Fugir de onde os outros sempre vão Pois o que li nos livros ou na mão Não pode ser em vão...
O absurdo é uma fuga, a única fuga possível... O desejo de liberdade é o sintoma da escravidão...
"A menina Albertine foi-se embora!" Como em psicologia o sofrimento vai mais longe que a psicologia!(...) Estas palavras "A menina Albertine foi-se embora!" acabavam de produzir tal sofrimento no meu coração que sentia que já não poderia resistir-lhe mais ,que era preciso por-lhe termo imediatamente (...) a partida de Albertine pareceu-me indiferente e até desejável porque a julgara impossível...
Adeus para sempre, minha querida Albertine, e mais uma vez muito obrigado pelo belo passeio que demos juntos na véspera da nossa separação.
Para que a morte de Albertine tivesse podido suprimir os meus sofrimentos seria preciso que o choque a tivesse matado não apenas na Touraine, mas em mim, onde ela nunca estivera mais viva. Para entrar em nós, uma pessoa foi obrigada a tomar forma, a moldar-se pelo quadro do tempo; como só nos aparece em minutos sucessivos, nunca pôde entregar-nos de si mais que uma só fotografia.
Não teria que aniquilar em mim uma só Albertine, mas inúmeras.(...)E esses momentos do passado não são imóveis; conservam na nossa memória o movimento que os arrastava para o futuro- para um futuro que se tornou também passado - , a nós mesmos nos arrastando para lá.(...) Já não era o futuro de Albertine, era o seu Passado. O seu Passado! É uma força de expressão, visto que para o ciúme não existe nem passado nem futuro, e o que ele imagina é sempre Presente.
McCann -Importa-se de se sentar?
Stanley- Importo-me, sim.
Mc Cann- Pois é, mas é melhor sentar-se.
Stanley -Porque é que não se senta você?
McCann - Não sou eu, é você.
Stanley - Não, obrigado.
Não há uma grande diferença entre aquilo que é real e aquilo que é irreal, nem entre aquilo que é verdade e aquilo que é falso. Uma coisa pode não ser nem verdadeira nem falsa. Pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.(...) No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Quase nunca a encontramos, mas é forçoso andar em sua busca. A busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. A procura é o nosso trabalho. É muitas vezes no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos com ela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, mas muitas vezes também acontece não sabermos que o fizemos. Mas a verdade mesmo é que não há nunca uma só verdade que possamos encontrar na arte do teatro. Há muitas. Estas verdades desafiam-se umas às outras, repercutem, refletem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes, pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e ela escapa-se-nos por entre os dedos e perde-se. Muitas vezes me perguntam como nascem as minhas peças. Não sei dizer. Nem sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer: foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram.
E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser....É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
São maçadoras,as memórias. Por isso, não devemos pensar em certas coisas,naquelas que nos interessam mais,ou melhor,devemos pensar,porque, se não pensarmos nelas, corremos o risco de as ir reencontrando,na nossa memória,a pouco e pouco.
Não sei quando morri... No entanto, neste final de tarde,sozinho na minha cama gelada,sinto que vou ser mais velho do que o dia,do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim,o mesmo céu que tantas vezes olhei...Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer para esperar pelos grandes e violentos baques do coração....Vou portanto contar a mim mesmo uma história.
O mar, o céu,a montanha,as ilhas, vieram esmagar-me numa mensa sístole,depois afastaram-se até aos limites do espaço. Pensei vagamente no relato que não fiz,relato à imagem da minha vida,ou seja, sem coragem para terminar nem força para continuar.
Bruscamente,não com o tempo, com o tempo, não pude mais, não pude continuar. Alguém diz. Você não pode ficar aqui. Não podia ficar e não podia continuar...Estou nos meus braços, continuo nos meus braços,sem grande ternura, mas fielmente, fielmente. Durmamos, como à luz daquele candeeiro longínquo,enleados,por termos falado tanto,ouvido tanto,penado tanto, brincado tento.
Isto aqui é outra redoma,que não tardará também a ser inabitável, vai ser preciso partir. Está-se para aqui, onde qur que se esteja será um lugar inabitável,é assim. Por isso, é melhor partir, não, é melhor ficar. Partir para onde?... Procurar, à luz da noite,excessva, uma necessidade à altura da oferta, e voltar para a toca,de mãos vazias,de madrugada, no novo dia.
Esquece, ia dizer esquece isso tudo...Vai haver uma partida, eu serei um dos que partem, não serei eu, eu estarei aqui, direi que estou longe, não serei eu, não direi nada,vai haver uma história,alguém vai tentar contar uma história...Esquece isso tudo, querer esquecer isso tudo, sem saber o que isso tudo significa, é fácil de dizer, é fácil de fazer, em vão, nada mexeu, ninguém falou. Aqui, aqui, nada acontecerá, aqui não haverá ninguém, tão cedo. As partidas, as histórias, não estão para breve.
Onde iria, se pudesse ir, que seria, se pudesse ser, que diria,se tivesse uma voz, quem é que fala assim,dizendo que sou eu? Respondam simplesmente,haja alguém que responda simplesmente. É o mesmo desconhecido de sempre, o único para quem existo,nas profundezas da minha inexistência, da nossa, ora aí está uma resposta simples.
Depois tudo passa, tudo passa, estou outra vez longe, continuo a ter uma história longínqua, espero por mim ao longe para a minha história começar,para a minha história terminar,e mais uma vez esta vez não pode ser a minha.Seria para lá que eu iria,se pudesse ir,seria esse que eu seria, se pudesse ser.
Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
O álcool não é solução... permite ficar descontraída e simpática uma noite inteira, mas só o sei porque mo contam: nunca me recordo absolutamente de nada... Surgem -me flashes , desconexos, episódicos...Ignora com quem falei, mas mantive conversas interessantes...É uma sorte quando não me depara com gente demasiado conhecida. É estranho, assustador, não fazer ideia de onde esteve, com quem esteve e o que disse...Deve ser por isso que o povo "bebe para esquecer"...Esqueço tudo, menos o que queria ter esquecido...É uma solução degradante: a sociedade provinciana, as convenções, toleram , encaram com permissividade e bonomia, esta solução , em público, mas só nos jovens ou nos homens...
Uma fuga cinematográfica...
Mónica e o desejo - um filme concebido para uma atriz; uma sequência de fotografias, de uma beleza difícil de esquecer, que traduzem estados de alma. Imagens de um casal , em fuga a um quotidiano estiolante, a uma rotina amarga, em busca da plenitude, no efémero momento de um verão. Na ilha de Orno, o paraíso possível, vivem um sonho de amor e liberdade, mas Mónica engravida...Casam, nasce uma filha e ...é a história de sempre, o desenlace inevitável…Acaba o desejo,acaba o amor,acaba a magia, acaba tudo...De novo, imagens de uma mulher,agora sozinha, em fuga a um quotidino estilolante, à procura, à procura...
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão...
A nudez de Mónica, o assumir do seu desejo e sensualidade, o abandono da filha, a fuga assumida às convenções, tornaram-na uma "bad girl", odiada nos pseudoliberais estados unidos: a catedral da liberdade, do preconceito e do puritanismo tacanho...
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Além da evocação de um devaneio juvenil, este filme suscita uma reflexão, uma breve fuga ao tema fuga: bergman está apaixonado por mónica e sente ciúmes de harry, o realizador torna-se émulo da sua personagem...É um tema que a fascina : a existência de sentimentos concretos, quase palpáveis, por inexistências, por ficções, por seres de papel, por meras imagens...Neste caso, a palavra sentimento deixa de ser, morfologicamente, nome não contável( abstrato para os mais antigos), passando à classe de nome concreto.Em suma, o sentimento por alguém em concreto é abstrato; o sentimento por alguém em abstrato é concreto. Daqui não há fuga possível, vociferem os linguistas o que entenderem...
É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora...
Bernardo soares revolta-se, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não foge, fica. Fica sempre. Imobilizado pelo próprio pensamento, prisioneiro de ânsias que nunca concretizará. Pessoa foge sem fugir, vive a angústia da inutilidade de todas as fugas que pensa. Campos é uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; campos é uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chega a meio e volta para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Reis transforma as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Caeiro, oh caeiro, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... E ela? Eu combino todos estes estados de alma: é só copiar o que foi escrito no parágrafo anterior, modificando o sujeito das frases e reescrevendo-as no feminino... Eu revolto-me, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não fujo, fico. Fico sempre. Imobilizada pelo próprio pensamento, prisioneira de ânsias que nunca concretizarei. Fujo sem fugir, vivo a angústia da inutilidade de todas as fugas que penso. Sou uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; sou uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chego a meio e volto para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Transformo as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Ela, oh ela, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... Ela procura fugir,mas nunca foge.Tem sono sem ter sono... Sente-se exausta , dorida, mas não lhe apetece dormir, não consegue deixar de pensar...o corpo começa a exigir um descanso que a mente não permite. Sabe que é imaginação delirante e suscetibilidade exacerbada que desencadeiam esses estados depressivos. Andava a ficar serena, pacificada, consciente da realidade, mas ... estou de novo, à beira-mágoa, qual pessoa à espera de d. sebastião...Quero fugir, mas não consigo... Limito-me a recorrer "ao efeito simplificador da estupidez"... É isso: não sou burra, não sou palerma ou ingénua, sou simplesmente estúpida!!
