro transformado com o tempo numa celebridade europeia que os seus confrades viam Cottard. Entre os jovens médicos, os mais inteligentes declararam — ao menos durante alguns anos, porque as modas mudam, visto que elas próprias nascem da necessidade de mudança — que, se alguma vez adoecessem, seria Cottard o único mestre a quem confiariam a própria pele. É claro que preferiam a convivência com certos chefes mais letrados, mais artistas, com quem podiam falar de Nietzsche ou de Wagner. Quando se fazia música em casa da senhora Cottard, nos serões em que ela, na esperança de que o marido viesse um dia a ser director da Faculdade, recebia os colegas e os alunos dele, este, em vez de ouvir, preferia jogar às cartas numa sala ao lado. Mas elogiava­‑se a prontidão, a profundidade, a segurança do seu golpe de vista, do seu diagnóstico. Em terceiro lugar, quanto ao conjunto de qualidades que o professor Cottard revelava para um homem como o meu pai, note­‑se que a
natureza que revelamos na segunda parte da nossa vida nem sempre é, ainda que muitas vezes o seja, a nossa natureza primordial desenvolvida ou aviltada, aumentada ou atenuada; é por vezes uma natureza inversa, uma verdadeira peça de roupa virada do avesso. Excepto em casa dos Verdurin, que se tinham apaixonado por ele, o ar hesitante de Cottard, a sua timidez e a sua amabilidade excessivas tinham­‑lhe valido, na juventude, dichotes constantes. Que caridoso amigo lhe terá aconselhado um ar glacial? A importância da sua situação tornou­‑lhe mais fácil o assumi-lo. Em toda a parte, a não ser em casa dos Verdurin, onde por instinto voltava a ser ele mesmo, tornou­‑se frio, habitualmente silencioso, peremptório quando tinha de falar, e não se esquecia de dizer coisas desagradáveis. Teve ocasião de experimentar essa nova atitude diante de clientes que ainda o não haviam conhecido, que não estavam em condições de fazer comparações, e que ficariam muito admirados se soubessem que ele não era um homem de rudeza natural. Era sobretudo na impassibilidade que ele se exercitava, e até no seu serviço no hospital, quando debitava alguns daqueles trocadilhos que punham toda a gente a rir, desde o director do serviço até ao externo mais recente, fazia­‑o sempre sem que um músculo se lhe alterasse na cara, aliás irreconhecível desde que rapara a barba e o bigode.


Mas, no que dizia respeito ao senhor de Norpois, acontecia sobretudo que, numa longa prática da diplomacia, ele se imbuíra daquele espírito negativo, rotineiro, conservador, do chamado «espírito de governante» e que efectivamente é o de todos os governos e, em especial, em todos os governos, o espírito das chancelarias. Bebera na carreira a aversão, o temor e o desprezo relativamente àqueles processos mais ou menos revolucionários, ou no mínimo incorrectos, que são os processos das oposições. Salvo em alguns iletrados do povo e da sociedade, para os quais a diferença dos géneros é letra morta, o que aproxima não é a comunidade de opiniões, é a consaguinidade dos espíritos.




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Estilhaços, abdicações e esoterismos...




No one is waiting For me to fail My will could sail yeah It's such a waste to be wasted In the first place I want to taste the taste of Being face to face with common grace To meditate on the warmest dream And when I walk alone I listen To our secret theme Your solar eyes are like Nothing I have ever seen Somebody close That can see right through I'd take a fall and you know That I'do anything I will for you (...) Long to be with Someone to tell I love your smell...

Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.
Mas dia a dia o que vejo me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha inteligência para com o meu senso moral.(...) Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada. Nem choro. Como chorar? (...) Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se, com a chave daquilo a que chamamos «pudor», no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente noutra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando, os envolve como uma nuvem. Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.


Precisava de libertar, de qualquer maneira, o sentimento que me asfixiava. Para pôr à vista o que ele tinha no ventre, eu queria despedaçar o belo manequim que por toda a parte eu apresentava.

Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.

Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta. Não é o que estou chorando. O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, A nuvem flutua calma, E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece, Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade. Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem.

As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. Na Múmia a posição é absolutamente exacta. Música longínqua, Música excessivamente longínqua, Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos.

Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim...



A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são! Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?) E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de angústia...Acordo para saber que existo...Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá ao fundo estúpido do jardim.



But I can't relate To the never-ending games That you play

Assim , sem europa, sem sonhos, a olhar o futuro de um passado em que uma quimera me tocou...Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.


Resolvi ler livro de adulto. Não penso nas minhas fantasias fantasiosas e, já que não consigo concluir nada sobre mim, vou tentar compreender a europa.

O historiador lamenta a deriva capitalista desenfreada das direitas de agora e a agenda «narcisista» das novas esquerdas, e defende o regresso a um sentido de «bem-comum» e «interesse público» que, segundo diz, só pode ser assegurado pelo Estado.

Ai Portugal...

São a Espanha e Portugal países latinos?
Em primeiro lugar, cumpre advertir um leitor incauto que a expressão "raça latina" ou "países latinos" não tem sombra de base sociológica a que se apegue. Não há, na enorme diversidade de factores sociais incluída nos povos a que se convencionou chamar "latinos" traço comum, que não seja uma certa semelhança linguística — semelhança essa porém que resulta, não de uma fundamental e espontânea semelhança íntima de características raciais, mas de uma comum origem linguística nos restos degenerados do Império Romano.
As nações a que se chama latinas têm de comum os característicos das nações meridionais, mas esses característicos pertencem também a povos como o grego e o turco, a gentes como os árabes e os índios — longe de toda a conexão, propriamente tal — e linguística nenhuma — com essa morta civilização latina que serve aqui de nome.
Mas a comum origem da língua não basta para se afirmar uma fundamental semelhança de intuitos e fórmulas raciais.
Qual o sentido possível da expressão "povos latinos"? A que povos se pode dar esse nome? Evidentemente apenas àqueles que são herdeiros, não só da língua, mas do próprio espírito do Império Romano. Esses, e não outros, têm direito a ser considerados latinos, por pouco que a expressão em geral signifique.
Chegou-se ao absurdo de chamar latinos aos povos simplesmente reveladores de qualidades características dos povos do Sul, de climas quentes, suaves, estimuladores da inércia e da paixão. Como se o Império Romano — tão disciplinado e seco de emoções e paixões — se pudesse prestar a uma comparação dessas!
Só a França e a Itália são povos latinos, no sentido possível sociológico da palavra. A Itália é directamente herdeira da tradição clássica. A França, pelo seu génio peculiar de raça, predominantemente de lucidez e brilho, é a natural herdeira da parte lógica, simplificadora, um pouco superficial das gentes romanas.



Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.

Portugal ...
1843
Fazem ideia do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não saem, se não vêem mundo esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de S. Carlos, como hão-de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século?(...)Viajar?...qual viajar!até à Cova da Piedade,quando muito...Pois ficareis alfacinhas para sempre,cuidando que todas as praças do mundo são como a do Terreiro do Paço,todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.

1872
Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se a Grécia e Portugal.

193?
Se... quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental.


1968
Costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva, enquanto todos os portugueses não forem obrigados, por lei, a fazer um estágio no estrangeiro, mas proibidos de se encontrarem uns com os outros. Esta proibição é da maior importância, para impedi-los de assarem colectivamente sardinhas, cozerem bacalhau com fervor nacionalista, ou trocarem, sofregamente, as últimas novidades do Chiado.

ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!(...)
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,golpe até ao osso, fome sem entretém,perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,rocim engraxado,feira cabisbaixa,meu remorso,meu remorso de todos nós..


Ai eu...
Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.

Ânsia infinda
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir (...)
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?


Pensar, ainda assim, é agir. Só no devaneio absoluto, onde nada de activo intervém, onde por fim até a nossa consciência de nós mesmos se atola num lodo — só aí, nesse morno e húmido não-ser, a abdicação da acção competentemente se atinge. Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo — a sabedoria é isto.

Entre o asceta e o homem vulgar não reconheço, na esfera da dignidade da alma, uso intermédio ou médio termo. Quem usa que use, quem abdica que abdique. Use com a brutalidade do uso; abdique com a absoluteza da abdicação. Abdique sem lágrimas, sem consolações de si mesmo, senhor ao menos da força de saber abdicar. Despreze-se, sim, mas com dignidade.

Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. O sonho, porém, substitui tudo. (...) Posso amar sem me recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida: depende apenas do meu poder em tornar o sono vívido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Já não me importo Até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto E cujo movimento é ali estar. Nada me resta Do que quis ou achei. Cheguei da festa Como fui para lá ou ainda irei Indiferente A quem sou ou suponho que mal sou...

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.
Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.
Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.

Não sei quem foi a mulher que Caeiro amou. (...) Há coisas que [a] alma se recusa a não ignorar. Bem sei que ninguém é obrigado a corresponder ao amor, e que os grandes poetas não têm nada com ser grandes amados.

Aprende a desligar as ideias de voluptuosidade e de prazer. Aprende a gozar em tudo, não o que ele é, mas as ideias e os sonhos que provoca. Porque nada é o que é: os sonhos sempre são os sonhos. Para isso precisas não tocar em nada. Se tocares o teu sonho morrerá, o objecto tocado ocupará a tua sensação. Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar. Não se aproximar — eis o que é fidalgo.

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.

ABDICAÇÃO
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa, — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.



Monte Abiegno ou Monte de Abeto é um termo místico. Os documentos rosacrucianos aparecem frequentemente expedidos de uma montanha com este nome. Tem relação com os montes Meru, Mariah, Olimpo, Sião ou Herman, Sinai e outros montes sagrados, que antigamente eram lugares de iniciação, de revelações e de cultos.


Na sombra do Monte Abiegno Repousei de meditar. Vi no alto o alto Castelo Onde sonhei de chegar.(...) Está no alto, sem caminho Senão o que há por achar. Na sombra do Monte Abiegno Meu sonho é de o encontrar. Mas por ora estou dormindo, Porque é sono o não saber.Olho o Castelo de longe, Mas não olho o meu querer. Da sombra do Monte Abiegno Que me virá desprender?



Do vale à montanha, Da montanha ao monte,Cavalo de sombra,Cavaleiro monge,Por casas,por prados,Por quinta e por fonte, Caminhais aliados. Do vale à montanha, Da montanha ao monte,Cavalo de sombra, Cavaleiro monge,Por penhascos pretos,Atrás e defronte, Caminhais secretos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por plainos desertos Sem ter horizontes, Caminhais libertos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por ínvios caminhos, Por rios sem ponte, Caminhais sozinhos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte Cavalo de sombra,Cavaleiro monge, Por quanto é sem fim, Sem ninguém que o conte, Caminhais em mim.

O paganismo helénico tem duas feições: a exotérica, que é a do mito popular e admite os deuses, objectivista, patente, consoante o são todas as manifestações populares, e, sobretudo, todas as manifestações do espírito grego; e a esotérica, que o heleno aprendia apenas nos mistérios, a parte oculta do paganismo, ligada intimamente — mais mesmo que a parte aparente e normal — aos velhos cultos e sacerdócios do Egipto e do Oriente indefinido.
Em Pitágoras emerge, afirma-se em Platão, este esoterismo pagão. Porque emerge? Porque o espírito da filosofia pagã começou da limitação objectivista. Desceu às cavernas das iniciações. Abriu portas insuspeitas no mistério da alma humana.
O adoecimento do espírito objectivo. O sincretismo helénico, o carácter sintético do paganismo devia complicar-se . Tendo começado por admitir todos os deuses, devia, interiorizando-se, acabar por admitir todas as ideias de deuses. Assim, (...), no seu paganismo fundamental, o cristianismo é um paganismo de três dimensões, não só externo mas também interno; não só admissor dos deuses de todas as crenças, mas aperfeiçoador de todas as crenças. É isto o paganismo superior.(...)Na sua essência, o cristianismo é um paganismo esotérico. Na sua desvirtuação, o cristianismo é um judaísmo degenerado, na sua forma exterior católica, o cristianismo é um império romano subjugado.


Pactos com o diabo.Mas...quem é o diabo?

