Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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domingo, 2 de setembro de 2018

Histórias...

"E sem dúvida o nosso tempo...prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... "(Feuerbach)

..A alma é uma realidade terrível. Pode ser comprada, vendida, negociada, intoxicada ou aperfeiçoada. Há uma alma em cada um de nós. Eu sei...

-Que tristeza!- murmurou Dorian.- Que tristeza!- repetiu, com os olhos cravados na sua efígie- Eu vou ficar velho, feio, horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre jovem, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo!Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!

Estava cada vez mais enamorado da sua própria beleza, mais e mais empenhado em corromper a sua própria alma.

Muitas destas histórias foram contadas a amigos de Wilde , durante jantares e reuniões sociais, tendo a sua maioria sido redigidas por esses amigos. Havia, até, quem dissesse que Wilde era melhor a contar histórias do que a escrevê-las...

O Espelho de Narciso
Quando Narciso morreu, as flores do campo curvaram-se de dor, e imploraram ao rio qe lhes desse umas gotas de água, para o poderem chorar.
- Ainda que metade de todas as minhas gotas de água fossem lágrimas- respondeu o rio- não seriam suficientes para chorar Narciso. Eu amava-o.(...) Eu amava-o- murmurou o rio- porque quando ele se inclinava sobre mim, eu via o reflexo da minha beleza nos seus olhos


O Artista
Um dia entrou-lhe na alma o desejo de moldar uma imagem de O Prazer Que Reside Num Momento. E foi mundo fora à procura de bronze.(...)Mas todo o bronze do mundo tinha desaparecido ...a não ser o bronze da imagem de A Dor Que Permanece Para Sempre.(...) No mundo inteiro não havia outro bronze que não fosse o desta imagem.
E tirou a imagem que havia talhado e meteu-a num grande forno e ofereceu-a ao fogo.
E do bronze da imagem de A Dor Que Permanece Para Sempre ele moldou a imagem de O Prazer Que Reside Num Momento.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reflexos e narcisos...

O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim. A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes, brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.

Aceitar ser um mero reflexo é negar tudo o que se é; é abdicar de tudo o que se acreditava ser... Um braço que se estende ocupa espaço e torna-se, assim, uma escultura metafísica. Nunca pude deixar de dar a este facto insignificante uma importância alada sobre o quotidiano.

It's a reflector It's just a reflector Just a reflector But I see you on the other side It's just a reflector But I see you on the other side We all got things to hide It's just a reflector But I see you on the other side...


Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque da quinta, com um docel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Nunca vi em mim senão uma romaria de inconsciências para o outono das minhas intenções. As longas horas que tenho passado à beira do meu correr têm-me [...] rios sobre a existência. Com os meus passos treme a luz das estrelas. Um gesto da minha mão, que me oculta a lua um momento, mostra, com este meu assombro, quanto pode realmente significar. Destes pensamentos, tornados domésticos e quotidianos ao meu escrúpulo, adveio ao meu instinto que ele naufragava no porto. Pareceu-me sempre que ser era ousar; que querer era aventurar-se. Inércia soube-me a santidade, e não-querer a ter bons costumes. Construí assim uma moral burguesa do pensamento, um cuidado da comodidade e da decência através do respeito do mistério. A exagerada consciência, que sempre tive, dos meus momentos, doeu-me sempre a mistério e a divino. Nunca me compreendi sobretudo quando me surpreendi a viver as inconsciências dos meus instintos e a vulgar correcção dos meus reflexos nervosos.

Perdi-me pelos sistemas secundários, excitados da metafísica sistemas cheios de analogias perturbantes, de alçapões para a lucidez, pondo paisagens misteriosas onde reflexos de sobrenatural acordam mistérios nos contornos. Envelheci pelas sensações... Gastei-me gerando os pensamentos... E a minha vida passou a ser uma febre metafísica, sempre descobrindo sentidos ocultos nas coisas, brincando com o fogo das analogias misteriosas, procrastinando a lucidez integral […].Caí numa complexa indisciplina cerebral, cheia de indiferenças. Onde me refugiei? Tenho a impressão de que não me refugiei em parte nenhuma. Abandonei-me mas não sei a quê. Que sonhos tenho? Não sei. Forcei-me por chegar a um ponto onde nem saiba já em que penso, em que sonho, o que visiono. Parece-me que sonho cada vez de mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.

Narciso, durante uma caçada, encontra a ninfa Eco. Logo que o viu, uma paixão súbita se apoderou dela. Foi em sua perseguição, mas, como não podia falar, limitava-se a segui-lo. Até que Narciso, pressentindo alguém, exclama: — Ecquis adest? - Ela surge e abraça-se a ele que a repele... Eco, entristecida e envergonhada, refugia-se na floresta, deixando de comer. Todos, jovens e donzelas, se sentiam desprezados por Narciso, até que alguém lançou uma maldição: «Possa ele amar e não possuir o objeto dos seus desejos!" A deusa Nemesis ouve esta súplica e prepara-se para a satisfazer. Um dia, Narciso, extenuado após uma caçada, encontra um local maravilhoso, onde descansa e aproveitou para matar a sede num lago imaculado, que Ovídio descreve de forma pormenorizada, de modo dar-nos a perfeita sensação de um espelho. Ao matar a sede, mira-se e vê a sua bela imagem no lago... Apaixonana-se pela sua pessoa e não consegue afastar-se desse feitiço.... Moribundo, dirige as suas últimas palavras às árvores que o rodeiam e refere o seu desgosto pela paixão que o dominou, que nunca poderá concretizar. Na realidade, apesar de não haver grande distância entre eles, o ser amado era inantigível: quando estendia os braços, o ente querido também os estendia, quando sorria, ele também sorria, quando falava, do outro lado só havia um mexer de lábios sem som. Mas reconhece o seu erro, pois apaixonou-se por si próprio — Iste ergo sum — e em breve exalarão ambos o último suspiro...
Eco vem assistir aos seus últimos momentos: mesmo ao entrar nos Infernos, Narciso mirou-se nas águas do lago Estígio.

