Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

domingo, 22 de setembro de 2024

PrimaveraS...

    Uma história que se centra em três mulheres: Natsu, de trinta anos; a sua irmã mais velha, Makiko, de trinta e nove; e a filha desta, Midoriko, com 12 anos.
     O que significa ser mulher? O que implica trazer um filho ao mundo? E porquê trazer um filho ao mundo? Que opções têm as mulheres depois de serem mães? A mulher tem o direito de recusar ser mãe? Será a mulher prisioneira de expectativas inalcançáveis em relação ao seu corpo? 

  Estas são algumas das perguntas deste romance protagonizado por três mulheres pertencentes a gerações diferentes…
 
Na primeira parte, a narradora, Natsuko, que tenta ser escritora, recebe na sua casa de Tóquio a irmã, Makiko, e a filha desta, Midoriko. Makiko trabalha num bar em Osaka, onde todas viviam inicialmente. Midoriko está zangada com a mãe e não lhe fala e responde às suas perguntas escrevendo num caderno. As duas irmãs veem televisão e bebem cerveja até cair para o lado. Makiko está obcecada com a ideia de operar os seios. As duas irmãs viveram com a mãe e com a avó, que já faleceram. O pai era um preguiçoso e alcoólico, que abandonou o lar. 

  Na segunda parte, Natsuko já publicou um livro, que teve um sucesso relativo, mas está bloqueada na escrita do segundo romance. A partir de certa altura, nunca mais se fala nisso porque a sua obsessão é ter um filho, através de um dador de esperma. Em tempos, teve uma relação com um homem, mas não gostou de ter relações sexuais e nunca mais quer experimentar, daí, ter de recorrer a um dador. No Japão, é possível conhecer um dador num qualquer blogue, encontrar-se com ele num café e ficar com o seu esperma, que ele vai obter na casa de banho do café... 

  Sinopse: “Seios e Óvulos traça um retrato da feminilidade e maternidade contemporâneas no Japão, contando as viagens íntimas de mulheres que enfrentam os costumes opressivos e as suas próprias incertezas no percurso para encontrar a paz e um futuro a que possam chamar verdadeiramente seu. Makiko viaja para Tóquio em busca de uma operação de preço acessível para aumentar os seios. É acompanhada por Midoriko, uma adolescente cada vez mais calada por se sentir incapaz de expressar as pressões vagas, mas esmagadoras, associadas ao crescimento. O seu silêncio revela-se um catalisador para que cada mulher enfrente os seus medos e frustrações. Num dia quente de verão, dez anos mais tarde, Natsu, numa viagem de regresso à sua cidade natal, debate-se com a sua própria identidade indeterminada, enquanto enfrenta ansiedades sobre envelhecer sozinha e sem filhos.” 

 “Natsuko, a personagem principal, nunca deixa de nos interpelar, de nos fazer equacionar... Da pobreza estigmatizante à ditadura da solidão, do papel que esperam da mulher ao papel que a mulher quer ser, do medo à coragem, este é um livro que amplia horizontes e que, sem oferecer certezas, nos obriga a questionar. Num país onde se apregoa que as mulheres se tornam inúteis a partir da menopausa, Kawakami sesmitica a ordem estabelecida “- Rock&Rolla Ago/23

Se quiserem saber quão pobre alguém foi enquanto crescia, perguntem-lhe quantas janelas tinha. Não perguntem o que tinham no frigorífico ou no armário. O número de janelas diz tudo. Mesmo tudo. Se não tinham nenhuma ou se talvez tivessem uma ou duas, não precisam de saber mais nada.
 

 Midoriko tinha um apetite saudável, ia à escola e falava normalmente com os amigos e os professores. Só não falava com a mãe. Parecia não haver mais nada fora do normal. Apenas se recusava a falar em casa. De propósito.

 No outro dia, na escola, entre aulas, alguém, não me lembro quem, dizia: «Nasci rapariga e, por isso, sem dúvida que quero ter um bebé meu, um dia.» Mas de onde vem isso? O sangue que sai do nosso corpo transforma-nos em mulheres? Em potenciais mães? E o que torna isso assim tão fantástico? Alguém acredita realmente nisso?


para uma mulher se tornar um Buda, primeiro tem de renascer como homem.

O sexo , "a insanidade temporária das nossas vidas.

 Compreendia o desejo de ter alguém a meu lado, de querer dar a mão a alguém. Tinha sentido essas explosões de paixão depois de dizer alguma coisa importate ou quando me apercebia da intensidade dos meus sentimentos. Queria partilhar aquela sensação, mas, quando as coisas começavam a tornar-se físicas, os meus ombros ficavam tensos e o resto do corpo também. A paixão e o sexo eram incompatíveis para mim. Não tinham qualquer relação

… um homem nunca pode perceber o que realmente importa para uma mulher, nunca. Quando se diz este tipo de coisas, as pessoas dizem logo que somos tacanhas ou que nunca conhecemos o verdadeiro amor ou qualquer coisa desse género. Dizem que não se podem enfiar todos os homens no mesmo saco assim, mas, infelizmente, é a verdade. Nenhum homem alguma vez compreenderá as coisas que são realmente importantes para uma mulher.


 Se conseguires escrever sobre ti assim, sobre a tua sexualidade, as tuas finanças, as tuas emoções… se conseguires engravidar sozinha e ser mãe (ou mesmo que não consigas), se escreveres sobre tudo o que acontece no processo, fazes ideia do que significaria para tantas mulheres?

 No primeiro dia de outono, pela mão de Kawabata, estou a sentir a primavera no coração...

Midoriko Tinha um apetite saudável, ia à escola e falava normalmente com os amigos e os professores. Só não falava com a mãe. Parecia não haver mais nada fora do normal. Apenas se recusava a falar em casa. De propósito.


    É esta a verdadeira Primavera.Tudo, tudo...são flores escarlates. Os ramos das árvores florescentes pareciam não ter mais que uma função: suster as flores. Um visão não se pode nem tocar, não tem forma... 

Uma visão pode estar na mente, no coração de um homem, ou manifestar-se de qualquer outro modo. A visão de Chienko, aos 60 anos, continua jovem como agora e nunca nos cansamos das visões belas...Estas visões existem para sempre no coração: pode-se esquecer e deixar de amar alguém, emconcreto, que existiu na nossa vida, mas a nossa visão de alguém que amámos nunca deixa de estar presente, nunca.

"
Kyoto é um grande livro, quer pela forma como aborda a história de Chieko, quer pela paz com que nos transmite cada descrição e diálogo, mesmo quando a dor está presente.

 A escrita é poética e marcada pela contemplação típica do Japão e do mundo oriental. Por isso, ler este livro é contemplar esta sociedade tão diferente e esperar também pela flor das cerejeiras. A narrativa aberta é igualmente um caminho que nos permite percorrer a nossa imaginação, levando-nos numa viagem individual e de busca do Outro." Vanda Balão

Sem comentários: