E caiu a chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites... - Génesis
Chagall recebeu uma encomenda de ilustração da ‘Bíblia’. Partiu para a Palestina, onde esteve dois meses e, ao longo de 25 anos,pintou 105 quadros baseados em episódios do Antigo Testamento.
E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —
Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.
William Turner, inspirado nas teorias de Goethe sobre a impressão provocada pela cor, joga com o círculo de cores, criando uma esfera com pinceladas de cores "efémeras" (amarelos), onde cores quentes e "esperançosas" (vermelhos) se sobrepõem às ameaças em diluição das cores "ameaçadoras" (azuis). Assim pretende transmitir a atmosfera de reinício da vida, após uma noite devastadora.
Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que é diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos, como a de Eolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.
Julga-se que foi o primeiro painel narrativo feito por Michelangelo e que mostra uma grande quantidade de pessoas juntas. Este painel, o menor dos nove da Capela Sistina, squando olhado do chão da Capela fica difícil perceber todos os contornos. Os entendidos em obras de Michelangelo dizem que, após o artista ver a sua obra o Dilúvio do chão aumentou a escala nos próximos desenhos, já que todos os painéis, depois do Dilúvio são maiores e com poucas figuras...
O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.
Num ambiente mágico, mas alucinado, como esta foto de Werther Santana bem simboliza, Dilúvio pretende ser um convite à reflexão: “Falo desse dilúvio moderno que vivemos, dessa arca que não é. Mas eu não conto histórias, apenas crio imagens, proponho ideias e conexões. O público faz o resto”, comenta Gerald Thomas.
Num tempo em que a informação é tão excessiva e redundante que como que nos adormece para a realidade, a protagonista tenta salvar, num oásis imaginário, toda a informação amontoada e deixada a apodrecer, num mundo em que guerras e catástrofes geram notícias falsas.
Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro. Uma velha preocupação minha (porquê nunca houve uma greve numa fábrica de armamento)...Se eu pudesse decidir,nunca me ia embora.
O homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento conhecida pela razão social de produções belona s.a.,
Aos operários fuzilados em milão por terem sabotado obuses,hurra. O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável.
O portador,senhor artur paz semedo, funcionário do serviço de contabilidade da empresa produções belono s.a., está autorizadoa investigar livremente o arquivo na parte respeitante aos anos trinta do século passado...
Nada que outra pessoa não pudesse fazer.
(Dia 11 de outubro de 2014, 8:41 - Li a última frase escrita por saramago e chorei. Não consigo parar de chorar.9:13 - Acabei de arrumar na estante o último romance do meu prémio nobel... Para o que me havia de dar: choro como há muito não o fazia...)
16.9.2009
Creio que poderemos vir a ter livro. O primeiro capítulo,refundido,não reescrito,saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história "humana".Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro " Vai à merda", proferido por ela. Um remate exemplar.
Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade! E nesse momento, a caminhar em plena rua, desarmado, observando de cima os seus sapatos castanhos, velhos, sapatos irresponsáveis como troçava Klober, nesse momento Walser sentia-se tão seguro — e, ao mesmo tempo ameaçador — como se avançasse dentro de um tanque pela rua...Porém, subitamente, deu um salto para o lado. Quase pisara uma massa alta. Era um homem. E estava morto.
Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente ; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo...Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Era o rosto de um homem que assassinaria e daria a vida por um amigo [...] Espelhava sinceridade e ferocidade,assim como a patética reverência que os iletrados sentem pelos seus supostos superiores.[...]Não sei bem porquê ,mas raramente conheci alguém - algum homem quero dizer - que me tenha inspirado uma simpatia tão imediata.
Na guerra de trincheiras há cinco coisas importantes: lenha,comida,tabaco,velas e inimigo.
O mundo real, do passado, do presente ou do futuro, é- me indiferente. Nem a análise lúcida de orwell me alicia.
Talvez a minha revolta contra a realidade seja pelo facto de, inadvertidamente, ter visto a casa dos segredos e pensar que todos os que lutaram pelos direitos humanos foram uns ingénuos...
Sometimes you seem like a lost cause Breathe a second, feel the pregnant pause...
Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água?
