Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Words, palavras....

In a Manner of speaking I just want to say That I could never forget the way You told me everything By saying nothing In a manner of speaking I don't understand How love in silence becomes reprimand But the way that i feel about you Is beyond words Oh give me the words Give me the words That tell me nothing Ohohohoh give me the words Give me the words That tell me everything In a manner of speaking Semantics won't do In this life that we live we only make do And the way that we feel Might have to be sacrified So in a manner of speaking I just want to say That just like you I should find a way To tell you everything By saying nothing.



Words! Mere words! How terrible they were! How clear, and vivid, and cruel! One could not escape from them. And yet what a subtle magic there was in them! They seemed to be able to give a plastic form to formless things, and to have a music of their own as sweet as that of viol or of lute. Mere words! Was there anything so real as words?

Where are the words To speak this thing in me To tell the words You’ll wanna hear....


I want to tell you my head is filled with things to say. When you're here All those words they seem to slip away...It's only words and words are all I have...I hear voices insinuating Feeds me words to this song that I am saying


Em ciência de computação, uma instrução é uma operação única, executada por um processador e definida por um conjunto de instruções. Num sentido amplo, uma "instrução" pode ser qualquer representação de um elemento num programa executável...

Li, não sei onde, uma ideia não original nem genial de que todos devíamos vir com manual de intruções...Dava-me jeito: há pessoas e situações tão enigmáticas que um processador tornaria a vida mais executável...A vida devia ser como as provas de exame e os manuais escolares: têm soluções,pelo menos para os professores...

É curiosa a palavra instrução: no plural, muda completamente de sentido, a instrução pode ser algo completamente diferente de as instruções: tenho instrução suficiente, mas precisa, e muito, de instruções... conheço muitas palavras, mas preciso de instruções para descobrir as que devo utilizar...

E, no seu pensamento vazio, surgem ,de forma caótica, palavras, aparentemente, desconexas: sorte, encenação, determinismo, música, morada, reino, laço, exílio, dúvidas, aforismos, baile, missa, romance, teste, viagem, escola, língua, império, corrupção, nosmeza, deus, loucura, sol, absurdo, biblioteca, conto, estrangeiro, sorriso, livro, fita, rio, novela, queda, sala, xadrez, opinião, sono, cadeira, novela, shana, papel, aforismo, teatro, jogo, destino, humor, infantilidade, escrita... Atordoam-me, insistentes, e o meu pensamento vazio mistura-se com o eco provocado por cada uma delas... Fica -me, pelo menos, a memória das palavras: elas não são lixo existencial, como tudo o resto...

estranhamente ali está a janela enorme aberta e posso ficar trancado no quarto toda a vida ou posso atirar-me da janela e morro assim a partir de um ponto alto e até posso gritar enquanto caio....

Saltar no vazio será preferível a um pensamento vazio?? prescindindo da linguagem, avanço para a docilidade como um belo animal mudo...Talvez desconstrua, reconstrua e construa as palavras...Talvez. Quem sabe?

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. (...) O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela. O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele. Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo. Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.



The words we shared dissolved as they’re spoken...


Toda a palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada...

Como não sou filósofa, como não sou prémio nobel, como sou culturalmente ninguém, ( Curioso, há uma certa profundidade na expressão popular do "zé ninguém"...as marias nem têm direito a ser ninguém, eu tenho: sou uma "maria ninguém") nunca serei entrevistada para dizer as minhas dez palavras preferidas. Vou, de qualquer modo, pensar nelas, mesmo que o mundo fique indiferente à minha escolha, uma escolha de ninguém.
Receio que algumas das minhas palavras estejam muito fora de moda: decoro, dignidade, ternura, deslumbramento, amor,confiança, mar, horizonte, planície e reino.

Fiquei(estou) indecisa relativamente à palavra abraço...É complexo destrinçar entre o gostar da palavra e valorizar esta forma de linguagem, para mim a mais reveladora do afeto humano.

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada que nada é tanto
E eu não me importo
Dá-me um abraço, fica por perto
Neste aperto, tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço


A alguém que nos ampara, nos aprova, por vezes nos combate; alguém que partilha connosco, com igual fervor, as alegrias da arte e as da vida, os seus trabalhos jamais aborrecidos e jamais fáceis; alguém que não é a nossa sombra, nem o nosso reflexo, nem mesmo o nosso complemento, mas ela própria; alguém que nos deixa divinamente livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos.

Experimentava junto a ti, um sentimento novo, de confiança e paz. Gostavas, tanto quanto eu , das longas caminhadas sem destino, através do campo, percorrendo caminhos que não levam a lugar algum. Aliás, não tinha necessidade de chegar a parte alguma. Bastava-me o facto de estar tranquila ao teu lado. A tua natureza pensativa combinava com o meu temperamento tímido. Calávamo -nos juntos. Em seguida,a tua voz grave, bonita e quase velada, a tua voz retemperada pelo silêncio, interrogava-me suavemente sobre a minha arte e sobre mim mesmo. Compreendi logo que sentias por mim uma espécie de ternura mesclada de compaixão. Eras bondosa. Conhecias o sofrimento por havê-lo curado ou minorado muitas vezes. Adivinhaste em mim um jovem doente, ou um jovem pobre. Eu era realmente tão pobre que nem sequer te amava. Em ti, via somente a doçura.

Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época. Começa-se devagar, com descrença, e vai-se andando encostado ao desespero até que as palavras visitem os sonhos e tomem conta deles. Primeiro uma vida, depois outras que a suportem e justifiquem. Vidas ao lado e vidas antigas, vidas que hão-de vir e outras que nunca chegaram a ser. Todas fazem falta, todas servem.

O não-dito ...correlaciona-se com o interdito, isto é, com o que não se deve dizer: toda a informação revelada a um destinatário que, até então, a desconhecia, obriga-o a refundir o conhecimento que este possuía sobre a realidade e sobre a sua relação com o outro. Assim, a comunicação pode implicar, paradoxalmente, ao mesmo tempo, reforço da união e separação.

