Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Porquês, Perplexidades e Curiosidades ...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não
.


Cause the sweetest kiss I ever got is the one I've never tasted...


Aaaaahhhhhhhhhh
Because the world is round it turns me on
Because the world is round...aaaaaahhhhhh
Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high......aaaaaaaahhhh
Love is old, love is new
Love is all, love is you
Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue.......aaaaaaaahhhh
Aaaaahhhhhhhhhh...



Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim E nada me doer!
_ Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente Já tão longe passadas. _

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

I wonder about the love you can't find And I wonder about the loneliness that's mine I wonder how much going have you got And I wonder about your friends that are not I wonder I wonder wonder I do

And you claim you got something going Something you call unique But I've seen your self-pity showing As the tears rolled down your cheeks


Ler e esquecer ou ler para esquecer?

Increscunt animi, virescit volnere virtus.

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam.
Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático "par excellence".

Tem de se aprender a pensar - nas nossas escolas não se tem a mínima noção disto. Mesmo nas universidades, mesmo entre os autênticos doutos da filosofia, começa a cair em desuso a lógica como teoria, como prática, como ofício.

Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos morte violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício

...Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição... palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos connosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul onde oxidados morrem palavras maternais só sombra só soluço só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Agora toda a gente podia dizer palavrões...A palavra foder estava disponível para ambos os sexos. Era como um brinquedo pegajoso, e estava ali se o quiséssemos.

"Os rapazes ganharam", disse a enteada dele, Silvia. "Outra vez."
"Detesto ouvir isso", disse Keith.
"Eu detesto dizê-lo."
Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze - em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.
"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez."

A união sexual sem paixão é uma forma de sofrimento, e o sofrimento não é relativo. Será o prazer relativo? Compare-se um salão de baile com uma prisão, compare.se o dia das corridas com um dia no manicómio. Ou, caso se queira ver ambos no mesmo sítio, prazer e dor - uma noite no bordel , uma noite na maternidade.

Não sei, exatamente, se estou desiludida com o romance ou com a realidade dos anos 70. Será que a minha intuição de que tudo não passou de uma mentira , embrulhada numa auréola romântica de liberdade, estaria certa...


Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer (…) É assim por toda a Europa. Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais.

As personagens de A viúva grávida de Martin Amis não liam jornais, não confirmando, portanto, a totalidade da tese de Jean-Baptiste Clamence...


Put your money on me Cause I can barely breathe Put your money on me If you think I'm losing you, you must be crazy All your money on me I'm never gonna let you go, even when it's easy Put your money on me Go tuck me into bed, and wake me when I'm dead I know that you gotta be free But I'm never gonna let it go...


Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos nem o meu carácter... Só sinto uma coisa, enquanto a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substitui os meus sonhos a mim-próprio. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si-próprio.Eu nem isso sou.
Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou uma personagem de dramas meus.
O esforço é inútil, mas entretém. O raciocínio é estéril, mas é engraçado. Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. (O sonho, porém, substitui tudo). Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter morto ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade, a que nunca chegue; sem querer resolver um problema, que nunca resolvo; sem que (...). Posso amar sem me recusarem nem me trairem, nem me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fosse da vida; depende apenas do meu poder em tornar o sonho vivido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.


Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada.



Este livro é uma fraude.


Este livro é uma fraude e ponto final.


Este livro é uma fraude e ponto final, mais não merece que eu diga.


Este livro é uma fraude.

Panquecas em Joyce...
E enquanto Edy Boardman estava com o pequeno Tommy atrás do carrinho ela pensava se jamais chegaria o dia em que ela pudesse ser chamada de sua futura mulherzinha. Então eles poderiam todos falar dela até ficarem roxos de raiva, Bertha Supple também, e Edy, o paviozinho curto, porque ela ia fazer vinte e dois anos em novembro. Ela materiais cuidaria dele com confortos materiais também pois Gerty era femininamente sagaz e sabia que um mero homem gosta do sentimento do lar. As panquecas dela feitas num tostado ouropardo e o pudim rainha Ana de deliciosa cremosidade tinham conquistado opinião de ouro de todos...

