Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sábado, 15 de setembro de 2018

Fracassos, Derrotas e Vitórias...

So today I wrote this song for you 'Cause a day can get so long And I know its hard to make it through When you say there's something wrong...




Durmo. Regresso ou espero?
Não sei. Um outro flui
Entre o que sou e o que quero
Entre o que sou e o que fui.


Eu não queria,nunca quereria,ver-me envolvido nesse fracasso.O meu desejo de aventura com Ivette era um desejo de subir às nuvens, de viver nas nuvens, de me afastar da vida que levava - do tédio, da tensão sem sentido, da situação do país. Não era um desejo de mera fácil fugir. E não me e envolver com pessoas que, como eu, estavam num beco sem saída.
Mas era isto que eu tinha agora. E não me era fácil fugir...O prazer nada resolvia; apenas desencadeava um novo vazio, uma nova carência, um novo desejo.


Júlio Dinis é uma vítima da troça nacional, num país que despreza, literariamente, os retratistas, sobretudo se oriundos do norte do país. O rótulo de eça , "Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve", serviu de fundamento , durante um século, ao menosprezo pela obra do autor de As pupilas do senhor reitor, A morgadinha dos canaviais e de Os fidalgos da casa mourisca, condenando-a a um severo ostracismo. Na verdade, Júlio Dinis é um dos melhores retratistas de Portugal no século XIX, como o comprova Uma família inglesa, romance que pinta o Porto como uma cidade dividida, romântica e em conflito,embora o narrador não resista aos finais felizes, à conciliação de classes, a um ideal de justiça e de pacificação, idealizado mas genuíno. Autor adorado pela burguesia elegante do Porto é totalmente incompreendido pelo século XX e inteiramente ignorado no século XXI.
Vale a pena redescobrir Uma família inglesa,quanto mais não seja para perceber o motivo do seu fracasso...

