Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Ensaio sobre a loucura...

A criação artística e a loucura...Loucura e racionalidade.
A loucura de Quixote terá intervalos de lucidez ou serão esses intervalos de lucidez a prova definitiva da sua peculiar loucura? As suas palavras são as de um excêntrico, mas não as de um homem que perdeu o juízo. Vai expondo os seus argumentos com segurança socrática: defende a superioridade das armas sobre as letras humanas porque estas almejam estabelecer as leis e preservá-las e aquelas garantem aos homens o maior bem, que é a paz.
Amor abstrato , amor petrarquista absoluto, de índole platónica, dedicado não à amada inatingível, mas inexistente. Ao fascinante tema da prevalência do sentimento sobre o objeto do amor, colocou Vergílio Ferreira , no seu livro Pensar, a seguite pergunta:“Porque te ris do pobre D. Quixote por amar a Dulcineia, que não existia? Mas todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso. Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame, como supõe. Porque todo o amor só existe nos intervalos de a pessoa amada existir”.

D. Quixote confunde rebanhos de ovelhas com exércitos inimigos e acaba alvo das pedradas certeiras dos pastores que lhe metem duas costelas para dentro e lhe fazem saltar três ou quatro queixais para fora. Nenhuma das outras ilusões nefastas que Cervantes inventou para o seu cavaleiro teve a permanência dos moinhos de vento.

A ilha não existe, o cargo de governador tampouco, mas é como se existissem, exactamente como no contrato que se estabelece entre o leitor e a obra literária, entre o leitor e o romance de Cervantes ou qualquer outra obra de ficção.




Prefácio

http://vidasemparedes.com.br/como-e-visita-ao-museu-da-loucura-em-barbacena/ - Museu da loucura




Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?


A literatura e a poesia,a meu ver, estão mais perto da realidade que, por exemplo, a investigação psicológica. Esta orienta-se mais pelo mito da realidade e pelo mito das estruturas daí decorrentes. O artista, pelo contrário, consegui manter-se ligado às necessidades e motivações humanas. Um escritor escreve para se opor , com a sua força criativa, à fraude da opinião vigente.

Enquanto o conformista defende a má mãe como sendo boa, o rebelde procura a boa mãe, sendo o seu modo de agir, na realidade, determinado pela influência da má mãe.

Fugimos, cada vez mais, do nosso deserto interior, do nosso vazio (…) Enquanto a cisão ainda não se efetuou, reagimos ao que fazemos e ao que nos acontece com sensações de dor, desamparo, ou felicidade e curiosidade. Como fazem parte da nossa experiência de vida, essas reações são continuamente integradas na nossa psique e aí continuam a fazer o seu efeito. São elas que nos fornecem as energias criativas, uma vez que determinam a nossa recetividade em tudo que interfere connosco vindo de fora. Mas a criatividade diminui na medida em que menosprezamos tais sensações. Uma vez separados do nosso interior, reagimos apenas com ideias e conceitos obrigatórios e pré-fabricados. Daqui até à transformação em robot já não falta muito.
Se a dor, a preocupação e a impotência são negadas por serem consideradas fraquezas, (…) o interior é neutralizado e desligado da engrenagem da vida diária. E, assim, o mundo interior afunda-se cada vez mais no inconsciente. Mas ele continua a ser o motor, mesmo que incógnito, do nosso modo de agir, pensar e sentir.
Há, portanto, dois estados mentais diametralmente opostos: onde o mundo interior é acessível, uma pessoa será capaz de reagir de uma forma criativa aos estímulos externos. Pode mesmo existir como mundo interior inconsciente, desde que seja recuperável. A vida interior é uma entidade muito flexível que tem uma grande capacidade de reação.
No tipo contrário é diferente: se o interior sensível estiver bloqueado, os contatos do indivíduo com o mundo exterior deixá-lo-ão inalterado. Ou melhor: nem existirá um verdadeiro contato com o exterior. A medida do isolamento interior daí decorrente está diretamente relacionada com o ódio de si próprio. Este é provocado pela participação ativa na sujeição ao mando de uma “realidade” que exige a negação de sentimentos autónomos.

O recalcamento do desespero e do desequilíbrio interior, ou seja, o afastamento do seu interior, caracteriza aquelas pessoas, das quais supomos estarem plenamente inseridas na realidade. Essa impressão é causada pelo facto da nossa ideia de “realidade” estar feita à medida desse tipo de personalidade, o que leva a que tal ideia seja aparentemente confirmada as vezes que for preciso. Por isso, o poder de decidir sobre os nossos destinos costuma ser entregue justamente a esse tipo de gente, muito embora não esteja à altura de tal responsabilidade. Mas assim acontece também por essas pessoas encarnarem as nossas próprias fantasias de realismo e força.
O tema deste livro é, por isso, a índole traiçoeira de uma “saúde” que oculta a falta de um verdadeiro Eu e que, ao mesmo tempo, serve de meio para fugir ao caos interior provocado por esse defeito. A separação do interior impossibilita o desenvolvimento de um Eu autêntico.

São estas as pessoas que quero apresentar como as realmente loucas entre nós. Põem-nos todos em perigo, porque são incapazes de encarar de frente o caos, a raiva e o vazio que os preenchem.” A ideia que ressalta e que é preocupante, é que socialmente estamos a criar e favorecer robots, pessoas com funcionamento psicopático, desligadas da sua experiência interior, em negação do seu mundo interior, o que por sua vez favorece que se tornem insensíveis quer a si próprias quer aos outros.

Mais preocupante ainda é de facto este funcionamento desconectado das emoções e vivências internas estar a servir de modelo para a saúde mental – quantas vezes o objetivo verbalizado de quem nos procura é “ajude-me a deixar de sentir, isto é insuportável” ou o objetivo dos familiares e amigos é “ele/ela é demasiado sensível, cure-o/a desta sensibilidade, é intolerável”.

Enquanto rotularmos vulnerabilidade, tristeza, medo como fraquezas, e uma postura estoica e inabalável como forças, estamos condenados, vamo-nos destruindo aos poucos, perdendo o potencial humano e criativo para ideais mecanicistas e económicos que funcionam para números e robots mas definham as pessoas.

Assustador que seja permitirmo-nos sentir a tristeza, o medo, a dor,…, só nesta reconexão recuperamos o nosso potencial criativo e humano e podemos aspirar a uma verdadeira saúde mental, um verdadeiro bem-estar, e um verdadeiro sentido de humanidade.




When you’re feeling like a lover Nothing really matters anymore I saw you standing there in the supermarket With your red dressing falling And your eyes are to the ground Nothing really matters, nothing really matters When the one you love is gone You’re still in me, baby I need you In my heart, I need you / Cause nothing really matters I’m standing in the doorway You’re walking ‘round my place in your red dress, hair hanging down With your eyes on one We love the ones we can Cause nothing really matters When you’re standing, standing I need you, need you / Cause nothing really matters We follow the line of the palms of our hands You’re standing in the supermarket Nothing, holding hands In your red dress, falling, falling in, falling in A long black car is waiting ‘round I will miss you when you’re gone I’ll miss you when you’re gone away forever Cause nothing really matters I thought I knew better, so much better And I need you I need you / Cause nothing really matters On the night we wrecked like a train Purring cars and pouring rain Never felt right about, never again Cause nothing really matters Nothing really matters anymore, not even today No matter how hard I try When you’re standing in the aisle, and no, baby Nothing, nothing, nothing I need, I need, I need you / I need you I need you / Just breathe, just breathe I need you

Embora a peça de Eurípides não tenha obtido um êxito imediato, foi esta versão do mito que divulgou definitivamente a lenda de Medeia filicida. παρ' ούδετέρωι κείται ή μυθοποιία - "ο assunto desta tragédia não se encontra em nenhum dos outros dois [grandes trágicos]"

χρην γαρ άλλοθέν πόθεν βροτους παΐδας τεκνουσθαι, θηλο δ' ουκ είναι γένος
"Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino."

Xo. αλλ' κτανεΐν σον σπέρμα τολμήσεις, γύναι;
Μη. ούτω γαρ αν μάλιστα δηχθείη πόσις.
"Coro: Mas tu hás-de atrever-te a matar a tua descendência, ó mulher?
Medeia: Nada morderá mais rijo no coração de meu marido."

ουκ αν δυναίμην χαιρετώ βουλεύματα τα πρόσθεν αξω παΐδας έκ γαίας έμούς.
"Não, eu não seria capaz. Deixá-las ir, as minhas decisões anteriores. Levarei desta terra os filhos, que são meus."

καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους;
"Ε contudo, que se passa em mim? Quero provocar o escárnio dos meus inimigos, deixando-os sem castigo?"

και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων,δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς.
" Ε compreendo bem ο crime que vou perpetrar, mas, mais potente do que as minhas deliberações, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais."

Φίλαι, δέδοκται τοδργον ά>ς τάχιστα μοι παΐδας κτανούσηι τησδ' άφορμδσθαι χθονός, και μή σχολή ν αγουσαν έκδουναι τέκνα άλλη φονευσαι δυσμενεστέρα! χερί. πάντως σφ' ανάγκη κατθανεϊν ε πει δε χρή, ημείς κτενουμεν οϊπερ εξεφύσαμεν.
"Amigas, decidida está α minha acção: matar os filhos o mais depressa que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais hostil. É absoluta a necessidade de as matar, e, já que é forçoso, matá-las-emos nós, nós que as gerámos."

cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον
"Tu não havias de gozar uma doce vida, depois de teres desprezado o meu leito, escarnecendo de mim."

A maior parte dos homens adotou um sistema determinado de convenções: É a gente de juízo...

O Amor? Pf...Uma necessidade orgânica. Para evacuar preciso de um vaso de loiça; para amar precisamos de um recipiente de carne... Faço estátuas... Em vez de fazer carne com a minha carne, faço vida com as minhas mãos... Mulheres? ... Para quê? Não tenho as minhas estátuas, não tenho mármore? Dizem vocês, literatos cretinos, descrevendo o corpo de uma mulher ideal" as suas pernas , bem torneadas e nervosas, eram duas colunas de rijo mármore..." Apesar da vossa grande imbecilidade, compreendem que a suprema beleza está em parecer pedra. Ora eu tenho pedra, para que hei de querer carne, pateta? ... E a dizer isto, acariciava os seios duma maravilhosa dançarina grega.

A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas duas artes , faríamos vida.

Tu não podes avaliar o tamanho do meu suplício...Não podes... A tua alma não compreende a minha... Tenho horror à vida...meu amigo, tenho horror à morte; menos horror talvez...mais horror...ignoro...Não posso viver, não posso viver...Não quero morrer...não quero morrer...Que ando eu a fazer no mundo? O mesmo que as outras pessoas bem sei... Ah! mas é justamente isso que me aterra, que me horroriza.

Enganaram-se vocês e os médicos com isso a que chamam loucura. O vosso espírito é demasiadamente acanhado para compreender tudo o que não seja o comum, o vulgar.

Diálogo com kierkegaard, apesar de , certamente , Sá-Carneiro nunca tenha lido este filósofo...

Marcela e Raul. Espíritos despreendidos,francos e livres, não se envergonhando de ser animais; possuíram-se encarnando o acto como o mais natural, o mais humano, visto que é ele que fabrica a vida, que fabrica os homens.

"O que há de maldito, num noivado, continua a ser sempre o ético nele contido. O ético é tão entediante na ciência quanto na vida. Que diferença, sob o céu da estética tudo é leve, belo, passageiro! Quando chega a ética, tudo se torna duro, angular, infinitamente
langweiling. No mais rigoroso sentido, um noivado não tem entretanto realidade ética, tal como um casamento, o qual só tem validade ex consensu gentium." Kierkegaard

O meu maior prazer – exclamava – seria passear com o teu corpo nu, mostrá-lo pelas ruas para que toda a gente pudesse admirar a minha obra-prima! Sim! Fui eu que formei, que dei fogo… vida a este corpo!...

"Eros era o deus do amor, mas ele próprio não estava apaixonado. Ainda que os restantes deuses ou homens encontrassem vestígios do poder do amor em si mesmos, atribuíam-no a Eros, imputavam-lho, mas Eros, ele mesmo, não se apaixonava; e ainda que tal lhe tenha acontecido uma vez, tratara-se, então, de uma excepção e, embora fosse o deus do amor, ficava bem atrás dos outros deuses e dos homens quanto ao número de aventuras." Kierkegaard

– Porque te pões amuada? Não queres que eu trabalhe? Ciúmes?... Ah… ah… Um modelo é um manequim sem vida… uma coisa apenas… uma coisa bela, é certo.
– Ela não é um modelo.
– O que é então?
– Uma actriz.
– Ora… ora… – volveu Raul – que faz isso?
– Muito. Já uma vez te servi de modelo, e lembro-me perfeitamente que não fui para ti um simples manequim…


"Decorrido um curto espaço de tempo, um das partes é a primeira a reparar que algo vai mal; queixa-se agora a outra parte e grita aos céus: infidelidade, infidelidade! No decurso de mais algum tempo, a outra parte chega ao mesmo ponto, o que proporciona uma neutralidade, na medida em que a infidelidade recíproca é compensada pelo contentamento e prazer mútuos." Kierkegaard

É horrível a vida! Somos novos, amamos, e cada dia vai consumindo o nosso organismo, envelhecendo-nos… Assistimos, nós mesmos, à morte lenta do nosso corpo… Enquanto beijamos uma boca ardente, enquanto modelamos a carne de um corpo divino, «vai-nos minando o tempo, o tempo – o cancro enorme!...» Oh! bastante razão tinha eu queando me queria aborrecer para o Tempo levar mais tempo a passar!

Se Marcela pensasse como eu, podíamos ser tão felizes… tão felizes… Morrer nos seus braços… a beijar-lhe a boca… a morder-lhe os seios… Morrer com ela… com os nossos corpos entrelaçados… num êxtase supremo dos sentidos… da alma prestes a evolar-se… Ah! Como seria bom… Morríamos romanticamente, numa noite de luar, rodeado de flores… de orquídeas… de rosas… de muitas rosas… Gostava tanto de morrer assim… tanto… Para morrer só falta-me a coragem… tenho medo… Mas ela não pensa como eu… ela pensa como todos… Ela gosta da vida… da vida… da vida… da vida!.

"A reflexão de quase toda a gente prende-se sempre às nossas pequenas diferenças, sem que, naturalmente, nos apercebamos da nossa única necessidade (porque a espiritualidade está em nos apercebermos dela), por isso nada percebem dessa indigência, dessa estreiteza, que é a perda do eu, perdido não porque se evapore no infinito, mas porque se fecha no finito, e porque em vez de um eu se torna num número, mais um ser humano, mais uma repetição dum eterno zero." Kierkegaard

Ela disse-me muita vez: «No dia em que tu me enganares, também eu te enganarei: É a pena de Talião, meu rico…» Ela sabe que a enganei… que tive uma amante… Vingarse-ia? Ah! Vingou-se decerto… todas as mulheres são vingativas… A sua alegria é da vingança.

– Não fujas… não chores…Isto é vitríolo… vou-to lançar ao rosto… espalhá-lo pelo teu corpo… Vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma… vou-te dar a eternidade… fazer parar o tempo… Espera… não grites… não tenhas medo… nem faz doer… nem faz doer… E mesmo que fizesse… É para seres feliz… muito feliz...
O escultor, como que pregado ao solo, não passou a porta. Com os olhos desmesuradamente abertos e os cabelos em pé, olhava como um sonâmbulo para o corredor por onde Marcela tinha desaparecido… ouvia os seus gritos alucinantes…


Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos
Estou assim..


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Quando a loucura não é mera criação artística, mas uma doença cruel, toda a beleza literária da subversão linguística desaparece...


Muitos dos traços do estilo de Ângelo de Lima, como as suspensões sintáticas, a maisculação de termos, o uso significante de vocábulos, o vago, têm uma afinidade com a estética paúlica e interseccionista, e até com estéticas precedentes,pelo que as dificuldades de legibilidade levantadas pela poesia de Ângelo de Lima decorrerão menos de uma relação entre linguagem e loucura, do que de uma opção estética próxima do modernismo. Será verdade?

Fernando Guimarães, que organizou, em 1971, a primeira edição da sua obra, afirma: "se a linguagem corre um risco, não é ainda o da sua destruição. Será o de se diversificar em múltiplos eixos que nos abrem o caminho para múltiplas leituras realizadas em torno do mesmo termo ou, até, do mesmo texto."

Pára-me de repente o Pensamento ...
- Como que de repente refreado
Na Douda Correria em que levado ...
- Anda em busca da paz, do esquecimento...

Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...


Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.


Este poema manifesta a interpretação poética de um fenómeno esquizofrénico peculiar, o bloqueio do pensamento, como um distúrbio das associações que regem o curso do pensamento, assim descrito nas palavras de um outro esquizofrénico, Antonin Artaud: "contracção que bloqueia o meu pensamento a partir do interior, [que] o torna rígido como num espasmo; o pensamento, a expressão pára porque o fluxo é demasiado violento, porque o cérebro quer dizer demasiadas coisas em que pensa simultaneamente. Dez pensamentos em vez de um apressam-se para a saída, o cérebro vê todo o pensamento de uma só vez com todas as suas circunstâncias, e também vê todos os pontos de vista que este pode assumir".