Madalenas em Proust...
E de repente a lembrança surgiu -me. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray ( porque nesses dias eu nunca saía antes da hora da missa), quando lhe ia dar bom-dia no quarto, a minha tia Léonie oferecia -me depois de o molhar na sua infusão de chá ou de tília. A visão da pequena madalena não me trouxera recordações antes de a ter provado, talvez porque, tendo depois disso visto muitas sem as ter comido, nas montras das pastelarias, a sua imagem afastara-se dos dias de Combray, ficando presa a outros mais recentes; talvez porque dessas recordações tanto tempo abandonadas longe da memória, nenhuma sobrevivera, tudo se desagregara; E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que a minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfas do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e as suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e os seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá.

Uma faceta diferente de Leonardo da Vinci...

De uma carta de recomendação de Leonardo da Vinci feita por si próprio, dirigida a Ludovico Sforza, Governador de Milão: "A minha excelência a construir pontes, fortificações e catapultas não admite comparações, e o mesmo se pode dizer de muitos outros aparelhos secretos, que não ouso descrever nesta carta. A minha pintura e a minha escultura são superiores às de qualquer outro artista. Sou superlativo a contar anedotas e a meter-me em sarilhos. E faço bolos verdadeiramente inigualáveis..."

Opiniões...
O presente livro revela-nos uma pouco conhecida faceta da personalidade do invulgar mestre do Renascimento: a sua devoção obsessiva pela comida, forma de a preparar e apresentar. Notas de Cozinha de Leonardo da Vinci trazem à luz o Código Romanoff, atribuído a Leonardo da Vinci - receitas, regras de etiqueta à mesa, anotações diversas e ilustrações revelam ser Leonardo o inventor do guardanapo, da máquina de fazer spaghetti e da Nouvelle Cuisine, entre outras coisas. Imperdível, essencial e supremamente divertido.

Este extraordinário pequeno livro resulta de um conjunto de notas atribuídas a Leonardo da Vinci – o chamado Codex Romanoff - e lança nova luz sobre a personalidade caleidoscópica do gigante do renascimento, um homem aparentemente inesgotável, que se interessou por uma variedade de assuntos tão vasta que várias vidas pareceriam necessárias para a abarcar. Leonardo devotou um interesse muito particular pela alimentação, não tivesse ele sido criado por um padrasto pasteleiro e acabado por legar uma parte significativa da sua herança à sua cozinheira.


De como atribuir ao assassino um correto lugar à mesa.
Se está planeado um assassínio durante o repasto, então o mais conveniente é sentar o assassino ao lado daquele que irá constituir a matéria dos seus talentos (embora a escolha entre o lado direito ou o esquerdo dependa forçosamente do método utilizado pelo assassino), na medida em que confinando o decurso do evento a uma área reduzida, causar-se-é um menos transtorno à conversação....Depois de os criados procederem à remoção do cadáver, e de eventuais manchas de sangue, é prática corrente que o assassino se retire da mesa, uma vez que a sua presença pode , por vezes, perturbar as digestões dos convivas que agora se encontram sentados ao seu lado, e com este objetivo um bom hospedeiro terá sempre um convidado de reserva esperando lá fora e pronto a ocupar o seu lugar à mesa no momento oportuno.


se quisermos conservar a saúde, não devemos comer senão quando tivermos apetite, devendo a ceia ser sempre leve; é preciso mastigar bem e tudo quanto se come deve ser simples e cozinhado na perfeição... ('Acerca dos Benefícios de uma Dieta Moderada')

Hortelã - É um bom estimulante do apetite sexual e um reconstituinte do vigor sexual perdido. Por estas razões, os chefes militares proibiam a sua utilização por parte dos soldados em campanha no estrangeiro, a fim de estes se mantivessem castos e assim se tornarem melhores combatentes. É igualmente eficaz contra mordeduras de cães raivosos.('Sobre as Propriedades Terapêuticas de Algumas Ervas Aromáticas')

terça-feira, 11 de julho de 2017

Sucesso: demiurgos, qualidades e prestígio...

Quando procuramos respostas para as dúvidas fundamentais , podemos encontrá-las por duas vias: ou inventamos um deus que é responsável por tudo, ou acreditamos que o divino está em nós.

Gregory , um homem atraente, e o banal Terry,seu irmão adotivo, detestam mulheres. Além da misoginia, liga-os o ódio de classe e a rivalidade sexual...