O mito de Narciso para Valéry traduz a pretensão de corporalizar, de reduzir a uma concreta imagem mítica, o mais antinatural, irreal e absoluto — o seu Eu: Mais moi, Narcisse aimé, je ne suis curieux Que de ma seule essence Tout autre n'a pour moi un coeur mystérieux Tout autre n" est qu' absence. Te voici, mon doux corps de lune et de rosée, O forme obéissante à mes vœux opposée ! Qu'ils sont beaux, de mes bras les dons vastes et vains ! Mes lentes mains, dans l'or adorable se lassent D'appeler ce captif que les feuilles enlacent; Mon cœur jette aux échos l'éclat des noms divins !... Du souffle que j'enseigne à tes lèvres, mon double, Sur la limpide lame a fait courir un trouble ! ...Tu trembles ! ... Mais ces mots que j'expire à genoux Ne sont pourtant qu'une âme hésitante entre nous,Entre ce front si pur et ma lourde mémoire ... Je suis si près de toi que je pourrais te boire, O visage ! ... Ma soif est un esclave nu ...jusqu'à ce temps charmant je m'étais inconnu, Et je ne savais pas me chérir et me joindre ! Mais te voir, cher esclave, obéir à la moindre Des ombres dans mon cœur se fuyant à regret, Voir sur mon front l'orage et les feux d'un secret, Voir, ô merveille, voir ! ma bouche nuancée Trahir... peindre sur l'onde une fleur de pensée, Et quels événements étinceler dans l'œil ! J'y trouve un tel trésor d'impuissance et d'orgueil, Que nulle vierge enfant échappée au satyre, Nulle ! aux fuites habiles, aux chutes sans émoi, Nulle des nymphes, nulle amie, ne m'attire Comme tu fais sur l'onde, inépuisable Moi !.

A criação literária mais genial, inspirada neste mito, é, indiscutivelmente, a de Wilde...

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expessão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

o tempo tem-lhe inveja e faz guerra aos seus lírios e às suas rosas. a bela aparência de Dorian Gray: são dons dos deuses...A noção de sua beleza dominava-o como uma revelação.

-Que tristeza!- murmurou Dorian.- Que tristeza!- repetiu, com os olhos cravados na sua efígie- Eu vou ficar velho, feio, horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre jovem, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo!Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!

Estava cada vez mais enamorado da sua própria beleza, mais e mais empenhado em corromper a sua própria alma.

-Que horror, Dorian! Alguma coisa o transformou completamente. Por fora, ainda é o belo rapaz que, não há muito tempo, ia ao meu estúdio e posava diariamente para o seu retrato: um rapaz simples, afetuoso, sem afetação. A criatura mais inocente deste mundo. Agora, não sei o que lhe sucedeu. Fala como se não tivesse coração, como se desconhecesse a piedade.

É frequente desencadearem-se as verdadeiras tragédias da vida de uma maneira tão pouco artística que nos magoam com a sua crua violência, a sua tremenda incoerência, carecendo absolutamente de sentido, sem o mínimo estilo. Afectam-nos do mesmo modo que a vulgaridade. Causam-nos uma impressão de pura força bruta contra a qual nos revoltamos. Por vezes, porém, cruzamo-nos nas nossas vidas com uma tragédia repassada de elementos de beleza artística. Se esses elementos estéticos são autênticos, todo o episódio apela à nossa apreciação do efeito dramático. De repente deixamos de ser actores e passamos a espectadores da peça. Ou antes, somos ambas as coisas. Observamo-nos, e todo o encanto do espectáculo nos arrebata.


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... Ah, que terrível face e que arcabouço Este meu corpo lânguido escondia! Ó boca tumular, cerrada e fria, Cujo silêncio esfíngico bem ouço! Ó lindos olhos sôfregos, de moço, Numa fronte a suar melancolia! Assim me desejei nestas imagens. Meus poemas requintados e selvagens, O meu Desejo os sulca de vermelho: Que eu vivo à espera dessa noite estranha, Noite de amor em que me goze e tenha, ...Lá no fundo do poço em que me espelho!

Nunca me ofereceram narcisos...Talvez ninguém saiba que adoro narcisos. Fui à florista comprar um vasinho de narcisos. " São para oferta?". "Sim! São para mim." Como??" "Sou narcisista, percebe?" Não percebeu e, contrafeita, fez o embrulho de oferta...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Words, palavras....

In a Manner of speaking I just want to say That I could never forget the way You told me everything By saying nothing In a manner of speaking I don't understand How love in silence becomes reprimand But the way that i feel about you Is beyond words Oh give me the words Give me the words That tell me nothing Ohohohoh give me the words Give me the words That tell me everything In a manner of speaking Semantics won't do In this life that we live we only make do And the way that we feel Might have to be sacrified So in a manner of speaking I just want to say That just like you I should find a way To tell you everything By saying nothing.



Words! Mere words! How terrible they were! How clear, and vivid, and cruel! One could not escape from them. And yet what a subtle magic there was in them! They seemed to be able to give a plastic form to formless things, and to have a music of their own as sweet as that of viol or of lute. Mere words! Was there anything so real as words?

Where are the words To speak this thing in me To tell the words You’ll wanna hear....