Foi com surpresa de muitos que não escolhi as outras propostas que me foram apresentadas, santareno ou saramago, optando por uma obra desconhecida do século XVI, eu, na época, uma aluna "com ar tão moderno". O professor que me ia orientar a tese de mestrado, inicialmente, encarou, com desconfiança e apreensão, o meu interesse por um texto inóspito, de difícil decifração, de autor absolutamente desconhecido: " A senhora está consciente da solidão da sua escolha?"
O meu ponto de partida foi manuel de mesquita perestelo, mais nada... Bem poderia ter sido eu a conceber um romance similar a todos os nomes... Durante cerca de seis meses andei a tentar reconstruir uma vida, a partir de um nome, referido em : ANSELMO. (António Joaquim) Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI.
A história trágico- marítima sempre me atraiu. Além disso, escolher um tema sobre o qual nada se sabia e que não interessaria a ninguém foi estimulante. Recordo bem a diferença: o meu colega que optou por saramago ( que só veio a ser nobel dez anos depois) tinha sempre tema de conversa e a correspondência que trocou com o autor era motivo de entusiasmo para todos nós... santareno, nos anos a seguir ao 25 de abril, ainda desencadeava emoções, até políticas... havia sempre assunto. A quem interessava, mesmo no meio universitário, um manuel de mesquita perestelo que talvez tivesse escrito um relato, cujo original nem se sabia bem por onde andava...Percebi, rapidamente, o porquê de ter feito uma escolha solitária: a minha tese interessava , apenas, a duas pessoas: a mim e ao professor que, timidamente, manifestara o desejo de alguém sentir curiosidade por uma obra "desaparecida".
Anos mais tarde, por volta de 2005, recebi um telefonema de um antigo colega de mestrado que estava em Macau : a faculdade de artes e humanidades, da universidade de Macau, tinha interesse na minha tese... Na época, totalmente inebriada com a existência de professora bibliotecária,recusei o convite, até porque a viagem e o oriente me desmotivavam...
Subitamente, no dia 21 de março de 2018, o telefonema de um jornalista, que teve a informação sobre a minha "obra prima" na Biblioteca de Portugal, fez subir para dois o número de interessados ...
"O argumento do livro é simples: um navio negreiro afunda-se ao largo do Brasil. Desse naufrágio salvam-se o capataz, o escravo, um criado, um padre, um estudante, uma fidalga e a sua filha e um menino pretinho. Também não "perde" a vida uma imagem de uma santa, Nossa Senhora de Todas as Angústias, que assiste a tudo o que se vai passar, umas vezes como observadora, noutras como puro objeto de madeira. A salvação, no entanto, não lhes sai barata, pois o rochedo onde se refugiam da água tem a maldição de a cada maré cheia submergir a pouca areia da praia e restar-lhes um buraco para se abrigarem e confrontarem os seus tabus.
Está o cenário posto e as personagens apresentadas logo a poucas dezenas de páginas, momento em que o leitor questiona como vai a escritora entretê-lo até ao fim. Não seria coisa difícil tantos os livros sedutores sobre náufragos, tantas as peripécias que os sobreviventes podem viver numa ilha deserta. Até porque como se diz à página 221, "o mar não é de confiança", daí que a narrativa pudesse seguir os caminho da História Trágico-Matrítima e estava tudo transformado em romance como seria previsível.
Se houvesse que reduzir este livro a um conceito ele seria a realização de um auto de fé. Daqueles em que personagens são matéria a arder e o leitor sai chamuscado, mesmo com tanto mar à volta. Um livro impressionante e, principalmente, redentor." João Céu e Silva
...não me quero encontrar, que estou dentro de um navio que sei que vai naufragar, já não falo e ainda sorrio, porque está perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o começo, e estava apenas no fim.
Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar...
E quando o vento se agita / Agita-se o meu tormento Quero esquecer-te, acredita / Mas cada vez há mais vento...
Teus olhos...São as ondas pensamentos Que o teu olhar me deixou São estrelas mortas lamentos Que o teu mar despedaçou...Passa o vento nos escolhos Como o teu triste cantar No verde mar dos teus olhos. Ando sempre a naufragar
Fado e naufrágios até que combinam: não há tragédia sem fado; não há fado sem tragédia...