Entre os súbditos da rainha Vitória, residentes no Porto, ao principiar a segunda metade do século dezanove, nenhum havia mais benquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleumáticos e genuinamente ingleses, do que Mr. Richard Whitestone. Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de fino tacto comercial e génio empreendedor, cujo crédito nas primeiras praças da Europa e da América, e com especialidade nos vastos empórios da Grã-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente provada.
Nos livros de registo do Bank of England, bem como nos de alguns Joint-Stock banks e dos banqueiros particulares da City ou de West-End, podia-se procurar com êxito documentos justificativos deste crédito florescente. Não era Mr. Richard homem para seguir somente caminhos batidos, nem para empalidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a sós com os seus esforços e tenacidade. Por vezes arriscara capitais a inaugurar companhias, a plantar novos ramos de comércio, a auxiliar indústrias nascentes, aventurando assim proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores garantias de lucro, por seus colegas, caracteres em geral cautelosos e positivos e sempre desconfiados a respeito de inovações. Apesar disso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes na vida do comércio, tinham passado por cima da casa Whitestone, respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o mundo monetário, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard, com o esplendor tradicional; enquanto que não sorriam fados tão propícios às de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoístas abstenções.Era o caso de mais uma vez repetir o "Audaces fortuna... "de já estafada memória. Esta imunidade, em parte devida à lúcida inteligência, com a qual Mr. Richard sabia superintender nos variados negócios do seu trato, em parte a não sei que benigno espírito, ou acaso feliz, a que muitas vezes parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma ilimitada confiança entre todos, com quem o negócio o ligava, confiança da qual, nem em circunstâncias frívolas, se mostrou nunca indigno depositário. O quotidiano aparecimento do negociante estrangeiro na Praça – nome que entre nós se dá ainda à Rua dos Ingleses, principal centro de transacções do alto comércio portuense – festejavam-no benevolentes sorrisos, rasgadas e pressurosas reverências, frases de insinuantes amabilidades e afectuosos shake-hands, segundo o mais ou menos adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com ele. Ninguém se dispensava de qualquer destas demonstrações de estima, ou as impusesse o prestígio dos avultados capitais e da social liberalidade do comerciante britânico, ou como de preferência opinarão os que melhor conceito formam dos homens – um longo passado sem mancha, uma rectidão e cavalheirismo, aquilatados todos os dias. Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos seus confrades, aliás merecidas. Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa espécie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordoa, não sentia, no íntimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente cristalina, da razão, nele pouco sujeira a esvaimentos. Os gelos daquele coração, formado e desenvolvido a 51 graus de latitude setentrional, não se fundiam com tão pouco. Loas, hinos encomiásticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorizar as modéstias menos esquivas, protestos hiperbólicos de veneração a todo o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar certa agradável e voluptuosa titilação da alma – se me admitem a frase – que em quase todos os filhos de Eva – primeira e mal estreada vítima da lisonja – produzem sempre os panegíricos do merecimento próprio, entoados por bocas alheias. A mesma indiferença, a mesma, senão absoluta impassibilidade, estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvaziava copos de cerveja e cálices do Porto e Madeira, de rum, de conhaque, de kummel, de gingerbeer, e até de absinto, libações que a qualquer pessoa menos inglesmente organizada ameaçariam, em pouco tempo, com as mais pavorosas consquências de um completo alcoolismo; essa mesma indiferença e impassibilidade opunha ao efeito, não menos inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos. A eloquência cortesã dos seus muitos entusiastas mais do que uma vez a recebia assobiando distraidamente, mas sem a menor afectação, o nacional God save the queen, ao qual marcava o compasso com a cabeça ou com a bengala.Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro cumprimento. Aqueles que têm por costume semear lisonjas, para depois as colherem, em proveito próprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone terreno ingrato para tal género de cultura; não vingavam lá. A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares convencionais, muito à moda nas salas e que variam com as épocas, hesitar-se-ia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado. A delicadeza que ele praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e invariáveis ditames da consciência e da razão, superiores portanto às flutuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural. Verdadeiro inglês da velha Inglaterra, sincero, franco, às vezes rude, mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa personificação do típico John Bull.
Alheio e pouco propenso à metafísica, não o namoravam as transcendentes questões de filosofia, que preocupavam doentiamente as inteligências da época; todo votado à contemplação da face positiva da vida, se não se arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos futuros da humanidade, evitava também o estorcer-se nas garras do demónio da hipocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o pensamento.Possuía em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para lutar contra as ocorrentes resistências da vida efectiva, aquela qualidade de espírito, que, segundo Sterne, se diz obstinação nas más aplicações e perseverança nas boas.Outra apreciável disposição de ânimo caracterizava ainda o nosso comerciante: – era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo menos – e com mais rigor talvez – a de as não manifestar nos gestos ou por quaisquer sinais exteriores.Dir-se-ia, a julgá-lo pelas aparências, que espessa camada de estoicismo lhe encrostara o coração, libertando-o da influência dos estímulos, que mais dolorosamente costumam comover essa víscera de tão numerosas simpatias.Neste mundo, ao qual os Heraclitos dos séculos cristãos granjearam o título lutuoso e elegíaco de vale de lágrimas, não havia sucesso possível, catástrofe realizável, com força de alterar por muito tempo a costumada expressão fisionómica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer o colorido vigoroso, ou – como julgo se lhe chama em linhagem técnica – o colorido quente, do qual vinha ao gesto certo ar de satisfação, despertador das mais justificadas invejas.
