Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dias...

Um dia que já foi Dia...

Sometimes we live on our memories of love Sometimes we breathe the fragrances Sometimes we live on our memories And breathe the fragrances And we sigh, great sigh Falling through those fragrances Sliding down the filaments into the ovaries Lying in those memories We sigh, great sigh Sometimes we live on our memories...

Looking for signs of life Looking for signs every night But there's no signs of life So we do it again...

I'm in the black again Can't make it back again We can just pretend...



Hoje, Dia Mundial do Livro, pelas 18:00, foi inaugurada a Casa José Saramago, em Óbidos.Tive saudades do passado, como a outra gente. O presente não existe e já não me atrevo a sentir nada quanto ao futuro...

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória...


A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.

Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
A Primavera floria
Sem que houvesse Primavera.

Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?



Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem de longe, cansada; tomba tão vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela magoada penumbra. Lá vêm figurinhas dobradas pelos atalhos, direito às casas tresmalhadas da aldeia. Nenhuma virá até à venda falar um bocado, desviar a atenção daquele poente dolorido. São ceifeiros, exaustos da faina, que recolhem. Breve, a aldeia ficará adormecida, afundada nas trevas. E António Barrasquinho, o Batola, não tem ninguém para conversar, não tem nada que fazer. Está preso e apagado no silêncio que o cerca.

Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e espessa e dura água do mar. Mas não há água nem vento, só calor, na longa rua onde George volta a passar depois de mais de vinte anos. Calor e também aquela aragem macia e como que redonda, de forno aberto, que talvez venha do sul ou de qualquer outro ponto car- deal ou colateral, perdeu a bússola não sabe onde nem quando, perdeu tanta coisa sem ser a bússola. Perdeu ou largou? Caminham pois lentamente, George e a outra cujo nome quase quis esquecer, quase esqueceu. Trazem ambas vestidos claros, amplos, e a aragem empurra-os ao de leve, um deles para o lado esquerdo de quem vai, o outro para o lado direito de quem vem, ambos na mesma direção, naturalmente. O rosto da jovem que se aproxima é vago e sem contornos, uma pincelada clara, e, quando os tiver, a esses contornos, ele será o rosto de uma fotografia que tem cor-rido mundo numa mala qualquer, que tem morado no fundo de muitas gavetas, o único fetiche de George. As suas feições ainda são incertas, salpicando a mancha pálida, como acontece com o rosto das pessoas mortas. Mas, tal como essas pessoas, tem, vai ter, uma voz muito real e viva, uma voz que a cal e as pás de terra, e a pedra e o tempo, e ainda a distância e a confusão da vida de George, não prejudicaram. Quando falar não criará espanto, um simples mal-estar. Agora estão mais perto e ela encontra, ainda sem os ver, dois olhos largos, semi-cerrados, uma boca fina, cabelos escuros, lisos, sobre um pescoço alto de Modigliani. Mas nesse tempo, dantes, não sabia quem era Modigliani e outros que tais, não eram lá de casa, os pais tinham sido condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância...

Metamorfoses (1990)

Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete
de trabalho:
uma despensa.

As outras dividiam-se
por sótãos,
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz,
livros e detergentes.

Que a luz penetre
no meu sótão
mental
do espaço curto

E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem!


“Tenho consciência de que o meu quotidiano (doméstico) pode constituir fonte de inspiração para a minha poesia, tanto quanto tenho consciência de que um livro de poesia ou de crítica sobre poesia, um olhar, palavras de alguém por quem me sinta tocada, as minhas aulas, um pôr-do-sol, uma manhã que de repente fica muito de Primavera, o podem”.

“Sempre arranjei tempo para escrever. Sempre.Se não consigo escrever durante o dia, escrevo à noite - às vezes a altas horas, mas sou noctívaga, o que me é muito útil. Acho que uma pessoa quando precisa de escrever, escreve – independentemente de condicionantes exteriores. Claro que ter, como dizia Virginia Woolf, "um quarto que seja seu" é uma ajuda, mas não é fundamental.”
dez de junho Há muitos, muitos anos, quando ser se resumia a existir, passei um dez de junho em casa de miguel torga. A filha era minha colega no colégio e, embora nunca tivéssemos tido muita intimidade, de vez em quando, eu ia lá merendar. (Merendar e não lanchar... em casa de torga, não se pactuava com estrangeirismos...). Dessas visitas, só retenho duas imagens nítidas, que, antigamente, contava aos alunos de 12º de literatura portuguesa. Eu sempre fui uma criança delicada, educada, mas muito, muito preguiçosa...Lá em casa havia sempre avelãs vindas de trás-os-montes... Eu adorava, mas, como não tinha paciência para as partir, preferia não comer. Ele ter-se-á apercebido e ofereceu-se para a tarefa partidora. Parece que aceitei com tal entusiasmo que abri logo muito a boca. Ali estive, regalada, com um médico-poeta, o meu vizinho mais famoso, a partir-me avelãs e a meter-mas na boca. Ele achou tanta graça ao meu comportamento que nunca mais precisei de executar tal tarefa...Entretanto, já com dez / onze anos, escrevi um poema e , timidamente, permiti-me pedir-lhe que o lesse. Nunca me esquecerei da delicadeza da resposta à difícil ( sei-o agora...) pergunta "Gostou?": "Gostei muito porque é teu..."E autografou a minha preciosa obra prima. Quando, por volta de 1960, se falou com insistência na hipótese de torga ser nobel da literatura, vivi, muito secretamente, o orgulho de ele ter sido meu quebrador de avelãs e de ter "gostado muito" do meu primeiro poema...Não o quis o acaso, no entanto, a relação com um nobel estava-me destinada... 