Olhei para o espelho: uma superfície lisa ,brilhante, terrivelmente vazia,em branco.
Recordei o Ensaio sobre a Lucidez e Saramago...A urna estava vazia,imaculada, mas não havia na sala um só eleitor,um único para amostra,a quem pudesse ser exibida. Acabara de encontrar a metáfora perfeita: a minha alma é uma urna vazia,imaculada, em que não existe uma única imagem...De livro em livro, por uma curiosa associação, foi ter ao Coração Tão Branco de Javier Marías.
(Já só sei pensar através de livros, desprezo a capacidade de raciocínio desligada do que leio. Há muito que perdi a alma, algures, por aí... Pensei que a tinha reencontrado, mas foi uma ilusão e aqui estou, agora, ausente de mim, entre duas obras que têm em comum a ausência de votos e a ausência de palavras. O poder do voto e o poder das palavras, o significado do não voto e o significado das não palavras.)

Como descobrir se uma ausência de palavras é inação ou ação, um agir com um significado que tem de ser interpretado? Deixo a primeira questão para os sociólogos... O não-dito identifica-se, por vezes, com o interdito, com o que não se deve dizer. Como saber se um não dito é, afinal, um interdito? Só há uma certeza: a palavra obriga-nos a refundir a relação com o outro e, paradoxalmente, a comunicação pode implicar , ao mesmo tempo, reforço de união ou uma separação.
Há, ainda, que ter em conta o segredo que remete para um não-dito cujo conteúdo é demasiado trágico para que possa ser revelado. Será que o segredo e o interdito podem coincidir? Dizemos, até, sem dizer...?

Nenhuma voz me atinge por destino dela, e nenhuma me procura ansiosa... a mais formosa é sempre aquela que eu encontro agora,apenas porque a encontro e por mais nada.
Será que o acaso é acaso?
Se a sua voz prendesse tudo o que foge e ela te pudesse contar tudo o que não sabes, tudo o que ainda não tem nome... Se recordasse o som da tua voz, conheceria melhor a melodia do teu ritmo frásico...
Não teNHO voz ativa , sou um verbo intransitivo: sou amada, sou idealizada, sou atraiçoada. O que é SOU só se completa com um particípio passado. Nunca fui capaz de ser, limitei-me a existir como um mero jogo de palavras.

E agora?

A palavra e o silêncio determinam a vida de todo o ser humano: não há palavras inocentes, nenhum coração é tão branco que não possua culpa... Ter de admitir que o engano é a nossa condição natural “não devia magoar-nos tanto.”
Quando uma pessoa morre o que se esquece primeiro: a voz; o cheiro; o sorriso; as frases? Guardamos dentro de nós as palavras ou os silêncios?


El oficio de la palabra
es la posibilidad de que el mundo diga al mundo,
la posibilidad de que el mundo diga al hombre.


As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se possa crer. A maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço nunca tocado por nenhuma palavra.

Do (mal)dito ao (não)dito...
Gosto de palavras, gosto de construir um mundo de palavras, um reino onde a perfeição não é quimera ...gosto de jogos de palavras, gosto de sentir que as palavras gostam de mim... Às vezes, nem sei o que fazer com elas, surgem , ansiosas e frenéticas, a atropelarem-se -me, na cabeça, num redemoinho assustador, desordenadas, caóticas,(mal)ditas... Outras vezes, desaparecem, e, então, experimento um vazio inexplicável, sinto-me muda, como se o pensamento fluísse sem suporte verbal: penso, sei que penso, sei o que estou a pensar, mas não consigo verbalizar. Invade-me a angústia do (não)dito... (Prefire as palavras (mal)ditas..)

Devia haver um estabelecimento onde se vendessem vocábulos para as diferentes situações. Sei que existe uma coisa chamada dicionário e que outras obras da Classe 0 (CDU) poderiam desempenhar esta função, mas não me apetece consultá-las...
O que eu queria era ir a uma loja, daquelas que passam fatura e tudo, para comprar palavras, muitas palavras e, com elas, fazer frases bonitas que conseguissem exprimir o indizível... Palavras que, no entanto, não se pudessem ouvir:daquelas que só se sentem e te fazem sorrir...


Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me teem feito chorar.

Sempre tive tendência para sentimentos inexprimíveis...Será que as palavras que os traduzem ainda não foram inventadas? Será que eu sinto fora do paradigma linguístico? Percorro, com ansiedade, o dicionário, de A a Z, à procura de um conjunto de sons ou de grafemas que me ajudem a exteriorizar o que perceciono. Talvez a verbalização me permitisse compreender. Se compreendesse, aceitaria. Não encontrando a palavra, não consigo reagir...Tenho medo de sufocar com a quantidade de letras e de sílabas que se acumulam dentro de mim, inutilmente, pois nenhuma me serve.Combino-as de diferentes modos e nada: nem significante nem significado. Tudo tem que ter um nome, eu quero que tenha, eu quero...

Como estou sem palavras (Que ambiguidade interessante), resolvi dedicar-me à análise sintática. Em escrevo-te, por exemplo, qual a função sintática de "te"? Complemento indireto? Pode ser que sim, mas pode ser que não- se ela não escrever para ti, se não te enviar nenhuma carta ou mensagem. "Te" poderá ser o complemento direto, se o tu for o próprio conteúdo daquilo que escreve
De qualquer modo, como não tenho palavras, não posso escrever para ti, não te posso escrever nem escrever sobre ti, portanto, nem vale a pena perder tempo a pensar nisto. Aliás, mesmo que reencontrasse as palavras, escrever-te seria um ato falhado pois tu nunca me lerias. Se tu não me lês, eu não te escrevo, seja qual for a função sintática de "te"...