Ângelo de Lima parece querer traduzir no poema a necessidade consciente do desvio do pensamento para uma dimensão nova e infinita, que se mostra, ao mesmo tempo, catalisadora de realidades diferentes.

O homem rasteja, semelhante ao verme Por que não há-de a paz da sepultura - Quanto labor sob a aparente calma! Servir d'abrigo àquele ser inerme, De que há-de um dia após tarefa obscura Surgir vivaz, alada e flor, a Alma.

Eu Ontem Ouvi-te...Andava a luz Do teu olhar, Que me seduz A divagar Em torno a mim.

Não consigo apreciar como poeta. Interessa-me como homem, como paradigma humano , como exemplo geracional: viveu internado, em hospitais psiquiátricos , os últimos 25 anos da sua vida. A geração de orpheu, nomeadamente fernando pessoa, interessa-se pela sua doença ou pela qualidade da sua poesia?? Há algo de perverso no elogio de ângelo de lima:os jovens de orpheu admiram este homem que não é louco por opção, mas por condenação, transformando-o numa espécie de ídolo, fazendo dele qualquer coisa que não sei explicar, mas que não está acima do mal... Havia por parte de fernando pessoa um tal empenho no sentido de associar génio e loucura, mediante manifestações literárias, que Ângelo de Lima passa a ser um caso emblemático entre os poetas órficos...Triste celebridade...

Aos meus Amigos d’Orpheu
— Mia Soave… — Ave?!… — Almeia?!…
— Mariposa Azual… — Transe!…
Que d’Alado Lidar, Canse…
— Dorta em Paz… — Trespasse Ideia!…
— Do Ocaso pela Epopeia…
Dorto… Stringe… o Corpo Elance…
Vai À Campa… — Il C’or descanse…
— Mia soave… — Ave!… — Almeia!…
— Não doi Por Ti Meu Peito…
— Não Choro no Orar Cicio…
— Em Profano… — Edd’ora… Eleito!…
— Balsame — a Campa — o Rocio
Que Cahe sobre o Ultimo Leito!…
— Mi’Soave!… Edd’ora Addio!…


Este poema de ângelo lima é valorado pelos poetas de orpheu e por herberto hélder: "todos concordam na alta apreciação de um mesmo poema..."

Os nossos psychiatras estudaram psychiatria. Estão portanto competentes para dar uma opinião sobre assumptos psychiatricos. Se tivessem estudado biologia, estariam competentes para dar uma opinião sobre assumptos biologicos. Para dar uma opinião sobre literatura, parece, pois, que era mister que tivessem estudado – não psychiatria, que só os habilita a opinar sobre psychiatria – mas literatura.
Fernando Pessoa teve razão, ao indignar-se com a atitude dos psiquiatras, uma vez que estes, na época, diagnosticaram como alienados mentais todos os poetas de orpheu, instalando uma inadmissível confusão entre a loucura / subversão artística e loucura esquizofrénica...

Para esta confusão, quase promícua, terão contribuído textos como estes:

Começo pela parte psychiatrica. A origem dos meus heteronymos é o fundo traço de hysteria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente hysterico, se sou, mais propriamente, um hystero-neurasthenico. Tendo para esta segunda hypothese, porque ha em mim phenomenos de abulia que a hysteria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus symptomas. Seja como fôr, a origem mental dos meus heteronymos está na minha tendencia organica e constante para a despersonalização e para a simulação. fernando pessoa

Não tenhas mêdo de estares a ver a tua cabeça a ir diretamente para a loucura, não tenhas mêdo! Deixa-a ir até á loucura! Ajuda-a a ir até á loucura. Vae tu também pessoalmente, co’a tua cabeça até a loucura! Vem ler a loucura escripta na palma da tua mão. Fecha a tua mão, com força. Agarra bem a loucura dentro da tua mão! Senão… se tens mêdo da duvida e te pões a fugir d’ella por môr da loucura que já está á vista, se não começas desde já a desbastar a fantasia que cresceu no logar marcado para ti, lá em baixo na terra; se não pretendes transformar essa fantasia em imaginação tranquila e creadora… … um dia a loucura virá plo seu próprio pé bater á tua porta, e tu, desprevenido, e tu sem mãos para a esganar... almada negreiros

Eu estou doido. Agora é que já não há duvidas. Se lhe disser o contrário numa carta próxima e se lhe falar como dantes – você não acredite: o Sá- Carneiro está doido. Doidice que pode passear nas ruas – claro. Mas doidice. Assim como o Ângelo de Lima.sá-carneiro

[…] após irregularidades de conduta, por excitações irregulares de sentimento, creio que judicialmente, a sociedade portuense acordando tardia da bronquidão de sentimentos mentais legais, à sobreexcitação prematura de uma espécie de poltronaria, – isto num
grosseirismo, a que a vaidade de paverna não deixou na sombra, e assim bem me foi sensível – me encerrou no Hospital do Conde de Ferreira, aonde a ingénua reclamação do revoltado na surpresa mais auxiliou mentalmente o só motivado encerramento, bastante,
custosamente sofrido durante 3 anos e tal.
ângelo de lima

Se eu quisesse enlouquecia (...)e eu que sou louco, um pouco, não ao ponto de ser belo ou maravilhoso ou assintáctico ou mágico, mas: um pouco louco, porque faço com mãos estilísticas um inverno fora e dentro dos estados naturais […]
Enquanto nós, os loucos, nos alimentamos de apenas intransigência, emoções truculentas, cândida violência de ideias, e vivemos da luminosidade da própria cabeça, os senhores, tão irrefutavelmente sentados à mesa antropófaga, devoram o, por assim dizer,o nosso corpo literal. Vivemos do medo e da sua gesticulação. E é desse medo que se alimentam os senhores, mestres de alguma vil ciência que temos de usurpar, de aprender. herberto hélder

Ser louco parecia ser conditio sine qua non para ser artista, para ser poeta...

Qual a verdade sobre a dimensão literária da loucura de ângelo de lima?

Eu não estou doudo.
Tenho sido manejado como um puro manequim. Os seus meios de manejo têm sido — a mim aqui ao seu dispor abandonado por toda uma sociedade, a começar por aqueles que mais estrito dever tinham de tal não fazer — os seus meios de acção são, já a tortura, já a sugestão, já o veneno. A tortura consiste em maus tratos aqui, sequestros, insultos, intrigas por aí, etc. A sugestão consiste em alusões nas conversas, recadinhos como que involuntariamente enviados, etc. O veneno, esse é o subministrado nas comidas que encontro por ração colocadas no meu lugar, — e consiste em venenos letais, vírus infecciosos, e micróbios, extraídos e culturados nos órgãos dos cadáveres, defuntos naturalmente, ou defuncionados por esta gente, aqui, no meio da imensa mole de carne humilde, anónima, e descurada, desta mole que faz o numerário dos hospitais. Mas também venenos d’outra origem, trazidos através d’um d’estes organismos ao seu dispor (d’um dos doentes humildes que depois defuncionam).Por meio d’estes venenos são-me senhores do cérebro (que legam, manejam, sobreexcitam, centro por centro, fazendo-me assim, rir, chorar, estar triste, falar, estar calado) — são[-]me senhores do cérebro, atacando-me já o modo de função de cada órgão, já ainda cada zona dos órgãos vários, de modo a influir n’aquela zona ou totalidade de tal ou tal pulmão, a que correspondem, e que por seu turno corresponde a tal ou tal órgão.
Longo é explicar o meu caso, minúcia por minúcia — mesmo só o poderia fazer com descanso e n’um sítio em que por um dia estivesse seguro da sua não acção, — mas aqui aonde tenho de almoçar e jantar o que me derem, eles são-me pelo processo acima senhores do organismo e perturbam-me a funcionação do cérebro, o que muito lhes convém pois sou assim confuso — e há gente superficial como aquela a quem eles com um sorriso da sua mais que abalada autoridade, fazem descrer de que se possa actuando nos centros correspondentes (sobre terem tirado todo o outro meio de desabafo e comunicação e tê-lo oprimido de modo a enfurecê-lo) fazem crer que não é possível ser motivado por manejo o bradar furioso.
De quantas moléstias me têm acusado? Sobretudo, sempre no fundo a infecção alcoólica.Eu respondo[:] A infecção alcoólica, mesmo quando incurável (e há-de aí talvez lembrar o que era dito n’uma relação oficial, feita 1 ano que não 3 meses depois (máximo tempo concedido, este de 3 meses, para definição e classificação da moléstia, definição sem a qual ninguém aqui pode ser retido — isto segundo o regulamento elaborado por um especialista eminente) — há-de aí talvez lembrar que eu era n’ela dado como curável) mesmo quando incurável isto é quando adiantada, diminui de intensidade com o tempo de abstenção de bebidas.Eu desde que aqui estou tenho bebido apenas 3 decilitros de vinho aos jantares de 5.ªs e domindo – e 2 vezes que saí com o Fiscal duas ou 3 pingas de vinho – [.]Como aumenta pois a minha infecção?(E aqui cabe dizer que não tem conta nem peso os esforços que eles fazem para me igualar com um alcoólico paralítico, procurando a toda a pressa paralisar-me os movimentos das pernas, o que será anormal que se dê diminuindo a causa, como seria o aumento da infecção).
Hão[-]de me dizer também