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quinta-feira, 8 de junho de 2017
Fugas...
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sábado, 15 de outubro de 2016
Medos...Pânico... Apatia... Telepatia...
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas? Ai o medo de ter medo....
Mas vou dizer-te...o que não me apavora. Não tenho medo de estar sozinho, de ser desdenhado por quem quer que seja, nem de deixar seja lá o que for que eu tenha que deixar. E não tenho medo, tão pouco, de cometer um erro, um erro que dure toda a vida e talvez tanto quanto a própria eternidade.
Porque existe o desejo, o olfato, e o medo, os vivos apaixonam-se por outros vivos...e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável. E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos - os que nos vão sobreviver no tempo – e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr, é preciso sair dos ossos, fugir ao obrigatório, à casa, encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, um mapa, fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância, onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos, Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, família, e alguns outros assuntos, mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar, de que não sabemos falar. E é por tudo isso, e por quase tudo o que faltou dizer, é por isso que é bom, por vezes, suspender a noite e o coração, e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.É por isso que é bom, por vezes, ocuparmos o corpo no acto de sentar, e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro, que nos salve, por enquanto, antes de morrermos.
Como contacto praticamente permanente com a lógica surgiu-me um sentimento que nunca antes eu experimentara: o medo de viver, o medo de respirar. Com urgência preciso lutar porque esse medo me amarra mais do que o medo da morte, é um crime contra mim mesmo...Que medo alegre, o de te esperar.
Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que ... regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim. (...)
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, (...) reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de... — a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência... É com enorme terror que me vejo..
A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os atores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo.
aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.
I'm too afraid I'm too afraid I just don't know what to do With myself...
A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores...
O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas.
Algum pronto a morrer pelo terror
Da tempestade, que se encontra só
Numa planície vasta, ou vasto oceano,
E onde ele, sem abrigo ou falso abrigo,
Logra, sem se iludir, qu'rer iludir-se
Em terror, rugem (...) e desabam
Os terrores em luz, e som e abismo
Da tempestade e que, mais do que trémulo,
Mais que convulso no terror extremo,
Pensa já perto da loucura, quanto
Fugir mais do que em si, desaparecer,
Sumir-se, dessentir-se (...)
A sala de visitas comunica com o jardim, estreito e mal tratado, cujo único encanto são duas gloriosas palmeiras imperiais, muito altas, muito altivas, que se erguem uma em cada extremo, vigiando a casa. A sala está ligada à biblioteca. Passa-se desta para o corredor através de uma porta larga. O corredor é um túnel fundo, húmido e escuro, que permite o acesso ao quarto de dormir, à sala de jantar e à cozinha. Esta parte da casa está voltada para o quintal. A luz da manhã afaga as paredes, verde, branda, filtrada pela ramagem alta do abacateiro. Ao fundo do corredor, do lado esquerdo de quem entra, vindo da sala, ergue-se com esforço uma pequena escada em três lances quebrados. Subindo-a, chega-se a uma espécie de mansarda, que o albino pouco frequenta. Está cheia de caixotes com livros. Eu também não vou lá muitas vezes. Morcegos dormem nas paredes, de cabeça para baixo, embrulhados nas suas capas negras. Ignoro se as osgas fazem parte da dieta dos morcegos. Prefiro continuar sem saber. O mesmo motivo – o terror! –impede-me de explorar o quintal.
Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, ilumem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu.
A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável. Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.
Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolha os livros.
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. Para ti eu criarei um dia puro Livre como o vento e repetido Como o florir das ondas ordenadas.
O que há de característico no terror é que ele não está claramente consciente dos seus motivos; não os conhece e, se necessário, fornece o próprio terror como motivo do terror....
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas?
As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu.
Medo é desculpa em leve chuva ...Medo é fraqueza como nuvem...
...that you might turn from him when he had gone and he from you. Then I would have offered you my gift. You know what it was now... Not the best perhaps. Best or worst- it would have been yours.
If this was our last song, what would we do then? (If) this was our last song, what would we say then?
If this was our last time, what would we do, what would we say then?
Quando não vemos claramente imaginamos.E desta imaginação pode surgir o medo ou a invenção...a noite é a origem do medo e da criatividade. As invenções são, afinal,medos...
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu os sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e despersonaliza.Nunca vou para onde há risco. Tenho medo ao tédio dos perigos.
Os gestos que não saem, doem.A carícia que se guarda na concha da mão.A boca que engole o beijo.Só os olhos e as palavras não chegam...Mas tenho medo e não me movo.Se fosse capaz de me ir embora, mas fico.Por enquanto ainda me apetece ficar.Olho, falo.É é preciso que isso chegue.Se eu me fosse embora...Mas eu...Fico. Fico a cansar as coisas.A gastar as palavras.A repetir os mesmos gestos tímidos, as reticências e as ambiguidades.Fico e tenho a sensação de me tornar chata.
But I don't have the drugs to sort...I don't have the drugs to sort it out, sort it out You're the voices swallowing my soul, soul, soul
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Tenho medo...
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas? O medo de perder as palavras...
Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo.
- Venha até a borda, disse ele.
- Tenho medo.
- Venha até a borda, ele insistiu.
Ela foi, Ele empurrou-a ...e voaram.
Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha... A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o medo da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha.
Sempre considerei as galinhas um dos animais mais estúpidos da criação; nunca experimentei qualquer empatia relativamente a estas aves incapazes de voar; o seu cacarejar sempre me provocou irritação. Eis que ,subitamente, me sinto galinha: vivo como em sonho, insciente , não consigo voar e... cacarejo.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Amar é ter medo, um medo enorme, mesmo inconfessado, de perder… Amar é ter medo de desiludir, de desencantar… é ter medo que o fascínio termine … Amar é um estado de medo permanente…
Portugal é mesmo um país que me assusta: como é possível esta história ter sido escrita em 1726 e só em 2010 ser conhecida neste recanto recôndito da cultura europeia? Confio não ter o incómodo de me desiludir...
Será uma tarefa da maior utilidade fornecer a história deste tirano dos ares,deste deus do mundo,deste terror e aversão da humanidade a que chamamos Diabo...isto porque não duvido que o Diabo está ,e de bona fide, em muitos dos nossos amigos de cabeça oca que desconhecem completamente o assunto.
É consensual entre os autores, tanto sagrados como profanos, que esta criatura à qual chamamos agora Diabo era originariamente um anjo de luz, um glorioso serafim, porventura o mais selecto de todos os gloriosos serafins.
Não posso deixar de observar...que...parece que o Diabo não se enganou no primeiro julgamento que fez da Srª Eva,e que Satã acertou em cheio no trabalho que pôde fazer com ela.
Numa palavra, o Sr.Milton criou indubitavelmente um belo poema,mas é o diabo de uma história...O Sr Milton encarrega-se de contar a história com tal pormenor,como se ele tivesse nascido lá, e tivesse descido até cá abaixo,de propósito, apenas para nos deixar o relato do sucedido...
...Deixo-o entregue nas vossas mãos,desejando que possais ser capazes de não dar pior relato dele sobre os tempos que hão-desobre vir ,do que aquele que eu dei sobre os tempos que passaram.
O Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis Vai ter olhos onde ninguém os veja mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no teto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos ótimos empregos poemas originais
e poemas como este projetos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários (assim assim) escriturários (muitos) intelectuais (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com certeza a deles Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados Ah o medo vai ter tudo tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos Sim a ratos
Ouve o que eu te digo, Vou-te contar um segredo, É muito lucrativo que o mundo tenha medo, Medo da gripe, São mais uns medicamentos, Vem outra estirpe reforçar os dividendos, Medo da crise e do crime como já vimos no filme, Medo de ti e de mim, Medo dos tempos, Medo que seja tarde, medo que seja cedo e medo de assustar-me se me apontares o dedo, Medo de cães e de insectos, Medo da multidão, Medo do chão e do tecto, Medo da solidão, Medo de andar de carro, Medo do avião, Medo de ficar gordo velho e sem um tostão, Medo do olho da rua e do olhar do patrão e medo de morrer mais cedo do que a prestação, Medo de não ser homem e de não ser jovem, Medo dos que morrem e medo do não! Medo de deus e medo da polícia, Medo de não ir para o céu e medo da justiça, Medo do escuro, do novo e do desconhecido, Medo do caos e do povo e de ficar perdido, Sozinho, Sem guito e bem longe do ninho, Medo do vinho, Do grito e medo do vizinho, Medo do fumo, Do fogo,Da água do mar,Medo do fundo do poço,Do louco e do ar,Medo do medo,Medo do medicamento,Medo do raio, Do trovão e do tormento, Medo pelos meus e medo de acidentes, Medo de judeus, negros, árabes, chineses, Medo do “eu bem te disse”, Medo de dizer tolice, Medo da verdade, da cidade e do apocalipse, O medo da bancarrota e o medo do abismo, O medo de abrir a boca e do terrorismo. Medo da doença, Das agulhas e dos hospitais, Medo de abusar, De ser chato e de pedir demais, De não sermos normais, De sermos poucos, Medo dos roubos dos outros e de sermos loucos, Medo da rotina e da responsabilidade, Medo de ficar para tia e medo da idade, Com isto compro mais cremes e ponho um alarme, Com isto passo mais cheques e adormeço tarde, Se não tomar a pastilha, Se não ligar à família, Se não tiver um gorila à porta de vigília, Compro uma arma, Agarro a mala, Fecho o condomínio, Olho por cima do ombro, defendo o meu domínio, Protejo a propriedade que é privada e invade-me a vontade de por grade à volta da realidade, do país e da cidade, Do meu corpo e identidade, Da casa e da sociedade, Família e cara-metade… Eu tenho tanto medo… Nós temos tanto medo… Eu tenho tanto medo… O medo paga a farmácia, Aceita a vigilância, O medo paga à máfia pela segurança, O medo teme de tudo por isso paga o seguro, Por isso constrói o muro e mantém a distância! Eles têm medo de que não tenhamos medo.