Resolvi começar a registar, mesmo de modo desordenado, palavras que considero bonitas...A primeira é Margarida ( Como gostava de me chamar Margarida!! Se me chamasse Margarida, até o álvaro de campos me dedicaria um poema... Ai, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que farias tu com ela? (...) Mas, Margarida, Se este dar-te a minha vida Não fosse senão poesia? Comunicado pelo Engenheiro Naval, Sr. Álvaro de Campos, em estado de inconsciência alcoólica.
( Pensei-te e escrevi...)

Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
lá estou eu a inventar o céu aos pedaços, consegues ver a nossa manta lá em cima cá em baixo as nossas vidas a polpa das mão onde repousam linhas inteiras à espera de nascer

What though the radiance which was once so bright Be now for ever taken from my sight, Though nothing can bring back the hour Of splendor in the grass,of glory in the flower,We will grieve not, rather find Strenght in what remains behind;In the primal sympathy Which having been must ever be;In the soothing thoughts that spring Out of human suffering;In the faith that looks through death,In years that bring the philosophic mind.



Entrei no café com um rio na algibeira e pu-lo no chão... A seguir, tirei do bolso do colete nuvens e estrelas... Depois, encostado à mesa, tirei da boca um pássaro a cantar... E agora aqui estou a ouvir A melodia sem contorno Deste acaso de existir - onde só procuro a Beleza para me iludir dum destino.
Eu , uma mera fazedora de frases corretas, mas sem jeito, com emoçõezinhas risíveis...Reduzir-me-ei ao que nunca devia ter deixado de ser :coladora de textos e de músicas alheias... O melhor é ir de férias por um tempo.... Fazia-me bem um ano de férias: de mim, da vida, de tudo...


Please!
I take it all back! Everything.
I take it all back!
Every word!
I love you!




Como nasce o amor? Apenas sabemos como ele morre...

Se me deixasses ser O sítio onde podes voltar...


Saudades de camilo, da sua capacidade de palavrar: da lhaneza da sua linguagem, da erudição clássica, do romantismo, de vocábulos que jazem mortos nos dicionários. Dicionários, esses cemitérios de palavras, depósitos de objetos inúteis, desprezados porque ninguém os ama, ninguém os usa...

A quem ler - Esta novela parece querer demonstrar que sucedem casos incríveis. O autor conheceu algumas personagens e soube como se passaram as coisas aqui referidas. Pois, assim mesmo, tão incongruentes lhe pareceram que ficou muito tempo indeciso se lhe seria melhor inventá-las para saírem mais verossímeis do que as verdadeiras. A consciência gritou-lhe quando o romance estava já urdido e enredado com outro feitio. Venceu a verdade, onde já agora, e tão-somente, lhe é permitido vencer: — nas novelas.

O abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu, pecara na juventude. Coisa rara, senão singular, em abades. A serpe tentadora fizera-lhe o salto do pescoço de uma bela mulher, onde a mensageira do Averno se enroscara.
Era também gentil o presbítero. Bem pode ser que as línguas farpadas de duas serpentes se encontrassem na remetida, mutuando-se a tentação. Se a cúmplice do seu delito não estivesse desvairada dos mesmos filtros, é crível que fugisse da casa solarenga dos seus pais para a residência abacial do padre Leonardo Botelho de Queirós? Responda a dignidade e o pudor de quem lê.

Foram chamadas Eugénia e Ricardina. Luís pedia a primeira, que era morena, olhos negros e vivos, alta e nervosa, altiva e risonha. Carlos pedia a segunda, que era alva, olhos sonhadores e estáticos, compleição linfática, estatura mediana, ar melancólico e pudico, um certo quebranto que a poetas daria mais inspirações que a outra.

Ricardina era a mais doce alma que os anjos compuseram da graça e formosura do Céu. Tinha ela 13 anos quando saiu com o seguinte lance de extremada bondade. Norberto Calvo era um criado do seu pai, o seu braço direito nas lutas com os fregueses por causa das freguesas, um valentão “de rópia e chulice”, como lá dizem.

Isto não vai de afogadilho. Ricardina tem trinta dias para pensar e repensar. Em todo o caso, a questão reduz-se a uma de duas: casar com o primo Carlos, ou ser freira. Uma observação: daqui até que ela se resolva, nesta casa não entra pessoa estranha. Hei de ter boas espias... Carta que eu apanhe, entra em buchas no corpo de quem a cá mandar.

As duas meninas tinham dispensa de ouvir a cristianíssima alegação jurídica do monge. Pelo ordinário, assim que tomavam o chá, recolhiam-se à sua alcova, onde esperavam o sono, que facilmente as favorecia aligeirando-lhes os aborrecimentos da solidão.Naquela noite, porém, Eugénia, sobrexcitada por comoções de noiva, e Ricardina por saudades exacerbadas pela desesperança, não podiam
adormecer. Uma chorava, a outra queria consolar; mas espremia fel em vez de linimento na chaga, quando dissuadia a irmã de amar Bernardo e lhe figurava as delícias de ir com ela para uma vida mais alegre, casada com o primo Carlos.
— Não me digas isso, que não sou tua amiga! — segredava-lhe Ricardina,receosa de ser escutada. — Quero ser freira, e morrer antes de faltar à minha palavra. Amar outro homem não me é possível. Hei de esquecer o Bernardo só quando morrer.


Da vida anterior do académico já D. Clementina Pimentel referiu o principal. O seu pai tinha oito filhos, e colhia escasso pão com que lhes pagasse o incessante labutar nos campos. Enviara três ao Brasil, onde tinha um irmão solteiro e sovina. Arranjara dois no Porto em trato de caixeiros. Mandou, com poucos recursos, Bernardo a Lisboa aprender pintura. Escolheu o mais robusto para o ajudar na lavoura, e a filha para a casar com um dote de duzentos mil réis, quando aparecesse um rapaz videiro, que tivesse do seu algumas leiras.

