A beleza é uma forma de aretê...
" Todos os obituários recordaram a beleza de Brigitte Bardot e as suas opiniões. É incontestável que foi uma das mulheres mais desejáveis e desejadas do último século, a mais deslumbrante e contemporânea, e que, tendo abandonado cedo o cinema, à Greta Garbo, não envelheceu no ecrã, embora não tenha escolhido, ao contrário da actriz sueca, a invisibilidade, continuando a ter uma vida amorosa movimentada e opiniões fortes. A imprensa francesa, sobretudo à esquerda, referiu-se a um lado A e a um lado B de B.B., mas é uma falsa questão.
Um poeta português de que gosto muito tem uma breve meditação sobre Dante que pergunta quem é que tinha razão, os guelfos ou os gibelinos, ou seja, os partidos que se enfrentavam na Itália dessa época. Quem tinha razão? Não importa. “Razão tinha Dante”.
As convicções de Brigitte não eram suaves (defensora feroz dos direitos dos animais, com a idade aproximou-se de posições anti-islâmicas, crítica da “decadência francesa”, cínica quanto ao feminismo e ao que julgava as hipocrisias do movimento MeToo, etc.). Mas não é isso que fez História.
Brigitte Bardot apareceu como um símbolo vivo da liberdade, incluindo a liberdade sexual. Via-se-lhe no rosto, no riso, na alegria, na altivez, nos movimentos, elegantes como os da bailarina que tinha sido, desconcertantes como os da adolescente que ainda era quando se revelou ao público. Por ocasião da morte de Alain Delon (e eles foram os dois franceses mais belos do pós-guerra), B.B. lamentou que já não houvesse actores nem homens assim. Em todas as entrevistas mostrava-se idiossincrática, reactiva, incomodativa. Porque se Brigitte surgiu, nos anos 50, quando era modelo, como uma daquelas starlettes de Cannes, esbracejando de biquíni em frente à imprensa, houve logo alguém, Roger Vadim, que percebeu que ela não tinha nada a ver com as outras jovenzinhas a fazer autopromoção.
Quando a convidou para protagonista de “E Deus… Criou a Mulher”, um filme bastante banal, Vadim foi o deus de Bardot, porque inventou através dela o que ela já era de facto: a nova mulher. Uma mulher dos Trinta Gloriosos, confiante, gloriosa, e muito melhor como actriz do que alguns julgavam (tal como em Delon, estejam atentos aos olhos e à boca, que fazem quase todo o trabalho). Aquela espécie de dança dos véus com a roupa pendurada no estendal não é a apresentação de uma nova estrela, mas de um novo mundo. O mundo das mulheres dos pós-guerra, autónomas, autodeterminadas, emancipadas, quer fossem progressistas, quer não fossem, caso de Brigitte, filha de burgueses conservadores e católicos.
Quando B.B. fez 80 anos, escrevi uma crónica sobre “E Deus… Criou a Mulher”, ainda hoje um filme, não tanto erótico, mas poderosamente físico, coreográfico, afirmativo do corpo e da vontade, naquele lugar luminoso, Saint-Tropez, onde ela se viria a instalar até à morte. Dizia no texto que se era assim que o víamos tantas décadas depois, nem imagino como seria na altura. Um amável leitor, de alguma idade, que viu o filme quando se estreou, mandou-me uma mensagem garantindo “é que não imagina mesmo”: Brigitte assim ao natural, audaz, mas ao jeito esconde-esconde, constituiu para as plateias ocidentais o encontro com um outro tipo de mulher, não apenas a mulher sexual, mas a mulher da igualdade sexual, ainda que fosse esteticamente muito desigual às outras.
Uma das marcas da beleza de B.B. é ser alguém de corpo inteiro, não uma soma anatómica, mas toda uma presença. E não há nada que o cinema mais ame do que uma presença, seja B.B. ou John Wayne. Era uma pessoa concreta e ao mesmo tempo um arquétipo, uma girl next door de alguém com bons vizinhos e uma Vénus nascida de uma concha sem tapar os seios. E uma Joana d’Arc ou Marianne, o que evidentemente se prestava e prestou a entusiasmos nacionalistas. "
Pedro Mexia
Sempre me senti uma abelha na chuva...
A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.
Quem é a “abelha na chuva”? O que é que significa o título do romance?
Numa primeira leitura, parece que a “abelha na chuva” , tal como o Dr. Neto a vê, é Clara. Mas será que não são “abelhas na chuva” todas as personagens. Não seremos todos nós, afinal, “abelhas na chuva”?
Como justificar, então, o singular? Trata-se de indicar uma lei geral: neste livro cada leitor é uma «abelha na chuva» ? É possível, mas também se pode considerar uma personagem: D. Maria dos Prazeres , Álvaro Silvestre, Clara ou Jacinto?