Nos tipos ingleses, que as ondas do oceano anojam todos os dias às nossas praias, é este fenómeno mais vulgar do que porventura se pensa. Cada uma dessas figuras britânicas vale por um protesto mudo, mas eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escritores meridionais. Teimam de facto estes em que são indispensáveis os vívidos raios do nosso desanuviado Sol, ou a face desassombrada da Lua no firmamento peninsular, onde não tem, como a de Londres – a romper a custo um plúmbeo céu – para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o reflexo delas; imaginam fatalmente perseguidos de spleen, irremediavelmente lúgubres e soturnos, como se a cada momento saíssem das galerias subterrâneas de uma mina de pit-coal, os nossos aliados ingleses.
Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!
É esta uma ilusão ou má-fé, contra a qual há muito reclama debalde a indelével e acentuada expressão de beatitude, que transluz no rosto iluminado dos homens de além da Mancha, os quais parece caminharem entre nós, envolvidos em densa atmosfera de perene contentamento, satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente, satisfeitos de si. Nem é para admirar que o romancista inglês James ousasse abrir o primeiro capítulo de um romance seu com a seguinte exclamação' «Merry England! Oh, merry England!» alegre Inglaterra! oh! alegre Inglaterra! E porque se não há-de chamar alegre à Inglaterra? Como se generalizou a infundada crença de que o Inglês é por força melancólico? É uma destas abusões, para lhe não dar nome pior, contra as quais ninguém se precavê com suficiente critério filosófico.
Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colónia inglesa, à qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em que a civilização e a indústria não tinham ainda arroteado as densas florestas britânicas, seria cabido o jovial estribilho da canção que o supracitado romancista pôs na boca do legendário Robin Hood, seu herói: – «Oh, merry England, merry England, ho»; pode ainda cantar, através dos nevoeiros e do fumo das fábricas, o inglês moderno, fiel depositário daquele folgado carácter nacional. Eu tenho há muito como ponto de fé, que ainda que o spleen seja doença indígena da Grã-Bretanha; não domina tão fatalmente sob o céu londrino, como muitos parece imaginarem. Dryden afirma que as comédias inglesas possuem sobre as de todo o mundo incontestável superioridade. E querem saber a que atribuem alguns esta superioridade da comédia inglesa? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrário, tantos acusam de fomentador de hipocondrias e suicídios. O clima inconstante da Inglaterra, aplicam aqueles, é próprio para favorecer o desenvolvimento desses caracteres excepcionais e extravagantes, precioso e inesgotável pábulo do espírito cómico da Grã-Bretanha. A jovialidade dá-se muito bem naquele poderoso império. Tom Jones e o próprio Falstaff são tipos mais ingleses talvez do que uns sombrios caracteres, que Byron pôs à moda.
Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do Times, o inimigo declarado da França, apesar de certa severidade de convenção, era metal inglês, livre de toda a liga.Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmática inglesa o constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar que era artificial tudo aquilo.Enquanto ao físico..., enquanto ao físico era Mr. Whitestone caracterizadamente inglês. Não suprirão estas palavras mais circunstanciada descrição? Não há entre nós quem, ao ver por aí, nos maiores e mais mesclados ajuntamentos, certa ordem de tipos masculinos, hesite em atribuir-lhes por pátria a velha Albion, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a terra dos meeting, dos puddings e de muitas coisas mais? Pois bem, todos esses caracteres, todos esses sinais distintivos dos mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de Mr. Richard Whitestone, como certidão de naturalidade, limpa da menor viciação.Era aquela conhecida tez, quase cor de tijolo; aqueles olhos azuis, à flor do rosto, a resplandecerem como safiras; aqueles cabelos e suíças ruivas, que, sem grande violência de imagem, poder-se-ia talvez comparar às labaredas do fogo, que lhe inflamava constantemente as faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de pérolas, e alvos, como os caramelos das montanhas; a postura erecta; os movimentos prontos, e no rosto o tal continuado ar de satisfação.
Do vestuário podia dizer-se quase o mesmo. Não falseava o tipo. Era ainda inglês de lei.(...)
Richard Whitestone dois importantes resultados: – a adopção dos hábitos de vida peninsular, contra os quais antes regia sempre com a inteira inflexibilidade de suas fibras britânicas, e o respeito à gramática portuguesa, que, em todas as quatro partes, maltratava com uma irreverência, com um desplante de bradar aos céus e de desafiar os rigores da férula mais indulgente. Não desmentia Mr. Richard a asserção do autor das Lendas e Narrativas, quando afirma que sempre que um inglês, em casos desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimbri. De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na sepultura sempre que Mr. Whitestone falava, porque as regras mais triviais de regência e de concordância eram por ele atropeladas com uma frieza de ânimo, com uma fleuma, com uma impassibilidade, somente comparáveis às de um membro do jockey-Club, ao passar com um cavalo por cima do corpo de algum transeunte inofensivo ou competidor derrubado na arena.
Não era mais feliz a prosódia, a alatinada prosódia deste recanto peninsular. As combinações gramaticais de Mr. Richard, ao falar a nossa língua, saíam marcadas com um verdadeiro cunho britânico. Vénus, a própria Vénus, perderia aquelas ilusões que nos refere o cantor d'Os Lusíadas, se porventura ouvisse o português que ele pronunciava. Transparecia de alguma sorte nas orações do seu discurso o crédito liberal de um verdadeiro cidadão de Londres. O espírito conciliador e ordeiro, o constitucionalismo arreigado naquele ânimo inglês, e a adesão aos princípios interventores adoptados no seu pais, parecia haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da sintaxe portuguesa, levando Mr. Richard, num excesso de tendência harmonizadora, a tentar nela concordâncias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e insuperável repugnância de géneros e de números; e a modificar a constituição gramatical de um país aliado, como a Inglaterra gosta de modificar a sua constituição política. O efeito reunido daquela prosódia e sintaxe era às vezes de uma resultante cómica que não actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás não muito pechosos, dos colegas comerciais, em cujos lábios sorrisos de malícia mal disfarçada vinham por instantes afugentar a sisudez da profissão. Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era completamente indiferente ao que percebia e suspeitava. Se o contradissessem na pronúncia de uma palavra inglesa, embora das mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circunstantes, na ocasião em que ele estivesse falando a pátria língua, então sim, então era possível que chegasse a exaltar-se a ponto de quase ameaçar o imprudente com uma irrepreensível aplicação da nobre ciência dos boxers, quase divina arte do soco, que, desde Jack Brougton, tem sido cultivada em Londres «com fanatismo e ensinada com talento» – textuais palavras de escritor ex-professo. Mas os sorrisos que lhe valiam as autrocidades praticadas por ele nas gramáticas estrangeiras, esses, sofria-os com impassível indiferença e não sei até se com certos vislumbres de orgulho e regozijo.




Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!





O cair da noite era lento, pacífico, como que adormecido . O doente sentiu a depressão da derrota, a agoniada tristeza da consciência de não ter feito nada, das suas intenções terem sido inutilidades, reais apenas para ele, sepultas ainda em vida no âmago do seu coração. Quis poder chorar mas tinha - e sentiu-o - a alma como que mirrada, seca, imaleável ao sentimento da dor. Suspirou apenas, mais mental do que fisicamente...

Pensando que cada passo na minha vida era um contacto com o horror do Novo, e que cada nova pessoa que eu conhecia era um novo fragmento vivo do desconhecido que eu punha em cima da minha mesa para quotidiana meditação apavorada — decidi abster-me de tudo, não avançar para nada, reduzir a acção ao mínimo, furtar-me o mais possível a que eu fosse encontrado quer pelos homens quer pelos acontecimentos, requintar sobre a abstinência e pôr a abdicação a bizantino. Tanto (o) viver me apavora e me tortura,(...) Se mostram interesse por mim, fujo. Se me olham, estremeço. (...) Tenho frio da vida. Tudo é caves húmidas e catacumbas sem luz na minha existência. Sou a grande derrota do último exército que sustinha o último império. Saibo-me a fim de uma civilização antiga e dominadora. Estou só e abandonado, eu que como que costumei mandar outros. Estou sem amigo, sem guia, eu a quem sempre outros guiaram...

Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais perfeito que o do inimigo.

Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...

Cada vez que o meu propósito se ergueu, por influência de meus sonhos, acima do nível quotidiano da minha vida, e um momento me senti alto, como a criança num balouço, cada vez dessas tive que descer como ela ao jardim municipal, e conhecer a minha derrota sem bandeiras levadas para a guerra nem espada que houvesse força para desembainhar.(...)
Meus pobres companheiros que sonham alto como os invejo e desprezo! Comigo estão os outros — os mais pobres, os que não têm senão a si mesmos a quem contar os sonhos e fazer o que seriam versos se eles os escrevessem —, os pobres diabos sem mais literatura que a própria alma, que morrem asfixiados pelo facto de existirem sem terem feito aquele desconhecido […] transcendente que habilita a viver.Uns são heróis e prostram cinco homens a uma esquina de ontem. Outros são sedutores e até as mulheres inexistentes lhes não ousaram resistir. Crêem isto quando o dizem, talvez o digam porque o creiam. Outros (...) E todos como enguias num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam uns acima dos outros e nem saem do alguidar. Às vezes falam deles os jornais. Os jornais falam d'alguns mais do que algumas vezes mas a fama nunca. Esses são os felizes porque lhes é dado o sonho mentido da estupidez.


Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?

Um telefonema, uma consulta e uma vitória - pequena, efémera, à minha medida: origem da palavra moinho.O termo moinho relaciona-se etimologicamente com a expressão latina molinum saxum, "mó", e com o verbo molere, "moer ou triturar cereais". O latinismo molino, que origina o vocábulo moinho, com o sentido atual, só surge na Idade Média, encontrando-se documentado no ano ano de 906.

“Niké” , Vitória, - representação de uma das figurações do templo de Athena Nikê, junto ao Partenon de Atenas. Esta construção do século IV aC é uma das formas mais perfeitas do ideal grego de harmonia.

Athena nikê - para a Maria Helena, um destaque justíssimo do jornal das letras, uma bonita homenagem de hélia correia, pese embora através de um poema não muito inspirado:

Partiu minha Senhora. Há muito já
que os sinais da cerimónia se alinhavam,
visíveis, sim, porém indecifráveis
pelos mortais.
Por exemplo, as magnólias recobriram
de púrpura os passeios. E na noite
passava às vezes a lição do júbilo
que há num solene adeus. Alguém talhava
novamente aquele mármore. A beleza
de um grande pensamento emchia as ruas.

Minha Senhora ainda se encontrava
na sua plena qualidade azul.
O seu olhar coincidia em tudo
com o olhar dos Aqueus.

Contrariamente àquilo que se pensou,
não deviam ao mar o tom das íris
mas ao fulgor precioso da palavra,
ao duro tracejado da palavra
através da montanha.
Esse relâmpago,
a escama da serpente reluzindo
sob o luar da Hélade.
Minha Senhora tinha esse segredo
preso dentro das mãos, um longo texto
que era um animal vivo, era um poema
com respiração.

Minha Senhora já esqueceu o número
das fontes que brotaram nas aldeias
por onda ela passou. Voava baixo
e achava tudo muito natural.
Falava-me, por vezes, dos abismos
fascinantes de Delfos. E eu temia
que ela não regressasse. Que perdesse,
como acontece frequentemente
aos muito sábios, a noção de casa.

Estava, porém o tempo predisposto
para um grande final. E aportou
a Barca carregada de flores brancas,
tão cuidadosa quanto triunfal.
Houve uma alteração no nevoeiro
do rio, uma leveza da matéria,
um véu que proibia as aproximações
decerto não por arrogância. Tudo
devia concentrar-se na tarefa.

Partiu minha Senhora. Nem deixou
que eu, como de costume, ajoelhasse
e lhe atasse as sandálias. Ela própria,
inclinando-se, o fez. E ajeitou,
ao levantar-se, as pregas do vestido
a que o mimoso linho do Egipto
dava uma ondulação inimitável.

Partiu minha Senhora como Athena
Nikê, Athena Vitoriosa.
Ninguém ouviu sequer fechar-se a porta.

As descidas para o Hades, como as derrotas neste mundo, devem sempre ser efetuadas silenciosamente: tudo o que verdadeiramente magoa exige silêncio.

O facebook é o império dos felizes e bem sucedidos: sinto-me insignificante, perante o brilho dos "meus amigos": tudo gente realizada, que acumula vitórias, mesmo que, pontualmente, haja uma derrota para lhes provar que deus é grande e os protege. Todos exibem sorrisos exemplares, cara lindas, amizades firmes e eternas, filhos perfeitos, maridos excecionais, pais e mães maravilhosos, irmãos excelentes, a família ideal, enfim, há algo que me fez pensar nos romances de júlio Dinis: tudo corre pelo melhor nos melhores dos mundos. Tal como Eça escreveria: vivem de leve, escrevem de leve, esperemos que a morte também lhes seja leve...

"Poema em linha reta", de álvaro de campos, transformado, por mim, em " Prosa cursiva":

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;(...) Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Uma vitória: conhecer a distinção entre lezíria, bairro e charneca...

