Amar es la mayor aceptación,
pero también el mayor asombro.
Quizá no sepamos de qué ante qué,
pero percibimos por fin algo más que lo diferente,
tal vez más diferente todavía.
Y así se pone en crisis
la ambulatoria duplicidad de cuanto existe.
El esfuerzo de ser uno
encuentra su descanso
en el esfuerzo de ser dos.
Y sólo entonces
dos es más que uno.
O quizá
más que ninguno
Un amor más allá del amor
por encima del rito del vínculo,
más allá del juego siniestro
de la soledad y la compañía.
Un amor que no necesite regreso,
pero tampoco partida.
Un amor no sometido
a los fogonazos de ir y de volver,
de estar despiertos o dormidos,
de llamar o callar.
Un amor para estar juntos
o para no estarlo,
pero también para todas las posiciones intermedias.
Un amor como abrir los ojos.
Y quizás también como cerrarlos.
Háblame Que no te oiga Quiéreme Que yo no sepa Cuídame Que no lo vea No me mires, no me escuches Haz de cuenta que no existo Cúrame, Que no sane Vierte en mi Tu indiferencia Cálmame Que en mi se agite El deseo como un fuego Y me muera por besarte Llámame No me…
( Ante sriptum:Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos, escapa mesmo ao humano. Mas as minhas amantes pareciam orgulharem-se de pensar somente como mulheres:: o espírito ou a alma, que eu procurava, ainda não era mais do que um perfume. )
E aquele tempo perdido em analisar o que nunca se chegou a passar, a medir os precisos termos de relações que nunca se dariam. Fora um capricho, não do temperamento, mas da simples imaginação. Cada um fora um sonho para o outro, uma espécie de trampolim para saltar dentro de si mesmo de um esquema de emoções para outro esquema de emoções, de uma possibilidade para outra possibilidade.Aquela banalidade de vida é que era a realidade da vida dela; aquela impossibilidade de fazer mais que sonhar é que era a certeza dele. O que ela manifestara para com ele fora apenas um sonho em voz alta, e o que ele manifestara para ela uma possibilidade em voz baixa. As vozes harmonizavam-se pela própria desarmonia.
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se me tivesses falado de amor, eu ter-te-ia amado...
Sentia-se enlouquecer; teve impressão de que ao inclinarem-se, eles se beijavam, ali, mesmo diante dele... "Preciso de me acalmar; se me mostro rude, ela é capaz, só por vaidade, de o seguir para Belgirate; e lá, ou durante a viagem, o acaso pode provocar uma palavra que dê nome ao que sentem um pelo outro; e depois, num instante, todas as consequências. ( ...) "E aqui mesmo, que sou eu senão o "terzo incommodo"( um terceiro presente, que incomoda)! Que dor para um homem inteligente sentir que está a representar esse papel execrável, e não pode tomar sobre si a decisão de se levantar e ir-se embora."
Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...Gostava de passear sozinho pelas alamedas e pelos grandes corredores e de comandar as árvores e desafiar os retratos das paredes...No grande corredor sombrio que há ao fundo do palácio passeei com a minha noiva muitas vezes... Eu nunca tive noiva real... Nunca soube como se amava... Apenas soube como se sonhava amar... Gostava de ver a minha face reflectida porque podia sonhar que era a face de outra criatura — porque era de formas femininas, que era de minha amada que era a minha face reflectida... Quantas vezes a minha boca, tocou na minha boca nesse espelho!... Quantas vezes apertei uma das mãos com a outra, quantas adorei meus cabelos com a minha mão alheada para que parecesse dela ao tocar-me. Não sou eu que te estou dizendo isto... É o resto de mim que está falando.
"Poema do Desamor" Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato
Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato
Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato
Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Que bem sabe o amor constante Que me aparelha contigo.
Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.
A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade. Assim falou Zaratustra...
"O verdadeiro amor deve ser criar uma obra artística em conjunto...O problema é que, quando o amor acaba, a capacidade criativa se esvai. O que é o amor platónico? É um ideal de totalidade. Encontrar a metade que nos pertence, o ser que nos completa, é um ideal praticamente inatingível..."
“Na verdade, Erixímaco, disse Aristófanes, (...) é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes. Com efeito, a nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os géneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um género distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos
em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor.(...) Eis por que eram três os géneros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes genitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses (...) Zeus então e os demais deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se; não podiam matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça - pois as honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam — nem permitir-lhes que continuassem na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tomado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando.”
Logo que o disse pôs-se a contar os homens em dois(...) E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher - o que agora chamamos mulher — quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue outro expediente, e muda-lhes o sexo para a frente - pois até então eles tinham-no para fora, e geravam e reproduziam-se não um no outro, mas na terra, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, pelo seguinte, para que no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade no seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar-se do resto da vida.
E então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, na sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto é uma téssera complementar de um homem, porque cortado como os linguados, de um só em dois; e procura então cada um o seu próprio complemento. Por conseguinte, todos os homens que
são um corte do tipo comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres, e a maioria dos adultérios provém deste tipo, assim como também todas as mulheres que gostam de homens e são adúlteras, é deste tipo que provêm. Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirige muito a sua atenção aos homens, mas antes estão voltadas para as mulheres... E todos os que são corte de um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos homens e se comprazem em deitar-se com os homens e com eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e adolescentes, os de natural
mais corajoso. Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disso é que, uma vez amadurecidos, são os únicos que chegam a ser homens para a política, os que são desse tipo. E quando se tornam homens, são os jovens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhes dão atenção, embora por lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a
vida um com o outro, solteiros. Assim é que, em geral, tal tipo torna-se amante e amigo do amante, porque está sempre acolhendo o que lhe é aparentado. Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno momento.(...) O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da nossa injustiça, fomos separados pelo deus, e como o foram os árcades pelos lacedemónios; é de temer então, se não formos moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois, e perambulemos tais quais os que nas estelas estão talhados de
perfil, serrados na linha do nariz, como os ossos que se fendem.(...)"
Ode ao corpo de uma mulher
Assim tu és dupla - o teu ser de mulher e Deus
A tua Presença é um ...mistério
A tua carne é espírito para que se olha como os olhos devem fazer
Ao inquirir ao pensamento: o que é ver?
Cada limite é o caminho visível
Para um infinito invisível.
Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
O meu corpo é o abysmo entre eu e eu.
Mas, de repente, e com um regresso de pesadello estatelado, desperto do meu romantismo sexual, e córo a sós comigo de fazer com a mente de dentro a mesma coisa que fazem todos os homens.
Amor é o aroma que imagino emanar da tua pele.
Amar é ser cativado por um ser diferente e nunca lhe retirar a liberdade de ficar ou de partir, de ir e de voltar.
Amar é ser descoberto por alguém que nos procura e, sempre que encontra, descobre mais qualquer coisa que o faz desejar continuar a procurar.
Ser amado é sentir que alguém gosta de nós de um modo diferente, saber que se tem um significado diferente, perceber que esse alguém deseja a nossa companhia porque ela é diferente.
"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
]É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
— "Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
De longe a Ilha viram fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Para onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Para onde as naus navegam a movia
A Acidália, que tudo enfim podia.
Assim lhe aconselhara a mestra experta;
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar-se deixam na água pura,
Começam de enxergar subitamente
Por entre verdes ramos várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais formosas.
"Sigamos estas Deusas, e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras."
Isto dito, velozes mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.
Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Porque o bosque é tranquilo,
(como se tivesse sido organizado por
um poeta chinês antigo.) Ramos castanhos
recebem o vento incolor com a alegria
da tela que recebe as mais intensas tintas.
Vento tão lento que parece um provérbio natural. Os instantes existem,
mas parecem recuperáveis. Nem o tempo se perde, ali,
onde nenhum ruído da cidade entra.
"Nenhuma descoberta da ciência modifica tão fortemente o rosto de um homem como os momentos de prazer.” (est. 24)
“A única velharia que chegou intacta ao estúpido século XXI é a do amor.” (est. 32)
“Certas mulheres bem treinadas são capazes de acariciar com os seus seios mãos desprevenidas e ingénuas. Quem toca em quem, eis a questão.” (est. 68)
“Fora do trabalho os homens descarregam para o solo a educação (como um peso) e mais leves ficam então preparados para a maldade ou para a diversão. No ócio o rosto desembaraça-se e sozinho ganha um estilo individual; portanto: perigoso.” (est. 70)
“Quando não há líquidos como o vinho, homens e mulheres comportam-se de modo sério, discutem símbolos e não são abandonados pela inteligência e pela necessidade de a exibir.” (est. 71)
Procurou o Espírito na viagem à Índia,
encontrou a matéria que já conhecia.
Nada agora o faz hesitar; animais bem-comportados
e agarrados por coleiras a árvores ladram
quando ele passa.
Os sapatos avançam, fuma uma cigarro,
entra num café e pede um copo de vinho.
- Desde que se apaixonou por Agilulfo, a desgraçada não tem paz...
- Como é possível?
- É possível quando uma mulher perdeu o desejo por todos os homens existentes, e o único desejo que lhe resta é por um homem que não existe.
(...)Pensar que neste exército há um cavaleiro que não existe! Dá-me medo, confesso-te...E, no entanto, admiro-o. Em tudo o que faz +e perfeito, e inspira masi confiança assim do que se realmente existisse.
Procuro-me dentro de mim e só encontro a tua imagem...
Sabe bem sentir certas esculturas, imaginar-te num daqueles rostos, isolar -te, ilusoriamente, da banalidade a que vais sucumbindo...Optei por um sofrimento sublime...Encaro a felicidade barata com um misto de inveja e comiseração. Será que a felicidade barata teria valido a pena?
Impenso-te porque te quero inexistente.Tu estás, tu és. Ser e estar identificam-se? Até que ponto o acidental do estar penetra a essência do ser? Se estás frequentemente, esse estar incorpora-se de tal modo que já és como estás. É isso que angustia, recear que uma fase, um estar episódico, compreensível e circunstanciado, se revele, afinal, uma característica essencial que se encontrava adormecida e despertou, passando a ser um traço permanente...O estar deixou de coincidir com o ser? O ser passou a identificar-se com o estar? O estar social invadiu o reino mágico do ser individual, destruindo-o... Para sempre? O eu outrou-se no ser plasmado em meia dúzia de retratos estereotipados? Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou.
O meu desejo de ti é um sentimento em branco: desejo o desejo, mas não a sua concretização material. Gostaria de o sentir fisicamente, mas sem que tivesse de entregar o meu corpo. A ideia de te acariciar e percorrer o teu corpo esguio agrada- me, talvez até me atraia, mas não admito, sequer, a possibilidade de ser a minha mão a fazê-lo. Gostaria de sentir o prazer, fisicamente, através de um outro corpo, mas que, psicologicamente, essa emoção fosse minha...Esta certeza tranquiliza-me, mas não acalma o tumulto interior que me invade sempre a que a tua imagem se insinua e me penetra,lentamente, como um veneno que não mata, mas me debilita e excita, de um modo estranhamente novo.
O não sentir desejo é um subterfúgio do desejo que se sente, mas que não se quer sentir porque, sentindo-o, sem nunca o concretizar, ele passa a ser não um subterfúgio, mas uma utopia que desencadeia uma frustração inaceitável.
É mais do que amizade...
Faço uma pausa para sentir o teu perfume…
É um devaneio delicioso, mais plácido que o amor, menos ardente que a paixão.
Sonho perfumes e maravilhas...
Vejo-te surgir, envolto em cetim,
Estátua burilada pelo meu cinzel,
Alma esculpida pela minha palavra.
Vejo-te surgir como parte de mim...
A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
As emoções e os desejos são manchas de humanidade que têm de ser tiradas da alma quando ela procura a atitude científica.
Pronuncia estas palavras com uma voz calma, na qual perpassa um vislumbre de orgulho por ter mudado tanto. Baloiça-se, sobre a caixa em que está sentada, com uma graça extraordinária. Desde que entrei, ainda não se tinha parecido tanto com a Anny de antigamente, de Marselha. Reconquistou-me: voltei a mergulhar no seu estranho universo, para além do ridículo, do preciosismo, da subtileza. Voltei mesmo a encontrar aquela febrezinha que sempre me agitava em presença dela e o mesmo travo amargo no fundo da minha boca. Anny descruza as mãos e liberta o joelho. Cala-se. É um silêncio planeado: como quando, na ópera, o palco fica deserto, durante sete compassos de orquestra, exactamente. Bebe o seu chá. Depois pousa a chávena e fica muito direita, firmando, na beira da caixa, as duas mãos fechadas. De súbito faz aparecer, sobre a outra, a sua soberba cara de Medusa, que eu tanto amava, inchada pelo ódio, tortuosa, envenenada. Não se pode dizer que Anny mude de expressão; muda de cara, como os actores antigos mudavam de máscara: duma só vez. E cada máscara dessas se destina a criar a atmosfera, a dar o tom do que se vai seguir. Aparece e mantém-se sem se modificar, enquanto Anny fala. Depois desliga--se dela e cai. Anny fixa-me, sem parecer ver-me. Vai falar. É de esperar um discurso trágico, guindado à dignidade da máscara, um canto fúnebre. Sai apenas uma frase curtíssima: «Vou sobrevivendo a mim própria.»
A entoação está longe de condizer com a máscara. Não é trágica, é... horrível: exprime um desespero seco, sem lágrimas, sem piedade. Sim, há nela algo de irremediavelmente ressequido. A máscara cai; ela sorri.
«Não estou nada triste. Ao constatá-lo, muitas vezes fiquei surpreendida, mas sem razão: porque havia de estar triste? Antigamente, era acessível a paixões duma grande beleza. Odiei com paixão a minha mãe.E mesmo tu», diz ela num desafio, «amei-te apaixonadamente.»
Fica à espera da réplica. Não digo palavra.
«É claro que tudo isso acabou.»
«Como é que podes saber?»
«Sei. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter uma energia, uma generosidade... É preciso uma cegueira... Há até um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflecte não salta. E eu sei que nunca mais saltarei.»
«Porquê?»
Deita-me um olhar irónico e não responde.
«Agora», diz ela, «vivo rodeada pelas minhas paixões defuntas. Faço o possível por voltar a sentir aquele esplêndido furor que me precipitou dum terceiro andar abaixo, um dia em que a minha mãe me tinha chicoteado.» Acrescenta, sem ligação aparente, com um ar distante:
«É melhor, por outro lado, abster-me de fixar demoradamente os objectos. Olho para eles, para os identificar, mas tenho de desviar logo a vista.»
«Mas porquê?»
«Repugnam-me.»
Mas não parece que...? É certo, em todo o caso, que há semelhanças. Já uma vez, em Londres, sucedeu que pensámos ambos, cada um por seu lado, as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos, mais ou menos na mesma altura. Seria tão bom para mim que... Mas o pensamento de Anny embrenha-se por múltiplos desvios; nunca se pode estar certo de o ter compreendido inteiramente. Preciso de saber a verdade.
«Ouve, queria dizer-te uma coisa: sabes que nunca compreendi muito bem o que eram os tais momentos perfeitos; nunca me explicaste.»
«Bem sei. Nunca fizeste o menor esforço. Eras uma estaca, a meu lado.»
«Sim, mas paguei caro por isso.»
«Mereceste bem tudo o que te sucedeu; tinhas muitas culpas; irritavas-me com o teu ar sólido. Parecia que estavas sempre a dizer: cá por mim, eu sou normal; e aplicavas-te a respirar saúde, escorrias saúde moral.»
