O mapa
Sempre senti a matemática como uma presença
Física; em relação a ela vejo-me
Como alguém que não consegue
Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado
Apertada nas mangas.
Perdoem-me a imagem: como
Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja
E provocar com a nossa indiferença o desejo
Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um
Mundo onde entro para me sentir excluído;
Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação
Aos números e aos seus cálculos, é um sistema,Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever
Não é mais inteligente que resolver uma equação;
Porque optei por escrever? Não sei. Ou talvez saiba:
Entre a possibilidade de acertar muito, existente
Na matemática, e a possibilidade de errar muito,
Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar
Mais ou menos sem meta) optei instintivamente
Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.
é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer: PAGA!
é evidente que podemos psicanalisar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto a Falha Grande que é
MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir
1 consultório, curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras
e ideias claras,
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário
é evidente, enfim, de novo, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.
É evidente que é sempre melhor não explicar, muito melhor. Basta entender o que não foi explicado...
Os braços
Como viver? Não há outra pergunta séria.
Um velho com o braço direito partido
folheia o jornal com a mão esquerda.
Penso: assim seria mais fácil.
O corpo a decidir por nós.
Olho para mim: os dois braços intactos.
Que fazer?
Janeiro ...mês do frio. Em antítese com dezembro, janeiro é um mês sem datas, sem feriados, sem eventos oficiais obrigatórios...Exceto o dia de reis, pouco representativo, não há "dias de..."
É o único mês que, tal como jano, o deus que lhe dá o nome, tem duas faces: uma virada para o passado, outra para o futuro: ausência de presente... Talvez por isso a outra gente ou recorda o santo natal e os festejos da passagem de ano ou começa a pensar no carnaval...Poucos pensam neste mês, condenado pelos deuses. Inês de Castro foi morta, Camus desapareceu fisicamente neste mês, talvez por isso ele será sempre passado e futuro…
Refúgios 2019
Sobre Maria Gabriela Llansol (1931-2008) disse Eduardo Lourenço que será, depois de Fernando Pessoa, "o próximo grande mito literário da literatura portuguesa": "Nunca será uma autora fácil e consensual. É uma espécie de fenómeno misterioso. Alguém vindo de uma outra espécie de planeta. Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita."
De qualquer modo, a presença da proximidade da morte é um carvão aceso, e eu crio-me sentada à beira da minha origem, situação que se repete em vários períodos do ano, quando eu venho aqui; há um mistério relativo ao meu nascimento que me fecha — esta abertura natural para o paraíso pertence-me? estes móveis e objectos de adorno, transfigurados,consumidas as suas carnes,
prata,
madeiras,
ou cristal,
A escrita como busca de verdade" obriga, então, a um repensar das categorias da narratividade tendente a devolver ao leitor a pureza da língua e a fixar apenas os momentos de revelação da verdadeira vida, porque, segundo a autora, "Numa história, há (ou não há) um momento de desvendamento a que se chama Sublime. Normalmente breve. Como penso que um leitor treinado já conhece todos os enredos, quase só esse momento interessa à escrita. Esse momento, tornado longa sequência sustentadora da vibração explícita, é o nome de escrita. É a face escondida - mas que importa desvendar - das técnicas narrativas já tradicionais." ( p. 48).
Analepse: em 2018, foi mês de reler Jerusalém e de ouvir Alt-j...
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.
I think you better close it and let me guide you into the purple rain purple rain, purple rain I only want to see you, only want to see you in the purple rain
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
Jano - o deus condenado a uma ausência de presente...
Habla un busto de Jano
Sin honrar la memoria del Bifronte,
que las preside. Abarco el horizonte
de inciertos mates y de tierra cierta.
Nadie abriere o cerrare alguna puerta
Mis dos caras divisan el pasado
y el porvenir. Los veo y son iguales
los hierros, las discordias y los males
que Alguien pudo borrar y no ha borrado
ni borrará. Me faltan las dos manos
y soy de piedra inmóvil. No podría
precisar si contemplo una porfía
futura o la de ayeres hoy lejanos.
Veo mi ruina: la columna trunca
y las caras, que no se verán nunca.
Jano, nos portões da eterna presença / Com as duas cabeças pode compreender / O ser que continuamente se torna não-ser / O não-ser que continuamente se torna ser / A sucessiva luta da felicidade com a infelicidade.
Saudade da primeira vez que li...
“São livros pretos, no sentido de uma certa dureza, e de um certo desencanto. Com certos livros tento interferir na existência das pessoas ou pelo menos na forma de se pensar sobre certos acontecimentos. O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se manifesta. Sou um escritor pós-Auschwitz. Tenho consciência do que aconteceu.”
" Não gosto de explicar os meus livros..."
Theodor receava aquilo que mais o excitava: como se veria a si próprio se chegasse ao ponto de perceber o raciocínio ... que está na base de um campo de concentração, do extermínio de milhares de pessoas ...? Receava a sua invulgar capacidade de perceber os loucos. Essa capacidade para entrar nas cabeças estranhas, como alguns colegas diziam. Era dessa empatia com o não normal que poderia nascer algo de inaceitável. " Se chegar a perceber a parte louca da História, se conseguir entrar na cabeça do Horror e com esta conseguir dialogar, o que farei a seguir?”
O som de uma chave na fechadura, alguém abre ligeiramente a porta, muito pouco: ela vê uns olhos a espreitar na sua direcção, com medo, cautelosos. Mylia sente que não suporta mais, sente-se a desmaiar, a mão direita tensa segura na arma. De dentro da igreja os olhos não a largam, mas ainda não abriram a porta. Mylia tem de falar para quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do corpo a voz mais firme:
- " Matei um homem - diz Mylia. - Deixam-me entrar?"
“Inocente face às acusações de que sou alvo”. O seu advogado explicou o posicionamento do seu cliente: “Eichamnn sente-se culpado perante Deus, não perante a Lei”. Hannah Arendt refere que a defesa argumentou que Eichamnn era inocente perante o sistema legal nazi, não tendo cometido nenhum crime, mas sim “actos de Estado”,sobre os quais nenhum outro Estado deveria ter jurisdição, e aos quais era obrigação de Eichmann obedecer. Contudo, a atitude de Eichmann face à acusação foi diferente da esboçada pelo seu advogado, argumentando o réu que «no que concerne à morte dos judeus, eu não tive nada a ver com isso. Eu nunca matei um judeu, ou um não-judeu, eu nunca matei nenhum ser humano. Eu nunca dei ordens para matarem judeus ou não-judeus; eu pura e simplesmente não o fiz”. Mais tarde, Eichmann disse que, no que diz respeito ao extermínio dos judeus, “aconteceu… Eu não o fiz uma única vez”. Hannah Arendt sublinha que o acusado não deixou «nenhuma dúvida que teria assassinado o seu próprio pai caso tivesse recebido uma ordem nesse sentido». Eichmann repetiu vezes sem conta que só poderia ser acusado de ter “auxiliado” no processo de aniquilação dos judeus, classificado por si como “um dos maiores crimes na história da Humanidade”. A acusação tentou provar que Eichmann tinha de facto morto com as suas próprias mãos um rapaz judeu na Hungria, enquanto a defesa ignorou o posicionamento do seu cliente. Arendt continua a sua descrição do julgamento, dizendo que Eichmann foi um cidadão cumpridor da lei, das ordens de Hitler, que tinham “a força da Lei”, as quais ele teria executado com toda a eficiência que lhe era pedida. Escreve Hannah:«Aqueles que hoje dizem a Eichmann que ele poderia ter actuado de forma diferente simplesmente não sabem, ou esqueceram-se, como as coisas funcionavam. Ele não quis ser um dos que agora dizem que „sempre estiveram contra o que se passou‟, quando na realidade eles estavam ansiosos por cumprir aquilo que lhes ordenavam». O que Eichmann fez está feito e ele não o pretendeu negar, propôs até “enforcar-me em público como um aviso para todos os anti-semitas do mundo”. Com isto, acrescenta Hannah Arendt, ele não pretendeu dizer que se arrependia do que fez, aliás afirmou: “O arrependimento é para as crianças”. Durante o relato do julgamento torna-se evidente a sua linha de argumentação: trata-se de um homem banal, trata-se de actos banais, trata-se da banalidade do mal, trata-se de obedecer ao Estado, trata-se de ser humano sem questionar, trata - se de manter um status social.
No decorrer do julgamento, Eichmann deixou claro que uma situação que o incomodava relacionava-se com o facto de o regime alemão ter designado indivíduos para cumprir tarefas na área das políticas de implementação de deportação e emigração dos judeus, “nas quais eu me considero um especialista”, indivíduos esses sem experiência alguma, “eu estava farto disso”. Consequentemente, como bom funcionário do Estado, na luta pela manutenção do seu posto de trabalho, afirmou que “eu decidi que devia fazer algo para que a matéria da emigração ficasse sob minha alçada exclusiva”. Um funcionário do Estado lutando pelo seu posto. A acusação declarou que Eichmann agiu com consciência, acusação que o réu não refutou. Contudo, Eichmann afirmou que não era um degenerado sem coração e, no que concerne à sua consciência, Hannah relata que «ele lembra-se muitíssimo bem que teria má consciência caso não tivesse feito o que lhe mandaram – enviar milhões de homens, mulheres e crianças para a morte com grande zelo e de forma meticulosa». Vários psiquiatras avaliaram-no concluindo que ele era “normal”, tendo um deles dito que ele “é mais normal, em qualquer escala, do que eu após o ter examinado”. Outro psiquiatra concluiu que a sua atitude face à sua família, à sua mãe e pai, irmãos e amigos “era não apenas normal mas bastante adequada”. À luz destas avaliações, Eichmann não poderia ter alegado insanidade mental ou legal,tratava-se de um homem com ideias lúcidas e com um espírito positivo. Além disso, não tinha um ódio particular aos judeus. A justiça viu-se face a um enorme dilema: Eichmann, como todas as “pessoas normais” deveria ter consciência da natureza criminosa dos seus actos. Mas, como o argumenta Hannah Arendt, Eichmann era “normal”, não era “uma excepção no regime nazi”, é que no regime de Hitler apenas as “excepções” poderiam ser consideradas como o “normal” que a justiça pretendia defender. Eichmann era um homem do seu tempo.
Hannah Arendt, que foi acusada de estar «errada em demonstrar interesse pelo tipo de pessoa que foi Eichmann», pela sua abordagem à personalidade de um homem que não foi importante na estrutura política do Terceiro Reich ou no delinear das políticas de Hitler, e que a autora classificou como sendo um ser humano com “falta de imaginação”. Arendt levanta inúmeras questões, aponta caminhos de análise social e política no que diz respeito à essência dos regimes totalitários, à utilização da propaganda e do terror, e à própria natureza do sistema burocrático em que se apoiam, perguntando-se se a sua função é desumanizar os homens. Este julgamento transcende o acusado, remete-nos para a história moderna, para a natureza do homem e dos seus atos,sem esquecer que «sob condições de terror a maioria das pessoas obedece, mas algumas não».
Considera-se, muitas vezes, a obra de um criador como uma sequência de testemunhos isolados. Confunde-se então artista e literato. Um pensamento profundo está em perpétua formação, esgota a experiência de uma vida e nela se modela. Do mesmo modo, a criação única de um homem fortifica-se nos seus rostos sucessivos e múltiplos, que são as obras. Umas completam as outras, corrigem-nas ou alcançam-nas, contradizem-nas também. Se alguma coisa termina a criação, não é o grito vitorioso e ilusório do artista, ofuscado: «Disse tudo», mas a morte do criador que fecha a sua experiência e o livro do seu génio.
Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
É assim o homem, caro senhor, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!
Gosto mais dos homens que tomam um partido do que das literaturas que tomam partido. Coragem na vida e talento nas obras já não é nada mau. E, depois, o escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento. E se isso deve passar a ser uma lei, um ofício ou um terror, onde está então o mérito?(...) Sim, eu desejá-los-ia menos comprometidos nas suas obras e um pouco mais na sua vida de todos os dias.