Bernardo Moniz, avisado pelo pai, largou a custo os pincéis. A pintura deralhe pábulo ao devanear do espírito, por esferas mais altas e lúcidas que a do seu nascimento. Era a sua poesia e brasão. A soledade falava-lhe. O céu, as árvores, os ribeiros, os horizontes, o dilúculo da manhã e o arrebol da noite entendiam-no, davam-lhe em troca do amor as suavidades da contemplação. O jovem, às vezes, na praia de Belém, voltado ao mar, ou na quinta de Belas, emboscado nas ramagens, chorava; mas a soledade enviava-lhe as carícias das suas auras, o trilo das suas aves, e o acre balsâmico das suas moutas. E, depois, o pintor, à luz da noite, e nas madrugadas convidativas da inspiração, espelhava o coração na tela, reproduzindo quase sempre as poucas variantes do mesmo motivo

Como nasceu o amor de Ricardina ao antigo ovelheiro, que lhe lucilava ainda nas memórias da infância? A pergunta é, sobre ociosa, estólida. Como nasce o amor? Apenas sabemos como ele morre.

O abade de Espinho, vencido o impulso de ir em pessoa a Coimbra, sem ter sobre o certo o destino da filha, pediu à justiça de Viseu providências e ordens de captura para o académico Bernardo Moniz, raptor de Ricardina Pimentel. O corregedor duvidou passar mandados de prisão sem certeza de ser réu aquele que o autor não indiciava com provas sequer diminutas.

Às primeiras alvoradas do seguinte dia, após quatro horas de prática entre as duas senhoras e Alexandre, o filho de Bernardo Moniz sabia o nome do seu pai, e a minudenciosa história de Ricardina, desde os 18 anos. O dissabor de ter sido inutilmente enganado pela sua mãe era grande e até certo ponto justo; não obstante, o respeito filial aconselhou-o a dar como justificados os receios de Ricardina, quanto ao opróbrio cominado pela sociedade ao filho de um suposto assassino dos dois lentes de Coimbra.

- Quando deixaremos de chorar, Ricardina?
- Só não choram os que morrem... - respondeu ela.


Só nestes excertos de O Retrato de Ricardina vivificam-se as seguintes palavras: abacial, alcova,arrebol,aura, dllúculo,labutar, lhaneza, liniamento, lucilar, minudenciosa, opróbrio, pundonor, rópia, serpe, soledade, trilo...


Hoy tengo casi todas las palabras.
Pero me faltan casi todas.
Cada vez me faltan más.
Apenas si puedo unir estas que escribo
para decir el resto de ternura
y el hueco de temor
que se esconden en la ausencia de todo,
en la creciente ausencia
que no pide palabras.
O pide tal vez una:
la única palabra que no tengo
y sin embargo no me falta.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Sísifos e avessos...

Ante scriptum: absurdos...

Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos.

A mania do absurdo e do paradoxo é o "animal spirits" dos tristes. Como o homem normal, diz disparates por vitalidade, e por sangue dá palmadas nas costas de outros, os incapazes de entusiasmo e de alegria dão cambalhotas na inteligência, a seu frio modo fazem os gestos quentes da vida.

Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas (...) — o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar do tédio àquele estado de alma em que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos — não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é (o) divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas — agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam — talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo. Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.



Sísifo é o mais astuto dos mortais e também o menos escrupuloso. Era filho de Éolo\( ...)A lenda de Sísifo abrange vários episódios, sendo cada um deles a história de uma astúcia.Uma das versões do mito, a mais divulgada, diz que Zeus o precipitou nos infernos, onde lhe impôs como castigo que fizesse rolar eternamente um enorme rochedo na subida de uma vertente. Mal o rochedo atingia o cimo, voltava a cair, mercê do seu próprio peso e o trabalho tinha de recomeçar.



Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa.
Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
conseguiu levá-la até ao cume do monte; mas, quando ia
a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir,
e rolava para a superfície a pedra sem vergonha.
Ele esforçava-se de novo para a empurrar: dos seus membros
escorria o suor; e poeira da sua cabeça se elevava.



Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.


Sísifo

Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres,Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.




A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador, nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida, sem um amigo prudente a quem pedir conselho quando algo nos perturba mais do que o normal de todos os dias, Eu, triste, o que se chama propriamente triste, senhor, não creio que o seja, respondeu o Sr. José, talvez a minha natureza seja um pouco melancólica, mas isso não é defeito, e quanto às tentações, bom, há que dizer que nem a idade nem a situação me inclinam a elas, quer dizer, nem eu as procuro nem elas me procuram a mim, E os erros, Está a referir-se, senhor, aos erros do serviço, Estou a referir-me aos erros em geral, os erros do serviço, mais tarde ou mais cedo, o serviço os fez, o serviço os resolve…



(o homem sozinho)
Um escadote que é um labirinto.
Começamos a subir e sem saber como: acabamos a descer.
É o caminho do bem-estar,disseram-me ; e eu comecei a subir.
Ninguém para me tirar daqui.





Sinopses sisíficas...

A Trilogia do Sísifo é composta por Gnaisse, um romance sobre a paixão, Por Mão Própria, um romance sobre a perda, e por Sísifo, um romance sobre a iniciação.

Um professor está apaixonado por uma aluna que gosta de Nietzsche, de bonsais e de garrafas de gás. A aluna desaparece subitamente.(...) O professor tem saudades da aluna. As saudades são tantas que, transtornado, vê a aluna em todo o lado: na pastelaria do bairro, na tela do cinema, nas sombras da sua própria varanda. Duas mortes ensombram, a certa altura, o percurso e o destino do professor. Tudo se altera de repente, como se a realidade relatada não passasse, afinal, de um truque de prestidigitação. A chegada inesperada da irmã do protagonista parece ser a chave que tudo irá solucionar. No entanto, os arrestos de bens e as penhoras aproximam-se. Mas é o fogo que acabará por devorar tudo, no preciso dia em que a casa é penhorada. Resistindo às hostilidades do mundo, o professor encontrará a sua antiga aluna ao rodar a manivela de uma caixa de música. Sob o pano de fundo da crise, Gnaisse ,como acontece entre os estratos das rochas metamórficas, é uma metáfora da repetição e do efémero que dá a ver a vida em processo – ou em frenesim – e não atada (num embrulho literário) com um lacinho.

