Mistérios...
Estou perdido. Paro? Não: se paro, estou perdido. Uma mensagem misteriosa... A literatura prepara-nos para todos os enredos, para os inúmeros desenlaces...
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa.
Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até dum copo vazio E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E entretanto o tempo fez cinza da brasa E outra maré cheia virá da maré vaza Nasce um novo dia e no braço outra asa Brinda-se aos amores com o vinho da casa E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Mais que a existência É um mistério o existir, o ser, o haver Um ser, uma existência, um existir — Um qualquer que não este por ser este— Este é o problema que perturba mais. O que é existir, não nós ou o mundo— Mas existir em si?
Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está.
Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas frívolas é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível...
Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda. Uma tristeza cheia de pavor esfria-me. Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos. Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas, Não vos ergais nunca! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!
Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?
Ela tendia para a filosofia epicurista, esse leito estreito, mas limpo, sobre o qual estendi, por vezes, o meu pensamento. O mistério dos deuses, que me perseguia, não a inquietava... O nosso entendimento dispensou confissões, explicações ou reticências: bastavam os factos.
Now I'm weaker than the palest blue Oh, so weak in this need for you...
Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!/ Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada! / Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente; Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente... Que bafo horrível e frio me toca os olhos fechados? Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim!
You keep on lyin', you keep on lyin', to me...
Brumas...
É a incerteza que nos fascina. Tudo é maravilhoso entre brumas.
Amanhece entre brumas: absorve, com ansiedade, o ar fresco; olha em frente e não vislumbra nada, só espetros indefinidos...Olha para dentro de si e descobre que se tornou numa manhã fresca de nevoeiro. Experimenta, nesses momentos, uma estranha solidão: é fresca , é feita de nada e da imagem de uma figura imaginária...
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem.(Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora! Valete, Fratres.
Apetece-lhe substituir o sujeito...
Flui, indeciso na bruma,Mais do que a bruma indeciso,Um ser que é coisa a achar E a quem nada é preciso. Quer somente consistir No nada que o cerca ao ser, Um começo de existir Que acabou antes de o ter. É o sentido que existe Na aragem que mal se sente E cuja essência consiste Em passar incertamente.
Ressente, mais uma vez, intocada, dentro de si, a emoção que experimentou sol carnamensis vrumte kaloskaiagatos also andros meta underall. Shana simblas sed timtamtum,timtamtum! Ressente a desilusão de vide du fugo in nebfo evsem...
Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz Não digas nada.
Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro. Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes!
Tem saudades do passado, do presente e do futuro; saudades do que nunca viverá, nem poderia ter vivido...
O que me dói não é / O que há no coração / Mas essas coisas lindas / Que nunca existirão./ São as formas sem forma ...São como se a tristeza / Fosse árvore e, uma a uma,/ Caíssem suas folhas / Entre o vestígio e a bruma.
O que nós não somos – porque nada o é – como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e, através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa...
Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida,Cheio de não ter passado,Até o futuro se olvida.
Tudo está certo depois.Mas a dor que nos desola,A mágoa de um não ser dois —Nada explica nem consola.
Nós não sonhámos. Eras real e eu era real (…) Um pasmo vago de ter havido amar. . . Quase que me embriago de mal poder pensar...O que mudou e onde? O que é que em nós se esconde? Talvez sintas como eu e não saibas senti-lo. . . Ser é ser nosso véu amar é encobri –lo (…) Somos a nossa bruma. . .
Não tenho quinta nenhuma. Se a quero ter pra sonhar, Tenho que a extrair da bruma Do meu mole meditar. E então, desfazendo a névoa Que há sempre dentro de nós, Progressivamente elevo-a Até uma quinta a sós.
Tenho em mim como uma bruma Que nada é nem contém A saudade de coisa nenhuma, O desejo de qualquer bem. Sou envolvido por ela Como por um nevoeiro E vejo luzir a última estrela Por cima da ponta do meu cinzeiro.
Sem cessar, uma folha após a outra se desprende do rolo do tempo, cai, flutua por um momento, depois torna a cair nos joelhos do homem. O homem então diz: "Lembro-me", e inveja o animal que se esquece de imediato e que vê de facto morrer o instante,assim que ele torna a cair na bruma e na noite e se apaga para sempre...
A bruma do tempo da memória, esse passado omniausente ,mas , paradoxalmente, omnipresente, é uma intermitência constante, é a verdadeira condenação...
Restos...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído.
E fugiste... Que importa ? Se deixaste A lembrança violeta que animaste Onde a minha saudade a Cor se trava?.
Resta a ilusão violeta de te ter possuído...
Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Desde o momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. (...) Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante.(...)
Resta dissimular...
A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibilidade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espectáculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.
Resta aceitar...
Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.
Resta a aceitação púrpura de abdicar...
Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...
Resta esperar...
Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
O sem nervos nem ânsia – o papa– açorda, (Seu coração talvez movido a corda...) Apesar de seus berros ao Ideal
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará. Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Resta desistir ...
A resignação é um suicídio quotidiano.
Toda a ternura que eu pudera ter vivido, Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os cenários que entretanto fui... É lá, no grande Espelho de fantasmas Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, Se desmorona o meu presente, E o meu futuro é já poeira...
Restam fantasmas ...
Hoje esqueci-me que às vezes também podes ver Às vezes também sabes ter noção Hoje vens tu ver restos de mim...
Neste infinito fim que nos alcançou Guardo uma lágrima vinda do fundo Guardo um sorriso virado para o mundo Guardo um sonho que nunca chegou...Levo-te a ti... levo-te a ti... levo-te a ti para sempre comigo...
Restos de mim, restos de ti... Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer.
Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido; Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado. Esse nácar em cinzas desatado Foi vistoso pavão de Abril florido; Esse Estio em Vesúvios encendido Foi Zéfiro suave, em doce agrado. Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago, Olha, cego mortal, e considera Que és rosa, Primavera, Sol, baixel, Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
A resignação é um suicídio quotidiano.
Resta o que restar: cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
"Não temos mais decerto que o instante Em que o pensamos certo. Não o pensemos, pois, mas o façamos Certo sem pensamento. "
Resta o instante... Um engano de poucos instantes que seja...
" Naquele engano de alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito..." Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. – E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa) Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, estes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh que amor, que felicidade... que desgraça a minha!
Resta um engano ... Um engano de poucos instantes que seja...
A resignação é um suicídio quotidiano.




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