"O Ângelo de Lima é um alienado; (...) de fundo mental mórbido." - Miguel Bombarda

No texto«Eu não estou doudo», Ângelo de Lima declarou estar a ser manipulado pela sociedade que o abandonara.Afirma-se vítima de maus tratos e de intrigas e justifica o seu comportamento sobre-excitado como efeito dos venenos subministrados na comida e não, como lhe querem fazer crer, consequência do álcool. Na verdade, como puderam apurar António Lobo Antunes e Inês Silva Dias, em vinte anos de internamento, o Relatório de Miguel Bombarda constitui o único parecer médico sobre Ângelo de Lima, o que diz bem do abandono em que viveu durante esse lapso de tempo. Sem perceber a doença, aceitou a sua condição de alienado. Afonso de Castro, contemporâneo no liceu de Ângelo de Lima, relembra uma visita que fez ao malogrado poeta, em 1918, no Hospital de Rilhafoles, e descreve a sua «figura esguia, angulosa, aprumada de imaginário príncipe exilado», com um «rosto macerado de asceta» e os «olhos grandes, enigmáticos, possessos de todas as miragens [...] órfãos de todas as alegrias, viúvos de todas as ilusões, pobres enfermos de sonhar», numa «aparente serenidade, circunspecção e compostura, abstracto, ensimesmado». Confessou-lhe Ângelo de Lima que era «assediado, todas as noites, por flageladoras obsessões» que o obrigavam a permanecer vigilante no «sombrio desterro». Encontrou-o Afonso de Castro «inteiramente isolado dos outros, dando a impressão de que estava ali por equívoco, ou vítima de interdição imposta por criminosa má fé». Refere ainda que, nessa altura, com o «espírito quase inteiramente restabelecido», não era já a doença que o retinha naquele hospital, era a «miséria», pois fora esquecido pela família, que não lhe perdoara a tentativa de incesto com uma "meia-irmã.
(António Lobo Antunes e Inês Silva Dias referem a justificação de Ângelo de Lima, sobre a sua tentativa de incesto, «julga o doente que o feminino de um indivíduo é precisamente a sua irmã».)

Para os psiquiatras António Lobo Antunes e Inês Silva Dias, os poemas de Ângelo de Lima constituem importantes documentos artísticos da experiência da loucura. No estudo sobre o binómio loucura/criação artística,questionaram se o poeta seria o mesmo artista se fosse um indivíduo dito mentalmente são. Referem os autores que as marcas distintivas da sua poesia... são as características da escrita dos esquizofrénicos, acrescentando ser «pouco provável que o poeta [...] as possuísse sem a doença». Mas vão mais longe:ao compararem os poemas escritos nos períodos de «relativa compensação» com os compostos em «plena fase delirante», concluem que os primeiros são «claramente de uma feitura mais clássica, de uma menor invenção técnica», mas «bem menos conseguidos e belos»

Contraditando a ideia de que não há grande artista que não sofra de qualquer mania e chamando a atenção para o facto de existirem poucas obras de doentes que possam reclamar qualquer interesse artístico, Júlio Dantas publicou um estudo em 1900, com o título Pintores e Poetas de Rilhafoles, onde se pode ler: " O preconceito leigo de que não há grande poeta ou grande pintor que não tenha «aduéla de menos» poderia dar margem a que se esperassem preciosidades da arte de Rilhafolles. Puro engano. O grande valor do documento do louco é exclusivamente psychiatrico. O valor esthetico é minimo ou nullo. [...] Sem base de academias, sem technica, sem cultivo profissional, não há bom pintor nem bom modelador [...] Evidentemente, do artista louco pode esperar-se mais do que do louco artista. O que não quer dizer que se deva esperar muito. A ecclosão d’uma vesania n’um homem de talento, dá immediatamente uma baixa consideravel no valor esthetico das suas produções ulteriores."

Ângelo de Lima era, de facto, um alienado, diagnosticado e comprovado clinicamente, pelo que muitos foram afirmando ser mais famoso pela sua loucura do que pela sua genialidade. Entretanto, vários estudos sociológicos e psicológicos vieram mostrar que certas doenças ligadas à depressão maníaco-depressiva podem, por vezes, aumentar a criatividade de alguns,pois, nesses casos, a produção linguística torna-se excitável e intrusiva e os pensamentos fluem rapidamente de um tópico para o outro. A psicose poderá estimular a actividade artística e facilitar a expressão de um mundo que não é refreado por inibições racionais. A loucura torna-se assim um veículo de comunicação e não de alienação, permitindo, por um lado, a proximidade com uma linguagem que parece inacessível, facilitando a sua tradução em imagens e em palavras, e, por outro, a substituição da linguagem poética por uma outra linguagem adulterada,inconsequente e irracional, só possível de alcançar como consequência desta fusão entre poesia e loucura.

Ângelo de Lima é certamente o caso mais trágico da “literatura de manicómio astral” de Orpheu, porque nele a loucura se apoderou do homem e não apenas da obra e do trabalho de criação. Fernando Pessoa refere em vários dos seus escritos a doença fundamental do homem moderno (“Em cada homem moderno há um neurasténico que tem de trabalhar. A tensão nervosa tornou-se um estado normal na maioria dos incluídos na marcha das cousas públicas e sociais. A hiperexcitação passou a ser de regra”), doença que é também a sua e a da geração órfica (“Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental (...)”, regista no post-scriptum duma carta a Mário de Sá-Carneiro). Também o autor d’ A Confissão de Lúcio descreve reiteradamente a sua “zoina” nas cartas a Pessoa, e chega, numa delas, a tomar a loucura de Ângelo de Lima como termo de comparação com a sua. Mas a histeroneurastenia de Pessoa e de Sá-Carneiro, essa mistura de euforia e tédio que ambos relatam, é uma loucura encenada, dramática, ao passo que a loucura de Ângelo de Lima foi real, trágica. A 1 de Julho de 1915, publicava o jornal República o seguinte testemunho de Amadeu Cunha: “A propósito do novo número de Orpheu recordava ontem A Capital o nome dum grande infeliz que andou muitos anos pelo Porto, donde me parece ser natural, e cuja vida bem ao contrario de ter sido uma boémia risonha foi alguma coisa de um longo calvário, um destino irmão de Glatigny. Talvez não falte aqui quem o haja conhecido ao menos como eu, nos primeiros tempos da sua neurastenia, em que, do Conde Ferreira, onde encontrara, no director, o Sr. Dr. Júlio de Matos, um amigo, colaborava com actividade na Geração Nova, de Júlio Lobato, quer escrevendo versos quer com desenhos que nada tinham de paúlicos mas sobre os quais a inspiração duma musa de vesânica tristeza estendia já os seus véus (...)”.

Ângelo de Lima nasceu efectivamente no Porto, em 1872, sendo seus pais Pedro de Lima – também ele poeta, autor do livro Ocasos (1867) – e Maria Amália Azevedo Coutinho de Lima. Em 1882, ingressou no Colégio Militar de Lisboa, de onde acabaria por ser expulso, por “desacatos e atitudes incompreensíveis”. Regressou ao Porto em 1888, inscrevendo-se então na Academia de Belas Artes. Assentou praça e em 1891 foi enviado a Moçambique, tendo participado numa expedição militar a Manica. Regressou no ano seguinte, e em 1894 voltou a frequentar a Academia de Belas Artes do Porto. As revistas portuenses A Geração Nova (1894-95) e Revista Azul (1896) deram a conhecer alguns dos seus desenhos. Ainda em 1894, Ângelo de Lima foi internado no Hospital Conde Ferreira, onde passou quatro anos. Viveu depois no Algarve e em 1901 mudou-se para Lisboa. Em Dezembro desse ano, foi preso no promenoir do Teatro D. Amélia, “por proferir obscenidades” (como se pode ler no “Relatório sobre o estado mental de Ângelo de Lima”, assinado por Miguel Bombarda), e, na sequência desse episódio, foi internado no Hospital de Rilhafoles. Aí permaneceu durante vinte anos, até à data da sua morte, em 1921.