«Não negas que, mais de cem vezes, te pedi que me explicasses o que era um...»
«Sim, mas em que tom», diz ela encolerizada: «condescendias em informar-te, era o que era. Fazias a pergunta com uma amabilidade discreta, como as senhoras de idade que. na minha infância, me perguntavam a que é que e estava a brincar. No fim de contas», diz ela em ar de meditação, «pergunto a mim própria se não foste tu quem mais odiei.»
Faz um esforço para se dominar; consegue-o e sorri de faces ainda enrubescidas. Está muito bela.
«Vou então explicar-te de que se trata. Já sou suficientemente velha para falar sem cólera, às boas velhotas como tu, das brincadeiras da minha infância. Anda, fala. Que é que queres saber?» «O que eram os momentos perfeitos.»
«Já me ouviste falar das situações privilegiadas, não é verdade?»
«Não creio.»
«Já, sim», diz ela com segurança. «Estávamos em Aix, naquela praça de cujo nome não me lembro. Tinhamo-nos sentado no jardim dum café debaixo de pára-sóis alaranjados, à torreira do sol. Não te lembras: tínhamos mandado vir limonadas, e eu encontrei moscas mortas no açucareiro.»
«Ah, sim, talvez...»
«Pois bem, foi nesse café que te falei das situações privilegiadas. A propósito, por sinal, da edição grande da História de Michelet, a que eu tinha quando era pequena. Era muito maior que esta e as folhas eram duma cor muito pálida, como o interior dum cogumelo, e tinham também um cheiro de cogumelo. Por morte do meu pai, o meu tio Joseph deitou-lhe a mão e levou todos os volumes. Foi nesse dia que lhe chamei porco sujo, que a minha mãe me chicoteou e que saltei pela janela.»
«Sim, sim... tenho uma ideia de me teres falado dessa História de França... Não ias lê-la para um sótão? Vês que me lembro? Vês que eras injusta, há bocadinho, quando me acusavas de ter esquecido tudo?»
«Cala-te. Eu levava então, como muito bem te lembraste, esses enormes volumes para o sótão. Tinham muito poucas figuras, talvez três ou quatro cada um. Mas cada figura ocupava, sozinha, uma página inteira, e cujo verso, de resto fora deixado em branco. Isso ainda mais me impressionava, porque, nas outras folhas, o texto fora disposto em duas colunas para ganhar espaço. Tinha por essas gravuras um amor extraordinário; conhecia-as todas de cor, e, quando relia um livro de Michelet, começava a esperar por elas cinquenta páginas antes; parecia-me sempre um milagre voltar a encontrá-las. E depois havia um requinte: a cena que representavam nunca se referia ao texto das páginas vizinhas; era preciso ir procurar o acontecimento umas trinta páginas mais adiante.»
«Por favor, fala-me dos momentos perfeitos.»
O estado de apaixonado é superinterpretador, pois tudo significa, tudo implica hipóteses: um leve toque num joelho, o que significará; ele/a perfumou-se, porquê?...
A necessidade de ouvir/ repetir " amo-te" transforma a linguagem em carícia, em toque de pele...
Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo dissipar -se: o amor que termina afasta -se para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenómeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até ao fim a minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica.
Tento recordar o teu rosto, nome. Curioso, como às vezes nos escapam os traços da pessoa amada. Situo-te num passado já distante. Não te imagino num presente.De ti resta-me o que foste comigo.E foste – me ternura e descoberta do meu corpo, das minhas mãos até então inábeis que ensinaste a acariciar os teus cabelos, a sentir o teu corpo; e ainda a descoberta de que a minha voz tinha um sentido para além de sons mais ou menos indistintos e vagos.
A plenitude é pois uma precipitação: alguma coisa se condensa, abate-se sobre mim, fulmina-me. O que me preenche assim? Uma totalidade? Não. Alguma coisa que, partindo da totalidade, vem a excedê-la: uma totalidade sem resto, uma soma sem exceção, um lugar sem nada ao lado (“minha alma não está apenas repleta, mas transbordante”). Plenitudes: não são ditas – de modo que, falsamente, a relação amorosa parece reduzir-se a um longo lamento. É que, se não traz consequências dizer mal a desgraça, em compensação, relativamente à felicidade, pareceria culpável estragar-lhe a expressão: o eu só discorre ferido; quando estou pleno ou me recordo de assim ter estado, a linguagem me parece pusilânime: sou transportado para fora da linguagem, quer dizer, para fora do medíocre, para fora do geral: “Acontece um encontro que é intolerável, por causa da alegria, e algumas vezes o homem fica reduzido a nada; é o que chamo de transporte. O transporte é a alegria da qual não podemos falar.”
“Não temo o suicídio. O pior que pode acontecer a uma pessoa é fartar-se da vida.”
Jovens mulheres nuas, de extrema beleza, intocadas e intocáveis, dormem profundamente sob o efeito de poderosos narcóticos, deixando, sem o saber, que o seu corpo seja contemplado por homens idosos, em busca de uma consolação para a perda de juventude. Eguchi, de 67 anos, passa as noites nesta casa, sendo-lhe permitido deitar-se ao lado das belas adormecidas, mas sem possibilidade de qualquer contacto físico...
"A obra prima da literatura erótica. É obrigatório ler." gonçalo m tavares.
Ninguém sabe o que fica depois do amor. Cada um tem os seus itinerários de paixão, que observou enquanto o rio transbordava as margens. Depois do amor há um horizonte sem princípio e sem fim: tudo pode ser o que já foi ou nunca aconteceu. Na incerteza, os deuses perguntam e os homens escutam. O Oráculo tem sempre muitas dúvidas, a verdade é que Apolo é belo e fala pouco.(...)
O que fica depois do amor? Não sei o que fica, talvez uma cratera à espera de um encontro que alimente o sonho, que refaça o incrível das pequenas coisas. Quando se perde o culto de procurar, instala-se o desespero e as perguntas improváveis.
Fugir de onde os outros sempre vão Pois o que li nos livros ou na mão Não pode ser em vão...
O absurdo é uma fuga, a única fuga possível... O desejo de liberdade é o sintoma da escravidão...
"A menina Albertine foi-se embora!" Como em psicologia o sofrimento vai mais longe que a psicologia!(...) Estas palavras "A menina Albertine foi-se embora!" acabavam de produzir tal sofrimento no meu coração que sentia que já não poderia resistir-lhe mais ,que era preciso por-lhe termo imediatamente (...) a partida de Albertine pareceu-me indiferente e até desejável porque a julgara impossível... Adeus para sempre, minha querida Albertine, e mais uma vez muito obrigado pelo belo passeio que demos juntos na véspera da nossa separação. Para que a morte de Albertine tivesse podido suprimir os meus sofrimentos seria preciso que o choque a tivesse matado não apenas na Touraine, mas em mim, onde ela nunca estivera mais viva. Para entrar em nós, uma pessoa foi obrigada a tomar forma, a moldar-se pelo quadro do tempo; como só nos aparece em minutos sucessivos, nunca pôde entregar-nos de si mais que uma só fotografia.
Não teria que aniquilar em mim uma só Albertine, mas inúmeras.(...)E esses momentos do passado não são imóveis; conservam na nossa memória o movimento que os arrastava para o futuro- para um futuro que se tornou também passado - , a nós mesmos nos arrastando para lá.(...) Já não era o futuro de Albertine, era o seu Passado. O seu Passado! É uma força de expressão, visto que para o ciúme não existe nem passado nem futuro, e o que ele imagina é sempre Presente.
McCann -Importa-se de se sentar?
Stanley- Importo-me, sim.
Mc Cann- Pois é, mas é melhor sentar-se.
Stanley -Porque é que não se senta você?
McCann - Não sou eu, é você.
Stanley - Não, obrigado.