A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado?
Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado.
nanban, anselmo
Nunca mais ler a Peregrinação causava-me uma angústia indizível. O acaso, o destino ou a sorte colocam esta obra no meu caminho e aí vou eu, "por este rio acima", a reler excertos, a recordar o português do século XVI, uma língua que me sabe a passado, a presente e a futuro... O reencontro com estes textos é assaz comovente, como o são todos os reencontros... Talvez seja um dos meus traços mais definidores: gosto de reencontrar ( talvez , por isso, até nem me importe de perder ...)
Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram...acho que com muita razão me posso queixar da ventura,que parece que tomou por particular tenção a empresa sua de perseguir-me e maltratar-me,como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória...
E vendo eu quão pouco me fundiam tanto os trabalhos e serviços passados como o requerimento presente, determinei de me recolher com essa miséria que trouxera comigo, adquirida por meio de muitos trabalhos e infortúnios, e que era o resto do que tinha gasto em serviço deste reino, e deixar o feito à justiça divina, o que logo pus em obra, pesando-me ainda por que o não fizera mais cedo, porque se assim o fizesse, quiçá me pouparia nisso um bom pedaço de fazenda.
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado Lembra-me um céu aberto, outro fechado Estala-me a veia em sangue, estrangulada Estoira no peito um grito, à desfilada...
Namban significa, em japonês, "bárbaros do sul", termo com que os nipónicos apelidaram os europeus, devido aos seus hábitos pouco requintados: Comem com os seus dedos, em vez de usarem os pauzinhos... Manifestam os seus sentimentos, sem qualquer autocontrole. São incapazes de entender a nossa escrita.
Esta capa de um ebook da Peregrinação é retirada de um biombo japonês, que, à semelhança das tiras de banda desenhada, conta uma história, através de imagens...Com a chegada dos portugueses, em 1543, iniciam-se os contactos com o japão, ficando este encontro de civilizações e de trocas culturais registado em biombos namban.
Os biombos Namban contam A história alegre das navegações Pasmo de povos de repente Frente a frente Alvoroço de quem vê O tão longe tão de pé Laca e leque Kimono camélia Perfeição esmero E o sabor de tempero Cerimónias mesuras Nipónicas finuras Malícia perante Narigudas figuras Inchados calções Enquanto no alto Das mastreações Fazem pinos dão saltos Os ágeis acrobatas das navegações Dançam de alegria Porque o mundo encontrado É muito mais belo Do que o imaginado
Peregrinatio Egeriae - A ida de Egéria à Terra Santa, nos anos 381 a 384, é o segundo documento escrito de uma peregrinação ao Oriente e o primeiro que se conhece redigido por uma mulher. É o texto latino mais antigo que se pode atribuir a território ocidental, um testemunho essencial da evolução do latim para as línguas românicas.
Outra peregrinação ao passado, mas esta de má memória, apesar de adorar o texto e de não ter embirrado com a santidade de egéria...
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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quinta-feira, 22 de março de 2018
domingo, 23 de novembro de 2014
Naufrágios e peregrinações...
Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro. Uma velha preocupação minha ( porquê nunca houve uma greve numa fábrica de armamento)...
Se eu pudesse decidir,nunca me ia embora.
O homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento conhecida pela razão social de produções belona s.a.,
Aos operários fuzilados em milão por terem sabotado obuses,hurra. O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável.
O portador,senhor artur paz semedo, funcionário do serviço de contabilidade da empresa produções belono s.a., está autorizadoa investigar livremente o arquivo na parte respeitante aos anos trinta do século passado...
Nada que outra pessoa não pudesse fazer.
(Dia onze de outubro de 2014, 8:41 - Li a última frase escrita por saramago e chorei. Não consigo parar de chorar.9:13 - Acabei de arrumar na estante o último romance do meu prémio nobel... Para o que me havia de dar: choro como há muito não o fazia...)
16.9.2009
Creio que poderemos vir a ter livro. O primeiro capítulo,refundido,não reescrito,saiu bem,apontando já algumas vias para a tal história "humana".Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro " Vai à merda", proferido por ela. Um remate exemplar.
Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade! E nesse momento, a caminhar em plena rua, desarmado, observando de cima os seus sapatos castanhos, velhos, sapatos irresponsáveis como troçava Klober, nesse momento Walser sentia-se tão seguro — e, ao mesmo tempo ameaçador — como se avançasse dentro de um tanque pela rua...Porém, subitamente, deu um salto para o lado. Quase pisara uma massa alta. Era um homem. E estava morto.
Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente ; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo...Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Era o rosto de um homem que assassinaria e daria a vida por um amigo [...] Espelhava sinceridade e ferocidade,assim como a patética reverência que os iletrados sentem pelos seus supostos superiores.[...]Não sei bem porquê ,mas raramente conheci alguém - algum homem quero dizer - que me tenha inspirado uma simpatia tão imediata.
Na guerra de trincheiras há cinco coisas importantes: lenha,comida,tabaco,velas e inimigo.
O mundo real, do passado, do presente ou do futuro, é- me indiferente. Nem a análise lúcida de orwell me alicia.
Talvez a minha revolta contra a realidade seja pelo facto de, inadvertidamente, ter visto a casa dos segredos e pensar que todos os que lutaram pelos direitos humanos foram uns ingénuos...
Sometimes you seem like a lost cause Breathe a second, feel the pregnant pause...
Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água?
Foi com surpresa de muitos que não escolhi as outras propostas que me foram apresentadas, santareno ou saramago, optando por uma obra desconhecida do século XVI, eu, na época, uma aluna "com ar tão moderno". O professor que me ia orientar a tese de mestrado, inicialmente, encarou com desconfiança e apreensão, o meu interesse por um texto inóspito, de difícil decifração, de autor absolutamente desconhecido: " A senhora está consciente da solidão da sua escolha?"
O meu ponto de partida foi manuel de mesquita perestelo, mais nada... Bem poderia ter sido eu a conceber um romance similar a todos os nomes... Durante cerca de seis meses andei a tentar reconstruir uma vida, a partir de um nome, referido em : ANSELMO. (António Joaquim) Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI.
A história trágico- marítima sempre me atraiu. Além disso, escolher um tema sobre o qual nada se sabia e que não interessaria a ninguém foi estimulante. Recordo bem a diferença: o meu colega que optou por saramago ( que só veio a ser nobel dez anos depois) tinha sempre tema de conversa e a correspondência que trocou com o autor era motivo de entusiasmo para todos nós... santareno, nos anos a seguir ao 25 de abril, ainda desencadeava emoções, até políticas... havia sempre assunto. A quem interessava, mesmo no meio universitário, um manuel mesquita perestelo que talvez tivesse escrito um relato, cujo original nem se sabia bem por onde andava...Percebi, rapidamente, o porquê de ter feito uma escolha solitária: a minha tese interessava , apenas, a duas pessoas: a mim e ao professor que, timidamente, manifestara o desejo de alguém sentir curiosidade por uma obra "desaparecida".
"O argumento do livro é simples: um navio negreiro afunda-se ao largo do Brasil. Desse naufrágio salvam-se o capataz, o escravo, um criado, um padre, um estudante, uma fidalga e a sua filha e um menino pretinho. Também não "perde" a vida uma imagem de uma santa, Nossa Senhora de Todas as Angústias, que assiste a tudo o que se vai passar, umas vezes como observadora, noutras como puro objeto de madeira. A salvação, no entanto, não lhes sai barata, pois o rochedo onde se refugiam da água tem a maldição de a cada maré cheia submergir a pouca areia da praia e restar-lhes um buraco para se abrigarem e confrontarem os seus tabus.
Está o cenário posto e as personagens apresentadas logo a poucas dezenas de páginas, momento em que o leitor questiona como vai a escritora entretê-lo até ao fim. Não seria coisa difícil tantos os livros sedutores sobre náufragos, tantas as peripécias que os sobreviventes podem viver numa ilha deserta. Até porque como se diz à página 221, "o mar não é de confiança", daí que a narrativa pudesse seguir os caminho da História Trágico-Matrítima e estava tudo transformado em romance como seria previsível.