Eu não sou o que pensam. ... Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. É por mim que, quando criança, sonhaste aqueles sonhos que são brinquedos; é por mim que, quando mulher já, tiveste a abraçar-te de noite os príncipes e os dominadores que dormem no fundo desses sonhos. Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro. Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua. Minha luz paira sobre tudo quanto é fútil ou findo, fogo-fátuo, margens de rio, pântanos e sombras.

( De acordo com relatos orais, as origens da personagem “Fausto” remontam a um certo erudito Georgius ou Johann que, supostamente, terá vivido na Alemanha, entre os anos de 1470 e 1540.)

Tragédia filosófica absoluta é o Fausto de Goethe, em que por um lado a insatisfação na ciência, por outro a vivacidade da vida mundana e dos prazeres terrenos, constituem uma tal amplitude de conteúdo como nenhum outro poeta dramático ousou abarcar até então numa única obra.



Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir, descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo.




Tudo o que deve morrer não é senão reflexo
Tudo o que é imperfeito encontra aqui a perfeição
Tudo o que é mistério aqui encontra a luz
A Mulher em todos nós mostra-nos o nosso caminho.


Mas a Alquimia de Fausto foca outro aspecto. Na câmara gótica onde Fausto passou toda uma vida em busca do conhecimento e de onde saiu na companhia de Mefistófeles, o seu fâmulo, Wagner, sem qualquer auxílio demoníaco, prosseguiu os estudos e conseguiu criar um Homúnculo. Com esta figura Goethe mostra que é dentro de nós que se encontra a via que conduz à iluminação espiritual, mas que para a seguir é necessário aceitar-se a componente feminina do nosso ser, a famosa anima de Jung. É muito significativo o facto de Fausto estar inconsciente ou ausente em todas as cenas em que aparece o Homúnculo; é o desprezo pelo seu lado feminino e a sua opção pela via diabólica que lhe levanta todas as dificuldades, mas que no final o seu humanitarismo permitiu-lhe vencer...

A Anima opõe-se à persona: o arquétipo de qualquer homem encontra expressão numa personalidade interior feminina. Aparentemente dissociados, animal tem a mesma etimologia que alma. Curiosa trilogia, com afinidades e cumplicidades etimológicas, culturalmente separadas, quase tornadas antagónicas:anima animal, alma...
A anima refere-se às características femininas, reprimidas e inconscientes, da personalidade de um homem. A anima, constituída por ideias, perceções, impulsos, padrões de atividade cerebral, é uma entidade com vida autónoma na estrutura psíquica de um homem. Em todo o homem existe um eu feminino,uma anima; em todo o homem existe um animal.Se recusa a anima, o homem torna-se um animal...


Je vous laisse le choix du mensonge qui vous paraîtra le plus digne d'être la vérité.

La méditation est un vice solitaire, qui creuse dans l'ennui un trou noir que la sottise vient remplir.

L'habitude, une fois formée, enchaîne et délivre.

Il est gênant et fatigant de faire figure de grand homme: ceux qui s'y plaisent font pitié.

La pensée gâte le plaisir et exaspère la peine.



Os leitores de Fausto irão, e devem, estar envolvidos, com estremecimento, em todas as três vertentes do livro: o cenário alemão dentro das suas mais amplas origens universais; a apresentação de uma arte não apenas alemã, mas vital para toda a nossa civilização; a música como uma instância das artes e o estado em que se encontram as artes hoje; e, finalmente, a invocação do demoníaco.