Vejo pouco por onde escolher...As lágrimas pós -coitais enojam-me tanto como as borbulhas pré-menstruais. E as coisas horrorosas que elas "dizem" . Estão sempre a tentar compreender-nos, estão sempre a falar de coisas como deve ser, estão sempre a tentar ser pessoas. Nós aceitamos, damos troco. Não devemos dar a entender que, apesar de todos os seus encantos, elas são simplesmente desinteressantes.

É muito curioso, mas torna-se aborrecido ser-se calçado e disputado a todo o momento. Idiotas, com as suas rixas possessivas. Não veem que estou aqui para ser saboreado, considerado, adorado, não disputado como uma peça de carne?


Eu chamei-te para ser a torre
Que viste um dia branca ao pé do mar.
Chamei-te para me perder nos teus caminhos.
Chamei-te para sonhar o que sonhaste.
Chamei-te para não ser eu:
Pedi-te que apagasses
A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.


Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas Deixarei que o teu nome se perca repetido Mas espera-me: Pois por mais longos que sejam os caminhos Eu regresso


Já viram um homem em pêlo Sair de repente da casa de banho Escorrendo por todos os pêlos Com o bigode cheio de pena Já viram um homem muito feio A comer esparguete Garfo em punho e ar de bruto Com molho de tomate no colete Quando são bonitos são idiotas Quando são velhos são horríveis Quando são pequenos são maus Já viram um homem gordo à beça Extrair as pernas do ó-ó Massajar a barriga e coçar as guedelhas Olhando pensativo para os pés

Não se casem raparigas não se casem Façam antes cinema Fiquem virgens em casa do papá Sejam serventes no carvoeiro Criem macacos criem gatos Levantem a pata na Ópera Vendam caixas de chocolate Professem ou não professem Dancem em pêlo para os gagás Sejam matadoras na avenida do Bois Mas não se casem raparigas Não se casem

Já viram um homem à rasca Chegar tarde para o jantar Com baton no colarinho E tremeliques nas gâmbias Já viram no cabaret Um senhor não muito fresco Roçar-se com insistência Numa florzinha de inocência Quando são burros aborrecem Quando são fortes fazem desporto Quando são ricos guardam o milho Quando são duros torturam Já viram ao vosso braço pendurado Um magrizela de olhos de rato Frisar os três pêlos do bigode E empertigar-se com um ar de bode


Não se casem raparigas não se casem Vistam os vossos vestidos de gala Vão dançar ao Olímpia Mudem de amante quatro vezes por mês Peguem na massa e guardem-na Escondam-na fresca debaixo do colchão Aos cinquenta anos pode servir Para sacar belos rapazes Nada na cabeça tudo nos braços Ah que bela vida será Se não se casarem raparigas Se não se casarem


Considerar todas as coisas que nos sucedem como acidentes ou episódios de um romance a que assistimos não com a atenção senão com a vida. Só com esta atitude poderemos vencer a malícia dos dias e os caprichos dos sucessos.

Won't you please let me go These words lie inside they hurt me so And I'm not the kind that likes to tell you Just what I want to do I'm not the kind that needs to tell you Just what you, want me to...



Os espíritos, os deuses, as Vidas Supremas de que os símbolos falam, os demiurgos, os demónios, os espíritos todos — nunca existiram. São criações dos HERMÉTICOS para uso ilusório dos Esotéricos. Assim como estes só por símbolos não sempre certos dão notícia da sua fé e dos seus poderes aos Esotéricos, aqueles o fazem a eles. Deus mesmo não existe; Deus é uma criação ilusória dos HERMÉTICOS. Existe realmente e verdadeiramente para os Esotéricos, mas verdadeiramente não existe. O mistério é mais profundo do que julgais e de que os Esotéricos julgam. O Mistério É MAIS UNO E INDIVISÍVEL DE QUE DEUS E OS ANJOS. Um grande horror físico descera sobre mim. Eu não sabia para onde pudesse olhar que um terror pessoal não saísse d'esse objecto. Quando ergui os olhos não havia ninguém no quarto, além de mim. O grande Espelho fitava-me ocamente. Com mão trémula acendi o candeeiro. A alegria humilde da luz derramou-se de repente pela sala. Não estava lá ninguém. Eu tinha sonhado então? Não podia determinar se sim, se não. Olhei em volta, cheio de um pavor que morava, rígido, nas minhas mínimas, sentidas, veias. Mas nada de estranho no quarto. Nada?