"Une personnalité littéraire a de vrais ennemis pendant sa vie et presque autant de faux amis après sa mort. " a la recherche d'albert camus, olivier todd, sans gommer ni grossir les qualités ou les défauts de l'homme et de l'écrivain, montre comment l'auteur de l'etranger et de l'homme révolté tenta d'accorder sa vie, son oeuvre et sa morale. Camus fut algérien et algérois, journaliste, essayiste, romancier, dramaturge, metteur en scène, acteur... avec cette biographie, sa personnalité apparaît dans toute sa complexité, grâce à de nombreux inédits dans sa correspondance. Camus était charmeur et ombrageux, sincère et théâtral, plein de doutes et arrogant. il voulait être aimé et y parvint souvent. il cherchait à être compris et n'y parvint pas toujours. il parla trop de bonheur pour être heureux et serein. faut-il pour autant l'imaginer malheureux comme sisyphe ? Camus reste inclassable, solitaire, solidaire, il ne voulait être ni victime ni bourreau. pour lui, la souffrance n'avait pas de frontière. Déchiré par la guerre d'algérie, camus vécut aussi les amères victoires et les fécondes défaites de la justice et de la violence.
I really love you and I mean you...
January come and took my heart away... / Simple man Stan can’t stand up on the beautiful...
Não cuidem que me posso apartar donde
Estou todo, onde vivo, que primeiro
A terra subirá onde os céus andam,
O mar abrasará os céus e terra,
O fogo será frio, o sol escuro,
A Lua dará dia, e todo mundo
Andará ao contrário de sua ordem,
Que eu, ó Castro, te deixe, ou nisso cuide.
Dei-te alma, dei-te fé, guardá-la-ei firme.
Confio isto de ti, não mo descubras.
Vinte e cinco de janeiro - Na " bolha" que me protege da realidade, é dia de refletir sobre a linguagem...
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga...
E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.
Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.
Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.
Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria
"A minha vida tem andado cheia deste pesadelo. Esqueço-me de mim, mas não me esqueço da selva. Dominou-me com o seu mistério e com a sua soberania; não a evoco sem um estremecimento de pavor. […] cá a tenho a romper o optimismo com que procuro cobrir, para o menor sofrimento, o pessimismo e a morbidez que ela me deu." Ferreira de Castro
"Estilo sinuoso e sugestivo, como uma vegetação exuberante de termos estranhos e maravilhosos. Livro inesquecível." Albert Camus
Como podia ser, como podia ser que as vítimas saboreassem também o papel de algoz? De que sórdida matéria era formada a alma de alguns homens, que gozavam em castigar a desgraça alheia, mesmo quando era igual à deles?
ANTÓNIO VIEIRA
O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também..
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Vieira escreve como um homem divinizado.
António Vieira é de facto o maior prosador — direi mais, é o maior artista — da língua portuguesa. É-o por isso porque o foi, e não porque se chamasse António. O comando da lingua-mãe não vem por varonia de nomes próprios.
O bafio o safio a enguia o atum
um para todos todos para um
mas nenhum por todos
e todos por nenhum.
Ai a raiva Ai a raiva
de pescar em jejum.
Amadores da fala das marés
cicatrizes da faina amadizes da gala
duma cauda de renda duma onda de espuma
este mar aprendiz da vossa força
aprende a ser o vosso
ou de coisa nenhuma.
O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclassicismo «científico» [...] reagir contra duas correntes — tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras. [...]
Não é neccessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa...
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
era uma vez uma insónia...
Soñé que yo Soñé que vos Soñé que hablábamos...
Introdução
Cantiga de Amigo
Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe
e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!
o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!
Today you were far away and I didn't ask you why What could I say I was far away You just walked away and I just watched you What could I say How close am I to losing you Tonight you just close your eyes and I just watch you slip away.
Hey, are you awake Yeah I'm right here Well can I ask you about today...
Desperto de sonhar-te Quando inda a noite é funda, E um céu estelar faz parte Do silêncio que inunda. Perdi poder amar-te E a treva me circunda. Talvez que relembrasse, Sonhando-te, outro ser, E aquilo que sonhasse Fosse tornar a ter. Mas despertei, e faz-se Claro em meu quarto a ver.Insónia de perder-te! Quem foste já não sei. Pela janela ver-te Cada astro a sua lei. Como, sem sonhar ter-te?...Porque não dormirei?
Desenvolvimento
Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia fria me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade — àquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.(...) Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela (eu só) a ouvia.(...) A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que eu ia a sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passavam a ter lugar e dor na minha desolação.
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar Álvaro de Campos, E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando, E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo. São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia. Abro a janela directamente, no desespero da insónia. E, de repente, humano, O quadrado com cruz de uma janela iluminada! Fraternidade na noite! Fraternidade involuntária, incógnita, na noite! Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia. Dorme. Nós temos luz. Quem serás?
Ó madrugada, tardas tanto... Vem... Vem, inutilmente, Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, Segundo a velha literatura das sensações. Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. Paz em toda a Natureza. A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. Exactamente. A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. Costuma dizer-se isto. A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. Exactamente. Mas não durmo.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
Conclusão
(caeiro e reis não têm insónias. Prefiro as de campos às de pessoa, mas eu não tenho sonhos por haver: sonhei todos os sonhos que havia para sonhar; as de soares são insuperáveis como seres literários, mas as minhas - no momento em que a realidade e a ficção se interpenetram e eu me metamorfoseio em fautora de inexstências - são insónias de uma riqueza interior inexcedível...Não as sei dizer, como campos ou soares, mas vivencio uma forma superior de sentir...)
Introdução
Cantiga de Amigo
Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
o meu amigo está longe
e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!
o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!
Today you were far away and I didn't ask you why What could I say I was far away You just walked away and I just watched you What could I say How close am I to losing you Tonight you just close your eyes and I just watch you slip away.
Hey, are you awake Yeah I'm right here Well can I ask you about today...
Desperto de sonhar-te Quando inda a noite é funda, E um céu estelar faz parte Do silêncio que inunda. Perdi poder amar-te E a treva me circunda. Talvez que relembrasse, Sonhando-te, outro ser, E aquilo que sonhasse Fosse tornar a ter. Mas despertei, e faz-se Claro em meu quarto a ver.Insónia de perder-te! Quem foste já não sei. Pela janela ver-te Cada astro a sua lei. Como, sem sonhar ter-te?...Porque não dormirei?
Desenvolvimento
Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia fria me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade — àquela hora parecia que também indefinidamente. Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.(...) Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela (eu só) a ouvia.(...) A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que eu ia a sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passavam a ter lugar e dor na minha desolação.
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar Álvaro de Campos, E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando, E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo. São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia. Abro a janela directamente, no desespero da insónia. E, de repente, humano, O quadrado com cruz de uma janela iluminada! Fraternidade na noite! Fraternidade involuntária, incógnita, na noite! Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia. Dorme. Nós temos luz. Quem serás?