Não há uma grande diferença entre aquilo que é real e aquilo que é irreal, nem entre aquilo que é verdade e aquilo que é falso. Uma coisa pode não ser nem verdadeira nem falsa. Pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.(...) No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Quase nunca a encontramos, mas é forçoso andar em sua busca. A busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. A procura é o nosso trabalho. É muitas vezes no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos com ela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, mas muitas vezes também acontece não sabermos que o fizemos. Mas a verdade mesmo é que não há nunca uma só verdade que possamos encontrar na arte do teatro. Há muitas. Estas verdades desafiam-se umas às outras, repercutem, refletem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes, pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e ela escapa-se-nos por entre os dedos e perde-se. Muitas vezes me perguntam como nascem as minhas peças. Não sei dizer. Nem sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer: foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram.
E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser....É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
São maçadoras,as memórias. Por isso, não devemos pensar em certas coisas,naquelas que nos interessam mais,ou melhor,devemos pensar,porque, se não pensarmos nelas, corremos o risco de as ir reencontrando,na nossa memória,a pouco e pouco.
Não sei quando morri... No entanto, neste final de tarde,sozinho na minha cama gelada,sinto que vou ser mais velho do que o dia,do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim,o mesmo céu que tantas vezes olhei...Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer para esperar pelos grandes e violentos baques do coração....Vou portanto contar a mim mesmo uma história.
O mar, o céu,a montanha,as ilhas, vieram esmagar-me numa mensa sístole,depois afastaram-se até aos limites do espaço. Pensei vagamente no relato que não fiz,relato à imagem da minha vida,ou seja, sem coragem para terminar nem força para continuar.
Bruscamente,não com o tempo, com o tempo, não pude mais, não pude continuar. Alguém diz. Você não pode ficar aqui. Não podia ficar e não podia continuar...Estou nos meus braços, continuo nos meus braços,sem grande ternura, mas fielmente, fielmente. Durmamos, como à luz daquele candeeiro longínquo,enleados,por termos falado tanto,ouvido tanto,penado tanto, brincado tento.
Isto aqui é outra redoma,que não tardará também a ser inabitável, vai ser preciso partir. Está-se para aqui, onde qur que se esteja será um lugar inabitável,é assim. Por isso, é melhor partir, não, é melhor ficar. Partir para onde?... Procurar, à luz da noite,excessva, uma necessidade à altura da oferta, e voltar para a toca,de mãos vazias,de madrugada, no novo dia.
Esquece, ia dizer esquece isso tudo...Vai haver uma partida, eu serei um dos que partem, não serei eu, eu estarei aqui, direi que estou longe, não serei eu, não direi nada,vai haver uma história,alguém vai tentar contar uma história...Esquece isso tudo, querer esquecer isso tudo, sem saber o que isso tudo significa, é fácil de dizer, é fácil de fazer, em vão, nada mexeu, ninguém falou. Aqui, aqui, nada acontecerá, aqui não haverá ninguém, tão cedo. As partidas, as histórias, não estão para breve.
Onde iria, se pudesse ir, que seria, se pudesse ser, que diria,se tivesse uma voz, quem é que fala assim,dizendo que sou eu? Respondam simplesmente,haja alguém que responda simplesmente. É o mesmo desconhecido de sempre, o único para quem existo,nas profundezas da minha inexistência, da nossa, ora aí está uma resposta simples. Depois tudo passa, tudo passa, estou outra vez longe, continuo a ter uma história longínqua, espero por mim ao longe para a minha história começar,para a minha história terminar,e mais uma vez esta vez não pode ser a minha.Seria para lá que eu iria,se pudesse ir,seria esse que eu seria, se pudesse ser.
Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
O álcool não é solução... permite ficar descontraída e simpática uma noite inteira, mas só o sei porque mo contam: nunca me recordo absolutamente de nada... Surgem -me flashes , desconexos, episódicos...Ignora com quem falei, mas mantive conversas interessantes...É uma sorte quando não me depara com gente demasiado conhecida. É estranho, assustador, não fazer ideia de onde esteve, com quem esteve e o que disse...Deve ser por isso que o povo "bebe para esquecer"...Esqueço tudo, menos o que queria ter esquecido...É uma solução degradante: a sociedade provinciana, as convenções, toleram , encaram com permissividade e bonomia, esta solução , em público, mas só nos jovens ou nos homens...
Uma fuga cinematográfica...
Mónica e o desejo - um filme concebido para uma atriz; uma sequência de fotografias, de uma beleza difícil de esquecer, que traduzem estados de alma. Imagens de um casal , em fuga a um quotidiano estiolante, a uma rotina amarga, em busca da plenitude, no efémero momento de um verão. Na ilha de Orno, o paraíso possível, vivem um sonho de amor e liberdade, mas Mónica engravida...Casam, nasce uma filha e ...é a história de sempre, o desenlace inevitável…Acaba o desejo,acaba o amor,acaba a magia, acaba tudo...De novo, imagens de uma mulher,agora sozinha, em fuga a um quotidino estilolante, à procura, à procura...
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão...
A nudez de Mónica, o assumir do seu desejo e sensualidade, o abandono da filha, a fuga assumida às convenções, tornaram-na uma "bad girl", odiada nos pseudoliberais estados unidos: a catedral da liberdade, do preconceito e do puritanismo tacanho...
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Além da evocação de um devaneio juvenil, este filme suscita uma reflexão, uma breve fuga ao tema fuga: bergman está apaixonado por mónica e sente ciúmes de harry, o realizador torna-se émulo da sua personagem...É um tema que a fascina : a existência de sentimentos concretos, quase palpáveis, por inexistências, por ficções, por seres de papel, por meras imagens...Neste caso, a palavra sentimento deixa de ser, morfologicamente, nome não contável( abstrato para os mais antigos), passando à classe de nome concreto.Em suma, o sentimento por alguém em concreto é abstrato; o sentimento por alguém em abstrato é concreto. Daqui não há fuga possível, vociferem os linguistas o que entenderem...
É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora...
Bernardo soares revolta-se, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não foge, fica. Fica sempre. Imobilizado pelo próprio pensamento, prisioneiro de ânsias que nunca concretizará. Pessoa foge sem fugir, vive a angústia da inutilidade de todas as fugas que pensa. Campos é uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; campos é uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chega a meio e volta para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Reis transforma as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Caeiro, oh caeiro, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... E ela? Eu combino todos estes estados de alma: é só copiar o que foi escrito no parágrafo anterior, modificando o sujeito das frases e reescrevendo-as no feminino... Eu revolto-me, tranquilamente, arquitetando fugas mentais, mas não fujo, fico. Fico sempre. Imobilizada pelo próprio pensamento, prisioneira de ânsias que nunca concretizarei. Fujo sem fugir, vivo a angústia da inutilidade de todas as fugas que penso. Sou uma mónica impotente, que se compraz em sentir tudo, sem nada viver ; sou uma mónica que concretiza todas as fugas, mas chego a meio e volto para trás, num dramático retorno ao mesmo ponto de partida. Transformo as mónicas em lídias ,sentadas à beira do rio, placidamente conformadas com o destino. Ela, oh ela, nem se preocupa com a exitências de mónicas; fica e nunca pensa em fugir... Ela procura fugir,mas nunca foge.Tem sono sem ter sono... Sente-se exausta , dorida, mas não lhe apetece dormir, não consegue deixar de pensar...o corpo começa a exigir um descanso que a mente não permite. Sabe que é imaginação delirante e suscetibilidade exacerbada que desencadeiam esses estados depressivos. Andava a ficar serena, pacificada, consciente da realidade, mas ... estou de novo, à beira-mágoa, qual pessoa à espera de d. sebastião...Quero fugir, mas não consigo... Limito-me a recorrer "ao efeito simplificador da estupidez"... É isso: não sou burra, não sou palerma ou ingénua, sou simplesmente estúpida!!