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Desço dentro de mim, olho a paisagem,
Analiso o que sou, penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!
Pan, deus dos pastores e dos rebanhos, tinha o rosto barbudo, chifres, uma expressão animalesca e membros inferiores como os do bode.
Quando nasceu, a sua mãe horrorizou -se com o filho monstruoso que havia gerado, porém o seu pai, envolvendo-o com uma pele de lebre, levou -o para o Olimpo, colocando-o ao lado de Zeus, mostrando-o aos demais deuses, que, de imediato, gostaram dele. Como divindade silvestre, eram -lhe atribuídos os ruídos, de causa ignorada, em campos e bosques que, com frequência, amedrontavam camponeses e pastores. Por essa razão, surgiu a expressão deima panikon (medo causado por Pan), abreviada pela palavra grega panikós , que, através do latim panicus, originou o vocábulo pânico, com significado similar: medo intenso por causa de algo de origem desconhecida.
É o único som que me pacifica quando tenho aquelas insónias misturadas com uma espécie de ataque de pânico, esse medo demoníaco que, não sendo medo, assusta. "O pânico é ansiedade máxima em situações inexplicáveis."
A paixão é um pânico das emoções, e como o pânico — que nisto se distingue do medo — estilhaça a inibição, desorienta o espírito, vira o indivíduo contra as suas próprias aquisições mentais superiores, e muitas vezes o conduz a fazer o que mal sabe que faz, ou que a própria paixão se fosse menor, como o pânico se não fosse mais que medo, o levaria ou aconselharia a não fazer.
Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que ninguém ainda que válido, poderia salvar.(...) Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia. O pensamento, que em outros é uma bússola da acção, é para mim um microscópio dela, que me faz ver universos a atravessar onde um passo bastara para transpor - como se o argumento de Zenão, da intransponibilidade de cada espaço, que, por ser infinitamente divisível, é pois infinito, fosse uma droga estranha com que me houvessem intoxicado o organismo espiritual. E o sentimento, que em outros se introduz na vontade como a mão na luva, ou a mão nos copos da espada, foi sempre em mim uma outra maneira de pensar - fútil como uma raiva com que trememos até nos não podermos mexer, espécie de pânico da exaltação que, como o pânico, deixa colado ao chão o medroso a quem o mesmo medo deveria fazer fugir. Toda a minha vida tem sido uma batalha perdida no mapa; a cobardia nem sequer foi no campo, onde talvez a não houvesse, mas no gabinete do chefe do Estado Maior, e de ele a sós com a sua convicção da derrota. Não se ousou o plano porque haveria de ser imperfeito; não se ousou torná-lo perfeito, ainda que não pudesse realmente sê-lo, porque a convicção de que não seria perfeito quebrou a vontade com que ele, ainda que imperfeito, sempre se poderia tentar. Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais perfeito que o do inimigo. É que o meu vero inimigo... era aquela mesma ideia de perfeição, que me saía à frente antes que todas as hostes do mundo, na vanguarda trágica de todos os comandos do mundo.
Inutilmente vivida Acumula-se-me a vida Em anos, meses e dias; Inutilmente vivida, Sem dores nem alegrias...
Releio, em uma destas sonolências sem sono, em que nos entretemos inteligentemente sem a inteligência, algumas das páginas que formarão, todas juntas, o meu livro de impressões sem nexo. E delas me sobe, como um cheiro de coisa conhecida, uma impressão deserta de monotonia. Sinto que, ainda ao dizer que sou sempre diferente, disse sempre a mesma coisa; que sou mais análogo a mim mesmo do que quereria confessar; que, em fecho de contas, nem tive a alegria de ganhar nem a emoção de perder. Sou uma ausência de saldo de mim mesmo, de um equilíbrio involuntário que me desola e enfraquece.
Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar...
Em torno o meu o mundo oscila, o ser Oscila, e a consciência de sentir Desfaz-se em sensações de pensamento E distúrbios obscuros de ideação, Embebidos num sonho de sentir E sonhado sentimento de sonhar. Horror supremo! E não poder gritar A Deus — que Deus não há — pedindo alívio! A alma em mim se ironiza, só pensando Na de pedir ridícula vaidade, Interrupção da determinação E férrea lei do mundo. Górgias, antigo Górgias, que dizias Que se alguém algum dia compreendesse, Atingisse a verdade, não podia Comunicá-la aos outros — já entendo O teu profundo e certo pensamento Que ora não compreendia. Tenho em mim A verdade sentida e compreendida, Mas fechada em si mesma, que não posso Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa.Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.
Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias...ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...Com quem? Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...)
Desde que me convenci da inutilidade de qualquer esforço desinteressado, nunca mais pensei em escrever um livro; limito-me a apontamentos. Inútil por inútil, diminua ao menos a maçada.
Fernando Pessoa escreveu a fio — a fio, humanamente — aqueles poemas complicados. O Fernando Pessoa que, quando escreve uma quadra, emprega esforços de organização industrial para ver como há-de dispor através dela os dezassete raciocínios que ela é obrigada por lei a conter; que, quando sente qualquer coisa, se pôe logo a cortá-la com uma tesoura de cinco críticos, a embrulhar-se em porque é que o segundo verso contém um adjectivo biforme e em ver como é que não sendo «mas» bom português naquela altura, vai conseguir que «senão» tenha uma sílaba só.Este homem, tão inutilmente bem dotado, vivendo constantemente na parabulia da sua complexidade, teve naquele momento — também ele — a sua libertação.
Gostei de me pensar como um ser inutilmente bem dotado, vivendo na parabulia da minha complexidade...
Não podemos ficar zangados com o nosso próprio tempo sem que isso nos traga danos a nós próprios. Estava,aliás, sempre disposto a a amar estas manifestações ao vivo.O que nunca conseguiu foi amá-las sem reservas, como exige o bem-estar social.Há muito tempo que um resto de aversão pairava sobre tudo o fazia e vivia,uma sombra de impotência e solidão,uma aversão universal para a qual não conseguia encontrar um contraponto positivo. Sentia-se muitas vezes como se tivesse uma vocação para a qual , por enquanto, não havia objectivo.
Parecia-lhe que, ao entrar na idade adulta,tinha caído numa apatia generalizada que, apesar de alguns turbilhões ocasionais e efémeros, trouxe à sua vida um ritmo cada vez mais desencantado e confuso.
Era sensível , e a sua sensibilidade era constantemente agitada por meditações, depressões, montes e vales; nunca era indiferente , mas via em tudo uma felicidade ou uma fatalidade, tendo, assim, sempre oportunidade para pensar alguma coisa excitante. Pessoas como estas exercem sobre os outros uma atracção pouco comum...
Fugir mais do que em si, desaparecer, Sumir-se, dessentir-se (...) Mais do que não viver por não sentir; E todo o horror das convulsões que os céus, O nosso todo ruge e estala E todo o corpo dele é um sentido Para sentir pavor, e cada poro É sentiente e consciente e agudo Em ter uma atenção de terror cheia; E o aflito e convulso nunca logra, Como na dor e na tristeza, ter Uma apatia e uma (...) Ah, horrorosamente consciente E pávido e convulso, nem dorido Nem (...) de mágoa ou de desejo Assim eu sou. (...)
Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro.
I can feel you searching round my brain Looking for a way to make a wave Falling out and in In and out again Until our falling thoughts cascade together...
"Omnia fui, nihil expedit."
Quanto mais contemplo o espectáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro da ficção ingénita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação que a todos, que reflectem, uma ou outra vez terá sucedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas, o caminho complexo dos progressos e das civilizações, a confusão grandiosa dos impérios e das culturas - tudo isso me parece como um mito e uma ficção, sonhado entre sombras e esquecimentos. Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deve estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo "Já sei tudo", ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: "omnia fui, nihil expedit - fui tudo, nada vale a pena".
En resolución, él se enfrascó tanto en su letura que se le pasaban las noches leyendo ... y los días...: y así del poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro,de manera que vino a perder el juicio. Ainda me acontece o mesmo...Acho esta imagem de o cérebro a secar aliciante...Um cérebro seco não é , está mas não é ...