 O dez de junho de 2015, em alcobaça, foi dia , não de camões, mas de eça, de joão botelho e de saramago. Não terei,certamente, quem me ofereça avelãs à merenda...Por obrigação, como quase tudo o que faço atualmente, fui rever os maias.Estou desiludida com a imagem física de joão botelho, embora saiba que o povo considera que "os homens não se medem aos palmos". Gostei relativamente de o ouvir, identifiquei-me totalmente com as reflexões sobre as praxes académicas, mas ter de bisar o filme foi um sacrifício enorme: como é fiel ao texto de eça , eu sei de cor o que vai acontecer e até as frases que vão ser proferidas...Acho que não vou ter coragem de viajar de elefante...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reflexos e narcisos...

O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim. A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.

Aceitar ser um mero reflexo é negar tudo o que se é; é abdicar de tudo o que se acreditava ser... Um braço que se estende ocupa espaço e torna-se, assim, uma escultura metafísica. Nunca pude deixar de dar a este facto insignificante uma importância alada sobre o quotidiano.

It's a reflector It's just a reflector Just a reflector But I see you on the other side It's just a reflector But I see you on the other side We all got things to hide It's just a reflector But I see you on the other side...


Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque da quinta, com um docel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Nunca vi em mim senão uma romaria de inconsciências para o outono das minhas intenções. As longas horas que tenho passado à beira do meu correr têm-me [...] rios sobre a existência. Com os meus passos treme a luz das estrelas. Um gesto da minha mão, que me oculta a lua um momento, mostra, com este meu assombro, quanto pode realmente significar. Destes pensamentos, tornados domésticos e quotidianos ao meu escrúpulo, adveio ao meu instinto que ele naufragava no porto. Pareceu-me sempre que ser era ousar; que querer era aventurar-se. Inércia soube-me a santidade, e não-querer a ter bons costumes. Construí assim uma moral burguesa do pensamento, um cuidado da comodidade e da decência através do respeito do mistério. A exagerada consciência, que sempre tive, dos meus momentos, doeu-me sempre a mistério e a divino. Nunca me compreendi sobretudo quando me surpreendi a viver as inconsciências dos meus instintos e a vulgar correcção dos meus reflexos nervosos.

Perdi-me pelos sistemas secundários, excitados da metafísica sistemas cheios de analogias perturbantes, de alçapões para a lucidez, pondo paisagens misteriosas onde reflexos de sobrenatural acordam mistérios nos contornos. Envelheci pelas sensações... Gastei-me gerando os pensamentos... E a minha vida passou a ser uma febre metafísica, sempre descobrindo sentidos ocultos nas coisas, brincando com o fogo das analogias misteriosas, procrastinando a lucidez integral […].Caí numa complexa indisciplina cerebral, cheia de indiferenças. Onde me refugiei? Tenho a impressão de que não me refugiei em parte nenhuma. Abandonei-me mas não sei a quê. Que sonhos tenho? Não sei. Forcei-me por chegar a um ponto onde nem saiba já em que penso, em que sonho, o que visiono. Parece-me que sonho cada vez de mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.

Narciso, durante uma caçada, encontra a ninfa Eco. Logo que o viu, uma paixão súbita se apoderou dela. Foi em sua perseguição, mas, como não podia falar, limitava-se a segui-lo. Até que Narciso, pressentindo alguém, exclama: — Ecquis adest? - Ela surge e abraça-se a ele que a repele... Eco, entristecida e envergonhada, refugia-se na floresta, deixando de comer. Todos, jovens e donzelas, se sentiam desprezados por Narciso, até que alguém lançou uma maldição: «Possa ele amar e não possuir o objeto dos seus desejos!" A deusa Nemesis ouve esta súplica e prepara-se para a satisfazer. Um dia, Narciso, extenuado após uma caçada, encontra um local maravilhoso, onde descansa e aproveitou para matar a sede num lago imaculado, que Ovídio descreve de forma pormenorizada, de modo dar-nos a perfeita sensação de um espelho. Ao matar a sede, mira-se e vê a sua bela imagem no lago... Apaixonana-se pela sua pessoa e não consegue afastar-se desse feitiço.... Moribundo, dirige as suas últimas palavras às árvores que o rodeiam e refere o seu desgosto pela paixão que o dominou, que nunca poderá concretizar. Na realidade, apesar de não haver grande distância entre eles, o ser amado era inantigível: quando estendia os braços, o ente querido também os estendia, quando sorria, ele também sorria, quando falava, do outro lado só havia um mexer de lábios sem som. Mas reconhece o seu erro, pois apaixonou-se por si próprio — Iste ergo sum — e em breve exalarão ambos o último suspiro...
Eco vem assistir aos seus últimos momentos: mesmo ao entrar nos Infernos, Narciso mirou-se nas águas do lago Estígio.