Os primeiros poemas de Ângelo de Lima revelam as influências cruzadas do Ultra-Romantismo e do Simbolismo, vinculados como estão a uma estética sepulcral e a uma tonalidade melancólica e dolorida. Assim acontece em “Dizem os Sábios que já nada ignoram”, “A meu Pai (no Santo Dia dos Finados)”, “Inês de Castro” e “Sozinho”. Este último constitui um “testamento” poético com algumas semelhanças formais com os de António Nobre (“Balada do caixão”) e de Mário de Sá-Carneiro (“Fim”), mas sem nenhuma encenação dandy ou funâmbula, antes comovendo o leitor pelo tom sério e pela ideação de um fim apenas chorado, sem nenhum convencionalismo, pelos elementos naturais: “Quando eu morrer m’envolva a Singeleza,/ Vá sem Pompa a caminho do coval,/ Acompanhe-me apenas a tristeza/ Não vá do bronze o som de val’ em val!// Chore o céu sobre mim de orvalho as bagas/ Luz do sol-posto fulja em seu cristal,/ Cantem-me o “dorme em paz” ao longe as vagas./ Gemente a viração entoe o “Amém”/ Vá assim té ermas, afastadas plagas.../ Lá...fique eu só!/ Não volte lá ninguém!”.

A par de poemas mais discursivos, de largo fôlego retórico (como os que glosam, em registo megalómano, figuras de rainhas ou cenários históricos), outros vão ao encontro da estética simbolista do “vago”, do “subtil”, do “complexo” (adjectivos de João Gaspar Simões a propósito do poema “Edd’Ora Addio...”), encadeando sugestões graças ao predomínio do sintagma nominal e a uma sintaxe entrecortada, inconfundível, pontuada de reticências e de exclamações (de que o poema “Viver” é o exemplo mais radical). Esse encadeamento de sugestões, por vezes desconexas, e essa sintaxe elíptica traduzem, em muitos poemas, o transe alucinatório, que corta as pontes com a realidade e cria uma realidade outra, delirante e incoerente a nível semântico. Perante ela, somos tentados a fazer, a contrario, um exercício de enquadramento racional (reconhecendo por entre os desvios lexicais e sintácticos alguns termos do dicionário e alguns versos “com sentido”); mas logo a apreendemos como realidade puramente artística, que em si mesma encontra legitimação. Assim, por exemplo, em “Edane! (À Lua)”, reencontramos o tópico romântico da lua, glosado de forma surpreendente e mesmo incompreensível (“Edane Clara e Santa.../Edane Pura!/ - Purfictrio do Símbolo de Prata... Erta Emmemor na Alma/ - Erta Hierata!/ Clareia Calma na Alta Noute Escura (...)”), mas dando azo a uma sequência de manchas impressionistas e a um jogo melódico que emancipam o poema das exigências da significação e lhe conferem justificação própria. O fascínio pela pura melopeia repete-se noutros poemas igualmente enigmáticos e é levado ao extremo em “Edd’Ora Addio... – Mia Soave!... (Aos meus Amigos d’Orpheu)”, onde a coerência semântica cede o passo a uma coerência da matéria fónica dos versos (graças ao encadeamento de sons, às aliterações, às pausas assinaladas por travessões e reticências, às repetições, etc.), que faz deste soneto um dos mais belos da obra de Ângelo de Lima.

Arrastado na sua vertigem, Ângelo de Lima deixou-nos, no entanto, uma genial representação do seu próprio fluir psíquico, inquieto e atormentado pelo sofrimento, no soneto “Pára-me de repente o Pensamento...” (que foi por vezes publicado com o título “Tédio”). Esse movimento louco, a cujo espectáculo o sujeito poético assiste (desdobrando-se e voltando-se sobre si mesmo) é dado pela imagem do cavalo lançado a galope, que por um instante se detém à beira do abismo e acaba por se lançar nele, sem remissão. Como assinalou Yara Frateschi Vieira, “o poema põe em cena três forças: o cavalo alucinado (a aceleração do pensamento), o freio da consciência e a dor, que provoca nova aceleração com consequente mergulho na “noite” (...). A tensão entre essas forças e o esforço que o conflito supõe, explicariam a escolha de uma forma fixa como o soneto para suporte poético: entre a alucinação e a consciência dela, o texto, com os seus limites pré-estabelecidos, mas também as suas repetições, aliterações e paralelismos, oferece uma âncora”. Essa tensão entre uma ordem formal e a desordem que ela descreve é um dos aspectos mais perturbantes do poema, mas a sua força vem também da metáfora continuada, verdadeira “concepção moldurante” da auto-representação da loucura na obra de Ângelo de Lima. Acrescente-se que o símile do cavalo a galope pode ainda ser lido como forma de sugerir o saisissement criador, a própria experiência poética – e teremos então a inteira percepção da modernidade do poema, que Fernando Pessoa reproduziu no nº 3 de Sudoeste, prestando homenagem, no seu texto “Nós os de Orpheu”, a “quem, não sendo nosso, todavia se tornou nosso”.

Posfácio


«Saído do manicómio, João de Deus prosperou, tornando-se responsável pelo Paraíso do Gelado e inventando mesmo a especialidade da loja. Passa o tempo livre em casa, solitário, com uma colecção de pelos do púbis feminino, que ciosamente guarda num Livro de Pensamentos. A dona do Paraíso, Judite, ambiciona alargar o negócio a uma congénere francesa, contando com uma delícia do protegido, para convencer o virtual sócio parisiense. Mas as coisas correm mal, enquanto o próprio comportamento de Deus começa a deteriorar-se com uma mal sã insanidade. A causa mais próxima é Joaninha, a filha do severo talhante do bairro»-José de Matos-Cruz

sábado, 21 de abril de 2018

Arte: frases e manifestos...

Perguntas:
Qual a diferença entre arte e literatura?
O que é uma imagem na literatura?
Qual a diferença entre uma imagem na literatura e na pintura/ fotografia?
Ver é ler? Ler é ver? Qual a diferença? Como se lê, como se vê?
Qual a relação entre o corpo e a linguagem?
Sugestão de um exercício, embora pareça infantil, é estimulante: comer sopa de letras: " a letra alimenta-nos..."
Curiosidade:costume hebraico de pôr palavras religiosas dentro de um ovo e comê-lo, portanto, come-se a palavra divina.



" Começou por ser instalação de museu e acabou por dar origem a um filme: Manifesto é interpretado por Cate Blanchett num invulgar exercício de versatilidade e transfiguração, que desempenha 13 papéis diferentes...
Uma instalação exposta num museu poderá ser (também) um filme? Não haverá, por certo, uma resposta única, muito menos definitiva. Seja como for, o filme Manifesto (estreia-se hoje) propõe uma hipótese original, envolvente e motivadora. E tanto mais quanto nele encontramos 13 personagens interpretadas por Cate Blanchett - todas as 13, entenda-se.
Exposta, desde 2015, em vários museus da Europa, a instalação Manifesto, concebida pelo artista alemão Julian Rosefeldt - também realizador do filme -, começou por ser uma conjunto de cenas autónomas em que Cate Blanchett declama vários extratos de textos que entraram na história como manifesto(s) das mais variadas visões do mundo, da política, do trabalho artístico, das relações humanas.
A lista de textos escolhidos é longa e sugestiva, começando com as palavras do Manifesto do Partido Comunista, escritas por Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, para desembocar nos preceitos técnicos e estéticos estabelecidos pelos cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg quando, em 1995, lançaram as bases do movimento Dogma.
Em qualquer caso, dizer que Blanchett "declama" tais textos é francamente insuficiente, para não dizer inadequado. Seguindo uma metodologia recheada de humor, Rosefeldt encena a atriz em situações e cenários que não estabelecem qualquer relação direta com os "conteúdos" dos manifestos citados. Assim, por exemplo: uma personagem sem abrigo deambula por uma grande zona de ruínas tecendo considerações sobre o situacionismo, citando, entre outros, Alexander Rodtschenko e Guy Debord; as palavras dos dadaístas, incluindo Tristan Tzara, Francis Picabia e Louis Aragon, são ditas por alguém que discursa durante uma cerimónia fúnebre; enfim, as memórias dos surrealistas, evocadas através do manifesto escrito por André Breton em 1924, surgem na boca de um fabricante de marionetas (com uma fascinante coleção de figuras da arte e da política concebida por Suse Wächter).
Cate Blanchett x 13
A multifacetada interpretação de Cate Blanchett é tanto mais surpreendente quanto valoriza a ironia do dispositivo montado por Rosefeldt. Outro exemplo particularmente feliz é aquele em que a atriz se desdobra em apresentadora de um jornal televisivo e repórter a intervir em direto: Blanchett evoca as linhas de força da arte conceptual e minimalista, não em tom de lição ou conferência, antes reproduzindo os automatismos de leitura de notícias e reportagem em contexto televisivo.
Daí também o divertido paradoxo de Manifesto. Não precisamos de conhecer ou reconhecer os textos evocados para sermos sensíveis ao seu apelo utópico. Todos nos falam de mundos mais ou menos alternativos em que, idealmente, as nossas linguagens teriam outra transparência e as relações entre os seres humanos seriam mais equilibradas. Ao mesmo tempo, descobrimo-los para além dos seus cenários "naturais", como se Rosefeldt nos quisesse dizer que é possível regressar a tais textos, não para os aplicar à letra, antes para relançarmos a sua energia de pensamento e os seus inusitados apelos emocionais.
Tendo em conta que este é um filme que, por assim dizer, nasceu no terreno dos museus, Manifesto pode também ser interpretado como um pedagógico exercício sobre as contaminações artísticas do nosso tempo. Afinal, é possível começar no domínio das artes plásticas e das instalações para desembocar no cinema. O cinema agradece a possibilidade de transgressão e transfiguração." In DN, Artes, João Lopes