Já é noite e o frio Está em tudo que se vê Lá fora ninguém sabe Que por dentro há vazio Porque em todos há um espaço Que por medo não se vê Onde a ilusão se esquece Do que o medo não previu
Mas vou dizer-te...o que não me apavora. Não tenho medo de estar sozinho, de ser desdenhado por quem quer que seja, nem de deixar seja lá o que for que eu tenha que deixar. E não tenho medo, tão pouco, de cometer um erro, um erro que dure toda a vida e talvez tanto quanto a própria eternidade.
Porque existe o desejo, o olfato, e o medo, os vivos apaixonam-se por outros vivos...e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável. E não basta então a mulher que amamos, nem os filhos - os que nos vão sobreviver no tempo – e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr, é preciso sair dos ossos, fugir ao obrigatório, à casa, encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, um mapa, fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância, onde Deus era chocolate e o resolvíamos, assim, de uma vez, porque o comíamos, Porque mais tarde crescemos e ganhamos dinheiro, família, e alguns outros assuntos, mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar, de que não sabemos falar. E é por tudo isso, e por quase tudo o que faltou dizer, é por isso que é bom, por vezes, suspender a noite e o coração, e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.É por isso que é bom, por vezes, ocuparmos o corpo no acto de sentar, e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro, que nos salve, por enquanto, antes de morrermos.
Como contacto praticamente permanente com a lógica surgiu-me um sentimento que nunca antes eu experimentara: o medo de viver, o medo de respirar. Com urgência preciso lutar porque esse medo me amarra mais do que o medo da morte, é um crime contra mim mesmo...Que medo alegre, o de te esperar.
Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que ... regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim. (...)
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, (...) reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de... — a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência... É com enorme terror que me vejo..
A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os atores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo.
aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso.
I'm too afraid I'm too afraid I just don't know what to do With myself...
A noite invadia lentamente a minha inatenção. Despertei de repente para a ver entrada. Flutuavam ainda, nas indecisões da Natureza, ruídos incertos como se as coisas compusessem o manto para adormecer. Tive um outro intervalo comigo próprio. Tornei a meditar sem saber em quê. Quando de novo despertei o silêncio era absoluto — logo invisível de todos os meus sonhos idos e das minhas esperanças mortas, e a minha consciência da vida afundava-se lentamente nele, assumindo, à medida que se afundava, noções novas de possibilidades de compreender a vida sob outros aspectos, vagos terrores e interiores...
O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas.
Algum pronto a morrer pelo terror
Da tempestade, que se encontra só
Numa planície vasta, ou vasto oceano,
E onde ele, sem abrigo ou falso abrigo,
Logra, sem se iludir, qu'rer iludir-se
Em terror, rugem (...) e desabam
Os terrores em luz, e som e abismo
Da tempestade e que, mais do que trémulo,
Mais que convulso no terror extremo,
Pensa já perto da loucura, quanto
Fugir mais do que em si, desaparecer,
Sumir-se, dessentir-se (...)
A sala de visitas comunica com o jardim, estreito e mal tratado, cujo único encanto são duas gloriosas palmeiras imperiais, muito altas, muito altivas, que se erguem uma em cada extremo, vigiando a casa. A sala está ligada à biblioteca. Passa-se desta para o corredor através de uma porta larga. O corredor é um túnel fundo, húmido e escuro, que permite o acesso ao quarto de dormir, à sala de jantar e à cozinha. Esta parte da casa está voltada para o quintal. A luz da manhã afaga as paredes, verde, branda, filtrada pela ramagem alta do abacateiro. Ao fundo do corredor, do lado esquerdo de quem entra, vindo da sala, ergue-se com esforço uma pequena escada em três lances quebrados. Subindo-a, chega-se a uma espécie de mansarda, que o albino pouco frequenta. Está cheia de caixotes com livros. Eu também não vou lá muitas vezes. Morcegos dormem nas paredes, de cabeça para baixo, embrulhados nas suas capas negras. Ignoro se as osgas fazem parte da dieta dos morcegos. Prefiro continuar sem saber. O mesmo motivo – o terror! –impede-me de explorar o quintal.
Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, ilumem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu.
A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável. Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.
Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolha os livros.
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. Para ti eu criarei um dia puro Livre como o vento e repetido Como o florir das ondas ordenadas.
O que há de característico no terror é que ele não está claramente consciente dos seus motivos; não os conhece e, se necessário, fornece o próprio terror como motivo do terror....
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas?
As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu.
Medo é desculpa em leve chuva ...Medo é fraqueza como nuvem...
...that you might turn from him when he had gone and he from you. Then I would have offered you my gift. You know what it was now... Not the best perhaps. Best or worst- it would have been yours.
If this was our last song, what would we do then? (If) this was our last song, what would we say then?
If this was our last time, what would we do, what would we say then?
Quando não vemos claramente imaginamos.E desta imaginação pode surgir o medo ou a invenção...a noite é a origem do medo e da criatividade. As invenções são, afinal,medos...
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu os sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e despersonaliza.Nunca vou para onde há risco. Tenho medo ao tédio dos perigos.
Os gestos que não saem, doem.A carícia que se guarda na concha da mão.A boca que engole o beijo.Só os olhos e as palavras não chegam...Mas tenho medo e não me movo.Se fosse capaz de me ir embora, mas fico.Por enquanto ainda me apetece ficar.Olho, falo.É é preciso que isso chegue.Se eu me fosse embora...Mas eu...Fico. Fico a cansar as coisas.A gastar as palavras.A repetir os mesmos gestos tímidos, as reticências e as ambiguidades.Fico e tenho a sensação de me tornar chata.
But I don't have the drugs to sort...I don't have the drugs to sort it out, sort it out You're the voices swallowing my soul, soul, soul
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Tenho medo...
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas? O medo de perder as palavras...
Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo.
- Venha até a borda, disse ele.
- Tenho medo.
- Venha até a borda, ele insistiu.
Ela foi, Ele empurrou-a ...e voaram.
Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha... A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o medo da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha.
Sempre considerei as galinhas um dos animais mais estúpidos da criação; nunca experimentei qualquer empatia relativamente a estas aves incapazes de voar; o seu cacarejar sempre me provocou irritação. Eis que ,subitamente, me sinto galinha: vivo como em sonho, insciente , não consigo voar e... cacarejo.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Amar é ter medo, um medo enorme, mesmo inconfessado, de perder… Amar é ter medo de desiludir, de desencantar… é ter medo que o fascínio termine … Amar é um estado de medo permanente…
Portugal é mesmo um país que me assusta: como é possível esta história ter sido escrita em 1726 e só em 2010 ser conhecida neste recanto recôndito da cultura europeia? Confio não ter o incómodo de me desiludir...
Será uma tarefa da maior utilidade fornecer a história deste tirano dos ares,deste deus do mundo,deste terror e aversão da humanidade a que chamamos Diabo...isto porque não duvido que o Diabo está ,e de bona fide, em muitos dos nossos amigos de cabeça oca que desconhecem completamente o assunto.
É consensual entre os autores, tanto sagrados como profanos, que esta criatura à qual chamamos agora Diabo era originariamente um anjo de luz, um glorioso serafim, porventura o mais selecto de todos os gloriosos serafins.
Não posso deixar de observar...que...parece que o Diabo não se enganou no primeiro julgamento que fez da Srª Eva,e que Satã acertou em cheio no trabalho que pôde fazer com ela.
Numa palavra, o Sr.Milton criou indubitavelmente um belo poema,mas é o diabo de uma história...O Sr Milton encarrega-se de contar a história com tal pormenor,como se ele tivesse nascido lá, e tivesse descido até cá abaixo,de propósito, apenas para nos deixar o relato do sucedido...
...Deixo-o entregue nas vossas mãos,desejando que possais ser capazes de não dar pior relato dele sobre os tempos que hão-desobre vir ,do que aquele que eu dei sobre os tempos que passaram.
O Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis Vai ter olhos onde ninguém os veja mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no teto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!) ouvidos nos teus ouvidos O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos ótimos empregos poemas originais
e poemas como este projetos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários (assim assim) escriturários (muitos) intelectuais (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com certeza a deles Vai ter capitais países suspeitas como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados Ah o medo vai ter tudo tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos Sim a ratos
Ouve o que eu te digo, Vou-te contar um segredo, É muito lucrativo que o mundo tenha medo, Medo da gripe, São mais uns medicamentos, Vem outra estirpe reforçar os dividendos, Medo da crise e do crime como já vimos no filme, Medo de ti e de mim, Medo dos tempos, Medo que seja tarde, medo que seja cedo e medo de assustar-me se me apontares o dedo, Medo de cães e de insectos, Medo da multidão, Medo do chão e do tecto, Medo da solidão, Medo de andar de carro, Medo do avião, Medo de ficar gordo velho e sem um tostão, Medo do olho da rua e do olhar do patrão e medo de morrer mais cedo do que a prestação, Medo de não ser homem e de não ser jovem, Medo dos que morrem e medo do não! Medo de deus e medo da polícia, Medo de não ir para o céu e medo da justiça, Medo do escuro, do novo e do desconhecido, Medo do caos e do povo e de ficar perdido, Sozinho, Sem guito e bem longe do ninho, Medo do vinho, Do grito e medo do vizinho, Medo do fumo, Do fogo,Da água do mar,Medo do fundo do poço,Do louco e do ar,Medo do medo,Medo do medicamento,Medo do raio, Do trovão e do tormento, Medo pelos meus e medo de acidentes, Medo de judeus, negros, árabes, chineses, Medo do “eu bem te disse”, Medo de dizer tolice, Medo da verdade, da cidade e do apocalipse, O medo da bancarrota e o medo do abismo, O medo de abrir a boca e do terrorismo. Medo da doença, Das agulhas e dos hospitais, Medo de abusar, De ser chato e de pedir demais, De não sermos normais, De sermos poucos, Medo dos roubos dos outros e de sermos loucos, Medo da rotina e da responsabilidade, Medo de ficar para tia e medo da idade, Com isto compro mais cremes e ponho um alarme, Com isto passo mais cheques e adormeço tarde, Se não tomar a pastilha, Se não ligar à família, Se não tiver um gorila à porta de vigília, Compro uma arma, Agarro a mala, Fecho o condomínio, Olho por cima do ombro, defendo o meu domínio, Protejo a propriedade que é privada e invade-me a vontade de por grade à volta da realidade, do país e da cidade, Do meu corpo e identidade, Da casa e da sociedade, Família e cara-metade… Eu tenho tanto medo… Nós temos tanto medo… Eu tenho tanto medo… O medo paga a farmácia, Aceita a vigilância, O medo paga à máfia pela segurança, O medo teme de tudo por isso paga o seguro, Por isso constrói o muro e mantém a distância! Eles têm medo de que não tenhamos medo.
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Desço dentro de mim, olho a paisagem,
Analiso o que sou, penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!
Pan, deus dos pastores e dos rebanhos, tinha o rosto barbudo, chifres, uma expressão animalesca e membros inferiores como os do bode.
Quando nasceu, a sua mãe horrorizou -se com o filho monstruoso que havia gerado, porém o seu pai, envolvendo-o com uma pele de lebre, levou -o para o Olimpo, colocando-o ao lado de Zeus, mostrando-o aos demais deuses, que, de imediato, gostaram dele. Como divindade silvestre, eram -lhe atribuídos os ruídos, de causa ignorada, em campos e bosques que, com frequência, amedrontavam camponeses e pastores. Por essa razão, surgiu a expressão deima panikon (medo causado por Pan), abreviada pela palavra grega panikós , que, através do latim panicus, originou o vocábulo pânico, com significado similar: medo intenso por causa de algo de origem desconhecida.
É o único som que me pacifica quando tenho aquelas insónias misturadas com uma espécie de ataque de pânico, esse medo demoníaco que, não sendo medo, assusta. "O pânico é ansiedade máxima em situações inexplicáveis."
A paixão é um pânico das emoções, e como o pânico — que nisto se distingue do medo — estilhaça a inibição, desorienta o espírito, vira o indivíduo contra as suas próprias aquisições mentais superiores, e muitas vezes o conduz a fazer o que mal sabe que faz, ou que a própria paixão se fosse menor, como o pânico se não fosse mais que medo, o levaria ou aconselharia a não fazer.
Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que ninguém ainda que válido, poderia salvar.(...) Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia. O pensamento, que em outros é uma bússola da acção, é para mim um microscópio dela, que me faz ver universos a atravessar onde um passo bastara para transpor - como se o argumento de Zenão, da intransponibilidade de cada espaço, que, por ser infinitamente divisível, é pois infinito, fosse uma droga estranha com que me houvessem intoxicado o organismo espiritual. E o sentimento, que em outros se introduz na vontade como a mão na luva, ou a mão nos copos da espada, foi sempre em mim uma outra maneira de pensar - fútil como uma raiva com que trememos até nos não podermos mexer, espécie de pânico da exaltação que, como o pânico, deixa colado ao chão o medroso a quem o mesmo medo deveria fazer fugir. Toda a minha vida tem sido uma batalha perdida no mapa; a cobardia nem sequer foi no campo, onde talvez a não houvesse, mas no gabinete do chefe do Estado Maior, e de ele a sós com a sua convicção da derrota. Não se ousou o plano porque haveria de ser imperfeito; não se ousou torná-lo perfeito, ainda que não pudesse realmente sê-lo, porque a convicção de que não seria perfeito quebrou a vontade com que ele, ainda que imperfeito, sempre se poderia tentar. Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais perfeito que o do inimigo. É que o meu vero inimigo... era aquela mesma ideia de perfeição, que me saía à frente antes que todas as hostes do mundo, na vanguarda trágica de todos os comandos do mundo.
Inutilmente vivida Acumula-se-me a vida Em anos, meses e dias; Inutilmente vivida, Sem dores nem alegrias...
Releio, em uma destas sonolências sem sono, em que nos entretemos inteligentemente sem a inteligência, algumas das páginas que formarão, todas juntas, o meu livro de impressões sem nexo. E delas me sobe, como um cheiro de coisa conhecida, uma impressão deserta de monotonia. Sinto que, ainda ao dizer que sou sempre diferente, disse sempre a mesma coisa; que sou mais análogo a mim mesmo do que quereria confessar; que, em fecho de contas, nem tive a alegria de ganhar nem a emoção de perder. Sou uma ausência de saldo de mim mesmo, de um equilíbrio involuntário que me desola e enfraquece.
Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar...
Em torno o meu o mundo oscila, o ser Oscila, e a consciência de sentir Desfaz-se em sensações de pensamento E distúrbios obscuros de ideação, Embebidos num sonho de sentir E sonhado sentimento de sonhar. Horror supremo! E não poder gritar A Deus — que Deus não há — pedindo alívio! A alma em mim se ironiza, só pensando Na de pedir ridícula vaidade, Interrupção da determinação E férrea lei do mundo. Górgias, antigo Górgias, que dizias Que se alguém algum dia compreendesse, Atingisse a verdade, não podia Comunicá-la aos outros — já entendo O teu profundo e certo pensamento Que ora não compreendia. Tenho em mim A verdade sentida e compreendida, Mas fechada em si mesma, que não posso Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa.Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.
Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias...ouvi só a musica, e nem a essa ouvi...Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo...Com quem? Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo...)
Desde que me convenci da inutilidade de qualquer esforço desinteressado, nunca mais pensei em escrever um livro; limito-me a apontamentos. Inútil por inútil, diminua ao menos a maçada.
Fernando Pessoa escreveu a fio — a fio, humanamente — aqueles poemas complicados. O Fernando Pessoa que, quando escreve uma quadra, emprega esforços de organização industrial para ver como há-de dispor através dela os dezassete raciocínios que ela é obrigada por lei a conter; que, quando sente qualquer coisa, se pôe logo a cortá-la com uma tesoura de cinco críticos, a embrulhar-se em porque é que o segundo verso contém um adjectivo biforme e em ver como é que não sendo «mas» bom português naquela altura, vai conseguir que «senão» tenha uma sílaba só.Este homem, tão inutilmente bem dotado, vivendo constantemente na parabulia da sua complexidade, teve naquele momento — também ele — a sua libertação.
Gostei de me pensar como um ser inutilmente bem dotado, vivendo na parabulia da minha complexidade...
Não podemos ficar zangados com o nosso próprio tempo sem que isso nos traga danos a nós próprios. Estava,aliás, sempre disposto a a amar estas manifestações ao vivo.O que nunca conseguiu foi amá-las sem reservas, como exige o bem-estar social.Há muito tempo que um resto de aversão pairava sobre tudo o fazia e vivia,uma sombra de impotência e solidão,uma aversão universal para a qual não conseguia encontrar um contraponto positivo. Sentia-se muitas vezes como se tivesse uma vocação para a qual , por enquanto, não havia objectivo.
Parecia-lhe que, ao entrar na idade adulta,tinha caído numa apatia generalizada que, apesar de alguns turbilhões ocasionais e efémeros, trouxe à sua vida um ritmo cada vez mais desencantado e confuso.
Era sensível , e a sua sensibilidade era constantemente agitada por meditações, depressões, montes e vales; nunca era indiferente , mas via em tudo uma felicidade ou uma fatalidade, tendo, assim, sempre oportunidade para pensar alguma coisa excitante. Pessoas como estas exercem sobre os outros uma atracção pouco comum...
Fugir mais do que em si, desaparecer, Sumir-se, dessentir-se (...) Mais do que não viver por não sentir; E todo o horror das convulsões que os céus, O nosso todo ruge e estala E todo o corpo dele é um sentido Para sentir pavor, e cada poro É sentiente e consciente e agudo Em ter uma atenção de terror cheia; E o aflito e convulso nunca logra, Como na dor e na tristeza, ter Uma apatia e uma (...) Ah, horrorosamente consciente E pávido e convulso, nem dorido Nem (...) de mágoa ou de desejo Assim eu sou. (...)
Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro.