"O jogo tem este fascínio pelo inútil. Triste é irmos abandonado o jogo, qualquer que ele seja. O jogo tem um prazer que não é diferido. A pessoa não joga para mais tarde ter qualquer coisa. É quase o inverso da lógica económica que existe. É ter como centro o prazer e não a vantagem económica. Isso é revolucionário. Hoje, se quisermos fazer micro revoluções, é fazermos um jogo." - Gonçalo M Tavares
Aos pés do trono do Grande Khan estendia-se um pavimento de azulejo. Marco Polo, informante mudo, espalhava o mostruário de mercadorias trazidas das suas viagens aos confins do império: um elmo, uma concha, um coco, um leque. Dispondo os objetos numa certa ordem sobre os azulejos brancos e pretos e, a partir daí, deslocando-os com movimentos estudados, o embaixador tentava representar aos olhos do monarca as vicissitudes da sua viagem, o estado do império, as prerrogativas de remotas capitais.
Kublai era um atento jogador de xadrez; seguindo os gestos de Marco, observava que certas peças implicavam ou excluíam a proximidade de outras peças e deslocavam-se de acordo com certas linhas. Descurando a variedade de formas, ele definia a disposição de um objeto em relação ao outro sobre o pavimento de azulejo. Pensou: "se cada cidade é como uma partida de xadrez, o dia em que eu conhecer as suas regras finalmente possuirei o meu império, apesar de que jamais conseguirei conhecer todas as cidades que este contém".
No fundo, era inútil que para falar de suas cidades Marco utilizasse tantas quinquilharias: bastava um tabuleiro de xadrez com peças classificáveis com exatidão. A cada peça podia atribuir-se alternadamente um significado apropriado: um cavalo podia representar tanto um cavalo real quanto um cortejo de carruagens, um exército em marcha, um monumento equestre; e uma rainha podia ser uma dama debruçada no balcão, uma fonte, uma igreja com a cúpula cuspidada, uma romãzeira.
Ao voltar da sua última missão, Marco Polo encontrou o Khan à sua espera, sentado diante de um tabuleiro de xadrez. Com um gesto, convidou-o a sentar à sua frente e descrever-lhe as cidades que visitara apenas com o auxílio do xadrez. O veneziano não se desesperou. O xadrez do Grande Khan era composto de grandes peças de marfim polido: dispondo sobre o tabuleiro torres ameaçadoras e cavalos sombrios, condensando uma grande quantidade de peças, traçando avenidas retas ou oblíquas como os movimentos da rainha, Marco recriava as perspectivas e os espaços de cidades brancas-e-pretas em noites de lua.
Ao contemplar essas paisagens essenciais, Kublai refletia sobre a ordem invisível que governava a cidade, sobre as regras a que respondiam o seu surgir e formar-se e prosperar e adaptar-se às estações e definhar e cair em decadência. Às vezes, parecia-lhe estar prestes a descobrir um sistema coerente e harmónico que estava por trás das infinitas deformidades e desarmonias, mas nenhum modelo resistia à comparação com o jogo de xadrez. Pode ser que, em vez de insistir em evocar com o magro auxílio de peças de marfim visões de qualquer modo destinadas ao esquecimento, bastasse jogar uma partida segundo as regras e contemplar cada um dos estados sucessivos do tabuleiro como uma das inúmeras formas em que o sistema de formas se organiza e se destrói.
Kublai Khan já não precisava mandar Marco Polo em expedições distantes: detinha-o para jogar intermináveis partidas de xadrez. O conhecimento do império escondia-se no desenho traçado pelos angulosos saltos do cavalo, pelos espaços diagonais que se abrem nas incursões do bispo, pelo paço arrastado e prudente do rei e do humilde peão, pelas alternativas inexoráveis de cada partida.
O Grande Khan tentava identificar-se com o jogo: mas agora era o motivo do jogo que lhe escapava. O objetivo de cada partida é um ganho ou uma perda: mas do quê? Qual era a verdadeira aposta? No xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pelas mãos do vencedor, resta um quadrado preto ou branco.
Com o propósito de desmembrar as suas conquistas para as reduzir à essência, Kublai atingira o extremo da operação: a conquista definitiva, diante da qual os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a um pedaço de madeira polida: o nada...
Não vê que demos xeque-mate um ao outro? -Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista.Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou polícia.(...) Em resumo,é um duelo intelectual dos dois a sós: a minha cabeça contra a sua.
Sou Alekhine, Campeão Mundial de Xadrez; não preciso de passaporte.
Para o jogo do xadrez, tal como para qualquer relação afetiva, é imprescindível um parceiro que sinta prazer em jogar, só pela emoção intelectual de dominar um rei feito de marfim, de madeira ou até de plástico...Pode haver tática,tem de existir dissimulação, podem ocorrer truques mentais e mentiras inteligentes,ardilosas. As mentiras demasiado óbvias ofendem a inteligência do parceiro e redundam em jogadas ineficazes. Até gosta que Me mintam, desde que a mentira seja subtil ,oculta numa qualquer forma de verdade, dificilmente descodificável...
Saber jogar xadrez só serve para uma única coisa ... jogar xadrez! O público precisa compreender que o xadrez é um desporto violento, é verdadeira tortura mental.
Há sempre algo de obsessivo num bom jogador de xadrez. Será que não há algo de obsessivo em todos os processos que exigem inteligência e implicam paixão? Nenhum bom jogador de xadrez o é sem uma paixão doentia pela perfeição daquela engenharia mental.
O xadrez é um jogo elitista, das classes econômicas e culturais superiores. Por isso mesmo é que seus personagens principais são o rei, a rainha, o bispo, o cavalo e a torre (símbolos de uma estrutura de poder muito particular). Os peões, que são a maioria, não passam de, para usar uma terminologia, digamos, mais engajada, massa de manobra. Do ponto de vista político, peões, assim como o povo, são as primeiras vítimas, são os que devem ser sacrificadas. E, claro, ninguém chora por ti, Argentina...
Não gosta de madonna, mas este tema provoca um qualquer impacto lacrimejante ...
Por trás (epa!) de um joguinho inocente como o xadrez se escondem muitas sujeiras. Por enquanto, encontramos a alienação, a deficiência mental, a misoginia e a homofobia. É pouco? É pouco! E sabem por que? Porque tem mais, muito mais. Tenham paciência que eu já conto mais umas coisinhas sobre o assunto...Há um protocolo mental e sociológico que relaciona a falta de agilidade física dos enxadristas com a hospedagem permanente em algum hospício. Quando alguém fala em xadrez está, por extensão, falando em pessoas excêntricas, cheias de tiques nervosos e capazes de fazer coisas que até Deus duvida – e tudo isso formatado em um estereótipo: homem, jovem, magro, feio, óculos fundo-de-garrafa, quilos de espinhas na cara e um quociente de inteligência acima de três dígitos. Ou seja, alguém que não podendo ter uma vida sexual mediana, se decide pelo onanismo incessante. Ou vai me dizer que essas frescuras de mover as peças, com a ponta dos dedos, um monte de delicadeza desproposital, como se o destino do mundo estivesse ao alcance da mão ou da mente, significam outra coisa além de masturbação? Por maiores que sejam os artifícios na construção das fantasias eróticas, quem é que quer enganar quem?
(Foi omitida referência ,por ser de uma deselegância em nada esclaredora, à exploração do verbo "comer", particularmente ofensiva da dignidade da rainha... As formas de antropofagia, típicas da linguagm sexual brejeira, desagradam-lhe profundamente....Só é digna de apreço a polissemia deste verbo no sermão de santo antónio aos peixes...)