A Lezíria corresponde às margens do rio Tejo, onde se situam as planícies inundáveis, de solos de ótima qualidade e elevada produtividade. Nesses terrenos, considerados dos melhores solos agrícolas do país, predomina a cultura de hortícolas, frutícolas, da vinha, de cereais, do girassol, e excelentes pastagens para criação de gado bovino e equino.




O Bairro corresponde ao território localizado na margem direita do Tejo, depois dos solos adjacentes ao rio, entre o vale do Tejo e a serra. Ocupa grande parte da área concelhia, sendo a região que maior área do concelho abrange. Apresenta um relevo pouco acentuado, ondulado entre os montes e as planícies, entrecortado por diferentes linhas de água, com solos mais pobres, argiloarenosos e argilocalcários, propícios para as culturas de sequeiro. Aí predominam culturas, tais como: o olival,a vinha, os cereais e culturas arbustivas e arbóreas. (Zambujeiro, Pinheiro-manso, Pinheiro-bravo, Carvalho e o Sobreiro).


A Charneca estende-se na margem esquerda do rio Tejo, dos terrenos inundáveis até ao Sul do Ribatejo (Alentejo). Aí, os solos arenosos são pouco produtivos e explora-se culturas que necessitam de pouca água. Nela encontra-se uma vasta área de montado de sobro, assim como, pinhal e eucaliptal. Em locais mais favoráveis é possível o cultivo de cereais e vinha, e arroz nas zonas mais irrigadas. Por ser uma zona muito seca e apresentar as mais altas temperaturas do Ribatejo, as uvas têm melhores condições para a maturação do que em outras áreas da região.


Há espaços em que todos os fracasso se superam; em que todas as derrotas se esquecem ; em que só se idealizam vitórias...

Não basta abrir a janela / Para ver os campos ..../ Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores./ É preciso também não ter filosofia nenhuma./ Com filosofia não há árvores: há ideias apenas./ Há só cada um de nós, como uma cave./ Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,/Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.




Aquilo que a gente lembra
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar...
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia
Que uns olhos tiveram um dia...

Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.



Todo eu sou qualquer força que me abandona./ Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ideias fixas, obsessões, venenos e antídotos...

Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se, ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?
Pensei, primeiro, em publicar anonimamente, em relação a mim... Mas, sobre ser pequeno demais o meio intelectual português, para que (mesmo sem inconfidências) a máscara se pudesse manter, era inútil o esforço mental preciso para mantê-la. Tenho, na minha visão a que chamo interior apenas porque chamo exterior a determinado «mundo», plenamente fixas, nítidas, conhecidas e distintas, as linhas fisionómicas, os traços de carácter, a vida, a ascendência, nalguns casos a morte, destas personagens. Alguns conheceram-se uns aos outros; outros não. A mim, pessoalmente, nenhum me conheceu, excepto Álvaro de Campos... O que é a vida?


Gente coexistível: genial esta expressão...

De tanto se julgar doente, uma pessoa torna-se doente, emagrece, deixa de ter força para se levantar, tem enterites nervosas. De tento pensar nos homens com ternura, um homem torna-se mulher, e um vestido postiço entrava-lhe os passos. Nele, a ideia fixa pode modificar o sexo( tal como nos outros casos a saúde)

E como a pouco e pouco chegava a pensar, mesmo as coisas sociais, no feminino, e sem dar por isso, porque não é só à força de mentirmos aos outros mas também de mentirmos a nós mesmos que deixamos de notar que mentimos , embora tivesse pedido ao seu corpo que manifestasse toda a cortesia de um grande senhor , esse corpo compreendera bem que o senhor de Charlus deixara de ouvir...


Um prosador de temas onde a matéria-prima é só o tempo,mas um tempo antiproustiano,a perder... "Não serei eu que ande em busca do tempo perdido"...

O Sr. Teste é impossível e sem identidade...pode sugerir obsessão de eficácia... Teste foi gerado em era de embriaguez da minha vontade e rodeado por estranhos excessos de consciência de si. Atacara-me a doença da precisão. Eu tendia mais para a aguda forma do desejo insensato de compreender,e procurar em mim os pontos críticos da faculdade de atenção.

Construí uma ilha interior e perdia o tempo a reconhecê-la e fortificá-la.

A incoerência de um discurso depende de quem o ouve.Parece-me que o espírito é assim,só pode ser incoerente para si próprio.