Ó madrugada, tardas tanto... Vem... Vem, inutilmente, Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, Segundo a velha literatura das sensações. Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. Paz em toda a Natureza. A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. Exactamente. A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. Costuma dizer-se isto. A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. Exactamente. Mas não durmo.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
Conclusão
(caeiro e reis não têm insónias. Prefiro as de campos às de pessoa, mas eu não tenho sonhos por haver: sonhei todos os sonhos que havia para sonhar; as de soares são insuperáveis como seres literários, mas as minhas - no momento em que a realidade e a ficção se interpenetram e eu me metamorfoseio em fautora de inexstências - são insónias de uma riqueza interior inexcedível...Não as sei dizer, como campos ou soares, mas vivencio uma forma superior de sentir...)
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Misticismos e apostilas...
Serei uma recojida ou uma alumbrada ou um nada ???
O recojido deve esvaziar o entendimento de todas as coisas criadas, do Mundo, e meditar na humanidade de Cristo,passando progressivamente para temas mais abstractos. Esvaziar o entendimento,despojar-se das imagens,contrair e limitar a actividade exterior,em suma, abstrair-se do Mundo num regresso progressivo ao mais funo de si mesmo, para se encontar com Deus no amor.
Os dejados ou alumbrados dispensavam meditação na humanidade de Cristo,no Cristo sofrente, que era considerada atadura ,impedimento para chegar até Deus: o amor de Deus no homem é Deus. Assim, parece que este grupo se aproxima da reforma luterana, embora o movimento alumbrado seja anterior e os seus teorizadores não tiveram acesso às obras de Lutero.
Permissa essencial da doutrina alumbrada:o homem é semelhante a Deus e a presença de Deus no homem é mais perfeita do que a presença de Cristo na Eucaristia,O homem tem de descobrir Deus dentro de si,através da oração mental,uma experiência exterior que está condicionada pela vontade.
A meu ver, precisamente o que é grande no sr. A. Caeiro é o modo como utiliza os métodos da poesia espiritualista e idealista para nos tornar completamente bela a sua poesia materialista. Tivesse o sr. A.C. feito poesia absolutamente materialista, e veria como até o próprio materialismo da sua poesia sofreria. É aos armazéns do misticismo e do espiritualismo que a sua Musa vai buscar com que se engalanar.A.C. é um dos maiores poetas da nossa época e da nossa terra. Só uma incompreensão da magnitude e da originalidade da sua obra, ou uma aversão idiota por ele podem esconder isto a qualquer pessoa competente para ter opiniões críticas.
Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produz se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente.
Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei um amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for. Sou altamente sociável de um modo altamente negativo. Sou a inofensividade encarnada. Mas não sou mais do que isso, não quero ser mais do que isso, não posso ser mais do que isso. Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência - nada no coração. Não tenho fé em nada, esperança de nada, caridade para nada. Abomino com náusea e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos ou, antes e melhor, as sinceridades de todos os sinceros e os misticismos de todos os místicos. Essa náusea é quase física quando esses misticismos são activos, quando pretendem convencer a inteligência alheia, ou mover a vontade alheia, encontrar a verdade ou reformar o mundo.
APOSTILA, redigida pelo engenheiro álvaro de campos, no dia 11 de abril de 1928...
Aproveitar o tempo! Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? Aproveitar o tempo! Nenhum dia sem linha...O trabalho honesto e superior...O trabalho à Virgílio, à Milton...Mas é tão difícil ser honesto ou superior!É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio! Aproveitar o tempo! Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —Para com eles juntar os cubos ajustados Que fazem gravuras certas na história (E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, E os pensamentos em dominó, igual contra igual, E a vontade em carambola difícil. Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos — Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida. Verbalismo... Sim, verbalismo... Aproveitar o tempo! Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça... Não ter um acto indefinido nem factício... Não ter um movimento desconforme com propósitos... Boas maneiras da alma...Elegância de persistir... Aproveitar o tempo! Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. Aproveitar o tempo! Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. Aproveitei-os ou não? Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?! (...) Aproveitar o tempo! Ah, deixem-me não aproveitar nada! Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,O pião do garoto, que vai a parar,E oscila, no mesmo movimento que o da alma, E cai, como caem os deuses, no chão do Destino
Per sidera iuro, per superos et si qua fides tellure sub ima est, invitus, regina, tuo de litore cessi. sed me iussa deum, quae nunc has ire per umbras, per loca senta situ cogunt noctemque profundam, imperiis egere suis; nec credere quivi hunc tantum tibi me discessu ferre dolorem..
If I were a swan
I'd be gone (...)
If I were alone
I would cry
And if I were with you
I'd be home and dry
And if I go insane
Will you still let me join in with the game?
Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz tudo para a esganar. A minha desculpa, se tivesse de comparecer perante um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria...A sua natureza fictícia era a sua grande aliada. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.
Pensar é ainda um dos atos de resistência do ser humano. Não concebo qualquer ato humano sem o pensamento, mas é evidente que este pode se expressar de muitas formas. Na antiguidade clássica, a filosofia e a poesia estiveram juntas, eram a mesma coisa, mais tarde se separaram. Juntar as duas de novo é voltar às raízes, não é ser vanguardista.
Acredito na existência de duas vidas. Não essas de fila indiana, ou de somatório de sobrevivências como as do gato ou do herói. Acredito, sim, que existe a vida por fora, uma, e a vida por dentro, duas. E o único corpo humano vive, assim, duas vezes ao mesmo tempo. Nas acções que faz em tudo que ocorre um milímetro acima da pele; e no que pensa, imagina e sonha, um milímetro abaixo da pele. A pele é a fronteira entre as duas vidas que temos poderia então dizer-se se gostássemos de dizer as frases assim, como que concluindo. Mas não gostamos....
Falar de gerações exige, então, o breve esclarecimento: trata-se da geração que partilha e acompanha a minha vida de fora ou a minha vida de dentro? É que tendo duas vidas tenho assim também duas possibilidades de me ligar a outras pessoas humanas, supondo aqui que o termo de geração se refere exclusivamente aos bípedes com biblioteca e tecnologia, e não alude aos animais com os seus excrementos ou às plantas insensatas e verdes. Se o cão da vizinha não faz parte da minha geração e a vizinha sim, pois bem, eis um problema que também poderia ser pensado.