O mito de Narciso para Valéry traduz a pretensão de corporalizar, de reduzir a uma concreta imagem mítica, o mais antinatural, irreal e absoluto — o seu Eu: Mais moi, Narcisse aimé, je ne suis curieux Que de ma seule essence Tout autre n'a pour moi un coeur mystérieux Tout autre n" est qu' absence. Te voici, mon doux corps de lune et de rosée, O forme obéissante à mes vœux opposée ! Qu'ils sont beaux, de mes bras les dons vastes et vains ! Mes lentes mains, dans l'or adorable se lassent D'appeler ce captif que les feuilles enlacent; Mon cœur jette aux échos l'éclat des noms divins !... Du souffle que j'enseigne à tes lèvres, mon double, Sur la limpide lame a fait courir un trouble ! ...Tu trembles ! ... Mais ces mots que j'expire à genoux Ne sont pourtant qu'une âme hésitante entre nous,Entre ce front si pur et ma lourde mémoire ... Je suis si près de toi que je pourrais te boire, O visage ! ... Ma soif est un esclave nu ...jusqu'à ce temps charmant je m'étais inconnu, Et je ne savais pas me chérir et me joindre ! Mais te voir, cher esclave, obéir à la moindre Des ombres dans mon cœur se fuyant à regret, Voir sur mon front l'orage et les feux d'un secret, Voir, ô merveille, voir ! ma bouche nuancée Trahir... peindre sur l'onde une fleur de pensée, Et quels événements étinceler dans l'œil ! J'y trouve un tel trésor d'impuissance et d'orgueil, Que nulle vierge enfant échappée au satyre, Nulle ! aux fuites habiles, aux chutes sans émoi, Nulle des nymphes, nulle amie, ne m'attire Comme tu fais sur l'onde, inépuisable Moi !.

A criação literária mais genial, inspirada neste mito, é, indiscutivelmente, a de Wilde...

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expessão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

o tempo tem-lhe inveja e faz guerra aos seus lírios e às suas rosas. a bela aparência de Dorian Gray: são dons dos deuses...A noção de sua beleza dominava-o como uma revelação.

-Que tristeza!- murmurou Dorian.- Que tristeza!- repetiu, com os olhos cravados na sua efígie- Eu vou ficar velho, feio, horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre jovem, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo!Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!

Estava cada vez mais enamorado da sua própria beleza, mais e mais empenhado em corromper a sua própria alma.

-Que horror, Dorian! Alguma coisa o transformou completamente. Por fora, ainda é o belo rapaz que, não há muito tempo, ia ao meu estúdio e posava diariamente para o seu retrato: um rapaz simples, afetuoso, sem afetação. A criatura mais inocente deste mundo. Agora, não sei o que lhe sucedeu. Fala como se não tivesse coração, como se desconhecesse a piedade.

É frequente desencadearem-se as verdadeiras tragédias da vida de uma maneira tão pouco artística que nos magoam com a sua crua violência, a sua tremenda incoerência, carecendo absolutamente de sentido, sem o mínimo estilo. Afectam-nos do mesmo modo que a vulgaridade. Causam-nos uma impressão de pura força bruta contra a qual nos revoltamos. Por vezes, porém, cruzamo-nos nas nossas vidas com uma tragédia repassada de elementos de beleza artística. Se esses elementos estéticos são autênticos, todo o episódio apela à nossa apreciação do efeito dramático. De repente deixamos de ser actores e passamos a espectadores da peça. Ou antes, somos ambas as coisas. Observamo-nos, e todo o encanto do espectáculo nos arrebata.


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... Ah, que terrível face e que arcabouço Este meu corpo lânguido escondia! Ó boca tumular, cerrada e fria, Cujo silêncio esfíngico bem ouço! Ó lindos olhos sôfregos, de moço, Numa fronte a suar melancolia! Assim me desejei nestas imagens. Meus poemas requintados e selvagens, O meu Desejo os sulca de vermelho: Que eu vivo à espera dessa noite estranha, Noite de amor em que me goze e tenha, ...Lá no fundo do poço em que me espelho!