I want to tell you my head is filled with things to say. When you're here All those words they seem to slip away...It's only words and words are all I have...I hear voices insinuating Feeds me words to this song that I am saying


Em ciência de computação, uma instrução é uma operação única, executada por um processador e definida por um conjunto de instruções. Num sentido amplo, uma "instrução" pode ser qualquer representação de um elemento num programa executável...

Li, não sei onde, uma ideia não original nem genial de que todos devíamos vir com manual de intruções...Dava-me jeito: há pessoas e situações tão enigmáticas que um processador tornaria a vida mais executável...A vida devia ser como as provas de exame e os manuais escolares: têm soluções,pelo menos para os professores...

É curiosa a palavra instrução: no plural, muda completamente de sentido, a instrução pode ser algo completamente diferente de as instruções: tenho instrução suficiente, mas precisa, e muito, de instruções... conheço muitas palavras, mas preciso de instruções para descobrir as que devo utilizar...

E, no seu pensamento vazio, surgem ,de forma caótica, palavras, aparentemente, desconexas: sorte, encenação, determinismo, música, morada, reino, laço, exílio, dúvidas, aforismos, baile, missa, romance, teste, viagem, escola, língua, império, corrupção, nosmeza, deus, loucura, sol, absurdo, biblioteca, conto, estrangeiro, sorriso, livro, fita, rio, novela, queda, sala, xadrez, opinião, sono, cadeira, novela, shana, papel, aforismo, teatro, jogo, destino, humor, infantilidade, escrita... Atordoam-me, insistentes, e o meu pensamento vazio mistura-se com o eco provocado por cada uma delas... Fica -me, pelo menos, a memória das palavras: elas não são lixo existencial, como tudo o resto...

estranhamente ali está a janela enorme aberta e posso ficar trancado no quarto toda a vida ou posso atirar-me da janela e morro assim a partir de um ponto alto e até posso gritar enquanto caio....

Saltar no vazio será preferível a um pensamento vazio?? prescindindo da linguagem, avanço para a docilidade como um belo animal mudo...Talvez desconstrua, reconstrua e construa as palavras...Talvez. Quem sabe?

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. (...) O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.



The words we shared dissolved as they’re spoken...


Toda a palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada...

Como não sou filósofa, como não sou prémio nobel, como sou culturalmente ninguém, ( Curioso, há uma certa profundidade na expressão popular do "zé ninguém"...as marias nem têm direito a ser ninguém, eu tenho: sou uma "maria ninguém") nunca serei entrevistada para dizer as minhas dez palavras preferidas. Vou, de qualquer modo, pensar nelas, mesmo que o mundo fique indiferente à minha escolha, uma escolha de ninguém.
Receio que algumas das minhas palavras estejam muito fora de moda: decoro, dignidade, ternura, deslumbramento, amor,confiança, mar, horizonte, planície e reino.

Fiquei(estou) indecisa relativamente à palavra abraço...É complexo destrinçar entre o gostar da palavra e valorizar esta forma de linguagem, para mim a mais reveladora do afeto humano.

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada que nada é tanto
E eu não me importo
Dá-me um abraço, fica por perto
Neste aperto, tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço


A alguém que nos ampara, nos aprova, por vezes nos combate; alguém que partilha connosco, com igual fervor, as alegrias da arte e as da vida, os seus trabalhos jamais aborrecidos e jamais fáceis; alguém que não é a nossa sombra, nem o nosso reflexo, nem mesmo o nosso complemento, mas ela própria; alguém que nos deixa divinamente livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos.

Experimentava junto a ti, um sentimento novo, de confiança e paz. Gostavas, tanto quanto eu , das longas caminhadas sem destino, através do campo, percorrendo caminhos que não levam a lugar algum. Aliás, não tinha necessidade de chegar a parte alguma. Bastava-me o facto de estar tranquila ao teu lado. A tua natureza pensativa combinava com o meu temperamento tímido. Calávamo -nos juntos. Em seguida,a tua voz grave, bonita e quase velada, a tua voz retemperada pelo silêncio, interrogava-me suavemente sobre a minha arte e sobre mim mesmo. Compreendi logo que sentias por mim uma espécie de ternura mesclada de compaixão. Eras bondosa. Conhecias o sofrimento por havê-lo curado ou minorado muitas vezes. Adivinhaste em mim um jovem doente, ou um jovem pobre. Eu era realmente tão pobre que nem sequer te amava. Em ti, via somente a doçura.

Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época. Começa-se devagar, com descrença, e vai-se andando encostado ao desespero até que as palavras visitem os sonhos e tomem conta deles. Primeiro uma vida, depois outras que a suportem e justifiquem. Vidas ao lado e vidas antigas, vidas que hão-de vir e outras que nunca chegaram a ser. Todas fazem falta, todas servem.

O não-dito ...correlaciona-se com o interdito, isto é, com o que não se deve dizer: toda a informação revelada a um destinatário que, até então, a desconhecia, obriga-o a refundir o conhecimento que este possuía sobre a realidade e sobre a sua relação com o outro. Assim, a comunicação pode implicar, paradoxalmente, ao mesmo tempo, reforço da união e separação.

Olhei para o espelho: uma superfície lisa ,brilhante, terrivelmente vazia,em branco.
Recordei o Ensaio sobre a Lucidez e Saramago...A urna estava vazia,imaculada, mas não havia na sala um só eleitor,um único para amostra,a quem pudesse ser exibida. Acabara de encontrar a metáfora perfeita: a minha alma é uma urna vazia,imaculada, em que não existe uma única imagem...De livro em livro, por uma curiosa associação, foi ter ao Coração Tão Branco de Javier Marías.
(Já só sei pensar através de livros, desprezo a capacidade de raciocínio desligada do que leio. Há muito que perdi a alma, algures, por aí... Pensei que a tinha reencontrado, mas foi uma ilusão e aqui estou, agora, ausente de mim, entre duas obras que têm em comum a ausência de votos e a ausência de palavras. O poder do voto e o poder das palavras, o significado do não voto e o significado das não palavras.)