Porém, em última análise, ou melhor, em primeira(...) eu amei -o, com horror, ternura, compadecimento e devota admiração, sem perguntar-me sequer se ele, por pouco que fosse, correspondia aos meus sentimentos.Não, não o fez. No papel em que me transmitiu os esboços de composições e as páginas do diário, encontrados no espólio, expressa-se uma confiança cordialmente objectiva, quase que me sinto induzido a dizer: condescendente, sem dúvida honrosa para mim, confiança na minha escrupulosidade, lealdade e correção. Mas, amar-me? A quem teria amado esse homem? Talvez, em tempos idos, a uma mulher. No fim,possivelmente a uma criança. Um jovem leviano, capaz de conquistar a simpatia de qualquer um, homem de todas as horas, que ele depois despachou — provavelmente por se lhe afeiçoado —, e logo a morte. A quem teria Adrian aberto o coração? A quem teria alguma vez acolhido na sua vida? Tais atitudes não existiam para ele. Aceitava a dedicação de outrem, às vezes, juro, sem percebê-la. A sua indiferença era tão grande que apenas raras vezes se dava conta da companhia em que estava e do que se passava ao seu redor, e o facto de ele quase nunca ter chamado pelo nome nenhum dos seus interlocutores faz-me supor que ele o ignorava, ao passo que estes tinham boas razões para imaginar o contrário. Inclino-me a comparar a sua solidão comum abismo,no qual se aprofundavam, sem ruído nem rasto, os sentimentos que os outros lhe ofereciam. Em torno dele reinava a frieza — e que sensação me invade, ao usar essa palavra, da qualtambém ele se serviu outrora numa ocasião monstruosa! A vida e a experiência podem conferir a determinados vocábulos um acento completamente estranho ao seu sentido comum, e que lhes confere um nimbo de pavor incompreensível para todos os que não os tenham conhecido no seu significado mais horroroso.

A época que descrevo era para nós, os alemães, uma era de colapso do Estado, de capitulação, de revolta provocada pelo esgotamento, e de impotente abandono às mãos dos estrangeiros. A época na qual escrevo e que tem de me permitir deitar no papel, no meu calmo retiro, estas recordações, traz no ventre terrivelmente intumescido uma catástrofe nacional, em comparação com a qual a derrota precedente se afigura um módico infortúnio e a liquidação sensata de um empreendimento malogrado.

Sempre que a ampulheta for acionada e o tempo tiver sido prefixado, um tempo de dimensões inimagináveis e todavia delimitado, encontramo-nos nos nossos domínios e temos ricas colheitas. Vendemos tempo – digamos, vinte e quatro anos. Pode-se avistar o fim de um lapso tão grande? É adequada essa quantidade de anos? Com ela, a gente pode viver à farta, que nem os velhos imperadores, e espantar o mundo como um magnífico nigromante, através de numerosas obras diabólicas; com ela, um sujeito pode esquecer cada vez mais a lerdice e crescer, sumamente iluminado, acima de si próprio, sem, contudo, se alhear do seu ser, não, sempre é e prossegue sendo ele mesmo; apenas ficará alçado ao seu nível natural pela meia garrafa de champanhe, e terá o direito de saborear, em ébrio narcisismo, todas as delícias de um quase insuportável estro, de modo que, com mais ou menos razão, chegará talvez à convicção de que, desde há milénios, jamais houve tamanho engenho e simplesmente se reputará um deus em certos momentos desenfreados. Como poderá uma criatura dessas preocupar-se com o momento em que se cumpra pensar no fim? No entanto, esse fim pertence-nos; no fim, ele será nosso.

E todavia não se pode negar e nunca se negou que o elemento demoníaco, irracional, ocupa uma parcela inquietante dessa esfera luminosa, que entre ela e o reino dos Ínferos há uma ligação a despertar um leve horror e que, precisamente por isso, os epítetos positivos com os quais tentei qualificá-la, tais como ‘nobre’, ‘humanamente sadio’ e ‘harmonioso’, não querem adaptar-se inteiramente a ela, mesmo que [...] se trate de uma genialidade pura, autêntica, dada ou talvez infligida por Deus, e não de
uma congénere adquirida, ruinosa, de consumpção pecaminosa, doentia de dons naturais, do cumprimento de um atroz contrato de compra e venda.


Parece realmente cínico que, depois do que ocorreu na Europa e o que ainda ameaça ocorrer, dedique tempo e energia intelectual a decifrar os problemas esotéricos da moderna técnica da composição; além disso, as obstinadas discussões do texto, puramente formais, com frequência referem-se diretamente a uma realidade que não se interessa por elas.

O génio é uma forma de energia vital, profundamente conhecedora da doença, abeberada na mesma e criativa através dela.