Nunca me ofereceram narcisos...Talvez ninguém saiba que adoro narcisos. Fui à florista comprar um vasinho de narcisos. " São para oferta?". "Sim! São para mim." Como??" "Sou narcisista, percebe?" Não percebeu e, contrafeita, fez o embrulho de oferta...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Porquês, Perplexidades e Curiosidades ...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não
.


Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...


Aaaaahhhhhhhhhh
Because the world is round it turns me on
Because the world is round...aaaaaahhhhhh
Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high......aaaaaaaahhhh
Love is old, love is new
Love is all, love is you
Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue.......aaaaaaaahhhh
Aaaaahhhhhhhhhh...



Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim E nada me doer!
_ Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente Já tão longe passadas. _

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

I wonder about the love you can't find And I wonder about the loneliness that's mine I wonder how much going have you got And I wonder about your friends that are not I wonder I wonder wonder I do

And you claim you got something going Something you call unique But I've seen your self-pity showing As the tears rolled down your cheeks


Ler e esquecer ou ler para esquecer?

Increscunt animi, virescit volnere virtus.

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam.
Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático "par excellence".

Tem de se aprender a pensar - nas nossas escolas não se tem a mínima noção disto. Mesmo nas universidades, mesmo entre os autênticos doutos da filosofia, começa a cair em desuso a lógica como teoria, como prática, como ofício.

Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos morte violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício

...Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição... palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos connosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul onde oxidados morrem palavras maternais só sombra só soluço só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Agora toda a gente podia dizer palavrões...A palavra foder estava disponível para ambos os sexos. Era como um brinquedo pegajoso, e estava ali se o quiséssemos.

"Os rapazes ganharam", disse a enteada dele, Silvia. "Outra vez."
"Detesto ouvir isso", disse Keith.
"Eu detesto dizê-lo."
Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze - em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.
"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez."

A união sexual sem paixão é uma forma de sofrimento, e o sofrimento não é relativo. Será o prazer relativo? Compare-se um salão de baile com uma prisão, compare.se o dia das corridas com um dia no manicómio. Ou, caso se queira ver ambos no mesmo sítio, prazer e dor - uma noite no bordel , uma noite na maternidade.

Não sei, exatamente, se estou desiludida com o romance ou com a realidade dos anos 70. Será que a minha intuição de que tudo não passou de uma mentira , embrulhada numa auréola romântica de liberdade, estaria certa...


Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer (…) É assim por toda a Europa. Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais.

As personagens de A viúva grávida de Martin Amis não liam jornais, não confirmando, portanto, a totalidade da tese de Jean-Baptiste Clamence...


Put your money on me Cause I can barely breathe Put your money on me If you think I'm losing you, you must be crazy All your money on me I'm never gonna let you go, even when it's easy Put your money on me Go tuck me into bed, and wake me when I'm dead I know that you gotta be free But I'm never gonna let it go...


Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos nem o meu carácter... Só sinto uma coisa, enquanto a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substitui os meus sonhos a mim-próprio. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si-próprio.Eu nem isso sou.
Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus.
O esforço é inútil, mas entretém. O raciocínio é estéril, mas é engraçado. Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. (O sonho, porém, substitui tudo). Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter morto ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade, a que nunca chegue; sem querer resolver um problema, que nunca resolvo; sem que (...). Posso amar sem me recusarem nem me trairem, nem me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fosse da vida; depende apenas do meu poder em tornar o sonho vivido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.


Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.



Este livro é uma fraude.


Este livro é uma fraude e ponto final.


Este livro é uma fraude e ponto final, mais não merece que eu diga.


Este livro é uma fraude.

Panquecas em Joyce...
E enquanto Edy Boardman estava com o pequeno Tommy atrás do carrinho ela pensava se jamais chegaria o dia em que ela pudesse ser chamada de sua futura mulherzinha. Então eles poderiam todos falar dela até ficarem roxos de raiva, Bertha Supple também, e Edy, o paviozinho curto, porque ela ia fazer vinte e dois anos em novembro. Ela materiais cuidaria dele com confortos materiais também pois Gerty era femininamente sagaz e sabia que um mero homem gosta do sentimento do lar. As panquecas dela feitas num tostado ouropardo e o pudim rainha Ana de deliciosa cremosidade tinham conquistado opinião de ouro de todos...

Madalenas em Proust...
E de repente a lembrança surgiu -me. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray ( porque nesses dias eu nunca saía antes da hora da missa), quando lhe ia dar bom-dia no quarto, a minha tia Léonie oferecia -me depois de o molhar na sua infusão de chá ou de tília. A visão da pequena madalena não me trouxera recordações antes de a ter provado, talvez porque, tendo depois disso visto muitas sem as ter comido, nas montras das pastelarias, a sua imagem afastara-se dos dias de Combray, ficando presa a outros mais recentes; talvez porque dessas recordações tanto tempo abandonadas longe da memória, nenhuma sobrevivera, tudo se desagregara; E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que a minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfas do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e as suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e os seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá.