Como descobrir se uma ausência de palavras é inação ou ação, um agir com um significado que tem de ser interpretado? Deixo a primeira questão para os sociólogos... O não-dito identifica-se, por vezes, com o interdito, com o que não se deve dizer. Como saber se um não dito é, afinal, um interdito? Só há uma certeza: a palavra obriga-nos a refundir a relação com o outro e, paradoxalmente, a comunicação pode implicar , ao mesmo tempo, reforço de união ou uma separação.
Há, ainda, que ter em conta o segredo que remete para um não-dito cujo conteúdo é demasiado trágico para que possa ser revelado. Será que o segredo e o interdito podem coincidir? Dizemos, até, sem dizer...?

Nenhuma voz me atinge por destino dela, e nenhuma me procura ansiosa... a mais formosa é sempre aquela que eu encontro agora,apenas porque a encontro e por mais nada.
Será que o acaso é acaso?
Se a sua voz prendesse tudo o que foge e ela te pudesse contar tudo o que não sabes, tudo o que ainda não tem nome... Se recordasse o som da tua voz, conheceria melhor a melodia do teu ritmo frásico...
Não teNHO voz ativa , sou um verbo intransitivo: sou amada, sou idealizada, sou atraiçoada. O que é SOU só se completa com um particípio passado. Nunca fui capaz de ser, limitei-me a existir como um mero jogo de palavras.

E agora?

A palavra e o silêncio determinam a vida de todo o ser humano: não há palavras inocentes, nenhum coração é tão branco que não possua culpa... Ter de admitir que o engano é a nossa condição natural “não devia magoar-nos tanto.”
Quando uma pessoa morre o que se esquece primeiro: a voz; o cheiro; o sorriso; as frases? Guardamos dentro de nós as palavras ou os silêncios?


El oficio de la palabra
es la posibilidad de que el mundo diga al mundo,
la posibilidad de que el mundo diga al hombre.


As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se possa crer. A maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço nunca tocado por nenhuma palavra.

Do (mal)dito ao (não)dito...
Gosto de palavras, gosto de construir um mundo de palavras, um reino onde a perfeição não é quimera ...gosto de jogos de palavras, gosto de sentir que as palavras gostam de mim... Às vezes, nem sei o que fazer com elas, surgem , ansiosas e frenéticas, a atropelarem-se -me, na cabeça, num redemoinho assustador, desordenadas, caóticas,(mal)ditas... Outras vezes, desaparecem, e, então, experimento um vazio inexplicável, sinto-me muda, como se o pensamento fluísse sem suporte verbal: penso, sei que penso, sei o que estou a pensar, mas não consigo verbalizar. Invade-me a angústia do (não)dito... (Prefire as palavras (mal)ditas..)

Devia haver um estabelecimento onde se vendessem vocábulos para as diferentes situações. Sei que existe uma coisa chamada dicionário e que outras obras da Classe 0 (CDU) poderiam desempenhar esta função, mas não me apetece consultá-las...
O que eu queria era ir a uma loja, daquelas que passam fatura e tudo, para comprar palavras, muitas palavras e, com elas, fazer frases bonitas que conseguissem exprimir o indizível... Palavras que, no entanto, não se pudessem ouvir:daquelas que só se sentem e te fazem sorrir...


Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me teem feito chorar.

Sempre tive tendência para sentimentos inexprimíveis...Será que as palavras que os traduzem ainda não foram inventadas? Será que eu sinto fora do paradigma linguístico? Percorro, com ansiedade, o dicionário, de A a Z, à procura de um conjunto de sons ou de grafemas que me ajudem a exteriorizar o que perceciono. Talvez a verbalização me permitisse compreender. Se compreendesse, aceitaria. Não encontrando a palavra, não consigo reagir...Tenho medo de sufocar com a quantidade de letras e de sílabas que se acumulam dentro de mim, inutilmente, pois nenhuma me serve.Combino-as de diferentes modos e nada: nem significante nem significado. Tudo tem que ter um nome, eu quero que tenha, eu quero...

Como estou sem palavras (Que ambiguidade interessante), resolvi dedicar-me à análise sintática. Em escrevo-te, por exemplo, qual a função sintática de "te"? Complemento indireto? Pode ser que sim, mas pode ser que não- se ela não escrever para ti, se não te enviar nenhuma carta ou mensagem. "Te" poderá ser o complemento direto, se o tu for o próprio conteúdo daquilo que escreve
De qualquer modo, como não tenho palavras, não posso escrever para ti, não te posso escrever nem escrever sobre ti, portanto, nem vale a pena perder tempo a pensar nisto. Aliás, mesmo que reencontrasse as palavras, escrever-te seria um ato falhado pois tu nunca me lerias. Se tu não me lês, eu não te escrevo, seja qual for a função sintática de "te"...

Resolvi começar a registar, mesmo de modo desordenado, palavras que considero bonitas...A primeira é Margarida ( Como gostava de me chamar Margarida!! Se me chamasse Margarida, até o álvaro de campos me dedicaria um poema... Ai, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que farias tu com ela? (...) Mas, Margarida, Se este dar-te a minha vida Não fosse senão poesia? Comunicado pelo Engenheiro Naval, Sr. Álvaro de Campos, em estado de inconsciência alcoólica.
( Pensei-te e escrevi...)

Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
lá estou eu a inventar o céu aos pedaços, consegues ver a nossa manta lá em cima cá em baixo as nossas vidas a polpa das mão onde repousam linhas inteiras à espera de nascer

What though the radiance which was once so bright Be now for ever taken from my sight, Though nothing can bring back the hour Of splendor in the grass,of glory in the flower,We will grieve not, rather find Strenght in what remains behind;In the primal sympathy Which having been must ever be;In the soothing thoughts that spring Out of human suffering;In the faith that looks through death,In years that bring the philosophic mind.



Entrei no café com um rio na algibeira e pu-lo no chão... A seguir, tirei do bolso do colete nuvens e estrelas... Depois, encostado à mesa, tirei da boca um pássaro a cantar... E agora aqui estou a ouvir A melodia sem contorno Deste acaso de existir - onde só procuro a Beleza para me iludir dum destino.
Eu , uma mera fazedora de frases corretas, mas sem jeito, com emoçõezinhas risíveis...Reduzir-me-ei ao que nunca devia ter deixado de ser :coladora de textos e de músicas alheias... O melhor é ir de férias por um tempo.... Fazia-me bem um ano de férias: de mim, da vida, de tudo...


Please!
I take it all back! Everything.
I take it all back!
Every word!
I love you!




Como nasce o amor? Apenas sabemos como ele morre...

Se me deixasses ser O sítio onde podes voltar...


Saudades de camilo, da sua capacidade de palavrar: da lhaneza da sua linguagem, da erudição clássica, do romantismo, de vocábulos que jazem mortos nos dicionários. Dicionários, esses cemitérios de palavras, depósitos de objetos inúteis, desprezados porque ninguém os ama, ninguém os usa...

A quem ler - Esta novela parece querer demonstrar que sucedem casos incríveis. O autor conheceu algumas personagens e soube como se passaram as coisas aqui referidas. Pois, assim mesmo, tão incongruentes lhe pareceram que ficou muito tempo indeciso se lhe seria melhor inventá-las para saírem mais verossímeis do que as verdadeiras. A consciência gritou-lhe quando o romance estava já urdido e enredado com outro feitio. Venceu a verdade, onde já agora, e tão-somente, lhe é permitido vencer: — nas novelas.

O abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu, pecara na juventude. Coisa rara, senão singular, em abades. A serpe tentadora fizera-lhe o salto do pescoço de uma bela mulher, onde a mensageira do Averno se enroscara.
Era também gentil o presbítero. Bem pode ser que as línguas farpadas de duas serpentes se encontrassem na remetida, mutuando-se a tentação. Se a cúmplice do seu delito não estivesse desvairada dos mesmos filtros, é crível que fugisse da casa solarenga dos seus pais para a residência abacial do padre Leonardo Botelho de Queirós? Responda a dignidade e o pudor de quem lê.

Foram chamadas Eugénia e Ricardina. Luís pedia a primeira, que era morena, olhos negros e vivos, alta e nervosa, altiva e risonha. Carlos pedia a segunda, que era alva, olhos sonhadores e estáticos, compleição linfática, estatura mediana, ar melancólico e pudico, um certo quebranto que a poetas daria mais inspirações que a outra.

Ricardina era a mais doce alma que os anjos compuseram da graça e formosura do Céu. Tinha ela 13 anos quando saiu com o seguinte lance de extremada bondade. Norberto Calvo era um criado do seu pai, o seu braço direito nas lutas com os fregueses por causa das freguesas, um valentão “de rópia e chulice”, como lá dizem.

Isto não vai de afogadilho. Ricardina tem trinta dias para pensar e repensar. Em todo o caso, a questão reduz-se a uma de duas: casar com o primo Carlos, ou ser freira. Uma observação: daqui até que ela se resolva, nesta casa não entra pessoa estranha. Hei de ter boas espias... Carta que eu apanhe, entra em buchas no corpo de quem a cá mandar.

As duas meninas tinham dispensa de ouvir a cristianíssima alegação jurídica do monge. Pelo ordinário, assim que tomavam o chá, recolhiam-se à sua alcova, onde esperavam o sono, que facilmente as favorecia aligeirando-lhes os aborrecimentos da solidão.Naquela noite, porém, Eugénia, sobrexcitada por comoções de noiva, e Ricardina por saudades exacerbadas pela desesperança, não podiam
adormecer. Uma chorava, a outra queria consolar; mas espremia fel em vez de linimento na chaga, quando dissuadia a irmã de amar Bernardo e lhe figurava as delícias de ir com ela para uma vida mais alegre, casada com o primo Carlos.
— Não me digas isso, que não sou tua amiga! — segredava-lhe Ricardina,receosa de ser escutada. — Quero ser freira, e morrer antes de faltar à minha palavra. Amar outro homem não me é possível. Hei de esquecer o Bernardo só quando morrer.


Da vida anterior do académico já D. Clementina Pimentel referiu o principal. O seu pai tinha oito filhos, e colhia escasso pão com que lhes pagasse o incessante labutar nos campos. Enviara três ao Brasil, onde tinha um irmão solteiro e sovina. Arranjara dois no Porto em trato de caixeiros. Mandou, com poucos recursos, Bernardo a Lisboa aprender pintura. Escolheu o mais robusto para o ajudar na lavoura, e a filha para a casar com um dote de duzentos mil réis, quando aparecesse um rapaz videiro, que tivesse do seu algumas leiras.