(A desilusão de Fausto é de três espécies: 1) verifica, no facto de que Maria o ama em parte sem saber porquê e em parte por qualidades que lhe supõe e ele não tem, que o amor é coisa que não se pode querer compreender e entre o qual e ele há um abismo profundíssimo; 2) verifica, na sua incapacidade não só de compreender o amor; como até de o sentir ou, talvez melhor, de se sentir sentindo-o, que esse abismo que existe entre ele e o amor começa por ser um abismo que existe entre ele e ele próprio; 3) verifica (...))

Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.


Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.



O pensamento é enterrado vivo No mundo que o sufoca.

Condenados sem fim ao erro eterno. Porque não será isto a realidade? Porque não há-de ser, fantasma eterno, O abstracto e inúmero velado mundo, Sempre velado e abstracto, a sua própria Unidade uma imprecisão, Um todo indefinido, e mais que um todo Onde a verdade e o erro, pontos fixos, Nada sejam senão um maior erro?

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ansiedades, urgências e desistências...

Sente-se única no seu sentir...com uma ansiedade diferente da que consta do dicionário: "Estado psíquico acompanhado de excitação ou de inibição, que implica, por vezes, uma sensação de constrição na garganta..." A sua ansiedade é sempre acompanhada de excitação, quase de euforia; de uma sensação de desconforto, de aperto, de inexplicável, mas , simultaneamente, de prazer. Gostava de se sentir ansiosa: os únicos momentos em que, além de estar, conseguia ser...Mas é um deleite que a esgota e desassossega de uma forma inexplicável. Olha o porvir e o passado, a revolverem-se dentro de si, e fica paralizada de medo e de espanto...

Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós... por que se dá qualquer cousa?... Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair pelo seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade.Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem.

Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, d'este mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando n'alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.
Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da m[inha] inteligência para com o meu senso moral. Hora a hora a (...) que escreve as sátiras surge colérica em mim. Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada.
Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo. Só aqui lh'o registo sobre papel, acanhadamente ainda assim, para que n'alguma parte fique escrito. Sim, fique aqui escrito que amo a pátria funda, (...) doloridamente.
Seja dito assim sucinto, para que fique dito. Nada mais.




As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo. Os meus desejos balouçam-se No meio de um jardim vertical.

Os jardins imaginários que de longe vislumbramos pertencem aos distraídos insensíveis entes com que os povoamos Sempre ficamos do lado de cá de suas grades desejosos-receosos de as passarmos Sentimos o perfume das rosas que inventamos vemos o esplendor dos frutos que sonhamos Contemplamos na inventada montra dos prazeres as sublimes doçuras que sonhamos sentindo sempre que não somos dignos de fruir de tais gozos Nos proibidos jardins que inventamos nós sombras-fantasmas dum desejo que nos impele em vão nós jamais perturbamos a serenidade de seu eterno impassível Verão

Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. E aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem (...)Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.

Apenas, vaga Não uma esperança, mas uma saudade Do tempo em que a esperança, como vaga, Dava na praia da minha ansiedade, Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga De vacuidade. Mas acordo e com vão Olhar ainda, mas já diferente, Por estar ausente dele o coração, E eu outra vez, nem mesmo descontente, Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão Inconsciente.

É urgente o amor É urgente um barco no mar É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer.

O que é que tens de urgente para me dizer?

Há dias que odeio toda a gente,incluindo eu próprio,incluindo tu.E eu gosto tanto de ti que não te quero odiar...

Toda a vida fui um céptico. Deixei de acreditar no Pai Natal aos seis anos.Em Deus,aos onze. Em mim, aos dezoito.

mmmm ...esqueci-me do que tinha para te dizer...Mas queria dizer-te qualquer coisa que ...ahahah! E acho que foi por isso que vim aqui falar contigo...Porque me lembrava vagamente de ter combinado contigo um dia destes...... isto tudo para dizer que é engraçado...eu nunca me esqueço de ti...A grande diferença entre duas pessoas e um puzzle é a multiplicidade de encaixes que podem ter sem nunca faltar uma peça e assim acabo por dormir descansada. Afinal ainda tenho o meu corpo todo no lugar.

O tempo é como é.Não se deixa comprar.É preciso enganá-lo.