Confessa o protagonista do romance Por Mão Própria que atravessou o inferno de um lado ao outro. Perdeu a irmã, a namorada, os pais, a madrasta, o cão, o patrão, a livreira, a psiquiatra e a mulher do seu melhor amigo que apareceu, um dia, deitada na linha do caminho-de-ferro. Para agravar as coisas, escutava dentro dos ouvidos uma gritaria de crianças que parecia querer humilhá-lo. Talvez por ser designer, encontrou o sentido da vida, primeiro no umbigo de uma chinesa e, depois, no magnífico sinal de uma recepcionista (que era um jardim circular feito de melanina para onde apetecia saltar e ficar a viver para sempre). Enfim, um pesadelo devorado entre a solidão das ruas e o afã apocalíptico das multidões. Seja como for, um pesadelo sonhado num sótão onde a graça e a ingenuidade do mundo terão, de algum modo, excedido o terror e o abismo.

Sísifo, a publicar em outubro.

No seu avesso dorme um desejo, um sentimento em branco, abstrato: deseja o desejo, mas não a sua concretização material. Gostaria de a sentir fisicamente, mas sem que tivesse de entregar o seu corpo. A ideia de acariciar e percorrer o seu corpo esguio agrada- lhe, talvez até o atraia, mas não admite ,sequer,a possibilidade de ser a sua mão a fazê-lo. Gostaria de sentir o prazer, fisicamente, através de um outro corpo, mas que, psicologicamente, essa emoção fosse sua...Esta certeza tranquilizou-o, mas não acalma o tumulto interior que o invade sempre a que a imagem dela se insinua e o penetra,lentamente, como um veneno que não mata, mas debilita e excita, de um modo estranhamente novo.

Os avessos do trágico em Samuel Beckett: "Eu, de quem nada sei, sei que tenho olhos abertos devido às lágrimas que caem sem cessar." Tudo termina e recomeça novamente. Podemos identificar uma estrutura dramatúrgica circular e ininterrupta, na qual não encontramos um início e um fim precisos, mas uma ação em constante andamento. Tal aspecto lega à cena beckettiana um universo específico onde os personagens não empreendem uma ação efetiva no tempo e no espaço, pois eles apenas estão esperando algo. Em uma visão desencantada de mundo, os personagens são retratados fi sicamente destroçados, como uma metáfora da própria consciência humana, que também apresenta-se desintegrada. Uma estética do precário, das lacunas, das ausências e, principalmente, dos silêncios afasta a possibilidade do homem se reconciliar com o mundo, em âmbito social, moral, econômico ou político. O conflito surge entre a realidade empírica e a realidade metafísica, e, nesta luta, o homem não se choca com o mundo, mas com a sua consciência.

Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo «infelizmente» porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar.
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!


As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia.


Os preconceitos que alimento sobre arte, a despeito de mim mesmo, impediram-me, durante muito tempo, de pensar na sua reedição.
Sei que a minha fonte está, em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo o artista: o ressentimento e a satisfação.(...) Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar o seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: em África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice. (...) Mas, depois de me questionar, pude constatar que, entre as minhas inúmeras fraquezas, jamais figurou o defeito mais difundido entre nós, quer dizer, a inveja, verdadeiro cancro das sociedades e das doutrinas.

Há mais amor verdadeiro nestas páginas do que em todas as que se seguiram.

A vida é curta e é pecado perder o seu tempo. Sou activo, diz-se. Mas ser activo é ainda perder o seu tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estreia, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como as gotas do mercúrio. Deixai, pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. (...) Posso dizer, e direi daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então, tudo aí se inclui, a humanidade e a simplicidade. E quando posso eu ser mais verdadeiro do que quando sou eu o mundo? Sou satisfeito antes de ter desejado. A eternidade está ali e eu esperava-a. Já não é ser feliz o que eu desejo agora, mas apenas ser consciente.
Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irónico. Eles dizem: «Isso mostra que não és bom.» Não vejo a relação. Decerto oiço dizer a uma delas que é imoralista, traduzo que ela tem necessidade de atribuir-se uma moral; a outra que despreza a inteligência, compreendo que ela não pode suportar as suas dúvidas. Mas porque eu não gosto que se faça batota. A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos para a luz como para a morte. Além disso, como explicar a ligação que leva deste amor devorador à vida a este desespero oculto? Se escuto a ironia escondida no fundo das coisas, ela descobre-se lentamente. Piscando o olho pequeno e claro: «Vive como se...», diz ela. Apesar de muitas pesquisas, aqui está toda a minha ciência
.

Não há amor de viver sem desespero de viver. Afinal, o sol aquece - nos os ossos, apesar de tudo...

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas porque eu não sou braço nem sou perna. Se eu tivesse a memória das pedras que logo entram em queda assim que se largam no espaço sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair; se eu tivesse a memória da luz que mal começa, na sua origem, logo se propaga, sem que nenhuma se esquecesse de propagar; os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram continentes, a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a Terra. Mas não esqueci tudo. Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; guardei a memória do infinito, daquele tempo sem tempo,origem de todos os tempos, em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. Tudo se passou defronte de partes de mim. E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam. Estão. E estarão.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Deuses e semideuses...

Não morrem jovens todos a que os Deuses amam... é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.



Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses...

Não consentem os deuses mais que a vida.Tudo pois refusemos que nos alce a irrespiráveis píncaros, perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes ...duremos

Da nossa semelhança com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas... Altivamente donos de nós-mesmos, Usemos a existência ... Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos

Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.

Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem.

Um alto pinheiro é mais frequentemente pelos ventos fustigado, as excelsas torres de mais alto caem, e os raios ferem os montes mais elevados.