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão,
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar deito-me nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua na água.


O artista é o criador de coisas belas.

O objectivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.

O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.

A mais elevada, tal como a mais rudimentar, forma de crítica é um modo de autobiografia.

Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito. Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, Para esses há esperança.

Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.

Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.

A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.

Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.

Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.

Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de actor o modelo
.


I'll never be as strong as you I'm a human, human A greater force I answer to...

A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes. [Homem] livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo , burgueses de corporação e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.
Nas épocas anteriores da história encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos estados [ou ordens sociais ], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga, temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais, servos e, ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares. A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas. A nossa época, a época da burguesia, distingue-se, contudo, por ter simplificado as oposições de classes. A sociedade toda cinde-se, cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes que directamente se enfrentam: burguesia e proletariado.


O que é essencial num manifesto é a acusação precisa, o insulto bem definido […] Seria necessário, a meu ver, com um laconismo fulminante e uma crueza absoluta de termos, atacar sem ênfase (o que não exclui as metáforas, muito pelo contrário) aquilo que sufoca, esmaga e apodrece o movimento literário e artístico na Bélgica; denunciar as academias pedantes, as camorras das exposições,a ladroeira dos editores, a tirania dos professores, dos eruditos e dos críticos ilustres mas tolos. Tudo isso, precisando as acusações com alguns detalhes ou anedotas e nomes, sobretudo. É necessário, portanto, violência e precisão; tudo muito corajosamente.

Declara-se para que se saiba:
1. que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.
2. que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade - com quem não simpatizamos igualmente.
3. que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade . Seremos nós os melhores Cofres-fortes dos segredos do Estado:ignoramo-los.
4. que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais , temos o máximo respeito regozijo em ver essas mesmas normas nos comportamentos da sociedade. Assim delas daremos testemunho e mesmo ensino.
5. que não somos assim contra a ordem , o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico ) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.
6. que a crítica é a forma da nossa permanência.
Manifesto surrealista ' Aviso a Tempo por Causa do Tempo' , do genial António Maria Lisboa.


Acredito na resolução futura destes condições aparentemente contraditórias de sonho e realidade numa espécie de realidade absoluta, se assim se pode dizer: surrealidade. Após a conquista, aspiro a certeza de não os alcançar, também despreocupado com a minha morte, no entanto, para não pesar pelo menos as alegrias de tal posse.
Viver e deixar de viver são soluções imaginárias. A existência está noutro local.


1952- Manifesto Ruptura [...] todas as variedades e hibridações do naturalismo; a mera negação do naturalismo, isto é, o naturalismo “errado” das crianças, dos loucos, dos “primitivos”, dos expressionistas, dos surrealistas, etc...; o não figurativismo hedonista, produto do gosto gratuito, que busca a mera excitação do prazer ou do desprazer. É o novo: as expressões baseadas nos novos princípios artísticos; todas as experiências que tendem à renovação dos valores essenciais da arte visual (espaço-tempo, movimento e matéria); a intuição artística dotada de princípios claros e inteligentes e de grandes possibilidades de desenvolvimento prático; conferir à arte um lugar definido no quadro do trabalho espiritual contemporâneo, considerando-a um meio de conhecimento deduzível de conceitos, situando-a acima da opinião, exigindo para o seu juízo conhecimento prévio.


A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. […] Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. […] A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna. […]

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...Hé-lá-á-á-á-á-á-á!De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,Concubina fogosa do universo disperso,Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões...Pum! pum! pum! pum! pum! Agora, sim, partamos, vá lá prá frente,Pum!Heia...heia...heia...heia...heia...
Desencadeio-me como uma trovoada Em pulos da alma a ti, Com bandas militares à frente [...] a saudar-te... Com um [...] contigo e uma fúria de berros e saltos Estardalhaço a gritar-te E o universo anda à roda de nós como um carrocel com música dentro dos nossos crânios, E tendo luzes essenciais na minha epiderme anterior Eu, louco de [...] sibilar ébrio de máquinas,Tu célebre, tu temerário,tu o Walt — e o [...],Tu a [sensualidade porto?]Eu a sensualidade com [...] Tu a inteligência (...)


MANIFESTO FUTURISTA
1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.
5. Nós queremos glorificar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, esforço e liberdade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.
8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade omnipotente.
9. Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda a natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda a vileza oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifónicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas lutas eléctricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as fábricas penduradas nas nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.



Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer "cavalo de pau". Em alemão: "Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!" Em romeno: "Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso." E assim por diante.Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetaste com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.(...) Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal. Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m'Dadá, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio. Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras. Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa. Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.


Dadá é a nossa intensidade: ergue as baionetas sem consequência a cabeça samatral do bebé alemão; Dadá é a vida sem pantufas e paralelas, que é por e contra a unidade e decididamente contra o futuro; sabemos de ciência certa que o nosso cérebro vai transformar-se em almofada confortável, que o nosso antidogmatismo é tão exclusivo como o funcionário, que não somos livres e gritamos liberdade; estrita necessidade sem disciplina e moral e cuspimos na humanidade. Dadá permanece no quadro europeu das fraquezas, mas assim como assim é merda para enfeitarmos o jardim zoológico da arte com todas as bandeiras consulares. Somos directores de circo e assobiamos por entre os ventos das feiras anuais, no meio dos claustros, dos bordéis, dos teatros, das realidades, dos sentimentos, dos restaurantes, ohi, hoho, bang, bang. Declaramos que o automóvel é um sentimento que nos acalentou com a lentidão das suas abstracções tal qual como os barcos a vapor, os ruídos e as ideias. No entanto, exteriorizamos a ligeireza, procuramos o ser central e alegramo-nos quando o ocultamos. Não queremos contar as janelas maravilhosas da elite, pois Dadá não está para ninguém e queremos que toda a gente compreenda isso. Aí é a varanda de Dadá, garanto-lhes. Dela podem ouvir-se as marchas militares, dela se pode descer, rasgando o ar como um serafim e ir mijar num urinol público e compreender a parábola. Dadá não é nem loucura, nem sabedoria, nem ironia, olhe bem para mim, honesto burguês. A arte era uma brincadeira, as crianças juntavam as palavras e punham campainhas no fim, e depois choravam e gritavam a estrofe e calçavam-lhes os botins das bonecas e a estrofe tornava-se rainha para morrer um pouco e a rainha tornava-se baleia e as crianças corriam até ficarem ofegantes.
Depois vieram os grandes embaixadores do sentimento
que gritaram historicamente em coro
psicologia psicologia hihi
ciências ciência ciência
vive la France
não somos ingénuos
somos sucessivos
somos




MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA! SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL! O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS! E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO! E QUEM LHE LAVE A ROUPA! E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS! E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM É INTELLIGENTE NEM DECENTE, NEM ZERO!...
E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE UM DIA HOUVER JUSTIÇA EM PORTUGAL TODO O MUNDO SABERÁ QUE O AUTOR DOS LUZÍADAS É O DANTAS QUE N'UM RASGO MEMORÁVEL DE MODÉSTIA SÓ CONSENTIU A GLÓRIA DO SEU PSEUDÓNIMO CAMÕES. E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE TODOS FÔSSEM COMO EU, HAVERIA TAES MUNIÇÕES DE MANGUITOS QUE LEVARIAM DOIS SÉCULOS A GASTAR. MAS JUYGAES QUE N'ISTO SE RESUME A LITTERATURA PORTUGUEZA? NÃÓ! MIL VEZES NÃO!(...)
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM

Outrosmanifestosdealmada


Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva e o seu refrão: "É preciso criar a pátria portuguesa do século XX".