Entendo que o sentimento dominante que o jogo de xadrez desperta, nas pessoas consideradas “normais”, é o tédio. E não poderia ser diferente, pois , como é de conhecimento geral, enquanto jogam, teias de aranha se formam na cabeça dos enxadristas. É isso: o xadrez é um jogo chato, onde não acontece nada, os jogadores ficam ali, durante horas, esperando Godot e olhando para aqueles pedaços de madeira ou plástico, enquanto fazem pose de meninos inteligentes. Uma hora, quando ninguém espera, um dos dois jogadores, ladinamente, move um peão, lá do outro lado do tabuleiro, e isso obriga o seu adversário a mergulhar em pensamentos profundos e, claro, sem o mínimo sentido. É isso: o xadrez é o jogo da inércia. Não acontece nada... quem é que consegue suportar a inquietude, o desconforto do silêncio? Só se admite, neste jogo, o tic-tac dos relógios. E isso é chato, muito chato. Além disso, não podemos esquecer que, na modernidade, o silêncio é associado com a morte. É preciso agilidade, quando se quer ser moderno, quando se quer mostrar vida, e o xadrez não oferece isso.
O imaginário contemporâneo está convicto de que jogar xadrez transforma instantaneamente o jogador em uma pessoa muito, muito, muito, muito inteligente. Particularmente, tenho minhas dúvidas.
Feitas essas considerações preliminares, vamos em frente, e através da literatura. Pois bem, iniciemos com um exemplo canônico: Fernando Pessoa. Nas Odes de Ricardo Reis, encontro um longo poema, de onde retiro dois fragmentos...
Ardiam casas, saqueadas eram As arcas e as paredes, Violadas, as mulheres eram postas Contra os muros caídos, Trespassadas de lanças, as crianças Eram sangue nas ruas... Mas onde estavam, perto da cidade, E longe do seu ruído, Os jogadores de xadrez jogavam O jogo de xadrez. (...) Quando o rei de marfim está em perigo Que importa a carne e o osso Das irmãs e das mães e das crianças? Quando a torre não cobre A retirada da rainha branca O saque pouco importa. E quando a mão confiada leva o xeque Ao rei adversário,Pouco pesa na alma que lá longe Estejam morrendo filhos.
Morrem filhos, mulheres são estupradas, o mundo desaba e os dois jogadores do poema de Fernando Pessoa continuam a jogar, como se nada estivesse acontecendo, exceto o lento e aborrecido deslizar das peças sobre o tabuleiro. Essa imagem, apesar de estereotipada, encontra confirmação nos, digamos, lances de linguagem de um dos dois poemas que Jorge Luis Borges denominou Ajedrez:
Tenue rey, sesgo alfil, encarnizada Reina, torre directa y peón ladino Sobre lo negro y blanco del camiño Buscam y libran su batalla armada. No saben que la mano señalada Del jugador gobierna su destino. No saben que un rigor adamantino Sujeta su albedrio y su jornada. También el jugador es prisionero (La sentencia es de Omar) de outro tablero De negras noches y blancos dias. Dios mueve el jugador y éste, la pieza. Que dios detrás de Dios la trama empieza De polvo y tiempo y sueño y agonia?
Entre os escritores que tiveram intimidade com o xadrez, Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, é uma referência especial.Em vários de seus livros, o jogo está presente...Em A defesa, Nabokov conta a estória de Luzhin, um jogador que acredita ter criado um sistema estratégico que o impede de perder.Infelizmente, se o sistema é perfeito, o jogador não o é... Deus move o jogador e o jogador move as peças. Resta saber: existe um outro deus por trás de Deus e que seja capaz de corrigir os desatinos divinos?
George Steiner escreveu um ensaio clássico sobre o xadrez: Uma morte de reis. Neste texto, escrito em tom romântico, lembra que apenas três manifestações da genialidade humana ocorrem na infância: a música, a matemática e o xadrez.
Mirko Czentovic,personagem de sweig, é campeão de xadrez,mas incapaz de escrever uma frase sem erros ortográficos . Como dizia ,com raiva e desdém um dos seus colegas, “ a sua falta de cultura em todos os domínios era igualmente universal”. Adotado por um pároco de aldeia, que tentou alfabetizá-lo, Mirko olhava para as letras como se fossem coisas estranhas e, quando precisava de fazer uma simples soma, contava pelos dedos.Era ótimo a rachar lenha, a trabalhar no campo, a arrumar a cozinha e a ... jogar xadrez!
Na vida real, como dizem aquelas pessoas que conseguem separar os atores das personagens que são interpretadas nas novelas da televisão, muitos exemplos similares podem ser mencionados. É o caso de Robert James Fischer, um dos maiores jogadores de todos os tempos. Fischer praticamente não freqüentou a escola. Dizia que lá não havia o que aprender. Aparentemente ele tinha razão, tanto que triunfou na única coisa que fez na vida: jogar xadrez! O divertido disso tudo é que, lá pelos anos 60, Fischer fez questão de voltar a estudar. Sim senhor, ele voltou para a escola. Mas, claro, era uma escola especial. Antes que alguém fique pensando que o cara enlouqueceu de vez e ingressou em uma desses manicômios da vida, esclareço o mistério: Fischer queria aprender a língua russa. Para que? Simples, para ler revistas de xadrez! As russas eram as melhores do mundo, na época! Ainda falando sobre os “ignorantes”, podemos incluir pessoas como o brasileiro Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, cuja vida tem sido marcada pelo seu constante fracasso em se adaptar ao mundo que o cerca, e o norte-americano Samuel Rechevsky, que aos 9 anos de idade já realizava partidas simultâneas (modalidade em que um jogador joga contra vários adversários ao mesmo tempo). Nenhum dos dois fez outra coisa na vida além de jogar xadrez! Em oposição, há aquelas exceções que confirmam a regra: o grande-mestre alemão Robert Hübner é doutor em arqueologia, com especialidade em egiptologia; o grande-mestre inglês John Nunn, além de professor da Universidade de Oxford, é doutor em matemática. Por último, uma doce surpresa: o ex-campeão mundial Mikhail Thal era mestre em literatura!! Sim senhor, com diploma na parede, alunos e tudo o mais que caracteriza esse interessante e instrutivo papel que desempenhamos no teatro da literatura. Claro, não preciso reiterar que todos esses jogadores possuíam Q.I. na faixa dos três dígitos...
O que pensar desta dissertação de raul arruda filho?
A partir do momento em que tentei jogar contra mim próprio...cada um dos meus dois eus, o meu eu-pretas e o meu-eu brancas tinham de competir entre si...Cada um dos meus dois eus triunfava quando o outro cometia um erro e irritava-se simultaneamente com a sua própria inabilidade... Então crescia em mim uma espécie de excitação maníaca durante o jogo... A alegria de jogar convertera-se em ânsia de jogar, a ânsia de jogar convertera-se em compulsão de jogar, uma mania, uma raiva frenética, que invadia não apenas as minhas horas de vigília, mas também lentamente o meu sono. Só conseguia pensar no xadrez, nos movimentos do jogo de xadrez, nos problemas do xadrez...Com que ansiedade regressava à cela para poder continuar o meu jogo...
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra,(...) E longe do seu ruído, Os jogadores de xadrez jogavam O jogo do xadrez.(...) Quando o rei de marfim está em perigo, Que importa a carne e o osso Das irmãs e das mães e das crianças?(...) Esteja o rei sem xeque, E o de marfim peão mais avançado Pronto a comprar a torre. Meus irmãos em amarmos Epicuro E o entendermos mais De acordo com nós-próprios que com ele, Aprendamos na história Dos calmos jogadores de xadrez Como passar a vida. Tudo o que é sério pouco nos importe, O grave pouco pese, O natural impulso dos instintos Que ceda ao inútil gozo (Sob a sombra tranquila do arvoredo) De jogar um bom jogo. O que levamos desta vida inútil Tanto vale se é A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida, Como se fosse apenas A memória de um jogo bem jogado E uma partida ganha A um jogador melhor.(...) O jogo do xadrez Prende a alma toda, mas, perdido, pouco Pesa, pois não é nada. Ah! sob as sombras que sem querer nos amam, Com um púcaro de vinho Ao lado, e atentos só à inútil faina Do jogo do xadrez, Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro...
Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro... A matéria desta aula ela aprendeu... consegue imaginar qualquer jogo , mesmo com um parceiro que só exista na sua imaginação, o que é totalmente diferente de inexistente. São existências materialmente inexistentes , mas reais no espaço incolor do sonho...
A descrição do "combate",que caracteriza a partida de xadrez, é excelente.
Todo o conto se centra num tabuleiro de xadrez: defrontam-se um conceituado e experiente jogador, o ídolo local,e um desconhecido, um galã, com aparência de ser genial ,que se acredita vai derrotar o adversário. O jovem arrogante movimenta as peças sem sequer pensar nas jogadas, enrolando cigarros com pose teatral. Esta atitude desabrida chega a confundir o velho campeão. No fim do jogo, quanda se torna evidente que o suposto génio é uma fraude, um mero imbecil, o velho, saturado da mediocridade dos seus oponentes, humilhado por ganhar a tal adversário, considera que o único triunfo digno de si é assumir uma derrota definitiva. Perde o jogo e decide que nunca mais voltará a jogar xadrez. Foi o último combate...
A narração é feita a duas vozes, um peão e o rei.Iniciou-se um novo ano letivo, roy straitley, professor de latim, excêntrico e já veterano na escola, sente-se excluído e, ainda que de forma relutante,admite a hipótese de se reformar...
Ele escreve ficção de modo a expressar coisas que não seria capaz de expressar de outra forma e isso significa que ele tem a alma de escritor!
Audere,agere,auferre...Foi por isso que ela fez o que fez? Quase acredito que sim.Talhou um lugar para si no coração de St Osvald.No espaço de três meses tornou-se uma lenda. E agora? Vai voltar à invisibilidade - a uma vida insignificante,a um simples emprego,ou talvez uma família? É o que fazem os monstros quando os heróis envelhecem?
Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p’lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos – e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçuras buscavam nos peões – sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali o néctar; ora, o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando… Assim tudo era – e ‘té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhadas, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos – e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado
..Já os Cavalos pelo pátio se quedaram em sua pedra última. As folhas suspenderam as verdes sombras pêlos ombros de tudo — e os cotovelos não são o início já do movimento da mão pelo Xadrez. «Sessenta e quatro casas» — conta um jogador. «Oito a raiz quadrada» — busca o outro ainda. Numa esquina algures Agosto acena ao voo das abelhas ora ido — e as uvas de Setembro sê-lo-ão em seu maduro tempo uma a uma. Entram os jogadores a porta intima no fundo do pátio tão parada — e eis passo a passo o corredor, as paredes, os quadros, os armários. Tudo agora está e se não vai, tudo ora se conta como hábito: eis a lâmina da barba, as [contas na cozinha, a botija do gás, a lâmpada sobre a mesa, os livros, os jornais, a mosca pela cal — e súbito o ruído do autoclismo. Ah, um copo de água! «Penélope, eis-nos chegados!» — e no ritmo dos corpos eis nos ficamos assim pêlos lençóis tão descobertos. Quase, e só quase, é a nossa condição, e quase como nós o foram outros, e sempre nós e outrem, outrem e nós, nos fomos contando pela vida os números impossíveis de contar. O silêncio depois, voo nenhum, a noite lá fora, a volta só da chave — ó loiça doméstica! nunca o bico do bule, nunca a asa da chávena, um dia, um dia só! um dia foram ave
O bom jogador sempre tem sorte. (Capablanca) No Xadrez,a minha palavra é próxima à de Deus. (Kasparov) No Xadrez, como na vida, o adversário mais perigoso é você mesmo. (Smislov) A ameaça da derrota é mais terrível que a própria derrota.(Karpov) O Xadrez é a Vida. (Fischer) A genialidade consiste em saber transgredir as regras no momento adequado. (Teichmann) Na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate. (Isaac Asimov)
Se queres destruir um homem, ensina-lhe a jogar Xadrez. (Wilde)
Deu por si a pensar: se fosse peça de jogo de xadrez, de que tipo seria? Marfim ou plástico? Branca ou preta? Rei ou rainha? Bispo ou torre? Cavalo ou peão? Há,também, que colocar a hipótese de ser o tabuleiro ou o próprio jogo. Quem sabe...
Jogar xadrez, numa galeria de arte, será bem menos depressivo...
Jogo
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Ouvi contar que ...
Simplesmente cativante, pelo seu caráter difuso, a abertura desta ode de ricardo reis: um tempo distante, muito vago e indefinido,uma guerra que não se sabe qual seja,dois jogadores anónimos,escassas informações concretas... Imagine-se declamada com uma entoação dolente, arrastada, de modo a fazer sobressair toda a passividade e indiferença destes jogadores...
Também ela já jogou xadrez, sem tabuleiro, sem torres, sem peões, sem bispos, sem cavalos - um jogo em que só participava o rei e a rainha. Ela era a rainha e o rei não se sentava à mesa, mas ela sentia-o - " O sonho é ver as formas invisíveis..." Vislumbrava-o na sua imaterialidade existente e,plácida e serena,jogava,jogava... conseguindo acreditar que era feliz.
O jogo findava, mas,como sabia que ele recomeçaria,foi alimentando um mosntro atroz. A ilusão, o desejo pertinaz de que tudo fosse verdade, uma forma de insciência perversamente procurada, o não querer perceber o que compreendia, transformou-se numa hidra desapiedada.
Cada vez que decide cortar a indomável necessidade de jogar, a hidra renasce, duplica-se, num eterno desejo que não controla...
Só resta encher dias de não querer, qual d.sebastião,sem alcácer quíbir..
Outros jogos ...
Elói pegou-lhes nas mãos, pediu-lhe que o não deixasse. As bocas encontraram-se-lhes, os corpos caíram por cima do musgo que sujou de verde o vestido de étamine. Que silêncio! Nada perturbaria aquela paz. Contudo, dentro da sua alma, Elói sentia um vácuo. O amor não existia. Deixou-se conduzir.
Toda ela respira naturalidade.(...) E nada horroriza tanto Elói como a Manuela destes momentos. É então que lhe apetece enfiar-se pela terra abaixo. Admitia-lhe tudo; só não pode suportar aqueles olhos que olham sem ver,aquela boca que se move como não pertencendo a ninguém, aquelas mãos caídas ao longo do corpo, contrafeitas, mas sem acanhamento, dando a impressão de sr exctamente aquele o seu lugar.(...)Ah!Há-de ser num desses momentos! Ele sabe que um dia explodirá! E o melhor meio,sim, não lhe digam que não,
o melhor meio seriaretalhar-lhe a cara, cortar-lha em estrias, de forma a que o sangue espirrasse, descongestionando-a daquela maldita expressão.
o pai é o outro. Mas quem é o outro? Sim. Gostava de saber. Com mil demónios, porque não serei eu o pai? (...) morrer por morrer, morra meu pai que é mais velho.
Carta de régio a joão gaspar simões: Como ousarei falar-lhe da minha novela (que se vai alongando em romance) depois de falar de Dostoievski? Suponhamos que não falei: Aquilo vai marchando; e há momentos em que eu acredito nessas mesmas páginas que noutros momentos me parecem puras tentativas falhadas. Tem-se às vezes, sonhando, visões poderosas e obcecantes… Mas contadas, são banais, frouxas ou ininteligíveis para quem as ouve. À narração dum destes sonhos comparo eu a realização da minha novela...
Em Agosto de 1928, enquanto declarava estar a ler O Idiota, de Dostoievski, confessava de Vila do Conde ao seu amigo, em Coimbra, que tinha encontrado outro título (que talvez ficasse) para o seu livro: “Jogo da Cabra Cega. Que dizes? É um pouco extravagante, mas verdadeiro: O jogo da cabra-cega é um jogo em que a gente procura agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e os olhos vendados. (…) Tinha-lhe achado ainda ouro título: Alicerces e Andaimes, talvez de significação mais ampla. Qual preferes?“.