Ao contrário de deus, o demiurgo não cria ex nihilo, mas a partir de um estado preexistente de caos, procurando que o seu produto se assemelhe ao modelo eterno e perfeito. Timeu estabelece a constituição do mundo sensível e, posteriormente, dos seres que o habitam com particular evidência para o homem. Como este é o eixo temático em torno do qual gira toda a narrativa, é forçoso que o diálogo seja contextualizado num movimento que começa nos filósofos pré-socráticos. A relação de Platão com esta tradição é ambígua: se, por um lado, a tenta superar, condenando abertamente alguns dos seus representantes, por outro, importa dela vários elementos cuja autoria silencia.

Na minha opinião, temos primeiro que distinguir o seguinte: o que é aquilo que é sempre e não devém, e o que é aquilo que devém sem nunca ser. Um pode ser apreendido pelo pensamento com o auxílio da razão, pois é imutável. Ao invés, o segundo é objecto da opinião acompanhada da irracionalidade dos sentidos e, porque devém e se corrompe, não pode ser nunca.

Sou alguém que chegou cedo demais.(...)Acordei hoje com esta certeza e queria partilhá-la contigo...Não sou a pessoa que inventas ( inventamos sempre a pessoa que amamos). É mais complicado: sou uma pessoa que não poderias inventar. Estou além da tua imaginação.


Talvez sejam os nomes a dar existência às coisas.(...) Imagino uma sociedade secreta de poderosos demiurgos. Vejo-os atravessando os séculos, confundindo-se com as multidões, na sua fantástica missão. Eis que vão de povoado em povoado , disseminando nomes nas mais diversas línguas e, à medida que essas línguas se enriquecem, o universo vai ganhando cor e complexidade.
Contrariando a tese acima , sinto que acontecem na minha alma , frequentes vezes, um tumulto de sentimentos nunca nomeados. Talvez se tornem comuns quando alguém lhes der um nome
.


Um homem sem qualidades é feito de qualidades sem homem
E de repente, perante estas considerações, Ulrich teve de reconhecer, com um sorriso, que, no meio disto tudo, era um carácter, apesar de não ter nenhum.


Um fragmento gigantesco, não se podendo dizer que a unidade estrutural seja a sua principal qualidade...
O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo espírito. Tu podes pensar, quase ao contrário, que é o estado em que um sentimento se torna todo-poderoso, um único sentimento que atrai a si todos os outros - um arrebatamento! Não, não querias dizer nada? Seja como for, é assim. Também é assim. Mas a força de uma tal paixão é imparável. Os sentimentos e as ideias só ganham continuidade quando se apoiam uns nos outros, na sua totalidade, têm de se orientar no mesmo sentido e arrastam-se uns aos outros. E o ser humano tenta por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar pelo menos as condições da autêntica paixão. Mas, feitas as contas, embora o número de decisões que dependem do sentimento seja infinitamente superior ao daquelas que se podem tomar com a pura razão, e todos os acontecimentos decisivos para a humanidade nasçam da imaginação, só as questões da razão se mostram ordenadas de forma suprapessoal; para o resto, nunca se fez nada que mereça o nome de esforço comum ou que sugira sequer a consciência da sua desesperada necessidade.

A velha regra — pensar antes de agir — sofre alterações na realidade. A prática obriga frequentemente a agir sem ter tempo para pensar. Por isso uma das qualidades que mais convém que o homem prático desenvolva é a de saber pensar à medida que age, a de ir construindo em caminho a própria direcção do caminho. Isto tem a desvantagem de ser absurdo, e a vantagem de ser verdadeiro.

Quando, porém, com esse grande desenvolvimento das qualidades de integração coexista um desenvolvimento igualmente grande das de desintegração — isto é, uma psiconervose — , as qualidades de integração passam a funcionar rápida e profundamente, para se não deixarem arrastar pelas outras. Dá‑se, pelo equilíbrio hipersão de um fenómeno mórbido, uma hiperharmonia do espírito. A essa hiperharmonia chamamos génio. Quer isto dizer que não haja homens de talento com psiconervoses? Não. Mas há duas maneiras de a psiconervose coexistir com um excesso de faculdades de integração.

Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d'elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.
A frase, aparentemente simples, assenta contudo em uma intuição que conviria que os psicólogos e os sociólogos meditassem de perto — o amor ao prestígio como grande anseio humano, a vaidade como qualidade primária do homem social. Os redactores de projectos igualitários, os sonhadores de organizações sociais salvadoras — últimos crentes no milagre — fariam bem em meditar, podendo, este princípio, tirando d'ele, sabendo, as suas necessárias conclusões.
Não é mais a vaidade que a confiança no efeito do valor próprio. A confiança só no valor próprio, que não no efeito d'ele, é outra coisa, e chama-se orgulho. Podem coexistir, podem não coexistir. Tão contraditória é a aparência da condição humana, que, podemos confiar no efeito de nosso valor, sem confiar nesse valor mesmo. É que na vida do espírito a acção precede sempre a consciência; movemo-nos antes que o queiramos.
Seja como for, a importância social da vaidade é implícita na definição, (que demos) d'ela. Ao passo que a confiança no valor próprio, porém não no efeito d'ele, — isto é, na aceitação d'ele por outrem — intimida e paralisa o esforço, pelo receio da desilusão e da dificuldade; a confiança no efeito d'esse valor necessariamente estimula para a acção.
Há por isso um sinal distintivo, pelo qual se diferençam os orgulhosos dos vaidosos: os orgulhosos são tímidos, os vaidosos são audazes. Há quem seja cumulativamente orgulhoso e vaidoso; quem o é será tímido e audaz ou intermitentemente, ou em manifestações diferentes do espírito.
Se a vaidade é mais ridícula que o orgulho, é que é por natureza activa, e se revela sempre; o orgulho, como se esconde, mal pode aparecer onde o escarneçam. Por isto, e ordinariamente, tem-se a vaidade por baixa, e por nobre o orgulho. Nem um, nem outro, é nobre ou deixa de sê-lo. Pela razão já exposta — a essência activa da vida —, a vaidade é mais vulgar, o orgulho — sobretudo o orgulho sem, ou com pouca, vaidade — raro. Da sua raridade se deriva — (assim) como de seu menor ridículo e de sua pouca incidência, por inerte, sobre outrem — o mito da sua nobreza.
É a vaidade a mestra do esforço, o sal da acção, o alimento da vida. Todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies. D'elas nasce tudo que é social — o bom como o mau, assim o nobre como o mesquinho. O fato melhor do caixeiro, os gestos da condessa, a conquista da Gália por César, a Divina Comédia têm esta comum origem. Não há mister inventar, como Nietzsche, uma «vontade de poder» para disfarce opulento d'esta nudez do egoísmo humano. O pitecantropo vestido é menos dionisíaco do que isso.
Como o orgulho vive para dentro, pensando e sentindo, e a vaidade para fora, operando, resulta que, ante o conseguimento alheio, o primeiro movimento de um é o desconsolo e o tédio, da outra o despeito e a inveja. A inveja é a qualidade primária da comparação social: gera as intrigas e as malícias de que se compõe a quotidianidade da vida; estimula rancorosamente o esforço que se vai cansando; é a matriz de quase todas as censuras e de todas as revoluções.
Tal é a realidade da vida humana: a vaidade como base, a inveja como meio, o progresso como fim. Certos há, porém, que escapam à inveja do comum dos homens. Ao sentimento, que despertam, e pelo qual fogem a essa inveja, chama-se ordinariamente prestígio. O prestígio é, pois, aquela imposição da nossa personalidade aos outros, que não lhes desperta a inveja.
Parece que a primeira condição do prestígio deve ser a superioridade — a superioridade por nós reconhecida. Não é assim. A só superioridade não evita a inveja; há mister que essa superioridade se baseie em uma diferença de qualidade, que não, ou que não só, de grau.
A quem não temos por superior, e nos supera nos benefícios da vida, invejamos, invejamos simplesmente. A quem temos por nosso superior, porém como da mesma espécie que nós e nosso superior só em grau, invejamos ainda, porém de diverso modo: invejamos que a Natureza, que não já a Sorte ou o Destino, lhe concedesse as qualidades, por meio das quais nos supera. A quem, porém, sentimos não só superior, senão também diferente, dificilmente invejaremos, salvo se a inveja for uma disposição habitual nossa. Não há contraste sem semelhança. Não podemos comparar-nos com quem nos não parecemos. O nosso superior semelhante faz o que fazemos, porém melhor; o nosso superior diferente faz o que não poderíamos fazer nunca. Por isso um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro. Por isso Byron invejava Shakespeare, e só admirava Milton: o intuitivo menor doía-se do intuitivo maior; o grande racional não o ofendia.
A primeira condição do prestígio é, pois, necessariamente a diferença — a diferença, porém, desacompanhada de inferioridade. Todos sentimos diferente um louco ou um imbecil; a nenhum damos prestígio. Não falemos ainda de superioridade; falemos só de diferença. A primeira condição do prestígio é a diferença que não é inferior. É que todo o raro, desde que não seja baixo, atrai e preocupa.
Como, porém, a diferença tanto mais nos preocupará quanto menos pudermos definir em que consiste, segue que a segunda condição do prestígio é o mistério. Todos os grandes fascinadores se destacam por diferentes, e se insinuam por não se revelarem. Quando ouvirdes dizer que certo homem é «interessante» — é o primeiro adjectivo do prestígio — vereis que se deve entender que de certo modo se não compreende bem o que pensa, o que sente, que carácter tem. Os grandes sedutores usam conscientemente este processo de insinuação; muitas vezes não têm mais mistério que o saber o que o mistério vale.
A terceira — mas só a terceira — condição do prestígio é, então, a superioridade. Quando é enorme e sensível envolve já a diferença, e por aí, que não por si, se prestigia. Quando é súbita, deslumbrante envolve já o mistério, e por ele, que não por si, adquire prestígio. De per si — isto é, como superioridade explicável, racional — não é nem o primeiro nem o segundo elemento da sujeição do espírito alheio.
São estas as três condições do prestígio. Quem queira analisar o conteúdo d'ele não encontrará mais que isto. O prestígio do homem de génio é d'esta ordem, porque o génio é diferente e misterioso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Perigos, perdições...proibições...

