Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...

domingo, 18 de outubro de 2026

Igreja e desassossegoS...

Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo.

E já que queremos ser estéreis, sejamos também castos, porque nada pode haver de mais ignóbil e baixo do que, renegando da Natureza o que nela é fecundado, guardar vilãmente dela o que nos praz no que renegámos. Não há nobrezas aos bocados.

Sejamos castos como eremitas, puros como corpos sonhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas...

Que o nosso amor seja uma oração... Unge-me de ver-te que eu farei dos meus momentos de te sonhar um rosário onde os meus tédios serão padre-nossos e as minhas angústias avé-marias...

Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro vitral...Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a humanidade passando... Murmúrios de rezas, segredos de (...) passarão entre nós... Umas vezes enche-se bem o ar de (...) de incensos. Outras vezes, para este lado e para aquele uma figura de estátua rezará aspersões... E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o Sol nos bata nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)

Até [que] um dia, no fim de vários séculos de impérios, a Igreja finalmente rua e tudo acabe...

Mas nós que não sabemos dela ficaremos ainda, não sei como, não sei em que espaço, não sei por que tempo, vitrais eternos, horas de ingénuo desenho pintado por um qualquer artista que dorme há muito sob um túmulo godo onde dois anjos, de mãos postas, gelam em mármore a ideia de morte.


Escrevo num domingo
, manhã alta, num dia amplo da luz suave, em que, sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito fecha no esquecimento a existência misteriosa de astros... É domingo em mim também... Também meu coração vai a uma igreja que não sabe onde é, e vai vestido de um traje de veludo infante, com a cara corada das primeiras impressões a sorrir sem olhos tristes por cima do colarinho muito grande
.
A tolerância é impossível ao crente verdadeiro de qualquer fé, sobretudo se ela excede os limites estreitos do feiticismo e da simples superstição, sem que atinja ainda o sincretismo dos pagãos e dos ocultistas. Quem tem a sua religião por verdadeira, e por certa só dentro dela a salvação das almas, não pode senão considerar como um crime de tal vulto, que excede todos os crimes deste mundo, o pregar outra religião, que não essa, ou o desviar dela aqueles que só nela terão sua salvação. Nada há pois que pasmar do espírito perseguidor dos inquisidores, dos puritanos, e de todos quantos têm deveras uma fé que supõem universal. Nem outra ordem de fé era possível a populações que viviam ainda num grau imperfeito de cultura e de civilização. Podemos lamentar os mártires dessas perseguições, como os das perseguições aos cristãos, fruto de um cuidado análogo, da segurança e da unidade do Império; mas nem devemos culpar os perseguidores como a criminosos, nem lamentar os mártires mais do que lamentamos aqueles sofrem as injustiças da sorte. 

Ah, sempre no curso leve do tempo pesado 
A mesma forma de viver! 
O mesmo modo inútil de estar enganado 
Por crer ou por descrer! 

 Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
 A mesma desilusão
 Do mesmo olhar lançado do alto da torre
 Sobre o plaino vão! 

 Saudade, esperança — muda o nome, fica 
Só a alma vã 
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica 
Ontem ou amanhã. 

 Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante 
Do tempo sem fim 
O mesmo momento voltando improfícuo e distante 
Do que quero em mim! 

 Sempre, ou no dia ou na noite, sempre 
— seja Diverso — o mesmo olhar de desilusão
 Lançado do alto da torre da ruína da igreja
 Sobre o plaino vão!

Do alto da torre da igreja

Do alto da torre da igreja

Vê-se o campo todo em roda.

Só do alto da esperança

Vemos nós a vida toda.


 




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