I can feel you searching round my brain Looking for a way to make a wave Falling out and in In and out again Until our falling thoughts cascade together...
"Omnia fui, nihil expedit."
Quanto mais contemplo o espectáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro da ficção ingénita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação que a todos, que reflectem, uma ou outra vez terá sucedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas, o caminho complexo dos progressos e das civilizações, a confusão grandiosa dos impérios e das culturas - tudo isso me parece como um mito e uma ficção, sonhado entre sombras e esquecimentos. Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deve estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo "Já sei tudo", ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: "omnia fui, nihil expedit - fui tudo, nada vale a pena".
En resolución, él se enfrascó tanto en su letura que se le pasaban las noches leyendo ... y los días...: y así del poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro,de manera que vino a perder el juicio. Ainda me acontece o mesmo...Acho esta imagem de o cérebro a secar aliciante...Um cérebro seco não é , está mas não é ...
Já é noite e o frio Está em tudo que se vê Lá fora ninguém sabe Que por dentro há vazio Porque em todos há um espaço Que por medo não se vê Onde a ilusão se esquece Do que o medo não previu
sábado, 21 de maio de 2016
Mal de vivre...
Tortura é sinónimo de suplício. suplício é sinónimo de tortura...
A falta de liberdade não consiste em ser segregado, mas sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho.
A tortura mais terrível é quando o torturador é o torturado...
A que Deus implorar qualquer ajuda,Se sou eu que fabrico as divindades! Imagino,Imagino,E, de tanto subir, chego ao divino.
Mas nenhum sequioso mata a sede A beber na miragem de uma fonte.Grito,Grito, E, quanto mais acima, mais aflito.
Seria difícil conceber castigo mais demoníaco, pudesse uma tal coisa ser posta em prática, do que abandonar uma pessoa à deriva na sociedade de modo a passar despercebida a todos. Se ninguém se voltasse para nós, ao ver-nos entrar em casa, se ninguém nos respondesse quando nós falássemos, ou se preocupasse com o que nós fizéssemos, mas se toda a gente que conhecêssemos nos «desligasse do mundo» e agisse como se fôssemos entidades inexistentes, não tardaríamos a ser tomados de uma espécie de desespero de raiva e impotência, de que a mais cruel das torturas corporais seria um alívio.
Já dançámos demais Já fugimos demais Já perdemos demais E quis parar Restou a saudade de ser... «demais»Demais,Demais,Demais....
A tortura maior será não poder estar só, ser ignorado por "castigo demoníaco", ou estar sempre a mais?? É difícil responder com certezas...
Existem, nas recordações de todo o homem, coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela nem aos amigos, mas apenas a si próprio e, mesmo assim, em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...
Excluído o martírio, por envolvências cristãs, e o suplício, por conotações miserabilistas de um sofrimento que , apesar de tudo, se aceita sem revolta, motivada pela fonia, apresenta-se óbvia a escolha de tortura, até porque as potencialidades associativas, que as rimas deixam antever, são promissoras.Quem sabe se componho um poema, com a ternura que me inspira a tortura da loucura da tua candura?
Os torturados são mais pundonorosos do que mártires ou supliciados... íxion,prometeu,sísifo,tântalo,tício, os mais célebres, foram mitificados pelo sofrimento pungente que os deuses lhes infligiram.
Íxion,o mau da fita da mitologia grega, depois de um crime horrendo, é punido com a loucura; tem uma segunda oportunidade, mas volta a ofender zeus que o condena a ficar amarrado a uma roda em chamas, girando nela por toda a eternidade.
Prometeu,conhecido pela sua astúcia e inteligência,roubou o fogo divino para o dar aos homens. zeus castiga-o por este crime, amarrando-o a uma rocha, enquanto uma águia debica, durante o dia, o seu fígado que, eternamente, se regenera..
Sísifo,por tentar enganar a morte,é punido com uma existência rotineira e cansativa que simboliza o absurdo, pelo qual se é responsável.
Tântalo ousou testar a omnisciência divina,sendo lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, está condenado a não poder saciar a sua sede e fome, visto que, ao aproximar-se da água, esta desaparece e, ao erguer-se, para colher os frutos das árvores, os ramos,com o ímpeto do vento, movem-se para longe do seu alcance.
Tício violenta leto e,por isso,é morto por apolo e ártemis, tendo sido condenado a ficar,após a sua morte, esticado no hades, preso pelos braços e pernas, com abutres a comerem-lhe o fígado.
Pobre tântalo, condenado para todo o sempre a não atingir o que parece ser acessível, nem sequer foste filosoficamente dignificado por um camus...Será que a tua alma encontrará uma qualquer pacificação com o tributo de gôngora?
Não vos enganem as rosas que, na Aurora, direis que aljofaradas e olorosas caíram no purpúreo seio ameno:serão maçãs de Tântalo, e não rosas, que logo fogem do insinuado agora; e somente do amor resta o veneno.
Assim eu, qual Tântalo, esperando,na fuga constante dos dias,conformo a memória de outro tempo...
O barroco espanhol recuperou poeticamente o mito de tântalo, mas a glória que sísifo alcançou é insuperável...
O sofrimento acompanha sempre uma inteligência superior e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza.Disse-o dostoiévski e tem razão.
A tortura pior é o ciúme: αίαΐ_ τί δράσω
Como ciumento sofro quatro vezes: por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar.
Que enumeração primorosa. Vou dar esta frase para debater com os alunos se a gradação é ascendente ou descendente... Como é evidente, para mim é mais do que ascendente, uma vez que a condenação sisífica é a vulgaridade...
Ciúme é um vocábulo desagradável, pouco eufónico, não gosto da palavra...
1. O ciúme é um sentimento natural do ser humano, provocado pela falta de exclusividade ... O ciúme resulta de uma ligação particular a uma pessoa, a um animal ou a um objeto...
2. Quem sofre de ciúmes geralmente possui falta de confiança no outro e em si próprio.
3. O ciúme pode transformar-se em paranóia ou patologia.
Na poesia grega arcaica, pela primeira vez, safo descreveu os sintomas físicos do ciúme:
Parece-me ser igual a um deus aquele que, reclinando-se junto de ti, escuta a tua doce voz e o teu riso amorável. Faz-me tumultuar o coração no peito.Basta-me olhar-te para que a voz me falte, a língua se me entorpeça e um repentino e subtil fogo alastre sob a minha pele; os olhos se me escurecem, zumbem-me os ouvidos; o suor me inunda, um arrepio me percorre toda. Fico mais verde do que a erva. Sinto que vou morrer. Ille mi par esse deo videtur,ille, si fas est, superare divos,qui sedens adversus identidem te spectat et audit dulce ridentem, misero quod omnes eripit sensus mihi: nam simul te,....., aspexi, nihil est super mi...
O ciúme , em Catulo, origina amor e ódio: Odi et amo. quare id faciam, fortasse requiris? nescio, sed fieri sentio et excrucior.
καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους;
και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων, δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς.
cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον.
Oh climb out out enough to see the curl of the world...Oh we're alone Just like you said Last year to learn,
Words! Mere words! How terrible they were! How clear, and vivid, and cruel! One could not escape from them. And yet what a subtle magic there was in them! They seemed to be able to give a plastic form to formless things, and to have a music of their own as sweet as that of viol or of lute. Mere words! Was there anything so real as words?
καίτοι τί πάσχω;καίτοι τί πάσχω;καίτοι τί πάσχω;καίτοι τί πάσχω;καίτοι τί πάσχω;
χρην γαρ άλλοθέν πόθεν βροτους παΐδας τεκνουσθαι, θηλο δ' ουκ είναι γένος-
Μη. ούτω γαρ αν μάλιστα δηχθείη πόσις.
Μη. έτικταν αυτούς- ζην δ' οτ' έξηύχου τέκνα,έσηλθέ μ' οίκτος si γενήσεται τάδε.
καίτοι τί πάσχω; βούλομαι γέλωτ' οφλεΐν εχθρούς μεθεΐσα τους έμούς άζημίους;
οτωι δε μη θέμις παρεΐναι τοις έμοΐσι θύμασιν,αύτδι μελήσεν χείρα δ' ου διαφθερω.
και μανθάνω μεν σία δραν μέλλω κακά, θυμός δε κρείσσων των έμδν βουλευμάτων, δσπερ μεγίστων αίτιος κακών βροτοΐς.
Ε compreendo bem ο crime que vou perpetrar mas, mais potente do que as minhas deliberações, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais.
Φίλαι, δέδοκται τοδργον ά>ς τάχιστα μοι παΐδας κτανούσηι τησδ' άφορμδσθαι χθονός, και μή σχολή ν αγουσαν έκδουναι τέκνα
άλλη ι φονευσαι δυσμενεστέρα! χερί. πάντως σφ' ανάγκη κατθανεϊν ε πει δε χρή, ημείς κτενουμεν οϊπερ εξεφύσαμεν.
Amigas, decidida está α minha acção: matar os filhos o mais depressa que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais hostil. É absoluta a necessidade de as matar, e, já que é forçoso, matá-las-emos nós, nós que as gerámos.
cru δ' ουκ έμελλες ταμ' άτιμάσας Μχη τερπνόν διάξειν βίοτον έγγελων έμον
Tu não havias de gozar uma doce vida, depois de teres desprezado o meu leito, escarnecendo de mim.