Mas o que quero dizer é isto: há pessoas [fiquemos nelas] que pertencem à minha geração, considerando a vida de fora, e pessoas – outras pessoas – que pertencem à minha geração, considerando a vida de dentro. Os meus contemporâneos da vida que existe um milímetro acima da pele são aqueles, então, com quem posso partilhar acções; no limite: o meu contemporâneo desta vida 1, é aquele que eu posso assassinar, com um tiro bem colocado, ou amar – fisicamente falando [com um coração bem colocado, como diriam os românticos para manter a simetria da frase, ou com a pele viril e erecta como diriam os de gosto mais simples]. Os meus contemporâneos da vida de dentro, esses, são aqueles cujas ideias ou imaginações se aproximam das minhas ideias ou imaginações. Estes contemporâneos da minha vida 2 podem não ser contemporâneos da minha vida 1 e, neste caso, eu não os posso matar, nem despir ou abraçar – fisicamente falando, sempre. Nesta vida 2, nesta vida de dentro, nesta vida da cabeça interior, Séneca, nascido há dois mil anos, é meu contemporâneo porque as suas cartas também foram escritas para mim, e Aristófanes, Sófocles e Beckett, para falarmos de teatro, são também meus contemporâneos, e ainda Musil com a sua peça Os visionários: meu contemporâneo.
O que quero, então, dizer é isto: quando se fala em gerações de dramaturgos, ou de poetas, ou de romancistas, deverá primeiro pensar-se na geração que é contemporânea na vida 2, na vida de dentro: isto é: os autores que influenciaram a nossa literatura. Claro que os outros contemporâneos, aqueles que conosco podem trocar um olhar breve na rua [podendo ou não ser escritores], esses também são importantes para o que escrevemos. Mas isso já se sabia. Em síntese: pela matemática o sabemos há muito: 2 é melhor que 1, e 3 é melhor do que 2. E quem só pertence a uma geração merece só pertencer a uma geração.
As minhas paixões não podiam morrer, porque eram imensas, e o que é imenso é eterno.
E, hoje, pensando no que tem sido a minha vida, sinto-me qualquer bicho vivo, transportado num cesto de encurvar o braço, entre duas estações suburbanas. A imagem é estúpida, porém a vida que defini é mais estúpida ainda do que ela. Esses cestos costumam ter duas tampas, como meias ovais, que se levantam um pouco em um ou outro dos extremos curvos se o bicho estrebucha. Mas o braço de quem transporta, apoiado um pouco ao longo dos dobramentos centrais, não deixa coisa tão débil erguer frustemente mais do que as extremidades inúteis, como asas de borboleta que enfraquece.
Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua consistência indefinida.
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Tudo que faço ou medito Fica sempre na metade.Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade.Que nojo de mim me fica Ao olhar para o que faço! Minha alma é lúcida e rica, E eu sou um mar de sargaço — Um mar onde bóiam lentos Fragmentos de um mar de além... Vontades ou pensamentos? Não o sei e sei-o bem.
Quer que o nada se alimente de nada, não quer que a sua teia afetiva seja enredada pelo medo; quer experimentar todos os sentimentos na sua forma pura: o nada nada; o nada que sonha poder ser tudo; a obsessão; a revolta; o medo. Gosta de poder saborear cada um de per si, sentir-lhes os contornos, os cheiros, possui-los, com a mesma intensidade com que cada um deles o possui.
Medo de um abismo que o atrai perigosamente: não medo de cair, pois, se tal acontecesse, ficaria reduzido ao nada a que estava habituado; é medo do medo; medo de o medo dominar o caos afetivo em que se movimenta; medo de o medo assumir as funções de manipulador da sua vida, do seu nada.
Tornou-se, simultaneamente, ponto de chegada e ponto de partida de emoções que, não existindo, existem. Ele, tão habituado a sentir o nada, não sabia o que fazer, perdido em encruzilhadas que nunca aprendeu a enfrentar. Intui, todavia, que um dos caminhos termina num abismo e, nesse momento, pela primeira vez, sente medo, muito medo.
Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.
Criar dentro de mim um estado com uma política, com partidos e revoluções, e ser eu isso tudo, ser eu Deus no panteísmo real desse povo-eu, essência e acção dos seus corpos, das suas almas, da terra que pisam e dos actos que fazem. Ser tudo, ser eles e não eles. Ai de mim! Este ainda é um dos sonhos que não logro realizar. Se o realizasse morreria talvez, não sei por que, mas não se deve poder viver depois disso, tamanho o sacrilégio cometido contra Deus, tamanha usurpação do poder divino de ser tudo.
Na minha alma ignóbil e profunda registo, dia-a-dia, as impressões que formam a substância externa da minha consciência de mim. Ponho-as em palavras vadias, que me desertam desde que as escrevo, e erram, independentes de mim, por encostas e relvados de imagens, por áleas de conceitos, por azinhagas de confusões. Isto de nada me serve, pois nada me serve de nada. Mas desapoquento-me escrevendo, como quem respira melhor sem que a doença haja passado.Há quem, estando distraído, escreva riscos e nomes absurdos no mata-borrão de cantos entalados. Estas páginas são os rabiscos da minha inconsciência intelectual de mim. Traço-as numa modorra de me sentir, como um gato ao sol, e releio-as, por vezes, com um vago pasmo tardio, como o de me haver lembrado de uma coisa que sempre esquecera.Quando escrevo, visito-me solenemente. Tenho salas especiais, recordadas por outrem em interstícios da figuração, onde me deleito analisando o que não sinto, e me examino como a um quadro na sombra.Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo. Foram vendidas, antes que eu fosse, as tapeçarias [d]o meu palácio ancestral. O meu solar de antes da vida caiu em ruína, e só em certos momentos, quando o luar nasce em mim de sobre os juncos do rio, me esfria a saudade dos lados de onde o resto desdentado das paredes se recorta negro contra o céu de azul-escuro-esbranquiçado a amarelo de leite.Distingo-me a esfinges. E do regaço da rainha que me falta cai, como um episódio do bordado inútil, o novelo esquecido da minha alma. Rola para debaixo do contador com embutidos, e há aquilo em mim que o segue como olhos até que se perde num grande horror de túmulo e de fim.
Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso.Pulverização da personalidade: não sei quais são as minhas ideias, nem os meus sentimentos nem o meu carácter... Só sinto uma coisa, enquanto a sinto na pessoa visualizada de uma qualquer criatura que aparece em mim. Substitui os meus sonhos a mim-próprio. Cada pessoa é apenas o seu sonho de si-próprio.Eu nem isso sou.
domingo, 27 de setembro de 2015
Estados de espírito...
Fúria nas trevas o vento Num grande som de alongar Não há no meu pensamento Senão não poder parar Parece que a alma tem Treva onde sopre a crescer Uma loucura que vem De querer compreender. Raiva nas trevas o vento Sem se poder libertar. Estou preso ao meu pensamento Como o vento preso ao ar.
Raiva- Uma palavra feia, desagradável, até inestética porque vulgar. É uma palavra que todos usam.
Raiva -Um sentimento feio, desagradável, até inestético porque vulgar. É um sentimento que todos experimentam
Comparem-se a serenidade, a firmeza, a segurança do meu artigo — fruto da consciência que tinha de que escrevia com justiça e justeza, de que tratava do que sabia e sabia como dele tratar — com a saraivada de insultos, de destrambelhamentos e de dislates com que os meus opositores, quasi todos, inauguraram nas suas próprias cabeças a estação das chuvas. Compare-se o humorismo duramente irónico — justamente irónico — do meu artigo com a raiva insultuosa dos meus contraditores, que deixaram ferver a água do espírito que não têm até ela toda se derramar no chão.
Sempre que revisito pessoa, conforta-me a ideia de que, pelo menos na incoerência, somos similares...
Agora Todas as manhãs me levanto Tonto ...
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas)...
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida...
Que tenho sofrido enxovalhos e calado/ Que, quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!/ Que amigos que tenho tido! /Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Ah...A banalidade devorante das caras de toda a gente!/Ah, a angústia insuportável de gente!/O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,(...)/Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa./Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,/Sempre, sempre, sempre,/Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,/Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço. Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Renego. Renego tudo. Renego mais do que tudo. Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue? Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? Não: vou existir. Arre! Vou existir. E-xis-tir... E-xis--tir ... Dêem-me de beber, que não tenho sede!?
Estala, coração de vidro pintado!
Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que..., Isto Estala, coração de vidro pintado! Será que as pregas na alma fazem rugas? Receio que, se forem muito fundas, subam, proliferem e invadam o exterior, como um pedido de socorro, como um grito de alerta...
Só depois de amanhã Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã Sim, talvez só depois de amanhã
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Depois que todos foram E foi também o dia,Ficaram entre as sombras Das áleas do ermo parque Eu e a minha agonia. A festa fora alheia E depois que acabou Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Quem eu fui e quem sou. Tudo fora por todos. Brincaram, mas enfim Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Só eu, e eu sem mim. Talvez que no parque antigo A festa volte a ser. Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Eu e quem sei não ser.
Quero mandar ao meu Bebé muitos e muitos parabéns, muitos beijinhos, e desejar que ela seja muito e muito feliz, que muitas vezes o aniversário se repita com o Bebé sempre contente.
O engraçado era que no ano que vem eu já te pudesse dar estes parabéns de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha?
Muitos beijos, muitíssimos do teu, muito teu
Fernando
1920
Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
Como ciumento sofro quatro vezes: por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar.
Awakes to a morning with no reason for waking He's haunted by the memory of a lost paradise...
Achei curioso o exemplo escolhido pelo dicionário para exclusão : Praticar exclusões é algo que faz com que as pessoas excluídas sofram. A exclusão provoca, portanto, dor: uma dor que magoa tão fundo que não tem manifestações exteriores, até porque existe uma espécie de vergonha em assumir que se foi excluído...
A verdadeira dor provoca desânimo, desalento, incapacidade de reagir, é silenciosa, incomunicável... Tão silenciosa como as manifestações de absurdo... O absurdo perfeito tenta ser mudo, mas o silêncio possui uma das linguagens mais ensurdecedoras quando se trata de rejeição e de indiferença perante outrem....
Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.
Há certos dias em que a gente sente falta de um pouco de álcool, de um pouco de calor humano, de companhia. Devo ser um sentimental. Ninguém diria isso ao ver-me, mas as protuberâncias dos meus músculos são as aparências ilusórias debaixo das quais disfarço o meu coração de Gata Borralheira.
Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contacto com as coisas — levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro, por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.
Bebé:
Obtida a devida autorização do snr. eng. Álvaro de Campos, mando-lhe o poema que escrevi entre as estações de Casa Branca e Barreiro A, terminando a inspiração, entretanto, na Moita. Este poema deve ser lido de noite e num quarto sem luz. Também, devidamente aproveitado, serve para fazer papelotes para as bonecas de trapo, para tapar as fechaduras contra o frio, os olhares e as chaves, e para tirar medidas para sapatos a pés que não tenham mais comprimento que o papel. Creio que estão feitas todas as recomendações para o uso. Não é preciso agitar antes de usar.
Até logo.
Ibis
É com um " Até logo" e o estranho poema "pial"que Pessoa se despede, definitivamente, de Ofélia. Um adeus original... uma vingança cruel de Álvaro de Campos... Qual a razão do desamor do poeta? Afigura-se evidente: Ofélia queria casar, ter filhos e detestava Álvaro de Campos... A jovem, apesar de inteligente e, em certa medida , emancipada para a época, era, afinal, uma burguesinha, que Fernando Pessoa chegou a aceitar, mas que Álvaro de Campos desprezava profundamente. Ela não percebeu que não bastava gostar do Fernando- ele era mais, infinitamente mais...
Muito mais me importa o teu sofrimento(…) E alguém assim falará, ao ver as tuas lágrimas: Esta é a mulher de Heitor, que dos Troianos domadores de cavalos era o melhor guerreiro, quando se combatia em torno de Ílion. Assim falará alguém. E a ti sobrevirá outra vez uma dor renovada, pela falta que te fará um marido como eu para afastar a escravatura. Mas que a terra amontoada em cima do meu cadáver me esconda antes que oiça os teus gritos quando te arrastarem para o cativeiro.
Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem eu nem tu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse( talvez eu), e talvez então tu,eu, esta impressão de estranhidão,de que tudo perdeu de súbito existência e dimensão,e peso, e se ausentou,seja um sonho suspenso que sonhou alguém que despertou e paira agora como uma luz algures do lado de fora
Una soledad adentro y otra soledad afuera. Hay momentos en que ambas soledades no pueden tocarse....