O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.


OS BAILADOS RUSSOS estão em Lisboa! Isto quer dizer: Uma das mais bellas étapes da civilização da Europa moderna está na nossa terra!”... “Aproveita, portanto, Portuguez! Vae ver os BAILADOS RUSSOS.

Tambémcontraodantasmassemtomdemanifesto...

Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta critica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? Por ex. os “Lusíadas” de Camões têm paixão (o patriotismo), imaginação (o Adamastor, a Ilha dos Amores), mas não falhos de pensamento. Os sonetos de Antero têm sempre pensamento, às vezes imaginação, paixão nunca (Júlio Dantas nada: não é um grande poeta). O arquitecto, o pintor, o escultor não podem mostrar pensamento, nem o pode o compositor musical. Mas os três primeiros podem mostrar imaginação (conquanto não emoção); o segundo emoção, conquanto não imaginação. Vemos assim nitidamente as diferenças entre as artes. O pintor, se quiser dar uma aproximação do pensamento, só pode fazer uma coisa: simbolizar; o escultor menos, o arquitecto nada. O músico nunca pode nem dar nem indicar pensamento. E evidente a razão: a música dá a emoção, as artes da vista a imaginação; ora a emoção não está ligada à razão, mas a imaginação aproxima-se, sendo de perto uma combinação de emoção e razão, tendo o carácter não-rígido da emoção (a mildness), e a frieza da razão. A música é das artes todas a mais intuitiva, a mais instintiva, aquela em que crianças se tornam notáveis; é que da emoção depende e não da imaginação nem do pensamento, quer dizer, a segunda, mais do que a primeira, indesenvolvida nas crianças.

Manifesto - Não só rei novo, como também monarquia nova.
Nem a monarquia de caceteiros, que os miguelistas representam; nem a monarquia de conselheiros, que é pertença de manuelistas. Nada brigantino. Rei que fugiu, deixou de ser Rei.Como tudo quanto é alma portuguesa anseia pelo Rei, esse Rei é o Desejado. Como não sabemos quem há-de ser o Rei, ele é, para nós, o Encoberto. Assim se cria em nós o velho anseio sebastianista, único religiosismo verdadeiramente português. Na madrugada da era que para nós começa, através da névoa das nossas dúvidas e das nossas incompreensões, voltará, do fundo da alma da raça, o Rei da raça dos navegadores, D. Sebastião.


Nota à margem de não haver ainda Portugal Afirmação [p]ara substituir um Manifesto Vimos criar a sensibilidade portuguesa.
Até hoje só tem havido em Portugal a sensibilidade dos outros. Temos vivido por empréstimo a vida eur[o]peia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos. Urge (...)
Lei de Malthus da sensibilidade- Os estímulos da sensibilidade aumentam em proporção geométrica; a própria capacidade de sentir aumenta apenas em progressão aritmética. Ao princípio, não se distingue bem a distância entre as duas progressões, mas, algum tempo passado, torna-se evidente; tempo depois evidentíssima. Na Renascença, ainda no princípio da nossa civilização, existia esta pequena diferença, porquanto a progressão aritmética 2.4.6.8. coincide no seu segundo termo com a progressão geométrica 2.4.8.16.....
É do romantismo para cá que se acentuou deveras com uma nitidez cada vez maior, a distância cavada pela virtude criadora dos números entre as duas progressões. De aí a incapacidade moderna de sentir o que sente. De aí a falência da sensibilidade contemporânea, enquanto não começou a perceber, por intuição aqui pela primeira vez exprimida em Lei, a sua razão aritmológica de ser. Primeiro avançaram os factos políticos para além da capacidade de os sentir; assim se estabeleceu na nossa civilização o princípio democrático quando nenhuma sensibilidade então, nem ainda, está apta a senti-lo.Com a era das máquinas a distância entre os termos de uma e outra progressão acentuou-se dolorosamente.
Terapêutica psíquica - Que maneira há de aproximar a sensibilidade da rápida multiplicação dos estímulos? Evidentemente que maneira natural, por assim dizer, não há nenhuma. Mas há uma maneira artificial. Como obter essa artificialização da sensibilidade? Como pode o homem tornar-se, efectivamente, o construtor do seu próprio emotivismo? Mediante três processos:
(1) a abolição do preconceito da personalidade. Acabemos com a ideia de que cada indivíduo é só ele-próprio. Todos nós coexistimos ao mesmo tempo que existimos. Todos nós somos todos os outros.
(2) A abolição do preconceito da individualidade. Deixemos de aceitar como verdadeira a tese fundamentalmente teológica da indivisibilidade da alma. Somos agregados de células, agrupamentos de psiquismos, de sub-nós, somos inteiramente tudo menos nós-próprios. Submerjamo-nos no mar de nós-próprios, afogados no Universo de lhe pertencermos.
(3) A abolição do dogma da continuidade lateral. Não julguemos mais que nós, do presente, somos um laço, um hífen móbil, entre o passado e o futuro. Não somos. Somos sim contínuos mas não com o passado ou com o futuro. A nossa continuidade é toda com o presente — com o presente externo de todas as coisas, e com o presente interno de todas as sensações.
Invertamos a ignóbil frase cientista que Bacon trasladou de Hipócrates — a de que a Natureza só se vence obedecendo-se-lhe. Ao contrário, à Natureza só se obedece vencendo-a. Só sendo superiores a tudo é que somos os iguais de tudo.
A interpretação futurista é uma visão de míopes da sensibilidade. Olham para o lado da Verdade, mas não lhe distinguem a figura.
Avisam-se os incautos e os sujeitos à hipnose do estrangeiro que este manifesto é superior, em todos os sentidos, a todos os manifestos simbolistas, cubistas ou futuristas.


MANIFESTO ANTROPÓFAGO
Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com os sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-mundi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência.Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais5. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E
sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade.
Esse homem chama-se Galli Mathias. Comi-o.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua
cabeça, antes que algum aventureiro o faça21! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as
ordenações e o rapé de Maria da Fonte22.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura,
sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

Oswald de Andrade
Em Piratininga
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha
(Revista de Antropofagia, Ano I, maio de 1928.)

Manifestoantioquequerquesejaquetiraosono...

Espera-me uma insónia da largura dos astros, E um bocejo inútil do comprimento do mundo. Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, Não posso escrever quando acordo de noite, Não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite! Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, E o meu sentimento é um pensamento vazio. Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. Estou escrevendo versos realmente simpáticos — Versos a dizer que não tenho nada que dizer, Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos... Tantos versos... E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. Sou uma sensação sem pessoa correspondente, Uma abstracção de autoconsciência sem de quê, Salvo o necessário para sentir consciência, Salvo — sei lá salvo o quê... Não durmo. Não durmo. Não durmo. Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! Que grande sono em tudo excepto no poder dormir! Ó madrugada, tardas tanto... Vem... Vem, inutilmente, Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, Segundo a velha literatura das sensações. Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei. Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, Não tenho energia para nada, para mais nada... Só para estes versos, escritos no dia seguinte. Sim, escritos no dia seguinte.


Outrosmanifestosnãomodernistas...



Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar nela. Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulsa dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.
O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.
A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.
Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.

Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti, como de mim.
Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz, seria
Matar a sede com água salgada.



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Fugas...

Fugir de onde os outros sempre vão Pois o que li nos livros ou na mão Não pode ser em vão...


O absurdo é uma fuga, a única fuga possível... O desejo de liberdade é o sintoma da escravidão...

"A menina Albertine foi-se embora!" Como em psicologia o sofrimento vai mais longe que a psicologia!(...) Estas palavras "A menina Albertine foi-se embora!" acabavam de produzir tal sofrimento no meu coração que sentia que já não poderia resistir-lhe mais ,que era preciso por-lhe termo imediatamente (...) a partida de Albertine pareceu-me indiferente e até desejável porque a julgara impossível...
Adeus para sempre, minha querida Albertine, e mais uma vez muito obrigado pelo belo passeio que demos juntos na véspera da nossa separação.
Para que a morte de Albertine tivesse podido suprimir os meus sofrimentos seria preciso que o choque a tivesse matado não apenas na Touraine, mas em mim, onde ela nunca estivera mais viva. Para entrar em nós, uma pessoa foi obrigada a tomar forma, a moldar-se pelo quadro do tempo; como só nos aparece em minutos sucessivos, nunca pôde entregar-nos de si mais que uma só fotografia.