Jasão, sobrinho do rei de tessália, embarcou na nau "argos" e foi para a ilha de colcos para conquistar o velo de ouro. A filha do rei de colcos, medeia, e a sua prima creúsa apaixonaram-se por Jasão. Medeia ajuda-o, com os seus encantos, a roubar o velo de ouro e conseguiu escapar aos castigos do pai. Porém, jasão preferiu levar consigo creúsa. Medeia, ofendida, provoca uma tempestade que traz novamente a nau de jasão para a ilha. O soberano, ofendido com a filha, casou jasão com a sobrinha creúsa e deu-lhe o seu reino. Medeia, desesperada, desapareceu no ar.
aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
O diabolismo do casamento, a hesitação em aderir a um partido ou a um movimento, a autoridade do pai, o conflito que o envolve, acabaram por lhe incutir uma série de traumatismos, nomeadamente o ideal de ascetismo que dominou a sua vida. Daí ter-se deixado influenciar pela teoria do absurdo, direção, aliás, que Albert Camus imprime à obra de Kafka, talvez vítima da sua própria obsessão literária ou dos eflúvios existencialistas prementes na época.
As narrativas principais de Kafka são fragmentos, o conjunto da obra é um fragmento. De modo aparentemente paradoxal- só muito aparentemente- Kafka nunca desejou ser um autor nem ter uma obra, ele só quer ser escritor.
Blumfeld,um solteiro de certa idade, subia uma noite até ao seu apartamento,o que era um trabalho penoso,pois morava num sexto andar. Enquanto ia subindo,pensava, como fizera frequentemente nos últimos tempos,que esta vida completamente solitária era bastante enfadonha,que ele tinha de subir estes seis andares literalmente na clandestinidade,para depois chegar ao seu quarto vazio, vestir o seu roupão,de novo literalmente na clandestinidade,acender o cachimbo,ler um pouco a revista francesa que assinara havia anos,enquanto bebia uma aguardente de cereja feita por ele próprio, e, finalmente,passada meia hora, ir para a cama.. Um companheiro qualquer, um espectador qualquer destas actividades teria sido muito oportuno a Blumfeld. Chegara a pensar se não devia arranjar um cão..
Abre,repentinamente, a porta e acende a luz eléctrica. Não estava preparado para o que via à sua frente. É uma autêntica magia,duas pequenas bolas brancas de celulóide, com riscas azuis,saltam no parqué,uma ao lado da outra; enquanto uma está no chão,a outra está no ar,prosseguindo incansavelmente, o seu jogo.(...) Não há dúvida que vai ter de destrir as bolas e será muito brevemente,mas não para já, talvez no dia seguinte.(...) Quando se coloca junto à cama, uma das bolas salta imediatamente para a cama. Então acontece o inesperado, a outra bola dirige-se para debaixo da cama.(...) Cada um está por si,Bumfeld e as bolas, estão com efeito ligados uns aos outros, mas não se incomodam mutuamente.
Inutilmente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Inutilmente vivida,
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...
Não, não é cansaço...É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar,É um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo...Não, cansaço não é...É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Com tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. Não. Cansaço porquê? É uma sensação abstracta Da vida concreta — Qualquer coisa como um grito Por dar, Qualquer coisa como uma angústia Por sofrer, Ou por sofrer completamente, Ou por sofrer como... Sim, ou por sofrer como... Isso mesmo, como... Como quê?...Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
Fragmentos de monotonias...
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia...
O meu emprego é intolerável porque contradiz o meu unico desejo e a minha única vocação que é a literatura. Como eu nada sou senão literatra,que não posso nem quero ser outra coisa, o meu emprego nunca poderá ser causa de exaltação, mas poderá, pelo contrário, desiquilibrar-me completamente. Aliás, não estou muito longe disso.
So schlägt mein Herz Es schlägt in mir Stunde um Stunde Es schlägt für sich Für dich und mich jede Sekunde So lebe ich Einer von vielenKein Einzelfall
Será a monotonia destes acordes intencional?
Decomposição...
I feel strange, covered in waves of confusion...
Even in my dreams I try to fight but I don't ever win...
Todas as tardes me comprazia a imaginar aquela carta, julgava lê-la,recitava para mim mesmo cada frase. Parava de repente,assustado. Compreendia que, se havia de receber uma carta de Gilberte, ela não poderia, fosse como fosse, ser aquela, visto que era eu que acabava de a redigir. E logo me esforçava por desviar o pensamento das palavras que gostaria que ela me escrevesse, com medo de que, ao enunciá-las , excluísse justamente aquelas - as mais caras, as mais desejadas- do campo das realizações possíveis. Mesmo que, no caso de, por inverosímil coincidência, a carta que Gilberte me enviasse ser justamente a que havia inventado, eu não teria, ao reconhecer nela a minha obra, a impressão de receber algo que não vinha de mim, algo de real, de novo, uma felicidade exterior ao meu espírito, independente da minha vontade, verdadeiramente dada pelo amor.
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia...
Húmus...
Publicado, pela primeira vez, em 1917, e escrito durante a primeira grande guerra , muito se disse sobre Húmus- Inclassificável, diferente... Romance? Ensaio? Diário? Poesia? Prosa? Simbolista? Expressionista? Grotesco? Narrativa instável,fragmentária? Quando,em 1967, surge uma nova edição, muito se continuou a dizer, bem mais elogioso: a melhor obra de raul brandão, a primeira obra existencialista, escrita em português, de uma atualidade viva e admirável... Uma genial e incompreendida deambulação metafísica...
29 de junho de 1917
E tenho de dar mais um passo! Tenho de dar outro passo ainda! Chega o momento em que a dor se não separa do grotesco. Quer queiram quer não queiram aí estão na minha frente, ridículos, maníacos, pueris, nesta marcha desordenada para o sonho; tenho-os na minha frente, e com eles a hipocrisia, as explicações confusas, as leis, as regras, os hábitos fétidos, e tudo o que lhes serve para encobrir as duas ou três realidades de que se não podem libertar, com a sua filosofia, os seus livros, as suas teorias — e no fundo instinto! Instinto! Instinto!; tenho-os aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludível, com olhos abertos de espanto, com bocas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero. Tenho-os aqui ridículos, só ridículos, só enfim ridículos, mas já prontos para todas as infâmias. A vida espalmou-os, secou-os, deformou-os a todos. Andou por aqui a mão da desgraça, a mão do vício, a grande mãozada de ferro que deprime e esmaga. Um alimentou-se de lascívia, outro de sonho, outro de avareza, outro de fel. Todos diante da nova visão do universo se sentem grotescos e inúteis de corpo e alma, com lepras que nunca mais se limpam, com nódoas que nunca mais se lavam, com ideias e palavras entranhadas, com ímpetos de gozo e monstruosos apetites. Os anos passaram, os anos marcaram-nos. E ei-los nus, uns em frente dos outros, nus e reles, nus e grotescos, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais dourado, cada vez mais sôfrego diante de si. Nus e obscenos, nus, com doenças e infâmias secretas. Aqui está a embófia e o orgulho, aqui está o que come e digere, mas, no fundo deste estômago que esmói, há ainda um resto de sonho; aqui está a velha que envelheceu ridícula, mas este ridículo é atroz. Tudo isto contém ânsia, ressuma dor até nas plumas, até nos trapos. Todos os sonhos absurdos, os sonhos que ninguém se atrevia a declarar, os produtos fétidos de noites sobre noites de relento e insónia, os ridículos sonhos de almas embrionárias, transformam-se em realidade e resolvem-se em gritos, em dor e em grotesco. A puerilidade que constitui o fundo do nosso ser, as pequenas misérias que formam montanha, e as grandes tragédias desgrenhadas afundam-se em grotesco. A todo o drama se mistura grotesco, a toda a dor ritos, e toda a convulsão emerge a escorrer grotesco. Ó dor o que tu és! Aqui está a dor da D. Penarícia, a dor da D. Andresa — que toda a sua vida foram abjetas — e temos de confessar que são grotescas. Temos de confessar que a dor é grotesca diante desta mudez impenetrável. A vila conhece a vacuidade de todos os esforços, o grotesco e o atroz. O grotesco na dor, o grotesco aos gritos, o grotesco mesmo quando avançam para o assombro, com restos de xailes, com restos de penantes, com restos de misérias. Tudo isto dá grotesco desmedido, mas grotesco. Grotesco com sonho, grotesco com ouro, com todo o ouro do céu, com todas as estrelas do céu, mas grotesco afinal. A grande sombra que desaba também aos gritos, a grande sombra é grotesca de dor — imensa e grotesca — esfarrapada e grotesca. A D. Adélia é grotesca, com as suas manias, e há nela Deus e o Diabo; as velhas caquéticas, o cortejo funambulesco de rancores, tem não sei o quê de divino. Miscelânea trágica de matéria e de alma, que se resolve em dor e em grotesco, caminhando com as suas dores ridículas, com as suas paixões ridículas, com as suas ambições ridículas — caminhando sempre. Lamentáveis, sórdidos, grotescos, escorrendo viscosidades, e só eles no mundo capazes de compreender e de sofrer. Tudo neles é grotesco e divino. Tudo neles é angústia, desespero e vida. Tudo neles é reles e só neles é reles. Tudo neles, até o ridículo, se traduz em sofrimento, em não sei quê de superior, que lhes dá o ar, apesar dos penantes, das dedadas, dos vícios, de deuses decaídos, de deuses em luta com forças supremas, que, pretendendo torná-los mais grotescos ainda e reduzi-los a zero, os elevam pelo ridículo e pela dor. São lamentáveis — são trágicos. Só eles lutam, e tudo neles é ânsia e desespero, para entreverem a razão oculta que os escarnece e os engrandece. Estarrecidos e grotescos. Bichos e grotescos. Divinos e grotescos. Há neste trapo que criaste, nesta coroa de lata que foi o teu sonho e a tua vida, não sei quê de imortal. Vê que tudo ressuma dor, que o fizeste para subir, mais alto sempre, para esquecer todas as bocas que te reclamavam do fundo dos fundos, do mais trágico dos fundos. Na tua meticulosidade Anacleto, na tua dúvida ridícula oh D. Leocádia, no vislumbre que foi a tua vida, no teu minuto de sonho, no relâmpago, antes de te curvares definitivamente sobre a meia que já tem vinte metros de comprido, ó prima Angélica, ó figura tremenda de inépcia, que também achaste sabor à vida e logo te fechaste com ele na escuridão cerrada da idiotia — na maneira como apertaste para sempre a mandíbula — e até na risca que deixou de ser risca e no vinco que perdeu a linha e o assento, ó Elias & Melias, em tudo e em todos, há outra coisa tremenda que, apesar de grotesca, nos deixou de pé, e não sei que mistério que não fala, que não quer ou não pode falar, mas que sentimos vivo, real, imenso ao nosso lado e na nossa companhia.