Bernardo Moniz, avisado pelo pai, largou a custo os pincéis. A pintura deralhe pábulo ao devanear do espírito, por esferas mais altas e lúcidas que a do seu nascimento. Era a sua poesia e brasão. A soledade falava-lhe. O céu, as árvores, os ribeiros, os horizontes, o dilúculo da manhã e o arrebol da noite entendiam-no, davam-lhe em troca do amor as suavidades da contemplação. O jovem, às vezes, na praia de Belém, voltado ao mar, ou na quinta de Belas, emboscado nas ramagens, chorava; mas a soledade enviava-lhe as carícias das suas auras, o trilo das suas aves, e o acre balsâmico das suas moutas. E, depois, o pintor, à luz da noite, e nas madrugadas convidativas da inspiração, espelhava o coração na tela, reproduzindo quase sempre as poucas variantes do mesmo motivo

Como nasceu o amor de Ricardina ao antigo ovelheiro, que lhe lucilava ainda nas memórias da infância? A pergunta é, sobre ociosa, estólida. Como nasce o amor? Apenas sabemos como ele morre.

O abade de Espinho, vencido o impulso de ir em pessoa a Coimbra, sem ter sobre o certo o destino da filha, pediu à justiça de Viseu providências e ordens de captura para o académico Bernardo Moniz, raptor de Ricardina Pimentel. O corregedor duvidou passar mandados de prisão sem certeza de ser réu aquele que o autor não indiciava com provas sequer diminutas.

Às primeiras alvoradas do seguinte dia, após quatro horas de prática entre as duas senhoras e Alexandre, o filho de Bernardo Moniz sabia o nome do seu pai, e a minudenciosa história de Ricardina, desde os 18 anos. O dissabor de ter sido inutilmente enganado pela sua mãe era grande e até certo ponto justo; não obstante, o respeito filial aconselhou-o a dar como justificados os receios de Ricardina, quanto ao opróbrio cominado pela sociedade ao filho de um suposto assassino dos dois lentes de Coimbra.

- Quando deixaremos de chorar, Ricardina?
- Só não choram os que morrem... - respondeu ela.


Só nestes excertos de O Retrato de Ricardina vivificam-se as seguintes palavras: abacial, alcova,arrebol,aura, dllúculo,labutar, lhaneza, liniamento, lucilar, minudenciosa, opróbrio, pundonor, rópia, serpe, soledade, trilo...


Hoy tengo casi todas las palabras.
Pero me faltan casi todas.
Cada vez me faltan más.
Apenas si puedo unir estas que escribo
para decir el resto de ternura
y el hueco de temor
que se esconden en la ausencia de todo,
en la creciente ausencia
que no pide palabras.
O pide tal vez una:
la única palabra que no tengo
y sin embargo no me falta.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Deuses e semideuses...

Não morrem jovens todos a que os Deuses amam... é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.



Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses...

Não consentem os deuses mais que a vida.Tudo pois refusemos que nos alce a irrespiráveis píncaros, perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes ...duremos

Da nossa semelhança com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas... Altivamente donos de nós-mesmos, Usemos a existência ... Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos

Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.

Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem.

Um alto pinheiro é mais frequentemente pelos ventos fustigado, as excelsas torres de mais alto caem, e os raios ferem os montes mais elevados.

Tantas vezes ensinou esta lição. Tantas vezes, em latim e em português, repetiu estes versos, perante alunos, ora incrédulos , ora fascinados, por este estranho ideal de vida, por este epicurismo profundamente triste, mas sereno, apaziguador...Para quê?

Desculpa se te fiz fogo e noite Sem pedir autorização por escrito Ao sindicato dos deuses...Mas não fui eu que te escolhi. Desculpa se te usei Como refúgio dos meus sentidos Pedaço de silêncios perdidos Que voltei a encontrar em ti..






Era talvez preciso que alguém repetisse o gesto de Platão e inventasse um lugar às portas da cidade, chamado Academia, onde, quem quisesse pensar em paz, se pudesse instalar para parar e pensar em silêncio. Um afastamento eremita desta violência psicológica que vai desgastando sem parar a pouca saúde psicológica e física que resta. Não fugir do mundo, mas fugir desta "descrição do mundo" com a qual nos querem convencer à força de que "é o único possível". Não é o único possível; mas é o único que tem meios devastadores para tentar fazer-nos acreditar que é o único possível e assim nos poderá vencer pelo cansaço ou pelo enlouquecimento.

Habituava-me a tudo, ou seja, não me habituava, mas, não sei, acho que aceitava de boa mente aguentar. E tinha uma saída para trazer de volta a paz, era refugiar-me no "belo e sublime", em sonho,evidentemente. Eu sonhava terrivelmente e, acreditai em mim, nesses momentos eu(...)num repente virava herói.(...) Vivia instantes de uma plenitude tão jubilosa, de uma felicidade tão profunda que nem sequer sentia, juro-vos, o mínimo sarcasmo. Enquanto a nova academia não é fundada...

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu E Homero fez florir o roxo sobre o mar O Kouros avançou um passo exactamente A palidez de Athena cintilou no dia Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos E para o fundo do seu império recuaram os Persas Celebrámos a vitória: a treva Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos O grito rouco do coro purificou a cidade Como golfinhos a alegria rápida Rodeava os navios O nosso corpo estava nu porque encontrara A sua medida exacta Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz O mundo era mais nosso cada dia Mas eis que se apagaram Os antigos deuses sol interior das coisas Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: «Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa A água que fala calou-se»
Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.


Não me amaram os deuses... Pelo menos podiam -me ofertar as únicas coisas que verdadeiramente me faltam: sensatez e lucidez para ver a realidade e viver de acordo com ela.