Perguntam-me o que é que eu tenho de urgente para dizer e eu digo, quero viver fora da agenda, isso, quero viver fora da agenda das notícias, não quero encher a cabeça com as prioridades do noticiário, quero dizer estou-me nas tintas para o governo, o ministério da defesa, a oposição, as pensões dos reformados, os problemas na educação, da saúde, do desemprego, o golfinho que foi salvo, a comissão europeia, o presidente, os deputados, o rapaz dos concursos que se queria suicidar, a politica nacional, internacional, o presidente dos eua, o presidenta da rússia, o fundamentalismo islâmico, o terrorista mais procurado do momento.

Quem quer memórias? Memórias para todos os gostos e ocasiões. O senhor quer uma memória? Isto está bom, está novo,pode ter à vontade.Tenho tudo. Tristes,felizes,embaraçosas, ternurentas. É só escolher. O que é que quer? O que é que lhe dá jeito? Eu já não as vou usar, mas a si pode-lhe dar jito.O que é que quer? Sexo,amor,raiva,drama...(...) Eu ando sempre por aqui.E ando sempre a acumular memórias novas. Quer queira, quer não.

Vou esquecendo a nossa história,distraindo-me nas histórias dos dias dos outros onde ficamos como personagens abandonadas de uma telenovela banal. É sempre a realidade que imita a ficção,mas o mundo já não é um palco e os homens e as mulheres já não são senão maus actores a fazerem o seu próprio papel num quotidiano de cordel.

Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos... que se amaram um pouco ... e conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.

O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo. São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia. Abro a janela directamente, no desespero da insónia. E, de repente (...) Fraternidade na noite! Fraternidade involuntária, incógnita, na noite! Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia. Dorme. Nós temos luz. Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu? Não importa. A noite eterna, informe, infinita, Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas, O coração latente das nossas duas luzes, Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida...

Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim. Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, e esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça. Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Passa-se conscientemente, a dormir só com a impossibilidade de dar ao corpo outra direcção, a porta onde se deve entrar. Passa-se tudo. Que é do pandeiro, ó urso parado? (...) Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro. Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job «Minha alma está cansada de minha vida!

Recorda, vagamente, ter aprendido, há muitos anos, o princípio dos vasos comunicantes...Acreditou que os contrários se pudessem harmonizar, persuadiu-se que todas as dicotomias seriam superáveis, desde que houvesse " um vaso comunicante"...Julgou que este princípio teria também aplicação às relações humanas... Enganou-se:há mundos incomunicáveis. Há vidas que, por mais elementos de união que construam, por mais cumplicidades que intuam, serão sempre retas paralelas. O que ela vê do lado direito é exatamente o mesmo que outrem vê do lado esquerdo, mas os seus olhares , apesar de se poderem encontrar, episodicamente, nunca superam a barreira que separa um linha da que lhe é paralela: na geometria como na vida.

Há ideias, por exemplo as vagas, que não comportam uma apresentação lúcida. Há sentimentos, por exemplo os desmarcados, que não admitem uma manifestação sóbria. Há pontos em que nem é útil, nem possível ser conciso, como aqueles em que a explanação é de um assunto complexo, ou a demonstração de um assunto controverso, onde as objecções hão-de ser previstas e respondidas, e as diversas formas da interpretação revistas e classificadas.

Resolveu tirar a prova dos 9 e não subsiste qualquer dúvida...Noves fora, nada.... Só que, no seu caso, em vez de noves, é algo diferente...De qualquer modo, as combinações infinitas dos grafemas que a rodeiam são muito mais aliciantes do que noves...Se excluir o alfabeto da sua vida, sem as palavras que lê e que escreve, nada fica.O que mais haveria para ficar? Há palavras proibidas...As piores são as monossémicas, as que só podem ter um significado, unívocas, inevitavelmente, cruéis, porque traduzem uma verdade inquestionável. Esses lexemas são a prova da urgência da desistência...

Desistir...de quê? Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. Não sei se quero descansar, por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir...

When you're dreaming with a broken heart / The giving up is the hardest part...