Tantas vezes ensinou esta lição. Tantas vezes, em latim e em português, repetiu estes versos, perante alunos, ora incrédulos , ora fascinados, por este estranho ideal de vida, por este epicurismo profundamente triste, mas sereno, apaziguador...Para quê?

Desculpa se te fiz fogo e noite Sem pedir autorização por escrito Ao sindicato dos deuses...Mas não fui eu que te escolhi. Desculpa se te usei Como refúgio dos meus sentidos Pedaço de silêncios perdidos Que voltei a encontrar em ti..






Era talvez preciso que alguém repetisse o gesto de Platão e inventasse um lugar às portas da cidade, chamado Academia, onde, quem quisesse pensar em paz, se pudesse instalar para parar e pensar em silêncio. Um afastamento eremita desta violência psicológica que vai desgastando sem parar a pouca saúde psicológica e física que resta. Não fugir do mundo, mas fugir desta "descrição do mundo" com a qual nos querem convencer à força de que "é o único possível". Não é o único possível; mas é o único que tem meios devastadores para tentar fazer-nos acreditar que é o único possível e assim nos poderá vencer pelo cansaço ou pelo enlouquecimento.

Habituava-me a tudo, ou seja, não me habituava, mas, não sei, acho que aceitava de boa mente aguentar. E tinha uma saída para trazer de volta a paz, era refugiar-me no "belo e sublime", em sonho,evidentemente. Eu sonhava terrivelmente e, acreditai em mim, nesses momentos eu(...)num repente virava herói.(...) Vivia instantes de uma plenitude tão jubilosa, de uma felicidade tão profunda que nem sequer sentia, juro-vos, o mínimo sarcasmo. Enquanto a nova academia não é fundada...

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu E Homero fez florir o roxo sobre o mar O Kouros avançou um passo exactamente A palidez de Athena cintilou no dia Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos E para o fundo do seu império recuaram os Persas Celebrámos a vitória: a treva Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos O grito rouco do coro purificou a cidade Como golfinhos a alegria rápida Rodeava os navios O nosso corpo estava nu porque encontrara A sua medida exacta Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz O mundo era mais nosso cada dia Mas eis que se apagaram Os antigos deuses sol interior das coisas Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu: «Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa A água que fala calou-se»
Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.


Não me amaram os deuses... Pelo menos podiam -me ofertar as únicas coisas que verdadeiramente me faltam: sensatez e lucidez para ver a realidade e viver de acordo com ela.


É importante que você fique a saber que eu pensava já ter o suficiente! ...setecentas,oitocentas páginas...ia reler tudo...mandar passar à máquina...e adiante!...e os editores? ...desses devemos ter ainda mais medo! a mesma mentalidade,mas em versão de monstros! ...e depois têm todos os vícios! e dependemos totalmente deles!...acrobatas da roubalheira! as suas intrujices são terríveis e armadas com precisão! tão perfeitamente urdidas que você acabaria num asilo de doidos com muitos coletes-de-forças,se tentasse descobri-las! ou cheirá-las!...e de muito longe!...a maneira como eles actuam!...e você é o ingrato que lhes deve tudo!...a si eles não lhe devem nada! ...eles,nos seus automóveis cada vez maiores,talvez o levassem atrás,andrajoso, e de língua no chão.

A cabeça é uma espécie de fábrica que não funciona exactamente como nós queremos...veja só...milhões e milhões de neurónios...um mistério absoluto...você está bem arranjado! neurónios entregues a si próprios! ao mínimo ataque, a sua cabeça dispara em todas as direções,você já não agarra uma ideia ...sente-se envergonhado...Queria-lhe contar uma coisa...mas perdi-me...não encontro nada! a minha cabeça anda à roda...oh!...mas espere...já me vou lembrar...você e o meu castelo ...e a minha cabeça! ...espere...espere...lembro-me de uma palavra...

Era um homem interessante... Céline tem razão: um médico, para ter sucesso e um quase estatuto de semideus, tem de ter aparência cativante e sinais exteriores de riqueza - Era um homem,de meia idade, bonito, com uns jeans de marca...Olhou para ela , com ar amável, e disse , com um sentido de humor que a divertiu: " a senhora está muito bem conservada.... por fora..." Ela riu-se...O diálogo prossegiu sem referentes desnecessários: " Sabe o que tem?" "Sei..."; Sabe que?..." Sei..."; "As estatisticas dizem ..."; " Evite, por favor, exlicações numéricas. Odeio estatísticas..."; "Volta cá em maio?" " Com todo o prazer...se...";" Gostei de a conhecer..." " Apesar das circunstâncias... eu também..." ; Fique com o meu telemóvel, se precisar..." "Obrigada" ... Despediram-se com um abraço, como se fossem amigos de longa data...Nesse dia à noite , sonhou com ele, a presidir ao concílio dos deuses no Olimpo...

Já me esquecia de lhe dizer! ...sou médico...a clientela médica, e isto que fique entre nós,em confidência,não é apenas uma questão de ciência e de consciência...mas sim,em primeiro lugar,e acima de tudo, de encanto pessoal... encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!…

Uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!