É importante que você fique a saber que eu pensava já ter o suficiente! ...setecentas,oitocentas páginas...ia reler tudo...mandar passar à máquina...e adiante!...e os editores? ...desses devemos ter ainda mais medo! a mesma mentalidade,mas em versão de monstros! ...e depois têm todos os vícios! e dependemos totalmente deles!...acrobatas da roubalheira! as suas intrujices são terríveis e armadas com precisão! tão perfeitamente urdidas que você acabaria num asilo de doidos com muitos coletes-de-forças,se tentasse descobri-las! ou cheirá-las!...e de muito longe!...a maneira como eles actuam!...e você é o ingrato que lhes deve tudo!...a si eles não lhe devem nada! ...eles,nos seus automóveis cada vez maiores,talvez o levassem atrás,andrajoso, e de língua no chão.

A cabeça é uma espécie de fábrica que não funciona exactamente como nós queremos...veja só...milhões e milhões de neurónios...um mistério absoluto...você está bem arranjado! neurónios entregues a si próprios! ao mínimo ataque, a sua cabeça dispara em todas as direções,você já não agarra uma ideia ...sente-se envergonhado...Queria-lhe contar uma coisa...mas perdi-me...não encontro nada! a minha cabeça anda à roda...oh!...mas espere...já me vou lembrar...você e o meu castelo ...e a minha cabeça! ...espere...espere...lembro-me de uma palavra...

Era um homem interessante... Céline tem razão: um médico, para ter sucesso e um quase estatuto de semideus, tem de ter aparência cativante e sinais exteriores de riqueza - Era um homem,de meia idade, bonito, com uns jeans de marca...Olhou para ela , com ar amável, e disse , com um sentido de humor que a divertiu: " a senhora está muito bem conservada.... por fora..." Ela riu-se...O diálogo prossegiu sem referentes desnecessários: " Sabe o que tem?" "Sei..."; Sabe que?..." Sei..."; "As estatisticas dizem ..."; " Evite, por favor, exlicações numéricas. Odeio estatísticas..."; "Volta cá em maio?" " Com todo o prazer...se...";" Gostei de a conhecer..." " Apesar das circunstâncias... eu também..." ; Fique com o meu telemóvel, se precisar..." "Obrigada" ... Despediram-se com um abraço, como se fossem amigos de longa data...Nesse dia à noite , sonhou com ele, a presidir ao concílio dos deuses no Olimpo...

Já me esquecia de lhe dizer! ...sou médico...a clientela médica, e isto que fique entre nós,em confidência,não é apenas uma questão de ciência e de consciência...mas sim,em primeiro lugar,e acima de tudo, de encanto pessoal... encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!…

Uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!

Se eu fosse curandeiro, as coisas correriam bem...seria uma solução...e nada tonta...faria do meu consultório a meio da rue Bellevue, um lugar de " reactivação" de velhos! ...uma espécie de santuário de Lourdes new-look...está a ver? ...mas há um problema ...eu não passo de um médico vulgar...tenho tempo para meditar, pensar, repensar...reflectir sobre o que mais me prejudica? ...o meu fato talvez? os meus sapatos? andar de chinelos? ...os meus cabelos? ...estou convencido de que o pior é não ter criada ...ah, e ainda pior do que tudo " ele escreve livros"...eles não os lêem, mas sabem... sou eu que faço as compras...é isso que desacredita uma pessoa!...também despejo o lixo! eu próprio! levo o caixote do lixo até à entrada! ...Imagine!
Vergonha é ser-se pobre...essa é a única vergonha!...olhe para mim, sem carro, médico apeado! o que é que eu pareço? ...a utilidade de um médico, mesmo que muito imbecil, é um telefonema, e ele vem logo...
" traidor, médico clandestino, pró-estaline, pornógrafo, bêbado..." mas talvez ainda mais o que me prejudica:" Sabe, ele não tem automóvel!" Um médico a pé? você merece tudo o que dizem de si!...não tem automóvel? o descaramento deste tolo!...charlatão perigoso, está mesmo a pedir que o enforquem!...a calçada, o passeio, é para os vádios!...para as mulheres da vida!...ir ver um doente a pé? ...é um insulto! o doente corre consigo!...depois queixe-se. (...) o doente consciente dos seus direitos, benificiário da segurança social,sindicalizado,leitor de três,quatro,cinco jornais, primo de duzentos,trezentos milionários, está muito seguro de si...Ainda por cima ...o cúmulo!... o cerne da questão! ...as compras!...vêem-me com os meus dois sacos de rede! ...um para os ossos...outro para os legumes...sobretudo cenouras!

O que eu gostava era de ver Luís XIV com um cartão da Segurança Social! ...ele ia ver se o Estado era ele..

Ah! não são só os meus crimes! ...também há, e talvez, mais importante, a maneira como me visto ...acham que eu não ando bem arranjado? ...se eles se vissem como eu os vejo a eles! uma explosão atómica!...lufadas de neutrões! ...o horror da fealdade! ...cabeças! almas! cus! ...sim!...sim!...ah! a Srª Niçois!...

Não vou tomar decisões com febre...Oh!eu tinha decidido que nunca mais escrevia...só a palavra "escrever" sempre me pareceu indecente!...pretensiosa, narcisista," tu-já-me-leste?"...esta é a verdadeira razão do meu constrangimento...a única!...não sou candidato ao Panteão! os vermezinhos mais valiosos! os glutões de Souffot!...não!...não é a vaidade que me atormenta...é o gás,as cenouras,as tostas? (...) Quando se chega aos trinta e nove graus, vâe-se tudo! ...A febre tem de servir para alguma coisa!...nunca me esqueço de nada!..nunca é a minha natureza!... Agora com a febre a descer...mais baixa...deixo de disparatar...delírio? ...delírio?...nada disso reflexão!...

Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!

...noventa e seis anoa,mãe de um ministro...a minha doente mais velha...belo espírito! sagacidade! memória!Christine de Pisant! Loise Labé! ...Marcéline! ela recitava-me tudo,tudo. eu gostava tanto dela!
"Sozinha fiquei! Sozinha estou!" Como ela tinha razão!



Eu protesto de mais?...nada disso! ...as minhas ideias racistas não têm nada a ver com o assunto! hipócritas! ...Há muito que ela não existe , a raça branca(...) ...nada disso é importante!...o que me prejudicou grandemente foi a " Viagem" ...os ódios assanhados contra mim surgiram por causa da " Viagem" ...ninguém me perdoou a " Viagem" ...desde a " Viagem", tenho pago um preço bem alto! ...ainda se eu me chamasse Vlazine ...Vlazine Progrogrof...e tivesse nascido em Tarnopol, à beira do Don...mas em Courbevoise Seine! ...se tivesse nascido em Tarnopol, há muito que teria ganho o Nobel!...mas sendo eu daqui, e nem sequer sefardita! ...não sabem onde me meter! ... onde me fazer desaparecer mais depressa! vergonha das vergonhas!...em que alçapão? a que ratazanas suplicar? a " Vrunza para os Vrunzeses"!...

Olhou à sua volta: livros, livros, muitos livros. Está submersa num mar de livros. É estranho chegar ao fim da viagem e pensar que só os livros valeram a pena...

A menos que se tenha muito dinheiro, não vale a pena ser uma pessoa encantadora. O sentimentalismo é privilégio dos ricos, não é profissão para desempregados. Os pobres devem ser práticos e prosaicos. Antes ter um bom rendimento do que ser insinuante.

Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)




A abertura da peça surpreende, intriga, perturba. Sob um sol inclemente, Winnie, enterrada até à cintura, comporta-se como se a sua condição fosse a coisa mais natural do mundo, respondendo à cruel estranheza da sua circunstância com um discurso falsamente otimista e hábitos ritualizados.
A sombrinha que me deste. naquele dia.(Pausa.). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa.) Qual dia? (Pausa.) Quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita.)
Winnie passa o tempo a contar histórias para si própria, dolorosamente consciente da sua situação física, mas não do seu absurdo. É nessa inconsciência que reside a sua força. Ela reconstrói-se com uma graça e tenacidade invulgares, superando o sentimento crescente de incapacidade, com a ilusão de que ainda se vai reencontrar com Willie...

Dois vultos, protagonistas de uma inexplicada história de amor, são os únicos seres humanos. Estão à mercê de uma campainha, espécie de deus ex-machina... Nunca ninguém construiu , de modo tão perfeito, a espera. Nunca ninguém escreveu, com tanta ternura, sobre a condição de quem espera... Persistir é a felicidade possível.
Oh, que dia feliz terá sido este! Mais um! Apesar de tudo. Até agora.

Winnie sem pernas, Winnie sem braços nem seios, é visitada por Willie e, finalmente, canta a sua canção: Tua mão está fria/ E tem tanto tremor / Ela não tremia / Sem o teu amor./ Mas se me desdouro/ Em me declarar, tendo tu tanto ouro/ Não te devo amar.

( Pausa.Expressão feliz. Fecha os olhos.Toque estridente da campainha. Abre imediatamente os olhos. Sorri,olhando em frente.Olha à direita , na direção de Willie, que continua de gatas, o rosto levantado para ela. Fim do sorriso. Olham-se um ao outro. Longa pausa.)
Cai o pano.

I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can be heroes, just for one day We can be us, just for one day We can be heroes Just for one day...





Prometeu incorre no pecado da hybris, ultrapassa os limites da justa medida, como lhe faz notar Vulcano, quando o agrilhoa. Esta voluntária hamartia, gerada por um desmesurado amor, perpretou-a Prometeu com plena consciência, até mesmo com presciência - ou não significasse o seu nome "o Previdente": Mas eu sabia tudo isto. Cometi este erro por querer, por querer - não o negarei.
Como castigo da sua insolência, Zeus ordenou ao deus Vulcano que acorrentasse Prometeu no topo do monte Cáucaso durante trinta mil anos. O castigo era ser devorado aos poucos por uma águia que todos os dias lhe comia um pouco do fígado, o qual se regenerava logo de seguida porque Prometeu era um semideus...

Admiro os viciados. Num mundo em que está toda a gente à espera de uma catástrofe total e aleatória ou de uma doença súbita qualquer, o viciado tem o conforto de saber aquilo que quase de certeza estará à sua espera ao virar da esquina. Adquiriu algum controlo sobre o seu destino final e o vício faz com que a causa da sua morte não seja uma completa surpresa.
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactiva. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é como planear a fuga.


Quero dizer, num mundo sem Deus, as mães não são os novos deuses? A última posição inexpugnável e sagrada. Não é a maternidade o último milagre mágico e perfeito? Mas um milagre que é impossível para os homens. E talvez os homens digam que estão contentes por não darem à luz, todo aquele sofrimento e todo aquele sangue, mas na verdade não passam de uvas verdes. É óbvio que o homem não é capaz de fazer nada tão incrível. Força de braços, pensamento abstracto, falos, quaisquer outras vantagens que os homens pareçam ter são coisas muito insignificantes.
Nem sequer podes martelar um prego com um falo. As mulheres já nascem tão adiantadas em termos de capacidades. No dia em que os homens conseguirem dar à luz, nessa altura é que podemos começar a falar em igualdade de direitos.