Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

sábado, 3 de outubro de 2026

OutonoS...

A minha vida está vivida 
Já minha morte prepara 
Seu pó de beladona 
Viajarei ainda para me despedir das imagens 
Antes de despir a túnica do visível
 Em vão me engano 
Verdadeiramente sou quem fui 
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
 E diluída no fulgor da Primavera antiga
 Se ainda busco o promontório de Sunion 
É porque nele vejo a minha face despida
 O mitológico mundo interior e exterior
 Da minha própria unidade perseguida 
Mas como despedir-me deste sal
 Deste vento inventor de degraus e colunas 
Como despedir-me das pedras deste mar 
E deste denso amor inteiro e sem costuras 

 Sophia de Mello Breyner Andresen In “Inéditos”

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