Se eu fosse curandeiro, as coisas correriam bem...seria uma solução...e nada tonta...faria do meu consultório a meio da rue Bellevue, um lugar de " reactivação" de velhos! ...uma espécie de santuário de Lourdes new-look...está a ver? ...mas há um problema ...eu não passo de um médico vulgar...tenho tempo para meditar, pensar, repensar...reflectir sobre o que mais me prejudica? ...o meu fato talvez? os meus sapatos? andar de chinelos? ...os meus cabelos? ...estou convencido de que o pior é não ter criada ...ah, e ainda pior do que tudo " ele escreve livros"...eles não os lêem, mas sabem... sou eu que faço as compras...é isso que desacredita uma pessoa!...também despejo o lixo! eu próprio! levo o caixote do lixo até à entrada! ...Imagine!
Vergonha é ser-se pobre...essa é a única vergonha!...olhe para mim, sem carro, médico apeado! o que é que eu pareço? ...a utilidade de um médico, mesmo que muito imbecil, é um telefonema, e ele vem logo...
" traidor, médico clandestino, pró-estaline, pornógrafo, bêbado..." mas talvez ainda mais o que me prejudica:" Sabe, ele não tem automóvel!" Um médico a pé? você merece tudo o que dizem de si!...não tem automóvel? o descaramento deste tolo!...charlatão perigoso, está mesmo a pedir que o enforquem!...a calçada, o passeio, é para os vádios!...para as mulheres da vida!...ir ver um doente a pé? ...é um insulto! o doente corre consigo!...depois queixe-se. (...) o doente consciente dos seus direitos, benificiário da segurança social,sindicalizado,leitor de três,quatro,cinco jornais, primo de duzentos,trezentos milionários, está muito seguro de si...Ainda por cima ...o cúmulo!... o cerne da questão! ...as compras!...vêem-me com os meus dois sacos de rede! ...um para os ossos...outro para os legumes...sobretudo cenouras!

O que eu gostava era de ver Luís XIV com um cartão da Segurança Social! ...ele ia ver se o Estado era ele..

Ah! não são só os meus crimes! ...também há, e talvez, mais importante, a maneira como me visto ...acham que eu não ando bem arranjado? ...se eles se vissem como eu os vejo a eles! uma explosão atómica!...lufadas de neutrões! ...o horror da fealdade! ...cabeças! almas! cus! ...sim!...sim!...ah! a Srª Niçois!...

Não vou tomar decisões com febre...Oh!eu tinha decidido que nunca mais escrevia...só a palavra "escrever" sempre me pareceu indecente!...pretensiosa, narcisista," tu-já-me-leste?"...esta é a verdadeira razão do meu constrangimento...a única!...não sou candidato ao Panteão! os vermezinhos mais valiosos! os glutões de Souffot!...não!...não é a vaidade que me atormenta...é o gás,as cenouras,as tostas? (...) Quando se chega aos trinta e nove graus, vâe-se tudo! ...A febre tem de servir para alguma coisa!...nunca me esqueço de nada!..nunca é a minha natureza!... Agora com a febre a descer...mais baixa...deixo de disparatar...delírio? ...delírio?...nada disso reflexão!...

Há que dizer ...se eu pertencesse a uma Célula,a uma Sinagoga,a uma Loja, a um Partido, a uma Igreja, a uma Polícia...não interessa qual!... se tivesso saído das dobras de uma "Cortina de Ferro" qualquer ...de um Circo qualquer...tudo se resolveria! certo e sabido!...(...) Prémio Nobel e Grão Cruz garantidos! mesmo a cair da tripeça, a urinar-se, são " membros honorários", " símbololos partidários" ... está bem!...vale tudo ! a si tudo lhe é permitido a partir do momento em que o identificam como palhaço! pertence ao circo? ...não pertence? azar!

...noventa e seis anoa,mãe de um ministro...a minha doente mais velha...belo espírito! sagacidade! memória!Christine de Pisant! Loise Labé! ...Marcéline! ela recitava-me tudo,tudo. eu gostava tanto dela!
"Sozinha fiquei! Sozinha estou!" Como ela tinha razão!



Eu protesto de mais?...nada disso! ...as minhas ideias racistas não têm nada a ver com o assunto! hipócritas! ...Há muito que ela não existe , a raça branca(...) ...nada disso é importante!...o que me prejudicou grandemente foi a " Viagem" ...os ódios assanhados contra mim surgiram por causa da " Viagem" ...ninguém me perdoou a " Viagem" ...desde a " Viagem", tenho pago um preço bem alto! ...ainda se eu me chamasse Vlazine ...Vlazine Progrogrof...e tivesse nascido em Tarnopol, à beira do Don...mas em Courbevoise Seine! ...se tivesse nascido em Tarnopol, há muito que teria ganho o Nobel!...mas sendo eu daqui, e nem sequer sefardita! ...não sabem onde me meter! ... onde me fazer desaparecer mais depressa! vergonha das vergonhas!...em que alçapão? a que ratazanas suplicar? a " Vrunza para os Vrunzeses"!...

Olhou à sua volta: livros, livros, muitos livros. Está submersa num mar de livros. É estranho chegar ao fim da viagem e pensar que só os livros valeram a pena...

A menos que se tenha muito dinheiro, não vale a pena ser uma pessoa encantadora. O sentimentalismo é privilégio dos ricos, não é profissão para desempregados. Os pobres devem ser práticos e prosaicos. Antes ter um bom rendimento do que ser insinuante.

Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)




A abertura da peça surpreende, intriga, perturba. Sob um sol inclemente, Winnie, enterrada até à cintura, comporta-se como se a sua condição fosse a coisa mais natural do mundo, respondendo à cruel estranheza da sua circunstância com um discurso falsamente otimista e hábitos ritualizados.
A sombrinha que me deste. naquele dia.(Pausa.). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa.) Qual dia? (Pausa.) Quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita.)
Winnie passa o tempo a contar histórias para si própria, dolorosamente consciente da sua situação física, mas não do seu absurdo. É nessa inconsciência que reside a sua força. Ela reconstrói-se com uma graça e tenacidade invulgares, superando o sentimento crescente de incapacidade, com a ilusão de que ainda se vai reencontrar com Willie...

Dois vultos, protagonistas de uma inexplicada história de amor, são os únicos seres humanos. Estão à mercê de uma campainha, espécie de deus ex-machina... Nunca ninguém construiu , de modo tão perfeito, a espera. Nunca ninguém escreveu, com tanta ternura, sobre a condição de quem espera... Persistir é a felicidade possível.
Oh, que dia feliz terá sido este! Mais um! Apesar de tudo. Até agora.