De que sofri mais? Talvez do hábito de desenvolver todo o meu pensamento - de ir ao final de mim.

Não é filósofo, nem nada desse género, nem sequer literato; daí pensar muito - pois quanto mais se escreve, menos se pensa.

Como sabe, caro Você, sou um espírito da mais tenebrosa espécie.Sabe-o por experiência,e ainda melhor por estar farto de ouvi-lo dizer. Modeste tamen et circunspecto Juddicio pronuntiandum est, ne ( quod plerisque )accidit,damnent quae non intelligunt.

Refletir nas coisas que o jornal do dia diz é contar a mim próprio tudo o que ele não diz...

...quando o impossível transpõe de súbito os diques da vida quotidiana...
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vomito para aliviar a vontade de vomitar...A intriga a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desenhos, dos restos trincados das sensações.

A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cujo pensamento nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.



Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...


Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,
comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.




Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um facto consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez a tua cabeça
Minha cabeça perder o teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Embriagar-me até que alguém me esqueça


E no interior de cada castelo de ideias, de cada pardieiro de opiniões sobrepostas aos pardieiros de madeira e aos castelos de pedra, a vida empareda os loucos e abre uma fresta aos sábios.

Tabaco, café, álcool, ácido prússico, estricnina — todos não passam de poções diluídas: o mais infalível veneno é o tempo. Essa taça, que a natureza nos põe nos lábios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperança, amor, ambição, ciência. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, força, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e delírio. Nós adiamos o nosso trabalho literário até que tenhamos maturidade e técnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento literário não passava de uma efervescência juvenil que perdemos.

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?


Every Sunday's getting more bleak A fresh poison each week We were born sick you heard them say it My church offers no absolutes ...

O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos. Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver. O criador do espelho envenenou a alma humana.

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia. A razão por que tantas vezes interrompo um pensamento com um trecho de paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao conhecimento da minha impotência criadora. Tenho a necessidade, em meio das conversas comigo que formam as palavras deste livro, de falar de repente com outra pessoa, e dirijo-me à luz que paira, como agora, sobre os telhados das casas, que parecem molhados de tê-la de lado; ao agitar brando das árvores altas na encosta citadina, que parecem perto, numa possibilidade de desabamento mudo; aos cartazes sobrepostos das casas ingremadas, com janelas por letras onde o sol morto doira goma húmida.
Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça. Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas [...], folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma. Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.


Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento


Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto

Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse



Day after day....night after night...



Se é verdade que os únicos paraísos são aqueles que se perderam, sei como hei-de chamar a esta qualquer coisa de terno e de inumano que hoje reside em mim.(...) Não quero ruminar a felicidade. É bem mais simples e é bem mais fácil. Porque destas horas que, do fundo do olvido, torno a trazer até mim, se conservou sobretudo a recordação intacta de uma pura emoção, de um instante suspenso na eternidade. Só isso é verdadeiro em mim e sei-o sempre demasiado tarde. Gostamos da curvatura de um gesto, da oportunidade de uma árvore na paisagem. E para recriar todo este amor não temos senão um pormenor, mas que basta: o cheiro de um quarto fechado por demasiado tempo, o som singular de um passo na estrada. Assim é quanto a mim.

Este é um dos textos que mais me pacifica: é o antídoto perfeito contra todos os venenos que me atormentam a existência...


Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,(...)
Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.


Os prazeres e os perigos da inteligência.
Apresentação do processo de entendimento do mundo, das várias facetas possíveis, que, no processo de crescimento, somos obrigados a experimentar. Vivemos todos os dias, um de cada vez, e de cada vez somos uma metamorfose, uma mutação, do dia anterior.

Mas a principal razão, e essa aplicável à humanidade em geral, era que nem sequer as nossas virtudes são algo de livre, de flutuante, de que guardemos permanente disponibilidade; acabam por ficar tão estreitamente associadas no nosso espírito aos actos em que nos achámos na obrigação de as exercer que, se nos aparece uma actividade de outra ordem, esta encontra­‑nos desprevenidos e sem sequer nos ter ocorrido que ela poderia implicar o exercício dessas mesmas virtudes.