Uma faceta diferente de Leonardo da Vinci...

De uma carta de recomendação de Leonardo da Vinci feita por si próprio, dirigida a Ludovico Sforza, Governador de Milão: "A minha excelência a construir pontes, fortificações e catapultas não admite comparações, e o mesmo se pode dizer de muitos outros aparelhos secretos, que não ouso descrever nesta carta. A minha pintura e a minha escultura são superiores às de qualquer outro artista. Sou superlativo a contar anedotas e a meter-me em sarilhos. E faço bolos verdadeiramente inigualáveis..."

Opiniões...
O presente livro revela-nos uma pouco conhecida faceta da personalidade do invulgar mestre do Renascimento: a sua devoção obsessiva pela comida, forma de a preparar e apresentar. Notas de Cozinha de Leonardo da Vinci trazem à luz o Código Romanoff, atribuído a Leonardo da Vinci - receitas, regras de etiqueta à mesa, anotações diversas e ilustrações revelam ser Leonardo o inventor do guardanapo, da máquina de fazer spaghetti e da Nouvelle Cuisine, entre outras coisas. Imperdível, essencial e supremamente divertido.

Este extraordinário pequeno livro resulta de um conjunto de notas atribuídas a Leonardo da Vinci – o chamado Codex Romanoff - e lança nova luz sobre a personalidade caleidoscópica do gigante do renascimento, um homem aparentemente inesgotável, que se interessou por uma variedade de assuntos tão vasta que várias vidas pareceriam necessárias para a abarcar. Leonardo devotou um interesse muito particular pela alimentação, não tivesse ele sido criado por um padrasto pasteleiro e acabado por legar uma parte significativa da sua herança à sua cozinheira.


De como atribuir ao assassino um correto lugar à mesa.
Se está planeado um assassínio durante o repasto, então o mais conveniente é sentar o assassino ao lado daquele que irá constituir a matéria dos seus talentos (embora a escolha entre o lado direito ou o esquerdo dependa forçosamente do método utilizado pelo assassino), na medida em que confinando o decurso do evento a uma área reduzida, causar-se-é um menos transtorno à conversação....Depois de os criados procederem à remoção do cadáver, e de eventuais manchas de sangue, é prática corrente que o assassino se retire da mesa, uma vez que a sua presença pode , por vezes, perturbar as digestões dos convivas que agora se encontram sentados ao seu lado, e com este objetivo um bom hospedeiro terá sempre um convidado de reserva esperando lá fora e pronto a ocupar o seu lugar à mesa no momento oportuno.


se quisermos conservar a saúde, não devemos comer senão quando tivermos apetite, devendo a ceia ser sempre leve; é preciso mastigar bem e tudo quanto se come deve ser simples e cozinhado na perfeição... ('Acerca dos Benefícios de uma Dieta Moderada')

Hortelã - É um bom estimulante do apetite sexual e um reconstituinte do vigor sexual perdido. Por estas razões, os chefes militares proibiam a sua utilização por parte dos soldados em campanha no estrangeiro, a fim de estes se mantivessem castos e assim se tornarem melhores combatentes. É igualmente eficaz contra mordeduras de cães raivosos.('Sobre as Propriedades Terapêuticas de Algumas Ervas Aromáticas')

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Arestas,portas e janelas...

Em geometria, chama-se aresta ao segmento que representa a intersecção de duas faces de um poliedro:linha de intersecção de dois planos ou duas superfícies que se cortam...


Quem não vê uma palavra não pode ver uma alma.

Cansa tanto viver! Se houvesse outro modo de vida!

Nunca tive dinheiro para poder ter tédio à vontade.

Nada é, tudo se outra.

O mundo não é verdadeiro, mas é real.

Uma gaiola foi procurar um pássaro.

Tu és o trabalho de casa. Nenhum aluno à vista.

Os esconderijos são inúmeros,a salvação apenas uma,mas as possibilidades de salvação são tantas quantos os esconderijos.

Existe um objetivo, mas não há caminho; aquilo a que chamamos caminho é hesitação.

Duas tarefas no início da vida: restringir cada vez mais o teu círculo e verificar constantemente se não te encontras escondido algures fora dele.

...Viver é dizer não,portanto dizer não é uma afirmação.

Minha cela - minha fortaleza.

A verdadeira explicação é que um grande demónio se instalou nele e que um sem-número de demónios mais pequenos aparece para servir o grande.

Se atentarmos bem, os aforismos são arestas: implicam uma intersecção ideológica de duas ou mais faces da realidade.Gosto de aforismos, mas não populares. Gosto-os com muitas arestas, muitas intersecções, inúmeras portas e janelas...reveladoras ,não de almas simples,lineares, mas produto de complexidades insondáveis.Os seres sem arestas, sem portas e janelas entediam-me. Como há quem os possa apreciar??