Não teria que aniquilar em mim uma só Albertine, mas inúmeras.(...)E esses momentos do passado não são imóveis; conservam na nossa memória o movimento que os arrastava para o futuro- para um futuro que se tornou também passado - , a nós mesmos nos arrastando para lá.(...) Já não era o futuro de Albertine, era o seu Passado. O seu Passado! É uma força de expressão, visto que para o ciúme não existe nem passado nem futuro, e o que ele imagina é sempre Presente.

McCann -Importa-se de se sentar?
Stanley- Importo-me, sim.
Mc Cann- Pois é, mas é melhor sentar-se.
Stanley -Porque é que não se senta você?
McCann - Não sou eu, é você.
Stanley - Não, obrigado.


Não há uma grande diferença entre aquilo que é real e aquilo que é irreal, nem entre aquilo que é verdade e aquilo que é falso. Uma coisa pode não ser nem verdadeira nem falsa. Pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.(...) No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Quase nunca a encontramos, mas é forçoso andar em sua busca. A busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. A procura é o nosso trabalho. É muitas vezes no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos com ela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, mas muitas vezes também acontece não sabermos que o fizemos. Mas a verdade mesmo é que não há nunca uma só verdade que possamos encontrar na arte do teatro. Há muitas. Estas verdades desafiam-se umas às outras, repercutem, refletem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes, pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e ela escapa-se-nos por entre os dedos e perde-se. Muitas vezes me perguntam como nascem as minhas peças. Não sei dizer. Nem sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer: foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram.


E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.

Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser....É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?


São maçadoras,as memórias. Por isso, não devemos pensar em certas coisas,naquelas que nos interessam mais,ou melhor,devemos pensar,porque, se não pensarmos nelas, corremos o risco de as ir reencontrando,na nossa memória,a pouco e pouco.

Não sei quando morri... No entanto, neste final de tarde,sozinho na minha cama gelada,sinto que vou ser mais velho do que o dia,do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim,o mesmo céu que tantas vezes olhei...Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer para esperar pelos grandes e violentos baques do coração....Vou portanto contar a mim mesmo uma história.

O mar, o céu,a montanha,as ilhas, vieram esmagar-me numa mensa sístole,depois afastaram-se até aos limites do espaço. Pensei vagamente no relato que não fiz,relato à imagem da minha vida,ou seja, sem coragem para terminar nem força para continuar.

Bruscamente,não com o tempo, com o tempo, não pude mais, não pude continuar. Alguém diz. Você não pode ficar aqui. Não podia ficar e não podia continuar...Estou nos meus braços, continuo nos meus braços,sem grande ternura, mas fielmente, fielmente. Durmamos, como à luz daquele candeeiro longínquo,enleados,por termos falado tanto,ouvido tanto,penado tanto, brincado tento.

Isto aqui é outra redoma,que não tardará também a ser inabitável, vai ser preciso partir. Está-se para aqui, onde qur que se esteja será um lugar inabitável,é assim. Por isso, é melhor partir, não, é melhor ficar. Partir para onde?... Procurar, à luz da noite,excessva, uma necessidade à altura da oferta, e voltar para a toca,de mãos vazias,de madrugada, no novo dia.

Esquece, ia dizer esquece isso tudo...Vai haver uma partida, eu serei um dos que partem, não serei eu, eu estarei aqui, direi que estou longe, não serei eu, não direi nada,vai haver uma história,alguém vai tentar contar uma história...Esquece isso tudo, querer esquecer isso tudo, sem saber o que isso tudo significa, é fácil de dizer, é fácil de fazer, em vão, nada mexeu, ninguém falou. Aqui, aqui, nada acontecerá, aqui não haverá ninguém, tão cedo. As partidas, as histórias, não estão para breve.

Onde iria, se pudesse ir, que seria, se pudesse ser, que diria,se tivesse uma voz, quem é que fala assim,dizendo que sou eu? Respondam simplesmente,haja alguém que responda simplesmente. É o mesmo desconhecido de sempre, o único para quem existo,nas profundezas da minha inexistência, da nossa, ora aí está uma resposta simples.
Depois tudo passa, tudo passa, estou outra vez longe, continuo a ter uma história longínqua, espero por mim ao longe para a minha história começar,para a minha história terminar,e mais uma vez esta vez não pode ser a minha.Seria para lá que eu iria,se pudesse ir,seria esse que eu seria, se pudesse ser.

Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.


O álcool não é solução... permite ficar descontraída e simpática uma noite inteira, mas só o sei porque mo contam: nunca me recordo absolutamente de nada... Surgem -me flashes , desconexos, episódicos...Ignora com quem falei, mas mantive conversas interessantes...É uma sorte quando não me depara com gente demasiado conhecida. É estranho, assustador, não fazer ideia de onde esteve, com quem esteve e o que disse...Deve ser por isso que o povo "bebe para esquecer"...Esqueço tudo, menos o que queria ter esquecido...É uma solução degradante: a sociedade provinciana, as convenções, toleram , encaram com permissividade e bonomia, esta solução , em público, mas só nos jovens ou nos homens...

Uma fuga cinematográfica...

Mónica e o desejo - um filme concebido para uma atriz; uma sequência de fotografias, de uma beleza difícil de esquecer, que traduzem estados de alma. Imagens de um casal , em fuga a um quotidiano estiolante, a uma rotina amarga, em busca da plenitude, no efémero momento de um verão. Na ilha de Orno, o paraíso possível, vivem um sonho de amor e liberdade, mas Mónica engravida...Casam, nasce uma filha e ...é a história de sempre, o desenlace inevitável…Acaba o desejo,acaba o amor,acaba a magia, acaba tudo...De novo, imagens de uma mulher,agora sozinha, em fuga a um quotidino estilolante, à procura, à procura...

Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão...


A nudez de Mónica, o assumir do seu desejo e sensualidade, o abandono da filha, a fuga assumida às convenções, tornaram-na uma "bad girl", odiada nos pseudoliberais estados unidos: a catedral da liberdade, do preconceito e do puritanismo tacanho...



Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!


Além da evocação de um devaneio juvenil, este filme suscita uma reflexão, uma breve fuga ao tema fuga: bergman está apaixonado por mónica e sente ciúmes de harry, o realizador torna-se émulo da sua personagem...É um tema que a fascina : a existência de sentimentos concretos, quase palpáveis, por inexistências, por ficções, por seres de papel, por meras imagens...Neste caso, a palavra sentimento deixa de ser, morfologicamente, nome não contável( abstrato para os mais antigos), passando à classe de nome concreto.Em suma, o sentimento por alguém em concreto é abstrato; o sentimento por alguém em abstrato é concreto. Daqui não há fuga possível, vociferem os linguistas o que entenderem...

É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora...


Bernardo soares revolta-se, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não foge, fica. Fica sempre. Imobilizado pelo próprio pensamento, prisioneiro de ânsias que nunca concretizará. Pessoa foge sem fugir, vive a angústia da inutilidade de todas as fugas que pensa. Campos é uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; campos é uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chega a meio e volta para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Reis transforma as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Caeiro, oh caeiro, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... E ela? Eu combino todos estes estados de alma: é só copiar o que foi escrito no parágrafo anterior, modificando o sujeito das frases e reescrevendo-as no feminino... Eu revolto-me, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não fujo, fico. Fico sempre. Imobilizada pelo próprio pensamento, prisioneira de ânsias que nunca concretizarei. Fujo sem fugir, vivo a angústia da inutilidade de todas as fugas que penso. Sou uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; sou uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chego a meio e volto para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Transformo as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Ela, oh ela, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... Ela procura fugir,mas nunca foge.Tem sono sem ter sono... Sente-se exausta , dorida, mas não lhe apetece dormir, não consegue deixar de pensar...o corpo começa a exigir um descanso que a mente não permite. Sabe que é imaginação delirante e suscetibilidade exacerbada que desencadeiam esses estados depressivos. Andava a ficar serena, pacificada, consciente da realidade, mas ... estou de novo, à beira-mágoa, qual pessoa à espera de d. sebastião...Quero fugir, mas não consigo... Limito-me a recorrer "ao efeito simplificador da estupidez"... É isso: não sou burra, não sou palerma ou ingénua, sou simplesmente estúpida!!