And when you fell you're near the end And there's a stranger where once was a friend And you are left without a word Only the whispers that you've overheard
Chegámos ao fim da canção...E páro um pouco pra dormir É tarde pra voltarmos atrás Já nem há motivo algum para rir...Adeus tristeza, até depois Chamo-te triste por sentir que entre os dois Não há mais nada pra fazer ou conversar Chegou a hora de acabar...
Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye...
What were all those dreams we shared Those many years ago?(...) My dear The end Comes near...
Os que nunca atravessaram o trópico da dor quase nunca são capazes de entender: o facto de alguém estar morto pode querer dizer que não está vivo, mas não quer dizer que não exista. There's a time to leave, there's a time to think about...
Help me see myself,cause I can no longer tell...
Construí com loucura uma grande casa branca E ao longo das paredes te chorei
This is the end, beautiful friend,this is the end, my only friend, the end. It hurts to set you free,but you'll never follow me. The end of laughter and soft lies...
A diferença entre a vida e a morte é uma notícia no jornal e um telefonema. Trim, trim... toca o telefone e uma voz, regra geral familiar, diz, com tom compungido: "fulano morreu, o funeral é hoje, às tantas... Queres que passe por aí?" . É menos um amigo... ( Malhas que o império tece...)
Morreu o historiador de arte Jorge Estrela
Jorge Estrela, historiador de arte e pintor, morreu ontem, dia 1, na Clinigrande, na Marinha Grande, onde se encontrava internado. Tinha 70 anos e era diretor da Casa Museu João Soares, nas Cortes.Homem de vasta cultura, paralelamente à história de arte, dedicava-se à história da paisagem, à botânica e à micologia, tendo sido fundador da Sociedade Portuguesa de Micologia.
Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.
Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Agora Todas as manhãs me levanto Tonto ...(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas)...Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida... Que tenho sofrido enxovalhos e calado/ Que, quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!/ Que amigos que tenho tido! /Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos! Ah...A banalidade devorante das caras de toda a gente!/Ah, a angústia insuportável de gente!/O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,(...)/Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa./Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,/Sempre, sempre, sempre,/Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,/Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
Raiva- Uma palavra feia, desagradável, até inestética porque vulgar. É uma palavra que todos usam.
Raiva -Um sentimento feio, desagradável, até inestético porque vulgar. É um sentimento que todos experimentam
Comparem-se a serenidade, a firmeza, a segurança do meu artigo — fruto da consciência que tinha de que escrevia com justiça e justeza, de que tratava do que sabia e sabia como dele tratar — com a saraivada de insultos, de destrambelhamentos e de dislates com que os meus opositores, quasi todos, inauguraram nas suas próprias cabeças a estação das chuvas. Compare-se o humorismo duramente irónico — justamente irónico — do meu artigo com a raiva insultuosa dos meus contraditores, que deixaram ferver a água do espírito que não têm até ela toda se derramar no chão.
Sempre que revisito pessoa, conforta-me a ideia de que, pelo menos na incoerência, somos similares...
Agora Todas as manhãs me levanto Tonto ...
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas)...
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida...
Que tenho sofrido enxovalhos e calado/ Que, quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!/ Que amigos que tenho tido! /Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Ah...A banalidade devorante das caras de toda a gente!/Ah, a angústia insuportável de gente!/O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,(...)/Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa./Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,/Sempre, sempre, sempre,/Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,/Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço. Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Renego. Renego tudo. Renego mais do que tudo. Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue? Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? Não: vou existir. Arre! Vou existir. E-xis-tir... E-xis--tir ... Dêem-me de beber, que não tenho sede!?
Estala, coração de vidro pintado!
Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que..., Isto Estala, coração de vidro pintado! Será que as pregas na alma fazem rugas? Receio que, se forem muito fundas, subam, proliferem e invadam o exterior, como um pedido de socorro, como um grito de alerta...
Só depois de amanhã Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã Sim, talvez só depois de amanhã
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Depois que todos foram E foi também o dia,Ficaram entre as sombras Das áleas do ermo parque Eu e a minha agonia. A festa fora alheia E depois que acabou Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Quem eu fui e quem sou. Tudo fora por todos. Brincaram, mas enfim Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Só eu, e eu sem mim. Talvez que no parque antigo A festa volte a ser. Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Eu e quem sei não ser.
Quero mandar ao meu Bebé muitos e muitos parabéns, muitos beijinhos, e desejar que ela seja muito e muito feliz, que muitas vezes o aniversário se repita com o Bebé sempre contente.
O engraçado era que no ano que vem eu já te pudesse dar estes parabéns de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha?
Muitos beijos, muitíssimos do teu, muito teu
Fernando
1920
Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
Como ciumento sofro quatro vezes: por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar.
Awakes to a morning with no reason for waking He's haunted by the memory of a lost paradise...
Achei curioso o exemplo escolhido pelo dicionário para exclusão : Praticar exclusões é algo que faz com que as pessoas excluídas sofram. A exclusão provoca, portanto, dor: uma dor que magoa tão fundo que não tem manifestações exteriores, até porque existe uma espécie de vergonha em assumir que se foi excluído...
A verdadeira dor provoca desânimo, desalento, incapacidade de reagir, é silenciosa, incomunicável... Tão silenciosa como as manifestações de absurdo... O absurdo perfeito tenta ser mudo, mas o silêncio possui uma das linguagens mais ensurdecedoras quando se trata de rejeição e de indiferença perante outrem....
Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.
Há certos dias em que a gente sente falta de um pouco de álcool, de um pouco de calor humano, de companhia. Devo ser um sentimental. Ninguém diria isso ao ver-me, mas as protuberâncias dos meus músculos são as aparências ilusórias debaixo das quais disfarço o meu coração de Gata Borralheira.
Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contacto com as coisas — levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro, por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.
Bebé:
Obtida a devida autorização do snr. eng. Álvaro de Campos, mando-lhe o poema que escrevi entre as estações de Casa Branca e Barreiro A, terminando a inspiração, entretanto, na Moita. Este poema deve ser lido de noite e num quarto sem luz. Também, devidamente aproveitado, serve para fazer papelotes para as bonecas de trapo, para tapar as fechaduras contra o frio, os olhares e as chaves, e para tirar medidas para sapatos a pés que não tenham mais comprimento que o papel. Creio que estão feitas todas as recomendações para o uso. Não é preciso agitar antes de usar.