O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua...O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso.

Um homem de génio é produzido por um conjunto complexo de circunstâncias, começando pelas hereditárias, passando pelas do ambiente e acabando em episódios mínimos de sorte.

Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma. Todos os olhares para onde olho estão tão escuros de lhes bater esta luz empobrecida do dia para se morrer sem dor.


So silentNo violenceBut inside my headSo loud and clear…


Por mais que por mim me embrenhe todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia. Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-1as durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.

Deus não terá arestas porque ele é todas as arestas. A ideia que me atrai no divino, o que sempre me fez experimentar o desejo pueril de ser deus, é a omnipresença. Não invejo,antes pelo contrário, a omnnisciência nem a omnipotência, mas o dom da ubiquidade sempre, secretamente, me fascinou...A artimanha de fechar os olhos com muita força não anda a resultar ... Se fosse deus, ia ter contigo e, mesmo que não me visses, eu estaria lá… Tenho saudades da minha imagem de ti. Quando for deus, eu vou: é tão difícil descobrir-te no meio de tantas arestas, portas e janelas...

Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa.Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.


O dinheiro não traz felicidade, mas dá uma sensação tão parecida que é necessário um especialista para ver a diferença.
Ser natural é a mais difícil das poses.
Nenhum homem é suficientemente rico para comprar seu passado.
É absurdo dividir as pessoas em boas e más. Elas são apenas encantadoras ou fastidiosas.
A única diferença que existe entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais.
Como não foi genial, não teve inimigos.
Qualquer um pode ter empatia com o sofrimento de um amigo. É simpatizar com o sucesso dele que exige uma natureza delicada.
Ela comporta-se como se fosse bela. Esse é o segredo do seu encanto.

Porque abrem as coisas alas para eu passar? Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes. Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara. Mas há sempre coisas atrás de mim. Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço. Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido. Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras. Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo. Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis A porta abrindo-se conscientemente Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se. De onde é que estão olhando para mim? Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim? Quem espreita de tudo? As arestas fitam-me. Sorriem realmente as paredes lisas. Sensação de ser só a minha espinha. As espadas.

Uma porta é geralmente entendida como uma abertura num elemento de vedação arquitetónica, como uma parede, permitindo a passagem de um ambiente para outro.
Uma porta só existe quando deixa de existir, ou seja, a porta só existe quando se abre... uma porta fechada deixa de ser porta? Se queremos entrar e a porta está fechada, damos com o nariz na porta. Se a porta está aberta e se fecha, no momento em que vamos a entrar, levamos com a porta no nariz..

Eu acho que dentro de nós há um espesso sistema de corredores e de portas fechadas. Nós próprios não abrimos todas as portas, porque suspeitamos que o que há do outro lado não será agradável de ver (...) Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos, que talvez seja não querermos saber quem somos na realidade.

Hoje ,aliás, nada possuo. Não me inquieto, pois, com a minha segurança, mas comigo mesmo e com a minha presença de espírito. Tenho também empenho em trancar a porta do pequeno universo bem fechado de que sou o rei, o papa e o juiz.Tranco a porta, mas acabo por abrir a janela...Uma janela, em tempos de novas tecnologias, é uma porta...

Tenho o complexo do trinco. No momento de adormecer nunca consigo saber se corri o trinco.

Now you're knocking at my door Saying please come out with us tonight...

Sleeping is giving in no matter what the time is...

Apetece-me fechar portas e janelas, preciso de dormir ...Apetece-me abrir portas e janelas...preciso de viver…

Abram todas as portas! Partam os vidros das janelas! Omitam fechos na vida de fechar! Omitam a vida de fechar da vida de fechar! Que fechar seja estar aberto sem fechos que lembrem, Que parar seja o nome alvar de prosseguir, Que o fim seja sempre uma coisa abstrata e ligada Fluida a todas as horas de passar por ele! Eu quero respirar!

E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas! Que verão agradável o dos outros!


Janela,etimologicamente, é um diminutivo de janua, que significa porta ou entrada...
Abertura feita em parede ou telhado de uma construção, para deixar entrar claridade e ar;Moldura geralmente móvel, de madeira ou metal, envidraçada, que serve para tapar essa abertura. Abertura semelhante, em veículos, que possibilita visibilidade e ventilação. Abertura, geralmente revestida de material transparente, em envelope ou embalagem, para se poder ver o que está dentro. Num ecrã, área geralmente retangular que permite visualizar um conjunto de informações ou elementos gráficos diferentes do que está visível no resto do ecrã. Num texto impresso, espaço deliberadamente deixado em branco ou resultante de falha de impressão. Falha provocada por erosão Qualquer buraco ou rasgão, especialmente na roupa e no calçado. Período de tempo livre entre dois períodos ocupados.

Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, nunca vê tantas coisas quanto quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que uma janela iluminada por uma vela, O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida. (...)Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?
Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual eu podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer.Finjo? Não finjo. Se quisesse fingir, para que escreveria isto? Estas coisas passaram-se, garanto; onde se passaram não sei, mas foi tanto quanto neste mundo qualquer coisa se passa, em casas reais, cujas janelas abrem sobre paisagens realmente visíveis. Nunca lá estive — mas acaso sou em quem escreve?

Abre teu coração Abre teu coração Ou eu arrombo a janela...

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios. Talhares os teus gestos nos sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens puras da tua alma.

sábado, 13 de junho de 2015

Aversões e combates...

O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar.

Odi profanum vulgus et arceo; favete linguis. carmina non prius audita Musarum sacerdos virginibus puerisque canto. regum timendorum in proprios greges,reges in ipsos imperium est Iovis,clari Giganteo triumpho, cuncta supercilio moventis. est ut viro vir latius ordinet arbusta sulcis, hic generosior descendat in campum petitor,moribus hic meliorque fama contendat, illi turba clientium sit maior; aequa lege Necessitas sortitur insignes et imos: omne capax movet urna nomen. destrictus ensis cui super impia cervice pendet, non Siculae dapes dulcem elaborabunt saporem, non avium citharaeque cantus somnum reducent. somnus agrestium lenis virorum non humiles domo fastidit umbrosamque ripam, non zephyris agitata Tempe. desiderantem quod satis est neque tumultuosum sollicitat mare nec saevus Arcturi cadentis impetus aut orientis Haedi, non verberatae grandine vineae fundusque mendax, arbore nunc aquas culpante, nunc torrentia agros sidera, nunc hiemes iniquas. contracta pisces aequora sentiunt iactis in altum molibus: huc frequens caementa demittit redemptor cum famulis dominusque terrae fastidiosus. sed Timor et Minae scandunt eodem quo dominus, neque decedit aerata triremi et post equitem sedet atra Cura. quodsi dolentem nec Phrygius lapis nec purpurarum sidere clarior delenit usus nec Falerna vitis Achaemeniumque costum, cur invidendis postibus et novo sublime ritu moliar atrium? cur valle permutem Sabina divitias operosiores?

Nada me comove que se diga de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura. Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada

O lema que hoje mais requeiro para definição do meu espírito é o de criador de indiferenças. Mais do que outra, quereria que a minha acção pela vida fosse de educar os outros a sentir cada vez mais para si próprios, e cada vez menos segundo a lei dinâmica da colectividade... Educar naquela anti-sepsia espiritual pela qual não pode haver contágio de vulgaridade, parece-me o mais constelado destino do pedagogo íntimo que eu quereria ser. Que quantos me lessem aprendessem — pouco a pouco embora, como o assunto manda — a não ter sensações nenhuma perante os olhares alheios e as opiniões dos outros, esse destino engrinaldaria suficientemente a estagnação escolástica da minha vida.
A impossibilidade de agir foi sempre em mim uma moléstia com etiologia metafísica. Fazer um gesto foi sempre, para o meu sentimento das coisas, uma perturbação, um desdobramento, no universo exterior; mexer-me deu-me sempre a impressão que não deixaria intactas as estrelas nem os céus sem mudança. Por isso, a importância metafísica do mais pequeno gesto, cedo tomou um relevo atónito dentro de mim. Adquiri perante agir um escrúpulo de honestidade transcendental, que me inibe, desde que o fixei na minha consciência, de ter relações muito acentuadas com o mundo palpável.



I'm so confused. Am I a normal person? You know, I can't tell if I'm a normal person It's true, I think I'm cool enough, but am I cruel enough? Am I cruel enough for you?

Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez;

Quando passo um dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho
Cobre-me um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho


Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina...


Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Não tendo podido viver segundo os preceitos da moral estabelecida, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha própria. No momento em que decidimos renegar todos os princípios, é conveniente que conservemos, no mínimo, os escrúpulos.

Temos mentido tanto, e tanto sofrido por mentir, que não há grande risco em tentar a cura através da sinceridade...

Uma vez que alguma coisa de tão grave se passara comigo, parecia-me, ingenuamente, que eu deveria estar mudado. O espelho, porém, não me enviou senão o reflexo do meu rosto de sempre, um rosto inquieto, angustiado e pensativo. Passei a mão pelas faces menos para apagar o vestígio de um contacto do que para me assegurar de que a imagem refletida era bem a minha.
O que torna a volúpia tão terrível é talvez o facto de que ela nos ensina que temos um corpo. Antes, ele não nos servia senão para viver; a partir de um determinado momento, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos,a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de ter em conta a sua presença, ceder, transigir, ou lutar..