Se houvesse que reduzir este livro a um conceito ele seria a realização de um auto de fé. Daqueles em que personagens são matéria a arder e o leitor sai chamuscado, mesmo com tanto mar à volta. Um livro impressionante e, principalmente, redentor." João Céu e Silva
...não me quero encontrar, que estou dentro de um navio que sei que vai naufragar, já não falo e ainda sorrio, porque está perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o começo, e estava apenas no fim.
Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar...
E quando o vento se agita / Agita-se o meu tormento Quero esquecer-te, acredita / Mas cada vez há mais vento...
Teus olhos...São as ondas pensamentos Que o teu olhar me deixou São estrelas mortas lamentos Que o teu mar despedaçou...Passa o vento nos escolhos Como o teu triste cantar No verde mar dos teus olhos. Ando sempre a naufragar
Fado e naufrágios até que combinam: não há tragédia sem fado; não há fado sem tragédia...
A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado?
Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado.
Nunca mais ler a Peregrinação causava-me uma angústia indizível. O acaso, o destino ou a sorte colocam esta obra no meu caminho e aí vou eu, "por este rio acima", a reler excertos, a recordar o português do século XVI, uma língua que me sabe a passado, a presente e a futuro... O reencontro com estes textos é assaz comovente, como o são todos os reencontros... Talvez seja um dos meus traços mais definidores: gosto de reencontrar ( talvez , por isso, até nem me importe de perder ...)
Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram...acho que com muita razão me posso queixar da ventura,que parece que tomou por particular tenção a empresa sua de perseguir-me e maltratar-me,como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória...
E vendo eu quão pouco me fundiam tanto os trabalhos e serviços passados como o requerimento presente, determinei de me recolher com essa miséria que trouxera comigo, adquirida por meio de muitos trabalhos e infortúnios, e que era o resto do que tinha gasto em serviço deste reino, e deixar o feito à justiça divina, o que logo pus em obra, pesando-me ainda por que o não fizera mais cedo, porque se assim o fizesse, quiçá me pouparia nisso um bom pedaço de fazenda.
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado Lembra-me um céu aberto, outro fechado Estala-me a veia em sangue, estrangulada Estoira no peito um grito, à desfilada...
Namban significa, em japonês, "bárbaros do sul", termo com que os nipónicos apelidaram os europeus, devido aos seus hábitos pouco requintados: Comem com os seus dedos, em vez de usarem os pauzinhos... Manifestam os seus sentimentos, sem qualquer autocontrole. São incapazes de entender a nossa escrita.
Esta capa de um ebook da Peregrinação é retirada de um biombo japonês, que, à semelhança das tiras de banda desenhada, conta uma história, através de imagens...Com a chegada dos portugueses, em 1543, iniciam-se os contactos com o japão, ficando este encontro de civilizações e de trocas culturais registado em biombos namban.
Os biombos Namban contam A história alegre das navegações Pasmo de povos de repente Frente a frente Alvoroço de quem vê O tão longe tão de pé Laca e leque Kimono camélia Perfeição esmero E o sabor de tempero Cerimónias mesuras Nipónicas finuras Malícia perante Narigudas figuras Inchados calções Enquanto no alto Das mastreações Fazem pinos dão saltos Os ágeis acrobatas das navegações Dançam de alegria Porque o mundo encontrado É muito mais belo Do que o imaginado
Peregrinatio Egeriae - A ida de Egéria à Terra Santa, nos anos 381 a 384, é o segundo documento escrito de uma peregrinação ao Oriente e o primeiro que se conhece redigido por uma mulher. É o texto latino mais antigo que se pode atribuir a território ocidental, um testemunho essencial da evolução do latim para as línguas românicas.
Outra peregrinação ao passado, mas esta de má memória, apesar de adorar o texto e de não ter embirrado com a santidade de egéria...
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Mistérios,brumas,restos...
Mistérios...
Estou perdido. Paro? Não: se paro, estou perdido. Uma mensagem misteriosa... A literatura prepara-nos para todos os enredos, para os inúmeros desenlaces...
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa.
Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até dum copo vazio E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E entretanto o tempo fez cinza da brasa E outra maré cheia virá da maré vaza Nasce um novo dia e no braço outra asa Brinda-se aos amores com o vinho da casa E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Mais que a existência É um mistério o existir, o ser, o haver Um ser, uma existência, um existir — Um qualquer que não este por ser este— Este é o problema que perturba mais. O que é existir, não nós ou o mundo— Mas existir em si?
Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está.
Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas frívolas é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível...
Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda. Uma tristeza cheia de pavor esfria-me. Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos. Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas, Não vos ergais nunca! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!
Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?
Ela tendia para a filosofia epicurista, esse leito estreito, mas limpo, sobre o qual estendi, por vezes, o meu pensamento. O mistério dos deuses, que me perseguia, não a inquietava... O nosso entendimento dispensou confissões, explicações ou reticências: bastavam os factos.
Now I'm weaker than the palest blue Oh, so weak in this need for you...
Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!/ Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada! / Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente; Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente... Que bafo horrível e frio me toca os olhos fechados? Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim!
You keep on lyin', you keep on lyin', to me...
Brumas...
É a incerteza que nos fascina. Tudo é maravilhoso entre brumas.
Amanhece entre brumas: absorve, com ansiedade, o ar fresco; olha em frente e não vislumbra nada, só espetros indefinidos...Olha para dentro de si e descobre que se tornou numa manhã fresca de nevoeiro. Experimenta, nesses momentos, uma estranha solidão: é fresca , é feita de nada e da imagem de uma figura imaginária...
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem.(Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora! Valete, Fratres.
Apetece-lhe substituir o sujeito...
Flui, indeciso na bruma,Mais do que a bruma indeciso,Um ser que é coisa a achar E a quem nada é preciso. Quer somente consistir No nada que o cerca ao ser, Um começo de existir Que acabou antes de o ter. É o sentido que existe Na aragem que mal se sente E cuja essência consiste Em passar incertamente.
Ressente, mais uma vez, intocada, dentro de si, a emoção que experimentou sol carnamensis vrumte kaloskaiagatos also andros meta underall. Shana simblas sed timtamtum,timtamtum! Ressente a desilusão de vide du fugo in nebfo evsem...
Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz Não digas nada.
Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro. Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes!
Tem saudades do passado, do presente e do futuro; saudades do que nunca viverá, nem poderia ter vivido...
O que me dói não é / O que há no coração / Mas essas coisas lindas / Que nunca existirão./ São as formas sem forma ...São como se a tristeza / Fosse árvore e, uma a uma,/ Caíssem suas folhas / Entre o vestígio e a bruma.
O que nós não somos – porque nada o é – como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e, através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa...
Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida,Cheio de não ter passado,Até o futuro se olvida.
Tudo está certo depois.Mas a dor que nos desola,A mágoa de um não ser dois —Nada explica nem consola.
Nós não sonhámos. Eras real e eu era real (…) Um pasmo vago de ter havido amar. . . Quase que me embriago de mal poder pensar...O que mudou e onde? O que é que em nós se esconde? Talvez sintas como eu e não saibas senti-lo. . . Ser é ser nosso véu amar é encobri –lo (…) Somos a nossa bruma. . .
Não tenho quinta nenhuma. Se a quero ter pra sonhar, Tenho que a extrair da bruma Do meu mole meditar. E então, desfazendo a névoa Que há sempre dentro de nós, Progressivamente elevo-a Até uma quinta a sós.
Tenho em mim como uma bruma Que nada é nem contém A saudade de coisa nenhuma, O desejo de qualquer bem. Sou envolvido por ela Como por um nevoeiro E vejo luzir a última estrela Por cima da ponta do meu cinzeiro.
Sem cessar, uma folha após a outra se desprende do rolo do tempo, cai, flutua por um momento, depois torna a cair nos joelhos do homem. O homem então diz: "Lembro-me", e inveja o animal que se esquece de imediato e que vê de facto morrer o instante,assim que ele torna a cair na bruma e na noite e se apaga para sempre...
A bruma do tempo da memória, esse passado omniausente ,mas , paradoxalmente, omnipresente, é uma intermitência constante, é a verdadeira condenação...
Restos...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído.
E fugiste... Que importa ? Se deixaste A lembrança violeta que animaste Onde a minha saudade a Cor se trava?.
Resta a ilusão violeta de te ter possuído...
Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Desde o momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. (...) Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante.(...)
Resta dissimular...
A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibilidade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espectáculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.
Resta aceitar...
Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.
Resta a aceitação púrpura de abdicar...
Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...
Resta esperar...
Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
O sem nervos nem ânsia – o papa– açorda, (Seu coração talvez movido a corda...) Apesar de seus berros ao Ideal
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará. Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Resta desistir ...
A resignação é um suicídio quotidiano.
Toda a ternura que eu pudera ter vivido, Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os cenários que entretanto fui... É lá, no grande Espelho de fantasmas Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, Se desmorona o meu presente, E o meu futuro é já poeira...
Restam fantasmas ...
Hoje esqueci-me que às vezes também podes ver Às vezes também sabes ter noção Hoje vens tu ver restos de mim...
Neste infinito fim que nos alcançou Guardo uma lágrima vinda do fundo Guardo um sorriso virado para o mundo Guardo um sonho que nunca chegou...Levo-te a ti... levo-te a ti... levo-te a ti para sempre comigo...
Restos de mim, restos de ti... Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer.
Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido; Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado. Esse nácar em cinzas desatado Foi vistoso pavão de Abril florido; Esse Estio em Vesúvios encendido Foi Zéfiro suave, em doce agrado. Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago, Olha, cego mortal, e considera Que és rosa, Primavera, Sol, baixel, Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
A resignação é um suicídio quotidiano.
Resta o que restar: cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
"Não temos mais decerto que o instante Em que o pensamos certo. Não o pensemos, pois, mas o façamos Certo sem pensamento. "
Resta o instante... Um engano de poucos instantes que seja...
" Naquele engano de alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito..." Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. – E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa) Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, estes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh que amor, que felicidade... que desgraça a minha!
Resta um engano ... Um engano de poucos instantes que seja...
A resignação é um suicídio quotidiano.
Estou perdido. Paro? Não: se paro, estou perdido. Uma mensagem misteriosa... A literatura prepara-nos para todos os enredos, para os inúmeros desenlaces...
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa.
Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até dum copo vazio E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida E entretanto o tempo fez cinza da brasa E outra maré cheia virá da maré vaza Nasce um novo dia e no braço outra asa Brinda-se aos amores com o vinho da casa E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Mais que a existência É um mistério o existir, o ser, o haver Um ser, uma existência, um existir — Um qualquer que não este por ser este— Este é o problema que perturba mais. O que é existir, não nós ou o mundo— Mas existir em si?
Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está.
Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas frívolas é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível...
Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda. Uma tristeza cheia de pavor esfria-me. Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos. Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas, Não vos ergais nunca! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!
Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?
Ela tendia para a filosofia epicurista, esse leito estreito, mas limpo, sobre o qual estendi, por vezes, o meu pensamento. O mistério dos deuses, que me perseguia, não a inquietava... O nosso entendimento dispensou confissões, explicações ou reticências: bastavam os factos.
Now I'm weaker than the palest blue Oh, so weak in this need for you...
Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!/ Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada! / Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente; Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente... Que bafo horrível e frio me toca os olhos fechados? Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim!
You keep on lyin', you keep on lyin', to me...
Brumas...
É a incerteza que nos fascina. Tudo é maravilhoso entre brumas.
Amanhece entre brumas: absorve, com ansiedade, o ar fresco; olha em frente e não vislumbra nada, só espetros indefinidos...Olha para dentro de si e descobre que se tornou numa manhã fresca de nevoeiro. Experimenta, nesses momentos, uma estranha solidão: é fresca , é feita de nada e da imagem de uma figura imaginária...
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem.(Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora! Valete, Fratres.
Apetece-lhe substituir o sujeito...
Flui, indeciso na bruma,Mais do que a bruma indeciso,Um ser que é coisa a achar E a quem nada é preciso. Quer somente consistir No nada que o cerca ao ser, Um começo de existir Que acabou antes de o ter. É o sentido que existe Na aragem que mal se sente E cuja essência consiste Em passar incertamente.
Ressente, mais uma vez, intocada, dentro de si, a emoção que experimentou sol carnamensis vrumte kaloskaiagatos also andros meta underall. Shana simblas sed timtamtum,timtamtum! Ressente a desilusão de vide du fugo in nebfo evsem...
Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz Não digas nada.
Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro. Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes!
Tem saudades do passado, do presente e do futuro; saudades do que nunca viverá, nem poderia ter vivido...
O que me dói não é / O que há no coração / Mas essas coisas lindas / Que nunca existirão./ São as formas sem forma ...São como se a tristeza / Fosse árvore e, uma a uma,/ Caíssem suas folhas / Entre o vestígio e a bruma.
O que nós não somos – porque nada o é – como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e, através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa...
Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida,Cheio de não ter passado,Até o futuro se olvida.
Tudo está certo depois.Mas a dor que nos desola,A mágoa de um não ser dois —Nada explica nem consola.
Nós não sonhámos. Eras real e eu era real (…) Um pasmo vago de ter havido amar. . . Quase que me embriago de mal poder pensar...O que mudou e onde? O que é que em nós se esconde? Talvez sintas como eu e não saibas senti-lo. . . Ser é ser nosso véu amar é encobri –lo (…) Somos a nossa bruma. . .
Não tenho quinta nenhuma. Se a quero ter pra sonhar, Tenho que a extrair da bruma Do meu mole meditar. E então, desfazendo a névoa Que há sempre dentro de nós, Progressivamente elevo-a Até uma quinta a sós.
Tenho em mim como uma bruma Que nada é nem contém A saudade de coisa nenhuma, O desejo de qualquer bem. Sou envolvido por ela Como por um nevoeiro E vejo luzir a última estrela Por cima da ponta do meu cinzeiro.
Sem cessar, uma folha após a outra se desprende do rolo do tempo, cai, flutua por um momento, depois torna a cair nos joelhos do homem. O homem então diz: "Lembro-me", e inveja o animal que se esquece de imediato e que vê de facto morrer o instante,assim que ele torna a cair na bruma e na noite e se apaga para sempre...
A bruma do tempo da memória, esse passado omniausente ,mas , paradoxalmente, omnipresente, é uma intermitência constante, é a verdadeira condenação...
Restos...
Perder é tão inevitável como morrer. Se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo morrerá um dia. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos, sem deixar que a felicidade que vivemos, também desapareça . Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído.
E fugiste... Que importa ? Se deixaste A lembrança violeta que animaste Onde a minha saudade a Cor se trava?.
Resta a ilusão violeta de te ter possuído...
Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Desde o momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. (...) Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante.(...)
Resta dissimular...
A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibilidade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espectáculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.
Resta aceitar...
Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.
Resta a aceitação púrpura de abdicar...
Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...
Resta esperar...
Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
O sem nervos nem ânsia – o papa– açorda, (Seu coração talvez movido a corda...) Apesar de seus berros ao Ideal
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará. Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Resta desistir ...
A resignação é um suicídio quotidiano.
Toda a ternura que eu pudera ter vivido, Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os cenários que entretanto fui... É lá, no grande Espelho de fantasmas Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, Se desmorona o meu presente, E o meu futuro é já poeira...
Restam fantasmas ...
Hoje esqueci-me que às vezes também podes ver Às vezes também sabes ter noção Hoje vens tu ver restos de mim...
Neste infinito fim que nos alcançou Guardo uma lágrima vinda do fundo Guardo um sorriso virado para o mundo Guardo um sonho que nunca chegou...Levo-te a ti... levo-te a ti... levo-te a ti para sempre comigo...
Restos de mim, restos de ti... Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer.
Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido; Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado. Esse nácar em cinzas desatado Foi vistoso pavão de Abril florido; Esse Estio em Vesúvios encendido Foi Zéfiro suave, em doce agrado. Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago, Olha, cego mortal, e considera Que és rosa, Primavera, Sol, baixel, Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
A resignação é um suicídio quotidiano.
Resta o que restar: cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
"Não temos mais decerto que o instante Em que o pensamos certo. Não o pensemos, pois, mas o façamos Certo sem pensamento. "
Resta o instante... Um engano de poucos instantes que seja...
" Naquele engano de alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito..." Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. – E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa) Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, estes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh que amor, que felicidade... que desgraça a minha!
Resta um engano ... Um engano de poucos instantes que seja...
A resignação é um suicídio quotidiano.
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