Aviso - Se não achar este conto nada de especial, ou achar até divertido e, de alguma forma, engraçado, vá buscar ajuda psiquiátrica, ou comece a escrever.

O maior perigo é cuidar que se ganha em se perder...Se ao menos eu por fora fosse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro. Não fazer nada é a minha perdição.

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que já as frequências suas me ensinaram A desejos deixar de ser contente.


Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?


Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador
!

In spite of all the heartache That you may cause me I'll do anything for you Anything you want me to If you'll be true to me...



Não fiz da minha dor um poema, fiz dela, porém, um cortejo. E da janela para mim contemplo, espantado, os [...] os crepúsculos vagos de dores sem razão, onde passam, nos cerimoniais do meu descaminho, os perigos, os fardos, os falhanços da minha incompetência de existir. A criança, que nada matou em mim, assiste ainda, de febre e fitas, ao circo que me dou. Ri dos palhaços, sem haver cá fora do circo; põe nos habilidosos e nos acrobatas olhos de quem vê ali toda a vida. E assim, sem alegria, sem contacto, entre as quatro paredes do meu quarto durmo, por [...] Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam na alma. Os meus passos soam no passeio como um dobre ridículo a finados, um ruído de espanto na noite final como um recibo ou uma janela. Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço. Morreu quem eu nunca fui. [...] Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!

Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos.


I can’t explain The slowing of my brain The underlying vein That flows right into you...La la la la La la la la...

Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro eléctrico e a espantosa faculdade de abstracção que tenho e cultivo. Num carro eléctrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da mera-velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro imitar da velocidade e a meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios. Correr riscos reais, além de me apavorar não é por medo que eu sinta excessivamente — perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza. Nunca vou para onde há risco. Tenho medo ao tédio dos perigos. Um poente é um fenómeno intelectual.

Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano.O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica...

A escrita celiniana atinge, neste equilíbrio entre o delírio fantasmático e o real, a sua máxima perfeição…. A perfeição é um castelo perigoso...


Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi...

Simão, estendido no chão com o ferimento da bala aberto, chorava baixinho. O quarto estava desarrumado. Entornou a tinta, rasgou papéis e tinha o lábio cortado. A mancha de sangue que aumentava no seu ombro mostrava o quanto o pobre rapaz, que pouco conhecia do amor a não ser das quiméricas cartas que a menina lhe mandava, desejava sair do corpo. Morrer ali, esvaindo-se, sentindo a vida escorrer-lhe, seria a saída perfeita do mundo que o derrotara.

Ninguém sente em si o peso do amor que se inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras do coração e da vida, é grato sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.