Decidir -Verbo transitivo. Determinar o que deve ser feito; tomar a resolução de; opinar; emitir voto; escolher; optar.
Parece- lhe bem o dicionário, embora ele devesse explicitar que decidir é sempre abdicar e ,portanto, a não ser para os estóicos, é, inevitavelmente,´sofrer.Não consegue atingir a perfeição de um séneca ou de ricardo reis: não gosta de abdicar, não gosta mesmo. Decidir é sempre demasiado penoso. Detesta decidir, gostava de pairar serenamente acima das decisões, gostava de conseguir ser , ser só...sem pensar, sem decidir, ir estando, ir estando até desaparecer...Que princípio a impele a decidir?

O difícil não é desistir é decidir que se vai desistir.
Desistir - Verbo transitivo e intransitivo. Não insistir. Não querer continuar. Abster-se. Renunciar.
Desistir é renunciar de modo voluntário, não continuar ou não prosseguir com a realização de algo ou de alguma coisa em específico; renunciar a um relacionamento já estabelecido com alguém; mudar de opinião, desdizer.
Desistir de quê? Só se pode desistir do que existe. Se nada existe, não se desiste. Até que esta rima ficou semanticamente interessante. Não fora a decisão de desistir, nunca esta frase lhe teria ocorrido. Desta escrevinhice sem sentido resultou uma assonância, já se considera realizada.

O verbo decidir é transitivo e intransitivo: a prova de que existe problema é que o seu verbo decidir é sempre intransitivo. "O verbo decidir pode ser conjugado na forma pronominal : decidir-se" - pois com ela não..."

Abandonar ou não abandonar — esta é muitas vezes a questão para um jogador. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando. Serei capaz de abandonar nobremente? Ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa? Como, digamos, o próprio fim do mundo? Ou seja lá o que for, como a minha morte súbita, hipótese que tornaria supérflua a minha desistência?

O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei.
Saramago salvou-a. Sente-se aliviada: mesmo que não decida, "daqui não passará" e a este aqui sem sentido, a este espaço em que a palavra proibida ocorreu, ela já está habituada...

A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores.[…] Tive uma dificuldade física em me crer existente.


Las muchachas que se crían en el campo, como yo, tienen cerradas todas las puertas. Todo se vuelven medias palabras, gestos, porque todas estas cosas dicen que no se pueden saber. Y tú también, tú también te callas y te vas con aire de doctora, sabiéndolo todo, pero negándolo a la que se muere de sed.

También tú me dirás loca. «¡La loca, la loca!» (Ríe.) Yo te puedo decir lo único que he aprendido en la vida: toda la gente está metida dentro de sus casas haciendo lo que no les gusta. Cuánto mejor se está en medio de la calle. Ya voy al arroyo, ya subo a tocar las campanas, ya me tomo un refresco de anís...

Hay una cosa en el mundo que es la mirada. Mi madre lo decía. No es lo mismo una mujer mirando a unas rosas que una mujer mirando a los muslos de un hombre. Ella lo mira.

Y cada mujer la suya. No te pido yo que te quedes. Aquí tengo todo lo que necesito. Tus hermanas me guardan bien. Pan tierno y requesón y cordero asado como yo aquí, y pasto lleno de rocío tus ganados en el monte. Creo que puedes vivir en paz. / Para vivir en paz se necesita estar tranquilo...

Como as gaivotas e as ondas se encontram, nós encontramo-nos e unimo-nos.
Vão-se as gaivotas a voar, vão pairando sobre as ondas; tal como nós...


Procuro não olhar para a janela.. Sei que de lá se vêem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e, antes de adormecer, pedia que não mas tirassem...
Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar...



Devia morrer-se de outra maneira. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem, hoje às 9 horas. Traje de passeio".
Pois não era mais humano morrer por um bocadinho,de vez em quando,e recomeçar depois,achando tudo mais novo?



If this was our last song what would we do then? (If) this was our last song what would we say then? If this was our last time what would we do what would we say then?

Julgo que em todos nós há um átomo,importante entre os átomos,constituído por dois grãos de energia que desejariam separar-se. São energias contraditórias, mas indivisíveis. A natureza reuniu-as para sempre,apesar de furiosamente inimigas. Uma delas é o movimento eterno de um um grande eletrão positivo(...) Só existo eu,eu,eu . Quanto ao pequeno eletrão radicalmente negativo(...): Sim, mas há fulano,fulano,fulano. E também sicrano!...Porque o nome está constantemente a mudar.