Até logo.
Ibis
É com um " Até logo" e o estranho poema "pial"que Pessoa se despede, definitivamente, de Ofélia. Um adeus original... uma vingança cruel de Álvaro de Campos... Qual a razão do desamor do poeta? Afigura-se evidente: Ofélia queria casar, ter filhos e detestava Álvaro de Campos... A jovem, apesar de inteligente e, em certa medida , emancipada para a época, era, afinal, uma burguesinha, que Fernando Pessoa chegou a aceitar, mas que Álvaro de Campos desprezava profundamente. Ela não percebeu que não bastava gostar do Fernando- ele era mais, infinitamente mais...
Muito mais me importa o teu sofrimento(…) E alguém assim falará, ao ver as tuas lágrimas: Esta é a mulher de Heitor, que dos Troianos domadores de cavalos era o melhor guerreiro, quando se combatia em torno de Ílion. Assim falará alguém. E a ti sobrevirá outra vez uma dor renovada, pela falta que te fará um marido como eu para afastar a escravatura. Mas que a terra amontoada em cima do meu cadáver me esconda antes que oiça os teus gritos quando te arrastarem para o cativeiro.
Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem eu nem tu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse( talvez eu), e talvez então tu,eu, esta impressão de estranhidão,de que tudo perdeu de súbito existência e dimensão,e peso, e se ausentou,seja um sonho suspenso que sonhou alguém que despertou e paira agora como uma luz algures do lado de fora
Una soledad adentro y otra soledad afuera. Hay momentos en que ambas soledades no pueden tocarse....
And when you fell you're near the end And there's a stranger where once was a friend And you are left without a word Only the whispers that you've overheard
Chegámos ao fim da canção...E páro um pouco pra dormir É tarde pra voltarmos atrás Já nem há motivo algum para rir...Adeus tristeza, até depois Chamo-te triste por sentir que entre os dois Não há mais nada pra fazer ou conversar Chegou a hora de acabar...
Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye...
What were all those dreams we shared Those many years ago?(...) My dear The end Comes near...
Os que nunca atravessaram o trópico da dor quase nunca são capazes de entender: o facto de alguém estar morto pode querer dizer que não está vivo, mas não quer dizer que não exista. There's a time to leave, there's a time to think about...
Help me see myself,cause I can no longer tell...
Construí com loucura uma grande casa branca E ao longo das paredes te chorei
This is the end, beautiful friend,this is the end, my only friend, the end. It hurts to set you free,but you'll never follow me. The end of laughter and soft lies...
A diferença entre a vida e a morte é uma notícia no jornal e um telefonema. Trim, trim... toca o telefone e uma voz, regra geral familiar, diz, com tom compungido: "fulano morreu, o funeral é hoje, às tantas... Queres que passe por aí?" . É menos um amigo... ( Malhas que o império tece...)
Morreu o historiador de arte Jorge Estrela
Jorge Estrela, historiador de arte e pintor, morreu ontem, dia 1, na Clinigrande, na Marinha Grande, onde se encontrava internado. Tinha 70 anos e era diretor da Casa Museu João Soares, nas Cortes.Homem de vasta cultura, paralelamente à história de arte, dedicava-se à história da paisagem, à botânica e à micologia, tendo sido fundador da Sociedade Portuguesa de Micologia.
Há na verdade esforços e convicções que nunca compreendi...a frivolidade da própria seriedade se me patenteava e eu continuava apenas a representar o meu papel o melhor que podia.
Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Agora Todas as manhãs me levanto Tonto ...(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas)...Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida... Que tenho sofrido enxovalhos e calado/ Que, quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!/ Que amigos que tenho tido! /Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos! Ah...A banalidade devorante das caras de toda a gente!/Ah, a angústia insuportável de gente!/O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,(...)/Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa./Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,/Sempre, sempre, sempre,/Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,/Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
sexta-feira, 20 de março de 2015
Eclipse e companhia...
There is no dark side of the moon really. Matter of fact it's all dark.
Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou de mais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.
Tehamisau du, shanaofmbio, m amlo alltust so m voquewa du mit m lospfa...
O que tenho para te dar? Uma gramática de sentimentos, verbos sem o complemento de uma vida, os substantivos mais pobres de um vocabulário íntimo — o amor, o desejo, a ausência. Que frase construiremos com tão pouco?
'Screvo meu livro à beira-mágoa. Meu coração não tem que ter. Tenho os meus olhos quentes de água. Só tu... me dás viver. Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura... Pouco escrevi, pouco li, mas senti e pensei...
A felicidade é, provavelmente, uma infelicidade que se suporta melhor.
A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz...
Não foi quando descobriu a América, mas sim quando estava a descobri-la, que Colombo se sentiu feliz...
Todos os dias decidia partir, e todos os dias, cada vez mais imerso no abandono, o seu desejo de felicidade o ia deixando ficar..
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade.(...) Não há sol sem sombras e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.
Há anos e anos que pensa neste texto, deparando-se sempre com a mesma questão inevitável,incómoda, irrespondível: o que é a felicidade?
Recordou, certamente a despropósito, o romance de camilo. Como leu há muito tempo, já não tem certezas, só a vaga ideia de que a resposta , obviamente metafórica, seria que a felicidade está debaixo de uma tábua...
O que tem este romance de camilo a ver com O Mito de Sísifo?
Talvez nada..
Irritava-a, porém, ter esse monstro brutal girando a seu redor! ouvir gravetos a quebrarem-se e sentir cascos encravados nas profundezas daquela floresta atravancada de folhas, a alma; nunca estar contente plenamente, ou plenamente segura, pois a qualquer instante o bruto se agitaria, esse ódio, o qual, sobretudo desde a doença, tinha o poder de fazê-la se sentir esmagada, ferida na espinha dorsal; causava-lhe dor física, e todo o prazer na beleza, na amizade, em sentir -se bem, em ser amada e fazer da casa um refúgio aprazível se abalava, estremecia e vergava -se como se houvesse mesmo um monstro cavando nas raízes, como se toda a panóplia do contentamento não passasse de egoísmo!
O que é este terror? O que é este êxtase? pensou consigo mesmo. O que é isso que me enche de uma emoção extraordinária? É Clarissa, disse ele.Pois ali estava ela.
Não importa o que é a realidade. Hoje é dia do eclipse e da felicidade, já começou a primavera e ela está desconstruída...
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