Agora é que ele anda à solta! agora é que ele anda à solta!
Ouço sempre o mesmo ruído de morte, que devagar rói e persiste...
Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva – o castelo – restos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Habitada por seres recalcados, sem história nem passado, de que apenas se entreveem características, a vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificância.... Tapá-la, escondê-la, esquecê-la...
Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido...O homem por dentro é desconforme ...entre um lado e o outro Interpõe-se um muro...
O silêncio... O pior de tudo é o silêncio, e o que se cria no silêncio, o que eu sinto que remexe no silêncio...
Pouco a pouco o sonho dissolve, a nódoa de ouro alastra... Transforma, volta a existência do avesso, deita o muro abaixo.
Ouves o grito? Ouve-lo?... – É preciso matar segunda vez os mortos.
Estamos aqui todos à espera da morte! Estamos aqui todos à espera da morte!
As personagens que pairam num espaço ficcional são um produto da narrativa, e, tal como a vila, não representam ninguém. Estão desprovidas de consistência psicológica, o leitor só pode suspeitar do seu grau de verosimilhança.
A reflexão sobre as palavras assume, quase um século depois, uma importância e atualidade assustadoras: uma vez que a consciência só se torna realidade quando materializada palavras, a imobilidade social está exatamente em paralelo com o desgaste da linguagem...
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos.... Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos.... São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem... Toda a arquitectura ideológica está em ruínas, para que se opere uma mudança nos valores da sociedade é necessário reinventar as palavras, depurá-las das marcas do passado, achar nelas a sua outra dimensão.Atrás das palavras.... sinto uma coisa descabelada e frenética, o espanto, a mixórdia, a dor, as forças monstruosas e cegas...
Existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam.
A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.
Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.
Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adere. Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.
A vida é fictícia, as palavras perdem a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. Estamos aqui a matar o tempo...Reduzimos a vida a esta insignificância... Construímos ao lado outra vida falsa, que acabou por nos dominar...
É então um mundo de fórmulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem ele não poderíamos existir. Se víssemos o que está por trás não podíamos existir. O nosso mundo não é real: vivemos num mundo como eu o compreendo e o explico. Não temos outro
Fascinante a pintura de alvarez. Isto sempre foi um país feito à medida dos meninos de lisboa: alvarez nasceu, cresceu, pintou e foi praticamente ignorado, talvez por ser do porto.
Contactei com este pintor na infância, naturalmente sem o valorizar, porque havia em minha casa um quadro dele. Quando tinha uns 10 anos, recordo, perfeitamente, muitas conversas e negociações que conduziram à sua venda. Fixei o nome, mas nunca mais pensei nele, até o ter ouvido no vídeo... Pesquiso imagens na net e estou inconsolável: uma destas maravilhas podia ser minha? Nem quero acreditar...
Ler um poema é poder fazê-lo, refazê-lo.
Húmus é a matéria orgânica depositada no solo, resultante da decomposição de animais e plantas mortas...
Lixo...
O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei.
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido (...) espera pacientemente, (...) e viria talvez um dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz...
Claro que temos que andar são os tempos adversos Que puxam para trás É claro que temos que ver a estrada Que um dia a história acaba...Que um dia a história acaba.
Tinha apenas ganho ter conhecido a peste e lembrar-se dela, ter conhecido a amizade e lembrar-se dela,conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-se dela. Tudo o que um homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória.
Quase nada.Como que uma picada de inseto que a princípio parece muito leve.
Se o desconhecido não tivesse telefonado, esquecia-se de vez da perda da agenda.Tentava lembrar-se dos nomes que lá estavam. Na semana anterior chegara a querer reconstituí-la, e começara a fazer uma lista numa folha em branco. Passado um instante, rasgara a folha. Nenhum dos nomespertencia a pessoas que tivessem contado na sua vida e cujas moradas e números de telefone precisassem de ser apontados. Sabia-os de cor. Naquela agenda , só conhecimentos ditos de "ordem profissional",algumas moradas pretensamente úteis, não mais do que trinta nomes... A única coisa que o preocupava na perda da agenda ra lá ter escrito o seu próprio nome e morada.
Sonhara muitas vezes, em tardes de solidão , que o telefone tocava e que uma voz doce lhe marcava um encontro... Mas a voz de há pouco não lhe inspirara confiança. Simultaneamente indolente e ameaçadora, essa voz.
Because happiness is a warm gun. Yes it is. Because happiness is a warm gun. Yes it is. Because happiness is a warm gun. Yes it is..
Que fiz eu da vida? Fiz o que ela fez de mim...De pensada, mal vivida...Triste de quem é assim! Numa angústia sem remédio Tenho febre na alma, e, ao ser, Tenho saudade, entre o tédio, Só do que nunca quis ter...Quem eu pudera ter sido,Que é dele? Entre ódios pequenos De mim, estou de mim partido.Se ao menos chovesse menos!
A minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,/ E é com as minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim, / Com a substância essencial do meu ser abstrato / Que sufoco de incompreensível, / Que me esmago de ultratranscendente,/ E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,/ Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! / Cárcere do Ser, não há libertação de ti?/ Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Que droga foi a que me inoculei? Ópio de inferno em vez de paraíso? ... Que sortilégio a mim próprio lancei? Como é que em dor genial eu me eternizo? Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, foi álcool mais raro e penetrante: e só de mim que ando delirante- manhã tão forte que me anoiteceu.
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,E o meu sentimento é um pensamento vazio...
Porquê? Para quê? Economiza os teus «porquê» e os «para quê». Ou utiliza-os só até onde houver resposta. Porque a última resposta é o impossível e o vazio. Ou então terás de mudar de universo...
A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. (...) A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco.E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Só de ouro falso os meus olhos se douram; Sou esfinge sem mistério no poente. A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
E quando o pensamento, assim absorto,Emerge a custo desse mundo morto E torna a olhar as coisas naturais,À bela luz da vida, ampla, infinita, Só vê com tédio, em tudo quanto fita,A ilusão e o vazio universais.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite(...)
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio...
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam — Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. Estou escrevendo versos realmente simpáticos — Versos a dizer que não tenho nada que dizer, Versos a teimar em dizer isso, Versos, versos, versos, versos, versos... Tantos versos... E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. Sou uma sensação sem pessoa correspondente, Uma abstração de autoconsciência sem de quê, Salvo o necessário para sentir consciência, Salvo — sei lá salvo o quê... Não durmo. Não durmo. Não durmo. Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
E o meu sentimento é um pensamento vazio... Um vazio pleno de uma imagem difusa, indistinta, que devia desaparecer, mas que ressurge, insistente... Antigamente, fechava os olhos para te ver e sorria. Agora, fecho os olhos para tentar não te ver e tenho medo...
Súbita, uma angústia... Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! Que amigos que tenho tido! Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos! Uma angústia, Uma desconsolação da epiderme da alma, Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço... Renego. Renego tudo. Renego mais do que tudo. Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue? Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? Não: vou existir. Arre! Vou existir. E-xis-tir... E--xis--tir ... Dêem-me de beber, que não tenho sede!?
Nem sempre medita e analisa. O pensamento também vomita... O pensamento faz engolir o vómito de fel...
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