João Gaspar Simões comenta a resposta então enviada ao amigo: “Preferi, claro, Jogo da Cabra Cega, e Jogo da Cabra Cega ficaria o primeiro notável romance introspectivo da literatura portuguesa. Friso a circunstância, porque ela, contestada pelos factos, pode levar a pensar que o meu Elói ou romance duma cabeça, vindo a lume em 1930, e cujo primeiro excerto figuraria no número 27 (Julho de 1930) da Presença, é anterior ao romance de Régio, mas não. Para todos os efeitos é Régio o arauto da introspecção na novelística nacional. Bem certo que em Agosto de 1929 publicara a mesma Presença um Fragmento do romance inédito “Jogo da Cabra-Cega”. A obra, porém, só muito depois da minha, em Outubro de 1934, virá à luz em volume. Ora à volta dos trabalhos em que Régio e eu andávamos empenhados desde 1927, gera-se entre nós, entre Régio e o autor destas páginas, um grande desentendimento, que será o primeiro, mas não o último“.
No jogo da cabra cega procura -se agarrar alguém, e reconhecê-lo, com os braços estendidos e de os olhos vendados. Pedro Serra, alter-ego de Régio, percorre, às apalpadelas, o labirinto da sua mente imaginária, como se o mundo fosse um hospício de alienados!.
"Jogo da Cabra Cega", o primeiro notável romance introspectivo da literatura portuguesa. Afirma joão gaspar simões.
O gôsto de vaguear de noite, a horas mortas, era agora o mais querido dos meus prazeres melancólicos. Desde muito novo desenvolvo reais qualidades inventivas em tal género de prazeres: Mas qualidads que sobretudo se revelam no pormenor ou na maneira.(...) Noites havia , sim, em que simplesmente apreciava a noite: O aspecto de mascaradas , ou desmascaradas, que certas casas têm a certas horas...esboços de paisagens , ou transfigurações inesperadas que à luz do dia são banais.
Lasso e triste entre os lençóis, eu considerava a chateza da minha vida. Para me entreter, dispunha as coisas com um certo ar de humorismo fácil, como se as recompelasse para uma novela fútil... Mas êstes jogos de imaginação , a que, já o disse , me dou frquntemente,não conseguiam dissipar qualquer coisa que me obscurecia , permanecendo na minha memória.
Tenho mêdo de ser só, porque tenho mêdo de ser doido! Eu posso possuir uma lucidez excecional: Se não tiver companhia, se ninguém se me aproximar, se não fôr compreendido para além da razão..., das palavras..., a minha lucidez será excepcional por ser a dum doido! e serei fatalmente doido. Não posso perdoar a mim próprio esta fraqueza : Tenho mêdo.
Era-me impossível arrancar os olhos aos seus; e dos meus olhos devia transparecer a mesma admiração rancorosa. Com movimentos cheios de melancolia, graciosos, quási preciosos, êle agarrou-me então os pulsos abrindo-me um pouco os braços. O sorriso reapareceu-lhe na bôca. Todo o seu rosto exprimia indulgência e uma curiosidade apaixonada.
- És uma criança! - disse deixando cair as palavras uma a uma - Admiras-me, odeias-me, aborreces-me . És atraído por mim ou repeles-me..., e tudo isto quer dizer que estamos ligados um ao outro. Mas porque te comparas demais comigo? Eu quero compartilhar contigo os meus tesoiros.poupando-te ao cansaço de subir e descer escadas terríveis. Bem sei que os meus tesoiros são... perigosos. São talvez perigosos! Mas hás de chegar a poder com eles. Confia em mim! Abandona-te um pouco mais...Coragem!, mais um passo.
Compreendi então que ia ser de vez o seu boneco de corda. Ele apossava-se de mim, eu cedia...
Voltei-me, sobressaltado; e ria como se quisesse , rindo de mim, atenuar a impressão de ridículo de que alguém me escutara...Ora êsse alguém era ainda eu. E repentinamente , voltando-me, tive a sensação pavorosa dum desdobramento físico. O mais terrível é que, como nos sonhos , o outro era simultâneamente eu próprio e Jaime Franco.(...) O meu estado é anormal. Sei que raciocino com lucidez...Mais forte do que o exercício normal da razão é esta vaga impressão de terror nos momentos de angústia mal definida. Assentemos pois neste primeiro ponto incontestado: o meu estado é anormal. Assentemos já no segundo: Estou assim por causa dêle. Pronunciemos corajosamente o seu nome : Estou num estado anormal por causa de Jaime Franco.(...)
Debalde eu violentava-me a este jôgo estéril de palavras mentais. Desde o princípio que a imagem sub-consciente de Jaime Franco me entretinha num devaneio obscuro, sinuoso e sinistro.
Eis-me portanto não sabendo exteriorizar a minha piedade ( como não sei nem busco exteriorizar senão por detalhes mínimos qualquer sentimento profundo e complexo) e "voilá porquoi" , ...eis porque me julgam duro e sêco. Ei-los que me acusam, "les gens" de lhes não dar a piedade que me pedem ( e que tantas vezes também lhes peço!) ; a qual não é senão fraqueza interesseira, condescendência com fraquezas. E eis-me em virtude destas e doutras considerações plenamente convicto da minha superioridade!; mas pobre, triste, risível, pobre, triste e risível vítima de tal convicção, eis..." Voici"..." voilá" que ...etc, etc, etc, etc, !
E na sua atrapalhação, enquanto apertávamos a mão um do outro, o Sombra arrastou com a manga do casasco a chávena que tinha à borda da mesa. A chávena escacou-se no chão de mosaico.
FIM
O homem é , irremediavelmente, uma " besta sadia, cadáver adiado que procria."
Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...
Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que o seu bailado altivo e miserando.
No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.
...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!
Compreender um ao outro
É um jogo complicado,
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.
Nunca tive saudades, porque nunca tive de que as ter e fui sempre racional em meus sentimentos. Como nada fiz da minha vida, não tenho de que recordar-me com saudade; pude ter esperanças, porque o que não existe pode ser tudo; hoje nem tenho esperanças, porque não vejo razão porque o futuro seja diferente do passado. Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos. Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória.
O jogo do xadrez Prende a alma toda, mas, perdido, pouco Pesa, pois não é nada.
Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida,
Em que nos distraímos de outra coisa —
Que coisa, não sabemos —;
Livres porque brincamos se jogamos,
Presos porque tem regras todo jogo;
Quem somos? quem seremos?
Feliz o a quem surge a consciência
Do jogo, mas não toda, e essa dele
Em o saber perdê-la.
Vendi-me de graça aos casuais do encontro.
Amei onde achei, um pouco por esquecimento.
Fui saltando de intervalo em intervalo
E assim cheguei a onde cheguei na vida.
Hoje, recordando o passado
Não encontro nele senão quem não Fui...
A criança inconsciente na casa que cessaria,
A criança maior errante na casa das tias já mortas,
O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio,
O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo).
O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia...
O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia.
O homem inconsciente tão diverso e tão estúpido de depois...
Não tendo nada de comum com o que foi,
Não tendo nada de igual com o que penso,
Não tendo nada de comum com o que poderia ter sido.
Eu...
Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco
Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida.
Veio agora de uma das cadeiras da cozinha, para ocupar o seu lugar na «Estante Velha» [a que foi paga pela Avó Formiga, por volta de 68 ou 69, a que vai na «terceira casa»]. Faz parte das aquisições obrigatórias deste Verão Gasparino, para tentar completar a Estante Davidiana. As suas mais remotas imagens de Lisboa: casas cor-de-rosa, afogueadas pelo Sol; varandas confusas; nítidos degraus; luzes de eléctricos, ao crepúsculo, a fazerem dançar a névoa sobre carris humedecidos.