Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Uma lição de história, de cultura clássica e de humanismo...

Argos, de Ítaca, e Tobias, de Coimbra -

Em verdade te digo, caro Tobias, acabo de ver aqui a cena da morte do cão Argos, o fiel amigo e companheiro de juventude de Ulisses. Só ele reconheceu herói que voltava a casa. O coração de Argos fraquejou e, como se se cumprisse algo por que esperava há longos anos, morreu de alegria. O coração do herói levou-o às lágrimas. A cena mostra a distância imensa de valores que vai da Ilíada à Odisseia. No primeiro poema, os cães são simples carniceiros que rodeavam os acampamentos gregos, comendo, não raro, os corpos mortos dos guerreiros, fim indigno, que conotava os cães com essa indignidade. E nota, caro Tobias, como esta comovente relação entre Ulisses e o seu cão eleva culturalmente esta nova realidade da cultura grega. Claro que há que veja em Argos uma metáfora da mortal decadência civilizacional de Ítaca, mas não é preciso ir por aí para olhar ver e a cena na sua real e comovente simplicidade. Claro que, por cá e por estes dias, não faltou a patriótica atenção ao facto de o cão-actor – de notável desempenho, diga-se – ser um exemplar da raça Podengo Português. Mas isso não nos interessa por agora. Claro que tu, na tua condição de gato mimado, tratado como um lorde, não és sensível a estes factos, ainda mais sendo um cão o protagonista. Não estás a imaginar-te, certamente, a protagonizar cena semelhante se estivesses no lugar do cão Argos.

 Tobias olhou-me com um ar simultaneamente severo e condescendente. Semicerrou os olhos e falou. Falou! 

 - Para trás, ignaro José. Herdeiro sou de um nobilíssimo ramo da minha espécie. Meus antepassados remontam aos antigos egípcios, muitos séculos antes dos eventos que narras. Éramos quase divinos, Bastet seja louvada! Simbolizávamos o lar, a família, a alegria, a fertilidade. Claro tu – eu bem ouço as tuas conversas – não deixarias de discorrer sobre as razões do amor que os egípcios nos devotavam. A instância económica determinaria, em última análise, esta situação. Na verdade, dirias tu, sendo o cultivo e armazenamento de trigo a riqueza estratégica vital do Egito, sendo a maior ameaça às reservas de cereais os desprezíveis ratos e sendo nós os predadores por excelência de tais criaturas, forçoso seria que os homens nos admirassem e nos considerassem uma prenda dos deuses. Não digo que não tenhas alguma razão. Não li Marx mas, como sabes, nós, gatos, não sabemos ler, mas estamos atentos e somos muito cultos. E, nota, não seria só isso que levaria os egípcios a amarem-nos de modo tão extremoso. Nós soubemos jogar com o nosso encanto irresistível. Aproximamo-nos das casas, das famílias e, um dia, alguém – abençoada seja a sua memória – lembrou-se de, encantada, levar um de nós para casa e apresentar-nos à família. Esse nosso antepassado, admito que com algum receio no coração, ao concordar ficar lá por casa tornando-se o centro das atenções dos residentes, teve o papel decisivo no nosso futuro. Passaram milhares de anos e olha para mim sentado, aqui, na tua mesa, a explicar-te os factos da vida. E foi assim que nos alcandoramos a uma posição social tal que um ataque a um de nós era julgado como se fossemos humanos, e quem matasse um de nós podia ser condenado à pena de morte, nada menos. Se o gato da casa morresse, os membros da família choravam-nos como se fossemos um deles, rapavam a sobrancelhas, faziam-nos um funeral que incluía a nossa mumificação e honroso enterro em cemitérios especiais, garantindo que acompanharíamos os nossos donos na vida do além. Como vês, caro José, éramos gente do alto já nesse tempo. Depois, vem a selvajaria da vossa Idade Média, as mortes massivas dos gatos, considerados seres demoníacos, enfim, a tristeza que bem conheces e que levou a que, por falta da nossa diligente presença, os ratos disparassem em número e a peste negra com eles. Uma tragédia. Sei tudo isto por ouvir as vossas conversas, claro, mas não preciso delas para saber que recuperamos esplendorosamente a nossa condição. Basta apreciar o requinte do almoço que vocês hoje me serviram e as cenas que vejo aqui neste Facebook. Vocês gostam de nós e nós gostamos de vocês! E nós abusamos sem vergonha. Somos irresistíveis, Bastet seja louvada.

José Alberto Gabriel, professor de Filosofia na ESDICA, proferiu uma frase , para mim, inesquecível:" É preciso licença para ter cão, mas não é preciso licença para ter um filho."  

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