As almas são incomunicáveis. Deixa teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Será? Quer crer que não...De qualquer modo, é um assunto desconfortável... nunca percebeu nada de corpos: as palavras vêm da alma, seja lá o que ela for...

Esta imagem angustia. Está cansada de ser a mais, de não encaixar...
Para desconforto já me basta o inevitável, escuso de introduzir peças que me desagradam. Sinto-me tão deslocada... o meu combate não é com o corpo, é com a sensação de que estou a mais, mesmo virtualmente. Sou a peça de um puzzle que ficou na caixa errada e, portanto, não se enquadra em lado nenhum...No jogo a que pertencia ficou um vazio e a peça solta ignora a que grupo pertence...

Peço-te humildemente, o mais humildemente possível, perdão. Não por te deixar, mas por ter ficado por tanto tempo.É assim que termina a carta de alexis para mónica,uma carta que,por outros motivos, eu já deveria ter escrito há uns anos atrás...
Neste livro-carta, o primeiro romance de yourcenar,escrito em 1927, alexis, na pureza do seu sentir,pede desculpa pelo desamor,mas,sobretudo, pela limitação da palavra escrita, pela incapacidade de verbalizar, pela "grosseria dos sentimentos quando alocados em frases limitadas, que deveriam significar muito mais do que comportam". É esta impotência de traduzir sentimentos não convencionais em palavras que me domina e cativa ...

Tanto era possível que estivesse ali a promessa de um recomeço como o adeus de uma definitiva ruptura. Nem eu chegava a saber o que seria melhor para manter viva a ilusão de um amor feliz.

Mas, enfim, eu estava do lado certo, isso bastava para a paz de minha consciência. O sentimento do direito, a satisfação de ter razão, a alegria de nos estimarmos a nós próprios são, meu caro senhor, impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar. Pelo contrário, privar os homens desses impulsos implica transformá-los em cães raivosos. .

Os crimes mais terríveis, numa perspetiva individual, são os que permanecem secretos,pois não existe nenhum mecanismo exógeno que liberte o criminoso do sentimento de culpa... Uma sentença, uma condenação, tem sempre o seu quê de redentor...Todos os dias olhar o espelho e ser observado por um outro eu que nos acusa, que nos recrimina, num mutismo hostil, é devastador. A culpa aumenta,agiganta-se se o crime fica impune... Pela intensidade dos seus combates secretos, gosta de equiparar raskólnikov a madalena de vilhena...

Este amor, que hoje está santificado e bendito no céu, porque Manuel de Sousa é meu marido, começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi… e quando o vi, hoje, hoje… foi em tal dia como hoje, D. João de Portugal ainda era vivo! O pecado estava-me no coração; a boca não o disse… os olhos não sei o que fizeram, mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante… já não guardava a meu marido, a meu bom… a meu generoso marido… senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem-nascida quási que mais deve a si do que ao esposo. Permitiu Deus… quem sabe se para me tentar?… Que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João

Combates...
"Eu bem sabia!", murmurou desgostoso. "Já me tinha lembrado! Isto é mesmo desagradável! É para que veja como uma tolice, o mais vulgar pormenor, pode estragar a melhor das intenções! Sim, o chapelinho dá nas vistas... Ridículo, e é por isso que todo mundo o vê. Com estes farrapos, a única coisa que diz bem é o gorro, mesmo velho, e não este espantalho. Ninguém traz outro semelhante, vê-se a um quilómetro de distância, fica gravado na memória... Sobretudo o facto de não se esquecer é um argumento comprovativo. E o que é necessário, precisamente, é passar despercebido... Pormenores, insignificâncias, é isso o principal... Uma ninharia destas pode deitar tudo a perder de uma vez para sempre..."

Todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que morrer aos trinta ou aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. No fim das contas, isso era claro como água, hoje ou daqui a vinte anos, era o mesmo eu quem morria.

Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam.


Gostaria de traduzir em palavras o que sinto ao ouvir este som, mas esse é mais com combate perdido...

Este cão, chamado pessoa, nascido no dia do aniversário da pessoa mais pessoa que existe, fez-me surgir uma ideia. Gostaria de tentar( eu disse tentar) escrever o guião para um filme que,subitamente,surgiu em mim: " Pessoas".
As personagens impuseram-se-me também de imediato: fernando, eu, o cão, os donos do cão e um amigo comum. Só pessoas que são pessoas que julgo terem por mim um afeto e admiração autênticos e duradouros. Só o fernando teria nome.Todas as outras seriam , por exemplo, eu pessoa,cão pessoa,dono pessoa,dona pessoa,amigo pessoa. Talvez seja demasiado bizarro... Fica mais sóbrio sugerir o apelido, mas ser só o narrador, o cão, o dono, a dona e o amigo...



Sermão pregado ,no Maranhão, em 13 de Junho de 1654...um combate ainda atual...

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut piscis invicem se devorantes: “Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros”. Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!