Não é sensato deixar um dragão fora dos teus cálculos se vives perto dele.


22 de Agosto de 1944:Foram necessários cinco anos de luta obstinada e silenciosa para que um jornal, nascido do espírito de resistência débil e ininterrupto, no meio de todos os perigos da clandestinidade, pudesse finalmente circular às claras, numa Paris liberta de sua vergonha. Não se pode escrever isso sem emoção. Esta alegria confusa que começamos a ler nos rostos dos parisienses é também a nossa. Mas a tarefa dos homens da resistência não terminou. Houve o tempo da provação, e estamos vislumbrando o seu fim. É fácil para nós acolher um tempo de alegria. Nos nossos corações ela toma o lugar que a esperança ocupou durante cinco anos. A ela também seremos fiéis...


É proibido proibir..

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu. Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.



Panfleto mágico em forma de romance...

Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora -Que -Logo -Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.

– Bem sei que podem perseguir -me, arrancar -me os olhos, torcer -me as orelhas, transformar -me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei -de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO. E João Sem Medo continuou a subir o caminho árduo, resoluto na sua pertinácia de ocultar o medo – a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.

― Eh! Fada dos bosques! Aparece, rica fada da minh’alma.
Então ― ó pasmo dos pasmos! ― João Sem Medo viu sair da espessura da floresta um ser prodigioso que de longe parecia uma mulher jovem e bela, cabelo loiro até à cintura, três estrelas de prata na testa, varinha na mão direita, roca na mão esquerda, túnica bordada de rubis e esmeraldas, chapinsdellatina e tudo o mais que as fadas costumam usar nos bailes de Entrudo.
No primeiro momento contemplou-a, deslumbrado. Mas, à medida que a observava mais de perto, o sorriso inicial desfez-se pouco a pouco em caretas de desconfiança.
― És a Fada dos Dois Caminhos? – inquiriu, duvidoso. ― Palavra? Mostra cá o bilhete de identidade.
― Não acreditas? – protestou, para desviar a conversa, a hipotética fada com voz aflautada, voz de máscara aos guinchos. ― Sim, sou a Fada Infalível, a Fada Lugar-Comum…
― Acredito, acredito… – concordou o rapaz por zombaria complacente.
E insistiu em examiná-la, com manifesta vontade de rir. E com razão. Pois a pseudo fada parecia… Parecia, não. Era… Era mesmo um homem vestido de mulher, como se deduzia no desarrumo da cabeleira postiça à banda, no negror evidente da barba mal disfarçada por várias camadas de pó-de-arroz, além da maneira canhestra e hirta de andar e da falta daqueles mil e um ademanes femininos tão difíceis de imitar pelos homens. O jeito de pentear os cabelos com os dedos, por exemplo.
Embora não desejasse humilhá-lo, João Sem Medo não evitou um incondescendente riso de chacota.
― Que queres, filho? – explicou a fada falsificada, vexadíssima, a tropeçar na túnica. ― Quando telefonaram para a Repartição da 3ª Mágica a requisitar uma funcionária, só me encontrava lá eu, que sou contínuo, e uma fada já muito velhinha, muito perra, entrevada de reumatismo e com mais de 50 000 anos de serviço activo, quase na idade da reforma por inteiro, coitadinha! E então, por uma questão de prestígio, ofereci-me para esta fantochada. Nem quero pensar no que diria o Mago-Mor se não mandássemos uma fada válida para os Dois Caminhos. Pregava-nos uma descompostura tremenda. Foi por isso que me mascarei e vim… Não julgues, porém, que não percebo de artes mágicas!


Keith debruçou-se sobre o lavatório do seu gabinete ou estúdio ao fundo do jardim, para tratar a ferida que tinha nas costas da mão. Essa ferida fora contraída no início de Março, quando os seus nós dos dedos haviam entrado em contacto não enfático com uma parede de tijolos. A ferida ia agora na sua terceira crosta, mas ele continuava a tratar dela, a afagá-la, a soprá-la, a acarinhá-la — à sua pobre mão. Estes pequenos aleijões eram como pequenos animais de estimação ou vasos de plantas que abruptamente ficassem a nosso cargo, que tivessem de ser alimentados, passeados ou regados.
Quando se passa o meio século, a carne, a cobertura da pessoa, começa a atenuar-se. E o mundo está cheio de lâminas e de espinhos. Durante um ano ou dois as nossas mãos andam tão arranhadas e esfoladas como os joelhos de um menino. Depois aprendemos a proteger-nos. Isto é o que vamos continuar a fazer até que, perto do fim, já nem fazemos mais nada — só nos protegemos. E enquanto aprendemos a fazer isso, uma chave numa porta é como um prego numa porta, e a tampa da caixa do correio é como um cutelo, e até o próprio ar está cheio de espinhos e de lâminas.


Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze -em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.
"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez.


É proibido proibir...

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

As nossas vidas são cheias de absurdos e de abdicações. Não temos ousadia em nada. Quando julgamos ousar, é que temos febre. Ousamos febrilmente, com demasiada noção do risco e demasiada embriaguez do perigo. Somos incompletos e infecundos. Nascemos escravos. O nosso humanitarismo é uma grilheta que nos pusemos. Não sabemos mandar. Não sabemos sentir, não sabemos sequer ver. Há mais de vinte séculos que seguimos um caminho errado, e nem esse seguimos persistentemente.

Com o sobretudo abotoado até ao queixo Embiocado afastado No lugar mais escuro do café escrevia O múltiplo poema o canto inumerável Arrancado ao desejo à paixão à memória Às lucidíssimas fúrias da renúncia...

Dejar de leer es la muerte instantánea. Sería como vivir en un mundo sin oxígeno.

Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante /Do tempo sem fim/ O mesmo momento voltando improfícuo e distante / Do que quero em mim!

Começo a conhecer-me. Não existo./ Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,/ou metade desse intervalo, porque também há vida .../ Sou isso, enfim .../Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. / Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo./ É um universo barato.
O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perder, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.

Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes...
Junta as mãos, põe-as entre as minhas e escuta-me, ó meu amor.
Eu quero, falando numa voz suave e embaladora, como a dum confessor que aconselha, dizer-te o quanto a ânsia de atingir fica aquém do que atingimos. Quero rezar contigo, a minha voz com a tua atenção, a litania da desesperança. Não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos teria que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais intensos, e nunca o seu conjunto é tão perfeito que o não pudesse ser muitíssimo mais.(...) E para que exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito. Porque tu não amas o que eu digo com os ouvidos com que eu me ouço dizê-lo. Eu próprio se me ouço falar alto, os ouvidos com que me ouço falar alto não me escutam do mesmo modo que o ouvido íntimo com que me ouço pensar palavras. Se eu me erro, ouvindo-me, e tenho que perguntar tantas vezes, a mim próprio, o que quis dizer, os outros quanto me não entenderão! De quão complexas ininteligências não é feita a compreensão dos outros de nós. A delícia de se ver compreendido, não a pode ter quem se quer não compreendido, porque só aos complexos e incompreendidos isso acontece; e os outros, os simples, aqueles que os outros podem compreender — esses nunca têm o desejo de serem compreendidos


Olho para ti, dentro de mim, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal). Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos...

Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada nem te ergo ante mim como santa. Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.



E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos da […] estranha recebida por anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém estático...
A intervisão das coisas atingíveis, E o renunciá-las, como um lindo modo Das mãos que a palidez torna impassíveis.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.

O mundo, no qual nascemos — meio de renúncia e de violência —, da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória. Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na especulativa.

Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.

Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água?

Não será melhor Colher coisa nenhuma Nas roseiras sonhadas, E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros, Nas primaveras por haver?

Não será melhor Renunciar, como um rebentar de bexigas populares Na atmosfera das feiras, A tudo Sim, a tudo, Absolutamente a tudo?

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Este é o tempo Da selva mais obscura / Até o ar azul se tornou grades E a luz do sol se tornou impura / Esta é a noite Densa de chacais Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.


I'm so tired, I haven't slept a wink I'm so tired, my mind is on the blink I wonder should I get up and fix myself a drink No,no,no. I'm so tired I don't know what to do I'm so tired my mind is set on you I wonder should I call you but I know what you'd do...


Tenho medo, não da morte, mas da doença, do sofrimento, da dor... Não quero ser tratado, não quero que me prolonguem a vida por mais um, dois anos. Viver já é difícil, viver a prazo é impossível. Quanto mais rápido se acabar com a comiseraçãozinha de familiares, amigos e falsos amigos, melhor. É proibido proibir...