Winnie sem pernas, Winnie sem braços nem seios, é visitada por Willie e, finalmente, canta a sua canção: Tua mão está fria/ E tem tanto tremor / Ela não tremia / Sem o teu amor./ Mas se me desdouro/ Em me declarar, tendo tu tanto ouro/ Não te devo amar.

( Pausa.Expressão feliz. Fecha os olhos.Toque estridente da campainha. Abre imediatamente os olhos. Sorri,olhando em frente.Olha à direita , na direção de Willie, que continua de gatas, o rosto levantado para ela. Fim do sorriso. Olham-se um ao outro. Longa pausa.)
Cai o pano.

I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can be heroes, just for one day We can be us, just for one day We can be heroes Just for one day...





Prometeu incorre no pecado da hybris, ultrapassa os limites da justa medida, como lhe faz notar Vulcano, quando o agrilhoa. Esta voluntária hamartia, gerada por um desmesurado amor, perpretou-a Prometeu com plena consciência, até mesmo com presciência - ou não significasse o seu nome "o Previdente": Mas eu sabia tudo isto. Cometi este erro por querer, por querer - não o negarei.
Como castigo da sua insolência, Zeus ordenou ao deus Vulcano que acorrentasse Prometeu no topo do monte Cáucaso durante trinta mil anos. O castigo era ser devorado aos poucos por uma águia que todos os dias lhe comia um pouco do fígado, o qual se regenerava logo de seguida porque Prometeu era um semideus...

Admiro os viciados. Num mundo em que está toda a gente à espera de uma catástrofe total e aleatória ou de uma doença súbita qualquer, o viciado tem o conforto de saber aquilo que quase de certeza estará à sua espera ao virar da esquina. Adquiriu algum controlo sobre o seu destino final e o vício faz com que a causa da sua morte não seja uma completa surpresa.
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactiva. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é como planear a fuga.


Quero dizer, num mundo sem Deus, as mães não são os novos deuses? A última posição inexpugnável e sagrada. Não é a maternidade o último milagre mágico e perfeito? Mas um milagre que é impossível para os homens. E talvez os homens digam que estão contentes por não darem à luz, todo aquele sofrimento e todo aquele sangue, mas na verdade não passam de uvas verdes. É óbvio que o homem não é capaz de fazer nada tão incrível. Força de braços, pensamento abstracto, falos, quaisquer outras vantagens que os homens pareçam ter são coisas muito insignificantes.
Nem sequer podes martelar um prego com um falo. As mulheres já nascem tão adiantadas em termos de capacidades. No dia em que os homens conseguirem dar à luz, nessa altura é que podemos começar a falar em igualdade de direitos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Gritos, surdina e sussurros...

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.


Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se ao menos esta dor sangrasse



Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


Ingmar Bergman afirmou que a origem do filme Gritos e Sussurros reside numa imagem que, durante meses, o perseguiu sem cessar e que, continuada e obstinadamente, via por toda a parte: três mulheres, todas vestidas de branco,falam ,umas com as outras, em surdina, movendo-se numa sala toda encarnada. Muitas obras complexas partiram de imagens tão simples como esta. Tudo se organiza,afinal, à volta de qualquer coisa que não se explica...



Perante a grandeza, é forçoso calarmo-nos. O silêncio é a única resposta possível, humana e nossa, ao som do violoncelo de Bach e à lágrima que corre dos olhos fechados de Harriet Andersson.

Em torno a nós poderão as outras almas erguerem-se os seus bairros sujos e pobres; marquemos nitidamente onde o nosso acaba e começa, e que desde a frontaria dos prédios até às alcovas das nossas timidezes, tudo seja fidalgo e sereno, esculpido numa sobriedade ou surdina de exibição. Saber encontrar a cada sensação o modo sereno de ela se realizar. Fazer o amor resumir-se apenas a uma sombra de ser sonho de amor, pálido e trémulo intervalo entre os cimos de duas pequenas ondas onde o luar bate. Tornar o desejo uma coisa inútil e inofensiva, no como que sorriso delicado da alma a sós consigo própria; fazer dela uma coisa que nunca pense em realizar-se nem em dizer-se. Ao ódio adormecê-lo como a uma serpente prisioneira, e dizer ao medo que dos seus gestos guarde apenas a agonia no olhar, e no olhar da nossa alma, única atitude compatível com ser eestética... Saber desejar em surdina...


Depois de quando deixei de pensar em depois
Minha vida tornou-se mais calma —
Isto é, menos vida.
Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.



Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram.
Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.


De que serve? O que é que tem que servir?
Pálido esboço leve
Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir...
Vago sussurro breve.


Os linguistas chamam a este fenómeno o Efeito de Lombard, assim designado por causa de Lombard,que concluiu ,no início do século XX,que os falantes aumentam o seu esforço vocal,num ambiente ruidoso,para lutarem contra a degradação da inteligibilidade das suas mensagens.Quando vários falantes exibem este reflexo em simultâneo tornam-se,como é óbvio, eles próprios a fonte de ruído desse mesmo ambiente,agravando gradualmente a sua intensidade.Para o indivíduo que,neste momento,está com a cara praticamente encostada ao peito da rapariga de blusa vermelha,tentando aproximar o ouvido direito da boca dela(...) "Lado" ou "lago"? " É um verdadeiro inferno" ou " o derradeiro inverno"?( ...) Estão a conversar,ou melhor, "ela" está a conversar,há já uns dez minutos e, por mais que ele se esforce,não consegue descobrir qual o tema da conversa.

Há palavras que causam muitos equívocos aos surdos, como por exemplo,... "beijo" e "queijo"... Pedir um beijo ou um queijo pode ser uma confusão embaraçosamente constrangedora ...

Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...Helahôhô.


Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer...

Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah! Cloé, Cloé,
Se não amo, nem bebo,
Nem sem querer não penso,
Pesa-me a lei inimplorável, dói-me
A hora invita, o tempo que não cessa,
E aos ouvidos me sobe
Dos juncos o ruído
Na oculta margem onde os lírios frios
Da ínfera leiva crescem, e a corrente
Não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.