Quando pela primeira vez se falou em convidar o senhor de Norpois para jantar lá em casa e a minha mãe exprimiu a pena que tinha de que o professor Cottard andasse em viagem e de que ela própria tivesse deixado completamente de se dar com Swann, porque tanto um como o outro haveriam por certo de interessar ao antigo embaixador, o meu pai respondeu que um conviva eminente, um sábio ilustre como Cottard, não podia nunca calhar
mal num jantar, mas que Swann, com aquela sua ostentação, com aquela maneira de anunciar aos quatro ventos as suas mínimas relações, era um vulgar parlapatão que o marquês de Norpois por certo acharia, segundo a sua expressão, «infecto».


Mas, no que se refere a Cottard, pelo contrário, a época em que o vimos assistir aos primeiros tempos de Swann em casa dos Verdurin ia já bem longe; ora as honras, os títulos oficiais, chegam com os anos. Em segundo lugar, pode­‑se ser iletrado, ou fazer trocadilhos estúpidos, sem deixar de possuir um dom especial, que nenhuma cultura geral substitui, como é o dom do grande estratega ou do grande clínico. Efectivamente, não era apenas como um facultativo obscuro transformado com o tempo numa celebridade europeia que os seus confrades viam Cottard. Entre os jovens médicos, os mais inteligentes declararam — ao menos durante alguns anos, porque as modas mudam, visto que elas próprias nascem da necessidade de mudança — que, se alguma vez adoecessem, seria Cottard o único mestre a quem confiariam a própria pele. É claro que preferiam a convivência com certos chefes mais letrados, mais artistas, com quem podiam falar de Nietzsche ou de Wagner. Quando se fazia música em casa da senhora Cottard, nos serões em que ela, na esperança de que o marido viesse um dia a ser director da Faculdade, recebia os colegas e os alunos dele, este, em vez de ouvir, preferia jogar às cartas numa sala ao lado. Mas elogiava­‑se a prontidão, a profundidade, a segurança do seu golpe de vista, do seu diagnóstico. Em terceiro lugar, quanto ao conjunto de qualidades que o professor Cottard revelava para um homem como o meu pai, note­‑se que a
natureza que revelamos na segunda parte da nossa vida nem sempre é, ainda que muitas vezes o seja, a nossa natureza primordial desenvolvida ou aviltada, aumentada ou atenuada; é por vezes uma natureza inversa, uma verdadeira peça de roupa virada do avesso. Excepto em casa dos Verdurin, que se tinham apaixonado por ele, o ar hesitante de Cottard, a sua timidez e a sua amabilidade excessivas tinham­‑lhe valido, na juventude, dichotes constantes. Que caridoso amigo lhe terá aconselhado um ar glacial? A importância da sua situação tornou­‑lhe mais fácil o assumi-lo. Em toda a parte, a não ser em casa dos Verdurin, onde por instinto voltava a ser ele mesmo, tornou­‑se frio, habitualmente silencioso, peremptório quando tinha de falar, e não se esquecia de dizer coisas desagradáveis. Teve ocasião de experimentar essa nova atitude diante de clientes que ainda o não haviam conhecido, que não estavam em condições de fazer comparações, e que ficariam muito admirados se soubessem que ele não era um homem de rudeza natural. Era sobretudo na impassibilidade que ele se exercitava, e até no seu serviço no hospital, quando debitava alguns daqueles trocadilhos que punham toda a gente a rir, desde o director do serviço até ao externo mais recente, fazia­‑o sempre sem que um músculo se lhe alterasse na cara, aliás irreconhecível desde que rapara a barba e o bigode.


Mas, no que dizia respeito ao senhor de Norpois, acontecia sobretudo que, numa longa prática da diplomacia, ele se imbuíra daquele espírito negativo, rotineiro, conservador, do chamado «espírito de governante» e que efectivamente é o de todos os governos e, em especial, em todos os governos, o espírito das chancelarias. Bebera na carreira a aversão, o temor e o desprezo relativamente àqueles processos mais ou menos revolucionários, ou no mínimo incorrectos, que são os processos das oposições. Salvo em alguns iletrados do povo e da sociedade, para os quais a diferença dos géneros é letra morta, o que aproxima não é a comunidade de opiniões, é a consaguinidade dos espíritos.